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segunda-feira

ESTAMOS TODOS BEM

 


ESTAMOS TODOS BEM (Stanno tutti bene, 1990, Erre Produzioni/Les Films Ariane/TF1 Films Production, 118min) Direção: Giuseppe Tornatore. Roteiro: Giuseppe Tornatore, Massimo De Rita, Tonino Guerra. Fotografia: Blasco Giurato. Montagem: Mario Morra. Música: Ennio Morricone. Figurino: Beatrice Bordone. Direção de arte/cenários: Andrea Crisanti/Nello Giorgetti. Produção executiva: Mario Cotone. Produção: Angelo Rizzoli Jr.. Elenco: Marcello Mastroianni, Valeria Cavalli, Marino Cenna, Norma Martelli, Roberto Nobile, Salvatore Cascio. Estreia: 20/5/90 (Festival de Cannes)

Quando "Estamos todos bem" estreou, no Festival de Cannes de 1990, ainda não fazia nem dois meses que seu diretor, Giuseppe Tornatore, havia recebido (merecidamente) o Oscar de melhor filme estrangeiro pelo belo "Cinema Paradiso" (1989). Já considerado um dos mais promissores cineastas italianos e apostando mais uma vez na emoção, o jovem Tornatore - que ainda não tinha 34 anos completos na ocasião - voltou a emocionar o público, demonstrando uma maturidade narrativa envolvente, que se revela mais e mais profunda conforme se desdobra diante do espectador. Contando com a presença sempre magnética do veterano Marcello Mastroianni no papel principal e com a participação do pequeno Salvatore Cascio - o menino que emocionou o mundo em seu filme anterior -, o diretor conta uma história sobre segredos de família, sonhos frustrados e a inexorabilidade do envelhecimento, tudo acompanhado da trilha sonora de Ennio Morricone.

Mastroianni, de óculos fundo de garrafa e aparentando mais do que seus 65 anos à epoca das filmagens, é o corpo e a alma de "Estamos todos bem". Ele vive Matteo Scuro, um escrivão aposentado, que, depois de ver frustrado seu plano de reunir os cinco filhos - todos com nomes de personagens de ópera - para uma temporada de verão, resolve viajar pela Itália para surpreendê-los em suas rotinas familiares e profissionais. Orgulhoso da família que criou - a ponto de mostrar sua melhor fotografia a quem possa interessar (ou até a quem não tem o menor interesse) -, Matteo começa a jornada com Canio (Marino Cenna), que acredita ser um homem de grande importância dentro da política; depois, ele chega até Tosca (Valeria Cavalli), uma atriz requisitada e que, vez ou outra, cuida do bebê da vizinha; a terceira da lista é Norma (Norma Martelli), a única que lhe deu um neto, um adolescente que acaba de engravidar a namorada; o penúltimo é Guglielmo (Roberto Nobile), parte integrante de uma orquestra que faz shows pela Europa. O único que Matteo não consegue encontrar é Alvaro, que, mesmo que não reconheça, é seu filho preferido: seu paradeiro só é conhecido pelos irmãos, que preferem não revelá-lo ao carente e iludido pai.

 

Logicamente tudo que Matteo sabe sobre os filhos é apenas a superfície: vivendo longe do pai, todos levam uma vida oposta ao que aparentam diante de seu ingênuo patriarca. Enquanto vai revelando os segredos dos cinco Scuro (um sobrenome que já deixa antever suas existências dúbias), a câmera de Tornatore vai mostrando, também, uma Itália pouco a pouco deixando de ser o nostálgico e romântico país do velho burocrata, com suas ruas mal cuidadas, suas paisagens obscurecidas por obras e sua paz alterada pela velocidade de uma rotina esmagadora. Os respiros proporcionados pelos flashbacks que remetem Matteo a seus dias felizes ao lado da esposa - com quem conversa e a quem faz relatórios constantes de sua viagem solitária - pincelam a narrativa de um tom melancólico que trai a característica mais marcante do diretor: o carinho por seus personagens, que atenua até mesmo seus defeitos. E não atrapalha, é claro, que Marcello Mastroianni ofereça um de seus desempenhos mais emocionantes: na pele de um idoso romântico, por vezes inconveniente e frequentemente inconsciente de sua condição de indesejado, o ícone do cinema italiano deixa de lado a imagem de sedutor e assume a maturidade de forma comovente. É praticamente impossível passar por "Estamos todos bem" e não se emocionar ao menos em alguma de suas belas sequências - valorizadas pelos diálogos certeiros do roteiro enxuto.

"Estamos todos bem" não teve a mesma aclamação popular e crítica de "Cinema Paradiso"  - mas rendeu um remake americano estrelado por Robert DeNiro quase dez anos depois. Ao voltar seu olhar para as fissuras no núcleo familiar - um lugar de alcance universal e sempre delicado de se visitar -, Giuseppe Tornatore demonstra que a sensibilidade de seu filme mais celebrado era apenas uma pequena parte de sua calorosa personalidade. Lágrimas não faltam - e o mestre Morricone apenas as sublinham com sua bela e quase irônica melodia.

quinta-feira

A FOGUEIRA DAS VAIDADES

 


A FOGUEIRA DAS VAIDADES (The bonfire of the vanities, 1990, Warner Bros, 125min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: Michael Cristofer, romance de Tom Wolfe. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Bill Pankow, David Ray. Música: Dave Grusin. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/Joe Mitchell, Justin Scoppa. Produção executiva: Peter Guber, Christine Peters, Jon Peters. Produção: Brian DePalma. Elenco: Tom Hanks, Bruce Willis, Melanie Griffith, Morgan Freeman, Kim Catrall, Saul Rubinek, John Hancock, Rita Wilson, Kirsten Dunst. Estreia: 21/12/90

Sherman McCoy é um bem-sucedido magnata de Wall Street, bem casado e em franca ascensão profissional e financeira. Peter Fallow é um jornalista quase decadente, quase alcóolatra e quase em vias de abandonar a carreira. Uma noite, depois de um encontro, McCoy vê a amante atropelar um jovem negro em um bairro barra-pesada de Nova York e a incentiva a fugir do local, certo de que jamais serão descobertos. Por acaso, Fallow descobre a identidade do dono do veículo e, com a atenção da imprensa, não hesita em divulgá-lo e contar sua história. Exposto na mídia, McCoy se vê perdendo a a família, o respeito, a posição social e até mesmo a liberdade: bode expiatório de uma série de interesses políticos e advogados corruptos, ele se vê diante da ambição de gente como o demagogo reverendo de uma comunidade negra e um promotor público com ambições pouco louváveis. Enquanto sua descida é cada vez mais veloz, o caminho de Fallow rumo ao topo parece inevitável - e ele parece bastante disposto a pagar o preço do sucesso.

As expectativas a respeito da adaptação cinematográficas do best-seller "A fogueira das vaidades" - primeiro livro de ficção de Tom Wolfe - eram altas. Aplaudido pela imprensa e presença constante nas listas dos mais vendidos por meses, o romance de Wolfe - uma obra repleta de ironia e sarcasmo, sem herois e recheado de personagens dúbios e pouco agradáveis - soava como um desafio a quem quer que assumisse a responsabilidade de levá-lo às telas sem perder sua essência amoral. No entanto, desde sua gênese tudo apontava para um potencial desastre, justamente por seu tom pouco disposto a corroborar  a ideia do american way of life. Entre seguir a trama à risca - apostando na capacidade das plateias de abraçar ousadias temáticas e narrativas - e desfigurar a obra original como forma de alcançar uma bilheteria expressiva, a Warner Bros acabou por decidir-se pela segunda opção - o que resultou em críticas violentas e uma resposta ensurdecedora por parte do público: com pouco mais de 15 milhões de dólares de arrecadação mundial (contra um orçamento estimado em 47 milhões), a obra dirigida por Brian De Palma entrou para a história como um dos maiores fracassos de Hollywood, além de ser considerado um dos piores filmes das carreiras de todos os envolvidos - um grupo que conta com nomes poderosos da indústria, como Tom Hanks e Bruce Willis.

 


Antes de iniciar o processo de tornar-se um dos intérpretes mais respeitados de sua geração - com dois Oscar consecutivos de melhor ator -, Tom Hanks foi uma escolha inusitada e corajosa para viver o protagonista, Sherman McCoy, um bem-sucedido magnata de Wall Street, e só entrou em cena depois que Mike Nichols abandonou o barco e, com ele, levou Steve Martin, cujo perfil combinava bem mais com o personagem - antes ainda de Hanks outros nomes importantes chegaram a ser cotados, como Jon Voigt, Kevin Costner, Christopher Reeve e até John Lithgow (o preferido do diretor Brian De Palma) e Chevy Chase (que teria sido a escolha do próprio Tom Wolfe). A entrada de Hanks - assim como a de outros nomes chave do projeto, cortesia do então produtor Peter Guber  - acabou sendo um fator decisivo para o rumo da produção em direção a uma atmosfera bastante distinta do livro original, enfatizada pelo roteiro de Michael Cristofer (outro contratado por Guber): com sua aura de bom moço, Hanks suavizava a personalidade arrogante e amoral de McCoy e de certo modo equilibrava o cinismo do jornalista Peter Fallow, o segundo personagem central da trama - inglês no romance (assim como John  Cleese, que recusou o papel) e americano no cinema (o que não foi o suficiente para convencer Jack Nicholson a entrar no jogo). Em mais uma cartada para chamar a atenção do público, o estúdio ousou novamente e chamou Bruce Willis (em alta pelo sucesso de "Duro de matar", de 1988, mas sem maiores êxitos fora do cinema de ação). A surpreendente dupla formada por Hanks e Willis (mais o tititi em torno do livro de Wolfe) já seria o bastante para garantir notas de jornais, mas as esperadas filas nos cinemas ficaram apenas na vontade: o fiasco de bilheteria e as críticas impiedosas (cinco indicações ao Framboesa de Ouro, incluindo pior filme, atriz, roteiro e diretor) mostraram que nem grandes cineastas e atores de prestígio são imunes a erros gigantescos. Mas afinal de contas, passadas décadas de sua estreia, fica a pergunta crucial: "A fogueira das vaidades" é assim tão ruim?

Apesar de algumas ideias visuais interessantes - o plano-sequência de abertura, a fotografia pouco convencional - e do esforço de Brian De Palma em traduzir o tom artificial do romance através de atuações não naturalistas do elenco (que beira a histeria), o resultado final é decididamente frustrante. O roteiro de Michael Cristofer jamais consegue seduzir o público - talvez pela falta de um personagem com quem haja qualquer identificação, talvez por sua indecisão entre o drama e a comédia - e a escalação do elenco é flagrante ao menos exigente espectador. Tom Hanks é um ator excelente (como seria provado poucos anos depois), mas não acerta o tom de seu Sherman McCoy - não à toa o próprio ator o considera seu pior filme. Bruce Willis tem pouco a fazer com seu Peter Fallow - e quando o faz parece repetir os mesmos trejeitos de um de seus mais famosos personagens até então, na série de TV "A gata e o rato". E Melanie Griffith - escolha de De Palma, com quem havia trabalhado em "Dublê de corpo" (1984) - até tenta ser mais do que apenas uma mulher sensual, mas não alcança todas as nuances que lhe são exigidas - qualquer uma atriz considerada para o papel (Uma Thurman, Robin Wright, Kyra Sedwick) provavelmente teria se saído melhor. Juntos (ao lado de Morgan Freeman e F. Murray Abraham, também subaproveitados), eles parecem perdidos em cena, soterrados pelos artifícios técnicos do diretor e por suas tentativas infrutíferas de imprimir o tom de farsa da trama de Wolfe - deliciosa no papel, bastante problemática na tela.

Uma comédia farsesca que não atinge nem perto de seu potencial crítico, "A fogueira das vaidades" sofreu também com o erro primário de não ser direcionado para uma plateia mais sofisticada - os leitores da obra original - e tentar atingir um público médio que, via de regra, rejeita produções com conceitos menos maniqueístas. Ao deformar o romance de Wolfe para que coubesse em suas ambições comerciais, a Warner acabou com o que de havia de melhor no livro (a perspicaz leitura das ironias da sociedade) e o transformou em um produto mais "palatável" (leia-se superficial e sem nenhuma personalidade). O pífio resultado financeiro e o massacre da crítica apenas refletiram a profusão de equívocos acumulados desde sua concepção. Uma pena!

segunda-feira

CORAÇÃO DE CAÇADOR


CORAÇÃO DE CAÇADOR (White hunter, black heart, 1990, Warner Bros, 112min) Direção: Clint Eastwood. Roteiro: Peter Viertel, James Bridges, Burt Kennedy, romance de Peter Viertel. Fotografia: Jack N. Green. Montagem: Joel Cox. Música: Lennie Niehaus. Figurino: John Mollo. Direção de arte/cenários: John Graysmark/Peter Howitt. Produção executiva: David Valdes. Produção: Clint Eastwood. Elenco: Clint Eastwood, Jeff Fahey, George Dzundza, Marisa Berenson, Richard Vanstone. Estreia: 16/5/90 (Festival de Cannes)

Quando Clint Eastwood decidiu realizar a cinebiografia do músico Charlie Parker, poucos levaram fé que o responsável por filmes como "Impacto fulminante" (1983) e "O cavaleiro solitário" (1985) - produções centradas na adrenalina e em personagens durões - seria capaz de transmitir nas telas a complexa personalidade de um dos ícones do jazz. O sucesso de crítica de "Bird" (1988), porém, mostrou que, por trás da figura quase pétrea do cineasta, havia alguém com sensibilidade o bastante para romper a barreira do cinema de ação/policial/guerra. Embalado por tal inesperado prestígio, o já veterano Eastwood (ainda não consagrado com os Oscar de diretor que conquistaria poucos anos depois) chegou à Warner com uma proposta que, a princípio, contemplaria o melhor de dois mundos: ele oferecia seus préstimos para comandar mais um potencial êxito de bilheteria e, em troca, o estúdio bancaria a produção de um de seus então projetos de estimação. Proposta feita, proposta aceita, e em 1990, dois filmes com a assinatura do eterno Dirty Harry chegaram às telas: o convencional e quase derivativo "Rookie: um profissional do perigo" e "Coração de caçador", que se tornaria um dos maiores fracassos comerciais do ator/diretor/produtor - ao mesmo tempo em que arrancaria entusiasmados elogios da crítica. 

Publicado em 1953, o romance "White hunter black heart", de Peter Viertel, é, a rigor, uma obra de ficção. Porém, logo em seu lançamento ficou claro para todos que se tratava de uma reimaginação a respeito dos bastidores das filmagens do clássico "Uma aventura na África", dirigido por John Huston e lançado em 1951. O filme, que deu a Humphrey Bogart seu único Oscar, teve uma produção conturbada, e Viertel, amigo de Huston, foi um de seus roteiristas, ainda que não creditado oficialmente. Testemunha de boa parte dos problemas da realização do filme, escreveu seu livro disfarçando os nomes dos envolvidos e alterando pequenos detalhes - providências insuficientes para evitar que o livro se tornasse quase um relato oficial, apesar dos protestos de gente que esteve no olho do furacão, como a estrela Katharine Hepburn, ela própria autora de um livro sobre o assunto, chamado "The African Queen, or How I went to Africa with Bogie, Bacall and Huston and almost lost my mind". Hepburn questionou boa parte da narrativa de Viertel, mas o fato é que, apesar de sua posição privilegiada junto à equipe, é uma personagem bastante secundária no filme de Eastwood - o foco de "Coração de caçador" é, conforme o título dá uma boa pista, a obsessão de John Huston (ou, em sua versão fictícia, John Wilson) em caçar um elefante durante sua estadia nas locações africanas.

 

A trama do filme se passa em 1951 e começa quando o famoso cineasta John Wilson (interpretado pelo próprio Clint Eastwood, em atuação discreta e com maneirismos imitando o célebre John Huston) convence seu produtor, Paul Landers (George Dzundza), a financiar seu arriscado novo projeto, "The African Trader", escrito por seu amigo Pete Verrill (Jeff Fahey). Apesar de estar afundado em dívidas e ser considerado excêntrico em excesso, Wilson acaba recebendo sinal verde e parte para a África com o roteirista e a equipe. O que ninguém sabe, porém - com exceção de Verrill - é que, mais até do que realizar sua nova obra cinematográfica, o que Wilson realmente deseja é matar um elefante durante um safári. Contando com a ajuda de guias locais, atrasando o cronograma e aproveitando a estação chuvosa como desculpa para o adiamento das filmagens, ele mergulha profundamente em sua obsessão - a ponto de preocupar os colegas e arriscar a própria vida. Enquanto a equipe aguarda o começo dos trabalhos, Wilson lida placidamente com a preocupação de Landers - que chega à locação disposto a forçar o começo dos trabalhos.

Lançado no Festival de Cannes de 1990, "Coração de caçador" agradou à crítica, que viu nele ecos de um Clint Eastwood mais maduro como cineasta, mas naufragou solenemente nas bilheterias. Talvez reflexo de um tema não exatamente popular, seu fracasso comercial não eclipsou, no entanto, as qualidades de seu resultado artístico. Magnificamente fotografado por Jack N. Green - ajudado pelas belas paisagens do Zimbabue - e com uma trilha sonora exuberante de Lennie Niehaus, colaborador frequente de Eastwood antes que ele mesmo passasse a cuidar da música de seus filmes, o 14º longa-metragem do diretor é uma bela homenagem às idiossincrasias do ser humano em geral - Wilson não se preocupava com coisas como ecologia mas não pensa duas vezes em sair no soco com racistas/nazistas e afins - e de John Huston em particular. Mesmo não tendo conhecido o veterano diretor pessoalmente, Eastwood o revive em uma caracterização caprichada, aprovada até mesmo por sua filha, Anjelica, com quem viria a trabalhar em "Dívida de sangue" (2002) - não muito longe do tom durão de seus personagens mais famosos, o diretor/ator/produtor abraça novos horizontes e novos temas em uma carreira que ainda daria muitos frutos e muitos sucessos. 

Em tempo: o filme que Eastwood fez para a Warner como parte do acordo para realização de "Coração de caçador" também não foi propriamente um grande êxito financeiro: "Rookie: um profissional do perigo", estrelado por ele mesmo, Charlie Sheen e Sônia Braga faturou pouco mais de 21 milhões de dólares no mercado doméstico (EUA e Canadá), contra um custo de aproximadamente 30 milhões. Já seu filme seguinte, "Os imperdoáveis" (1992) mudaria sua carreira para sempre, com um estrondoso sucesso comercial e o primeiro Oscar de melhor filme e direção.

terça-feira

AVALON

 

AVALON (Avalon, 1990, TriStar Pictures, 128min) Direção e roteiro: Barry Levinson. Fotografia: Allen Daviau. Montagem: Stu Linder. Música: Randy Newman. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Norman Reynolds/Linda DeScenna. Produção: Mark Johnson, Barry Levinson. Elenco: Armin Mueller-Stahl, Joan Plowright, Aidan Quinn, Elizabeth Perkins, Kevin Pollack, Elijah Wood. Estreia: 19/10/90

4 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino

 "Cheguei na América em 1914..." Mais do que a abertura de "Avalon", a frase dita pelo patriarca Sam Krichinsky no filme de Barry Levinson serve como uma espécie de mantra, uma lembrança constantemente repetida através dos anos como forma de reafirmar uma identidade nacional ameaçada pela modernidade e pela imersão em uma cultura estrangeira. Inspirado na trajetória da família do diretor e roteirista, o primeiro filme de Levinson depois da chuva de Oscar por "Rain Man" (1988) é, também, um dos filmes mais pessoais do cineasta, repleto de calor humano, personagens dolorosamente reais e momentos da mais pura magia cinematográfica. Sem apelar para o sentimentalismo barato - ainda que não evite a emoção - e com um elenco preciso, formado por atores (e não astros de ego inflado e atuações excessivas), "Avalon" se destaca na carreira do realizador justamente por nadar contra a corrente e entregar ao espectador uma deliciosa e nostálgica crônica familiar, injustamente esquecida pela Academia de Hollywood em um ano cujo maior sucesso foi o soporífero e superestimado "Dança com lobos": indicado a apenas quatro estatuetas (indicações que sublinham algumas de suas maiores qualidades), o filme é uma joia das mais preciosas, uma carinhosa ode à família e à pátria - mas sem exagero no açúcar ou no ufanismo barato.

Interpretado por Armin Mueller-Stahl com generosas doses de sensibilidade, Sam Krichinsky não é exatamente o protagonista - ao menos não o único: ao optar por uma narrativa quase episódica, Levinson espalha o protagonismo por vários membros da família, especialmente no filho de Sam, Jules (Aidan Quinn), um jovem ambicioso e empreendedor que se torna, mesmo que de forma não intencional, o responsável pela separação do núcleo familiar. Em busca de independência, Jules rompe simbolicamente com as raízes polonesas (a simplificação do sobrenome é quase um golpe de morte em seu pai) e foge da tradição profissional de gerações ao sonhar (e realizar) um negócio próprio e então inovador. Ao lado do primo, Izzy (Kevin Pollack) - também pouco arraigado a tradições que considera não práticas - e da esposa, Ann (Elizabeth Perkins), Jules representa a chegada do progresso, da tecnologia (a TV surge como catalisador de outras mudanças na rotina da casa) e de uma nova forma de enxergar o mundo e os rituais antes considerados intocáveis. Não à toa, Levinson se utiliza de eventos familiares para sublinhar as profundas transformações (igualmente representativo é o fato de que é o Dia de Ação de Graças, uma data tipicamente norte-americana, o cenário para tais momentos de humor e/ou emoção). O roteiro equilibra com maestria humor e drama - nos dois casos com parcimônia e delicadeza - e consegue, de maneira admirável, valorizar o amor à terra natal e louvar as oportunidades de um novo mundo. É comovente e lindamente fotografada a sequência de abertura, em pleno 4 de julho, quando Sam fica abismado com as luzes e o colorido de seu novo país, como o auspício de um futuro tão brilhante quanto a noite de independência.

 
Terceira parte de uma trilogia informal iniciada por Barry Levinson com "Quando os jovens se tornam adultos" (1982) e continuada com "Os rivais" (1987) - um capítulo a mais foi adicionado com "Ruas da liberdade", de 1999 -, "Avalon" chegou a figurar entre os dez melhores filmes de 1990 pela National Board of Review e foi indicado a três importantes Golden Globes - melhor drama, melhor diretor e melhor trilha sonora original -, mas foi quase esquecido pelo Oscar. Mesmo lembrado na nobre categoria de roteiro original - onde perdeu para "Ghost: do outro lado da vida", adorado pelo público -, não foi celebrado como merecia: concorreu também às estatuetas de fotografia, figurino e música (uma sensível partitura de Randy Newman que ilustra com exatidão toda a vasta gama de emoções que percorre o filme). O trabalho de Mueller-Stahl foi injustamente esnobado (e pensar que Kevin Costner estava no páreo) e a direção discreta mas emotiva de Levinson também foi deixada de lado - talvez por sua vitória ainda recente por "Rain Man". Tal resultado em cerimônias de premiação não reflete todas as suas qualidades, sendo mais um sinal inequívoco do fato de que o Oscar normalmente é um jogo de popularidade: com uma renda internacional de pouco mais de 15 milhões de dólares (que não chegou nem mesmo a pagar seu orçamento relativamente baixo de 20 milhões), era difícil disputar de igual pra igual com produções de bilheteria milionária, como os já citados "Dança com lobos" e "Ghost" e com filmes que já chegavam às telas com prestígio nas alturas, como "Os bons companheiros" e "O poderoso chefão: parte 3". Diante de tantos pesos-pesados, "Avalon" ficou praticamente invisível - para azar de quem não o descobriu a tempo.

É difícil escolher a melhor cena de "Avalon", repleta de momentos tão verdadeiros e emocionantes que soam familiares até mesmo para quem não é de descendência judaica-polonesa. Todos os encontros do clã são recheados de calor humano, humor e verossimilhança. Sam Krichinsky e sua amada Eva (Joan Plowright, excelente) são os avós que todos gostariam de ter - assim como a infância do pequeno Michael (Elijah Wood ainda criança mas já bastante expressivo), inundada de amor e aventuras que beiram o perigo. Levinson conduz o espectador por uma viagem no tempo, enfatizando aqui e ali situações corriqueiras mas que, iluminadas por seu olhar carinhoso, se tornam maiores que a vida. Amor, amizade, vida, morte, alegrias e tristezas são iguais em importância diante do cineasta - que faz, à sua maneira, uma homenagem das mais brilhantes a suas origens familiares. Sem escorregar no sentimentalismo mas investindo com inteligência no que qualquer personagem tem de mais humano, ele criou um dos melhores filmes da década de 1990, infelizmente pouco conhecido do grande público.

quarta-feira

FILHOS DA GUERRA

FILHOS DA GUERRA (Europa, Europa, 1990, Bayerischer Rundfunk/Filmforderungsantalt, 112min) Direção: Agnieszka Holland. Roteiro: Agnieszka Holland, livro de Salomon Perel. Fotografia: Jacek Petrycki. Montagem: Ewa Smal, Isabelle Lorente. Música: Zbigniew Priesner. Figurino: Wieslawa Starska, Malgorzata Stefaniek. Direção de arte/cenários: Allan Starski/Ewa Braun, Anna Kowarska. Produção: Artur Brauner, Margaret Ménégoz. Elenco: Marco Hofschneider, Julie Delpy, Hanns Zischler, André Wilms, Ashley Wanninger. Estreia: 14/11/90

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro 

Em algumas ocasiões, por mais qualidades que um filme tenha, são situações alheias a ela que acabam por ficar marcadas em sua trajetória. É o caso de "Filhos da guerra", uma produção alemã dirigida pela polonesa Agniezska Holland que enfrentou o descaso das autoridades germânicas em seu lançamento e acabou não apenas por tornar-se uma das maiores bilheterias de filmes internacionais nos EUA, mas também por arrebatar uma série de prêmios da crítica - incluindo o Golden Globe de melhor filme estrangeiro e uma indicação ao Oscar de roteiro adaptado. Elogiado por onde passou e com respeitáveis 3,5 milhões de dólares de renda no mercado norte-americano - normalmente hermético a filmes legendados -, "Filhos da guerra" volta seu olhar a uma inacreditável história real ocorrida em meio à II Guerra Mundial, e trata, com sensibilidade, a capacidade humana de adaptar-se a situações adversas quando confrontado com a possibilidade da morte.


Com base no livro autobiográfico de Salomon Perel, o roteiro, escrito pela diretora, atravessa o período entre 1938 e 1945, quando seu protagonista, ainda adolescente, se vê diante dos horrores da II Guerra Mundial. Filho de judeus poloneses, ele e seu irmão mais velho saem da Alemanha temendo os horrores do antissemitismo, mas acabam separados no caminho rumo à Rússia. Sozinho e torturado pelas lembranças da invasão de seu apartamento, Salomon é internado em um orfanato comunista, onde torna-se parte de uma doutrina que acredita que "religião é o ópio do povo". Em seguida, confundido com um nazista, aceita se passar por ariano e torna-se parte do exército, como intérprete. Sempre à beira do pânico de ser descoberto, Salomon esconde sua circuncisão a todo preço - mesmo quando é assediado por um superior e se apaixona por Leni (Julie Delpy), uma jovem alemã com quem ele evita intimidades sexuais.


Vencedor de melhor filme estrangeiro pelos críticos de Kansas, Los Angeles e Nova York e pelo National Board of Review (que também o incluiu em sua lista dos de melhores do ano), "Filhos da guerra" segue o caminho inverso da maioria dos filmes do gênero, ao concentrar-se mais nos bastidores do conflito entre judeus e nazistas do que às batalhas em si. Mesmo as cenas mais violentas acontecem sob o ponto de vista do protagonista, interpretado pelo competente (mas nunca excelente) Marco Hofschneider. O foco do roteiro de Holland são as relações de Salomon com as situações que se apresentam e a forma com que ele lida com elas: ao moldar-se a cada uma, o personagem vai perdendo a própria identidade, ainda que ela nunca seja esquecida. O filme se utiliza da circuncisão do jovem como ponto de retorno a suas origens, como algo que ele não consegue esconder sem muita dor e sofrimento - e que pode afastá-lo de uma vida plena e sincera. Suas tentativas de sobreviver à perseguição aos judeus são cercadas de paranoia, desconfiança e uma constante sensação de não pertencimento, tudo conduzido com extrema sensibilidade pela cineasta que se tornaria famosa pela direção de uma nova versão do clássico "O jardim secreto" (lançada em 1993) e pelo irregular "Eclipse de uma paixão" (1995), estrelado pelo então ascendente Leonardo DiCaprio.

É fácil compreender o sucesso de "Filhos da guerra", tanto em termos comerciais quanto de crítica. Além do assunto ser caro às plateias, a direção de Agnieszka Holland insiste em um registro universal, questionando até que ponto uma pessoa é capaz de ir para garantir a própria sobrevivência. Ainda que soe um tanto superficial em vários momentos - opção da diretora em deixar a violência apenas como pano de fundo -, o filme conquista principalmente devido à atuação de Hofschneider, cujo carisma compensa a inexperiência. Seu olhar desesperado quando posto diante de situações diz muito mais do que diálogos longos, e Holland explora ao máximo a sutileza, como que a sublinhar a delicadeza ainda viva dentro do rapaz mesmo depois de tanta desgraça. Seu final abrupto pode incomodar, mas no balanço final, "Filhos da guerra" é um filme de suma importância, apesar das palavras do governo alemão, que recusou-se a inscrevê-lo para uma disputa no Oscar porque "não representava mais a nação germânica". Haja visto o enorme êxito do filme junto aos críticos - e ao extremo interesse da Academia em seu fundo histórico - pode-se apenas lamentar a visão de pouco alcance das autoridades locais, que traduziu a pouca bilheteria do filme na Alemanha em rejeição absoluta. Sorte das plateias que desafiaram sua percepção e encontraram um filme delicado e emocionante.

DARKMAN: VINGANÇA SEM ROSTO

DARKMAN: VINGANÇA SEM ROSTO (Darkman, 1990, Universal Pictures, 96min) Direção: Sam Raimi. Roteiro: Sam Raimi, Chuck Pfarrer, Ivan Raimi, Daniel Goldin, Joshua Goldin, estória de Sam Raimi. Fotografia: Bill Pope. Montagem: Bud S. Smith, David Stiven. Música: Danny Elfman. Figurino: Grania Preston. Direção de arte/cenários: Randy Ser/Julie Kay Fanton. Produção: Robert Tapert. Elenco: Liam Neeson, Frances McDormand, Colin Friels, Larry Drake. Estreia: 24/8/90

Aqueles que se surpreenderam, em 2002, com o talento do diretor Sam Raimi em recriar nas telas de cinema as aventuras de Peter Parker em "Homem-aranha" - tornadas ainda mais empolgantes no segundo capítulo, de 2004 - provavelmente ainda tinham na memória apenas sua experiência como o criador dos criativos e sanguinolentos "Uma noite alucinante: a morte do demônio" (1981) e sua continuação, "Uma noite alucinante 2" (1987). Talvez esses mesmos espectadores tivessem esquecido (ou simplesmente ignorado) um filme que, lançado em 1990, já dava pistas sobre o talento de Raimi em contar histórias de super-heróis: "Darkman: vingança sem rosto" pode não ter sido um estouro de bilheteria - rendeu pouco menos de 50 milhões de dólares pelo mundo afora - mas deixava explícito o carinho do cineasta pelo visual de HQ e sua vocação em abraçar antiherois e seus dilemas existenciais. Inspirada em maior ou menor nível por obras como "O fantasma da Ópera", "O corcunda de Notre Dame" e "O homem elefante" - além dos clássicos de horror da Universal Pictures e personagens populares como Batman e O Sombra -, a trama criada por Raimi (e desenvolvida por um time de roteiristas que incluía, sem créditos, os irmãos Coen, amigos do diretor) é uma colcha de retalhos divertida, despretensiosa e ligeira, o passatempo perfeito para uma tarde chuvosa de sábado.

Produzido por um grande estúdio mas com alma de filme independente, "Darkman" nasceu do desejo de Raimi em fazer um filme protagonizado por algum dos heróis de quadrinhos que moldaram sua infância e adolescência. Sem conseguir os direitos de nenhum, ele criou então a história adotada pela Universal Pictures - e sentiu na carne o abismo que separa o mundo do cinema realizado por trocados por aquele comandado por uma corporação hollywoodiana. Mesmo com um orçamento pequeno (de estimados 16 milhões de dólares), ele se viu lutando para manter sua visão artística, constantemente questionada pelos executivos do estúdio - além de um período difícil dirigindo a atriz principal, Frances McDormand, que, a despeito de ser casada com um amigo de Raimi (o também cineasta Joel Coen), mostrou-se tão dedicada a fazer o melhor para o filme que frequentemente batia de frente com o diretor). Assumindo um papel que por pouco não ficou com Julia Roberts (que pulou do projeto para conhecer o estrelato e a fama com "Uma linda mulher"), McDormand tampouco parecia a escolha ideal para protagonizar um filme de pretensões comerciais - até mesmo Demi Moore e Bridget Fonda foram testadas antes que ela finalmente assinasse o contrato. Da mesma forma, o papel principal masculino também não ficou com um ator popular à época: futuramente indicado ao Oscar por "A lista de Schindler" (93) e herói de filmes de ação, Liam Neeson ainda era um ilustre quase desconhecido em 1990, mas conquistou o respeito e a admiração de Sam Raimi graças a seu carisma - e ficou com o papel que quase esteve nas mãos de Bill Paxton e Gary Oldman (já que a opção inicial do criador da história, Bruce Campbell, foi recusada pelos produtores).


O que parecia um fracasso anunciado - as primeiras exibições-teste foram desastrosas - acabou se tornando, porém, um filme que conquistou a crítica e o público (que não fez dele um blockbuster mas que, graças ao marketing da Universal, correu às salas de exibição em busca de um novo "Batman" (89), de Tim Burton, ou "Dick Tracy" (90), de Warren Beatty). Mereceu o sucesso (relativo) que fez. A história é simples e mera desculpa para apresentar um dos personagens mais interessantes da carreira de Raimi: o brilhante cientista Peyton Westlake. Dedicado e inteligente, Peyton está em vias de atingir a perfeição de seu maior objetivo profissional - a criação de pele sintética. Antes disso, porém, ele acaba sendo deixado para morrer em seu laboratório pelos capangas de Louis Strack Jr. (Colin Friels, em papel oferecido a Richard Dreyfuss e James Caan) - de posse involuntária de documentos procurados pelo criminoso, ele vê todo seu trabalho destruído e, tido como morto, ressurge como o misterioso Darkman, que, em busca de vingança para seu rosto destruído, assume identidades alheias, com direito a máscaras impecáveis (mas que duram apenas 100 minutos). Durante sua jornada, ele conta com a ajuda da namorada, a advogada Julie Hastings (Frances McDormand) - a responsável indireta pela tragédia que quase acabou com a vida de seu amado.

Em ritmo ágil e quase juvenil, "Darkman" envolve o espectador especialmente por seu espírito quase mambembe. Mesmo se tratando de um filme produzido por um estúdio tradicional de Hollywood o que ele passa ao público é um desejo de ser quase trash, barato, como uma justa homenagem aos tempos clássicos do cinemão americano, com o bem e o mal nitidamente definidos, efeitos visuais quase capengas e cenas de ação no limite do inverossímil. Como sinal dos tempos, a protagonista feminina não fica apenas gritando e correndo perigo - algo que a personalidade forte de Frances McDormand jamais deixaria transparecer - e o herói tem uma angústia existencial que os distancia de galãs românticos de caráter estoico e nulidade dramática. O trunfo de Sam Raimi (a escalação de atores de verdade e não apenas símbolos sexuais pouco talentosos para os papéis centrais) é também o trunfo do filme como um todo: é uma entretenimento escapista dos mais divertidos, capaz de levar qualquer um de volta à adolescência. Despretensioso, quase deu origem a uma série de televisão - e não é que ela poderia ter sido muito legal?

segunda-feira

DE VOLTA PARA O FUTURO - PARTE III

DE VOLTA PARA O FUTURO - PARTE III (Back to the future - Part III, 1990, Universal Pictures, 118min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Bob Gale, estória e personagens de Robert Zemeckis, Bob Gale. Fotografia: Dean Cundey. Montagem: Harry Keramidas, Arthus Schmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Rick Carter/Margie Stone McShirley, Jim Teegarden. Produção executiva: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Steven Spielberg. Produção: Neil Canton, Bob Gale. Elenco: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Mary Steenburgen, Lea Thompson, Elisabeth Shue, Thomas F. Wilson, James Tolkan. Estreia: 25/5/90

Quando Robert Zemeckis e Bob Gale resolveram que o sucesso estrondoso de "De volta para o futuro" (85) merecia uma continuação, se depararam com uma situação atípica dentro da indústria hollywoodiana: ao invés de experimentarem um bloqueio criativo, eles foram brindados com uma profusão de ideias, que expandiam o universo de viagens no tempo a ponto de dar material não apenas para uma, mas duas sequências. Então, com o aval da Universal Pictures, entusiasmada com a centena de milhares de dólares arrecadados pelo primeiro filme, diretor e roteirista tomaram a decisão então inédita de rodar dois filmes simultaneamente, para que estreassem com o intervalo de um ano entre um e outro. Assim, a história do adolescente que precisava voltar trinta anos no passado para garantir que sua existência não fosse apagada acabava por se transformar em uma trilogia das mais amadas de sua época, repleta de personagens adoráveis, diálogos bem escritos e cenas que entraram para o inconsciente coletivo. Uma pena que seu encerramento, "De volta para o futuro - parte III" seja o menos empolgante da série, deixando no ar uma ligeira sensação de anti-clímax.

Depois de dedicar os dois primeiros filmes à família de Marty McFly (Michael J. Fox) - tanto em 1955 quanto em um 1985 alternativo - o roteiro do terceiro capítulo volta seus olhos para o outro protagonista da história, o cientista Emmett Brown (Christopher Lloyd, sempre ótimo), dessa vez remetendo os personagens para o Velho Oeste, mais precisamente para o ano de 1885, onde Brown está levando uma vida pacífica e tranquila, segundo uma carta escrita de próprio punho para ele mesmo, no futuro. A complicação começa, porém, quando ambos descobrem, em 1955, que apenas uma semana depois de ter escrito a carta, o cientista será assassinado por um conhecido criminoso local. Para impedir que tal tragédia ocorra, Marty convence o amigo a deixá-lo retornar no tempo mais uma vez. É assim que ele chega a uma Hill Valley em seus primórdios e, assumindo o pseudônimo de Clint Eastwood, conhece seus antepassados, Seamus (também Michael J. Fox) e Maggie McFly (Lea Thompson), o apavorante "Mad Dog" Tannen (Thomas F. Wilson) e a professora Clara Clayton (Mary Steenburgen), que, tão logo chega no local, desperta uma inesperada paixão no solitário Emmett Brown.


Como uma grande homenagem a um dos gêneros mais queridos de Hollywood, "De volta para o futuro - parte III" abarca uma infindável coleção dos maiores ícones do western. Do nome adotado por Marty quando chega à Hill Valley até o clímax em uma estrada de ferro, todos os elementos mais clássicos do faroeste desfilam pela tela, de forma mais ou menos explícita. Há o saloon onde se encontram os valentões e McFly dá de cara com Mad Dog pela primeira vez; há os bailes ao ar livre onde a comunidade confraterniza em momentos de paz; há os figurinos típicos, com direito a um extravagante conjunto vestido pelo protagonista ("Deve ter roubado de algum chinês morto!"); há ataques indígenas e, finalmente, há a moldura esplendorosa do Monument Valley, cenário arquetípico facilmente reconhecível até mesmo por aquela plateia que jamais ouviu falar em John Ford. Para aproximar-se de um público mais jovem e menos afeito à nostalgia, Zemeckis reveste todos esses ingredientes com um atraente senso de humor e aventura que disfarça sua real intenção: realizar um faroeste à moda antiga, mas com os recursos da (então) moderna tecnologia cinematográfica. Ao mesmo tempo em que brinca com os demais filmes da série - com cenas e situações que dialogam diretamente com os capítulos anteriores - o diretor injeta sangue novo à mitologia do enredo, mostrando a construção da torre do relógio (peça-chave nos três filmes), apresentando os pioneiros McFly nos EUA e o início da rivalidade entre a família do protagonista e os Tannen - que um século mais tarde ainda estará bem viva, como mostram as brigas entre George e Biff. Sem perder em momento algum o senso de humor e a coerência interna com o universo criado em 1985, o filme só não é perfeito por estender-se demais.

Com uma trama sem a quantidade de acontecimentos dos dois primeiros filmes - tão movimentados que chegavam a dar um nó na cabeça do espectador - e a história principal centrada no romance entre Brown e Clara Clayton, "De volta para o futuro - parte III" se ressente de uma edição mais enxuta, capaz de limar alguns excessos. O clímax do filme, por exemplo, em um trem à toda velocidade, mais cansa o público do que o encanta, e o desfecho da história, mesmo que necessário, estende-se mais do que deveria: não deixa nenhuma ponta solta, o que é admirável, mas demora a ponto do quase tédio. Por mais que o público goste de Marty McFly e Emmett Brown, sua despedida poderia ser bem mais ágil e divertida. É um final agradável, simpático e coerente, mas que não chega a estar à altura dos dois primeiros filmes, o que, de certa forma, era uma missão quase impossível.

terça-feira

ALUCINAÇÕES DO PASSADO

ALUCINAÇÕES DO PASSADO (Jacob's ladder, 1990, Carolco Films, 113min) Direção: Adrian Lyne. Roteiro: Bruce Joel Rubin. Fotografia: Jeffrey L. Kimball. Montagem: Tom Rolfe. Música: Maurice Jarre. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Kathleen Dolan. Produção executiva: Mario Kassar, Andrew Vajna. Produção: Alan Marshall. Elenco: Tim Robbins, Elizabeth Peña, Danny Aiello, Matt Craven, Pruitt Taylor Vince, Jason Alexander, Patricia Kalember, Eriq La Salle, Ving Rhames. Estreia: 02/11/90

Não deixa de ser interessante que um dos filmes mais corajosos, assustadores e surpreendentes de 1990 - e por consequência totalmente ignorado pelas cerimônias de premiação e até pelo público que lotava as salas de cinema para assistir a produções leves como "Esqueceram de mim" e "Uma linda mulher" - tenha sido dirigido por um cineasta até então massacrado e desacreditado quase unanimemente pela crítica, o inglês Adrian Lyne. Autor de filmes tão populares quanto desprezados pelos especialistas como "Flashdance" (84), "9 1/2 semanas de amor" (86) e "Atração fatal" (87) - pelo qual foi surpreendentemente indicado a um Oscar - Lyne saiu da publicidade para transformar-se em sinônimo de filmes rápidos, de estética moderna e pouco afeitos a detalhes como roteiro. Por isso, quando "Alucinações do passado" - escrito pelo mesmo Bruce Joel Rubin que viu seu "Ghost, do outro lado da vida" ganhar milhares de espectadores e uma estatueta da Academia - estreou, no final do ano, todo mundo que havia virado a cara para suas produções anteriores teve que repensar suas convicções. Denso, cruel, poético e intrigante, o conto de horror estrelado por Tim Robbins mistura paranoia militar, suspense e espiritualidade em um conjunto hipnotizante que é - e provavelmente sempre será - o melhor trabalho de seu diretor.

As primeiras tomadas, de uma emboscada na Guerra do Vietnã, podem dar a impressão de tratar-se de mais um capítulo da leva de filmes sobre o assunto tornados moda desde que Oliver Stone levou seus Oscar por "Platoon" (86) e "Nascido em 4 de julho" (89), mas esse é apenas o primeiro erro dos espectadores menos pacientes: é esse episódio no conflito oriental que está o cerne de toda a torturante trajetória posterior do protagonista, Jacob Singer (Tim Robbins em atuação espetacular), que já na cena seguinte está em Nova York, anos mais tarde, trabalhando em uma agência de correios. Separado da primeira mulher e ainda lamentando a morte do filho pequeno - ocorrida ainda antes de sua viagem para a guerra - Jacob vive no apartamento da nova namorada, Jezzie (Elizabeth Peña) e, quando o filme começa, está sofrendo de violentas e angustiantes visões que remetem aos piores pesadelos kafkianos. Pessoas sem rosto, humanos com características de répteis e até sonhos constantes com sua antiga vida passam a ser parte de sua rotina. Desesperado, ele é procurado por um grupo de soldados que lhe sugerem a ideia de que todos fizeram parte de um experimento do governo americano durante o Vietnã. Ele parte em busca da verdade, mas será que as coisas são assim tão simples?


Outro fator que surpreende bastante em "Alucinações do passado" é o roteiro de Bruce Joel Rubin, que abdica de toda a delicadeza e o senso de humor presentes em seu "Ghost" para oferecer um banquete de sensações desagradáveis e desconfortáveis que perpassam o caminho de Jacob em direção a seu desfecho. Se no filme estrelado por Patrick Swayze e Demi Moore o plano espiritual parecia pacífico e etéreo - exceto para os vilões, como convém a um produto com ambições mercadológicas - aqui a coisa é bem diferente. Somado à direção firme de Lyne - que se inspirou na obra mórbida de Francis Bacon, William Blake e da fotógrafa Diane Arbus para compor suas cenas mais impactantes - o roteiro de Rubin constroi uma nova faceta para os filmes a respeito de experiências sensoriais. É impressionante como é negada ao público, até seus minutos finais, a possibilidade de um completo entendimento de tudo que se passa em seus 113 minutos. Afinal, o que está se passando com Jacob? É alucinação, como diz o título nacional? São resquícios do experimento do governo? Ele está simplesmente embarcando na loucura tão comum aos soldados veteranos? Ou a explicação é outra, mais corriqueira... e ainda mais apavorante?

"Alucinações do passado" é um triunfo. Tecnicamente é impecável, contando com a fotografia em tons escuros de Jeffrey L. Kimball, a edição ágil de Tom Rolfe e a música nunca invasora de Maurice Jarre. Como suspense é admirável, tanto por seu roteiro corajoso e inteligente quanto pela direção nunca aquém de surpreendente de Adrian Lyne. E seu elenco, liderado pelo ótimo Tim Robbins (que ficou com um papel que por pouco não esteve nas mãos de Tom Hanks, Don Johnson, Mickey Rourke ou Richard Gere), mantém o nível de tensão nas alturas - em especial a participação do sempre estranho e eficaz Pruitt Taylor Vince, como um colega de batalhas do protagonista. Também é louvável seu final, coerente, emocionante e poético, dando ao espectador o alívio buscado durante toda a projeção. Grande filme, que merece ser conhecido. Por causa dele, Lyne pode ser perdoado pelas (muitas) bobagens que já fez na carreira.

segunda-feira

AJUSTE FINAL

AJUSTE FINAL (Miller's crossing, 1990, 20th Century Fox, 115min) Direção: Joel Coen. Roteiro: Joel Coen, Ethan Coen. Fotografia: Barry Sonnenfeld. Montagem: Michael R. Miller. Música: Carter Burwell. Figurino: Richard Hornung. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Produção executiva: Ben Barenholtz. Produção: Ethan Coen. Elenco: Gabriel Byrne, Marcia Gay Harden, Albert Finney, John Turturro, J.E. Freeman, Jon Polito. Estreia: 21/9/90

Durante o processo de escrita do roteiro de "Ajuste final", que viria após de sua auspiciosa estreia com "Gosto de sangue" (84) e da visita à comédia amalucada em "Arizona nunca mais" (87), os irmãos Coen - Joel, o diretor, e Ethan, o produtor - experimentaram uma situação insólita: em determinado ponto, a estória do gângster Tom Regan - regada a tiroteios, traições e a dose sempre presente de humor negro - chegava a um impasse aparentemente insolúvel. Cansados, confusos e com uma falta de ideias até então desconhecido, eles deram um tempo e escreveram um outro filme, justamente sobre um roteirista de Hollywood paralisado por um bloqueio criativo. O filme, "Barton Fink, delírios de Hollywood" (92), acabou saindo-se vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes e recebeu rasgados elogios da crítica. E "Ajuste final", apesar de ter sido praticamente ignorado pelas cerimônias de premiação, conseguiu, em seu resultado final, superar os problemas de falta de inspiração se tornando um espetacular filme de gângster, que mistura o estilo inconfundível dos cineastas com os elementos tradicionais de um dos gêneros mais queridos dos espectadores.

A primeira cena já remete ao mais clássico dos clássicos, "O poderoso chefão" (72), quando um gângster dos anos 30, Johnny Caspar (Jon Polito), pede permissão a outro, Leo (Albert Finney), para matar Bernie Bernbaum (John Turturro), um judeu falastrão e desonesto que anda atrapalhando seus negócios. A sequência, filmada com elegância, dá a partida para a complexa trama: testemunhado por seu lacônico conselheiro Tom Regan (um silencioso e eficiente Gabriel Byrne), Leo se recusa a apoiar Caspar, mas por motivos que nada tem a ver com o submundo do crime: Bernie é irmão da amante de Leo, a sedutora Verna (Marcia Gay Harden), uma mulher pouco confiável, já que, além de Leo, também frequenta a cama de Tom. Esse perigoso triângulo amoroso, incendiado pela presença nociva de Bernie e pelo tom de constante ameaça de Caspar e seu violento capanga, Eddie Dane (J.E. Freeman), vai sofrer constantes reviravoltas, já que confiança é um artigo raro dentro do submundo criminal dos anos 30.


Esplendidamente fotografado pelo futuro cineasta Barry Sonnenfeld, "Ajuste final" é um típico produto em que a aparência chama mais a atenção do que o conteúdo. A trama complexa - por vezes em demasia - é emoldurada por uma reconstituição de época caprichadíssima e uma técnica impressionante, característica que os cineastas levariam como constante em sua vitoriosa carreira. O roteiro (não é de surpreender que tenha confundido os próprios autores) ousa em sua originalidade, misturando sexo, poder e violência em um caldeirão de referências visuais e temáticas, mas acaba, em determinado momento, deixando o espectador perdido com tantos nomes e situações. Esse pequeno detalhe, porém, não basta para anular as inúmeras qualidades do filme, uma extraordinária realização que surpreende por ser recém o terceiro trabalho dos Coen. Sua inexperiência não os impede de alcançar níveis inacreditáveis de excelência, tanto pictoriamente quanto em termos de direção de atores.

Gabriel Byrne nunca esteve tão bem antes, construindo um Tom Regan discreto, cuja raiva vai se acumulando até o limite, em sequências arrepiantes. Albert Finney surpreende como o gângster Leo, que intercala momentos de ternura apaixonada com outros de raiva extrema, e Marcia Gay Harden jamais deixa sua Verna tornar-se previsível aos olhos da plateia. No entanto, é John Turturro, na pele do venal Bernie Bernbaum, quem rouba a cena: sempre que está diante do público, ele monopoliza a atenção, com seus olhos expressivos e seu trabalho milimetricamente detalhado (não foi à toa que ele foi escolhido pelos diretores para viver o protagonista de "Barton Fink", que lhe valeu o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes). Suas sequências - em especial o fantástico duelo com Byrne em uma floresta - são a alma do filme, a prova de que, por trás da intrincada história contada pelos Coen e por seu hipnotizante visual, existe gente que sabe falar de gente. Mesmo que seja uma gente tão distante - em todos os sentidos - do espectador comum.

domingo

LEMBRANÇAS DE HOLLYWOOD

LEMBRANÇAS DE HOLLYWOOD (Postcards from the edge, 1990, Columbia Pictures, 101min ) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Carrie Fisher, livro de sua autoria. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Sam O'Steen. Música: Carly Simon. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandestein/Chris A. Butler. Produção executiva: Robert Greenhut, Neil Machlis. Produção: John Calley, Mike Nichols. Elenco: Meryl Streep, Shirley MacLaine, Dennis Quaid, Gene Hackman, Richard Dreyfuss, Rob Reiner, Annette Bening, Simon Callow, CCH Pounder, Oliver Platt, Michael Ontkean, Anthony Heald. Estreia: 14/9/90

2 indicações ao Oscar: Atriz (Meryl Streep), Canção Original ("I'm checking out")

Carrie Fisher foi ao inferno e voltou - com um humor mordaz e venenoso à tiracolo. A eterna Princesa Leia da cinessérie "Star Wars" - filha de um ícone (Debbie Reynolds), ex-mulher de outro (Paul Simon), ídolo de uma (ou provavelmente mais de uma) geração de nerds - Fisher enfrentou um perigoso vício em drogas e sobreviveu para contar sua história. Disfarçada sob o rótulo de ficção, sua trajetória para recuperar sua carreira, aprender a conviver com as idiossincrasias da mãe estrela de cinema e de quebra fazer uma dura e mordaz crítica aos bastidores da indústria do cinema americano chegou às livrarias com o título de "Postcards from the edge" ("Cartões postais do abismo", em tradução literal) e, mais tarde, como não poderia deixar de ser, apesar da ironia, chamou a atenção dos produtores de Hollywood (que, sabidamente, adoram ser retratados nas telas, por pior que seja tal retrato). Dirigido pelo ótimo Mike Nichols - acostumado a lidar com os melindres da terra do cinema - "Lembranças de Hollywood" acabou resultando em uma agridoce comédia dramática que mesmo em seus momentos mais sentimentais nunca abandona sua tendência ao sarcasmo - em boa parte porque o roteiro ficou a cargo da própria Fisher, especialista em transformar aridez em saborosos diálogos.

E diálogos furiosos banhados a humor não faltam na história de Suzanne Vale, a protagonista interpretada com verve cômica por Meryl Streep (que obviamente concorreu ao Oscar por seu desempenho repleto de frescor e ironia). Famosa mais por seu vício em drogas e por ser filha da excêntrica, querida e popular Doris Mann (Shirley MacLaine, esplêndida), ela é obrigada a fazer um tratamento de desintoxicação como cláusula para ser contratada para um filme que ela nem mesmo está tão empolgada a fazer. O problema do tratamento é, além daqueles normalmente inerentes a ele, é a obrigação de voltar a conviver com a mãe, uma mulher carismática, adorada pelo público e de cuja sombra ela vem tentando sair há anos. Com seus próprios problemas de vício - dessa vez em álcool - Mann não chega a ser um exemplo para a filha, mas a convivência, apesar de difícil, passa a ser responsável por uma aproximação entre elas, principalmente quando demônios e traumas passados vem à tona. Não bastasse tudo isso, Suzanne ainda se vê diante de seus problemas amorosos, em especial quando se encanta por um ator metido a conquistador, Jack Faulkner (Dennis Quaid).


Lotado de participações especiais - Richard Dreyfuss como seu médico, Gene Hackman como um cineasta com o coração bem menos duro do que aparenta, o cineasta Rob Reiner como um produtor - "Lembranças de Hollywood" é um retrato tão sincero dos bastidores do cinema comercial americano que incomodou alguns (Lana Turner não gostou nem um pouco de ter sido citada em uma cena que a qualificava como uma má mãe), trouxe lembrnças a outros (Liza Minnelli encontrou ecos de sua relação com Judy Garland no filme) e despertou cobiça em outros tantos (Janet Leigh queria fazer o filme com a filha Jamie Lee Curtis e a própria Debbie Reynolds se interessou em interpretar Doris Mann). A coragem de Fisher em expor-se e seu mundo é admirável, em especial quando se nota que em momento algum existe resquícios de autopiedade ou sentimentalismo. Como uma metralhadora giratória, o roteiro brinca com o egocentrismo dos cineastas e atores, com o mundo de aparências em que vivem e até mesmo com o perigo do vício em entorpecentes (em vias de morrer de overdose, Suzanne se vê em um corredor decorado com fotos de Judy Garland, Elvis Presley, James Belushi e Marilyn Monroe). Mas é na problemática/amorosa/inconstante relação entre mãe e filha que está o âmago do filme de Mike Nichols, e é onde estão também seus maiores trunfos: Meryl Streep e Shirley MacLaine.

Se foi Streep quem concorreu ao Oscar - e perdeu para Kathy Bates em "Louca obsessão" - é MacLaine quem rouba a cena com sua histriônica Doris Mann, uma atriz capaz de fazer um mini-show em sua casa na festa que dá para comemorar o retorno da filha de uma clínica de reabilitação e de dar uma entrevista coletiva ao sair do hospital depois de ter sofrido um acidente por dirigir bêbada como se estivesse saindo de um espetáculo na Broadway. Os duelos entre as duas - repleto de farpas, rancores e uma indisfarçável inveja (a filha inveja o talento da mãe, a mãe queria a juventude da filha) - estão entre os melhores momentos do filme, a ponto de o público ficar constantemente querendo ver mais e mais arranca-rabos entre as duas. Mesmo que a diferença entre as duas atrizes não ultrapasse quinze anos, não existe dúvidas de que Nichols não poderia ter feito escolhas melhores para suas protagonistas: elas iluminam e dão calor humano a um filme que, a despeito de tratar de um assunto aparentemente tão distante da plateia que não é astro de cinema nem viciado em drogas, consegue atingir em cheio o coração e a mente do espectador graças a um belo roteiro, uma trilha sonora inspirada e duas atrizes extraordinárias.

sábado

OS IMORAIS

OS IMORAIS (The grifters, 1990, Cineplex-Odeon Films, 110min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: Donald E. Westlake, romance de Jim Thompson. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Mick Audsley. Música: Elmer Bernstein. Figurino: Richard Honrnung. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Produção executiva: Barbara de Fina. Produção: Robert A. Harris, Jim Painter, Martin Scorsese. Elenco: Anjelica Huston, John Cusack, Annette Bening, Pat Hingle, Xander Berkeley. Estreia: 14/9/90 (Festival de Toronto)

4 indicações ao Oscar: Diretor (Stephen Frears), Atriz (Anjelica Huston), Atriz Coadjuvante (Annette Bening), Roteiro Adaptado

Lilly Dillon ganha a vida lavando dinheiro da Máfia, frequentando hipódromos para buscar a grana de seu violento patrão, Bobo Justus. Seu filho, Roy, vive de golpe em golpe, arriscando-se em busca do ganha-pão e não a vê há oito anos. Sua nova namorada, a alegre sirigaita Myra Langrty, utiliza-se de sua beleza para pagar com o corpo o aluguel e outras dívidas que não consegue amortecer, depois de ver suas chances de enriquecer com um golpe milionário irem por água abaixo. Esse trio de bandidinhos, malandros pés-de-chinelo, a quilômetros de distância do glamour hollywoodiano são os protagonistas de "Os imorais", noir sujo, direto e sem concessões baseado com extrema fidelidade no romance de Jim Thompson e dirigido por Stephen Frears que conseguiu a façanha de, no mesmo ano de "Os bons companheiros", de Martin Scorsese, e "O poderoso chefão, parte III", de Francis Ford Coppola, chegar até a cerimônia do Oscar em categorias nobres como direção, roteiro e atriz. Scorsese, aliás, é produtor executivo do filme, o que talvez explique a maneira com que as entranhas do submundo do crime são tão cruamente expostas nessa pérola de Stephen Frears, até então mais conhecido pelo elegante "Ligações perigosas" (88).

Pela direção da adaptação do clássico romance de Choderlos de Laclos estrelado por Glenn Close e John Malkovich, o diretor foi esnobado pela Academia, apesar do filme concorrer à estatueta principal, mas dessa vez não teve como ignorá-lo. Sua direção firme, fria e direta casa perfeitamente com o texto incisivo e cínico de Jim Thompson, escritor americano que frequentou Hollywood contribuindo com o roteiro de  "O grande golpe" (56) e "Glória feita de sangue" (57), ambos de Stanley Kubrick: sem preocupar-se com firulas, sua obra vai direto à jugular, com uma violência verbal e física capaz de encantar aos fãs do tradicional cinema noir hollywoodiano - mas, ao contrário dos filmes mais famosos do gênero, abdica do glamour para concentrar-se nos escaninhos mais sórdidos das histórias de gângsteres, aqueles que até o mais amoral criminoso tem vergonha de admitir. Ao retratar bandidos ralé ao invés de poderosos chefões, "Os imorais" ganha pontos pela autenticidade, garantida por um trio de atores principais de tirar o chapéu.


Anjelica Huston (loiríssima) está sublime como Lilly, uma Jocasta extemporânea que, depois de oito anos de ausência, reencontra o filho, Roy (John Cusack iniciando uma expressiva fase da carreira que o levaria a trabalhar com cineastas do porte de Woody Allen e ser reconhecido como um dos atores mais promissores de sua geração) e de cara implica com sua nova namorada, Myra (Annette Bening, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), em uma antipatia recíproca, como se ambas percebessem a inevitável rivalidade prestes a ocorrer. Lilly quer que Roy a ajude a fugir de seu patrão, que desconfia de sua honestidade (não sem motivos). Myra deseja que o namorado se torne seu sócio em um esquema que lesa milionários desavisados. As duas sabem que qualquer escolha do rapaz anulará a outra e uma guerra silenciosa é declarada entre elas.

Contando com uma edição ágil mas nunca apressada de Mick Audsley - que começa o filme dividindo a tela em três, apresentando à plateia as personagens com quem irão conviver pelas próximas duas horas - "Os imorais" se beneficia também do roteiro enxuto de Donald E. Westlake, que segue religiosamente sua origem literária e da coragem de Stephen Frears em obrigar o publico a testemunhar cenas de grande impacto emocional (a tortura psicológica sofrida por Lilly e um punhado de laranjas enroladas em uma toalha) sem nunca ultrapassar os limites visuais da violência. Trabalhando principalmente sobre a personalidade de seus protagonistas - e até mesmo deixando no ar algumas questões como o tipo de relação entre Lilly e Roy, que beira o incesto - a trama prefere investigar os mecanismos tortuosos entre os três personagens como engrenagens de uma complexa história de amor, traição e vingança. Não deve agradar a todos - seu visual é desprovido de qualquer beleza e seu ritmo é brusco e árido - mas poucos filmes de sua época tiveram sua coragem de arrancar sem temores os véus de delicadeza que cobriam o gênero policial. Só por isso já merece aplausos.

sexta-feira

ALTA TENSÃO

ALTA TENSÃO (Bird on a wire, 1990, Universal Pictures, 110min) Direção: John Badham. Roteiro: David Seltzer, Louis Venosta, Eric Lerner, estória de Louis Venosta, Eric Lerner. Fotografia: Robert Primes. Montagem: Frank Moriss, Dallas Puett. Música: Hans Zimmer. Figurino: Eduardo Castro. Direção de arte/cenários: Philip Harrison/Rose Marie McSherry. Produção executiva: Robert W. Cort, Ted Field. Produção: Rob Cohen. Elenco: Goldie Hawn, Mel Gibson, David Carradine, Bill Duke, Stephen Tobolowsky. Estreia: 18/5/90

A ideia, a princípio, é ótima: misturar em um filme direcionado para todos os tipos de audiência uma dose de comédia, bons momentos de ação e alguns toques de romance, além de dois atores queridos e capazes de chamar o público sem fazer muito esforço. A escolha do par central também não é nada errada: Goldie Hawn  estava sumida do cinema desde "Um salto para a felicidade" (87) - filme no qual conheceu Kurt Russell, que se tornou seu marido - e Mel Gibson estava no auge da popularidade graças às cinesséries "Mad Max" e "Máquina mortífera"- além de estar começando a arriscar-se em papéis mais sérios, como o denso "Hamlet", de Shakespeare, adaptado por Franco Zefirelli. Na direção, o pau-pra-toda-obra John Badham, que tinha no currículo de sucessos o musical "Os embalos de sábado à noite" (77) e a comédia "Tocaia" (87). Por que, então, "Alta tensão", o filme que mistura todos esses ingredientes aparentemente tão saborosos, quando é servido à plateia soa como um prato requentado?

Talvez seja o fator "tempo": visto hoje, quase 25 anos depois de sua estreia, o filme de Badham não apresenta nenhuma novidade, seja em sua estrutura que mescla diversos gêneros ou em seu humor, quase inocente (leia-se infantil, apesar de algumas insinuações sexuais que quase passam despercebidas). Pode ser também - e é provavelmente aí que esteja seu maior e mais complicado problema - sua obviedade: as engrenagens do roteiro estão na cara do espectador o tempo todo, que prevê, desde os primeiros minutos de projeção, para onde a história será conduzida. Lógico que esse defeito existe desde que o cinema comercial americano começou a dar as cartas - principalmente quando se trata de comédias românticas - e a plateia muitas vezes não procura exatamente surpresas quando procura um filme do gênero, mas "Alta tensão", apesar de divertir e proporcionar à audiência, exagera na previsibilidade, confiante demais no carisma de seus protagonistas e em seu ritmo enxuto.


A química entre Goldie Hawn e Mel Gibson, aliás, é a maior qualidade do filme, uma comédia ao estilo sessão da tarde que serve como passatempo mas jamais ultrapassa os limites do gênero e do diretor John Badham, que frequentemente se vê tão encantado com sua dupla de protagonistas que esquece em dar mais pimenta à sua trama. Goldie interpreta a bem-sucedida advogada nova-iorquina Marianne Graves, que, viajando a trabalho para o interior do país, dá de cara com um frentista de posto de gasolina que é idêntico a um antigo namorado, morto há quinze anos. Desconfiada do excesso de semelhança entre os dois, ela acaba descobrindo, da pior maneira possível, que Rick Jarmin (Mel Gibson) não apenas não morreu como está na mira de um perigoso traficante de drogas que ele mandou para a cadeia anos antes e que agora, livre, deseja seu fim. Escondido durante todo esse tempo pelo Programa de Proteção À Testemunha do FBI, Jarmin precisa descobrir uma maneira de escapar com vida, e Marianne acaba embarcando na perigosa aventura - para descobrir que nunca deixou de ser apaixonada por ele.

A trajetória de Marianne e Rick atrás de seu protetor dá a oportunidade a John Badham e aos atores de exercitar tanto seu lado cômico quanto o viés da aventura previsto no roteiro - que apesar de esquemático oferece alguns bons momentos à plateia, em especial no clímax em um zoológico, tão esperto quanto divertido. Goldie Hawn e Mel Gibson estão ótimos e David Carradine se esbalda no papel de vilão que lhe cai como uma luva. Pode divertir, mas é pouco quando se sabe quem são os envolvidos. Ainda assim, vale uma espiada sem compromisso.

quinta-feira

LOUCOS DE PAIXÃO

LOUCOS DE PAIXÃO (White palace, 1990, Universal Pictures, 103min) Direção: Luis Mandoki. Roteiro: Ted Tally, Alvin Sargent, romance de Glenn Savan. Fotografia: Lajos Koltai. Montagem: Carol Littleton. Música: George Fenton. Figurino: Lisa Jensen. Direção de arte/cenários: Jeannine C. Oppewall/Lisa Fischer. Produção executiva: Sydney Pollack. Produção: Griffin Dunne, Amy Robinson, Mark Rosenberg. Elenco: Susan Sarandon, James Spacer, Jason Alexander, Kathy Bates, Eilleen Breenan, Maria Pitillo, Jeremy Piven. Estreia: 19/10/90

A trama não é das mais surpreendentes ou criativas: jovem viúvo rico e judeu se apaixona por uma mulher mais velha, experiente e de classe social inferior e o romance entre os dois esbarra nas dificuldades inerentes a esse tipo de relacionamento. Por que, então, "Loucos de paixão", baseado no livro de Glenn Savan, soa tão especial ao público? Será por causa do roteiro enxuto de Ted Tally - que veria seu "O silêncio dos inocentes" sair com um Oscar no ano seguinte? - e Alvin Sargent - veterano vencedor de duas estatuetas, por "Julia" (77) e "Gente como a gente" (80) - que se mantém acima do melodrama barato, circundando-o com uma atmosfera de verossimilhança extremamente bem-vinda?  Ou será sua dupla de atores centrais, Susan Sarandon e James Spader, cujos talentos conseguem fazer poesia até dos diálogos mais banais? Talvez seja a reunião de todos os ingredientes, mas o fato é que o filme de Luis Mandoki é um dos dramas românticos mais interessantes de seu tempo, mesmo que não tenha tido o reconhecimento devido nas cerimônias de premiação.

Susan Sarandon, em vias de tornar-se uma das atrizes mais queridas, requisitadas e premiadas atrizes de sua geração - bônus por seu desempenho excepcional em "Thelma & Louise" (91) - vive Nora Baker, uma garçonete de 43 anos de idade que tem no passado a trágica morte do filho. Uma noite, depois do confronto com um cliente que chega à lanchonete onde ela trabalha reclamando do atendimento, ela o reencontra em um bar, bêbado e pouco disposto a conversa. O rapaz, Max Baron (James Spader em papel que quase ficou com Robert Downey Jr.), tem 27 anos, também tem um histórico de perdas - sua mulher morreu em um acidente de carro há pouco tempo - e acaba indo com ela para sua casa. O choque de gerações, de culturas e até mesmo de modos de viver - ele é inflexivelmente rígido a padrões de higiene, por exemplo, e ela mora em um lugar pouco asseado e sem maiores preocupações quanto a isso - não o impede de dormir com ela, depois de um longo período sabático. Aos poucos, apesar das diferenças, os dois se apaixonam, mas ele não sente-se à vontade em apresentar a simples e desbocada Nora à sua família e seus amigos.


A história de "Loucos de paixão" não tem medo dos clichês, conforme pode-se perceber. No entanto, o roteiro ritmado disfarça a escassez de surpresas, especialmente quando põe em cena seus dois protagonistas. Desde o primeiro diálogo no bar - quando Nora descaradamente flerta com o atônito Max - até o final modificado depois de exibições-teste que não o aprovaram, a forma como Sarandon e Spader dominam seus personagens encanta e seduz o público sem fazer muita força. Sarandon não se intimida com a sexualidade ululante de Nora, se entregando sem pudor a cenas bastante apimentadas e Spader, com seu rosto angelical - que já havia sido explorado a contento por Steven Soderbergh em seu "sexo, mentiras e videotape" (89) - transmite com segurança toda a vastidão emocional que Max precisa esconder por trás de uma vida de aparências e boa educação. O encontro dos dois mundos - regido ainda pela irmã mais velha de Nora, a vidente interpretada por Eileen Breenan - é o melhor do filme, uma história de amor adulta feita para adultos.

"Loucos de paixão" não foi um estouro de bilheteria, nem tampouco é muito lembrado dentro da vitoriosa carreira de Susan Sarandon. Mas é uma bela história, narrada com competência e elegância, dentro de um roteiro enxuto e realista. Em uma época em que muitos filmes preferiam o exagero à discrição, ousou ser minimalista e sutil em suas emoções. Por causa disso, é uma pequena pérola a ser redescoberta.

quarta-feira

O REVERSO DA FORTUNA

O REVERSO DA FORTUNA (Reversal of fortune, 1990, Sovereign Pictures, 111min) Direção: Barbet Schroeder. Roteiro: Nicholas Kazan, livro de Alan Dershowitz. Fotografia: Luciano Tovoli. Montagem: Lee Percy. Música: Mark Isham. Figurino: Judianna Makovsky. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Beth Kushnick. Produção executiva: Michael Rauch. Produção: Edward R. Pressman, Oliver Stone. Elenco: Glenn Close, Jeremy Irons, Ron Silver, Julie Hagerty, Annabella Sciorra, Uta Hagen, Felicity Huffman. Estreia: 12/9/90 (Festival de Toronto)

3 indicações ao Oscar: Diretor (Barbet Schroeder), Ator (Jeremy Irons), Roteiro Adaptado
Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Jeremy Irons)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Jeremy Irons)

Em 1988, Jeremy Irons mostrou ao público e à crítica um de seus mais devastadores trabalhos, como os irmãos ginecologistas de "Gêmeos, mórbida semelhança", de David Cronenberg, e foi sumariamente ignorado pela Academia, talvez assustada com a temática barra-pesada da trama. Dois anos depois, porém, foi praticamente impossível deixar de perceber mais um desempenho extraordinário de Irons, dessa vez no filme "O reverso da fortuna". Na pele do milionário europeu Claus Von Bullow, julgado por tentativa de homicídio ao condenar sua esposa a um coma definitivo por overdose de insulina, o ator inglês toma partido de sua figura esguia e aristocrata para incorporar um personagem que, ao contrário do que dita o lugar-comum dos roteiros hollywoodianos, não deixa de lado em momento algum sua dubiedade e arrogância. Não à toa, conquistou, além do Golden Globe e do Oscar, os prêmios da Associação de Críticos de Los Angeles e da Sociedade Nacional de Críticos de Cinema, todos boquiabertos com a sutileza e a força de sua interpretação.

Longe de ser um típico herói - daqueles que a Academia adora louvar com suas douradas estatuetas - Claus Von Bullow é de um frieza assustadora, mesmo quando sua esposa, a sofisticada Sunny (Glenn Close, igualmente brilhante) cai vitimada por um segundo coma, praticamente um ano depois do primeiro: em ambos os casos, a causa é claramente debitada a seu uso exagerado de pílulas e medicamentos. Porém, a reincidência do pretenso acidente chama a atenção da velha empregada da família e do filho mais velho da milionária, que não demoram a acusar Claus, seu segundo marido, de tentativa de homicídio. Motivos ele tinha de sobra, especialmente depois de declarar suas intenções de divorciar-se para ficar com outra mulher. Condenado pela justiça, o réu procura o advogado Alan Derschowitz (Ron Silver) - famoso por estar envolvido na defesa de dois jovens negros destruídos pela opinião pública - para que, junto com seu grupo de alunos/assistentes, entre com um recurso para anular o veredicto negativo. Mesmo sabendo das poucas probabilidades de vitória, Derschowitz aceita o desafio... e passa a questionar de verdade a inocência de seu novo cliente.


Se a interpretação impecável de Jeremy Irons é o que mais chama a atenção do público à primeira vista - desafiando a todos a ficar o tempo todo em dúvida a respeito de sua inocência - muito se deve ao genial roteiro de Nicholas Kazan, baseado em livro escrito pelo próprio advogado de Von Bullow. Filho do veterano cineasta Elia, Nicholas também foi indicado ao Oscar por seu delicado trabalho, que mescla com impressionante equilíbrio vários estilos de narrativa sem perder o fio da meada. Ora contando a história pelo ponto de vista de Derschowitz, ora pelas palavras de Von Bullow, ora pela narração em off da própria Sunny - que acrescenta detalhes saborosos aos depoimentos do marido - o roteiro funciona como uma espécie de quebra-cabeças, com as peças juntando-se pouco a pouco para formar um painel que, mesmo completo, dá a impressão de nunca estar inteiramente correto. A opção de manter o final em aberto (ao menos em relação à culpabilidade do protagonista, uma vez que o caso foi extremamente popular à época, início dos anos 80) também é acertada, permitindo a Irons que jogue com todas as nuances de seu personagem, que vai do sedutor ao arrogante em questão de minutos, conforme pede o desenrolar da trama. Mas essa constante transformação do protagonista - e as idas e vindas do roteiro - não teriam o mesmo impacto sem a direção segura e inteligente de Barbet Schroeder.

Também finalista do Oscar por seu trabalho em "O reverso da fortuna", Schroeder conduz seu filme com a extrema elegância de seu protagonista, conduzindo o espectador a um mundo de luxo e glamour, mas que, no fundo, esconde um mar de hipocrisia, interesse e solidão. É quase palpável a maneira com que ele retrata Sunny Von Bullow como uma mulher infeliz e apática, que recorre a seus medicamentos como única forma de manter-se psicologicamente sã. Esse artifício - de retratá-la como uma possível suicida - também funciona perfeitamente, dando ao público todos os elementos disponíveis para que ele mesmo tire suas conclusões. Em meio a festas, discussões familiares e dólares a rodo, a plateia é testemunha de um universo onde pouco valor a dado a sentimentos, sempre eclipsados por interesses mais mundanos. De mãos dadas com o diretor (que nunca mais alcançaria o mesmo grau de qualidade em sua carreira irregular), ela sente-se segura em visitar os vastos cômodos da mansão Von Bullow para, como testemunha privilegiada, chegar a suas próprias conclusões. Sejam quais forem elas, no entanto, algo é unânime: a excelência do trabalho de Jeremy Irons, no papel que mais se utilizou de todo o seu potencial.

terça-feira

NÃO TENHO TROCO

NÃO TENHO TROCO (Quick change, 1990, Devoted Pictures, 89min) Direção: Howard Franklin, Bill Murray. Roteiro: Howard Franklin, romance de Jay Cronley. Fotografia: Michael Chapman. Montagem: Alan Heim. Música: Randy Edelman. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: David Gropman/Susan Bode. Produção executiva: Frederic Golchan. Produção: Robert Greenhut, Bill Murray. Elenco: Bill Murray, Geena Davis, Randy Quaid, Jason Robards, Tony Shalhoub. Estreia: 13/7/90

Uma dose de "Um dia de cão" (75), de Sidney Lumet. Pitadas da comédia juvenil "Uma noite de aventuras" (87), de Chris Columbus. E muito da paranoia bizarra de "Depois de horas" (85), de Martin Scorsese. Assim pode ser definida a comédia "Não tenho troco", estreia - e até hoje única experiência - do ator Bill Murray como diretor. Trabalhando em conjunto com o também cineasta Howard Franklin com base em um livro de Jay Cronley que já havia sido adaptado para o cinema em 1985 com Jean-Paul Belmondo e Kim Catrall nos papéis centrais, Murray demonstrou que, além de um ator superlativo e frequentemente subestimado ao ser limitado ao nicho do humor, é também capaz de destacar-se por trás das câmeras. Dotado de um ritmo invejável e de piadas inteligentes, "Não tenho troco" é um passatempo dos mais agradáveis, que tem no humor despretensioso a sua maior qualidade.


Murray brilha como sempre no papel principal desde a sequência de abertura, em que, vestido de palhaço - com direito a balões e tudo - atravessa Nova York de metrô até chegar a um banco prestes a encerrar suas atividades diárias. Logo que entra no local, ele anuncia um assalto, trancafia os clientes em um cofre e passa a negociar a libertação dos reféns com o chefe da polícia, o ambicioso Ratzinger (Jason Robards, comprando a brincadeira com extrema simpatia). Não demora muito, porém, para que o público perceba, antes de qualquer autoridade policial, que o plano do palhaço é bem mais simples do que exigir tratores e helicópteros. Enquanto todos tentam desesperadamente cumprir tudo que lhes é pedido, o assaltante, que se chama Grimm, já saiu do prédio com o dinheiro escondido nas roupas - nas suas e nas de dois cúmplices que estavam disfarçados de reféns: sua namorada Phyllis (Geena Davis) e seu melhor amigo, o inconsequente Loomis (Randy Quaid). E é justamente Loomis que, por acidente, atrapalha o plano perfeito do trio que se vê, a partir de então, em rota de fuga, tentando alcançar o aeroporto para sair do país.


As tentativas de Grimm, Phyllis e Loomis de fugir da polícia em uma Nova York noturna, cheia de personagens amalucados e uma sensação de perigo (amenizada pelo tom cômico do roteiro) preenche os dois terços finais do filme de Murray e Franklin. Povoada por personagens à beira do surreal - como um taxista estrangeiro incapaz de compreender a mais simples das ordens, interpretado por um então novato Tony Shalhoub - e de situações de deixar qualquer cidadão à beira do desespero, a trajetória do trio ainda é dificultada pelos problemas românticos entre Grimm e Phyllis, cujo relacionamento enfrenta (ainda que unilateralmente) uma encruzilhada que terá o poder de definir de vez seu desfecho. Enquanto isso, resta ao público divertir-se com suas confusões, torcer por seu sucesso e, de quebra, acompanhar algumas sequências que equilibram com maestria um senso de humor negro com um elenco em dias inspirados (em especial Geena Davis, que acumulava com graça um sucesso atrás do outro).

Pouco lembrado dentro da filmografia de Murray e Geena Davis, "Não tenho troco" é uma grata surpresa para quem procura comédias realmente engraçadas e um ótimo programa para quem deseja relembrar como Hollywood preferiu trocar o humor sutil pelas grosserias adolescentes que se tornariam quase uma praga na década seguinte. É ligeiro, é sem contra-indicações e deixa qualquer um sorrindo à toa.

segunda-feira

DICK TRACY

DICK TRACY (Dick Tracy, 1990, Touchstone Pictures, 105min) Direção: Warren Beatty. Roteiro: Jim Cash, Jack Epps Jr., personagem criado por Chester Gould. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Richard Marks. Música: Danny Elfman. Canções: Stephen Sondheim. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/Rick Simpson. Produção executiva: Art Linson, Floyd Mutrux, Barrie M. Osborne. Produção: Warren Beatty. Elenco: Warren Beatty, Al Pacino, Madonna, Glenne Headley, Charles Durning, Dustin Hoffman, William Forsythe, Mandy Patinkin, James Caan, Charlie Korsmo, Estelle Parsons, Kathy Bates. Estreia: 14/6/90

7 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Al Pacino), Fotografia, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Canção ("Sooner or later"), Maquiagem, Som
Vencedor de 3 Oscar: Canção ("Sooner or later"), Direção de Arte/Cenários, Maquiagem 

Depois que "Batman", dirigido por Tim Burton e estrelado por Michael Keaton e Jack Nicholson tomou o mundo de assalto em 1989, surpreendendo até mesmo as mais altas e megalômanas expectativas da Warner, ninguém duvidava que outros filmes de super-heróis das histórias em quadrinhos surgissem no horizonte, pegando carona no sucesso do homem-morcego. E nem demorou muito até que uma produção caprichada, sob os auspícios da Disney e comandada por um dos mais confiáveis homens da indústria dominasse as atenções: Dick Tracy, o detetive de queixo quadrado criado por Chester Gould em 1931, chegou às telas em pleno verão americano de 1990, dirigido, produzido e estrelado por Warren Beatty, na companhia de nomes de peso, como Al Pacino e Madonna (com quem o astro esteve envolvido durante as filmagens, como era de seu feitio). Com um custo estimado de 46 milhões de dólares, o filme pode não ter repetido o êxito da obra de Burton, mas com uma renda superior a 100 milhões somente no mercado doméstico (EUA e Canadá), não decepcionou nem o estúdio - que queria encher os bolsos - nem o público - que buscava entretenimento puro e simples.

A bem da verdade, apesar de seu roteiro frouxo - que mistura vários vilões criados por Gould em uma única trama - "Dick Tracy" pode ser considerado um passo à frente do Batman de Burton, que só conseguiria equilíbrio entre visão pessoal e comercial com sua sequência, "Batman, o retorno" (92). A começar por sua estupenda direção de arte (merecidamente premiada com o Oscar), a visão de Beatty dos quadrinhos de Gold se aproxima genialmente do original, anos antes que "Sin City, a cidade do pecado" (05) tornasse tão tênue a fronteira entre o cinema e os comic books. Colorido ao ponto de quase ferir os olhos, fotografado com precisão pelo veterano Vittorio Storaro (que também chegou a concorrer à estatueta da Academia) e com uma galeria de tipos recriados com um preciosismo fascinante pela maquiagem de John Caglione Jr. - que deixa atores conhecidos como Al Pacino e Dustin Hoffman irreconhecíveis atrás da maquiagem - o visual do filme é, sem dúvida, seu maior e mais saboroso atrativo. Mesmo que Warren Beatty tenha preferido (acertadamente) deixar de lado em sua caracterização o queixo proeminente que é a marca de Tracy, todo o resto é absolutamente apaixonante, feito com o objetivo claro de seduzir a audiência pela visão. Uma pena, porém, que o roteiro, com dito anteriormente, deixe muito a desejar.


Dick Tracy, o protagonista vivido por Beatty com seu habitual ar blasé, é o detetive mais corajoso de uma cidade cada vez mais dominada pelos gângsteres, que, depois de um desentendimento mais violento do que o normal, passam a ser liderados por Big Boy Caprice (Al Pacino, nitidamente se divertindo aos montes em um papel atípico que lhe deu uma indicação ao Oscar de coadjuvante no mesmo ano em que ele merecia uma lembrança na categoria principal por "O poderoso chefão, parte 3").  Incorruptível, Tracy tenta de todas as maneiras acabar com a festa de Caprice, inclusive tentando cooptar para seu lado a sensual Breathless Mahoney (Madonna), principal atração do night-club utilizado pelos bandidos como quartel-general. A aproximação entre o detetive e Mahoney - cujo comportamento ambíguo ao mesmo tempo o repele e seduz - passa a incomodar sua eterna namorada, a fiel e dedicada Tess Trueheart (Glenne Headley) e até o pequeno Kid (Charlie Korsmo), um menino de rua que o admira e que tem intenções de ser adotado por ele. Não bastasse tudo isso, Tracy ainda é preso, vítima de uma armadilha criminosa, e a cidade passa a ser ameaçada por um misterioso bandido sem rosto.

A superficialidade da trama de "Dick Tracy" de certa forma combina com o tom de entretenimento ligeiro proposto por Warren Beatty e companhia, mas não deixa de ser um balde de água fria naqueles que procuram no filme algo mais do que um simples passatempo inócuo. Além de ter um começo um tanto confuso, o roteiro não desenvolve a contento nenhum personagem - nem mesmo seu protagonista - deixando a plateia órfã daqueles sentimentos tão procurados em um blockbuster: a identificação com o herói e a torcida pela derrota do vilão. Aqui, tanto o Tracy de Beatty soa quase apático a maior parte do tempo quanto o Big Boy de Pacino - apesar da performance inspirada do ator - arranca no máximo gargalhadas. Nem mesmo a identidade do misterioso criminoso sem rosto chega a causar alguma reação, talvez por sua previsibilidade. Sobra para o deleite do público, então, o visual acachapante, a curiosidade de ver Madonna como atriz (e, apesar de genial artista sobre os palcos ela não chega a convencer no papel de Mahoney) e as belas canções do veterano compositor da Broadway Stephen Sondheim - uma delas, a balada "Sooner or later" também chegou a ser premiada com o Oscar. Para um filme com tantas ambições, é pouco.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...