A ORIGEM (Inception, 2010, Warner Bros, 148min) Direção e roteiro: Christopher Nolan. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Lee Smith. Música: Hans Zimmer. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Guy Hendrix Dyas/Larry Dias, Doug Mowat. Produção executiva: Chris Brigham, Thomas Tull. Produção: Christopher Nolan, Emma Thomas. Elenco: Leonardo DiCaprio, Marion Cottilard, Joseph Gordon-Levitt, Ellen Page, Tom Hardy, Ken Watanabe, Michael Caine, Pete Postlewhaite, Tom Berenger, Cillian Murphy. Estreia: 08/7/10
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original, Fotografia, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais
Vencedor de 4 Oscar: Fotografia, Edição de Som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais
Ser sequestrado por um filme e levado para um mundo à parte, como se estivesse sendo hipnotizado é uma experiência das mais raras, especialmente em um panorama comercial como o de Hollywood, que insiste em empurrar uma dieta anêmica de bobagens para consumo rápido e esquecível. Por isso - além de suas qualidades intrínsecas, logicamente - foi um susto quando "A origem" chegou aos cinemas americanos e mundiais na metade de 2010. Dirigido por Christopher Nolan - que ressuscitou a franquia "Batman" de forma assombrosa em termos de bilheteria e inteligência - o filme estrelado por Leonardo DiCaprio e um elenco de sonhos é uma das mais impressionantes manifestações cinematográficas saídas de Hollywood desde sempre, capaz de dar um nó na cabeça até mesmo do mais perspicaz dos espectadores e surpreendê-los com um final não apenas emocionante, mas também coerente e de uma inteligência rara no cinema mainstream.
O próprio Nolan é o roteirista de "A origem" - e levando-se em conta que ele também criou "Amnésia" em 2001 e "O grande truque" em 2006, dá pra perceber que o sujeito tem fetiche em confundir a mente da plateia. Nesse seu mais ambicioso e arriscado filme ele criou um universo tão, mas tão surreal que só resta ao público embarcar sem cinto de segurança em uma trama fascinante que mistura cenas de ação inacreditáveis, uma história de amor realmente comovente e um clima abstrato de dar inveja a David Lynch - porém sem as bizarrices psicológicas do pai de Laura Palmer.
A história de "A origem" é difícil de resumir.
Basicamente, pode-se dizer, sem estragar as surpresas do impecável
roteiro, que DiCaprio (que não ajuda nem atrapalha) interpreta um
profissional que vive de invadir os sonhos das pessoas para roubar-lhes
os segredos mais íntimos. Impedido de entrar nos EUA devido a trágicos
acontecimentos passados que envolvem sua esposa (a sempre bela e ótima
atriz Marion Cottilard), ele cede à tentação de desafiar a si mesmo e ir
além do corriqueiro, plantando na mente de um empresário ideias que
favorecerão seu rival profissional. Contando com a ajuda de uma equipe
talentosa e bem treinada, ele entra no perigoso terreno dos sonhos
dentro dos sonhos.
Mesmo com toda a complexidade do roteiro e com a sua acertada opção em não fazer concessões ao mais fácil - o que em tese poderia afastar o público médio das salas de exibição - "A origem" surpreendeu com uma bilheteria de quase 300 milhões de dólares somente no mercado doméstico, o que prova que às vezes a plateia sabe escolher seus programas. Sua excelência também refletiu-se junto à Academia, que lhe indicou a oito estatuetas do Oscar, inclusive melhor filme do ano - inexplicavelmente deixou Nolan de fora na categoria de diretor e Lee Smith na de edição. Porém, mostrando o quão obtusos seus votantes podem ser, o prêmio ficou com o intragável "O discurso do rei" - que em poucos anos será lembrado apenas como o amontoado de clichês que tirou o Oscar de "A origem" e "A rede social".
Sim, "A origem" é complexo. Sim, é uma viagem total. Sim,
é necessária uma atenção total. Mas vale a pena cada minuto. É também criativo, diferente, empolgante. E é sem dúvida o melhor filme de 2010.
Filmes, filmes e mais filmes. De todos os gêneros, países, épocas e níveis de qualidade.
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sexta-feira
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ATRAÇÃO PERIGOSA
ATRAÇÃO PERIGOSA (The town, 2010, Warner Bros, 125min) Direção: Ben Affleck. Roteiro: Ben Affleck, Peter Craig, Aaron Stockard, romance "Prince of thieves", de Chuck Hogan. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Dylan Tichenor. Música: David Buckley, Harry Gregson-Williams. Figurino: Susan Matheson. Direção de arte/cenários: Sharon Seymour/Maggie Martin. Produção executiva: David Crockett, William Fay, Jon Jashni, Thomas Tull. Produção: Basil Iwanyk, Graham King. Elenco: Ben Affleck, Rebecca Hall, Jeremy Renner, Pete Postletwhaite, John Hamm, Blake Lively, Chris Cooper. Estreia: 08/9/10 (Festival de Veneza)
Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Jeremy Renner)
Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Jeremy Renner)
De
promessa de astro no final da década de 90, quando ganhou o Oscar de roteiro
original ao lado do amigo de infância Matt Damon, pelo filme “Gênio indomável”,
nos anos seguintes o ator Ben Affleck parecia ter entrado em um inferno astral.
Sucessos de bilheteria não faltavam – “Armaggedon” à frente – mas seus talentos
dramáticos frequentemente eram postos à prova (quando não severamente
criticados e motivo de piadas por parte da indústria e até do público). Filmes
como “Pearl Harbor” (01), “Demolidor” (03) e principalmente “Contrato de risco,
que fez ao lado da então noiva Jennifer Lopez, o colocaram em uma encruzilhada
artística de que poucos conseguiriam sair ilesos. Foi então que o destino
voltou a lhe sorrir. Iniciou uma nova carreira com o drama policial “Medo da
verdade”, baseado em livro de Dennis Lehane (autor também de “Sobre meninos e
lobos”) e, com elogios unânimes e uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante
para Amy Ryan, mostrou-se um cineasta promissor. Dois anos mais tarde, ao
assumir para a Warner um projeto que o cineasta Adrian Lyne abandonou a meio
caminho, mostrou que o sucesso do filme anterior não havia sido apenas sorte de
principiante.
O mais
interessante em “Atração perigosa” – um título nacional derivativo que esconde
as grandes qualidades do filme – é a segurança com que Affleck comanda a
narrativa, equilibrando com extrema eficiência sequências de ação impecáveis e
um drama romântico que foge do clichê e do melodrama barato. Evitando erros
comuns a diretores ainda inexperientes – que sempre querem colocar em sua
primeira experiência todas as ideias que lhe vem à mente – Affleck opta por uma
direção discreta, deixando que a história fale mais do que suas ambições
estilísticas. Desse modo, o público acaba mergulhando sem reservas em uma trama
repleta de violência (moderada mas ainda assim convincente) e romance (realista
e envolvente). Com base no livro “Prince of thieves”, de Chuck Hogan, o roteiro
(também com participação do ator/diretor) acompanha personagens que, mais do
que simplesmente obrigados a lidar com a criminalidade que os cerca, são parte
viva de um ambiente onde ela brota a cada esquina – e, pior ainda, atravessa
gerações.
O
protagonista é Doug MacRay, interpretado por Ben Affleck em registro sutil e
surpreendentemente suave. MacRay trabalha como operário em Boston, mas não
consegue renegar o sangue e, a exemplo do pai, Stephen (Chris Cooper), volta e
meia acaba se envolvendo em assaltos a bancos, uma atividade rotineira na
região onde mora, uma das mais violentas da cidade. É durante um desses ataques
que ele conhece a bela Claire Keesey (Rebecca Hall), vítima involuntária do
ímpeto de um de seus comparsas, James Coughlin (Jeremy Renner). Com medo que
Claire possa reconhecer um deles depois de ter sido feita refém – apesar das
máscaras que eles usam em todas as atividades ilegais de que participam –
MacRay se aproxima dela e os dois acabam se apaixonando. Logicamente, ele
precisa esconder seus sentimentos de todos à sua volta, especialmente de James,
seu amigo de infância e irmão de uma ex-namorada, a vulgar Krista (Blake
Lively) e do detetive do FBI Adam Frawley (John Hamm, da série “Mad men”), que
se dedica ferozmente a capturá-lo. Não bastasse esse problema múltiplo – e o
medo de que Claire o reconheça – o rapaz ainda precisa lidar com Fergus Colm
(Pete Postlethwaite), o chefão local que o chantageia para que se mantenha no
crime.
Há muito
o que elogiar em “Atração perigosa”. Além das cenas de ação – inspiradas em
filmes como “Fogo contra fogo” (95) e “Os infiltrados” (06) e dotadas de
energia e segurança ímpares – o ator tornado diretor consegue a façanha de
equilibrá-las com momentos de grande impacto dramático, amparado principalmente
por um elenco esplêndido. Jeremy Renner substituiu Mark Whalberg – ocupado com
as filmagens de “O vencedor” – na última hora, recomendado pelo irmão do diretor,
Casey Affleck, e abocanhou uma justa indicação ao Oscar de coadjuvante. Mas são
duas participações pequenas que aumentam o valor do filme: como o pai criminoso
de MacRay, o veterano Chris Cooper não precisa de muitos minutos em cena para
roubar a atenção, e Pete Postletwhaite mostra porque era considerado um dos
melhores atores do mundo ao fazer de seu Fergus um dos vilões mais assustadores
do ano. Mostrando que é capaz de dirigir tanto cenas carregadas de adrenalina
quanto momentos mais intimistas, Affleck pavimentou o caminho para que, três
anos mais tarde, seu “Argo” conquistasse o merecido Oscar de melhor filme. Sem
contra-indicações, “Atração perigosa” é um filme policial dos melhores.
terça-feira
O JARDINEIRO FIEL
O JARDINEIRO FIEL (The constant gardener, 2005, Universal Pictures, 129min) Direção: Fernando Meirelles. Roteiro: Jeffrey Cane, romance de John Le Carré. Fotografia: César Charlone. Montagem: Claire Simpson. Música: Alberto Iglesias. Figurino: Odile Dicks Mireaux. Direção de arte/cenários: Mark Tildesley/Michelle Day. Produção executiva: Jeff Abberley, Julia Blackman, Gail Egan, Robert Jones, Donald Ranvaud. Produção: Simon Channing Williams. Elenco: Ralph Fiennes, Rachel Weisz, Hubert Koundé, Pete Postletwhaite, Danny Huston, Bill Nighy. Estreia: 31/8/05
4 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Rachel Weisz), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Rachel Weisz)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Rachel Weisz)
Vencedor do Screen Actor Guild Award de Atriz Coadjuvante (Rachel Weisz)
Incensado mundialmente como um dos melhores filmes de 2002, o nacional "Cidade de Deus" não apenas apontou um novo caminho pro cinema tupiniquim mas também abriu as portas de Hollywood para seu diretor, o merecidamente aplaudido Fernando Meirelles. E comprovando que seu festejado segundo filme não era apenas um golpe aleatório de sorte, seu novo trabalho - a adaptação de um romance do best-seller John Le Carré - também conquistou a crítica e, se não causou o mesmo furor, ao menos não fez feio nas cerimônias de premiação, dando a até então limitada Rachel Weisz um Oscar de coadjuvante.
Mesmo que não seja uma grande atriz - o que seu trabalho medíocre em filmes como "Círculo de fogo" e "A múmia" deixa bem claro - Weisz se sai bastante bem na pele de Tessa Quayle, uma personagem que, no livro de Le Carré, é bem menos desenvolvida dramaticamente. No roteiro de Jeffrey Cane - também indicado a um prêmio da Academia - a esposa do diplomata Justin Quayle (em mais uma atuação competente de Ralph Fiennes) assume uma importância mais ativa do que nas páginas do romance, onde é constantemente citada (mesmo porque a trama tem início com sua morte) mas pouco age. No filme de Meirelles - que rendeu mais de 80 milhões de dólares no mercado americano, o que não é nada desprezível em se tratando de um filme adulto e sem efeitos visuais - ela é uma peça bem mais atuante, unindo as lembranças de seu marido a uma trama bastante contundente sobre a indústria farmacêutica e a corrupção no Quênia (o que inclusive fez com que o romance que deu origem ao filme fosse proibido no país).
Quando "O jardineiro fiel" a jovem Tessa Quayle acaba de morrer, para desespero de seu marido, o diplomata Justin Quayle, que casou-se com ela completamente apaixonado, apesar de suas diferenças políticas. Ferrenha ativista na defesa da população carente do Quênia, ela acabou encontrando a morte em circunstâncias misteriosas, o que faz com que seu viúvo parta em busca de respostas para a violência. No caminho, ele conta com a ajuda do amigo Sandy Woodrow (Danny Huston) - que também tem seus segredos - para investigar uma rede de corrupção que envolve testes do governo inglês a respeito de um medicamento que vem sendo testado secretamente e que tem relação direta com o assassinato de sua mulher.
Editado com vigor por Claire Simpson e contando com uma potente trilha sonora de Alberto Iglesias - ambos indicados merecidamente ao Oscar - "O jardineiro fiel" é um thriller dono de uma inteligência acima da média, que exige de seu espectador mais do que a maioria dos filmes americanos do gênero. Ao optar em contar sua história de forma não-linear (os flashbacks são utilizados de maneira exemplar), Fernando Meirelles solicita ao público que preste atenção em detalhes, em sutilezas e no cuidado que ele tem em cada cena, em cada ângulo. Nada é clichê em seu filme, que usa e abusa de efeitos de câmera para transmitir a sensação de urgência e pressa de seu protagonista, em uma fotografia que explora o calor da África a seu favor. É uma das características mais dignas de aplauso de Meirelles, aliás, a forma com que ele equilibra com maestria uma direção competente de atores com a parte técnica de seus filmes. O conjunto de técnica e emoção que funcionou com perfeição em "Cidade de Deus" volta a dar certo aqui, para alívio dos fãs de bom cinema.
"O jardineiro fiel" é, sem dúvida, um dos grandes filmes de 2005. É um filme inteligente, interessante, dirigido com extrema competência e que versa sobre assuntos importantes e de certa forma chocantes. Uma bela estreia hollywoodiana para Fernando Meirelles.
4 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Rachel Weisz), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Rachel Weisz)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Rachel Weisz)
Vencedor do Screen Actor Guild Award de Atriz Coadjuvante (Rachel Weisz)
Incensado mundialmente como um dos melhores filmes de 2002, o nacional "Cidade de Deus" não apenas apontou um novo caminho pro cinema tupiniquim mas também abriu as portas de Hollywood para seu diretor, o merecidamente aplaudido Fernando Meirelles. E comprovando que seu festejado segundo filme não era apenas um golpe aleatório de sorte, seu novo trabalho - a adaptação de um romance do best-seller John Le Carré - também conquistou a crítica e, se não causou o mesmo furor, ao menos não fez feio nas cerimônias de premiação, dando a até então limitada Rachel Weisz um Oscar de coadjuvante.
Mesmo que não seja uma grande atriz - o que seu trabalho medíocre em filmes como "Círculo de fogo" e "A múmia" deixa bem claro - Weisz se sai bastante bem na pele de Tessa Quayle, uma personagem que, no livro de Le Carré, é bem menos desenvolvida dramaticamente. No roteiro de Jeffrey Cane - também indicado a um prêmio da Academia - a esposa do diplomata Justin Quayle (em mais uma atuação competente de Ralph Fiennes) assume uma importância mais ativa do que nas páginas do romance, onde é constantemente citada (mesmo porque a trama tem início com sua morte) mas pouco age. No filme de Meirelles - que rendeu mais de 80 milhões de dólares no mercado americano, o que não é nada desprezível em se tratando de um filme adulto e sem efeitos visuais - ela é uma peça bem mais atuante, unindo as lembranças de seu marido a uma trama bastante contundente sobre a indústria farmacêutica e a corrupção no Quênia (o que inclusive fez com que o romance que deu origem ao filme fosse proibido no país).
Quando "O jardineiro fiel" a jovem Tessa Quayle acaba de morrer, para desespero de seu marido, o diplomata Justin Quayle, que casou-se com ela completamente apaixonado, apesar de suas diferenças políticas. Ferrenha ativista na defesa da população carente do Quênia, ela acabou encontrando a morte em circunstâncias misteriosas, o que faz com que seu viúvo parta em busca de respostas para a violência. No caminho, ele conta com a ajuda do amigo Sandy Woodrow (Danny Huston) - que também tem seus segredos - para investigar uma rede de corrupção que envolve testes do governo inglês a respeito de um medicamento que vem sendo testado secretamente e que tem relação direta com o assassinato de sua mulher.
Editado com vigor por Claire Simpson e contando com uma potente trilha sonora de Alberto Iglesias - ambos indicados merecidamente ao Oscar - "O jardineiro fiel" é um thriller dono de uma inteligência acima da média, que exige de seu espectador mais do que a maioria dos filmes americanos do gênero. Ao optar em contar sua história de forma não-linear (os flashbacks são utilizados de maneira exemplar), Fernando Meirelles solicita ao público que preste atenção em detalhes, em sutilezas e no cuidado que ele tem em cada cena, em cada ângulo. Nada é clichê em seu filme, que usa e abusa de efeitos de câmera para transmitir a sensação de urgência e pressa de seu protagonista, em uma fotografia que explora o calor da África a seu favor. É uma das características mais dignas de aplauso de Meirelles, aliás, a forma com que ele equilibra com maestria uma direção competente de atores com a parte técnica de seus filmes. O conjunto de técnica e emoção que funcionou com perfeição em "Cidade de Deus" volta a dar certo aqui, para alívio dos fãs de bom cinema.
"O jardineiro fiel" é, sem dúvida, um dos grandes filmes de 2005. É um filme inteligente, interessante, dirigido com extrema competência e que versa sobre assuntos importantes e de certa forma chocantes. Uma bela estreia hollywoodiana para Fernando Meirelles.
segunda-feira
ÁGUA NEGRA
ÁGUA NEGRA (Dark water, 2005, Touchstone Pictures, 105min) Direção: Walter Salles. Roteiro: Rafael Yglesias, roteiro original de Hideo Nakata, Takashige Ichise, romance de Kôji Suzuki. Fotografia: Affonso Beato. Montagem: Daniel Rezende. Música: Angelo Badalamenti. Figurino: Michael Wilkinson. Direção de arte/cenários: Thèrése DePrez/Nick Evans, Clive Thomasson. Produção executiva: Ashley Kramer. Produção: Doug Davison, Roy Lee, Bill Mechanic. Elenco: Jennifer Connelly, John C. Reilly, Tim Roth, Pete Postletwhaite, Dougray Scott, Camryn Manheim, Ariel Gade. Estreia: 27/6/05
Ainda parte de uma onda que adaptava filmes de terror orientais para o paladar do público (em especial o americano), este "Água negra" é o primeiro filme hollywoodiano do brasileiro Walter Salles depois da boa receptividade de "Diários de motocicleta" (que chegou a levar um Oscar de melhor canção). No entanto, a boa vontade da crítica ianque e do público em geral não se repetiu dessa vez. Refilmagem livre de uma obra japonesa, o filme naufragou nas bilheterias e ainda amargou uma rejeição inexplicável da imprensa de modo quase geral.
A ambientação lúgubre do filme de Salles funcina quase como uma personagem em si. O prédio, cada vez mais úmido a medida em que Dahlia entra em suas crises psicológicas, a fotografia escura e sombria do brasileiro Affonso Beatto e a trilha sonora de Angelo Badalamenti (colaborador frequente de David Lynch) colaboram de forma impecável com todo o clima de angústia e solidão proposto pelo roteiro. Ao invés de assustar a audiência a cada cinco minutos, "Água negra" prefere apresentar um estudo sobre traumas do passado, sobre a depressão e sobre o terror que cada um carrega dentro de si. Não é à toa que fracassou. Mas é um filme excelente, digno de ser redescoberto e aplaudido pelos fãs de bom cinema.
Ainda parte de uma onda que adaptava filmes de terror orientais para o paladar do público (em especial o americano), este "Água negra" é o primeiro filme hollywoodiano do brasileiro Walter Salles depois da boa receptividade de "Diários de motocicleta" (que chegou a levar um Oscar de melhor canção). No entanto, a boa vontade da crítica ianque e do público em geral não se repetiu dessa vez. Refilmagem livre de uma obra japonesa, o filme naufragou nas bilheterias e ainda amargou uma rejeição inexplicável da imprensa de modo quase geral.
Quase inexplicável, na verdade. Levando-se em consideração o quanto obtusa a crítica americana pode ser em algumas ocasiões, o dito fracasso de "Água negra" era até esperado. Afinal de contas, um filme de terror quase sem sustos, com um clima opressivo e claustrofóbico mas sem nada, absolutamente nada de sangue e com uma protagonista torturada por um passado traumático que não envolve psicopatas mascarados só podia mesmo dar com os burros n'água. O diretor Walter Salles e o roteirista Alfredo Yglesias nadaram contra a corrente dos filmes de horror que insistiam em lotar as salas de exibição. E por isso mesmo criaram uma dos melhores e mais angustiantes obras do gênero a surgir em muito tempo.

Lembrando constantemente o clássico "O bebê de Rosemary", de Roman Polanski - principalmente devido a seu clima e sua preferência em focar o psicológico em detrimento do físico - o filme começa quando a jovem Dahlia Williams (Jennifer Connelly, bela e melhor atriz como nunca), recém divorciada, se muda com a filha pequena Ceci (a ótima atriz miriam Ariel Gade) para um prédio soturno, distante alguns minutos de Manhattan. O apartamento onde elas vão morar tem um vazamento no teto e, enquanto Dahlia briga na justiça pela guarda da menina, ele começa a aumentar cada vez mais, na mesma medida em que ela volta a ter pesadelos com sua mãe relapsa. Quando sua filha passa a falar de uma amiga imaginária chamada Natasha, Dahlia entra em colapso.
Lembrando constantemente o clássico "O bebê de Rosemary", de Roman Polanski - principalmente devido a seu clima e sua preferência em focar o psicológico em detrimento do físico - o filme começa quando a jovem Dahlia Williams (Jennifer Connelly, bela e melhor atriz como nunca), recém divorciada, se muda com a filha pequena Ceci (a ótima atriz miriam Ariel Gade) para um prédio soturno, distante alguns minutos de Manhattan. O apartamento onde elas vão morar tem um vazamento no teto e, enquanto Dahlia briga na justiça pela guarda da menina, ele começa a aumentar cada vez mais, na mesma medida em que ela volta a ter pesadelos com sua mãe relapsa. Quando sua filha passa a falar de uma amiga imaginária chamada Natasha, Dahlia entra em colapso.
A ambientação lúgubre do filme de Salles funcina quase como uma personagem em si. O prédio, cada vez mais úmido a medida em que Dahlia entra em suas crises psicológicas, a fotografia escura e sombria do brasileiro Affonso Beatto e a trilha sonora de Angelo Badalamenti (colaborador frequente de David Lynch) colaboram de forma impecável com todo o clima de angústia e solidão proposto pelo roteiro. Ao invés de assustar a audiência a cada cinco minutos, "Água negra" prefere apresentar um estudo sobre traumas do passado, sobre a depressão e sobre o terror que cada um carrega dentro de si. Não é à toa que fracassou. Mas é um filme excelente, digno de ser redescoberto e aplaudido pelos fãs de bom cinema.
quinta-feira
CHEGADAS E PARTIDAS
CHEGADAS E PARTIDAS (The shipping news, 2001, Miramax Films, 111min) Direção: Lasse Halstrom. Roteiro: Robert Nelson Jacobs, romance de Annie Proulx. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Andrew Mondsheim. Música: Christopher Young. Figurino: Renee Ehrlich Kalfus. Direção de arte/cenários: David Gropman/Patricia Larman, Gretchen Rau. Produção executiva: Meryl Poster, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Rob Cowan, Linda Goldstein Knowlton, Leslie Holleran, Irwin Winkler. Elenco: Kevin Spacey, Julianne Moore, Judi Dench, Cate Blanchett, Pete Postlethwaite, Scott Glenn, Rhys Ifans, Jason Behr, Larry Pine. Estreia: 25/12/01
Não tinha como dar errado: o diretor sueco Lasse Halstrom, que vinha de dois filmes indicados ao Oscar máximo - "Regras da vida" e "Chocolate" -, uma trama dramática com personagens densos e segredos familiares tenebrosos e um elenco de sonhos - Kevin Spacey, Julianne Moore, Judi Dench e Cate Blanchett apenas para citar os mais conhecidos e premiados. Por que, então, "Chegadas e partidas" deixa um sabor tão grande de decepção quando acaba? A culpa é do roteiro, que nunca chega a emocionar? Da direção surpreendentemente distante de Halstrom? Ou será que o principal erro do filme é justamente o que, em tese, seria seu maior trunfo: o elenco?
Kevin Spacey - recém saído do Oscar merecido por "Beleza americana" - é o protagonista, mas exagera na sutileza e parece apático demais como Quoyle, um zé-ninguém que, depois da morte trágica da esposa Petal (Cate Blanchett, a melhor coisa do filme mas que, no entanto, desaparece depois de 15 minutos), vai morar em uma ilha de pescadores de onde se origina sua família. Ao lado da filha pequena e de sua aparentemente gélida tia Agnis (Judi Dench) - que esconde um segredo devastador - ele tenta reconstruir sua vida, trabalhando como o responsável pelas notícias náuticas do pequeno jornal da cidade, dirigido por um pescador pouco preocupado com seu negócio (Scott Glenn). Enquanto tenta esquecer a esposa - que amava apesar da relação horrível que tinham, ele se envolve com Wavey Prowse (Julianne Moore), uma solitária viúva mãe de um menino com problemas de saúde.

Talvez o grande problema de "Chegadas e partidas" nem seja o elenco - que tenta tirar leite de pedra - nem a direção distante de Halstron, que provavelmente quis retratar com o máximo de exatidão o clima frio onde situa sua história. O que acontece é que, por alguma razão misteriosa (ou nem tão misteriosa assim, já que o filme tem um ritmo pouco convidativo), as personagens não cativam o público, ao contrário do que aconteceu em "Regras da vida", por exemplo. O protagonista vivido por Kevin Spacey é de uma apatia irritante, o que acaba prejudicando seu diálogo com a plateia, e nem mesmo seu hesitante romance com Moore - mais bela do que nunca - consegue empolgar o espectador. Resta o show de Judi Dench, roubando todas as cenas em que aparece, com a personagem mais forte e bem desenhada do roteiro esquemático e pouco caloroso (inspirado em um romance da mesma autora que legou o conto que deu origem ao premiado "O segredo de Brokeback Mountain" cinco anos depois).
"Chegadas e partidas" poderia ter sido um grande filme se seguisse o tom emotivo dos trabalhos anteriores de seu diretor. Como está é mais uma produção com cara de filme feito para a TV, apesar de seu elenco multi-premiado.
Não tinha como dar errado: o diretor sueco Lasse Halstrom, que vinha de dois filmes indicados ao Oscar máximo - "Regras da vida" e "Chocolate" -, uma trama dramática com personagens densos e segredos familiares tenebrosos e um elenco de sonhos - Kevin Spacey, Julianne Moore, Judi Dench e Cate Blanchett apenas para citar os mais conhecidos e premiados. Por que, então, "Chegadas e partidas" deixa um sabor tão grande de decepção quando acaba? A culpa é do roteiro, que nunca chega a emocionar? Da direção surpreendentemente distante de Halstrom? Ou será que o principal erro do filme é justamente o que, em tese, seria seu maior trunfo: o elenco?
Kevin Spacey - recém saído do Oscar merecido por "Beleza americana" - é o protagonista, mas exagera na sutileza e parece apático demais como Quoyle, um zé-ninguém que, depois da morte trágica da esposa Petal (Cate Blanchett, a melhor coisa do filme mas que, no entanto, desaparece depois de 15 minutos), vai morar em uma ilha de pescadores de onde se origina sua família. Ao lado da filha pequena e de sua aparentemente gélida tia Agnis (Judi Dench) - que esconde um segredo devastador - ele tenta reconstruir sua vida, trabalhando como o responsável pelas notícias náuticas do pequeno jornal da cidade, dirigido por um pescador pouco preocupado com seu negócio (Scott Glenn). Enquanto tenta esquecer a esposa - que amava apesar da relação horrível que tinham, ele se envolve com Wavey Prowse (Julianne Moore), uma solitária viúva mãe de um menino com problemas de saúde.
Talvez o grande problema de "Chegadas e partidas" nem seja o elenco - que tenta tirar leite de pedra - nem a direção distante de Halstron, que provavelmente quis retratar com o máximo de exatidão o clima frio onde situa sua história. O que acontece é que, por alguma razão misteriosa (ou nem tão misteriosa assim, já que o filme tem um ritmo pouco convidativo), as personagens não cativam o público, ao contrário do que aconteceu em "Regras da vida", por exemplo. O protagonista vivido por Kevin Spacey é de uma apatia irritante, o que acaba prejudicando seu diálogo com a plateia, e nem mesmo seu hesitante romance com Moore - mais bela do que nunca - consegue empolgar o espectador. Resta o show de Judi Dench, roubando todas as cenas em que aparece, com a personagem mais forte e bem desenhada do roteiro esquemático e pouco caloroso (inspirado em um romance da mesma autora que legou o conto que deu origem ao premiado "O segredo de Brokeback Mountain" cinco anos depois).
"Chegadas e partidas" poderia ter sido um grande filme se seguisse o tom emotivo dos trabalhos anteriores de seu diretor. Como está é mais uma produção com cara de filme feito para a TV, apesar de seu elenco multi-premiado.
terça-feira
AMISTAD
AMISTAD (Amistad, 1997, Dreamworks SKG, 155min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: David Franzoni. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Ruth E. Carter. Direção de arte/cenários: Rick Carter/Rosemary Brandenburg. Produção executiva: Laurie MacDonald, Walter Parkes. Produção: Debbie Allen, Steven Spielberg, Colin Wilson. Elenco: Matthew McConaughey, Morgan Freeman, Djimon Hounson, Anthony Hopkins, Nigel Hawthorne, David Paymer, Pete Postletwhaite, Stellan Skarsgard, Anna Paquin, Paul Guilfoyle, Xander Berkeley, Arliss Howard. Estreia: 04/12/97
4 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Anthony Hopkins), Fotografia, Trilha Sonora Original/Drama, Figurino
Chega a ser inacreditável que o diretor de "Amistad" seja o mesmo Steven Spielberg que assinou filmes como "Os caçadores da Arca Perdida" e "ET, o extra-terrestre", filmes que, apesar de escapistas e estritamente comerciais, tinham a noção exata de ritmo. Arrastado, monotóno e em muitos momentos simplesmente desinteressante, o longa de Spielberg é uma prova cabal de que até mesmo os aparentemente infalíveis tem seus momentos equivocados.
Feito com a intenção de abocanhar uma penca de Oscar - objetivo que Spielberg nunca deixou de lado mesmo depois do sucesso de "A lista de Schindler" - "Amistad" decepcionou tanto aqueles que esperavam mais uma obra-prima do cineasta quanto os fãs de dramas épicos históricos, uma vez que não atinge o mesmo nível emocional de seus melhores filmes. Inspirado em uma história real - retratada no livro "Echo of lions", cuja autora Barbara Chase-Riboud moveu um processo contra os produtores - é um filme que tinha um enorme potencial, mas que ficou muito aquém de suas possibilidades. Culpa da opção de Spielberg em concentrar-se nas maquinações políticas da trama ao invés de seguir seu habitual caminho de comover o público.
A sequência inicial é poderosa e impressiona pelo cuidado visual (cortesia da belíssima fotografia de Janusz Kaminski e pela forte trilha sonora de John Williams): o ano é 1839 e o navio Amistad, indo de Cuba em direção aos EUA vê sua carga (escravos negros viajando para serem vendidos) iniciar uma violenta rebelião. Liderados por Cinque (Djimon Houson) - que deixou em sua terra natal uma história de crueldade e sofrimento contra sua família - os negros matam a maior parte da tripulação e exigem dos sobreviventes que os levem de volta para casa. Enganados, eles acabam aportando nos EUA, onde são presos acusados de assassinato. Sem falar uma palavra de inglês, eles vem seu caso ser assumido pelo advogado abolicionista Roger Sherman Baldwin (Matthew McConaughey). Aos poucos o caso ganha contornos outros - com vários países alegando a propriedade dos réus - e sofre uma reviravolta com a adesão do ex-presidente John Quincy Adams (Anthony Hopkins), também um fervoroso político anti-escravagista.

Tecnicamente "Amistad" é admirável como qualquer produto com a griffe de Spielberg. Da fotografia espetacular (que vai do escuro claustrofóbico às explosivas cores libertárias) à reconstituição de época detalhista, tudo é de encher os olhos. O elenco super estelar que desfila pela tela também chama a atenção pela diversidade: estão presentes desde veteranos consagrados como Anthony Hopkins (que concorreu ao Oscar por sua pequena participação) e Morgan Freeman até jovens promessas, como é o caso de Matthew McConaughey e de Djimon Houson (modelo sul-africano que ficou com o papel recusado por Denzel Washington e Cuba Gooding Jr. e que impressiona pela expressividade corporal). A trilha sonora de John Williams mais uma vez é adequada e delicada. Mas falta o essencial ao filme: coração.
É difícil de entender como Spielberg - que tem no currículo o sensível "A cor púrpura", que também toca na ferida do racismo - errou tanto a mão em "Amistad". Nem mesmo as cenas com mais potencial dramático (o passado de Cinque e a maneira cruel com que a tripulação tratava os escravos) conseguem emocionar a plateia, sedenta por boas cenas de impacto. Mesmo quando a plateia consegue ser arrebatada, a sensação é tão efêmera que não justifica duas horas e meia de duração. Isso sem falar em longas cenas em que as personagens discutem política americana do século XIX, que, mais do que interesse, desperta somente sono.
Em resumo, "Amistad" é um filme lindamente fotografado, com uma trama socialmente importante, realizado com todos os recursos milionários de Hollywood. Mas lhe falta o essencial: alma. E em um filme que fala sobre um tema tão caro quanto liberdade, isso é um pecado mortal.
4 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Anthony Hopkins), Fotografia, Trilha Sonora Original/Drama, Figurino
Chega a ser inacreditável que o diretor de "Amistad" seja o mesmo Steven Spielberg que assinou filmes como "Os caçadores da Arca Perdida" e "ET, o extra-terrestre", filmes que, apesar de escapistas e estritamente comerciais, tinham a noção exata de ritmo. Arrastado, monotóno e em muitos momentos simplesmente desinteressante, o longa de Spielberg é uma prova cabal de que até mesmo os aparentemente infalíveis tem seus momentos equivocados.
Feito com a intenção de abocanhar uma penca de Oscar - objetivo que Spielberg nunca deixou de lado mesmo depois do sucesso de "A lista de Schindler" - "Amistad" decepcionou tanto aqueles que esperavam mais uma obra-prima do cineasta quanto os fãs de dramas épicos históricos, uma vez que não atinge o mesmo nível emocional de seus melhores filmes. Inspirado em uma história real - retratada no livro "Echo of lions", cuja autora Barbara Chase-Riboud moveu um processo contra os produtores - é um filme que tinha um enorme potencial, mas que ficou muito aquém de suas possibilidades. Culpa da opção de Spielberg em concentrar-se nas maquinações políticas da trama ao invés de seguir seu habitual caminho de comover o público.
A sequência inicial é poderosa e impressiona pelo cuidado visual (cortesia da belíssima fotografia de Janusz Kaminski e pela forte trilha sonora de John Williams): o ano é 1839 e o navio Amistad, indo de Cuba em direção aos EUA vê sua carga (escravos negros viajando para serem vendidos) iniciar uma violenta rebelião. Liderados por Cinque (Djimon Houson) - que deixou em sua terra natal uma história de crueldade e sofrimento contra sua família - os negros matam a maior parte da tripulação e exigem dos sobreviventes que os levem de volta para casa. Enganados, eles acabam aportando nos EUA, onde são presos acusados de assassinato. Sem falar uma palavra de inglês, eles vem seu caso ser assumido pelo advogado abolicionista Roger Sherman Baldwin (Matthew McConaughey). Aos poucos o caso ganha contornos outros - com vários países alegando a propriedade dos réus - e sofre uma reviravolta com a adesão do ex-presidente John Quincy Adams (Anthony Hopkins), também um fervoroso político anti-escravagista.
Tecnicamente "Amistad" é admirável como qualquer produto com a griffe de Spielberg. Da fotografia espetacular (que vai do escuro claustrofóbico às explosivas cores libertárias) à reconstituição de época detalhista, tudo é de encher os olhos. O elenco super estelar que desfila pela tela também chama a atenção pela diversidade: estão presentes desde veteranos consagrados como Anthony Hopkins (que concorreu ao Oscar por sua pequena participação) e Morgan Freeman até jovens promessas, como é o caso de Matthew McConaughey e de Djimon Houson (modelo sul-africano que ficou com o papel recusado por Denzel Washington e Cuba Gooding Jr. e que impressiona pela expressividade corporal). A trilha sonora de John Williams mais uma vez é adequada e delicada. Mas falta o essencial ao filme: coração.
É difícil de entender como Spielberg - que tem no currículo o sensível "A cor púrpura", que também toca na ferida do racismo - errou tanto a mão em "Amistad". Nem mesmo as cenas com mais potencial dramático (o passado de Cinque e a maneira cruel com que a tripulação tratava os escravos) conseguem emocionar a plateia, sedenta por boas cenas de impacto. Mesmo quando a plateia consegue ser arrebatada, a sensação é tão efêmera que não justifica duas horas e meia de duração. Isso sem falar em longas cenas em que as personagens discutem política americana do século XIX, que, mais do que interesse, desperta somente sono.
Em resumo, "Amistad" é um filme lindamente fotografado, com uma trama socialmente importante, realizado com todos os recursos milionários de Hollywood. Mas lhe falta o essencial: alma. E em um filme que fala sobre um tema tão caro quanto liberdade, isso é um pecado mortal.
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