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quinta-feira

SORTE NO AMOR

 


SORTE NO AMOR (Bull Durham, 1988, MGM, 103min) Direção e roteiro: Ron Shelton. Fotografia: Bobby Byrne. Montagem: Robert Leighton, Adam Weiss. Música: Michael Convertino. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Armin Ganz/Kris Boxell. Produção executiva: David V. Lester. Produção: Mark Burg, Thom Mount. Elenco: Kevin Costner, Susan Sarandon, Tim Robbins, Robert Wuhl, Trey Wilson, William O'Leary. Estreia: 15/6/88

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Eu acredito na igreja do beisebol. Tentei todas as grandes religiões e a maioria das pequenas. Adorei Buda, Alá, Brahma, Vishnu, Shiva, árvores, cogumelos e Isadora Duncan. Eu sei coisas. Por exemplo, que há 108 contas no rosário católico e há 108 pontos em uma bola de beisebol. Quando soube disso, dei uma chance a Jesus. Mas não deu certo entre nós dois. Deus pôs muita culpa em mim. Eu prefiro metafísica a teologia. Veja, não há culpa no beisebol, e nunca é chato, o que faz dele algo parecido com sexo. Nunca houve um jogador que dormiu comigo e não teve o melhor ano da carreira. Fazer amor é como acertar a bola: é preciso apenas relaxar e se concentrar.

A profissão de fé de Annie Savoy não se refere apenas a sexo e beisebol. Lúcida, bem-resolvida, dona da própria liberdade e do próprio corpo, ela é praticamente uma lenda junto ao Durham Bulls, onde é conhecida por seu ritual anual de escolher um jovem jogador para manter sob sua proteção - sexual e culturalmente falando. Normalmente no controle da situação, ela se vê, no começo da nova temporada, presa a uma inusitada configuração: enquanto se dedica a transmitir sua experiência ao jovem Ebby LaLoosh (Tim Robbins) - um novato tão talentoso quanto prepotente e ligeiramente burro -, ela se percebe surpreendentemente atraída pelo quase veterano Crash Davis (Kevin Costner), contratado justamente para amenizar os rompantes rebeldes do colega mais novo. Contrariando todas as expectativas, Crash resiste ao magnetismo sexual de Annie - principalmente por não ver o sexo com o pragmatismo da bela professora - e acaba por forçar um inesperado triângulo amoroso que afeta até mesmo o desempenho do time no campeonato.

"Sorte no amor" é um caso raro dentro do cinema hollywoodiano: um filme sobre beisebol que não fracassou nas bilheterias. Mesmo longe de ter sido um estouro comercial avassalador, o filme de Ron Shelton teve êxito o suficiente para encorajar os estúdios a apostar no gênero depois de várias tentativas infrutíferas de repetir nas telas o êxito dos estádios. Amparado em um roteiro simpático e agradável - indicado ao Oscar - e no carisma de seu trio de atores principais, o misto de comédia, romance e esporte caiu nas graças das plateias e da crítica sem medo de demonstrar-se uma produção adulta, com um público-alvo bem definido e sem ceder ao humor fácil ou vulgar: apesar de o sexo ser um elemento fundamental para a história, Shelton o utiliza de forma bem-humorada e quase ingênua. A opção de enfatizar o tom cômico da trama (Annie ensinando poesia e literatura a seus amantes, enquanto explora seus dotes físicos; um jogador entrando em campo vestindo roupas íntimas femininas) sobre a sensualidade pura e simples é um acerto - e ninguém melhor que Susan Sarandon do que encarnar ambos os lados da equação.

 

A princípio recusada pela Orion Pictures sob a alegação de ser velha demais para o papel principal (aos 41 anos!!), Sarandon cala a boca de qualquer opositor assim que entra em cena, com sua personalidade fascinante e exuberante. Não é difícil compreender porque tanto Crash - com sua vasta experiência sexual - quanto LaLoosh - no auge de sua libido juvenil - caem de amores por ela e são capazes de sair no braço por sua atenção. Dando início a um período brilhante de sua carreira (que culminaria com um Oscar por "Os últimos passos de um homem", de 1995), Sarandon enche a tela de um carisma raro - não à toa seu parceiro de cena Tim Robbins apaixonou-se por ela durante as filmagens e casou-se com ela. Certamente nenhuma das outras atrizes sondadas para viver Annie Savoy seria tão perfeita - nem Debra Winger, nem Kelly McGillis, nem Glenn Close e nem Kim Basinger. Nem mesmo a bela Michelle Pfeiffer, não aceita pelo estúdio pelo motivo radicalmente oposto ao de Sarandon (a saber, ser considerada jovem demais para interpretar a calejada fã de beisebol). E, por mais talento que todas elas tenham, química não se encontra em qualquer esquina - e é o que mais se vê entre os três protagonistas.

Kevin Costner, entrando na curva ascendente que lhe renderia uma penca de Oscar por "Dança com lobos" (1991), não é um grande ator, mas seu charme de bom moço caiu como uma luva em sua interpretação do certinho Crash Davis - ainda que outros atores tenham sido cotados para tal, como Jeff Bridges, Nick Nolte, Don Johnson, Richard Gere e Mel Gibson (além dos absurdamente inadequados Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger). E se Tim Robbins - então na flor dos 31 anos de idade - não tinha exatamente o tipo de galã tradicional, encontrou em Ebby LaLoosh um veículo ideal para exibir o timing cômico que chegaria ao ápice em "As aventuras de Erik, o viking" (1989) e o talento para produções menos óbvias, como "Alucinações do passado" (1989). Juntos a Susan Sarandon, são eles que mantém o interesse em "Sorte no amor" mesmo por aqueles que não fazem a menor ideia de como funcionam as regras de beisebol - ou não estão nem um pouco inclinados a saber. Feito para os fãs do esporte, mas sem ignorar o vasto público que não o é, Ron Shelton realizou o melhor filme de sua carreira e um dos melhores do gênero.

quarta-feira

A DESPEDIDA


A DESPEDIDA (Blackbird, 2019, Millenium Media/Busted Shark Productions/Eclectic Pictures, 97min) Direção: Roger Michell. Roteiro: Christian Torpe, roteiro original de sua autoria. Fotografia: Mike Eley. Montagem: Kristina Hetheringon. Música: Peter Gregson. Figurino: Dinah Collin. Direção de arte/cenários: John Paul Kelly/Caroline Smith. Produção executiva: Boaz  Davidson, Andrey Georgiev, Jeffrey Greenstein, Andrew Kotliar, Avi Lerner, Bryan Lord, Heidy Jo Markel, Joshua Sason, Trevor Short, Jonathan Yunger, Elizabeth Zavoyskiy. Produção: David Bernardi, Sherryl Clark, Rob Van Norden. Elenco: Susan Sarandon, Kate Winslet, Mia Wasikowska, Sam Neill, Lindsay Dunca, Rainn Wilson, Bex-Taylo-Klaus, Anson Boon. Estreia: 06/9/2019 (Festival de Toronto)

Portadora de uma doença degenerativa incurável, mulher reúne a família em um último fim-de-semana, com o objetivo de aparar as arestas de suas relações e despedir-se daqueles a quem ama. A sinopse do filme "A despedida" soa tão genérica quanto seu título nacional, mas a boa notícia é que, apesar dos clichês abundantes, o remake do dinamarquês "Coração mudo" (2014), comandado por Roger Michell, é uma produção bastante digna e capaz de comover o público com facilidade - principalmente pela união de um elenco que conta com duas vencedoras do Oscar e atores com prestígio e experiência suficientes para evitar o dramalhão fácil. Nem sempre consegue escapar das armadilhas de uma trama assumidamente emocional, mas dotado de um ritmo agradável e um roteiro que trata de um assunto pesado - a eutanásia - com uma leveza inesperada, o filme é uma bela surpresa, ainda que pouco marcante, o que se refletiu em sua repercussão quase nula desde sua estreia no Festival de Toronto de 2019.

Escrito pelo mesmo Christian Thorpe do filme original, o roteiro de "A despedida" apresenta seus personagens aos poucos - e só expõe a situação principal depois que o espectador já os conhece o bastante para apreciar suas reações diante de um dilema dos mais dilacerantes. Lily (Susan Sarandon, sempre excepcional) e Paul (Sam Neill) formam um casal apaixonado e leal, que criou suas duas filhas com amor e liberdade. A mais velha, Jennifer (Kate Winslet) cresceu uma mulher um tanto controladora, que não abre muito espaço para espontaneidade em sua vida, para incômodo do marido, Michael (Rainn Wilson), e do filho adolescente Jonathan (Anson Boon). A caçula, Anna (Mia Wasikowska), mais rebeldes e desajustada, vive em constantes altos e baixos, o que interfere inclusive no seu relacionamento com a namorada, Chris (Bex Taylor-Klaus). Sofrendo de uma doença que em pouco tempo lhe deixará completamente incapaz de uma vida normal, Lily decide cometer suicídio assistido, contando com a ajuda do marido, que é médico, e para despedir-se adequadamente de todos a quem ama, organiza um fim-de-semana em sua bela casa no litoral - uma espécie de Natal adiantado, que conta também com a presença da sempre fiel e melhor amiga Liz (Lindsay Duncan). Reunido, o grupo tenta ignorar a tensão de uma morte anunciada - o que traz à tona ressentimentos, segredos e sentimentos até então disfarçados sob a aparência de uma família feliz.


 

Não há novidades em "A despedida": o tema, os personagens, os conflitos, tudo parece já ter sido explorado em outras produções mais ou menos bem-sucedidas. Mas é inegável que no filme de Michell - o homem por trás do delicioso "Um lugar chamado Notting Hill" (1999) - as engrenagens funcionam com uma delicadeza ímpar. Por mais que as coisas aconteçam de acordo com os manuais de roteiro (com direito a reviravoltas e um equilíbrio sutil entre drama e algum humor), é difícil não se deixar envolver com o drama proposto, principalmente por jogar luz sob um tema ainda doloroso e polêmico. A produção acerta em não se deixar levar por um tom fúnebre - para o que colabora a luminosa fotografia de Mike Eley, que tira proveito da beleza natural de West Sussex como contraponto à angústia da trama. Também não atrapalha nem um pouco ter em cena atores tão à vontade quanto o elenco escolhido - um time de excelentes intérpretes, que aproveitam cada linha de diálogo para brilhar. Se Susan Sarandon e Kate Winslet não precisam provar mais nada há algum tempo, sobra para Rainn Wilson e Bex Taylor-Klaus chamarem a atenção: ele distante anos-luz de seu mais célebre personagem - o Dwight da série "The office" - e ela oferecendo nuances inesperadas as uma personagem que poderia facilmente cair no estereótipo barato.

"A despedida" não é um filme que fica na memória. Talvez seja sintomático que, apesar do tema, do gênero e do elenco brilhante, tenha sido solenemente ignorado em todas as cerimônias de premiação que tanto apreciam seu estilo. Porém, ao abraçar com sensibilidade e honestidade uma história com tantas possibilidades de cair no grotesco ou no sentimentaloide mais ofensivo, se torna um programa de rara inteligência e sutileza. E claro, contar com um elenco tão fabuloso apenas ajuda a tornar tudo bem mais palatável. É um filme com (grandes) qualidades e (alguns) defeitos - a falta de originalidade sendo o mais óbvio. Mas é, acima de tudo, um filme digno ainda que por vezes um tanto superficial.

sábado

ASSASSINATO SOB CUSTÓDIA

ASSASSINATO SOB CUSTÓDIA (A dry white season, 1989, MGM Pictures, 106min) Direção: Euzhan Palcy. Roteiro: Colin Welland, Euzhan Palcy, romance de André Brink. Fotografia: Pierre-William Glenn, Kelvin Pike. Montagem: Glenn Cunningham, Sam O'Steen. Música: Dave Grusin. Figurino: Charles Knode. Direção de arte/cenários: John Fenner/Peter James. Produção executiva: Tim Hampton. Produção: Paula Weinstein. Elenco: Donald Sutherland, Susan Sarandon, Marlon Brando, Janet Suzman, Zakes Mokae, Jurgen Prochnow, Winston Ntshona. Estreia: 10/9/89 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Marlon Brando)

No final dos anos 90, Hollywood parecia ter despertado para a questão do apartheid na África do Sul. Na época, Nelson Mandela ainda cumpria pena, mas filmes como "Um grito de liberdade" (87), de Richard Attenborough - que deu a primeira indicação ao Oscar a Denzel Washington - e "Um mundo à parte" (88), de Chris Menges - prêmio de melhor atriz em Cannes para Barbara Hershey - lidavam abertamente com questões ligadas ao tema. O final dessa trilogia informal, "Assassinato sob custódia", foi lançado em 1989, depois de um processo de produção de cerca de cinco anos, que incluiu uma troca de estúdio (a Warner abandonou o projeto, que foi parar na MGM), a negociação de pagamento mínimo aos atores do elenco (Marlon Brando entre eles) e boatos de espionagem por parte do governo da África do Sul durante as filmagens no Zimbabue. Primeiro filme de um grande estúdio a ser dirigido por uma mulher negra (Euzhan Palcy, nascida na Martinica), a adaptação do romance do sul-africano André Brinks, lançado em 1979 e banido em seu país de origem, é um filme intenso e doloroso, mas que esbarra em um ritmo irregular. Mesmo assim, é de suma importância política e social, ao retratar, sem meias-palavras, a crueldade do regime e a conivência da justiça em um período de extrema violência e preconceito racial.

Lançado no Festival de Toronto de 1989, "Assassinato sob custódia" conquistou elogios calorosos e teve, a seu favor, a publicidade em torno do retorno de Marlon Brando ao cinema, nove anos depois do malfadado "A fórmula" (80). Trabalhando quase de graça, o veterano ator não apenas chamou a atenção do público - ávido por voltar a vê-lo - como também conquistou uma indicação ao Oscar de coadjuvante (a única do filme). Seu desempenho é curto, mas crucial para a trama, apesar de ter sido filmado em apenas oito dias e ter dado trabalho à diretora: não apenas os dois entraram em conflito em razão de uma cena que acabou cortada da montagem final, como Brando alegou ter reescrito algumas cenas e as dirigido pessoalmente. Além disso, deu declarações contrárias à MGM pelo corte final do filme, que, segundo ele, passa a impressão de que "o apartheid é coisa de um passado muito remoto e não atual e presente". Problemas à parte, a presença de Marlon Brando no elenco do filme é apenas uma de suas várias qualidades - e vale mais por sua estatura icônica dentro da indústria do que por seu tempo de tela. O real protagonista é Ben Du Toit, um professor sul-africano, de olhos azuis e de classe média interpretado por Donald Sutherland em registro discreto mas eficiente - mas antes que surja a reclamação de mais um white savior em filmes do gênero, é bom que se destaque que, apesar de ser os olhos da plateia, Ben é apenas uma peça em uma engrenagem de homens e mulheres em busca de justiça - sejam eles brancos ou negros.


Du Toit é jogado em meio à tragédia do apartheid menos velado quando o filho de onze anos de idade de seu jardineiro, Gordon (Winston Ntshona), é sequestrado pelas forças policiais do governo. Em sua trajetória para localizar o menino, Gordon acaba sendo assassinado - tendo sua morte ocultada pelos meios oficiais e declarada natural. Indignado, Ben se une à jornalista britânica Melanie (Susan Sarandon) para tentar jogar luz nas reais condições das prisões do país, onde tortura e assassinato são acontecimentos triviais. Um velho amigo de Gordon, Stanley (Zakes Mokae), é seu guia pelos meandros da sociedade dividida da África do Sul - e irá lhe servir também de apoio quando outras mortes começam a acontecer a seu redor e até sua família, amigos e colegas de trabalho resolvem lhe virar as costas. Em sua descida rumo ao desconhecido, ele conta com seu apego à verdade e à certeza de estar lutando do lado certo da batalha. Seu maior empecilho nisso é o Capitão Stoltz (Jurgen Prochnow), que não mede esforços ou estratégias para apagar os vestígios de seus crimes de ódio.

Assim como "Um grito de liberdade" tratava dos desdobramentos da morte do ativista Steve Biko, "Assassinato sob custódia" se utiliza de um crime bárbaro para mergulhar o espectador em um mundo onde as leis e a igualdade racial só existem na teoria. Durante a primeira metade do filme, a diretora conta sua história com placidez, ainda que revoltosa, como se preparando o público para sua metade final. A partir daí, quando Du Toit e Stanley percebem que a única maneira de desvendar toda a lista de atrocidades que os cerca é jogando com armas menos leais e claras, o filme acelera o ritmo, engrena uma sucessão de sequências impactantes e passa a revelar o caráter real de alguns de seus personagens, conduzindo a um final realista e triste. Pontuado pela bela trilha sonora de Dave Grusin e valorizado por um elenco coadjuvante formado por atores sul-africanos que dão um tom de veracidade ainda maior à trama, o filme de Euzhan Palcy - que posteriormente dedicou-se mais à carreira de documentarista - é um petardo emocional verdadeiro e pungente. Apesar de parecer, em alguns momentos, um telefilme, é um prato cheio para aqueles que gostam de unir o útil ao agradável e procuram entretenimento com substância. Um filme subestimado e muito importante, lançado, ironicamente, na mesma temporada em que "Conduzindo Miss Daisy" - criticado por seu retrato romantizado do racismo - ganhou o Oscar de melhor filme. A Academia, como sempre, perdendo o trem da história!

terça-feira

VOCÊ NÃO CONHECE O JACK

VOCÊ NÃO CONHECE O JACK (You don't know Jack, 2010, HBO Films, 134min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Adam Mazer. Fotografia: Eigil Bryld. Montagem: Aaron Yanes. Música: Marcelo Zarvos. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Mark Ricker/Rena DeAngelo. Produção executiva: Lydia Dean Pilcher, Tom Fontana, Steve Lee Jones, Barry Levinson, Glenn Rigberg. Produção: Scott Ferguson. Elenco: Al Pacino, Brenda Vaccaro, Susan Sarandon, John Goodman, Danny Huston, Deirdre O'Connell, Todd Susman. Estreia: 14/4/10

Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator em Minissérie ou Filme Para TV (Al Pacino)

Tivesse sido realizado para o cinema, como foi planejado a princípio, "Você não conhece o Jack" certamente teria alcançado a cerimônia do Oscar: dirigido por Barry Levinson (vencedor da estatueta por "Rain Man", de 1988) e estrelado por Al Pacino (premiado por "Perfume de mulher", em 1993, depois de várias outras infrutíferas indicações) e Susan Sarandon (a melhor atriz de 1995 por "Os últimos passos de um homem"), o filme que narra a luta real de um médico pelo direito dos pacientes ao suicídio assistido é uma empolgante demonstração do talento de seu realizador em contar uma história com todas as ferramentas de que dispõe - sem soar didático ou polêmico em excesso. Mesmo sendo perceptivelmente simpático à causa de seu protagonista, Levinson constrói seu filme de forma sóbria e responsável, amparado por uma atuação avassaladora de Pacino e um roteiro inteligente de Adam Mazer, que equilibra com maestria as batalhas jurídicas travadas nos tribunais e momentos de grande emoção, em boa parte oferecidos por imagens reais de pacientes que procuraram aliviar seu sofrimento pelas mãos daquele que ficou conhecido como "Doutor Morte". Com uma atuação avassaladora de Pacino (que acabou ganhando o Golden Globe, o Emmy e o SAG Award), o filme é também o melhor filme de Levinson desde "Mera coincidência" (97) - e um dos mais fascinantes sobre o tema já realizados.

Jack Kevorkian, o protagonista, era um médico, filho de armênios, que, nos anos 90, tornou-se conhecido mundialmente não apenas por defender a eutanásia como forma de permitir uma morte digna como desfecho de doenças terminais, mas também por colaborar, através de uma máquina criada por ele, para que tais pacientes tivessem seu desejo atendido. Suas ações o levaram a capas de revistas, a programas de entrevistas no rádio e na televisão, e principalmente aos tribunais: acusado de homicídio em alguns casos, Kevorkian contava com a ajuda de seu advogado, Geoffrey Fieger (Danny Huston, com uma horrenda peruca loura), sua irmã, Margo (Brenda Vaccaro), seu fornecedor de medicamentos, Neal Nicol (John Goodman), e a militante pró-direito de escolha Janet Good (Susan Sarandon). Acreditando piamente em seus princípios, o grupo acaba por enfrentar a ira de religiosos e a gana de advogados ambiciosos, que veem na figura do médico a chance de alavancar suas carreiras. Cada golpe, porém, faz de Kevorkian um homem mais forte e decidido a levar a discussão até o mais alto grau de justiça dos EUA: a Suprema Corte.


Magistralmente editado - com cenas reais, onde Pacino substitui, por computação gráfica, o verdadeiro Kevorkian em entrevistas com possíveis pacientes - e centrado basicamente em discutir o assunto de forma racional e honesta, "Você não conhece o Jack" apresenta uma abordagem séria, que não esconde a visão benevolente que tem de seu protagonista, mas ao mesmo tempo respeita a visão negativa de certos setores mais conservadores da sociedade norte-americana. Ao construir um Jack Kevorkian humano, falível e fatalmente solitário em suas questões éticas, o roteiro de Adam Mazer o retrata quase como um mártir, mas o trabalho impecável de Al Pacino evita que essa luz demasiado positiva o transforme em um santo irretocável. Dotando seu personagem de nuances, o veterano ator mostra que, mesmo depois dos 70 anos, ainda pode surpreender a plateia - há muito tempo não se via Pacino tão à vontade em cena, em um papel que lhe oferece mil oportunidades de brilho e aplausos. Mesmo que contracene com nomes de peso, é ele a alma do filme - e seu principal sustentáculo em mais de duas horas de duração.

Apesar da longa duração, no entanto, "Você não conhece o Jack" jamais se torna cansativo ou repetitivo - algo admirável, em especial quando se percebe que grande parte da história é restrita aos atendimentos de Jack e suas consequências jurídicas. Por incrível que pareça, o vai-e-volta de tribunais, os longos diálogos e o tom melancólico, ao contrário de atrapalhar o ritmo, parecem dar coesão e consistência a uma trama que, apesar de densa e dramática, apela igualmente para a razão e a emoção. Como testemunhas privilegiadas, o público tem a oportunidade de conhecer os ideais e os métodos de um dos homens mais polêmicos de sua época de forma clara e inteligente, sem manipulações piegas ou sensacionalistas. É um trabalho maduro e honesto, assinado por um diretor de talento inquestionável - apesar de alguns tropeços constrangedores na carreira - e estrelado por um dos maiores atores dos EUA. É, por seu tema e por seu resultado final, um filme imprescindível!

quarta-feira

BERNARD E DORIS: O MORDOMO E A MILIONÁRIA

BERNARD E DORIS: O MORDOMO E A MILIONÁRIA (Bernard and Doris, 2006, HBO Films, 103min) Direção: Bob Balaban. Roteiro: Hugh Costello. Fotografia: Mauricio Rubinstein. Montagem: Andy Keir. Música: Alex Wurman. Figurino: Joseph G. Aulisi. Direção de arte/cenários: Franckie Diago/Dirk Braeger. Produção executiva: Bob Balaban, Dana Brunetti, Jonathan Cavendish, Adam Kassen, Mark Kassen, Kevin Spacey. Elenco: Susan Sarandon, Ralph Fiennes, James Rebhorn, Monique Gabriela Curnen. Estreia: 17/10/07 (Festival de Hamptons)

Nascida em 1912 e filha única de um magnata da indústria do tabaco e da energia elétrica. Herdeira de uma fortuna estimada em 100 milhões de dólares (em 1925!). Garçonete de uma cantina no Egito durante a II Guerra Mundial. Correspondente de guerra e articulista da revista Harper's Bazaar. Surfista. Ambientalista ferrenha. Horticulturista apaixonada. Fã de jazz e música gospel a ponto de cantar em um coral. Casada duas vezes - com James H. R. Cornwell e com o diplomata Porfírio Rubirosa - e sem filhos (a única morreu com apenas um dia de vida). Excêntrica por natureza e possibilidades financeiras, Doris Duke foi uma das personalidades mais carismáticas da vida social norte-americana entre a década de 40 e 90, quando morreu aos 80 anos de idade em consequência de um edema pulmonar. Inteligente, culta e generosa, ela foi tema de uma minissérie de 1999 estrelada por Lauren Bacall ("Too rich: the secret life of Doris Duke) e sempre chamou atenção por seus ambiciosos projetos arquitetônicos, como um jardim de exposição pública em Nova Jersei, com onze jardins interligados que retratavam a cultura e a arquitetura de diversos países. Não muito conhecida fora dos EUA, Duke é também uma das protagonistas de "Bernard e Doris: o mordomo e a milionária", telefilme da HBO estrelado por Susan Sarandon e Ralph Fiennes, lançado em 2006 e indicado a três Golden Globes (melhor filme ou minissérie, ator e atriz) e dois SAG Awards (também para seus astros).


Dirigido pelo também ator Bob Balaban, "Bernard e Doris", como o título já antecipa, não é uma biografia de Doris, mas sim o retrato de sua relação de anos com o mordomo Bernard Lafferty, um irlandês homossexual e dedicado que se tornou, com o tempo, seu confidente e amigo mais próximo. O maior beneficiário do testamento de Boris, o introspectivo Bernard foi acusado de ter acelerado sua doença e manipulado a milionária para que lhe deixasse uma pequena fortuna - fato jamais comprovado - e sua morte, alguns anos mais tarde, foi lamentada por nomes como Elizabeth Taylor (com quem já havia trabalhado) e Sharon Stone. O relacionamento entre os dois, patroa e empregado, não é uma história repleta de lances dramáticos e reviravoltas, e sim um estudo delicado de personagens, realçado pelos desempenhos memoráveis de seus intérpretes. Excessivamente longo e por vezes um tanto cansativo, o filme de Balaban é um show de Sarandon e Fiennes, que, sozinhos, são capazes de transformar qualquer experiência em um espetáculo digno de nota - mesmo que o roteiro não seja exatamente interessante.


O filme começa com a chegada de Bernard à vida de Doris, tendo no currículo períodos trabalhando com Liz Taylor e Peggy Lee, entre outras celebridades. Não demora para que ele perceba que sua nova patroa é muito mais complexa do que aparenta ser nas manchetes dos jornais, e depois de um tempo, conquista sua confiança a ponto de fazer longas viagens com ela e dispor-se inclusive a lhe fazer confidências amorosas. Com sérios problemas de alcoolismo em sua vida, Bernard tenta esconder tal condição da milionária, mas tal objetivo torna-se cada vez mais difícil, especialmente depois de uma grave recaída - que põe em xeque sua lealdade e a reciprocidade de seus sentimentos. Construindo um Bernard Lafferty no limite entre o discreto e o afetado, Ralph Fiennes mais uma vez entrega um trabalho admirável, repleto de nuances e subtextos riquíssimos, ainda que mal aproveitados pelo roteiro esquemático de Hugh Costello. Susan Sarandon, por sua vez, brilha em uma personagem feita sob medida para seu talento superlativo: bela e carismática, ela engole tudo à sua volta quando entra em cena, e só não carrega o filme nas costas porque tem em Fiennes um parceiro à altura - é a dinâmica entre eles que vale cada minuto de projeção.

Apesar de ser uma produção da HBO - emissora conhecida pelo capricho de seus projetos - "Bernard e Doris" nunca consegue deixar para trás, no entanto, sua alma de filme feito para a televisão. Sua narrativa prescinde de um pouco mais de ousadia e nem mesmo consegue destacar-se em outros pontos artísticos, como a trilha sonora e a fotografia (competentes, mas opacas). Bob Balaban aposta todas as suas fichas em sua dupla de grandes atores protagonistas, e mesmo que eles sejam fabulosos e estejam em dias inspiradíssimos, não chega a ser suficiente para tornar o filme inesquecível. Tendo Kevin Spacey entre seus produtores executivos, é uma obra correta e simples, mas que perde a oportunidade de ser maior justamente por sua falta de pretensão. No caso de Doris Duke, esse não é um pecado facilmente perdoável.

FOME DE VIVER

FOME DE VIVER (The hunger, 1983, MGM, 97min) Direção: Tony Scott. Roteiro: Ivan Davis, Michael Thomas, romance de Whitley Strieber. Fotografia: Stephen Golblatt. Montagem: Pamela Power. Música: Denny Jaeger, Michel Rubini. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Ann Mollo. Produção: Richard A. Sheperd. Elenco: Catherine Deneuve, David Bowie, Susan Sarandon, Dan Hedaya, Beth Ehlers, Cliff De Young. Estreia: 29/4/83

Se existe um filme que já nasceu com a vocação de tornar-se cult, esse filme é "Fome de viver". Lançada dois anos depois da publicação do romance que lhe deu origem, escrito por Whitley Strieber, a produção dirigida pelo inglês Tony Scott - irmão de Ridley, recém saído da fria recepção a outro que logo se transformaria em objeto de culto, "Blade Runner: o caçador de androides" (82) - reunia logo em sua receita três ingredientes infalíveis para chamar a atenção do público dos ainda novos anos 80: o tema do vampirismo (jamais mencionado claramente, mas ainda assim bastante óbvio visualmente), a estética típica da geração MTV (ambientes enfumaçados, fotografia caprichada, edição ágil) e o elenco que juntava a europeia beleza glacial de Catherine Deneuve e a aura misteriosa e galante do roqueiro David Bowie (além da presença da então pouco conhecida, mas já bastante sensual Susan Sarandon). Longe de conquistar a unanimidade da crítica, incomodada justamente por seu cuidado extremo com o visual em detrimento da história, "Fome de viver" encontrou respaldo, porém, junto à uma parte da plateia que deixou-se seduzir pelo fascinante tom gótico do filme e o adotou calorosamente.

Sem precisar utilizar a palavra "vampiro" uma única vez durante todo o filme, Tony Scott acabou por conceber visualmente uma das mais perenes e impressionantes traduções de um tema clássico. Com escolhas certeiras - como a canção "Bela Lugosi's dead", da banda inglesa Bauhaus como ilustração da instigante sequência inicial - e uma atmosfera ao mesmo tempo sombria e erótica, o cineasta construiu um universo repleto de simbolismos a respeito de vida, morte, longevidade e sexo, iluminado pela fotografia deslumbrante de Stephen Goldblatt, de uma elegância que reflete o tom de extrema sutileza proposto pela trama criada por Strieber e roteirizada por Michael Thomas, que transfere para a Nova York do final do século XX o mundo fascinante e intrigante dos mortos-vivos sem apelar para a violência excessiva e utilizando os clichês do gênero de maneira criativa e moderna. Inserindo elementos contemporâneos à narrativa - uma das protagonistas é uma médica em busca da cura para a progeria, uma doença que causa o envelhecimento precoce - e apostando na sutileza em detrimento do horror explícito, Scott conseguiu o que parecia impossível: atualizar uma mitologia secular sem cair no ridículo ou no grotesco e ainda cativar uma nova geração de fãs.


Linda, sedutora e esbanjando elegância, Catherine Deneuve surge em cena como Miriam Blaylock, uma misteriosa mulher que se aproxima da dra. Sarah Roberts (Susan Sarandon) em uma sessão de autógrafos. Sua intenção é ajudar o marido, o músico John Baylock (David Bowie), que está sofrendo de uma condição que causa envelhecimento muito mais acelerado do que o normal - a ponto de tornar-se um senhor de mais de oitenta anos em poucas horas. Dedicada ao estudo clínico de uma possível cura para a doença do marido da bela estranha, Sarah nem de longe desconfia da verdade a respeito do bizarro casal: Miriam é uma centenária vampira egípcia que subsiste do sangue de seus amantes, a quem troca periodicamente, justamente quando eles começam a envelhecer. Seu relacionamento com John, que já dura mais de duzentos anos, está chegando ao destino final de todos os anteriores, e uma atração irresistível surge entre ela e a jovem médica, que sucumbe à tentação mesmo correndo o risco de tornar-se apenas mais uma amante/fonte de sangue da fria e estonteante Miriam. Enquanto isso, John tenta desesperadamente manter-se vivo e ao lado da mulher que ama - mesmo que para isso precise apelar para seus sensos mais primitivos e crueis, o que significa apelar para a concessão a seus instintos mortais.

Quem esperar um filme de terror convencional, ou até mesmo um conto vampiresco na acepção mais tradicional do termo pode até se decepcionar com "Fome de viver", uma vez que o filme de Tony Scott se afasta dos clichês mais óbvios do gênero - ao mesmo em que os abraça e os apresenta sob uma nova perspectiva narrativa. Em seu filme, não há um heroi em busca de redenção ou uma heroína em apuros sendo ameaçada por criaturas da noite com objetivos pura e simplesmente malévolos: seus protagonistas são os próprios vampiros, em conflito com sua realidade predadora ao mesmo tempo em que aproveitam os benefícios da juventude eterna (ou ao menos no caso dos amantes de Miriam, bem mais estendida do que o normal). Para ilustrar essa sensação de prazer constante ameaçado por um certo tédio blasé, a fotografia, a direção de arte e todos os elementos de cena (fumaça, pombos, cortinas esvoaçantes) são usados e abusados, para deleite de uns e desprezo de outros. A estética videoclipe, que encontrou na década de 80 um terreno fértil e hospitaleiro, é ingrediente crucial na receita do diretor, que mergulha sem medo na possível breguice de tal opção para imprimir uma marca registrada à história. Deu certo, mas só até determinado ponto: "Fome de viver" é, sem dúvida, um filme marcante por sua beleza, mas tropeça em um roteiro por vezes excessivamente frio e distante, que mais oferece perguntas do que respostas e que não desenvolve a contento todas as nuances de seus protagonistas, interpretados por um ícone do rock, uma diva europeia e uma grande atriz em começo de carreira. É uma mistura incendiária e interessante, que tanto pode encantar quanto aborrecer. É só tomar partido - e se deliciar com alguns dos momentos mais intensos da carreira de Scott - que depois embarcou no cinema de ação sem cérebro até suicidar-se em 2012, um trágico e irônico final para quem começou a carreira na sétima arte falando de vida eterna e escuridão.

quinta-feira

A VIAGEM

A VIAGEM (Cloud Atlas, 2012, Cloud Atlas Productions/X-Filme Creative Pool, 172min) Direção: Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski. Roteiro: Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski, romance de David Mitchell. Fotografia: Frank Grieber, John Toll. Montagem: Alexander Berner. Música: Reinhold Heil, Johnny Klimek, Tom Tykwer. Figurino: Kym Barrett, Pierre-Yves Gayraud. Direção de arte/cenários: Hugh Bateup, Uli Hanisch/Rebecca Alleway, Peter Walpole. Produção executiva: John Chong, Caroline Kwauk, Philip Lee, Wilson Qiu, Uwe Schott, Pearry Reginald Teo, Ricky Tse. Produção: Stefan Arndt, Alex Boden, Grant Hill, Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski. Elenco: Tom Hanks, Susan Sarandon, Halle Berry, Hugh Grant, Jim Broadbent, Jim Sturgess, Hugo Weaving, Ben Winshaw, Doona Bae, James D'Arcy, Xun Zhou. Estreia: 08/9/12 (Festival de Toronto)

Se um filme é rejeitado enfaticamente por um pretenso crítico como Rubens Ewald Filho - uma das maiores fraudes do jornalismo cultural já forjadas na imprensa nacional - isso provavelmente quer dizer que a obra é, no mínimo, interessante e digna de atenção. Sendo assim, é obrigatório que se deixe o preconceito e qualquer tipo de expectativa de lado para conferir "A viagem" - título nacional inapropriado para o intraduzível "Cloud Atlas" - mais um passo dos irmãos Wachowski em sua missão de sacudir a mesmice do cinema internacional, como fizeram com "Matrix" em 1999. Dessa vez contando com a co-direção do alemão Tom Tykwer (do criativo "Corra Lola, corra"), eles adaptaram o difícil romance de David Mitchell em um filme tecnicamente perfeito que, se não chega a ser emocionalmente brilhante devido à sua natureza episódica, é um dos mais ousados produtos cinematográficos dos últimos anos, voltando a tocar (de forma poética e sensível) em temas caros aos cineastas, como filosofia, destino e livre-arbítrio - que eles voltaram a usar como tema na série de TV "Sense8", lançada em 2015 com grande sucesso.

O complexo roteiro - escrito pelos irmãos e por Tykwer - conta seis histórias simultaneamente, ainda que elas aconteçam em períodos de tempo e espaço díspares. A espetacular edição - a cargo de Alexander Berner, cujo melhor filme do currículo é a adaptação para as telas do bestseller "O perfume" - costura as tramas de forma envolvente, sublinhando as semelhanças e coincidências entre elas para explicitar ao espectador que todas elas, no fundo, formam um grande e abrangente panorama humano e social. Segundo a teoria do filme - que de certa forma evoca muitos ensinamentos da doutrina espírita - tudo que se faz em uma vida ecoa para a eternidade, afetando mesmo que indiretamente outras pessoas (e também fica claro que as mesmas pessoas, em sexos, classes sociais e épocas distintas convivem entre si, muitas vezes repetindo de forma inconsciente o que já fizeram em vidas passadas). É assim que um jovem advogado (vivido por Jim Sturgess) ajuda um escravo foragido no ano de 1849 e em 2144 um revolucionário japonês (também interpretado por Sturgess, dessa vez sob forte maquiagem) colabora com a fuga de uma ciborgue (Doona Bae) que será uma líder contra a opressão (alguém aí lembrou de "Matrix"?). E é seguindo essa linha de raciocínio que outras personagens e histórias são apresentadas ao público, utilizando o mesmo elenco em todas elas, muitas vezes de forma irreconhecível: Tom Hanks, Halle Berry, Hugh Grant, Susan Sarandon, Jim Broadbent, Hugo Weaving e Ben Winshaw surgem diante da plateia com os mais variados visuais e papeis, escondidos frequentemente por trás de uma maquiagem nunca menos que brilhante (e injustamente esquecida pelo Oscar). O elo entre as personagens às vezes é óbvio, em outras nem tanto - e uma marca na pele, em forma de estrela cadente, os une inexoravelmente.



Ambicioso e por vezes quase megalomaníaco, "A viagem" tem a seu favor a coragem de enfrentar de igual pra igual produções anabolizadas em forma e orçamento que sofrem com uma irreparável falta de conteúdo - e mesmo assim levam multidões às salas de cinema. Forçando o público a sair de sua passividade intelectual, logicamente se arriscou a pregar no deserto - e foi o que aconteceu, com uma bilheteria muito aquém da esperada e merecida. Enquanto filmes de super-heróis quebravam recorde em cima de recorde, o filme de Tykwer e dos Wachowski minguava, chegando a dividir as opiniões até mesmo daqueles que se arriscaram a uma sessão. Realmente não é um filme de fácil assimilação, e isso acaba por ser mais uma qualidade do que um defeito. Mesmo os detratores, porém, são obrigados a reconhecer que, apesar de alguns equívocos, a obra tem qualidades redentoras, como a espetacular trilha sonora e toda a técnica envolvida em criar mundos tão díspares e uní-los em uma única trama. Mesmo que o roteiro tente não complicar demais as coisas e dê pistas às vezes óbvias das ligações entre os personagens, os autores não subestimam a inteligência do público e é aí que seu maior mérito fica evidente: "A viagem" é um filme para adultos que gostam de pensar e ser tocados por uma história. Seus efeitos visuais, sua maquiagem, seus artifícios são apenas a ponte para um objetivo maior, que mesmo não sendo atingido em sua plenitude, sacode a inércia da audiência.

Pecando apenas por não dar ao público a chance de realmente conhecer a fundo as personagens e se importar de verdade com seus problemas - o que não impede que algumas histórias se sobressaiam dramaticamente a outras - "A viagem" requer paciência e a liberdade de embarcar rumo a uma experiência inebriante e rica. Não é um filme que agrada a todo mundo (em especial a resenhistas que julgam atores por seu visual e cultuam alucinadamente divas de uma Hollywood que não mais existe). Mas é corajoso e tem muito a dizer. Poucos filmes recentes podem se gabar disso.

sábado

NO VALE DAS SOMBRAS

NO VALE DAS SOMBRAS (In the valley of Elah, 2007, Warner Independent Pictures/Summit Entertainment, 121min) Direção: Paul Haggis. Roteiro: Paul Haggis, estória de Paul Haggis e Mark Boal. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Jo Francis. Música: Mark Isham. Figurino: Lisa Jensen. Direção de arte/cenários: Laurence Bennett/Linda Sutton-Doll. Produção executiva: Emilio Diez Barroso, Erik Feig, David Garrett, Bob Hayward, James Holt, Stan Wlodowski. Produção: Laurence Becsey, Paul Haggis, Steven Samuels, Patrick Wachsberger. Elenco: Tommy Lee Jones, Charlize Theron, Susan Sarandon, Jason Patric, James Franco, Jonathan Tucker, Josh Brolin, Frances Fisher, Zoe Kasdan. Estreia: 01/9/07 (Festival de Veneza)

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Tommy Lee Jones)

Na metade da primeira década dos anos 2000 poucos nomes eram tão quentes em Hollywood quanto o de Paul Haggis. Roteirista de dois filmes vencedores do Oscar em anos consecutivos - "Menina de ouro" em 2005 e "Crash, no limite", que ele também dirigiu, em 2006 - ele assinou também o script de "Cartas de Iwo Jima", que concorreu à estatueta no ano seguinte e parecia que tinha tudo para marcar presença também na cerimônia de 2008 com "No vale das sombras", que tinha na receita alguns ingredientes aparentemente infalíveis para cair no gosto da Academia: relação entre pai e filho, guerra no Iraque e atores já devidamente consagrados - Tommy Lee Jones, Charlize Theron e Susan Sarandon. Porém, para surpresa de muitos, quando a lista de indicados foi divulgada, o filme mostrou-se praticamente ignorado: apenas Lee Jones foi lembrado, com uma indicação que parecia mais um prêmio de consolação do que merecimento. Nada mais justo: apesar de algumas qualidades óbvias, "No vale das sombras" é mais do mesmo, um misto entre drama, guerra e policial que não consegue empolgar em nenhum dos gêneros. É correto, nunca brilhante.

Tommy Lee Jones - em papel recusado por Clint Eastwood, que o recomendou a Haggis - interpreta, com o mesmo tom de enfado e falta de entusiasmo de sempre, o sargento aposentado Hank Deerfield, que sai de sua pequena cidade do interior do Tennessee para investigar o desaparecimento de seu filho caçula, Mike (Jonathan Tucker), recém-chegado ao Novo México depois de uma missão de 18 meses no Iraque. Lutando contra a burocracia da polícia e dos militares locais, ele tenta descobrir por conta própria o que aconteceu com o rapaz, até que sua investigação muda tragicamente de rumo quando os restos mortais do jovem são localizados, queimados e abandonados em um matagal. Com a ajuda da detetive Emily Sanders (Charlize Theron, sempre competente) - uma mãe solteira que luta contra o machismo e a misoginia dos colegas - Deerfield precisa usar de sua experiência e de sua determinação para romper o bloqueio de mentiras e meias-verdades do quartel e dos colegas do filho e chegar à verdade. Enquanto isso, em casa, sua esposa, Joan (Susan Sarandon, a ponto de roubar a cena em cada momento), lida com a perda do segundo filho - o primeiro morreu em um acidente aéreo quando estava em serviço, também militar.


O maior problema de "No vale das sombras" é sua indecisão: ao optar por uma miscelânea de gêneros, Paul Haggis tenta abarcar todos com a mesma desenvoltura, quando fica óbvio até ao menos atento espectador que tal ambição fica seriamente comprometida quando a trama não tem força suficiente para amparar tanto. O desenrolar da investigação de Deerfield é interessante e seus métodos são igualmente empolgantes, mas o desfecho criado pelo roteiro é anti-climático e seu relacionamento com Emily e seu filho pequeno nunca ultrapassa o superficial e o clichê - a ponto de ele usar uma história para dormir como metáfora para o tema do filme, a luta de Davi contra Golias. O excesso de lugares-comuns do roteiro também é perceptível a qualquer um, especialmente quando chega aquele momento fatídico em que a detetive se rebela contra a mesquinharia de seus colegas e resolve unir-se ao abnegado pai em busca da verdade sobre o filho. Em mãos menos capazes e talentosas, perigava ser intragável. Felizmente Theron é sensacional e Lee Jones, apesar de repetir ad nauseum todos os trejeitos de sempre, consegue convencer como um homem turrão e decidido. Eles salvam o filme da vala comum dos telefilmes semanais e dão um verniz de inteligência até mesmo quando a trama dá sinais de que não tem muito a oferecer.

Longe de ser um filme ruim, "No vale das sombras" acaba se ressentindo das expectativas que criou com a assinatura de Haggis, o elenco de astros e o tema momentoso. Se tivesse escolhido um gênero e se mantido nele, com personagens menos superficiais e uma trama menos previsível, poderia ter se transformado no grande filme que pretendia ser. Como está, é apenas uma produção ok, que entretém, mantém a atenção, mas desaparece da memória do público assim que termina a sessão. Convenhamos, é muito pouco.

sexta-feira

EM QUALQUER OUTRO LUGAR

EM QUALQUER OUTRO LUGAR (Anywhere but here, 1999, 20th Century Fox, 114min) Direção: Wayne Wang. Roteiro: Alvin Sargent, romance de Mona Simpson. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Nicholas C. Smith. Música: Danny Elfman. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: Donald Graham Burt/Barbara Munch. Produção executiva: Ginny Nugent. Produção: Laurence Mark. Elenco: Susan Sarandon, Natalie Portman, Shawn Hatosy, Bonnie Bedelia, Thora Birch, John Carrol Lynch, Hart Bochner, Paul Guilfoyle, Megan Mulally, Caroline Aaron. Estreia: 17/9/99 (Festival de Toronto)

Se alguém ainda duvida do poder que duas atrizes de primeiro gabarito tem em transformar uma ideia simples e banal em um filme interessante, esse alguém precisa assistir a "Em qualquer outro lugar". Baseado em um romance nada memorável de Mona Simpson - irmã biológica de Steve Jobs - e dirigido sem muita criatividade por Wayne Wang (responsável pelo belo "O clube da felicidade e da sorte"), o filme, que retrata a difícil relação entre mãe e filha de personalidades conflitantes, sustenta-se basicamente no duelo de interpretações travado entre Susan Sarandon e Natalie Portman, que tomam para si a responsabilidade de dar consistência e emoção a personagens complexas que, em mãos menos sensíveis, poderiam soar apenas chatas e desagradáveis.

Ciente de que merece mais oportunidades que sua pequena Bay City lhe proporciona, a inquieta Adele August (Susan Sarandon) abandona o segundo marido e parte para Beverly Hills acompanhada da filha de 14 anos, a introvertida Ann (Natalie Portman), a quem ela deseja transformar em uma atriz. Fazendo a viagem conta a sua vontade, Ann - cujo contato com o pai foi perdido ainda nos primeiros anos da infância - começa a afastar-se ainda mais da mãe, uma mulher forte e determinada, mas equivocada na forma como leva a vida. Mudando-se constantemente e buscando sempre emoções novas - o que na prática tanto se resume a conquistar homens que podem lhe dar o conforto procurado quanto ambicionar um estilo de vida mais confortável e luxuoso - Adele muitas vezes demonstra ser mais imatura que a filha, cujo único objetivo imediato é terminar a escola, para mais tarde tentar entrar em uma faculdade, longe dos delírios de sua mãe.


Com uma linha narrativa frágil e sem maiores lances dramáticos - nem mesmo uma inesperada e trágica morte altera o tom naturalista proposto por Wang, um cineasta com bom olho para a variação de nuances de suas atrizes - "Em qualquer outro lugar" pode ser descrito sem medo como um filme "para mulheres", já que concentra-se exclusivamente no ponto de vista feminino da história, relegando os homens a meros coadjuvantes unidimensionais. Tal opção, ainda que válida, acaba por limitar o alcance da obra e lhe tirando as possibilidades de agradar a um público mais amplo - o que explica sua bilheteria pouco representativa mesmo com o relativo poder de fogo de Sarandon, na época já premiada com o Oscar por seu trabalho em "Os últimos passos de um homem". Uma das grandes atrizes de sua geração, ela domina cada sequência com um carisma gigantesco, que impede a rejeição à uma personagem que não é exatamente simpática: irresponsável, carente e muitas vezes egoísta, sua Adele só encontra redenção em seu amor (distorcido, mas ainda assim amor) pela filha, vivida por uma ainda iniciante Natalie Portman - que entrou no elenco como exigência absoluta de Sarandon. Linda como sempre, Portman mostra a cada momento o porquê da instransigência de sua mãe fictícia: juntas, elas são o corpo e a alma do filme.

Resumir "Em qualquer outro lugar" não é empolgante. A história é banal, quase clichê. As personagens raramente ultrapassam os limites do superficial - e quando o fazem devem isso a suas talentosas protagonistas. A narrativa não é criativa, apesar de compensar tal característica na seriedade e na placidez. Mas ao mesmo tempo é difícil não se deixar envolver pelo filme de Wang, já que ele tem a inteligência de apoiar-se quase exclusivamente em suas atrizes centrais, tão espetaculares e carismáticas que disfarçam todo e qualquer momento de tédio. É, literalmente, um filme que vale pelo elenco.

quinta-feira

ADORÁVEIS MULHERES

ADORÁVEIS MULHERES (Little women, 1994, Columbia Pictures Corporation, 115min) Direção: Gillian Armstrong. Roteiro: Robin Swicord, romance de Louisa May Alcott. Fotografia: Geoffrey Simpson. Montagem: Nicholas Beauman. Música: Thomas Newman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Jan Roelfs/Jim Erickson. Produção: Denise Di Novi. Elenco: Winona Ryder, Susan Sarandon, Gabriel Byrne, Trini Alvarado, Kirsten Dunst, Claire Danes, Samantha Mathis, Christian Bale, Eric Stoltz, John Neville, Donal Logue. Estreia: 21/12/94

3 indicações ao Oscar: Atriz (Winona Ryder), Trilha Sonora Original, Figurino

Só mesmo a safra fraquíssima de 1994 e a vontade sempre premente de Hollywood em fabricar novas estrelas justificam a indicação de Winona Ryder ao Oscar de melhor atriz por "Adoráveis mulheres", nova versão do clássico da literatura norte-americana, dessa vez sob o comando da australiana Gillian Armstrong: seu desempenho como Josephine, uma jovem pré-feminista que desafia as convenções de sua sociedade com o objetivo de vencer como escritora em um país saindo da Guerra de Secessão nunca ultrapassa o convencional e é frequentemente eclipsada por atuações bastante superiores do elenco coadjuvante - que inclui as novatas Claire Danes e Kirsten Dunst. Sem jamais imprimir a força necessária ao papel - que foi de Katharine Hepburn em uma versão realizada em 1933 por George Cukor - Ryder é, perigosamente, o elo mais fraco da produção, que também conquistou indicações ao Oscar pela bela trilha sonora de Thomas Newman e pelo caprichado figurino de Colleen Atwood.

Publicado pela primeira vez em 1868, o romance "Mulherzinhas", de Louisa May Alcott é um dos livros mais populares da literatura norte-americana, tendo recebido diversas adaptações para a tv e o cinema desde 1917, quando uma primeira versão chegou às telas, ainda na fase do cinema mudo. De sua publicação até o lançamento do filme de Armstrong se passou mais de um século, e era esperado que a cineasta australiana tirasse proveito dessa distância temporal - presumivelmente um benefício para análises mais isentas do papel da mulher na sociedade ianque - para realizar uma obra que destacasse a forte personalidade de sua protagonista em meio a um mundo dominado por homens. Não foi o que aconteceu. O roteiro de Robin Swicord, apesar do ritmo agradável, detém-se basicamente no melodrama familiar e romântico do livro, negando à personagem principal a potência que tem no romance. Somada à atuação mecânica de Ryder - fã confessa do livro - essa opção enfraquece o resultado final, deixando "Adoráveis mulheres" muito aquém de suas possibilidades.


As adoráveis mulheres do título são as integrantes femininas da família March, que, durante a Guerra de Secessão, fazem o possível para manter-se unidas e saudáveis, mesmo desfalcadas da presença paterna - que está no front - e das posses que tinham antes do início do conflito: a matriarca, (Susan Sarandon, pouco aproveitada e que foi rival de Winona na disputa pelo Oscar, por seu trabalho em "O cliente", de Joel Schumacher), e as quatro filhas, que além de tudo, tem também que adequar-se às regras sociais da época como forma de arrumar um bom casamento. A mais velha, Meg (Trini Alvarado) se interessa por John Brooke (Eric Stoltz), preceptor de seu vizinho, um homem bom mas não necessariamente rico. A segunda, Jo (Ryder), sonha em tornar-se escritora, tem ideais feministas - antes do advento do feminismo - e vive uma relação dúbia com o jovem Laurie (Christian Bale), que vive na casa ao lado, com o avô (John Neville). A terceira, Beth (Claire Danes) tem preocupações sociais e se dedica a cuidar daqueles que tem menos do que elas, até contrair escarlatina e ver sua saúde ficar seriamente ameaçada. E a caçula, Amy (Kirsten Dunst e Samantha Mathis em dois períodos distintos da trama), vive de sonhar acordada, esperando um bom marido para sair da pobreza.

Quando a segunda fase da história começa, Jo muda-se para a Inglaterra, onde pretende dar vazão a suas ideias modernas e sua veia de escritora. Justamente a partir daí, quando ela assume o posto de protagonista absoluta da trama é que o filme fica menos interessante. A luta de Jo pelos direitos femininos só é mostrada em uma única e rápida cena, onde ela mal consegue expor seu raciocínio: o roteiro opta por focar em sua relação com o professor alemão Friedrich Bhaer (Gabriel Byrne), uma história de amor prejudicada fatalmente pela falta de química entre os dois atores. A essa altura, o público já percebeu que o que interessa à Armstrong não é mostrar o crescimento pessoal de Jo, e sim os dramas de suas irmãs - e, justiça seja feita, nesse ponto ela não brinca em serviço. Com sutileza e cuidado, a cineasta até consegue emocionar a plateia, mas oferece a ela apenas um novelão romântico que nada acrescenta às versões anteriores do livro nas telas. Uma pena.

LOUCOS DE PAIXÃO

LOUCOS DE PAIXÃO (White palace, 1990, Universal Pictures, 103min) Direção: Luis Mandoki. Roteiro: Ted Tally, Alvin Sargent, romance de Glenn Savan. Fotografia: Lajos Koltai. Montagem: Carol Littleton. Música: George Fenton. Figurino: Lisa Jensen. Direção de arte/cenários: Jeannine C. Oppewall/Lisa Fischer. Produção executiva: Sydney Pollack. Produção: Griffin Dunne, Amy Robinson, Mark Rosenberg. Elenco: Susan Sarandon, James Spacer, Jason Alexander, Kathy Bates, Eilleen Breenan, Maria Pitillo, Jeremy Piven. Estreia: 19/10/90

A trama não é das mais surpreendentes ou criativas: jovem viúvo rico e judeu se apaixona por uma mulher mais velha, experiente e de classe social inferior e o romance entre os dois esbarra nas dificuldades inerentes a esse tipo de relacionamento. Por que, então, "Loucos de paixão", baseado no livro de Glenn Savan, soa tão especial ao público? Será por causa do roteiro enxuto de Ted Tally - que veria seu "O silêncio dos inocentes" sair com um Oscar no ano seguinte? - e Alvin Sargent - veterano vencedor de duas estatuetas, por "Julia" (77) e "Gente como a gente" (80) - que se mantém acima do melodrama barato, circundando-o com uma atmosfera de verossimilhança extremamente bem-vinda?  Ou será sua dupla de atores centrais, Susan Sarandon e James Spader, cujos talentos conseguem fazer poesia até dos diálogos mais banais? Talvez seja a reunião de todos os ingredientes, mas o fato é que o filme de Luis Mandoki é um dos dramas românticos mais interessantes de seu tempo, mesmo que não tenha tido o reconhecimento devido nas cerimônias de premiação.

Susan Sarandon, em vias de tornar-se uma das atrizes mais queridas, requisitadas e premiadas atrizes de sua geração - bônus por seu desempenho excepcional em "Thelma & Louise" (91) - vive Nora Baker, uma garçonete de 43 anos de idade que tem no passado a trágica morte do filho. Uma noite, depois do confronto com um cliente que chega à lanchonete onde ela trabalha reclamando do atendimento, ela o reencontra em um bar, bêbado e pouco disposto a conversa. O rapaz, Max Baron (James Spader em papel que quase ficou com Robert Downey Jr.), tem 27 anos, também tem um histórico de perdas - sua mulher morreu em um acidente de carro há pouco tempo - e acaba indo com ela para sua casa. O choque de gerações, de culturas e até mesmo de modos de viver - ele é inflexivelmente rígido a padrões de higiene, por exemplo, e ela mora em um lugar pouco asseado e sem maiores preocupações quanto a isso - não o impede de dormir com ela, depois de um longo período sabático. Aos poucos, apesar das diferenças, os dois se apaixonam, mas ele não sente-se à vontade em apresentar a simples e desbocada Nora à sua família e seus amigos.


A história de "Loucos de paixão" não tem medo dos clichês, conforme pode-se perceber. No entanto, o roteiro ritmado disfarça a escassez de surpresas, especialmente quando põe em cena seus dois protagonistas. Desde o primeiro diálogo no bar - quando Nora descaradamente flerta com o atônito Max - até o final modificado depois de exibições-teste que não o aprovaram, a forma como Sarandon e Spader dominam seus personagens encanta e seduz o público sem fazer muita força. Sarandon não se intimida com a sexualidade ululante de Nora, se entregando sem pudor a cenas bastante apimentadas e Spader, com seu rosto angelical - que já havia sido explorado a contento por Steven Soderbergh em seu "sexo, mentiras e videotape" (89) - transmite com segurança toda a vastidão emocional que Max precisa esconder por trás de uma vida de aparências e boa educação. O encontro dos dois mundos - regido ainda pela irmã mais velha de Nora, a vidente interpretada por Eileen Breenan - é o melhor do filme, uma história de amor adulta feita para adultos.

"Loucos de paixão" não foi um estouro de bilheteria, nem tampouco é muito lembrado dentro da vitoriosa carreira de Susan Sarandon. Mas é uma bela história, narrada com competência e elegância, dentro de um roteiro enxuto e realista. Em uma época em que muitos filmes preferiam o exagero à discrição, ousou ser minimalista e sutil em suas emoções. Por causa disso, é uma pequena pérola a ser redescoberta.

ALFIE, O SEDUTOR

ALFIE, O SEDUTOR (Alfie, 2004, Paramount Pictures, 103min) Direção: Charles Shyer. Roteiro: Charles Shyer, Elaine Pope, peça teatral de Bill Naughton, roteiro de Bill Naughton. Fotografia: Ashley Rowe. Montagem: Padraic McKinley. Música: Mick Jagger, David A. Stewart, John Powell. Figurino: Beatrizx Aruna Pasztor. Direção de arte/cenários: Sophie Becher/Penny Crawford. Produção executiva: Sean Daniel, Diana Phillips. Produção: Elaine Pope, Charles Shyer. Elenco: Jude Law, Susan Sarandon, Marisa Tomei, Omar Epps, Nia Long, Sienna Miller, Jane Krakowski. Estreia: 05/11/04

Só mesmo alguém com o talento, o carisma e a beleza de Jude Law conseguiria fazer com que Alfie, protagonista dessa refilmagem do clássico inglês “Como conquistar as mulheres”, de 1966, um niilista quase chegando ao machismo pudesse ser ao mesmo tempo tão simpático. Com sua atuação nunca aquém de excelente, o jovem Law (que está presente em absolutamente TODAS as cenas do filme) faz com que as atitudes egoístas de seu personagem sejam absolutamente aceitas pelo público. Ele é o homem que todos os homens gostariam de ser e todas as mulheres gostariam de ter.
       
O jovem inglês Alfie Elkins (Jude Law) mora em Manhattan, onde, segundo suas palavras, “vivem as mulheres mais bonitas do planeta”. Trabalhando como chofer em uma empresa de aluguel de limousines, ele encontra tempo e dinheiro para suas maiores diversões: vinho e mulheres. Entre elas, a jovem mãe solteira Julie (Marisa Tomei), com quem tem um relacionamento quase sério e a cliente freqüente Dorie (Jane Krakowski), negligenciada pelo marido. Nem mesmo Lonette (Nia Long), a namorada de seu melhor amigo, Marlon (Omar Epps) o sedutor Alfie deixa escapar.
       
Duas mulheres, no entanto, vão mudar sua maneira de pensar: a bipolar Nikki (Sienna Miller), em quem ele quase vislumbra a chance de um namoro e a milionária Liz (Susan Sarandon), quase um espelho seu em forma feminina. Depois de uma crise de saúde e de um grave acontecimento Marlon e Lonette, Alfie finalmente chega à conclusão que deve dar um jeito em sua vida volúvel. No entanto, como ele mesmo percebe, às vezes isso pode ser muito difícil.

        

É fácil gostar de “Alfie”, o filme. Moderno, estiloso, elegante e chique, a obra de Charles Shyer (substancialmente diferente de seu original, estrelado por Michael Caine) começa como uma inofensiva comédia romântica, ameaça um dramalhão à antiga e termina com um sabor agridoce de realismo. Nunca, no entanto, o roteiro escorrega em situações forçadas e/ou exageradas. O diretor lança um olhar carinhoso aos anos 60, em um visual exuberante e inteligente. A fotografia de Ashley Rowe acompanha o estado de espírito do protagonista, e o público, que vê tudo através de seus olhos, deixa-se levar tranqüilamente, rindo às vezes e se emocionando em outros momentos. Para isso, a trilha sonora, com canções inéditas de Mick Jagger e David A. Stewart (ex-Eurythmics) surge magnífica. A ritmada “Old habits die hard” levou um Globo de Ouro pra casa, mas são as mais delicadas, “Let’s make it up” e “Blind leading the blind” que comove, em momentos chaves.
       
O elenco feminino não fica atrás de Law, diga-se de passagem. Marisa Tomei constrói uma Julie apaixonada, mas nunca disponível ao sofrimento; Sienna Miller (que namorou o ator depois das filmagens) faz uma estréia promissora e Susan Sarandon dispensa comentários. Com mais de 50 anos de idade, a veterana atriz dá de zero em todas as colegas de cena, em termos de sensualidade e talento. Não é à toa que são em cenas com ela que Jude mostra mais a que veio.
      
“Alfie” não foi um sucesso de bilheteria. No entanto, tem qualidades de sobra pra seduzir espectadores que procuram algo de substância entre as dezenas de comédias românticas que chegam de Hollywood semanalmente

segunda-feira

LADO A LADO

LADO A LADO (Stepmom, 1998, Columbia Pictures, 124min) Direção: Chris Columbus. Roteiro: Gigi Levangie, Jessie Nelson, Steven Rogers, Karen Leigh Hopkins, Ron Bass. Fotografia: Donald M. McAlpine. Montagem: Neil Travis. Música: John Williams. Figurino: Joseph G. Aulisi. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/George De Titta Jr. Produção executiva: Ron Bass, Margaret French-Isaac, Patrick McCormick, Pliny Porter, Julia Roberts, Susan Sarandon. Produção: Chris Columbus, Mark Radcliffe, Wendy Finerman. Elenco: Julia Roberts, Susan Sarandon, Ed Harris, Jena Malone, Liam Aiken. Estreia: 25/12/98

De um lado uma das maiores estrelas de Hollywood. De outro, uma atriz de prestígio, vencedora do Oscar. Entre elas, um ator respeitado por seu talento e sua personalidade. Comandando a todos, um cineasta experiente em dialogar de forma direta com seu público, sem firulas e maneirismos. Não tinha como dar errado. E não deu. "Lado a lado", dirigido pelo mesmo Chris Columbus do megasucesso "Esqueceram de mim", reuniu Julia Roberts, Susan Sarandon e Ed Harris em um drama familiar que, apesar de contar com uma doença terminal entre suas tramas, jamais escorrega para o sentimentalismo barato. Pode até ser acusado de ser superficial (e de certo modo o é), mas sua opção em não buscar a lágrima exagerada do público mostrou-se acertada, o que sua bilheteria de quase 160 milhões de dólares apenas comprovou em números.

A trama é simples: a bem-sucedida fotógrafa de moda Isabel Kelly (Julia Roberts, linda) vive um relacionamento estável e caloroso com Luke Harrison (Ed Harris), um homem mais velho mas apaixonado e dedicado. A relação tranquila entre os dois só é atrapalhada pela resistência dos dois filhos de seu primeiro casamento, a pré-adolescente Anna (Jena Malone) e o pequeno Ben (Liam Aiken), que tem verdadeira adoração pela mãe, Jackie (Susan Sarandon). Uma mulher que abandonou a carreira de editora para dedicar-se ao casamento e à família, Jackie não aceita o novo romance do ex-marido com Isabel e incentiva os filhos a sabotarem todas as tentativas da jovem de aproximar-se deles. A relação conflituosa entre todos sofre uma reviravolta quando Jackie descobre sofrer de um câncer intratável. A partir daí, ela começa a trabalhar uma forma de fazer com que seus filhos não apenas aceitem a nova mulher de seu pai, mas que também a respeitem como uma nova mãe.



O roteiro de "Lado a lado" é bastante leve, apesar de ter uma segunda metade que poderia facilmente descambar para o dramalhão. Columbus não exagera na sacarina, sempre cuidando em tratar com delicadeza até mesmo as cenas mais emocionantes, defendidas com garra por suas duas atrizes centrais, também produtoras executivas do filme. São elas, do alto de seu carisma, que sustentam as pequenas falhas do roteiro, um tanto superficial mas adequado a suas pretensões comerciais. Logicamente não era do interesse do estúdio mostrar Sarandon definhando em cena - o que afugentaria a audiência - e, levando-se isso em consideração, o resultado final cumpre o que promete: é ágil, comovente e por vezes até caloroso. O fato de ser plasticamente asséptico - as casas são lindas, a doença é apenas mencionada e nunca mostrada em todas as suas proporções, não há ninguém que não seja lindo ou carismático - atrapalha um pouco em fazê-lo ser levado a sério, mas mais uma vez surge a pergunta: o público-alvo tem esse tipo de preocupação estética?

"Lado a lado" é um filme estritamente comercial e dentro dessa restrição é um produto de grande qualidade. Fotografado luminosamente, com uma trilha sonora moderna e vibrante e um elenco irretocável (onde destaca-se também a pequena grande atriz Jena Malone), é um filme feito para emocionar. E, mesmo que poupe a audiência de um vale de lágrimas (como "Laços de ternura", por exemplo), atinge seus objetivos com extrema eficácia.

quarta-feira

OS ÚLTIMOS PASSOS DE UM HOMEM

OS ÚLTIMOS PASSOS DE UM HOMEM (Dead Man Walking, 1995, Polygram Filmed Entertainment/Working Title Films, 122min) Direção: Tim Robbins. Roteiro: Tim Robbins, livro de Helen Prejean. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Lisa Zeno Churgin. Música: David Robbins. Figurino: Renée Ehrlich Kaifus. Direção de arte/cenários: Richard Hoover. Produção executiva: Tim Bevan, Eric Fellner. Produção: Jon Kilik, Tim Robbins, Rudd Simmons. Elenco: Susan Sarandon, Sean Penn, Raymond J. Barry, Robert Prosky, R. Lee Ermey, Celia Weston, Lois Smith, Clancy Brown, Margo Martindale, Peter Sarsgaard, Jack Black, Jon Abrahams. Estreia: 29/12/95

4 indicações ao Oscar: Diretor (Tim Robbins), Ator (Sean Penn), Atriz (Susan Sarandon), Canção Original ("Dead Man Walking")
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Susan Sarandon)
Urso de Prata no Festival de Berlim: Melhor Ator (Sean Penn)

Militância política - não a partidária preconizada por Arnold Schwarzenegger, entenda-se - não é exatamente vista como uma qualidade pelos conservadores olhos de Hollywood, e que o digam Susan Sarandon e Tim Robbins: um dos casais mais politicamente ativos da indústria, eles despertaram a ira da Academia quando, no Oscar de 1993, fizeram um discurso criticando a maneira com que o governo do Haiti lidava com os imigrantes soropositivos. Banidos da cerimônia por dois anos consecutivos, eles, no entanto, voltaram por cima, com o poderoso "Os últimos passos de um homem", escrito, produzido e dirigido por Robbins e estrelado por Sarandon. Aclamado pela crítica e premiado no Festival de Berlim, a crítica nada velada à pena de morte saiu da festa de 1995 com a estatueta de melhor atriz para Susan, além de ter concorrido a outros três importantes prêmios. Quem ri por último ri melhor.

"Os últimos passos de um homem" é uma história real, adaptada de um livro escrito pela religiosa Helen Prejean, vivida no filme por uma Sarandon desprovida de qualquer elemento sexual ou romântico. Sua personagem é uma mulher que abandonou as regalias de uma classe social privilegiada para seguir sua vocação e trabalhar com crianças de comunidades carentes. Sua vida pacífica e sem sobressaltos sofre um abalo quando ela recebe a carta de um homem condenado à morte, acusado por estupro e duplo homicídio. Orientada por seu superior, Helen procura o presidiário, Matthew Poncelet (Sean Penn), que lhe pede ajuda para reverter sua sentença, alegando inocência. Racista, misógino, anti-semita e nem um pouco dado a sutilezas, Poncelet não é um exemplo de réu, e aos poucos a religiosa percebe que qualquer súplica às autoridades competentes será inútil para trasmutar a pena de morte em prisão perpétua. Oferencendo-se para ser sua conselheira espiritual em seus últimos dias, ela acaba despertando a revolta nos pais de suas vítimas, que não conseguem entender como ela é capaz de ficar ao lado de "um animal que merece a morte".


Apesar de ser abertamente contra a pena capital, Tim Robbins toma o cuidado muito bem-vindo de jamais deixar que seu filme assuma um tom de sermão ou discurso. Seu roteiro, equilibrado e inteligente, discute com propriedade todos os lados da questão levantada e o faz com parcimônia e bom gosto. Helen Prejean faz as vezes de espectador, sendo questionada frequentemente a respeito de sua escolha em colaborar com o homicida cruel vivido por Penn. Seus diálogos com os pais das vítimas são comoventes e jamais soam artificiais, em especial ao cuidado de Robbins na direção de atores: em especial R. Lee Ermey e Raymond J. Barry vão muito além do chamado do dever em suas cenas, o mesmo podendo ser dito de Roberta Maxwell, que não precisa falar muito para roubar a cena como a mãe de Poncelet. Coadjuvantes preciosos, eles pontuam o show inesquecível de seu par de atores centrais.

Se Susan Sarandon levou um Oscar que já lhe era devido no mínimo desde "Thelma & Louise", Sean Penn contruiu um Matthew Poncelet irretocável. Asqueroso em sua arrogância inicial, ele faz com que o público se compadeça aos poucos de sua personagem, sem jamais perder sua essência. A mudança que ocorre com Poncelet em seus últimos passos não parece forçada ou anti-natural e sim uma consequência do amor que finalmente recebeu. Por sua capacidade de transmitir os contraditórios sentimentos do condenado, Penn foi indicado ao Oscar e levou o prêmio de melhor ator no Festival de Berlim. Nada mais merecido!

Mas e quanto à ideologia contida em "Os últimos passos de um homem"? Talvez o filme de Robbins não mude a ideia de nenhum espectador, ainda que consiga no mínimo levantar uma discussão válida e sempre pertinente - é chocante ver, por exemplo, como a execução é tratada, com sanduíches sendo distribuídos à plateia e a frieza com que tudo é tratado. Essa frieza, no entanto, não consegue impedir que o clímax do filme seja poderoso a ponto de provocar lágrimas de emoção até mesmo no mais cínico espectador. E mesmo aqueles que acham que todo o arrependimento do protagonista não teria acontecido se ele não tivesse sido também vitimado por um homícidio (ainda que legalizado) não conseguirão tirar tão cedo da mente as belas interpretações de Sarandon e Penn, sonorizadas pela bela canção final de Bruce Springsteen.

terça-feira

O CLIENTE

O CLIENTE (The client, 1994, Warner Bros, 119min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Akiva Goldsman, Robert Getchel, romance de John Grisham. Fotografia: Tony Pierce-Roberts. Montagem: Robert Brown. Música: Howard Shore. Figurino: Ingrid Ferrin. Direção de arte/cenários: Bruno Rubeo/Anne D. McCulley. Produção: Arnon Milchan, Steven Reuther. Elenco: Susan Sarandon, Tommy Lee Jones, Brad Renfro, Anthony LaPaglia, Mary-Louise Parker, Will Patton, William H. Macy, Anthony Edwards, Anthony Heald, Bradley Whitford. Estreia: 20/7/94. Bilheteria EUA: U$ 92.115.211

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Susan Sarandon)

Do alto de seu prestígio como um dos mais bem-sucedidos escritores de ficção do início dos anos 90, John Grisham tinha o poder de dar a palavra final a respeito do elenco das adaptações cinematográficas de suas obras e, ao contrário do que se poderia supor, tinha certo talento para isso. Recusando-se terminantemente a aceitar qualquer criança-prodígio para protagonizar "O cliente" - por achar que minaria a credibilidade da trama - ele obrigou o diretor Joel Schumacher a realizar centenas de testes antes de escolher Brad Renfro, então com 10 anos de idade. A escolha não poderia ter sido melhor. Renfro demonstrou, logo em sua estreia, uma segurança ímpar, que o fez contracenar, sem medo, com nomes consagrados como Susan Sarandon e Tommy Lee Jones. Sua morte, aos 25 anos, em janeiro de 2008, não deixa de ter sido uma lamentável perda, ainda que ele estivesse longe de ter se tornado o astro que poderia ter sido.

Em "O cliente", Renfro vive Mark Sway, um menino que mora em um trailer ao lado da mãe constantemente desempregada e sem maiores talentos para a ternura (Mary-Louise Parker) e do irmão caçula. Uma tarde, ao sair para fumar escondido, ele testemunha o suicídio de um mau-encarado advogado que, antes de dar um tiro na boca, revela a ele a localização do corpo de um senador, assassinado por seu cliente, o mafioso Barry Muldano (Anthony LaPaglia). Pressionado pelo FBI - na figura do excêntrico Roy Foltrigg (Tommy Lee Jones) - que tem a alcunha de Reverendo por citar a Bíblia nos tribunais - o menino procura a ajuda da advogada Reggie Love (Susan Sarandon), a quem confunde, pelo nome, com um homem. A princípio hesitante em confiar em uma mulher, ele aos poucos passa a confiar na advogada - que teve problemas com a bebida e perdeu a guarda do filho por causa disso. Enquanto luta para defender o garoto dos interesses perigosos do FBI e da própria máfia, ela vê nele a possibilidade de dar o amor que é impedida de dar ao filho verdadeiro. Surge então, entre elas, uma delicada relação materna.

Vindo das melhores críticas de sua carreira graças ao filme "Um dia de fúria", aqui Joel Schumacher assume quase que um papel de testemunha silenciosa, deixando que a história fale por si mesma. Discreta e fluente, sua condução da trama permite que tudo se desenvolva de maneira tranquila, proporcionando a Sarandon e Renfro que brilhem em atuações extremamente eficientes. Sarandon, inclusive, concorreu ao Oscar por seu desempenho, uma prova do prestígio que desfrutava então junto à Academia - prestígio esse que converteu-se em uma merecida estatueta no ano seguinte, pelo contundente "Os últimos passos de um homem". O trabalho inteligente e repleto de nuances de Sarandon encontra, porém, na atuação de Tommy Lee Jones um empecilho: com maneirismos e exageros que se avolumariam com o tempo - em "Assassinos por natureza", por exemplo, seriam quase insuportáveis - Lee Jones foge do tom naturalista imposto pelo diretor entregando uma atuação bastante fraca. Felizmente o roteiro de Akiva Goldsman e Robert Getchel dá preferência à história de identificação entre Reggie Love e Mark Sway, deixando toda a batida trama de máfia vs FBI em um segundo plano que só assume a protagonização de verdade no terceiro e último ato.



O final de "O cliente", aliás, é o mais excitante dentre as adaptações da obra de Grisham até então - depois do correto "A firma" e do chatinho "O dossiê Pelicano". Mesmo que Joel Schumacher não seja um diretor dos mais inspirados em cenas de ação - que o digam suas versões vexatórias de Batman lançadas poucos anos depois - ele não chega a estragar o clímax do livro, entregando à plateia um desfecho coerente e redondo, ainda que um tanto previsível. A renda de mais de 90 milhões de dólares provou que as escolhas realmente foram acertadas.

"O cliente" pode não ser a melhor adaptação de um livro de John Grisham - título que "Tempo de matar", dirigido pelo mesmo Joel Schumacher adquiriu, um ano depois - mas é interessante, bem interpretado e com a dose certa de emoção e sensibilidade, além de ser extremamente fiel à sua origem literária. E Susan Sarandon sempre vale uma bela espiada.

quarta-feira

O ÓLEO DE LORENZO

O ÓLEO DE LORENZO (Lorenzo's oil, 1992, Universal Pictures, 129min) Direção George Miller. Roteiro: George Miller, Nick Enright. Fotografia: John Seale. Montagem: Marcus D'Arcy, Richard Francis-Bruce. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Karen O'Hara. Casting: Canice Kennedy, John S. Lyons. Produção executiva: Arnold Burk. Produção: George Miller, Doug Mitchell. Elenco: Nick Nolte, Susan Sarandon, Peter Ustinov, Zach O'Malley, Laura Linney, James Rebhorn. Estreia: 30/12/92

2 indicações ao Oscar: Atriz (Susan Sarandon), Roteiro Original

Se o filme "O campeão" (1979), de Franco Zefirelli, era o pesadelo de qualquer criança, pode-se considerar este "O óleo de Lorenzo" como o mais aterrador sonho de quaisquer pais. Baseado em uma história real, o filme de George Miller - que apesar do background inusitado que inclui "Mad Max" e "As bruxas de Eastwick" é formado em Medicina - versa sobre o  mais profundo medo que uma mãe ou um pai possa ter em relação aos filhos: uma doença rara e incurável.

É justamente uma doença rara e incurável - adrenoleucodistrofia, uma doença degenerativa que mata os pacientes (sempre meninos antes da adolescência) poucos anos após seu diagnóstico - que ataca o pequeno Lorenzo Odone (o impressionante Zack O'Malley Greenburg) aos cinco anos de idade. Filho único da dona-de-casa Michaela (Susan Sarandon) e caçula do professor Augusto (Nick Nolte), ele torna-se agressivo repentinamente e, aos poucos, começa a perder o controle sobre os membros e a capacidade de comunicar-se verbalmente. Desesperados com a falta de conhecimento a respeito do mal que está destruindo o menino, o casal resolve investigar por conta própria e tentar encontrar uma maneira de deter o avanço da enfermidade. Desencorajado por outros pais que lideram uma associação, eles contam com a ajuda de um dedicado médico (Peter Ustinov) para atingir seu objetivo e impedir a morte de Lorenzo.

George Miller não poupa o espectador em sua jornada médico-familiar. Escorado em uma atuação quase miraculosa de Susan Sarandon, "O óleo de Lorenzo" não tenta fugir do dramalhão inerente à sua história: é um filme pesado, triste, sofrido, mas ao mesmo tempo é um conto repleto de esperança, amor e tenacidade. A batalha do casal Odone pela cura inexistente para a doença do filho é narrada de forma clássica pelo cineasta, que utiliza a trilha sonora barroco/religiosa para sublinhar os momentos de maior dramaticidade - um pequeno exagero que não chega a atrapalhar sua paixão pela história. Editado de forma ágil, com cenas curtas mas eficientes, o calvário de Lorenzo conquista a plateia devido principalmente à sua honestidade e extremo senso humano. Tudo coroado por uma Susan Sarandon que mereceria ter ganho o Oscar para o qual foi indicada - ela perdeu para Emma Thompson, em "Retorno a Howards End".



Com total entrega à sua personagem, Sarandon criou uma "mater dolorosa" como poucas vezes se viu no cinema americano nos anos 90, onde imperou o cinismo e a violência exarcebada. Seu estoicismo e sua coragem em encarar de frente uma situação desesperadora seguram o filme no limite do tolerável - afinal de contas, testemunhar um sofrimento como o de Lorenzo (interpretado com surpreendente talento pelo pequeno Zack O'Malley Greenburg) não é programa dos mais palatáveis. E sua performance memorável torna-se ainda mais fantástica quando comparada ao trabalho quase caricato de seu parceiro de cena: como o italiano Augusto Odone, Nick Nolte força a barra em inúmeros momentos, fazendo de sua trágica personagem um quase pastiche: um sotaque equivocado é o um dos defeitos de sua interpretação quase risível. Um ator mais sutil ao lado de Sarandon com certeza faria de "O óleo de Lorenzo" um filme ainda melhor.

Mesmo que não possa ser considerado jamais como um entretenimento agradável ou alto-astral, "O óleo de Lorenzo" é uma ode ao amor paterno e um elogio consagrador à esperança.

quinta-feira

THELMA & LOUISE

THELMA & LOUISE (Thelma & Louise, 1991, MGM Pictures, 130min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Callie Khouri. Fotografia: Adrian Biddle. Montagem: Thom Noble. Música: Hans Zimmer. Figurino: Elizabeth McBride. Direção de arte/cenários: Norris Spencer/Anne Ahrens. Casting: Louis Di Giaimo. Produção: Mimi Polk, Ridley Scott. Elenco: Susan Sarandon, Geena Davis, Harvey Keitel, Michael Madsen, Christopher McDonald, Brad Pitt, Stephen Tobolowsky. Estreia: 24/5/91

6 indicações ao Oscar: Diretor (Ridley Scott), Atriz (Geena Davis, Susan Sarandon), Roteiro Original, Fotografia, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Original

Vencedor do Golden Globe de Roteiro

Em uma das cenas de "Thelma & Louise" - excepcional filme de Ridley Scott indicado a 6 Oscar - uma possível testemunha de um violento assassinato faz a seguinte declaração: "Eu sou uma garçonete. Se isso não faz de mim uma especialista na natureza humana então não sei de nada." Pode até parecer uma declaração um tanto exagerada, mas se levarmos em consideração que o roteiro do filme - premiado com uma merecidíssima estatueta - foi escrita por Callie Khouri, uma ex-garçonete, é impossível não deixar de concordar com sua afirmação. Afinal, se há uma qualidade que se destaca no filme de Scott - repleto delas, diga-se de passagem - é a extrema humanidade que emana em cada uma das personagens que desfila pela tela, sejam elas de destaque ou não.


O roteiro de "Thelma & Louise" é, definitivamente, um primor de concisão, ritmo e - pasmem! - bom-humor. Apesar da premissa um tanto barra-pesada, a história criada por Khouri - que nunca mais teve a mesma sorte em seus projetos posteriores - tem o bom-senso de nunca deixar que tudo caia no depressivo ou no desnecessariamente trágico. Mesmo quando estão nos piores momentos de sua vida, as protagonistas jamais caem na armadilha da auto-compaixão: responsabilidade do script esperto, da trilha sonora marcante de Hans Zimmer, da edição ágil e da direção perfeita de Ridley Scott - que se viu disputando o Oscar com Oliver Stone (por "JFK") e Jonathan Demme (por "O silêncio dos inocentes"). Saiu sem o prêmio nas mãos, mas muitos elogios da crítica e do público: "Thelma & Louise" é um clássico absoluto desde sua estreia, uma espécie de "Butch Cassidy & Sundance Kid" pós-feminista e um dos melhores filmes da década de 90.

Louise (Susan Sarandon, excepcional) é uma garçonete que vive uma relação aberta com Jimmy (Michael Madsen), um músico itinerante. Thelma (Geena Davis no melhor momento de sua carreira) é uma dona-de-casa frustrada e dominada pelo marido troglodita Darryl (Christopher MacDonald, tirando o máximo do potencial cômico de sua personagem). Amigas de longa data, as duas resolvem passar um fim-de-semana na casa de campo de um dos chefes de Louise e partem com o franco objetivo de esquecer, por um mínimo de tempo, suas vidas um tanto tediosas. Sua viagem, que era para ser divertida, esbarra em um grande problema, porém: em sua primeira parada em um bar, Thelma bebe demais e só escapa de ser estuprada quando Louise mata o agressor com um tiro. Apavoradas, elas decidem não recorrer à polícia - por motivos óbvios - e as circunstâncias acabam levando-as a optar para uma fuga para o México. A única pessoa que tenta ajudá-las é o experiente policial Hal (Harvey Keitel).



"Thelma & Louise" é, em seu formato, um road-movie dos melhores. A belíssima fotografia de Adrian Biddle aproveita a beleza árida do Colorado para reiterar a vida deserta das protagonistas, que encontram sentido em sua existência somente quando são obrigadas a embarcar em uma aventura inesperada. Em seu caminho rumo à liberdade (física e interna), a madura Louise e a ingênua Thelma tomam contato com todas as formas possíveis de seres humanos e até mesmo com seus próprios corpos - Thelma chega a envolver-se em uma rápida aventura sexual com um caroneiro mau-caráter, vivido por Brad Pitt estreando no cinema com o pé direito. Apesar de alguns exageros na construção de estereótipos masculinos - que nunca deixam de ser bastante verossímeis, aliás - o roteiro de Callie Khouri encanta também pela ousadia de seu final agridoce - um final que Susan Sarandon exigiu que se mantivesse mesmo com a pressão do estúdio para que fosse alterado.

Mas "Thelma & Louise" é, acima de tudo, Susan Sarandon e Geena Davis. Apesar da extensa lista de atrizes cotadas para viver as personagens em seus vários anos de pré-produção, é impossível imaginar quem traduziria melhor que as duas a gama imensa de sentimentos das protagonistas. Indicadas ao Oscar - que perderam para Jodie Foster - elas são inesquecíveis com suas atuações extraordinárias, carismáticas e poderosas. Seria inconcebível premiar uma em detrimento da outra - ainda que o trabalho de Sarandon seja menos óbvio - mas sem dúvida nenhuma qualquer espectador que tenha tido a oportunidade de assistir ao filme - e foram muitos - sabe que um prêmio é desnecessário nesse caso. O que importa é o sentimento de imortalidade que as duas forjaram em suas inseparáveis e corajosas amigas.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...