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quinta-feira

AS CONFISSÕES DE SCHMIDT


AS CONFISSÕES DE SCHMIDT (About Schmidt, 2002, New Line Cinema, 125min) Direção: Alexander Payne. Roteiro: Alexander Payne, Jim Taylor, romance de Louis Begley. Fotografia: James Glennon. Montagem: Kevin Tent. Música: Rolfe Kent. Figurino: Wendy Chuck. Direção de arte/cenários: Jane Ann Stewart/Teresa Visinare. Produção executiva: Bill Badalato, Rachel Horovitz. Produção: Michael Besman, Harry Gittes. Elenco: Jack Nicholson, Hope Davis, Dermot Mulroney, Kathy Bates, June Squibb. Estreia: 22/5/2002 (Festival de Cannes)

2 indicações ao Oscar: Ator (Jack Nicholson), Atriz Coadjuvante (Kathy Bates)

Vencedor de 2 Golden Globes: Ator/Drama (Jack Nicholson), Roteiro 

Quando Jack Nicholson subiu ao palco na cerimônia de entrega dos Golden Globes 2003 para receber sua estatueta não conseguiu esconder certa surpresa: segundo ele, foi inesperado ser eleito o melhor ator dramático do ano por um filme que ele considerava uma comédia. Parte da responsabilidade de tal confusão, na verdade, é do diretor Alexander Payne: assim como acontece em toda a sua filmografia, o cineasta não hesita, em "As confissões de Schmidt", em borrar as fronteiras que separam o riso das lágrimas, criando um adorável híbrido que aproxima, como raramente acontece, o espectador de seus personagens - quase todos críveis e humanos apesar de suas idiossincrasias. É um bálsamo para seus elencos - não à toa seus intérpretes chegam à corrida do Oscar - e um oásis para seu público, exposto a tramas e situações que, corriqueiras ou não, soam refrescantes diante de uma dieta abarrotada de blockbusters com personagens rasos e enredos indigentes. Frequentemente encontrando material na literatura, Payne é, também, um roteirista excepcional, capaz de extrair o melhor de suas fontes originais - ou, em alguns casos, alterá-las para que melhor caibam em seu universo. Baseado no primeiro livro de uma trilogia de Louis Begley, "As confissões de Schmidt" tem mudanças substanciais em sua história - feitas com o objetivo de encaixá-las em um argumento original do diretor e aliviar um pouco a personalidade talvez polêmica em excesso do personagem principal -, mas mantém o tom irônico do autor do romance e permite a Nicholson que exercite uma persona quase rara em sua carreira: um homem comum.

Primeira e única opção de Payne para o papel de Warren Schmidt, um homem confrontado com a solidão e a relação difícil com a filha única, Nicholson apresenta à plateia um lado frágil que lhe permite exercitar a comédia e o drama com iguais medidas. Enquanto o roteiro não se furta a apelar para momentos de humor - a briga com um colchão d'água e um encontro inesperado em uma jacuzzi, por exemplo, são sensacionais - tampouco foge de revelar os sentimentos mais sinceros do personagem em cenas cruciais. À vontade como há muito não conseguia estar, Nicholson encontra em Kathy Bates a parceira ideal para um embate dos mais fascinantes - não por acaso Bates arrebatou uma indicação ao Oscar de coadjuvante e protagoniza uma das cenas mais memoráveis do filme (aquela que conta com a jacuzzi). Construindo seu Schmidt com detalhes sutis e sem implorar pela empatia do público - pelo contrário, o personagem soa até desagradável em algumas situações -, o ator volta a encantar aos fãs com um desempenho irretocável, em que disfarça até mesmo os tiques que colecionou em sua longa carreira. No fim das contas, apesar de todos os defeitos - e principalmente por causa do carisma de Nicholson - é fácil simpatizar com o protagonista, um homem com quem se pode cruzar em qualquer supermercado.

 

Funcionário dedicado de uma seguradora, Warren Schmidt não sabe exatamente o que fazer com a chegada da aposentadoria. Sua vida tediosa consiste em trabalhar e conviver com a esposa, Helen (June Squibb) - em quem, segundo confessa, não reconhece a mulher com que se casou quase quarenta anos antes. Sua filha, Jeannie (Hope Davis) há muito não mora com os pais e está de casamento marcado com Randall Hertzel (Dermot Mulroney), de quem Warren não tem a melhor opinião. Quando Helen morre subitamente, Schmidt precisa lidar não apenas com a solidão inesperada e com o descaso da filha - ele precisa encontrar um novo motivo para seguir seus dias, algo além da adoção à distância de um pequeno órfão africano, com quem se corresponde com surpreendente sinceridade. Viajando do Nebraska até o Colorado para o casamento de Jeannie, ele vai encontrar no caminho pessoas que vão lhe abrir os olhos em relação a tudo que o cerca - especialmente Roberta (Kathy Bates), a personalíssima mãe de Randall, uma mulher cuja independência chega a assustar seu conservadorismo.

Ignorando os dois últimos livros da trilogia de Louis Begley, Alexander Payne faz de "As confissões de Schmidt" um filme coerente com sua obra, tanto em termos temáticos quanto visuais. Explorando personagens distantes de qualquer glamour e demonstrando por eles um carinho disfarçado de ironia, o cineasta convida o espectador a uma visita à vida de gente comum, com problemas ordinários e nem sempre com soluções perfeitas para eles. O final agridoce sublinha o tom melancólico da narrativa, mas jamais força o público à emoção barata. Seu estilo distante pode soar seco, mas no fundo Payne é um humanista, um autor que consegue enxergar a beleza e a generosidade até mesmo no mais impenitente misantropo. Os fãs de histórias sobre gente como a gente só podem agradecer seus presentes ao cinema.

sábado

CONSPIRAÇÃO E PODER

CONSPIRAÇÃO E PODER (Truth, 2015, Sony Pictures Classics, 125min) Direção: James Vanderbilt. Roteiro: James Vanderbilt, livro "Truth and duty: the press. the president, and the privilege of power", de Mary Mapes. Fotografia: Mandy Walker. Montagem: Richard Francis-Bruce. Música: Brian Tyler. Figurino: Amanda Neale. Direção de arte/cenários: Fiona Crombie, Kirk Petruccelli/Glen W. Johnson. Produção executiva: Antonia Barnard, Mikkel Bondesen, James Packer, Steven Silver, Neil Tabatznik. Produção: Bradley J. Fischer, Doug Mankoff, Brett Ratner, William Sherak, Andrew Spaulding, James Vanderbilt. Elenco: Cate Blanchett, Robert Redford, Dennis Quaid, Topher Grace, Elisabeth Moss, Bruce Greenwood, Stacy Keach, Dermot Mulroney. Estreia: 12/9/15 (Festival de Toronto)

O romance entre o cinema e os bastidores do jornalismo já rendeu clássicos inquestionáveis, desde aqueles que defendem a imprensa - "Todos os homens do presidente" (76) - até aqueles que criticam seus abusos - "A montanha dos sete abutres" (57) e "Rede de intrigas" (76). Em 2015, para marcar sua estreia como diretor, o roteirista James Vanderbilt resolveu acrescentar mais um título à primeira lista com "Conspiração e poder", transposição para as telas de uma história real que abalou o telejornalismo norte-americano em 2004 e colocou o então candidato à reeleição George W. Bush diante de um escândalo que quase lhe custou o segundo mandato - mas que, por incrível que pareça, prejudicou muito mais a equipe jornalística do prestigiado "60 minutos", incluindo seu respeitado apresentador Dan Rather. Com base no livro escrito por Mary Mapes, a produtora do programa e principal mira do ataque dos partidários de Bush, Vanderbilt - autor do elogiado script de "Zodíaco" (06), de David Fincher - amargou um fracasso de bilheteria e foi ignorado pelas cerimônias de premiação, mas não faz feio em comparação com outros filmes do gênero, principalmente pela equação equilibrada entre uma boa história e um elenco afiadíssimo, liderado por Cate Blanchett e Robert Redford - coincidentemente um dos atores centrais do icônico "Todos os homens do presidente".

Se no celebrado filme de Alan J. Pakula o galã mais cobiçado das décadas de 60 e 70 vivia um dos repórteres que desmascararam o presidente Richard Nixon no escândalo chamado Watergate, dessa vez Redford assume com tranquilidade um papel de segundo plano, ainda que igualmente importante para os desdobramentos da ação. Cabe à Cate Blanchett - linda e excelente atriz como sempre - a função de estar na linha de frente. Ela vive Mary Mapes, uma competente e dedicada produtora jornalística, responsável por algumas das pautas mais premiadas e importantes do programa "60 Minutos", apresentado pelo veterano Dan Rather (Redford, em atuação elogiada pelo próprio repórter) na CBS. Conhecida por sua fé no jornalismo como fonte de levar a verdade ao público, ela põe a mão em uma matéria de enorme potencial político quando, em 2004, descobre uma série de documentos que comprovam que o então jovem George W. Bush usou de sua influência política e financeira para fugir da Guerra do Vietnã - e, pior ainda, desertou do serviço militar por um período de tempo. Partindo apenas da palavra de Bill Burkett (Stacy Keach) um ex-militar ressentido contra o governo, e com pressa de colocar o programa no ar antes das eleições, Mapes logo sente o gostinho do sucesso ser substituído pelo sabor amargo da opinião pública: peritos surgem para questionar os documentos, testemunhas antes seguras dos fatos mudam de ideia e até mesmo alguns poderosos da emissora passam a duvidar da veracidade da notícia. Sua carreira, até então intocável, passa a depender de ela conseguir provar suas acusações.





Imprimindo um tom sóbrio e elegante à sua narrativa, James Vanderbilt faz uma estreia bastante competente, com bom uso de todos os elementos clássicos do gênero e a exploração correta de cada membro de sua equipe, da diretora de fotografia Mandy Walker e do editor Richard Francis-Bruce - indicado ao Oscar por "Um sonho de liberdade" (94) e "Seven" (95) - até a trilha sonora minimalista, quase imperceptível, de Brian Tyler, que só se faz notar em momentos cruciais, mantendo-se discreta e eficaz durante toda a projeção. Tomando claramente o lado de Mapes na questão - afinal de contas o ponto de vista é dela - e questionando com contundência os mecanismos da busca incansável pela verdade no jornalismo, Vanderbilt cria um panorama bastante rico da situação, conduzindo a plateia pelos meandros do telejornalismo sem nunca perder de mão seu interesse pelos personagens. O time formado por Mapes é tratado com carinho e particular interesse, explorando os desejos e ambições de cada um que a cerca. Há Roger Charles (Dennis Quaid), um militar aposentado e ainda fiel à sua vocação, mas ainda mais leal à verdade; há o jovem Mike Smith (Topher Grace), cuja carreira repleta de altos e baixos trai sua sede de aventuras; e há Lucy Scott (Elizabeth Moss), que entra na jogada com o objetivo de somar pontos à sua carreira e acaba por encontrar um labirinto traiçoeiro. O roteiro dá espaço a cada um desses personagens, mas jamais perde o foco - e essa é sua maior qualidade.

Sem buscar apoio em momentos cômicos ou românticos, "Conspiração e poder" é um retrato atraente e envolvente de um assunto cada vez mais em voga em tempos tão vorazes em termos de informação (e má informação): discutindo os limites da ética e a força do dinheiro e do poder em questões de alto impacto, o roteiro é uma aula de narrativa simples e direta. Apesar de sua verborragia - algo de que poucos filmes sobre o assunto conseguem escapar - e do interesse quase restrito ao público norte-americano (que fez pouco caso do filme nas bilheterias, injustamente), é uma produção de classe e inteligência, que conquista o espectador pelo cérebro e não pela adrenalina. Pode soar um tanto esquemático e frio para quem busca mais tensão e um grande clímax, mas é potente o bastante para permanecer na memória - em especial graças ao desempenho exemplar (mais um!) de Cate Blanchett. Corpo e alma do filme, ela responde pelas cenas mais intensas da produção - em especial em seu embate final com seus inquisidores, liderados por Dermot Mulroney. Estoica, corajosa e brilhante, Mary Mapes encontrou em Blanchett a intérprete ideal. E ao público, resta aplaudir.

terça-feira

ÁLBUM DE FAMÍLIA

ÁLBUM DE FAMÍLIA (August: Osage County, 2013, The Weinstein Company, 121min) Direção: John Wells. Roteiro: Tracy Letts, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Adriano Goldman. Montagem: Stephen Mirrione. Música: Gustavo Santaolalla. Figurino: Cindy Evans. Direção de arte/cenários: David Gropman/Nancy Haigh. Produção executiva: Ron Burkle, Celia Costas, Jerry Frankel, Claire Rudnick Polstein, Jeffrey Richards, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: George Clooney, Jean Doumanian, Grant Heslov, Steve Traxler. Elenco: Meryl Streep, Julia Roberts, Ewan McGregor, Sam Shepard, Chris Cooper, Benedict Cumberbatch, Juliette Lewis, Abigail Breslin, Margo Martindale, Julianne Nicholson, Dermot Mulroney. Estreia: 09/9/13 (Festival de Toronto)

2 indicações ao Oscar: Atriz (Meryl Streep), Atriz Coadjuvante (Julia Roberts)

O dramaturgo Tracy Letts foi apresentado ao público cinéfilo com o ultra-violento e cínico “Killer Joe, matador de aluguel”, que chegou às telas sob a direção do veterano William Friedkin e apresentava uma família cuja desfuncionalidade chegava às raias do assassinato. Os personagens de “Álbum de família”, também baseado em um de seus textos teatrais, não alcançam tal extremo, mas dificilmente podem ser considerados exemplos de equilíbrio e respeito por laços de sangue. Interpretados por alguns dos maiores nomes do cinema atual, os membros da família Weston fazem desfilar pela tela, em cerca de duas horas de duração, um festival de rancores, humilhações, ciúmes, inveja e agressão capaz de causar inveja à Tenessee Williams e Edward Albee. Infelizmente, nem mesmo a experiência do elenco excepcional consegue disfarçar a inseguirança do diretor John Wells, que, confiando plenamente em seus atores e no texto pulsante de Letts, parece ter medo de fugir da armadilha do teatro filmado.

Ok, Wells até foge dos limites do cenário único – no caso, a velha casa da família Weston, localizada na pequena cidade de August, condado de Osage (daí o título original) – mas não é o bastante para esconder as origens teatrais da história. Para sua sorte, o texto de Letts é ágil o bastante para prender a atenção do público até suas cenas finais, principalmente porque os dramas do clã retratado pelo dramaturgo são os mais variados possíveis, indo de romances ilícitos até a segredos mantidos por décadas. No centro de todo o furacão emocional está a matriarca Violet (Meryl Streep no papel que lhe rendeu sua 18ª indicação ao Oscar), que depois do desaparecimento do marido, Beverly (Sam Shepard), recebe em sua propriedade toda a sua família - e, junto com ela, uma série de problemas que resolvem vir à tona encorajados pela falta de tato da anfitriã, que sofre de câncer na língua e vê seus medicamentos falarem mais alto que a delicadeza. É assim que ela enfrenta, amarga e cruel, a filha mais velha, Barbara (Julia Roberts), que passa por uma grave crise no casamento com Bill (Ewan McGregor) – cujo relacionamento extraconjugal com uma mulher mais jovem não consegue ser esquecida por ela – e na criação da única filha, a adolescente Jean (Abigail Breslin em papel para o qual foi testada a também excelente Chloe Grace Moretz). Barbara era a filha preferida de Beverly, e quando ele finalmente é encontrado morto, seu funeral aprofunda ainda mais as diferenças da família.



A única que ficou em casa cuidando da mãe durante sua doença, Ivy (Julianne Nicholson) é tratada com desprezo por Violet, que não vê nela a capacidade de casar ou viver uma história de amor – em segredo, porém, ela está apaixonada e é correspondida pelo primo, Charlie (Benedict Cumberbatch), que, assim como ela, é menosprezado pela mãe, Mattie Fae (a ótima Margo Martindale substituindo Kathy Bates, sondada pela produção), mas protegido pelo pai, Charles (Chris Cooper). Fechando o barulhento grupo está a caçula do trio de filhas de Violet, a inconsequente Karen (Juliette Lewis), que chega acompanhada do novo namorado, Steve (Dermot Mulroney) – que acaba por se engraçar com a adolescente Jean, para desespero de Barbara e Bill. Testemunhando toda a confusão, há a empregada doméstica Johnna (Misty         Uphaim), de origem indígena e alvo de constantes ataques de racismo por parte de Violet. É essa família que irá passar um fim-de-semana inteiro lavando a roupa suja acumulada por anos e anos de segredos e meias-verdades.

“Álbum de família” é um show de atores. John Wells nem tem muito trabalho em comandar seu elenco, completamente à vontade em papéis repletos de possibilidades – todas elas exploradas à perfeição. Os embates mais verbalmente violentos – entre Meryl Streep e Julia Roberts, ambas indicadas pela Academia – são uma delícia de assistir, principalmente porque Streep deita e rola com uma personagem francamente desagradável e hostil e Roberts deixa de lado sua persona de estrela para entregar uma atuação forte e visceral. Wells não se preocupa em criar um visual marcante, preferindo dedicar-se a aproveitar a carpintaria dramática do texto de Letts – com reviravoltas dignas de uma boa telenovela – como base para seu filme. Experiente em programas de televisão (dirigiu vários episódios da série “Plantão médico”) mas com apenas um outro filme no currículo, o pouco visto “A grande virada”, de 2001, Wells não consegue escapar de uma direção pouco inventiva e ousada. Mesmo que a produção caminhe sem trancos até o final (diferente do desfecho da peça) fica a nítida impressão de um filme que não atingiu todo o seu potencial. Ainda assim, é um prazer enorme ser testemunha de tantos shows de interpretação concentrados em pouco mais de duas horas.

quinta-feira

COLCHA DE RETALHOS

COLCHA DE RETALHOS (How to make an american quilt, 1995, Amblin Entertainment/Universal Pictures, 109min) Direção: Jocelyn Moorhouse. Roteiro: Jane Anderson, romance de Whitney Otto. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Jill Bilcock. Música: Thomas Newman. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Leslie Dilley/Marvin March. Produção executiva: Laurie MacDonald, Deborah Jelin Newmyer, Walter F. Parkes. Produção: Sarah Pilsbury, Midge Sanford. Elenco: Winona Ryder, Anne Bancroft, Ellen Burstyn, Dermot Mulroney, Kate Nelligan, Alfre Woodard, Claire Danes, Lois Smith, Jean Simmons, Kate Capshaw, Adam Baldwin, Maya Angelou, Dennis Arnt, Rip Torn, Johnathon Schaech, Samantha Mathis, Loren Dean, Melinda Dillon, Richard Jenkins, Jared Leto. Estreia: 06/10/95

Se é que existe um subgênero cinematográfico que se pode chamar "filme de mulher", o drama romântico "Colcha de retalhos" é um perfeito exemplar dele. Dirigido pela australiana Jocelyn Moorhouse com base no romance de Whitney Otto, o filme lembra a estrutura do belo "O clube da felicidade e da sorte", substituindo as gerações de nipo-americanas do filme de Wayne Wang por um grupo de amigas de meia-idade que se utilizam de suas experiências de vida para dar rumo à confusa neta de uma delas, que não se sente preparada para assumir o compromisso de um casamento - ao mesmo tempo em que termina uma tese para a faculdade. Com um invejável elenco feminino e dotado de sensibilidade e delicadeza, o filme de Moorhouse pode não ter feito muito barulho em seu lançamento, mas dentro do que se propõe não deixa de ser um entretenimento agradável, apesar de ser prejudicado por sua estrutura frágil e um tanto previsível.

Finn Todd (Winona Ryder, linda e disfarçando seus defeitos como atriz com carisma e simpatia) é uma jovem de 26 anos que acaba de ser pedida em casamento por seu namorado, o arquiteto Sam (Dermot Mulroney). Com medo das responsabilidades que vem junto com o compromisso, ela pede a ele um tempo e viaja para a fazenda de sua avó, Hy (Ellen Burstyn). Lá, ela espera concluir sua tese de mestrado, enquanto decide os rumos de sua vida. Suas dúvidas aumentam quando ela conhece o sedutor Leon (Johnathon Schaech), que balança seus alicerces com seu ar romântico que contrasta com a praticidade de Sam. No decorrer do verão, Finn - que tem como espelho de relacionamento o casamento frustrado dos pais - passa a conhecer as diversas histórias que circundam as amigas de sua avó e da irmã dela, Glady Joe (Anne Bancroft), que se reunem diariamente para confeccionar uma colcha de retalhos: cada uma delas, incluindo suas familiares, tem dramas e tragédias pessoais em seu passado, que ajudarão a jovem a decidir seu destino.


Apesar de ser a espinha dorsal do filme, a hesitação de Finn em entregar-se a uma vida adulta romanticamente estável é a parte menos interessante do trabalho de Moorhouse, talvez por não ser suficientemente explorada psicologicamente - a protagonista parece mais uma jovem mimada do que uma mulher realmente em busca de estabilidade emocional, apesar dos esforços de Winona Ryder, uma atriz limitada mas aqui razoavelmente convincente. São as tramas paralelas que a envolvem que fazem valer a pena assistir-se a "Colcha de retalhos", principalmente porque sempre é um prazer testemunhar os shows de interpretação de gente como Anne Bancroft e Ellen Burstyn, que, na pele de duas irmãs com um passado traumático, roubam sem muito esforço cada cena em que aparecem. O elenco veterano, aliás, está extremamente à vontade, provando à Hollywood que, se bons papéis para atrizes maduras são raros, não o são intérpretes de talento e carisma. Uma pena, porém, que tais atrizes - Lois Smith, Kate Nelligan, Melinda Dillon - tenham tão pouco tempo em cena.

No final das contas, "Colcha de retalhos" cumpre o que promete. É romântico, sincero, dramático sem exageros e bem interpretado. Não ousa nem surpreende, mas tampouco eram essas as intenções dos produtores e da diretora. Seu público-alvo certamente não tem do que se queixar. É um entretenimento simples e eficiente que tem, entre seus coadjuvantes juvenis, Claire Danes e Jared Leto em início de carreira. Talvez carregue no açúcar em alguns momentos, mas não tem contra-indicações.

MEU QUERIDO COMPANHEIRO

MEU QUERIDO COMPANHEIRO (Longtime companion, 1989, American Playhouse, 96min) Direção: Norman René. Roteiro: Craig Lucas. Fotografia: Tony Jannelli. Montagem: Katherine Wenning. Música: Greg DeBelles. Figurino: Walter Hicklin. Direção de arte/cenários: Andrew Jackness/Kate Conklin. Produção executiva: Lindsay Law. Produção: Stan Wlodkowski. Elenco: Campbell Scott, Bruce Davison, Mary-Louise Parker, Dermot Mulroney, Patrick Cassidy, John Dossett, Stephen Caffrey, Mark Lamos, Michael Schoeffling. Estreia: 11/10/89

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Bruce Davison)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Bruce Davison)

Levando-se em consideração que as primeiras notícias sobre a AIDS - então tratada como "câncer gay" - surgiram no início dos anos 80, é quase chocante perceber que demorou quase uma década até que o tema fosse tratado devidamente no cinema americano. E o primeiro filme a tratar abertamente sobre a doença nem surgiu de um grande estúdio, como se poderia prever. "Meu querido companheiro" é uma produção independente que, apesar de não contar com o aparato de marketing que transforma um filme em sucesso de bilheteria, conquistou a crítica e proporcionou a Bruce Davison um dos papéis mais marcantes de sua carreira. Por seu trabalho no filme de Norman René, Davison foi eleito melhor ator coadjuvante do ano no Independent Spirit Awards, pelas associações de críticos de Nova York e Los Angeles e pelos eleitores do Golden Globe. Só perdeu o Oscar para Joe Pesci, de "Os bons companheiros" porque a Academia provavelmente achou que deveria homenagear o filme de Scorsese ao menos em uma categoria, no ano em que o superestimado "Dança com lobos" sagrou-se vencedor.

Em um filme sem protagonistas, que é valorizado pelo elenco homogêneo, Davison se destaca no papel de um homem que se vê obrigado a cuidar do amante roteirista de TV quando ele fica doente, mas a força do filme reside basicamente no tom emocional/documental impresso pelo roteiro de Craig Lucas, que faz um panorama do impacto da doença em um grupo restrito de amigos nova-iorquinos desde suas primeiras notícias, em julho de 1981 até o ano de 1988, quando a epidemia tornou-se visível o bastante para suscitar eventos beneficentes e a atenção do povo em geral. Nesse ponto é crucial a presença do advogado Fuzzy (Stephen Caffrey), que entra no grupo através de sua paixão por Willy (Campbell Scott) e se torna um ativista dos direitos dos gays soropositivos. Através dele o público toma contato com o preconceito ativo nos primórdios da AIDS, que tirava inclusive oportunidades de emprego - caso de Howard (Patrick Cassidy), ator que perde o trabalho em uma novela por culpa de seu relacionamento homossexual com um homem vítima da doença.


Tratando com o máximo de leveza possível um tema difícil, "Meu querido companheiro" também não se furta a retratar o preconceito até mesmo dentro do próprio núcleo de amizades entre os personagens. Nesse sentido, é emblemática a sequência em que Willy vai fazer uma visita no hospital e fica desesperado com a possibilidade de sequer tocar em qualquer coisa que possa lhe contaminar. Essa paranoia que tomou conta da comunidade gay também é mostrada no afastamento físico gradual entre ele e Fuzzy - que veem seu relacionamento esfriar conforme o medo da contaminação vai crescendo dentro de todo o grupo. Aos poucos o medo torna-se também uma ameaça real ao amor - talvez ainda mais devastadora e triste. René é contundente também ao substituir o tom festivo e libertário de sua primeira metade pela melancolia e opressão da segunda, como forma de sublinhar as mudanças de comportamento do então chamado "grupo de risco".

O roteiro de "Meu querido companheiro" não consegue fugir de certa superficialidade em vários momentos, principalmente porque sua estrutura não dá espaço para maior aprofundamento dos personagens. Mesmo assim dá a seus atores a oportunidade de desenvolver um trabalho de delicadeza e importância rara, em um período em que os grandes estúdios simplesmente ignoravam uma das maiores tragédias do século XX. A cena final, terna e comovente, fecha com inteligência e sensibilidade um filme que merecia ter sido mais comentado e assistido em seu lançamento, por sua relevância social e por sua qualidade dramática.

sábado

ZODÍACO

ZODÍACO (Zodiac, 2007, Paramount Pictures/Warner Bros, 157min) Direção: David Fincher. Roteiro: James Vanderbilt, livro de Robert Graysmith. Fotografia: Harris Savides. Montagem: Angus Wall. Música: David Shire. Figurino: Casey Storm. Direção de arte/cenários: Donald Graham Burt/Victor Zolfo. Produção executiva: Louis Phillips. Produção: Ceán Chaffin, Bradley J. Fischer, Mike Medavoy, Arnold W. Messer, James Vanderbilt. Elenco: Jake Gyllenhaal, Robert Downey Jr., Mark Ruffalo, Chloe Sevigny, Brian Cox, Dermot Mulroney, John Carrol Lynch, Anthony Edwards, James Les Gros, Elias Koteas. Estreia: 02/3/07

Só mesmo um cineasta do porte e do talento de David Fincher para conseguir a façanha de prender a atenção do público em um filme de duas horas e meia de duração cujo final - ou falta de - é do conhecimento quase geral. Baseado na história real do assassino que atormentou a baía de San Francisco entre 1969 e o início dos anos 70, o diretor de "Seven, os sete crimes capitais" - outra obra-prima do gênero - criou um espetáculo cinematográfico do mais alto gabarito, que funciona emt todos os níveis nos quais se arrisca. "Zodíaco" é tanto um policial cerebral com a cara dos filmes setentistas quanto um drama a respeito de uma quase obsessão. Não quer assustar, quer apenas contar uma boa história. E o faz com maestria.

Baseado no livro escrito por Robert Graysmith, cartunista do San Francisco Chronicle na época em que se passa a história - e interpretado no filme por Jake Gyllenhaal - "Zodíaco" começa no dia 4 de julho de 1969, com o violento assassinato de um casal, filmado com a perfeição que se espera do cineasta. A partir daí - e de uma carta escrita pelo assassino para os principais jornais da área do crime, pedindo atenção aos símbolos constantes na correspondência - toda a trama se desenrola em duas frentes. Enquanto Graysmith, um rapaz apaixonado por enigmas tenta decifrar as mensagens do assassino (autointitulado Zodíaco) e conta com uma espécie de apoio de seu colega de jornal Paul Avery (Robert Downey Jr. em atuação espetacular que lhe pôs novamente nos trilhos do sucesso crítico e comercial), os policiais encarregados do caso buscam pistas e soluções com os recursos que possuem - vale lembrar que à época não havia facilidades como internet. Liderados pelo detetive Dave Toschi (Mark Ruffallo), eles lutam também contra a burocracia que impede o fluxo de informações entre delegacias diferentes.


Contando de forma sóbria e com ritmo próprio uma história assustadora por ser real e empolgante por ser morbidamente excitante, David Fincher exercita seu estilo moderno sem deixar que a técnica sobrepuje a qualidade dramática do roteiro espetacular de James Vanderbilt. Ao tomar licenças poéticas - como criar uma amizade que nunca existiu entre Graysmith e Paul Avery, que em nada se parecia com Downey Jr. - o cineasta opta por trilhar um caminho que, ao invés de incomodar os puristas, apenas encanta os fãs de bom cinema. Utilizando de maneira exemplar o desenho de som e a edição, Fincher foge o máximo possível da estética claustrofóbica e úmida de "Seven", construindo uma narrativa em forma de quebra-cabeças, com peças que se unem conforme o tempo vai passando e todas as informações vão se completando - muito mais diante dos olhos do público do que para seus investigadores, deixando ao espectador tirar suas próprias conclusões.

E não bastasse o domínio perfeito de sua técnica, David Fincher ainda mantém, em "Zodíaco" uma das maiores qualidades de sua filmografia: a excepcional direção de atores. Tendo plena consciência de que não adiantaria reconstruir com detalhes quase obsessivos a redação do San Francisco Chronicle ou os cenários dos violentos crimes cometidos pelo serial killer se não houvesse um aparato artístico forte por trás do projeto, o diretor escalou um elenco fabuloso liderado por três atores em perfeita sintonia. Jake Gyllenhaal, em ótimo momento na carreira cria um Robert Graysmith impecável em sua quase obsessão pelo criminoso. Mark Ruffalo brilha como Dave Toschi - uma figura exuberante e extremamente simpática - e Robert Downey Jr. rouba todas as cenas em que aparece com seu Paul Avery. Não bastasse tudo isso, o elenco coadjuvante conta com nomes conhecidos do público, como Dermot Mulroney, Chloe Sevigny, Anthony Edwards e John Carrol Lynch, além de um Brian Cox impagável em uma sequência de arrepiar.

Um dos melhores filmes de sua temporada, "Zodíaco" foi injustamente esquecido pelas cerimônias de premiação. É inteligente, excitante e dirigido com perfeição. Destinado a clássico.

terça-feira

TUDO EM FAMÍLIA


TUDO EM FAMÍLIA (The family Stone, 2005, Fox 2000 Pictures, 103min) Direção e roteiro: Thomas Bezucha. Fotografia: Jonathan Brown. Montagem: Jeffrey Ford. Música: Michael Giacchino. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Jane Ann Stewart/Matt Callahan. Produção executiva: Jennifer Odgen. Produção: Michael London. Elenco: Sarah Jessica Parker, Diane Keaton, Claire Danes, Dermot Mulroney, Luke Wilson, Rachel McAdams, Craig T. Nelson. Estreia: 16/12/05

 Multipremiada, famosa e milionária com a série "Sex and the city", a atriz Sarah Jessica Parker ainda precisava provar que poderia encarar uma carreira no cinema independente do sucesso de sua Carrie Bradshaw. Um dos primeiros passos nessa direção foi "Tudo em família", uma comédia dramática com toques de romance que, apesar de não ter sido um estouro de bilheteria teve uma arrecadação boa o suficiente para provar que ela não era atriz de uma personagem só. Mesmo que sua Meredith Morton ainda carregue alguns dos maneirismos de sua mais famosa criação, Parker foi indicada ao Golden Globe por seu trabalho no filme do desconhecido Thomas Bezucha.

Dando seguimento aos tradicionais filmes natalinos que os americanos tanto aplaudem, "Tudo em família" consegue, por outro lado, fugir do que se espera de um produto do gênero. Ao invés de famílias desfuncionais que aproveitam os feriados para lavar a roupa suja e botar pra fora todo tipo de mágoa e trauma, o que se vê no filme de Bezucha é um núcleo familiar amoroso e coeso que vê a chegada de um novo membro como uma ameaça a sua integridade - mesmo que esse temor seja injustificado ou explicado apenas superficialmente pelo roteiro. A família em questão é o clã Stone. Liderado por Sybill (Diane Keaton) e Kelly (Craig T. Nelson), o grupo familiar é o oposto do que se vê em dramas similares.

Afetuosos e apaixonados, eles tem na vasta ninhada seu motivo maior de orgulho: Thad (Ty Giordano) é surdo-mudo e vê sua família aprovar e incentivar seu relacionamento homossexual com Patrick (Brian White); a doce Susannah (Elizabeth Reaser) está em vias de dar à luz; a caçula Amy (Rachel McAdams) é linda e inteligente; o meigo Ben (Luke Wilson) não dá trabalho nenhum e o mais velho, Everett (Dermot Mulroney) é o preferido da mãe. E é justamente Everett, que mora em Nova York, que é o responsável pela bomba jogada no seio familiar quando chega para o Natal acompanhado da noiva, Meredith (Sarah Jessica Parker), com quem todos implicam de imediato. Sentindo-se rejeitada (e coberta de razão), ela apela para a irmã mais nova, Julie (Claire Danes), que chega para ajudá-la e se apaixona por Everett. Para complicar ainda mais as coisas, Ben se encanta por Meredith.



O maior mérito do roteiro de Bezucha é equilibrar a contento o romance, a comédia e o dramalhão - sim, uma doença fatal se impõe sobre todos, obrigando a uma nova visão a respeito de tudo. Mesmo que soe superficial em algumas resoluções - ninguém entende o motivo pela rejeição absoluta a Meredith apesar de seus constantes foras - a trama consegue atingir a audiência por tratar de forma leve temas polêmicos como homossexualidade e racismo. É notável também a segurança com que o cineasta mantém uniforme um elenco tão heterogêneo e dá chance a todos de brilharem. Diane Keaton e Craig T. Nelson estão à vontade em seus papéis de patriarcas como há muito tempo não tinham a oportunidade. Rachel McAdams e Claire Danes mostram que juventude não significa falta de talento. E Sarah Jessica Parker mostra que, com uma direção mais firme pode ser uma atriz respeitada em outros papéis que não o de Carrie Bradshaw.

Feito para emocionar e rir, "Tudo em família" cumpre o que promete sem subestimar a inteligência do espectador. É um drama romântico e cômico de fácil comunicação com o público e que foge do clichê. E um filme assim sempre é bem-vindo, mesmo que frustre àqueles que procuram o tradicional final feliz.

sexta-feira

PROCURA-SE UM AMOR QUE GOSTE DE CACHORROS

PROCURA-SE UM AMOR QUE GOSTE DE CACHORROS (Must love dogs, 2005, Warner Bros, 98min) Direção: Gary David Goldberg. Roteiro: Gary David Goldberg, romance de Claire Cook. Fotografia: John Bailey. Montagem: Roger Bondelli, Eric A. Sears. Música: Craig Armstrong, Susie Suh, Vinnie Zimmo. Figurino: Florence-Isabelle Megginson, Gamila Smith. Direção de arte/cenários: Naomi Shohan/Kathryn Petes. Produção executiva: Brad Hall, Ronald G. Smith. Produção: Gary David Golberg, Jennifer Todd, Suzanne Todd. Elenco: Diane Lane, John Cusack, Dermot Mulroney, Christopher Plummer, Elizabeth Perkis, Stockard Channing. Estreia: 21/7/05

Um dos atores mais confiáveis de Hollywood, capaz de imprimir sua personalidade em filmes tão distintos quanto a comédia romântica "Escrito nas estrelas", o suspense "Identidade", a comédia de humor negro "Matador em conflito", o cult movie "Alta fidelidade" e até mesmo o blockbuster "Con Air, a rota da fuga", John Cusack certamente chegaria a um ponto de sua vitoriosa carreira em que esbarraria em uma obra menos feliz - ainda que o filme de Michael Bay  não possa ser considerado um grande momento, assim como o tenebroso "1402". Apesar de não ser exatamente ruim, o romance "Procura-se um amor que goste de cachorros" corre o risco de levar esse injusto rótulo. Baseado em um romance "pra mulherzinha" de Claire Cook, o filme do bissexto cineasta Gary David Golberg - que assinou o lacrimoso "Meu pai, uma lição de vida" no longínquo 1989 - é simpático e agradável, mas peca justamente por não acrescentar muito às carreiras de nenhum dos envolvidos - uma lista que inclui ainda os respeitáveis Diane Lane e Christopher Plummer.

Seguindo sua tendência de estrelar filmes direcionados a um público feminino - depois do saboroso "Sob o sol da Toscana" - Diane Lane volta a desfilar seu charme na pele de Sarah Nolan, uma professora pré-escolar recentemente divorciada que não consegue convencer a sua onipresente família de que consegue levar uma vida de solteira. A principal responsável pela campanha que insiste em lhe arrumar um novo marido é sua irmã, Carol (Elizabeth Perkins), que chega ao extremo de cadastrá-la em um site de relacionamentos mesmo contra sua vontade. É nesse site que Sarah conhece Jake (John Cusack com a simpatia de sempre), que compartilha com ela o fato de ter acabado de se divorciar e de gostar de cachorros. Enquanto está conhecendo Jake - e gostando dele - Sarah se vê atraída também por Bob (Dermot Mulroney), pai de uma de suas alunas - que também está saindo com outra professora.



A estrutura triângulo amoroso que dá sustentação ao filme de Goldberg não deixa de ser frágil, com personagens que não são interessantes o bastante para manter a atenção do público, apesar de alguns ótimos momentos - como a sequência em que Sarah e Jake saem à procura de preservativos pela madrugada. Felizmente o roteiro encontra espaço para aquele que talvez seja a melhor personagem do filme, o sedutor Bill (Christopher Plummer), pai de Sarah e Carol, um conquistador convicto que também procura amantes em sites de relacionamento - o que resulta em uma cena no mínimo inusitada e na participação da sempre ótima Stockard Channing como uma de suas pretendentes, Dolly. A subtrama que versa sobre a relação entre Dolly e as filhas de seu "namorado" acaba se tornando um ponto favorável e quase eclipsa a real história que o filme pretende contar.

No final das contas, "Procura-se um cachorro" cumpre o que promete, entregando a seu público-alvo 98 minutos de uma trama engraçadinha e delicada. Mas é, sem dúvida, um filme que não marca o espectador, permanecendo na memória somente durante o tempo de sua exibição. E tem Diane Lane e John Cusack, o que quase sempre é sinônimo de qualidade.

segunda-feira

O CASAMENTO DO MEU MELHOR AMIGO

O CASAMENTO DO MEU MELHOR AMIGO (My best friend's wedding, 1997, TriStar Pictures, 105min) Direção: P.J. Hogan. Roteiro: Ronald Bass. Fotografia: Laszlo Kovacs. Montagem: Garth Craven, Lisa Fruchtman. Música: James Newton Howard. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/William Kemper Wright. Produção executiva: Gil Netter, Patricia Whitcher. Produção: Ronald Bass, Jerry Zucker. Elenco: Julia Roberts, Cameron Diaz, Dermot Mulroney, Rupert Everett, Rachel Griffiths, Philip Bosco, Paul Giamatti. Estreia: 20/6/97

Indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original Comédia/Musical

O sucesso repentino não fez muito bem à Julia Roberts. Alçada da noite para o dia à condição de maior e mais bem paga estrela de Hollywood no início da década de 90, ela cometeu uma sucessão de escolhas profissionais equivocadas e tornou-se a matéria-prima preferida de tablóides sensacionalistas, graças principalmente ao fim de seu noivado com o ator Kiefer Sutherland e seu casamento-relâmpago com o cantor country Lyle Lovett. Tendo sua vida pessoal devassada pela imprensa marrom e seus trabalhos ignorados pelo público - e massacrados pela crítica - só restava a ela dar uma pausa para respirar antes de voltar à ribalta. O enorme sucesso de bilheteria de seu retorno, a comédia "O casamento do meu melhor amigo", a despeito das qualidades do filme, provou o que todos já sabiam: a plateia estava com muita saudade não da Julia Roberts triste de "Tudo por amor" e "O segredo de Mary Reilly", mas da carismática e sorridente estrela de "Uma linda mulher".

Dirigido pelo australiano P.J. Hogan - que também comandou o tragicômico "O casamento de Muriel", de 1995 - o filme que devolveu a atriz às boas graças do público foge do tradicional modelo das comédias românticas ao não contar uma história de amor onde moça encontra rapaz, se apaixona por ele, come o pão que o diabo amassou e finalmente consegue viver a seu lado, feliz para sempre. Utilizando uma alta dose de sarcasmo, o roteiro de Ronald Bass - que tem um Oscar em casa pelo script de "Rain Man" - criou uma protagonista que, ao contrário do que se espera de uma mocinha íntegra e passional, tem defeitos gritantes e, mais do que tudo, não mede esforços para atingir seus objetivos. Aqui, outra novidade: ela não quer apenas conquistar o homem que ama, mas sim roubá-lo da mulher com quem ele está prestes a se casar. Mezzo heroína/mezzo vilã, a personagem de Julia Roberts conquista exatamente por estar muito mais perto das espectadoras do que as sonhadoras moçoilas que são ícones de um dos gêneros mais queridos pelo público - e, paradoxalmente ou não - desprezados pela crítica.

Roberts, desprovida do glamour exagerado de "Uma linda mulher" mas ainda assim apresentando seu sorriso matador, vive Julianne Potter, uma respeitada crítica gastronômica que, às vésperas de completar 28 anos, recebe um telefonema inesperado de um ex-namorado e atual melhor amigo. O jornalista esportivo Michael O'Neal (Dermot Mulroney), por telefone, lhe comunica seu iminente casamento com a doce e milionária Kimberly Wallace (Cameron Diaz) e lhe pede que seja a dama-de-honra da noiva. Julianne, estupefacta, aceita o convite, mas seus planos são bem mais diabólicos do que simplesmente acompanhar a cerimônia de enlace entre o casal: sentindo-se no direito de reivindicar a promessa feita por Michael anos antes, de que se casaria com ela se ambos estivessem solteiros aos 28, a jovem resolve viajar para Chicago com a intenção de impedir o casamento. Descobrindo-se apaixonada por Michael (ou sentindo apenas o amargo gosto do orgulho ferido), ela arma inúmeras situações para separá-lo de Kimberly, que, inocente, nem desconfia que sua confiável nova amiga quer na verdade afastá-la do noivo que ama profundamente.

Apesar de ter em mãos uma personagem um tanto quanto malévola, Roberts dá humanidade e simpatia a ela, que desperta a compaixão e até mesmo a torcida da audiência, apesar do fato de não ser exatamente uma pessoa confiável. Talvez levado pela máxima que diz que "o amor justifica tudo", o público aceita as armações de Julianne sem rejeitá-la, no que o trabalho de Julia tem influência gigantesca. Ao fugir do maniqueísmo, a atriz encontra no texto inteligente de Bass o veículo ideal para desenvolver uma personagem que não é totalmente má nem completamente boa. Julianne Potter comete erros grotescos, mas também sofre as suas consequências, e seus planos, ainda que aparentemente infalíveis, sempre acabam sendo malogrados por um fato incontestável: apesar de adorá-la, Michael ama, na verdade, sua noiva e nem mesmo todas as armadilhas do mundo mudam isso. É essa certeza que o público tem, mas Julianne não, que faz toda a diferença. Antes de ser uma vilã, Potter é uma mulher equivocada e confusa e respeito de seus sentimentos.


E, se Julianne não sabe com certeza o que se passa dentro de seu coração, é seu grilo falante quem lhe dá todas as dicas - e de quebra, rouba absolutamente todas as cenas das quais participa. O inglês Rupert Everett dá um show particular de bom humor e carisma na pele de George Downes, o editor de Julianne que lhe serve de ombro amigo e que, nas melhores cenas do filme, vai até ela com a missão de fazê-la desistir de seus planos. Homossexual assumido - assim como sua personagem - Everett é o protagonista da já clássica sequência em que comanda um improvisado coral em um restaurante lotado em uma versão de "I say a little prayer". Sua química com Julia Roberts é tamanha que, após exibições-teste, os produtores resolveram lhe dar um espaço maior nas cenas finais - cortando, assim, a participação do ator John Corbett, que adiaria por alguns anos a relativa fama conquistada no filme "Casamento grego" e na série "Sex and the city" - cuja atriz central, Sarah Jessica Parker era a primeira escolha para liderar o filme de P.J. Hogan.

Hogan, aliás, merece boa parte dos créditos pelo sucesso de "O casamento do meu melhor amigo". Aparentemente fascinado pela cafonice intrínseca das cerimônias matrimonias - haja visto seu currículo que inclui o ótimo "O casamento de Muriel" - o australiano compartilha com o conterrâneo Baz Luhrmann o talento em selecionar uma trilha sonora impecável para seus projetos. Enquanto em seu primeiro filme ele usava e abusava de canções do grupo sueco ABBA, aqui ele varia o cardápio, comentando a ação com pérolas do compositor Burt Bacharach e iniciando a projeção com uma irônica sequência musical com a inacreditável "Wishing and hoping" dublada por uma ansiosa noiva. Esses primeiros minutos dão o tom exato do que virá pela frente: um filme agradável, divertido e que não se leva exatamente a sério. Ou seja, um programa perfeito para marcar o retorno de Julia aos holofotes sem que tenha sido para falar de sua vida particular.

"O casamento do meu melhor amigo" não é, e nem tenta ser, um filme para ser louvado pela crítica especializada ou homenageado por cerimônias de premiação. Mas é um passatempo que não ofende a inteligência do público e que serviu como uma luva para que a estrela de Julia Roberts voltasse a brilhar, dessa vez em definitivo.

domingo

COPYCAT, A VIDA IMITA A MORTE

COPYCAT, A VIDA IMITA A MORTE (Copycat, 1995, Regency Enterprises, 123min) Direção: Jon Amiel. Roteiro: Ann Biderman, David Madsen. Fotografia: Láslzló Kovács. Montagem: Jim Clark, Alan Heim. Música: Christopher Young. Figurino: Claudia Brown. Direção de arte/cenários: Jim Clay/Catherine Davis. Produção executiva: John Fiedler, Michael Nathanson. Produção: Arnon Milchan, Mark Tarlov. Elenco: Sigourney Weaver, Holly Hunter, Dermot Mulroney, William MacNamara, Harry Connick Jr., J.E. Freeman, Will Patton. Estreia: 27/10/95

O mais curioso em se assistir a "Copycat, a vida imita a morte" nem é o fato de Sigourney Weaver interpretar, do alto de seu 1,80m, uma mulher frágil e indefesa. O que foge do comum no filme de Jon Amiel - uma trama policial abertamente com pretensões puramente comerciais - é a presença de Holly Hunter, uma atriz acostumada a estar nos créditos de filmes independentes e vencedora do Oscar e da Palma de Ouro do Festival de Cannes. Liderando o elenco de um produto derivativo - ainda que razoavelmente interessante em alguns momentos - as duas atrizes, donas de talentos inquestionáveis, são a principal razão de ser do filme do mesmo diretor do romântico "Sommersby, o retorno de um estranho".

Helen Hudson (Sigourney Weaver) é uma especialista em traçar perfis psicológicos de serial killers que, atacada por um deles, Darryll Lee Cullum (Harry Connick Jr.), fica traumatizada a ponto de isolar-se dentro de seu apartamento. Sofrendo de agorafobia - medo patológico de sair à rua - ela utiliza a Internet para ter contato com o mundo exterior, mas sem esperar, mais de um ano depois de ter sofrido o ataque ela se vê novamente envolvida com a polícia. Procurada pela detetive M.J. Monahan (Holly Hunter) e seu parceiro  Reuben Goetz (Dermot Mulroney), ela fica sabendo que um psicopata anda fazendo suas vítimas de forma a imitar assassinos famosos, como Jeffrey Dahmer, Ted Bundy, o Filho de Sam e o Zodíaco. O próprio criminoso, através de emails e bilhetes, convida Helen a unir-se a seu jogo macabro.




Apesar de bastante correto, "Copycat" carece basicamente de ousadia, um fator que transformou seu contemporâneo "Seven, os sete crimes capitais" em um dos maiores êxitos do gênero. A direção de Amiel é burocrática, mas a culpa também é do roteiro, indeciso entre contar uma história policial nos moldes clássicos - com um clímax derivativo e sem grandes emoções - ou investigar a personalidade do vilão (vivido sem chame por William McNamara). Todas as cenas em que Hudson e Monahan dão passos em direção a solucionar o crime - através do estudo dos crimes do passado - são extremamente envolventes, embarcando a audiência em uma viagem por dentro dos meandros de uma caçada policial. Quando o filme se dedica a cenas de ação, no entanto, ele perde seu diferencial e une-se à vala comum das produções do estilo. Nem mesmo existe tensão o suficiente nos ataques do criminoso: Amiel deveria espelhar-se em Hitchcock, David Fincher e até no Jonathan Demme de "O silêncio dos inocentes" para criar o envolvimento do público. Aqui, essas sequências servem apenas para desviar a atenção do que é realmente empolgante.


Mas realmente é o elenco que transforma a experiência de se assistir a "Copycat" em algo mais do que um Supercine. Tanto Weaver quanto Hunter dão o máximo em suas atuações, ainda que suas personagens - mesmo a torturada criminologista de Weaver - não lhe deem muito material sobre o qual trabalhar. E não há dúvida de que insinuar um interesse romântico entre Helen e o policial Reuben é completamente desnecessário e improvável. Quem se sai melhor de toda a confusão é, por incrível que pareça, o cantor/ator Harry Connick Jr., que, mesmo em poucas aparições, rouba a cena descaradamente.

"Copycat" é um bom filme, mas que não é muito diferente de dezenas de outros similares. Não fosse seu elenco classe A estaria relegado a ser apenas mais um dos produtos a ser exibidos semanalmente nas televisões abertas.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...