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terça-feira

INOCÊNCIA


INOCÊNCIA (Inocência, 1983, Embrafilme/Luis Carlos Barreto Produções Cinematográficas, 118min) Direção: Walter Lima Jr.. Roteiro: Walter Lima Jr., adaptação de Lima Barreto, romance de Visconde de Taunay. Fotografia: Pedro Farkas. Montagem: Raimundo Higino. Música: Wagner Tiso. Figurino: Diana Eichbauer. Direção de arte/cenários: Carlos Liuzzi. Produção: Lucy Barreto, Luiz Carlos Barreto. Elenco: Fernanda Torres, Edson Celulari, Sebastião Vasconcellos, Ricardo Zambelli, Fernando Torres, Rainer Rudolph, Chico Diaz, Chica Xavier, Jorge Fino. Estreia: 23/6/83

Publicado em 1872 como parte do Regionalismo brasileiro - uma escola literária posterior ao Romantismo e anterior ao Naturalismo -, o romance "Inocência" interessou ao cinema nacional desde o começo do século XX, com uma versão muda (dirigida pelo ítalo-brasileiro Vittorio Capellaro). Em 1949 ganhou uma nova adaptação, sob a direção de Luiz e Fernando de Barros (estrelada por Maria Della Costa e Sadi Cabral), mas foi somente em 1983 que o livro, escrito pelo Visconde de Taunay, parece ter encontrado sua forma cinematográfica definitiva. Com o lirismo do diretor Walter Lima Jr. a serviço de uma história de amor trágica e delicada, uma bela trilha sonora de Wagner Tiso e a escolha certeira de Fernanda Torres para o papel-título (em sua estreia no cinema), "Inocência" acabou por tornar-se uma das produções nacionais mais elogiadas dos anos 1980, saindo do Festival de Brasília com dois prêmios (direção e ator coadjuvante) e conquistando fãs por seu capricho técnico e artístico. Com base em uma adaptação feita pelo cineasta Lima Barreto, o roteiro de Lima Jr. encontra na fidelidade à obra original o caminho para o coração do espectador.

Em uma estrada do interior do Mato Grosso do século XIX, o jovem médico Cirino (Edson Celulari) se encontra com o fazendeiro Martinho Pereira (Sebastião Vasconcelos) e se oferece para, com seus conhecimentos profissionais, tratar da malária da filha do novo amigo. Inocência (Fernanda Torres) está há dias enferma, e assim que começa a melhorar - graças ao tratamento do desconhecido - chama a atenção do visitante, encantado por sua beleza e pela pureza de seus modos. Educada com rigidez pelo pai e prometida em casamento a Manecão (Ricardo Zambelli), amigo da família, Inocência é tida como uma princesa presa em uma redoma, a única mulher (além da empregada da casa) em um universo masculino e patriarcal, onde honra manchada se lava com sangue e as regras são todas ditadas pelos homens. O amor nascente entre ela e Cirino, portanto, surge como um potencial desafio ao status quo - já abalado por outra presença masculina, a do zoólogo alemão Meyer (Rainer Rudolph), deslumbrado pela adolescente.


 

Considerado um marco do Regionalismo, o livro de Taunay retrata com fidelidade os costumes típicos do mundo rural e as idiossincrasias de seu universo, apesar de contar com elementos também do Romantismo e do Realismo. O roteiro do diretor não abre mão de tais detalhes, utilizando-os como matéria-prima para uma trama que não se concentra apenas em uma história de amor proibido mas também como o desenho de uma época e de uma mentalidade próprias. Se Inocência parece servir apenas como um objeto - de desejo, de posse, de admiração platônica, de representação simbólica de um estado de coisas que não deve ser alterado -, a masculinidade tóxica a seu redor se desdobra em tentar, por quaisquer meios, impor sua pretensa superioridade. Não é surpresa que Inocência, criada em meio a um ambiente hostil no qual ela só tinha a opção de aceitar o que lhe era forçado, se apaixone por Cirino, um homem estudado, gentil e de modos delicados que contrastam com a bestialidade do pai, do noivo e até do anão mudo que lhe vigia dia e noite. Também não chega a surpreender que sua rebeldia romântica seja o gatilho de sua tragédia - filmada com a sutileza característica de Walter Lima Jr., sem pressa e repleta da poesia visual da câmera de Pedro Farkas, que explora a beleza juvenil e pálida de Fernanda Torres como se fosse uma estátua grega, inalcançável e fadada à desgraça. 

E Fernanda, no auge da juventude - 17 anos à época da estreia do filme - já demonstra, em seu primeiro papel no cinema, a potência dramática que faria dela uma das maiores atrizes de sua geração. Ainda que quase silenciosa, sua Inocência é força motriz do filme, a catalisadora da trama - e seu trabalho encontra apoio no ótimo desempenho de Sebastião Vasconcelos e na elegância de Edson Celulari, dois extremos que sintetizam com eficiência a dicotomia crucial do romance de Taunay. Mesmo sem ousar na forma - a narrativa é simples e linear -, "Inocência" cumpre o que promete e entrega ao espectador uma história de amor à moda antiga, que respeita o material original e o engrandece com escolhas artísticas certeiras.

quinta-feira

STAR 80


STAR 80 (Star 80, 1983, The Ladd Company, 103min) Direção: Bob Fosse. Roteiro: Bob Fosse, livro "Death of a playmate", de Teresa Carpenter. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Alan Heim. Música: Ralph Burns. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Michael Bolton, Jack G. Taylor Jr./Ann McCulley, Kimberley Richardson. Produção: Wolfgang Glattes, Kenneth Utt. Elenco: Eric Roberts, Mariel Hemingway, Cliff Robertson, Carroll Baker, Roger Rees, Josh Mostel. Estreia: 10/11/83

Nascida em 28 de fevereiro de 1960, em Vancouver (Canadá), Dorothy Stratten teve uma meteórica carreira artística a partir do momento em que, pelas mãos do namorado Paul Snider, se viu diante de Hugh Hefner, o todo-poderoso dono do império Playboy - que lhe deu as primeiras chances como modelo -, e de Peter Bogdanovich, cineasta premiado e consagrado - que apaixonou-se por sua beleza e sua doçura e lhe prometeu fama e prestígio como atriz. Sua trajetória e seu trágico final foram relatados em "Death of a playmate", um artigo de Teresa Carpenter, publicado no jornal The Village Voice que ganhou o Pulitzer de 1981 e causou polêmica ao colocar tanto Hefner quanto Bogdanovich como corresponsáveis pelo crime que causou sua morte. O cineasta ainda tentou contar sua versão da história com o livro "The killing of a unicorn: Dorothy Stratten (1960-1980)", mas antes mesmo de seu lançamento a adaptação cinematográfica do texto de Carpenter já havia estreado, recebido uma indicação ao Golden Globe e causado comoção. Último filme dirigido por Bob Fosse, "Star 80" pode não ter tido o mesmo impacto de "Cabaret" (1972) ou "All that jazz: o show deve continuar" (1979), mas alcançou repercussão suficiente para abafar uma versão televisiva do mesmo tema, "Mulher ardente", levada ao ar em 1981 pela NBC e estrelada por Jamie Lee Curtis.

Apesar de ser baseada em uma história real, a trama de "Star 80" não escapa muito dos clichês que abundam em filmes que retratam os bastidores do show business - especialmente quando o foco é seu lado sombrio. Tudo começa em 1978, quando o ambicioso Paul Snider (Eric Roberts) conhece a muito jovem e bela Dorothy Stratten (Mariel Hemingway). Fascinado com a aura angelical e ao mesmo tempo sensual da estudante, Snider não apenas a seduz - indo contra os desejos da família - como a introduz em um mundo novo, que valoriza a imagem e a fama. O objetivo de Snider - ascender socialmente e tornar-se parte integrante de um círculo de dinheiro e prestígio - começa a tornar-se realidade quando sua musa (e já esposa) chama a atenção das pessoas certas e passa a frequentar as disputadas festas na mansão do milionário Hugh Hefner (Cliff Robertson), que a põe sob sua proteção pessoal. Aos poucos o sucesso de Dorothy passa a chamar a atenção de outros nomes influentes, o que a leva a começar uma tímida carreira de atriz. É nesse ponto que ela conhece o veterano cineasta Aram Nicholas (Roger Rees), que se apaixona por ela e lhe dá a grande chance de sua carreira artística. No ápice do ciúme, porém, Snider não se conforma com a suspeita cada vez maior de um caso entre sua mulher e o diretor - e passa a assumir um comportamento errático e ameaçador.

 

Realizado por Fosse mesmo depois dos apelos de Bogdanovich para que o projeto não fosse adiante, "Star 80" não ficou imune a polêmicas, especialmente devido a críticas do próprio diretor de "Essa pequena é uma parada" (1973) - cujo nome no filme foi alterado para Aram Nicholas - e pelo processo movido por Hugh Hefner, que não gostou nem um pouco da forma como foi retratado na montagem final (apesar da participação especial de seu filho caçula, Keith). Eric Roberts, unanimemente elogiado por seu desempenho como Paul Snider, chegou a ser indicado ao Golden Globe de melhor ator dramático - perdeu para o vencedor do Oscar da temporada, Robert Duvall, por "A força do carinho" -, enquanto a atuação de Mariel Hemingway - indicada ao Oscar de coadjuvante por "Manhattan" (1979) - reforçava seu status de ninfeta sexy que a atormentou por anos. A dupla é dona dos melhores momentos do filme - algo que poderia não ter acontecido se outros atores cotados para os papéis (Richard Gere como Snider, Melanie Griffith ou Daryl Hannah como Dorothy) tivessem sido escolhidos pelos produtores, e a participação especial de Carroll Baker como a mãe de Stratten não deixa de ser uma ironia inteligente: em 1956, aos 25 anos, ela causou celeuma ao protagonizar "Boneca de carne", de Elia Kazan, onde interpretava uma jovem vista exclusivamente como objeto de lascívia.

Bastidores e controvérsias à parte, "Star 80" é uma produção que, apesar de suas qualidades, é muito aquém da filmografia pregressa de Bob Fosse. Não há, nele, nada da ousadia narrativa de "All that jazz", da sofisticação visual de "Cabaret" ou mesmo a coragem quase suicida de "Lenny" (1974): linear e pouco inspirado, o roteiro do próprio diretor até tenta criar suspense a respeito do desenrolar da história (apesar do desfecho já amplamente conhecido), mas esbarra em uma inesperada falta de emoção - talvez pela atuação apática de Mariel Hemingway, talvez pelo tom semidocumental que impede uma maior aproximação entre o espectador e os personagens. Eric Roberts sai-se bastante bem na pele do desequilibrado Paul Snider, mas não consegue fugir do maniqueísmo que o retrata como um psicopata unidimensional. Tampouco é perceptível no resultado final o apuro estético que caracterizou as obras anteriores de Fosse - é como se o cineasta/roteirista estivesse mais interessado no material explosivo da história de Stratten do que em fazer dela uma obra de arte do mesmo nível de seus filmes premiados. Uma pena, já que foi seu derradeiro trabalho na cadeira de diretor.

Quanto ao pós-filme, não faltaram acontecimentos que dariam um novo longa-metragem. Sentindo-se parcialmente culpado pelo destino de Dorothy, o cineasta Peter Bogdanovich não apenas escreveu um livro sobre o assunto - o já citado "Death of a unicorn" - como tomou sua proteção a mãe e a irmã caçula da modelo, com quem se casou em 1988 (mesmo com uma diferença de 29 anos entre eles) e se divorciou em 2001. Além disso, foi acusado por Hugh Hefner de ter lhe causado um ataque cardíaco, devido às acusações feitas em seu livro - de que o milionário havia seduzido Stratten ao mesmo tempo em que a tratava como filha. Objeto também de uma canção do canadense Bryan Adams - "The best was yet to come", lançada em 1983 -, Dorothy Stratten permaneceu no inconsciente coletivo (especialmente dos EUA) por um bom tempo, como uma forma de lembrar sempre os perigos que sempre rondam o mundo da fama e da beleza, principalmente quando se trata de mulheres à mercê de seus algozes.

terça-feira

OS ELEITOS: ONDE O FUTURO COMEÇA

OS ELEITOS: ONDE O FUTURO COMEÇA (The right stuff, 1983, The Ladd Company, 193min) Direção: Philip Kaufman. Roteiro: Philip Kaufman, livro de Tom Wolfe. Fotografia: Caleb Deschanel. Montagem: Glenn Farr, Lisa Fruchtman, Tom Rolf, Stephen A. Rotter, Douglas Stewart. Música: Bill Conti. Direção de arte/cenários: Geoffrey Kirkland/George R. Nelson, Pat Pending. Produção executiva: James D. Brubaker. Produção: Robert Chartoff, Irwin Winkler. Elenco: Sam Shepard, Barbara Hershey, Ed Harris, Dennis Quaid, Fred Ward, Scott Glenn, Lance Henriksen, Kim Stanley, Veronica Cartwright, Pamela Reed, Jeff Goldblum, Kathy Baker, Scott Paulin, Charles Frank, Levon Helm. Estreia: 21/10/83

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Sam Shepard), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor de 4 Oscar: Montagem, Trilha Sonora Original, Som, Efeitos Sonoros

As expectativas eram enormes. Primeiro, o roteiro era baseado em um livro do consagrado Tom Wolfe. Depois, seu tema - os primeiros passos dos EUA na corrida espacial - era empolgante. especialmente para o público norte-americano, notoriamente ufanista. E por fim, tudo levava a crer que se estaria diante de um épico grandioso, recheado de efeitos visuais acachapantes e sequências de ação de tirar o fôlego. Porém, quando "Os eleitos: onde o futuro começa" estreou, em outubro de 1983, a decepção foi grande em vários aspectos: não apenas naufragou nas bilheterias como desagradou àqueles que esperavam por mais um blockbuster superficial. Dirigido por Philip Kaufman com elegância, senso de humor e um ritmo destoante da maioria das produções do gênero, seu filme acabou sendo relativamente reconhecido apenas pela crítica e pela Academia, que lhe indicou ao Oscar em oito categorias - um reconhecimento um tanto agridoce para Kaufman, que se viu fora da disputa de diretor e roteiro mesmo com uma indicação a melhor filme do ano.

 Essa aparente incoerência da Academia - quase constante, aliás, como seus estudiosos podem perceber a cada ano - não impediu, no entanto, que "Os eleitos" saísse da cerimônia de premiação com um número generoso de estatuetas: reconhecido por sua montagem, trilha sonora, som e efeitos sonoros, o filme de Kaufman entrou, logo em seguida, em várias listas de melhores filmes da década de 80, o que, de certa forma, corrigiu a injustiça de seu fracasso comercial - responsável inclusive pelo fim de sua produtora (The Ladd Company). O fato é que, assim como aconteceu com vários bons filmes que passaram quase em branco pelo crivo do público, "Os eleitos" oferece muito mais do que um simples entretenimento: é inteligente, quase sarcástico e, mesmo que renda homenagens aos homens que retrata, jamais abandona o senso de crônica característico da prosa de Tom Wolfe. Mesmo que o próprio autor tenha ficado insatisfeito com as mudanças feitas na adaptação feita pelo cineasta, é inegável que existe, em cada cena, um cuidado em manter um alto nível de discurso, seja em diálogos rápidos e por vezes poéticos ou mesmo em cenas que comprovam a excelência de sua parte técnica. Surpreendendo a cada momento, Kaufman equilibra com maestria seu filme entre o corriqueiro (o treinamento e os testes a que os candidatos a astronautas são submetidos) e o sublime (suas viagens, tensas e paradoxalmente divertidas). Seu objetivo de realizar um épico é claro, e não fosse uma certa demora em engrenar, seu filme seria uma diversão perfeita.


Se Sam Shepard foi o único do elenco a conseguir uma indicação ao Oscar (como ator coadjuvante, perdendo para Jack Nicholson, em "Laços de ternura"), sua presença na lista de candidatos foi, de certa forma, uma maneira de homenagear todos os seus colegas de cena. Nomes em começo de carreira, como Dennis Quaid e Jeff Goldblum, e atores já conhecidos, como Ed Harris e Barbara Hershey, integram um elenco sem elos fracos, que conquistam o público com suas particularidades e estilos próprios. Kaufman não apenas se contenta em narrar com o máximo de detalhes possível o caminho dos astronautas rumo a seu lugar na história - ele também examina suas relações pessoais, familiares e matrimoniais, sem deixar que o ritmo pareça truncado (palmas para a edição oscarizada). Das primeiras cenas, que mostram o pioneiro Chuck Yeager (Shepard) em suas tentativas de romper a barreira do som, até a consagração dos sete homens escolhidos para liderar a corrida espacial americana, "Os eleitos" convida o espectador a uma viagem no tempo, que remete ao começo da Guerra Fria e à rivalidade entre EUA e URSS. Com imagens reais editadas com cenas recriadas com capricho, o filme de Kaufman brinca com o tom de semi-documentário, enquanto não abdica de rir de seus protagonistas, na verdade homens frequentemente inconscientes de sua importância histórica - um deles chega a dormir enquanto espera ser lançado ao espaço (!!).

Envolvente, por vezes divertido e quase sempre emocionante, "Os eleitos" é um filme que não deixou com que o tempo lhe diminuísse a qualidade. Mais de três décadas depois de seu lançamento nos cinemas ainda é um grande filme - talvez hoje ainda mais do que em sua estreia, já que pode ser visto à luz do tempo e devidamente consagrado como cult movie. Se Kaufman posteriormente investiria em filmes com alto teor erótico - "A insustentável leveza do ser" (88) e "Contos proibidos do Marquês de Sade" (2000), por exemplo -, aqui ele demonstra um domínio técnico e narrativo acima da média, e um cuidado com os detalhes que faz sua omissão entre os candidatos ao Oscar de direção quase criminosa. Mais de dez anos antes que "Apollo 13: do desastre ao triunfo" (94) - coincidentemente também estrelado por Ed Harris - se tornasse um grande sucesso de bilheteria e crítica (e também fosse indicado ao Oscar de filme, mas não de direção), "Os eleitos" já demonstrava que a corrida espacial era um terreno fértil para cineastas talentosos e sensíveis. Um vencedor, apesar dos pesares!

domingo

CUJO

CUJO (Cujo, 1983, Sunn Classic Pictures, 93min) Direção: Lewis Teague. Roteiro: Don Carlos Dunaway, Lauren Currier, romance de Stephen King. Fotografia: Jan De Bont. Montagem: Neil Travis. Música: Charles Bernstein. Figurino: Jack Buehler. Direção de arte/cenários: Guy Comtois/John Bergman. Produção: Daniel H. Blatt, Robert Singer. Elenco: Dee Wallace, Daniel Hugh-Kelly, Danny Pintauro, Christopher Stone, Ed Lauter, Kaiulani Lee. Estreia: 10/8/83

Tudo começou quando o escritor Stephen King deu de cara com o assustador cachorro de seu mecânico, enquanto aguardava o conserto de sua motocicleta. Criativo e com a imaginação à solta, não demorou para transformar esse encontro tão banal em um romance assustador, publicado em 1981 depois de um processo de escrita que ele mesmo não lembra de ter desenvolvido (cortesia de seu vício em álcool, então no auge). Transformado em filme dois anos depois de seu lançamento nas livrarias, "Cujo" chegou às telas em uma produção barata, dirigida por um cineasta pouco conhecido e com um elenco sem grandes estrelas. Tais circunstâncias, no entanto, não o impediram de atingir um alto grau de fidelidade a seu original literário e, melhor ainda, manter um nível de suspense capaz de grudar o espectador na poltrona até seus minutos finais. Graças a um grande domínio narrativo, uma edição enxuta e o belo trabalho de Dee Wallace (mais conhecida como a mãe de Elliott no sucesso "ET", de 1982), "Cujo" é um pequeno grande filme, uma pérola rápida (93 minutos contando com os créditos) e quase sempre esquecida (injustamente) dentre as dezenas de adaptações de obras de King.

O próprio King teve um envolvimento bastante efetivo na realização do filme, dirigido por Lewis Teague - que em seguida assinaria a segunda parceria de Michael Douglas e Kathleen Turner nas telas, a comédia "A joia do Nilo" (85): apesar de não estar creditado, colaborou ativamente no roteiro e chegou a declarar que a atuação de Dee Wallace era a melhor que ele já havia visto em uma adaptação de uma obra sua - o que talvez seja verdade se não forem contabilizados os trabalhos impecáveis de Kathy Bates em "Louca obsesão" (vencedor do Oscar) e "Eclipse total". Totalmente entregue à sua personagem, Wallace cumpre com louvor sua missão de deixar o público angustiado e tenso - a credibilidade que ela imprime em cada cena conduz a ação a um alto grau de claustrofobia e realismo que fazem o terço final do filme ser simplesmente um dos mais tensos exercícios de suspense dos anos 80. Sem medo de fazer de um animal doméstico um vilão dos mais violentos da história, "Cujo" transforma uma situação corriqueira em um puro pesadelo.


Apesar do cão São Bernardo ser o personagem-título e principal elemento da narrativa, os humanos é que dominam os dois primeiros terços do filme de Teague. Boa parte da ação inicial serve para apresentar a família Trenton, aparentemente parte de um lar feliz e bem estruturado: o pai, Vic (Daniel-Hugh Kelly) é publicitário e anda às voltas com um problema profissional que pode lhe custar o emprego; o filho pequeno, Ted (Danny Pintauro) é um menino feliz mas constantemente apavorado com o "monstro do armário"; e a mãe, Donna (Dee Wallace) é uma dona-de-casa dedicada e presente. Na verdade, porém, há um segredo que põe em risco seu casamento: ela tem um caso com o conquistador da cidade, Steve Kemp (Christopher Stone) - e sua culpa a impede de levar uma vida totalmente em paz. Enquanto se desenrola o drama doméstico, o cachorro do mecânico Joe Camber (Ed Lauter) é mordido por um morcego e desenvolve raiva, passando a atacar - e matar! - qualquer um que cruze seu caminho, inclusive seu dono. A viagem de sua esposa e de seu filho deixam sua oficina (localizada a alguns quilômetros da cidade) completamente abandonada - e é lá que Donna e o pequeno Ted ficarão à mercê de Cujo, quando o carro que estão levando para o conserto simplesmente se recusa a funcionar.

Presos em um carro em uma oficina distante, em um dia de calor extremo e sem condições de pedir ajuda - Vic também está fora da cidade, a trabalho -, mãe e filho iniciam uma odisseia de pavor, compartilhada de forma exata pela câmera detalhista do cineasta, que acompanha cada minuto de seu desespero com o máximo de tensão. A trilha sonora discreta e a edição competente do futuro diretor Jan De Bont completam o cenário, estabelecendo um panorama que permite ao público mergulhar sem reservas na história. Mesmo que apenas o ato final se concentre nos ataques de Cujo a mãe e filho, são exatamente esses poucos minutos (que parecem muito mais, devido ao talento do diretor em expandir a linha do medo até seu limite máximo) que permanecem na memória da plateia depois que os créditos finais surgem na tela. Mais do que um filme que mexe com os nervos do espectador, "Cujo" é a prova de que até mesmo as mais minimalistas histórias de Stephen King são capazes de se transformar em ótimos filmes - desde que contem com a equipe apropriada e não tentem inventar a roda. É um filme de suspense de tirar o sono - ou ao menos pensar duas vezes antes de mexer com qualquer cachorro.

quarta-feira

FOME DE VIVER

FOME DE VIVER (The hunger, 1983, MGM, 97min) Direção: Tony Scott. Roteiro: Ivan Davis, Michael Thomas, romance de Whitley Strieber. Fotografia: Stephen Golblatt. Montagem: Pamela Power. Música: Denny Jaeger, Michel Rubini. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Ann Mollo. Produção: Richard A. Sheperd. Elenco: Catherine Deneuve, David Bowie, Susan Sarandon, Dan Hedaya, Beth Ehlers, Cliff De Young. Estreia: 29/4/83

Se existe um filme que já nasceu com a vocação de tornar-se cult, esse filme é "Fome de viver". Lançada dois anos depois da publicação do romance que lhe deu origem, escrito por Whitley Strieber, a produção dirigida pelo inglês Tony Scott - irmão de Ridley, recém saído da fria recepção a outro que logo se transformaria em objeto de culto, "Blade Runner: o caçador de androides" (82) - reunia logo em sua receita três ingredientes infalíveis para chamar a atenção do público dos ainda novos anos 80: o tema do vampirismo (jamais mencionado claramente, mas ainda assim bastante óbvio visualmente), a estética típica da geração MTV (ambientes enfumaçados, fotografia caprichada, edição ágil) e o elenco que juntava a europeia beleza glacial de Catherine Deneuve e a aura misteriosa e galante do roqueiro David Bowie (além da presença da então pouco conhecida, mas já bastante sensual Susan Sarandon). Longe de conquistar a unanimidade da crítica, incomodada justamente por seu cuidado extremo com o visual em detrimento da história, "Fome de viver" encontrou respaldo, porém, junto à uma parte da plateia que deixou-se seduzir pelo fascinante tom gótico do filme e o adotou calorosamente.

Sem precisar utilizar a palavra "vampiro" uma única vez durante todo o filme, Tony Scott acabou por conceber visualmente uma das mais perenes e impressionantes traduções de um tema clássico. Com escolhas certeiras - como a canção "Bela Lugosi's dead", da banda inglesa Bauhaus como ilustração da instigante sequência inicial - e uma atmosfera ao mesmo tempo sombria e erótica, o cineasta construiu um universo repleto de simbolismos a respeito de vida, morte, longevidade e sexo, iluminado pela fotografia deslumbrante de Stephen Goldblatt, de uma elegância que reflete o tom de extrema sutileza proposto pela trama criada por Strieber e roteirizada por Michael Thomas, que transfere para a Nova York do final do século XX o mundo fascinante e intrigante dos mortos-vivos sem apelar para a violência excessiva e utilizando os clichês do gênero de maneira criativa e moderna. Inserindo elementos contemporâneos à narrativa - uma das protagonistas é uma médica em busca da cura para a progeria, uma doença que causa o envelhecimento precoce - e apostando na sutileza em detrimento do horror explícito, Scott conseguiu o que parecia impossível: atualizar uma mitologia secular sem cair no ridículo ou no grotesco e ainda cativar uma nova geração de fãs.


Linda, sedutora e esbanjando elegância, Catherine Deneuve surge em cena como Miriam Blaylock, uma misteriosa mulher que se aproxima da dra. Sarah Roberts (Susan Sarandon) em uma sessão de autógrafos. Sua intenção é ajudar o marido, o músico John Baylock (David Bowie), que está sofrendo de uma condição que causa envelhecimento muito mais acelerado do que o normal - a ponto de tornar-se um senhor de mais de oitenta anos em poucas horas. Dedicada ao estudo clínico de uma possível cura para a doença do marido da bela estranha, Sarah nem de longe desconfia da verdade a respeito do bizarro casal: Miriam é uma centenária vampira egípcia que subsiste do sangue de seus amantes, a quem troca periodicamente, justamente quando eles começam a envelhecer. Seu relacionamento com John, que já dura mais de duzentos anos, está chegando ao destino final de todos os anteriores, e uma atração irresistível surge entre ela e a jovem médica, que sucumbe à tentação mesmo correndo o risco de tornar-se apenas mais uma amante/fonte de sangue da fria e estonteante Miriam. Enquanto isso, John tenta desesperadamente manter-se vivo e ao lado da mulher que ama - mesmo que para isso precise apelar para seus sensos mais primitivos e crueis, o que significa apelar para a concessão a seus instintos mortais.

Quem esperar um filme de terror convencional, ou até mesmo um conto vampiresco na acepção mais tradicional do termo pode até se decepcionar com "Fome de viver", uma vez que o filme de Tony Scott se afasta dos clichês mais óbvios do gênero - ao mesmo em que os abraça e os apresenta sob uma nova perspectiva narrativa. Em seu filme, não há um heroi em busca de redenção ou uma heroína em apuros sendo ameaçada por criaturas da noite com objetivos pura e simplesmente malévolos: seus protagonistas são os próprios vampiros, em conflito com sua realidade predadora ao mesmo tempo em que aproveitam os benefícios da juventude eterna (ou ao menos no caso dos amantes de Miriam, bem mais estendida do que o normal). Para ilustrar essa sensação de prazer constante ameaçado por um certo tédio blasé, a fotografia, a direção de arte e todos os elementos de cena (fumaça, pombos, cortinas esvoaçantes) são usados e abusados, para deleite de uns e desprezo de outros. A estética videoclipe, que encontrou na década de 80 um terreno fértil e hospitaleiro, é ingrediente crucial na receita do diretor, que mergulha sem medo na possível breguice de tal opção para imprimir uma marca registrada à história. Deu certo, mas só até determinado ponto: "Fome de viver" é, sem dúvida, um filme marcante por sua beleza, mas tropeça em um roteiro por vezes excessivamente frio e distante, que mais oferece perguntas do que respostas e que não desenvolve a contento todas as nuances de seus protagonistas, interpretados por um ícone do rock, uma diva europeia e uma grande atriz em começo de carreira. É uma mistura incendiária e interessante, que tanto pode encantar quanto aborrecer. É só tomar partido - e se deliciar com alguns dos momentos mais intensos da carreira de Scott - que depois embarcou no cinema de ação sem cérebro até suicidar-se em 2012, um trágico e irônico final para quem começou a carreira na sétima arte falando de vida eterna e escuridão.

terça-feira

O FIEL CAMAREIRO

O FIEL CAMAREIRO (The dresser, 1983, Columbia Pictures, 116min) Direção: Peter Yates. Roteiro: Ronald Harwood, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Kelvin Pike. Montagem: Ray Lovejoy. Música: James Horner. Figurino: Rosemary Burrows. Direção de arte/cenários: Stephen Grimes/Josie MacAvin. Produção: Peter Yates. Elenco: Albert Finney, Tom Courtenay, Edward Fox, Zena Walker, Eileen Atkins, Michael Gough. Estreia: 06/12/83

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Peter Yates), Ator (Tom Courtenay), Ator (Albert Finney), Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Tom Courtenay) 

 Poucas vezes o cinema tratou com tanto respeito e realismo os bastidores de uma companhia teatral como "O fiel camareiro". Baseado em uma premiada peça teatral escrita por Ronald Harwood - que inspirou-se em sua experiência como assistente do veterano ator inglês Donald Wolfit - e dirigido por Peter Yates, o filme de mesmo nome agradou em cheio a Academia de Hollywood, que, sempre atraída por histórias que giram em torno do mundo artístico, lhe indicou em cinco categorias de grande importância, como melhor filme, direção e roteiro adaptado. Além disso, conquistou um feito raro, colocando seus dois intérpretes masculinos na corrida pelo Oscar de melhor ator. Em desempenhos nunca aquém de fascinantes, Albert Finney e Tom Courtenay acabaram perdendo a estatueta para Robert Duvall ("A força do carinho"), mas é difícil dizer quem está melhor em cena. Em um duelo de interpretações dos mais empolgantes, os dois grandes atores dão um espetáculo à parte em um filme que é o sonho de consumo para qualquer fã de artes cênicas.

Lançada nos palcos ingleses em março de 1980, a peça de Ronald Harwood - que ganharia o Oscar de roteiro adaptado por "O pianista" (2002) - já começou sua carreira acumulando elogios e prêmios. Quando chegou à Broadway, dois anos mais tarde, sempre com Tom Courtenay na pele do dedicado Norman, já era considerada dona de um dos texto mais inteligentes da temporada. Não demorou para que uma versão para o cinema fosse considerada, assim como o nome de Courtenay para o papel que havia consagrado nos palcos. Com roteiro do próprio dramaturgo, "O fiel camareiro" manteve também o alto nível do texto original, repleto de citações à obra de Shakespeare e detalhes saborosos sobre os bastidores do mundo teatral, com um equilíbrio perfeito entre a veneração à arte e a ironia fina de que somente os ingleses são capazes quando falam de si mesmos. Longe de ser uma obra sustentada por uma trama forte e recheada de reviravoltas, o filme de Peter Yates é um filme movido a sentimentos como admiração e dedicação - e amor incondicional ao teatro.


Passada durante a II Guerra Mundial, a trama de "O fiel camareiro" gira em torno de um veterano ator dos palcos britânicos, chamado pelos colegas simplesmente de "Sir" - em uma atuação milagrosa de Albert Finney. Líder de uma companhia teatral shakespereana, ele conta sempre com a prestimosa e abnegada assistência do incansável Norman (Tom Courtenay, impecável em sua criação repleta de nuances), que, além de auxiliá-lo nas trocas de roupa e maquiagem, agora se vê diante de uma nova missão: cuidar da saúde mental do brilhante intérprete. Com a idade avançada, Sir está confundindo os papéis, trocando as falas e, além de tudo, disposto a escrever uma autobiografia. Desacreditado pelos colegas, ele é blindado por Norman, que o vê como ídolo absoluto e intocável mesmo quando acaba sendo vítima do egocentrismo do astro.

Quem aprecia um bom jogo de cena, com atuações brilhantes e um texto irretocável não pode perder "O fiel camareiro". Porém, é bom que se diga que, para um público menos disposto a mergulhar no universo proposto pelo roteiro, a experiência provavelmente será menos rica: tanto os diálogos de Harwood quanto a direção de Yates valorizam basicamente o duelo entre Finney e Courtenay, dando pouco espaço para os coadjuvantes e seus dramas pessoais. Mesmo quando volta seu foco para anedotas de bastidores - como o hilariante mutirão para providenciar uma tormenta digna do nome em uma sessão de "Rei Lear" - o filme sempre privilegia as reações de Sir em relação ao que lhe rodeia e, consequentemente, como isso afeta a vida de Norman, um homem cuja vida se resume unica e exclusivamente às coxias e palcos. São dois personagens e tanto, defendidos com garra e talento por atores em estado de graça. Um filme para quem gosta da arte da atuação, dentro e fora dos palcos e das telas.

sexta-feira

A HORA DA ZONA MORTA

A HORA DA ZONA MORTA (Dead zone, 1983, Dino de Laurentiis Company, 103min) Direção: David Cronenberg. Roteiro: Jeffrey Boam, romance de Stephen King. Fotografia: Mark Irwin. Montagem: Ronald Sanders. Música: Michael Kamen. Figurino: Olga Dimitrov. Direção de arte/cenários: Carol Spier/Tom Coulter. Produção: Debra Hill. Elenco: Christopher Walken, Brooke Adams, Martin Sheen, Tom Skerrit, Colleen Dewhurst, Nicholas Campbell, Herbert Lom. Estreia: 21/10/83

Stephen King começou a firmar-se como um nome quente dentro da indústria hollywoodiana quando o sucesso de bilheteria de "Carrie, a estranha" (76), de Brian DePalma e o prestígio de "O iluminado" (80), de Stanley Kubrick comprovaram que por trás de uma boa história de terror poderia haver inteligência e criatividade. Por isso não deixou de ser surpreendente quando o nome do canadense David Cronenberg foi anunciado como o diretor de "A hora da zona morta", mais um romance de King a ser adaptado para as telas no início da década de 80: conhecido por filmes pouco afeitos à sutilezas, como os polêmicos "Enraivecida, na fúria do sexo" (77) e "Scanners, sua mente pode destruir" (81), o cineasta acabou por convencer até mesmo o mais pessimista fã do escritor, porém, quando sua adaptação finalmente foi lançada, no final de 1983. Não só a trama chegou às telas da forma mais fiel possível como Cronenberg conseguiu imprimir a ela uma personalidade e um suspense que funcionam em todos os níveis. Estrelado pelo sempre sinistro Christopher Walken - já oscarizado pelo soldado neurótico de "O franco-atirador" (78) - o filme mantém a atenção da plateia desde seu início angustiante até suas climáticas cenas finais, além de contar uma história recheada o suficiente de ganchos e personagens interessantes.

Walken - em papel que King queria que fosse de Bill Murray, veja só - interpreta Johnny Smith, um professor de inglês de Castle Rock, uma pequena cidade do Maine (que se tornaria cenário preferido de várias histórias de Stephen King a partir de então). Em uma noite chuvosa qualquer, ele deixa sua noiva, Sarah (Brooke Adams), em casa e sofre um grave acidente de carro que o deixa em coma profundo por cinco anos. Depois de acordar - e perceber que sua vida não tem mais condições de ser a mesma, uma vez que Sarah já está casada com outro homem e é mãe de um bebê - Johnny descobre ainda que sua situação lhe presenteou com o estranho dom da clarividência: ao tocar nas pessoas, ele tem o poder de descobrir coisas tais como um incêndio na casa de uma enfermeira, a verdade sobre o desaparecimento da mãe de seu médico (perdida desde a II Guerra Mundial) e, mais importante ainda, é procurado pelo xerife (Tom Skerrit) para ajudar na busca de um assassino serial. Tamanha pressão o acaba levando a esconder-se de todos os que conhece, até que seu caminho se cruza com Greg Stillson (Martin Sheen), um político popular que é candidato ao Senado e pode não ser tão honesto quanto deseja parecer.


Realmente, para quem conhece a obra de David Cronenberg - que posteriormente ainda cometeria filmes que causaram extrema controvérsia, como "Mistérios e paixões" (91) e "Crash, estranhos prazeres" (96) - seu trabalho em "A hora da zona morta" chega a ser convencional. Sem nunca abrir mãos das convenções de um gênero tão pouco aberto a inovações narrativas, o cineasta mantém o interesse do público apostando suas fichas na atuação na medida exata de Christopher Walken, cujo rosto naturalmente ambíguo transmite todas as vastas sensações de seu personagem, um herói trágico na tradição de uma Cassandra grega. O suspense crescente, que Cronenberg manipula com extrema consciência, é construído com detalhes, nunca deixando de lado o drama inerente a uma existência como a de Johnny, eternamente na corda bamba entre o horror e a tragédia. E é também importante para tamanha precisão no suspense a trilha sonora discreta mas eficaz do veterano Michael Kamen, que jamais anuncia os momentos de maior tensão, preferindo, ao contrário, comentá-los conforme a ação vai se delineando diante dos olhos do espectador.

Uma das melhores adaptações de um livro de terror de Stephen King para as telas, "A hora da zona morta" se beneficia também do fato de saber terminar. Ao contrário de várias futuras transições da obra do escritor, que são estragadas por finais sem sentido ou forçados, o filme de David Cronenberg tem um desfecho climático, coerente e emocionante, valorizado pela atuação brilhante de Martin Sheen, que equilibra com inteligência a canastrice comum aos políticos demagogos com uma riqueza de nuances que deixa a audiência à espera de seu próximo movimento - que nunca é aquele esperado, o que dá ao filme sua sensação de imprevisibilidade que faz dele uma experiência ainda hoje bastante intrigante.


domingo

SILKWOOD, O RETRATO DE UMA CORAGEM

SILKWOOD, O RETRATO DE UMA CORAGEM (Silkwood, 1983, ABC Motion Picture, 131min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Nora Ephron, Alice Arlen. Fotografia: Miroslav Ondricek. Montagem: Sam O'Steen. Música: Georges Delerue. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandestein/Richard James. Produção executiva: Larry Cano, Buzz Hirsch. Produção: Michael Hausman, Mike Nichols. Elenco: Meryl Streep, Kurt Russell, Cher, Craig T. Nelson, Ron Silver, Diana Scarwid, David Strathairn, Fred Ward, Bruce McGill, Will Patton Estreia: 14/12/83

5 indicações ao Oscar: Diretor (Mike Nichols), Atriz (Meryl Streep), Atriz Coadjuvante (Cher), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Coadjuvante (Cher) 

Ao contrário do que acontece no Brasil, nos EUA o negócio dos sindicatos profissionais é coisa bastante séria, a ponto de nomes como Jimmy Hoffa - presidente do sindicato dos caminhoneiros - e Norma Rae - nome fictício de uma moradora do sul do país que tornou-se líder sindicalista da indústria têxtil - tenham servido de inspiração para filmes estrelados por gente graúda (Jack Nicholson no primeiro e Sally Field, no papel que lhe deu seu primeiro Oscar, no segundo). Nos anos 80, quando a paranoia nuclear estava no ar, ameaçando a população com uma tragédia invisível - e que deu origem a uma espécie de ciclo que inclui o polêmico "Síndrome da China" (79), estrelado por Michael Douglas e Jane Fonda- o cineasta Mike Nichols resolveu juntar os dois temas em um mesmo filme, baseado em um história real ocorrida meros nove anos antes. "Silkwood, o retrato de uma coragem", estrelado por Meryl Streep - e que foi o primeiro roteiro da futuramente célebre Nora Ephron a chegar às telas - concorreu a cinco Oscar, incluindo diretor e atriz (a quinta indicação de Streep, já então duplamente premiada com a estatueta), mas teve o azar de concorrer com o furacão "Laços de ternura" e saiu da festa com as mãos abanando. Isso não diminiu sua importância, sua qualidade e, melhor ainda, sua força como denúncia e drama.

Quem torce o nariz para filmes sobre coisas como sindicatos, no entanto, não precisa se preocupar. O roteiro de Ephron - co-escrito com Alice Arlen e também indicado ao Oscar - não se detém apenas na trajetória de sua protagonista Karen Silkwood rumo à conscientização política e social, mas abre bastante espaço também para seus dramas pessoais, que incluem um casamento falido, a distância que mantém dos três filhos e os relacionamentos com o colega de trabalho Drew (um jovem Kurt Russell) - com quem mantém um romance - e a amiga Dolly (a cantora Cher, começando a ser respeitada como atriz em papel que lhe rendeu um Golden Globe de coadjuvante), além de dar ênfase especial à sua luta para denunciar a maneira torpe com que a indústria de processamento de plutônio de sua cidade natal, Oklahoma, escondia de seus funcionários o enorme perigo de contaminação que eles corriam manipulando o material. Equilibrando essas duas pontas - a familiar e a profissional - é que o roteiro se torna especial, desviando-se do caminho fácil do sensacionalismo e conquistando o espectador pelo desenho de seus personagens.


Mike Nichols, um cineasta acostumado a apontar suas lentes para personagens complexos e arrancar de seus atores desempenhos nunca aquém de fabulosos, conta a história de Karen Silkwood em seu próprio ritmo, convidando aos poucos a audiência a estabelecer intimidade com sua protagonista, uma mulher comum, com um casamento fracassado no currículo, um relacionamento amoroso que é motivo de falatório entre seus colegas de trabalho e uma amizade com uma lésbica que é apaixonada por ela. Sua vida dá uma guinada quando ela é acusada de contaminar seu local de trabalho (uma usina de tratamento de plutônio) para conseguir um fim-de-semana de folga, o que desencadeia uma onda inesperada de contaminação que atinge uma funcionária mais idosa e a ela própria. Com a ajuda de um sindicato - de quem se torna líder, para desgosto de seu namorado - ela parte para o ataque, com planos de denunciar o caso. Sua nova atitude, porém, causa polêmica entre seus companheiros de trabalho, que sabem que o fechamento da indústria também os levaria ao desemprego.

"Silkwood" é um drama com a cara de sua época: engajado, relevante e realizado com paixão. Se Meryl Streep dispensa qualquer comentário com mais uma interpretação impecável, seus coadjuvantes merecem igual respeito. Kurt Russell injeta personalidade a um personagem que poderia ficar em um melancólico segundo plano em mãos menos competentes - a cena em que ele percebe que está perdendo Karen para a militância e quiçá para o líder sindical vivido por Ron Silver é um exemplo da discrição eficaz de seu desempenho. E Cher, até então conhecida como cantora, sai-se muito bem como Dolly, a amiga homossexual da protagonista, que é responsável por um dos momentos mais ternos do filme. Em pouco tempo, ela se tornaria uma atriz respeitada, a ponto de levar um Oscar pela comédia romântica "Feitiço da lua" e aqui, ela mostra que sua persona excêntrica em nada atrapalha seu talento dramático. Ela é um motivo a mais para se assistir a "Silkwood", que, além dela, apresenta uma verdadeira e revoltante história real. Merece uma conferida.

sábado

O REENCONTRO

O REENCONTRO (The big chill, 1983, Columbia Pictures, 105min) Direção: Lawrence Kasdan. Roteiro: Lawrence Kasdan, Barbara Benedek. Fotografia: John Bailey. Montagem: Carol Littleton. Figurino: April Ferry. Direção de arte/cenários: Ida Random/George Gaines. Produção executiva: Lawrence Kasdan, Marcia Nasatir. Produção: Michael Shamberg. Elenco: Glenn Close, Kevin Kline, William Hurt, Tom Berenger, Jeff Goldblum, Jobeth Williams, Mary Kay Place, Meg Tilly. Estreia: 09/9/83

3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Glenn Close), Roteiro Original

Um grupo de amigos, unidos na juventude idealista, são obrigados a confrontarem o que fizeram de suas vidas quando voltam a se encontrar, no funeral de um deles. Tal reunião, logicamente, traz à tona frustrações profissionais, romances interrompidos e a sensação de que o tempo, cruel e implacável, pode tê-los transformados naquilo que eles mais desprezavam: membros capitalistas de um sistema que afrontava suas aspirações pessoais. Essa história, que hoje é velha conhecida dos fãs de cinema, foi tratada de diversas maneiras, tanto em tom cômico quanto em nuances dramáticas, em filmes com inúmeros graus de qualidade. Mas o pai de todos eles, aquele que deu origem a esse quase sub-gênero do cinema mundial (até mesmo a França bebeu em sua fonte, recentemente, com o belo "Até a eternidade", dirigido pelo ator Guillaume Caunet) é o já clássico "O reencontro", lançado por Lawrence Kasdan em 1983. Co-roteirista de "Os caçadores da arca perdida" (81) e "O império contra-ataca" (80), dentre outros sucessos, e diretor do elogiado "Corpos ardentes" (81), Kasdan escreveu seu roteiro inspirado em colegas com quem conviveu durante seus anos de universidade, o que dá a ele um senso de verdade poucas vezes visto em seus congêneres. Resultado: três indicações ao Oscar - incluindo filme e roteiro original - e uma aura de doce melancolia que se mantém fresca e atual mesmo depois de três décadas.

Para contar sua história de perdas e emoções, Kasdan teve a sorte de reunir um elenco extraordinário, com nomes populares do cinema americano de sua época que teriam, pelos próximos anos, um sucesso ainda maior, com indicações (e vitórias) no Oscar e enormes êxitos de bilheteria. Glenn Close - que chegou a concorrer ao Oscar de coadjuvante por seu desempenho, de certa forma representando o elenco inteiro - faria em breve "Atração fatal" (87) e "Ligações perigosas" (88), que também lhe levaram ao caminho da estatueta, que foi mais simpática com William Hurt - premiado como melhor ator por "O beijo da mulher-aranha" (85) - e Kevin Kline - que amealhou o prêmio de coadjuvante por "Um peixe chamado Wanda" (88). Tom Berenger concorreu também como coadjuvante por "Platoon" (86), e Jeff Goldblum tornou-se sinônimo de sucesso na década de 90 por seu trabalho nos blockbusters "Jurassic Park" (93) e "Independence day" (96). Juntos a Jobeth Williams - a mãe de família de "Poltergeist, o fenômeno" (82), Mary Kay Place e Meg Tilly - que também chegaria a concorrer ao prêmio da Academia como a freira acusada de matar seu filho recém-nascido em "Agnes de Deus" (85) - eles formam um time imbatível, capaz de prender a atenção do público mesmo com uma trama sem maiores lances e acontecimentos dramáticos. "O reencontro" é um filme de pequenos momentos, recheado de um inusitado senso de humor, ritmo adequado, cenas emocionantes e uma deliciosa trilha sonora que busca nos anos 60 sua matéria-prima.


Kevin Costner chegou a filmar algumas cenas com Alex, o suicida cuja morte catalisa o reencontro do título, mas teve suas cenas cortadas na edição final - Kasdan o recompensaria futuramente lhe dando um papel importante nos faroestes "Silverado" (85) e "Wyatt Earp" (94). O fim trágico de seu personagem dá o pontapé inicial ao filme, já que seus amigos, distanciados uns dos outros por compromissos profissionais, por estilos de vida e até mesmo por alguns problemas românticos, são obrigados a uma reunião inesperada que lhes dará, depois do choque, novos pontos de vista sobre suas vidas. Harold (Kevin Kline) e Sarah (Glenn Close) parecem os mais abalados pelo suicídio de Alex, uma vez que foi cometido durante uma temporada em sua casa - e também porque ele foi o pivô de uma crise no casamento dos amigos depois de um rápido caso com Sarah. A namorada do morto, Chloe (Meg Tilly) dá a impressão de não ter se abalado tanto assim com a tragédia, como se visse de outro nível a complexa teia de relações que se desenrola diante de seus olhos no fim-de-semana que todos dividem após o funeral. Meg (Mary Kay Place) é uma advogada corporativista infeliz com sua carreira e disposta a convencer um dos amigos a ser o pai de um filho seu; Michael (Jeff Goldblum) é um repórter de amenidades que precisa lidar com o fato de ter escrito um perfil pouco elogioso de Sam Weber (Tom Berenger), ator de uma série de TV medíocre, mas de muito sucesso popular e que balança ao reencontrar Karen (Jobeth Williams), por quem sempre foi apaixonado, mas que está vivendo um casamento estável e seguro. E Nicholas (William Hurt) tenta lidar com sua experiência no Vietnã - e suas consequências - convivendo com drogas e bebida.

A forma elegante e carinhosa com que Kasdan lida com seus personagens e seus dramas é um dos maiores méritos de "O reencontro". Por mais que alguns deles não sejam exatamente simpáticos ou ajam de maneira correta ou ética, é difícil não encontrar em cada um deles um rasgo de humanidade, de verdade, de sensibilidade. Glenn Close - justificando sua indicação ao Oscar - vive talvez a personagem mais complexa, uma Sarah que ama o marido e a família e busca conviver com um erro passado ao mesmo tempo em que também encara de frente a diferença entre tudo que quis ser e o que é em seu dia-a-dia. No final, quando tenta resgatar essa mulher do passado tomando uma atitude corajosa (e um tanto polêmica), fica claro ao público que tudo que os personagens de Kasdan querem é voltar a ser o que foram na juventude: idealistas, felizes, esperançosos e rebeldes. Mas a vida passa, o tempo é implacável e os caminhos nem sempre são fáceis. E é isso que "O reencontro" demonstra, ao som de músicas que acariciam os ouvidos e diálogos saborosos recitados por atores em dias inspirados. Cinema de primeira qualidade.

sexta-feira

VIDAS SEM RUMO

VIDAS SEM RUMO (The outsiders, 1983, Zoetrope Studios, 91min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Kathleen Knutsen Rowell, romance de S.E. Hinton. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Anne Goursaud. Música: Carmine Coppola. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Gary Fettis. Produção Gray Frederickson, Fred Roos. Elenco: C. Thomas Howell, Ralph Macchio, Matt Dillon, Patrick Swayze, Diane Lane, Tom Cruise, Rob Lowe, Emilio Estevez. Estreia: 25/3/83

O filme "Vidas sem rumo" nasceu do encontro inusitado entre as fãs do romance escrito por S.E. Hinton e lançado em 1967 e o cineasta Francis Ford Coppola, vindo da falência de seu estúdio, o American Zoetrope, causada pelo fracasso calamitoso de "O fundo do coração" (82). Desiludido com o cinema, o homem que havia legado ao mundo as duas partes premiadas e elogiadas de "O poderoso chefão" e o problemático porém louvado "Apocalypse now" recebeu uma calorosa carta escrita por alunos de uma escola secundarista de Fresno, na California. Eles alegavam que somente Coppola poderia traduzir em imagens seu livro preferido. Escrito por Hinton quando ainda era uma adolescente de quinze anos, o livro contava a história de um grupo de adolescentes dos anos 50 que sofriam na pele tudo aquilo que os estudantes da década de 80 também sentiam: insegurança, deslocamento de uma sociedade que podia ser muito restritiva e principalmente a força dos laços de amizade. Não foi preciso insistir muito e Coppola aceitou o desafio. Lançado em 1983, seu novo trabalho não ajudou muito em suas finanças já atribuladas - não teve uma bilheteria significativa - mas o incentivou a adaptar outro romance de Hinton em 1984, "O selvagem da motocicleta", e, mais importante que tudo, deu o pontapé inicial nas carreiras de nomes que, nos anos seguintes, dominariam o cinema americano.

Os créditos de "Vidas sem rumo" são um verdadeiro quem é quem do cinema jovem hollywoodiano dos anos 80: estão lá Matt Dillon, Emilio Estevez, Patrick Swayze, Rob Lowe, Diane Lane, C. Thomas Howell, Ralph Macchio e Tom Cruise (em um papel bastante pequeno e bem diferente do galã que se tornaria ainda em 1983 com "Negócio arriscado"). Quando o filme foi feito, nenhum deles era famoso, o que demonstra, no mínimo, o faro de Coppola em descobrir novos talentos - é bom lembrar que foi ele quem insistiu em Al Pacino para viver Michael Corleone no primeiro "Chefão". Sua maior felicidade, em "Vidas sem rumo", foi encontrar atores que encarnam seus personagens com tal verdade que é difícil ficar indiferente a seus dramas apesar do roteiro falhar em desenvolvê-los melhor. No entanto, a ingenuidade, o frescor e o carinho com que todos são tratados na história se reflete na direção sensível de Coppola, que usa e abusa de belíssimas sequências de pôr-do-sol - cortesia de Stephen H. Burum - remetendo tanto ao ocaso da inocência de seus protagonistas quanto à adoração do doce Ponyboy (C. Thomas Howell) pelo livro "...E o vento levou", de Margareth Mitchell, citado em vários momentos no decorrer da narrativa.


"Vidas sem rumo" se passa em uma pequena cidade de Oklahoma, em um ano qualquer durante a década de 50 e narra basicamente a violenta rivalidade entre dois grupos de jovens, os Greasers e os Socials. Do primeiro grupo (assim batizado por utilizarem brilhantina no cabelo) faz parte o protagonista, Ponyboy Curtis, de 14 anos. Órfão e criado pelo irmão mais velho, Darrell (Patrick Swayze) - que também é o responsável pelo outro irmão, Sodapop (Rob Lowe) - Ponyboy vive em constante tensão devido ao clima de guerra declarado pelos dois grupos, que se dividem principalmente por suas classes sociais. Quem acaba por unindo, ainda que por pouco tempo, as duas facções, é a bela Cherry (Diane Lane em papel recusado por Sarah Jessica Parker e Brooke Shields), namorada de um dos líderes dos Socials que faz amizade com Ponyboy e sente-se atraída pelo beligerante Dallas (Matt Dillon), rapaz mais velho que passou inclusive uma temporada na cadeia. A relativa paz entre as duas gangues é interrompida, porém, quando o melhor amigo de Ponyboy, Johnny Cade (Ralph Macchio, o futuro Karatê Kid), mata um dos integrantes do grupo rival, o que desencadeia um recrudescimento ainda maior da violência que os cerca.

Mesmo tratando de uma história onde a violência e a tensão estão sempre presentes, Coppola não se deixa seduzir pela tentação de lavar a tela de sangue - ainda que em uma bela cena ele seja um elemento crucial e impactante. Sua preferência é investigar o relacionamento quase familiar que existe entre seus personagens, que criam um núcleo de auto-proteção e carinho que contrasta com a frieza e a crueldade com que eles constantemente esbarram em seu dia-a-dia. Coppola não se furta a enfatizar, sempre que possível, que aqueles meninos que estão na tela não são maus, nem ferozes, e sim adolescentes carentes de amor, de atenção, de igualdade de chances. É particularmente tocante o destino de Johnny, que acaba sendo o catalisador para o desfecho catártico de toda a trama: justo ele, que flertava com a morte por não suportar a vida como ela lhe aparecia, muda seu ponto de vista quando a encara de frente e precisa lutar para manter-se vivo, enquanto seus amigos partem em sua defesa, em uma cena de briga de gangues que, apesar de curta, já nasceu clássica graças a seu background literário e a seu elenco de ouro.

"Vidas sem rumo" é uma obra feita para se tornar o filme de cabeceira dos fãs do romance - que, a despeito da qualidade da adaptação, ainda assim conseguiram achar do que reclamar - e de adolescentes que se veem retratados com respeito e admiração, sem tentar explicar comportamentos com psicologismos baratos. É um belo e sincero filme, realizado por um diretor apaixonado para um público ainda mais ardoroso, e como tal, é uma versão emocionante e envolvente.

quinta-feira

NEGÓCIO ARRISCADO

NEGÓCIO ARRISCADO (Risky business, 1983, Geffen Company, 99min) Direção e roteiro: Paul Brickman. Fotografia: Bruce Surtees, Reynaldo Villalobos. Montagem: Richard Chew. Música: Tangerine Dream. Figurino: Robert de Mora. Direção de arte/cenários: William J. Cassidy/Ralph Hall. Produção: Jon Avnet, Steve Tisch. Elenco: Tom Cruise, Rebecca de Mornay, Joe Pantoliano, Bronson Pichot, Curtis Armstrong, Richard Masur, Nicholas Pryor, Janet Carroll. Estreia: 05/8/83

Antes de tornar-se o mais bem-sucedido astro do cinema mundial dos anos 90, receber três indicações ao Oscar e se casar com duas das mais talentosas e desejadas mulheres do planeta, Tom Cruise também teve que começar a carreira por baixo. Para sua sorte, entretanto, pouca gente lembra de sua participação no vergonhoso "Porky's 3" - que apesar do título nada tinha a ver com seus antecessores, exceto a pouca qualidade - mas sim de sua estreia oficial como protagonista: a comédia adolescente "Negócio arriscado", que, apesar de fazer parte de um filão bastante popular na década de 80, dá um passo à frente em relação a seus congêneres com a adição de um elemento ousado que muito agradou a seu público alvo: cenas tórridas de sexo.

Tórridas em termos, é bom que se diga. Mesmo que em comparação com a filmografia ingênua e romântica de John Hughes os embates entre Cruise e Rebecca de Mornay sejam bastante quentes, não se pode dizer que o filme escrito e dirigido por Paul Brickman seja mais do que uma simples comédia romântica direcionada a jovens em fase de ebulição hormonal. E são eles que provavelmente se divertem mais com a história criada por Brickman, que se utiliza das dúvidas existenciais adolescentes, de sua busca por sexo e de seus problemas de relacionamento com os pais para entreter por pouco mais de hora e meia. Essa despretensão em legar uma obra-prima, assumindo sem medo seu lado comercial e ligeiro é talvez um dos maiores trunfos de "Negócio arriscado" - que ainda assim deixou para a posteridade uma das cenas mais lembradas da carreira de Tom Cruise, quando ele dança e dubla, somente de camisa, cueca e meias, a clássica "Old time rock'n'roll".


Cruise, que tinha 21 anos à época do lançamento do filme, vive Joel Goodsen, um adolescente de Chicago, filho único, que está às vésperas de ir para a universidade, apesar de não ser exatamente um aluno exemplar. Integrante de um grupo chamado "Empresários do futuro", que prepara os alunos para uma promissora carreira profissional, Joel também é um rapaz tímido, sem experiência sexual assim como seus melhores amigos. Em um final de semana, quando seus pais vão viajar, Joel acaba tendo sua vida virada do avesso quando trava conhecimento com a bela Lana (Rebecca de Mornay em papel que teve entre suas candidatas Kim Basinger e Sharon Stone), uma prostituta que chega à sua casa chamada por Miles (Curtis Armstrong), um de seus melhores amigos. Lana não apenas inicia Joel sexualmente como o envolve em uma confusão com seu cafetão, Guido (Joe Pantoliano) - o que acaba obrigando o jovem, depois de uma inesperada reviravolta, a fazer de sua mansão um bordel para arrecadar uma pequena fortuna.

No fundo, "Negócio arriscado" não passa de uma Sessão da Tarde um pouco apimentada, o que não é demérito nenhum. Não é uma comédia do tipo que desperta gargalhadas, mas é leve, simpático e deu o empurrão que a carreira de Cruise precisava no momento - ele chegou a ser indicado ao Golden Globe de melhor ator em comédia ou musical. Assim como vários outros produtos de sua época direcionados ao público jovem, acabou virando cult e peça indispensável das lembranças de toda uma geração. Apesar de tudo, é um filme que mora no coração de muitos fãs de Cruise - e do cinema dos anos 80.

sábado

SCARFACE


SCARFACE (Scarface, 1983, Universal Pictures, 170min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: Oliver Stone. Fotografia: John A. Alonzo. Montagem: Jerry Greenberg, David Ray. Música: Giorgio Moroder. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Ed Richardson/Bruce Weintraub. Casting: Alixe Gordin. Produção executiva: Louis A. Stroller. Produção: Martin Bregman. Elenco: Al Pacino, Michelle Pfeiffer, Steven Bauer, Mary Elizabeth Mastrantonio, Robert Loggia, F. Murray Abraham. Estreia: 01/12/83

Em 1932, nos primórdios do cinema como o conhecemos hoje, Howard Hawks dirigiu o violento “Scarface, a vergonha de uma nação”, estrelado por Paul Muni. Na versão original, o protagonista tornava-se milionário durante a Lei Seca vigente na Chicago dos anos 20. Sinal dos tempos, a nova versão, dirigida por Brian de Palma e sua câmera nervosa, se passa na Miami dos anos 80 e faz uma radiografia tensa e sanguinolenta de um anti-herói que sobe na vida graças ao tráfico de cocaína. Se perde em charme, que Hawks imprimia em cada trabalho, ganha em realismo e ultraviolência.

Al Pacino, ainda que com muitos dos trejeitos de seu Michael Corleone, de “O Poderoso chefão”, brilha soberano como Tony Montana, um cubano que chega à Miami fugindo do regime totalitário de Fidel Castro. Insatisfeito com a vida quase marginal que vive, ele une-se a seu conterrâneo Manolo (o ótimo Steven Bauer) em um ambicioso negócio de tráfico de drogas que, mesmo dando errado – em uma sequência especialmente angustiante – o apresenta ao poderoso Frank (Robert Loggia), que logo o toma como homem de confiança. Apaixonado pela mulher de Frank, a bela e viciada Elvira (Michelle Pfeiffer, com pouca coisa a fazer a não ser desfilar sua figura esbelta pelas mansões do cenário), não demora muito para que Montana resolva pegar o negócio e o casamento de Frank. Enquanto enriquece vertiginosamente, vai perdendo a confiança em todos a seu redor, inclusive seu amigo Manolo, que, pra piorar ainda mais as coisas, se envolve com a única irmã de Tony, a jovem Gina (Mary Elizabeth Mastrantonio). Sua paranóia crescente e a violência que o cerca o acaba encurralando e o levando a um final trágico.


Não há como negar que Brian de Palma teve coragem em contar a história de Tony Montana sem rodeios nem firulas. O protagonista não é simpático nem tampouco coitadinho. Pacino se entrega furiosamente ao papel, especialmente nas seqüências finais, quando sua paranóia o leva ao isolamento em sua fortaleza, tal qual um personagem shakespereano. Nem o cenário propositalmente cafona consegue, no entanto, disfarçar a competência do diretor em realizar tomadas insuspeitas e criativas, principalmente nas cenas mais violentas e dramáticas. A trilha sonora de Giorgio Moroder, adequada mas quase irritante também cumpre seu papel, localizando o espectador nos aspectos mais regionais e temporais da trama. A edição alucinante - que acompanha a entrega de Montana ao vício - consegue ser impactante sem chamar atenção demasiada a si, o que sempre é sinal de competência. E o roteiro de Oliver Stone - que o escreveu lutando contra uma dependência de cocaína - não brinca em serviço, entregando à audiência um dos mais trágicos retratos do gangsterismo do cinema - e que quase levou um selo "X" à época de seu lançamento.

É notável, também, a coragem dos realizadores em quase explicitar o clima incestuoso entre Montana e Gina. O ciúme exagerado do protagonista em relação à irmã é bastante óbvia aqui, ao contrário do filme original - afinal, ele foi realizado em 1932!!!! E, como prova do talento de Stone como roteirista e polemista, ele aproveita para fazer severas críticas ao regime cubano, mesmo que estas passem batidas para quem se concentra única e exclusivamente à trama central, por si só já forte o bastante para manter a atenção durante suas longas três horas de duração.

Aliás, pode-se dizer que a duração excessiva é o pecado maior de "Scarface", um dos melhores "filmes de gângster" já realizados em Hollywood. Em nenhum momento essa nova versão mancha o nome da original, cujo diretor é devidamente homenageado com uma dedicatória no final. Vinte minutos a menos não trariam prejuízo à história e ajudaria no ritmo, mas mesmo assim é um filme obrigatório, mesmo porque Al Pacino e seu imenso talento sempre valem uma espiada.

sexta-feira

LAÇOS DE TERNURA


LAÇOS DE TERNURA (Terms of endearment, 1983, Paramount Pictures, 132min) Direção: James L. Brooks. Roteiro: James L. Brooks, romance de Larry McMurtry. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem: Richard Marks. Música: Michael Gore. Figurino: Kristi Zea. Direção de arte/cenários: Polly Platt/Anthony Mondell, Tom Pedigo. Casting: Ellen Chenoweth, Juliet Taylor. Produção: James L. Brooks. Elenco: Shirley MacLaine, Debra Winger, Jack Nicholson, Jeff Daniels, John Lithgow, Danny De Vito. Estreia: 20/11/83

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (James L. Brooks), Atriz (Shirley MacLaine, Debra Winger), Ator Coadjuvante (John Lithgow, Jack Nicholson), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora, Direção de arte, Som
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (James L. Brooks), Atriz (Shirley MacLaine), Ator Coadjuvante (Jack Nicholson), Roteiro Adaptado
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Atriz/Drama (Shirley MacLaine), Ator Coadjuvante (Jack Nicholson), Roteiro


Poucos filmes são capazes de fazer rir e chorar com a mesma facilidade. E ainda menos filmes conseguem retratar seres humanos como eles são, com falhas de caráter e mesmo assim adoráveis, com rígidas normas morais e ainda assim capazes de atos condenáveis aos olhos alheios. Talvez por isso “Laços de ternura” tenha feito tanto sucesso e emocionado tanta gente. Ao dar vida aos personagens criados por Larry McMurtry em seu romance homônimo, o roteirista e diretor James L. Brooks fez deles tão humanos quanto os vizinhos. Em uma época de filmes tão fora da realidade quanto “O retorno de Jedi”, a história de amor e quase ódio entre mãe e filha foi um oásis de inteligência e sensibilidade.

Em uma atuação brilhante premiada com o Oscar, a veterana Shirley MacLaine vive Aurora Greenway, uma viúva autoritária que tem sérios problemas com sua única filha, a rebelde Emma (Debra Winger). Quando Emma resolve se casar com o professor universitário Flap (Jeff Daniels), o relacionamento entre elas, que nunca foi dos melhores, fica ainda pior. Enquanto Aurora se envolve aos poucos com seu vizinho, o sedutor ex-astronauta Garrett Breedlove (Jack Nicholson, em mais uma de suas irrepreensíveis atuações), Emma entra em crise em seu casamento, envolve-se com outro homem e descobre ter câncer.


Os direitos do romance de Larry McMurtry foram comprados pela atriz Jennifer Jones, que pensava em interpretar Aurora, com Sissy Spacek no papel de Emma. As mudanças no elenco, no entanto, não poderiam ter sido mais certeiras. Apesar de estar no auge de seu vício em cocaína - e que a levava a constantes brigas com MacLaine - Debra Winger entrega uma atuação comovente e delicada como uma mulher aprisionada em uma vida doméstica insatisfatória que busca refúgio em uma relação extra-conjugal. Indicada ao Oscar de melhor atriz, Winger herdou o papel depois da recusa de Jodie Foster - que preferiu continuar estudando, à época - e está inesquecível principalmente em suas cenas finais, onde sua personagem se despede dos filhos. Difícil segurar as lágrimas.

Mas talvez o maior mérito de “Laços de ternura” seja o de equilibrar brilhantemente o humor e o drama. O terço inicial do filme tem estrutura de uma leve comédia familiar, que aos poucos vai tornando-se um drama sentimental e quase piegas. Nas mãos de atores menos competentes e experientes provavelmente o filme descambaria para um novelão. No entanto, Brooks tem a seu favor um elenco impecável e em dias inspirados. Como mãe e filha, Shirley MacLaine e Debra Winger formam uma dupla de ouro, capazes de passar suas emoções com veracidade e naturalidade. Coadjuvadas por Jack Nicholson (com uma personagem criada especialmente para o filme)e com um texto enxuto e bem escrito para trabalhar em cima não tinha como dar errado. Pode ser choroso, sentimentalóide e até exagerado, mas “Laços de ternura” é provavelmente um dos filmes mais honestos a respeito do relacionamento entre mãe e filha já feitos até hoje. E deu a Shirley MacLaine a oportunidade máxima de sua carreira, merecidamente premiada com um Oscar.

quinta-feira

ZELIG



ZELIG (Zelig, 1983, Orion Pictures, 79min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Susan E. Morse. Música: Dick Hyman. Figurino: Santo Loquasto. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Les Bloom, Janet Rosenbloom. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Mia Farrow, Patrick Horgan, John Buckwalter. Estreia: 15/7/83

2 indicações ao Oscar: Fotografia, Figurino


Os detratores de Woody Allen, que o acusam de ser repetitivo e sem criatividade provavelmente nunca assistiram a "Zelig", uma de suas mais sensacionais obras. Ao contar a história de seu protagonista através de um documentário fake mas absolutamente crível em formato e linguagem, ele adiantou em dez anos a tecnologia que faria a glória de Robert Zemeckis em "Forrest Gump" e de quebra mostrou que é muito mais do que um cineasta limitado ao circuito do humor judaico-intelectual-neurótico com o qual foi rotulado por parte da crítica - e até mesmo por alguns fãs.

O próprio Allen interpreta Leonard Zelig, um homem aparente comum, que, a partir do final dos anos 20, torna-se mania no mundo inteiro devido à sua condição médica: por algum motivo desconhecido, ele é capaz de metamorfosear-se em qualquer tipo de pessoa que esteja por perto. Ao lado de burgueses, ele é um deles. Perto de um obeso, torna-se obeso, e assim por diante. Intrigada com essa surpreendente novidade, a psiquiatra Eudora Fletcher (Mia Farrow) resolve tratá-lo e os dois acabam se apaixonando.

"Zelig" é, sem sombra de dúvida, um dos filmes mais criativos realizados em Hollywood nos anos 80. Irônico ao extremo e ao mesmo tempo carinhoso com seus protagonistas, o roteiro de Allen brinca com tudo que tem direito, sem nunca apelar para o riso escancarado: seu filme faz uma engraçada homenagem aos documentários, aos anos 20 de Fitzgerald e do charleston, ao nascimento da terapia, aos exageros da mídia e debocha descaradamente do nazismo e da busca por fama fácil. Além de tudo isso, ainda encontra espaço para questionar até que ponto os seres humanos podem chegar em sua procura por aceitação.


Se não bastasse seu roteiro espetacular, "Zelig" ainda conta com uma parte técnica além do excepcional. A fotografia de Gordon Willis (envelhecida propositalmente para dar o efeito de antiguidade) e a reconstituição de época são primorosas - não à toa, tanto Willis quanto o figurinista Santo Loquasto foram indicados ao Oscar por seus trabalhos. E é genial a maneira com que o diretor mistura seus protagonistas a celebridades verdadeiras (Charles Chaplin, por exemplo) e cenas de arquivo da época retratada, sem nunca perder o seu principal foco: a hilariante mas nunca pouco comovente história de Zelig e seu problema de auto-ajuste à sociedade.

"Zelig" é o perfeito exemplo de filme que merece ser visto para que se descubra suas vastas qualidades. Tudo que se disser a respeito dele sempre será incompleto, pois é, talvez, o trabalho de Woody Allen mais repleto de nuances e detalhes visuais e contextuais. Uma obra-prima irretocável!

quarta-feira

FLASHDANCE, EM RITMO DE EMBALO


FLASHDANCE, EM RITMO DE EMBALO (Flashdance, 1983, Paramount Pictures, 95min) Direção: Adrian Lyne. Roteiro: Tom Hedley, Joe Eszterhas, história de Tom Hedley. Fotografia: Don Peterman. Montagem: Walt Mulconery, Bud Smith. Música: Giorgio Moroder. Figurino: Michael Kaplan. Direção de arte/cenários: Charles Rosen/Marvin March. Casting: Gretchen Rennell. Produção executiva: Peter Guber, Jon Peters. Produção: Jerry Bruckheimer, Don Simpson. Elenco: Jennifer Beals, Michael Nouri, Lilia Skala, Sunny Johnson. Estreia: 15/4/83

4 indicações ao Oscar: Fotografia, Montagem, Canção ("Flashdance... what a feeling", "Maniac")
Vencedor do Oscar de Canção ("Flashdance... what a feeling")
Vencedor de 2 Golden Globes: Trilha Sonora, Canção ("Flashdance... what a feeling")


É impressionante como, ao contrário da coragem e da ousadia do cinema americano dos anos 70, a filmografia da década de 80 conseguiu esvaziar - e muito - seu conteúdo psicológico e temático. Filmes como "Taxi driver" e "Amargo pesadelo" jamais teriam sido feitos se dependesse da visão oca de produtores como Don Simpson e Jerry Bruckheimer, que, na primeira metade da década entregaram aos frequentadores de cinema sucessos de bilheteria que não eram nada mais do que histórias de densidade dramática nulas embrulhadas em um visual atraente. Um exemplo claro disso é "Flashdance, em ritmo de embalo", que, apesar da fotografia caprichada e da trilha sonora pop cuidadosamente selecionada - e que vendeu mais de 700 mil cópias - é tão desprovido de inteligência que chega a ser constrangedor pensar que fez tanto sucesso.

"Flashdance" conta a história - se é que se pode chamar algo assim de história - de Alex Owens (Jennifer Beals com 18 anos que aparentam 25), uma jovem que sonha em ter uma carreira de dançarina e ganha a vida como soldadora (!!!). Incentivada por uma veterana bailarina, Hannah (Lilia Skala), e por uma dupla de amigos que aguardam o sucesso enquanto trabalham em bares e restaurantes, ela deseja inscrever-se em um curso profissionalizante. Enquanto isso não acontece ela inicia um romance com seu chefe, Nick Hurley (Michael Nouri). E o filme é só isso.


Quase metade do filme de Adrian Lyne (que se especializaria em projetos visualmente interessantes mas artisticamente capengas) é formado por sequências de dança, todas elas extremamente bem fotografadas, ainda que com a cara um tanto cafona dos anos 80. De cinco em cinco minutos a plateia é bombardeada com Beals e cia dançando de forma sexy em palcos, academias, em casa ou em ringues de patinação, ao som de uma trilha sonora marcante que apresenta inclusive a vencedora do Oscar cantada por Irene Cara. Os conflitos das personagens chegam a ser risíveis e é tudo tão, mas tão previsível e forçado que tem-se a impressão que o filme realmente não é pra ser levado a sério. Mas o problema é que é!

O roteiro de Joe Ezsterhas - que no início dos anos 90 ficaria rico com "Instinto selvagem" - não se dá ao trabalho de aprofundar nenhuma relação entre suas personagens, fazendo-as rasas e sem muito carisma. Nem mesmo a protagonista é suficientemente bela e/ou sensual para angariar a simpatia por méritos físicos. Não foi à toa que a carreira de Beals não decolou (sorte de Demi Moore, que quase ficou com o papel) e que Michael Nouri também não teve muito êxitos de bilheteria na sequência (e seu papel esteve em vias de ser interpretado por Kevin Costner...)

"Flashdance, em ritmo de embalo" é, na verdade, o tipo de filme que lembra uma época, que tem valor nostálgico, que serve de piada e que pode servir de telão de fundo em uma festa temática anos 80. Mas enquanto cinema não convence em momento algum. Pelo menos serviu de inspiração para Jennifer Lopez criar o vídeo-clipe "I'm glad", bem mais sensual e interessante.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...