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terça-feira

NOIVA EM FUGA


NOIVA EM FUGA (Runaway bride, 1999, Paramount Pictures/Touchstone Pictures, 116min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: Josann McGibbon, Sara Parriott. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Bruce Green. Música: James Newton Howard. Figurino: Edgar Pomeroy, Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Stephanie Carroll. Produção executiva: Gary Lucchesi, David Madden, Ted Tannembaum. Produção: Robert W. Cort, Ted Field, Scott Kroopf, Tom Rosenberg. Elenco: Julia Roberts, Richard Gere, Joan Cusack, Hector Elizondo, Rita Wilson, Christopher Melony, Donal Logue, Laurie Metcalf. Estreia: 30/7/99

Nove anos se passaram entre "Uma linda mulher" e "Noiva em fuga". Nesse meio tempo, Julia Roberts foi do céu (Globo de Ouro, indicação ao Oscar, salários milionários) ao inferno (vida sentimental atribulada, brigas com a imprensa, fracassos de bilheteria), e Richard Gere equilibrou (poucos) êxitos comerciais com uma boa quantidade de fiascos financeiros. A reunião da dupla era algo que os fãs - e principalmente os estúdios, ávidos por dólares - esperavam ansiosamente desde que a comédia romântica, dirigida por Garry Marshall, tornou-se um fenômeno na temporada 1990, e depois de várias tentativas infrutíferas (inclusive projetos sempre abortados de uma continuação), finalmente o público pode conferir se a química milionária ainda se mantinha e se o raio poderia cair duas vezes no mesmo lugar. A resposta para ambas as perguntas foi um sonoro "sim" - mais de 300 milhões de dólares de arrecadação mundial e críticas majoritariamente favoráveis. Mas por que, então, a impressão de que, no final das contas, ficou faltando alguma coisa?

Talvez o maior problema de "Noiva em fuga" seja a falta do frescor de "Uma linda mulher" - especialmente quanto ao desempenho de Julia Roberts, então em começo de carreira e sem as marcas (boas e ruins) de uma década de caminhada. Ou talvez o roteiro pouco inspirado e sem o glamour da Los Angeles sofisticada do filme de 1990. Quem sabe até mesmo o excesso de personagens secundários, que tira o foco dos protagonistas e deixa o ritmo menos enxuto. O fato é que o reencontro de um casais mais icônicos do cinema moderno não despertou as faíscas esperadas - mesmo porque nem sempre eles foram os atores idealizados para os papéis centrais. Nos dez anos que separam o começo de sua gestação e sua estreia, nomes como Mel Gibson, Harrison Ford, Michael Douglas e Ben Affleck foram sondados para viver o jornalista Ike Graham, enquanto Geena Davis, Sandra Bullock e Demi Moore chegaram perto de assumirem a independente Maggie Carpenter. Levando-se em consideração o quanto tais intérpretes são diferentes entre si, pode-se imaginar o quanto o roteiro mudou ou se adaptou nesse período - o que não chega a ser surpresa, uma vez que o próprio "Uma linda mulher" também sofreu alterações radicais antes de seu lançamento - e o quanto as presenças de Roberts e Gere são quase acidentais em uma trama sem maiores encantos além de suas presenças carismáticas.

 

Apesar do título dar destaque a Roberts, pode-se dizer que o personagem principal de "Noiva em fuga" é Ike Graham (Richard Gere), colunista de um grande jornal de Nova York que se vê demitido depois de publicar - sem checar a veracidade dos fatos - um texto a respeito de uma jovem do interior de Maryland conhecida na cidade por ter abandonado vários noivos no altar sem explicação nenhuma. Tentando provar que estava certo em sua história, Ike vai até a pequena cidade de Hale para testemunhar, em primeira mão, mais uma fuga da bela Maggie Carpenter (Julia Roberts) - cuja carta para seus editores foi a responsável por sua dispensa. Noiva pela quarta vez - agora do professor de Educação Física Bob Kelly (Christopher Meloni) - e decidida a honrar definitivamente seu compromisso (até como forma de desmentir Ike), Maggie a princípio hostiliza o repórter, que se aproxima de seus amigos e família, mas aos poucos vai se deixando conquistar por seu charme e sua lábia. Confiando nele - apesar de sua fama de ser pouco simpático ao sexo feminino -, a jovem e bela noiva torna-se não apenas objeto de uma possível nova matéria, mas também a mulher que pode enfim fazê-lo descobrir o amor. Apaixonada, ela fica dividida entre finalmente casar-se com quem não ama, ou assumir seus sentimentos e deixar que Ike fique com a razão sobre seu passado pouco invejável.

Apesar de apresentar momentos divertidos e algumas situações no mínimo agradáveis, "Noiva em fuga"  é um filme irregular. Nem tudo funciona como deveria (os personagens secundários muitas vezes ficam sem função alguma a não ser soltar piadas avulsas) e o clímax tampouco empolga - culpa talvez da falha em envolver o espectador no romance entre seus protagonistas. A aura apaixonada que cobria Gere e Roberts em "Uma linda mulher" simplesmente inexiste aqui, apesar da química manter-se intacta, e nos embates mais dramáticos entre eles fica evidente a fragilidade do roteiro e a direção pouco inspirada de Garry Marshall, que parece confiar tanto em seus atores que esquece de dar-lhes um bom material. No final das contas, é uma comédia romântica simpática, mas muito aquém do que se poderia esperar da união de um time cujo primeiro encontro deu origem a um dos mais queridos filmes de seu tempo.

 

sexta-feira

A FORÇA DO DESTINO

A FORÇA DO DESTINO (An officer and a gentleman, 1982, Paramount Pictures, 124min) Direção: Taylor Hackford. Roteiro: Douglas Day Stewart. Fotografia: Donald Thorin. Montagem: Peter Zinner. Música: Jack Nitzsche. Direção de arte/cenários: Philip M. Jefferies/James I. Berkey. Produção: Martin Elfand. Elenco: Richard Gere, Debra Winger, Louis Gosset Jr., David Keith, Robert Loggia, Lisa Blount, Tony Plana, David Caruso, Grace Zabriskie. Estreia: 28/7/82

6 indicações ao Oscar: Atriz (Debra Winger), Ator Coadjuvante (Louis Gosset Jr.), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção Original ("Up where we belong")
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Louis Gosset Jr.), Canção Original ("Up where we belong")
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Coadjuvante (Louis Gosset Jr.), Canção Original ("Up where we belong")

O filme que confirmou o status de Richard Gere como um dos maiores símbolos sexuais do cinema nos anos 80 - em um papel recusado por John Travolta e Kurt Russell e oferecido a Jeff Bridges, Dennis Quaid e Christopher Reeve -, que foi a terceira maior bilheteria do ano de 1982 nos EUA e que ganhou dois Oscar pode ter conquistado milhares de corações românticos pelo planeta, mas nem todo mundo envolvido com ele tem os mesmos sentimentos. Debra Winger, a estrela de "A força do destino", não tem as melhores lembranças da produção, dirigida por Taylor Hackford e que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz: não apenas porque foi obrigada por contrato a fazer cenas de nudez com as quais não concordava - e que deu dores de cabeça ao diretor junto à censura - mas também pelo fato de que não teve um tempo exatamente fácil durante as filmagens. Segundo o livro "An actor and a gentleman", autobiografia do ator Louis Gosset Jr., a relação entre Winger e Gere era pouco amigável - e o fato da atriz não ter sido a primeira escolha para o papel, por "não ser sexy o suficiente", em palavras do produtor Don Simpson, apenas aumentava o clima pouco amistoso nas filmagens.

Na verdade, o principal papel feminino de "A força do destino" acabou nas mãos de Winger por desistências múltiplas. Sigourney Weaver, Anjelica Huston e Jennifer Jason Leigh foram as primeiras convidadas pela produção - ainda que tenham pouco em comum entre si. Rebecca De Mornay, Meg Ryan e Geena Davis também foram testadas, e somente depois de todo esse processo o nome de Winger foi confirmado. Hoje é difícil imaginar outra intérprete para Paula Pokrifki - especialmente devido ao sucesso financeiro do filme, a maior bilheteria da carreira de Richard Gere até a explosão de "Uma linda mulher" (90) -, mas até que o filme estreasse, no verão americano de 1982, tudo era questionável nos bastidores, inclusive a bela canção-tema "Up where we belong", que, desprezada pelo produtor, foi mantida no filme por teimosia de Taylor Hackford e acabou ganhando um Oscar - além de ter atingido as paradas de sucesso do mundo inteiro. No final das contas, "A força do destino" é mais um perfeito exemplo de uma produção que tinha tudo para dar errado... mas deu extraordinariamente certo!


Realizado com um orçamento irrisório de estimados 7,5 milhões de dólares, "A força do destino" rendeu, apenas no mercado doméstico, quase 130 milhões, além de ter sido eleito um dos dez melhores filmes do ano pelos críticos do National Board of Review, ter concorrido ao Golden Globe de melhor drama (além das indicações a Gere e Winger) e sido indicado a seis Oscar - venceu em duas categorias: melhor canção e ator coadjuvante (Louis Gosset Jr.). Tanto reconhecimento lhe deu facilmente um lugar de honra entre os clássicos românticos da década de 80, além de estabelecer alguns dos clichês que se tornariam regras nos anos seguintes - em especial o militar durão e irascível que, criado por Louis Gosset Jr., nunca mais abandonou qualquer filme que se preze sobre o assunto. Premiado também com o Golden Globe de ator coadjuvante, Gosset Jr. rouba todas as cenas em que aparece, equilibrando com enorme competência o drama romântico que se desenrola à sua volta: não é por acaso que sua figura é uma das mais marcantes do filme, a despeito do carisma de Gere e do talento de Winger, os dois protagonistas de uma história de amor simples e eficaz.

Sem maiores arroubos de criatividade, "A força do destino" é uma produção correta e com um roteiro redondo, escrito por Douglas Day Stewart, indicado ao Oscar da categoria. O protagonista é Zack Mayo (Richard Gere), um jovem sem muito sentido de responsabilidade, criado com negligência pelo pai após o suicídio da mãe e que decide dar um rumo para a sua vida ao entrar em um rígido treinamento militar de treze semanas em uma base naval. É nesse lugar que ele finalmente vai conseguir formar laços: com o colega Sid Worley (David Keith), com o treinador quase sádico Emil Foley (Louis Gosset Jr.), e principalmente com Paula Pokrifki (Debra Winger), que trabalha em uma fábrica da região e que, apesar da personalidade forte, sonha em tornar-se a esposa de um oficial da marinha. Com esses poucos personagens, Stewart conta uma história de amor, honra, lealdade e segundas chances, sem apelar para o sentimentalismo barato ou para a violência desnecessária. Um degrau acima dos romances melodramáticos de sua geração, "A força do destino" resiste bravamente ao tempo - graças à química entre Gere e Winger, à bela trilha sonora e à interpretação antológica de Louis Gosset Jr.

sábado

PARA MAIORES

PARA MAIORES (Movie 43, 2013, Relativity Media, 94min) Direção: Elizabeth Banks, Steven Brill, Steve Carr, Rusty Candief, James Duffy, Griffin Dunne, Peter Farrelly, Patrik Forsberg, Will Graham, James Gunn, Brett Ratner, Jonathan van Tulleken. Roteiro: Rocky Russo, Jeremy Sosenko, Ricky Blitt, Bill O'Malley, Will Graham, Jack Kukoda, Matt Portenoy, Claes Kjellstrom, Jonas Wittenmark, Tobias Carlson, Will Carlough, Jonathan van Tulleken, Elizabeth Shapiro, Patrik Forsberg, Olle Sarri, Jacob Fleisher, Greg Pritkin, James Gunn. Fotografia: Mattian Anderssonn Rudh, Frank G. DeMarco, Steve Gainer, Matthew F. Leonetti, Daryn Okada, William Rexer, Eric Scherbarth, Newton Thomas Sigel, Tim Suhrstedt. Montagem: Debra Chiate, Patrick J. Don Vito, Suzy Elmiger, Mark Helfrich, Craig Herring, Myron I. Kerstein, Joe Randall-Cutler, Sam Seig, Cara Silverman, Sandy S. Solowitz, Jonathan van Tulleken, Hakan Warn, Paul Zucker. Música: Tyler Bates, Christophe Beck, Leo Birenberg, William Goodrum, Dave Hodge. Figurino: Anna Bingemann, Nancy Ceo, Roseanne Fiedler, Florence Kemper, Judianna Makovsky, Sydney Maresca, Salvador Pérez Jr.. Direção de arte/cenários: Toby Corbett, Jade Healy, Nolan Hooper, Robb Wilson King, Dina Lipton, Happy Massee, Arlan Jay Vetter, Inbal Weinberg/Jasmine E. Ballou, Robert Covelman, Andrea Mae Fenton, Isaac Gabaeff, Amber Haley, Jean Landry, Lance Lombardo, Jessica Panuccio, Halina Siwolop. Produção executiva: Ron Burkle, Jason Felts, Tucker Tooley, Tim Williams. Produção: Peter Farrelly, Ryan Kavanaugh, John Penotti, Charles B. Wessler. Elenco: Hugh Jackman, Kate Winslet, Liev Schreiber, Naomi Watts, Anna Faris, Chris Pratt, Kieran Culkin, Emma Stone, Richard Gere, Kate Bosworth, Justin Long, Jason Sudeikis, Uma Thurman, Bobby Cannavale, Kristen Bell, Christopher Mintz-Plasse, Chloe Grace Moretz, Gerard Butler, Sean William Scott, Johnny Knoxville, Halle Berry, Stephen Merchant, Terrence Howard, Elizabeth Banks, Josh Duhamel. Estreia: 25/01/13

A primeira pergunta que surge na cabeça do espectador enquanto sobem os créditos finais da comédia "Para maiores" é a tradicional em casos do tipo: "Por que diabos atores tão bons e tão consagrados aceitaram fazer essa porcaria?" De fato a lista de nomes envolvidos no projeto é de causar inveja a qualquer diretor de elenco de Hollywood - há desde indicados e vencedores do Oscar, como Hugh Jackman, Kate Winslet e Halle Berry, até astros em franca ascensão, como Emma Stone, Chris Pratt e Chloe Grace Moretz - especialmente se for levado em consideração que o orçamento total não ultrapassou os seis milhões de dólares, o que normalmente não paga nem um terço do cachê de alguns dos atores escalados. Mas a gritaria quase unânime contra o filme - apedrejado sem dó nem piedade por crítica e público - não deixa de ser um tanto quanto exagerada. Ok, o humor de alguns quadros está realmente no limite do bom-gosto e nem sempre funciona como poderia. Tudo bem, a história que os liga é pífia e em muitos momentos tem-se a nítida impressão de que o roteiro foi escrito por um grupo de adolescentes escatológicos no auge da puberdade. Mas outros grandes sucessos de bilheteria também não eram exatamente assim? Não é à toa que um dos roteiristas e diretores do filme seja Peter Farrelly - um dos irmãos responsáveis por "Debi & Loide", que, apesar de ter o mesmo tipo de humor, serviu de trampolim milionário para a carreira de Jim Carrey.

Talvez o maior estranhamento em relação à "Para maiores" seja justamente o fato de contar com atores de prestígio e respeito se prestando a situações constrangedoras normalmente relegadas a elencos de segundo ou terceiro escalões. Não é sempre que se vê Hugh Jackman interpretando um homem com os testículos localizados no queixo ou Halle Berry fazendo guacamole com um seio. Sim, é esse o nível de humor do filme, que usa e abusa do politicamente incorreto e de algumas piadas francamente ofensivas para conquistar as gargalhadas da audiência. De acordo com a bilheteria - pouco mais de 8 milhões em casa, cerca de 23 no mercado internacional - nem todo mundo entendeu (ou quis entender) a brincadeira. O estigma de humor pouco sofisticado pesou mais do que o elenco milionário, mas não é difícil de imaginar que, deixando o preconceito de lado (junto com qualquer tipo de suscetibilidade), o público possa ter alguns bons momentos de diversão, mesmo que jamais assuma isso diante dos outros.

Quem quiser encarar o desafio de experimentar a brincadeira quase insana que é "Para maiores" tem que se preparar para quase tudo. Literalmente. Tudo começa quando dois adolescentes, em busca de vingança contra um amigo nerd, falam a ele sobre a existência de um filme maldito, proibido em todos os países do mundo e que só pode ser localizado no submundo da Internet. Tal premissa - boba como convém - serve como elo de ligação entre todos os esquetes da produção, que fazem as vezes de alguns dos filmes encontrados durante a procura dos jovens. A partir daí é bobagem atrás de bobagem, com níveis variáveis de graça e escatologia. Se não, vejamos: no primeiro encontro com um solteirão cobiçadíssimo (Hugh Jackman), uma mulher (Kate Winslet) descobre que ele tem uma particularidade física desconcertante; Naomi Watts e Liev Schreiber (casados na vida real) contam a um casal de amigos como fazem para fazer de seu lar o ambiente escolar ideal para o filho adolescente que estuda em casa; às vésperas de pedir sua namorada (Anna Faris) em casamento, rapaz (Chris Pratt, casado com Faris também atrás das câmeras) se surpreende com uma proposta pouco usual da moça para apimentar suas relações sexuais; caixa de um supermercado (Kieran Culkin) reencontra a namorada (Emma Stone) e resolve por a relação em pratos limpos esquecendo de desligar o microfone e faz todos os clientes de testemunhas de suas palavras pouco sutis.


A sessão de humor descompromissado segue adiante mostrando uma reunião de acionistas de um IPod em forma de boneca que vem mutilando os pênis dos usuários adolescentes e que encontra no diretor da empresa (Richard Gere) um empecilho para as mudanças necessárias solicitadas por uma colega do sexo oposto (Kate Bosworth); Justin Long aparece como Robin, que frequenta uma sessão de encontros-relâmpagos e dá de cara com Lois Lane (Uma Thurman), a Supergirl (Kristen Bell), o Batman (Jason Sudeikis) e o Superman (Bobby Cannavale); Chloe Grace Moretz é uma adolescente que tem a primeira menstruação na casa do namorado e, desesperada, não consegue a ajuda dele e do cunhado (Christopher Mintz-Plasse) para resolver o problema; para limpar a barra com o melhor amigo (Sean William Scott), Johnny Knoxville lhe dá de presente um duende irlandês desbocado e violento (Gerard Butler), o que irá lhes causar grandes dores de cabeça (e em outras partes do corpo); Halle Berry e Stephen Merchant se encontram às cegas e iniciam uma brincadeira de "Verdade ou desafio" que logo descamba para consequências impensáveis; Terrence Howard é um treinador de basquete dos anos 50 que tenta convencer seus atletas negros que eles tem possibilidade de vencer os rivais brancos somente porque são negros; e Elizabeth Banks (diretora do esquete estrelado por Chloe Grace Moretz) tenta, no último quadro, convencer seu noivo (Josh Duhamell) que o gato que ele trata como filho a odeia e nutre por ele sentimentos pouco fraternais e muito sexuais.

É de frequente mau-gosto? Sim. É ofensivo e por vezes inacreditável? Também. Mas "Para maiores" atinge plenamente seu objetivo de jogar para o alto o politicamente correto que vem minando a comédia no cinema e fazer rir, mesmo que de nervoso. Como cinema - em termos técnicos e narrativos - é uma nulidade, mas sua coragem em nadar contra a corrente merece ser louvada até mesmo por todos aqueles que rejeitam ferozmente seu resultado final. Não é uma comédia para todo mundo - pode-se até dizer que é para poucos, em um extremo oposto à sofisticação de Woody Allen, por exemplo - mas pode encontrar seu público, desde que este esteja disposto a mergulhar sem medo na baixaria explícita de um filme que jamais se leva a sério. Questão apenas de querer se arriscar!

segunda-feira

E A VIDA CONTINUA

E A VIDA CONTINUA (And the band played on, 1993, HBO Pictures/Spelling Entertainment, 141min) Direção: Roger Spottiswoode. Roteiro: Arnold Schulman, livro de Randy Shilts. Fotografia: Paul Elliott. Montagem: Lois Freeman-Fox. Música: Carter Burwell. Figurino: Patti Callicott. Direção de arte/cenários: Victoria Paul/Diana Allen Williams. Produção executiva: Aaron Spelling, E. Duke Vincent. Produção: Sarah Pillsbury, Midge Sanford. Elenco: Matthew Modine, Ian McKellen, Glenne Headly, Richard Gere, Anjelica Huston, Alan Alda, Charles Martin Smith, Phil Collins, Nathalie Baye, Richard Jenkins, Saul Rubinek, Donal Logue, Patrick Bauchau, Steve Martin, Swoozie Kurtz, Tchéky Karyo. Estreia: 11/9/93

Em 1989, o filme "Meu querido companheiro", de Norman René, já mostrava, através de um grupo de amigos de Nova York, o estrago que o vírus da AIDS fez junto à comunidade homossexual americana em seus primórdios, quando ainda era conhecido apenas como o "câncer gay". Com enfoque humanista e emocional, o filme deu a Bruce Davison uma indicação ao Oscar de coadjuvante e tornou-se o primeiro filme ianque a tratar abertamente do assunto - não por acaso, era uma produção independente, já que os grandes estúdios de Hollywood evitavam o tema como se fosse uma doença contagiosa (ops...).Foi somente com "Filadélfia", de Jonathan Demme, que os grandes orçamentos e astros bancáveis começaram a demonstrar um interesse que acabou, com o tempo, tornando-se o caminho fácil para o Oscar - que o diga Tom Hanks, Matthew McConaughey e Jared Leto. No mesmo ano em que o filme de Demme foi lançado, porém, outra produção fora dos limites do cinema comercial americano tocou no tema, de forma séria, pontual e quase didática. Baseado em um livro de Randy Shilts que narrava a odisseia dos médicos americanos e franceses em entender e combater uma doença cuja origem e desenvolvimento ainda eram grandes incógnitas, "E a vida continua" estreou no canal a cabo HBO em setembro de 1993 apresentando um elenco de rostos conhecidos e um capricho que, anos depois, se tornaria a marca registrada da emissora.

Com a longa duração de 141 minutos - sendo que os finais são dedicados a uma montagem com imagens de vítimas famosas (ou não) da doença sob a voz de Elton John cantando a bela "The last song" - "E a vida continua" evita o sentimentalismo ao tratar do assunto de forma quase jornalística, centrando seu foco em Don Francis (Matthew Modine, indicado ao Golden Globe por seu desempenho), um jovem médico infectologista que tenta, junto à equipe do Centro de Controle de Doenças de Atlanta, desvendar o que está causando a morte de dezenas de homossexuais masculinos, que perdem a imunidade repentinamente e morrem devido a doenças oportunistas. Sem o apoio do governo - que parece não se importar com o fato de que uma epidemia está em vias de acontecer - e nem mesmo dos próprios gays (que se recusam a mudar seu estilo de vida por considerarem tal ato um retrocesso a seus direitos civis), o grupo de médicos parte em busca da ajuda de profissionais franceses, como o competente Luc Montagnier (Patrick Buchau) - que entra em confronto direto com outro americano, Robert Gallo (Alan Alda), o primeiro médico a descobrir um retrovírus e que pretende ficar com o mérito de também ter descoberto o vírus da nova doença.


Mostrando passo a passo a evolução tanto da epidemia quanto das conquistas médicas, o filme de Roger Spottiswoode - diretor burocrático mas pouco ousado que já havia tentado arrancar graça de Sylvester Stallone em "Pare, senão mamãe atira!", em 1992 - segue no rumo oposto a "Meu querido companheiro", preferindo dedicar sua atenção na batalha incansável travada pela Medicina do que em suas vítimas e nos efeitos arrasadores da epidemia junto à população homossexual. Enquanto Francis luta por financiamento, por ajuda do governo e pelo apoio do próprio grupo de risco, o filme desenha sem maior ênfase o destino de alguns pacientes, como o comissário de voo promíscuo (Jeffret Nordling) que ajuda os médicos a encontrarem uma trilha de contaminação, o jovem símbolo da doença (Donal Logue) que luta para chamar a atenção da população e o coreógrafo famoso (Richard Gere) que se descobre doente e faz uma generosa doação para as pesquisas. A presença de Gere no elenco, aliás, é um dos pontos de destaque do filme. Um dos mais populares astros da década de 90 - vindo de sucessos como "Justiça cega" e "Uma linda mulher" - Gere entrou no projeto por acreditar em sua importância social e sua atitude resultou em uma corrida desenfreada de atores querendo fazer parte da empreitada, mesmo que em papéis pequenos.

Foi assim que Anjelica Huston, Steve Martin, Ian McKellen e Alan Alda embarcaram em "E a vida continua", um filme de importância política e social inegável e que lançou luz a um tema até então considerado impróprio e desagradável para o grande público - e para a presidência do país, uma vez que foi preciso mais de uma década desde a primeira morte para que Ronald Reagan fizesse sua primeira menção à epidemia. De lá pra cá o cinema e a televisão vem explorando o assunto em produções de qualidades variadas - inclusive a mesma HBO lançou, em 2014, o sensacional "The normal heart", que dramatiza o mesmo período histórico sob um ponto de vista mais dramático e menos técnico - mas isso não lhe tira o mérito do pioneirismo.

sábado

JUSTIÇA CEGA

JUSTIÇA CEGA (Internal affairs, 1990, Paramount Pictures, 115min) Direção: Mike Figgis. Roteiro: Henry Bean. Fotografia: John A. Alonzo. Montagem: Robert Estrin. Música: Brian Banks, Mike Figgis, Anthony Marinelli. Figurino: Rudy Dillon. Direção de arte/cenários: Waldemar Kalinowski/Florence Fellman. Produção executiva: Pierre David, René Malo. Produção: Frank Mancuso Jr.. Elenco: Richard Gere, Andy Garcia, Nancy Travis, Laurie Metcalf, William Baldwin, Annabella Sciorra, Richard Bradford, Michael Beach, John Kapelos, Xander Berkeley. Estreia: 12/01/90

O ano de 1990 foi particularmente feliz para os atores Andy Garcia e Richard Gere. O ator cubano, que já havia sido notado como um dos intocáveis de Brian DePalma e foi o parceiro de Michael Douglas em "Chuva negra" (89), de Ridley Scott, arrancou elogios rasgados e uma indicação ao Oscar de coadjuvante por seu desempenho como o sobrinho bastardo de Michael Corleone (Al Pacino) em "O poderoso chefão, parte 3". E Gere, que havia estreado no cinema no final dos anos 70, se tornado símbolo sexual graças a filmes como "Gigolô americano" (80) e entrado em um período de estagnação na carreira, voltou a brilhar intensamente como par romântico de uma bela prostituta (Julia Roberts) sob a visão Disney no megassucesso "Uma linda mulher". Além disso, ambos lideraram o elenco de "Justiça cega", um thriller policial brilhante, dirigido pelo independente Mike Figgis e que remetia diretamente aos exemplares do gênero realizados por Hollywood na década de 70 - obras mais cerebrais que tiravam partido do estado de paranoia pós-Nixon. Inesperado sucesso de crítica, o filme praticamente deu aos dois atores as chances de que precisavam para serem notados (ou redescobertos) pelo grande público.

Mike Figgis - o diretor que cinco anos mais tarde concorreria ao Oscar da categoria pelo deprimente "Despedida em Las Vegas" - constroi, com base no roteiro enxuto e conciso de Henry Bean, um excitante jogo de gato e rato entre dois policiais de Los Angeles que são postos em lados opostos em uma investigação de corrupção na força. Como integrante da Comissão de Assuntos Internos da polícia, o novato Raymond Avila (Andy Garcia) se vê às voltas com uma série de irregularidades relacionadas ao veterano Dennis Peck (Richard Gere) - sem saber que, além de corrupto, ele é também responsável por armar cenas de crimes para justificar sua violência latente, manipular seu antigo parceiro Van Stretch (William Baldwin) e pular da cama da esposa para a da ex-mulher e até para a fragilizada companheira de seu colega. Com a ajuda da parceira Amy Wallace (Laurie Metcalf), Avila aos poucos começa a desbaratar a quadrilha liderada por Peck, que, sentindo-se acuado, apela para os sentimentos latinos e viris de Avila, insinuando um caso com sua mulher, Kathleen (Nancy Travis).


Assumindo um papel recusado por Kurt Russell e Mel Gibson, Richard Gere poucas vezes esteve tão bem nas telas. Bem dirigido por Figgis - que soube usar em seu favor as limitações de Gere como intérprete, mantendo sempre uma aura de mistério e perigo ao redor de seu personagem - o ator, que vinha de uma sucessão de fracassos de bilheteria, mostrou-se digno da confiança depositada nele, entregando uma performance que, se não é digna de um Oscar, ao menos enfrenta de igual pra igual o vulcão sempre em vias de erupção que é o volátil personagem de Garcia. O cineasta também não deixa de aproveitar o status de símbolo sexual de Gere, dando a ele a oportunidade de desfilar o charme cafajeste que lhe deu fama - sem, no entanto, deixar que essa face da personalidade de Peck assuma a protagonização do filme até que seja a mola-mestra do conflito entre os dois policiais. E é justamente quando isso acontece que "Justiça cega" fica ainda mais empolgante.

O terço final do filme, quando Avila passa a desconfiar de um romance entre sua esposa e Peck, é o ponto alto da trama, talvez porque é o momento em que Andy Garcia tem mais chances de mostrar o quão talentoso ele é. Aproveitando que sua relação com Gere durante as filmagens não foram das mais amistosas, Garcia explode em cena, explorando o sangue quente de sua origem cubana em cenas repletas de uma tensão que apenas acrescenta ao filme: é genial, por exemplo, quando ele confronta Kathleen em um restaurante lotado e passa a ofender-lhe em espanhol (ideia do próprio ator muito bem aceita por Mike Figgis). Sua mente torturada por imagens entre sua esposa e Peck em tórridos momentos é que acaba por levá-lo a um confronto sangrento, que só não é ainda melhor pela necessidade quase irresistível do cinema americano policial de terminar suas histórias de maneira um tanto quase previsível. Mesmo assim, tudo é mantido em um nível de tensão superior a qualquer congênere. Vale mais do que uma espiada. Vale aplaudir o duelo entre Gere e Garcia, dois nomes que no início dos anos 90 pareciam ter todos os apetrechos para dominar a década.

segunda-feira

À PROCURA DE MR. GOODBAR

À PROCURA DE MR. GOODBAR (Looking for Mr. Goodbar, 1977, Paramount Pictures, 136min) Direção: Richard Brooks. Roteiro: Richard Brooks, romance de Judith Rossner. Fotografia: William A. Fraker. Montagem: George Greenville. Música: Artie Kane. Direção de arte/cenários: Edward Carfagno/Ruby Levitt. Produção: Freddie Fields. Elenco: Diane Keaton, Tuesday Weld, Richard Gere, William Atherton, Richard Kiley, Tom Berenger. Estreia: 19/10/77

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Tuesday Weld), Fotografia

Theresa Dunn é uma jovem professora de ensino fundamental para crianças surdas-mudas. Católica, filha de pais rígidos e torturada por um passado metida em hospitais devido a uma escoliose que mantém sua auto-estima em níveis bastante baixos para quem é tão inteligente e atraente, ela começa uma vida dupla depois do fim traumático do relacionamento com um professor casado: de dia, é uma dedicada mestra, que luta por melhores condições para seus alunos carentes; à noite, frequenta bares de solteiros, consome drogas e se envolve com homens desconhecidos, a quem leva para seu apartamento em busca de prazer efêmero. O que a leva a essa dualidade é sua extrema solidão e tendência à auto-destruição, disfarçadas por uma aparência saudável e acima de qualquer suspeita.

Theresa Dunn é a protagonista de "À procura de Mr. Goodbar", que chegou às telas americanas em 1977 baseado no romance de mesmo nome de Judith Rossner - por sua vez inspirado na história real de Roseann Quinn, também uma professora do primário cuja vida errante e fora dos padrões de moralidade vigentes à classe média norte-americana nos anos 70 a levou a um beco sem saída de violência e desespero. Interpretada magistralmente por uma Diane Keaton no auge da carreira - ela levou o Oscar no mesmo ano por um papel mais palatável ao gosto da Academia em "Noivo neurótico, noiva nervosa" - Theresa é uma personagem complexa, forte e repleta de nuances, que só mesmo uma atriz do porte de Keaton conseguiria atingir. Entregue a ousadas cenas de sexo - em especial se for levado em conta o ano de produção - a ex-musa de Woody Allen também brilha em momentos dramáticos, em especial em seus confrontos com a família cristã e com o amante viciado em drogas vivido por um iniciante e sempre canastrão Richard Gere.


Dirigido por Richard Brooks - que já havia demonstrado seu gosto por falar de sexo em "Gata em teto de zinco quente" (58) - depois que nomes consagrados como Roman Polanski, Mike Nichols e Sydney Pollack recusaram a oferta, "À procura de Mr. Goodbar" leva a audiência junto com a protagonista a uma constante e febril busca pelo paraíso artificial do sexo casual, em bares enfumaçados, em banheiros públicos onde se consegue qualquer tipo de droga, em boates gays e até mesmo em orgias domésticas (sua irmã, vivida pela indicada ao Oscar Tuesday Weld tampouco é um exemplo de decência e retidão moral), tudo fotografado com precisão por William A. Frakes - também indicado ao Oscar. A edição fragmentada de George Greenville serve com perfeição para mostrar o universo dicotômico da vida de Theresa, intercalando as cenas pacíficas e solares de sua vida profissional com a claustrofobia da vida noturna, que oferece tanto orgasmos fugazes quanto grandes perigos, escondidos em sorrisos fotogênicos.

A descida de Theresa Dunn rumo ao inferno dos encontros casuais, regados à droga e violência, pode parecer um tanto moralista em seu final, mas Richard Brooks não é um cineasta inclinado a sentenças definitivas, haja visto ter conseguido encontrar alma até mesmo nos assassinos de sua obra-prima "À sangue-frio" (67). O olhar que lança sobre a trajetória de sua protagonista é além de qualquer julgamento, quase documental em sua objetividade de mostrar a vida como ela é. Os lances de alívio - como as cenas em que Theresa imagina situações que fogem de sua realidade - servem como contrapeso para uma história por si só triste, forte e angustiante o bastante para prescindir de artifícios desnecessários. É tenso. É pesado. Mas é um grande filme, infelizmente nunca lançado em DVD.

quarta-feira

NOITES DE TORMENTA

NOITES DE TORMENTA (Nights in Rodanthe, 2008, Warner Bros, 97min) Direção: George C. Wolfe. Roteiro: Ann Peacock, John Romano, romance de Nicholas Sparks. Fotografia: Affonso Beato. Montagem: Brian A. Kates. Música: Jeanine Tesori. Figurino: Victoria Farrell. Direção de arte/cenários: Patrizia von Brandenstein/James Edward Ferrell Jr. Produção executiva: Bruce Berman, Doug Claybourne, Dana Goldberg, Alison Greenspan. Produção: Denise Di Novi. Elenco: Richard Gere, Diane Lane, Christopher Meloni, Viola Davis, Scott Glenn, James Franco. Estreia: 26/9/08

Um dos mais populares escritores românticos americanos, Nicholas Sparks nem se dá ao trabalho de mudar a fórmula de seus livros, alterando, quando muito, a faixa etária de seus protagonistas - ou, no caso de "Diário de uma paixão", alternar duas tramas paralelas com casais de gerações diferentes. Seguindo a linha de suas narrativas mais maduras, o drama "Noites de tormenta" reune a dupla Richard Gere e Diane Lane (do polêmico "Infidelidade") em mais um romance açucarado e previsível - que, no entanto, é valorizado pela presença carismática da dupla, que consegue dar dignidade até mesmo ao amontoado de clichês dos quais a direção inexperiente de George C. Wolfe - acostumado com especiais de televisão - não se desvia.

A trama de Sparks já começa com um clichê básico: Adrienne Willis (Diane Lane, boa atriz relegada aos mesmos personagens desde que foi indicada ao Oscar por "Infidelidade") é uma mulher separada que recebe do ex-marido (Christopher Meloni, da série "Oz") a proposta de uma reconciliação justamente quando está saindo em viagem para cuidar da pousada de uma amiga (Viola Davis), que vai tirar um fim-de-semana de folga com o namorado. Isolada na pousada - que fica em uma idílica cidade litorânea da Carolina do Norte - Adrienne tem a companhia apenas de um único hóspede, o médico Paul Flanner (Richard Gere, canastrão como sempre, mas incapaz de decepcionar às fãs mais ardorosas), que está na cidade com o objetivo de desculpar-se com o viúvo de uma antiga paciente, que morreu em suas mãos. Não é preciso ser gênio para adivinhar que os dois irão começar a se entender maravilhosamente, irão se apaixonar e, depois que precisarem retomar suas vidas, o destino irá aprontar das suas.


Apesar de seguir completamente as regras do jogo de Sparks - que incluem cenários de sonho, romances proibidos, finais lacrimosos e personagens sem muita profundidade dramática - "Noites de tormenta" não chega a ofender os neurônios da plateia, oferecendo exatamente o que ela procura. Não interessa aos fãs da obra do autor nenhum tipo de elocubração psicológica ou complexidade narrativa, o que faz com que os filmes baseados nela sejam sistematicamente planos e quase maniqueístas. Esse detalhe, porém, não deve incomodar à audiência, que não deixa de inundar as salas de exibição com lágrimas sentidas - ainda que a bilheteria de "Noites de tormenta" não tenha sido o estouro esperado.

Em resumo, "Noites de tormenta" é um veículo para Lane e Gere desfilarem seu charme em um cenário interessante e presentearem seus fãs com personagens feitos sob medida para duas horas de entretenimento sem compromisso. Não é bom, mas passa longe de ser ruim.

sexta-feira

CHICAGO

CHICAGO (Chicago, 2002, Miramax Films, 113min) Direção: Rob Marshall. Roteiro: Bill Condon, peça teatral de Maurine Dallas Watkins, músicas de Bob Fosse, Fred Ebb. Fotografia: Dion Beebe. Montagem: Martin Walsh. Música: Danny Elfman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: John Myhre/Gord Sim. Produção executiva: Jennifer Berman, Sam Crothers, Julia Goldstein, Neil Meron, Meryl Poster, Bob Weinstein, Harvey Weinstein, Craig Zadan. Produção: Martin Richards. Elenco: Renée Zellweger, Richard Gere, Catherine Zeta-Jones, John C. Reilly, Queen Latifah, Colm Feore, Taye Diggs, Dominic West, Christine Baranski, Lucy Liu. Estreia: 27/12/02

13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Rob Marshall), Atriz (Renée Zellweger), Ator Coadjuvante (John C. Reilly), Atriz Coadjuvante (Queen Latifah, Catherine Zeta-Jones), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Canção ("I move on"), Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 6 Oscar: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Catherine Zeta-Jones), Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Comédia/Musical (Richard Gere), Atriz Comédia/Musical (Renée Zellweger)
Vencedor de 3 Screen Actors Guild Awards: Atriz (Renée Zellweger), Atriz Coadjuvante (Catherine Zeta-Jones), Melhor Elenco

O "Chicago" que todo mundo conhece e admira, vencedor de 6 Oscar e o maior sucesso de bilheteria da história da Miramax poderia ter sido bem diferente. Alvo do interesse dos estúdios hollywoodianos desde sua estreia nos palcos da Broadway em 1975, o musical - que chegou aos cinemas dirigido com energia e criatividade por Rob Marshall, cujo currículo tinha de marcante somente uma versão para a TV do chatinho "Annie" - demorou quase três décadas para fazer a transição dos palcos para as telas, e entre as intenções e a realização muita coisa mudou. Entre Bob Fosse (que dirigiu e coreografou a versão teatral da trama em sua estreia) e Marshall (que efetivamente comandou o espetáculo de 2002) até mesmo Nicholas Hytner esteve interessado em dirigir e na lista de atores que estiveram envolvidos com o projeto, em um momento ou outro da produção, estão nomes como Madonna, Goldie Hawn, Kathy Bates, Nicole Kidman, Charlize Theron, Cameron Diaz, Whoopi Goldberg, Hugh Jackman, Frank Sinatra, Liza Minnelli, Toni Collette, Marisa Tomei, Gwyneth Paltrow, Winona Ryder e até (ufa!) Britney Spears. Como às vezes o tempo é uma bênção, é impossível não se deixar conquistar pelo elenco que finalmente assumiu os papéis criados por Maurine Dallas Watkins e adaptados pelo ótimo Bill Condon.

A trama de "Chicago" se passa nos anos 20, quando o teatro de vaudeville estava em seu auge. Ser uma estrela dos palcos é o sonho maior de Roxie Hart (Renee Zelwegger), que, no entanto, precisa levar uma vida sem sal de dona-de-casa ao lado do marido, o mecânico Amos (John C. Reilly). Quando ela conhece o sedutor Fred Casely (Dominic West) sua sorte parece estar começando a mudar: porém, ao contrário das promessas que o rapaz faz (de que vai apresentá-la às pessoas certas no show business) ele quer apenas levá-la pra cama. Quando ela descobre isso, não vê outra alternativa senão matá-lo. Na cadeia, ela conhece seu maior ídolo, a atriz Velma Kelly (Catherine Zeta-Jones), que aguarda julgamento pelo assassinato duplo de sua irmã e seu amante. Para escapar da condenação à forca, Roxie contrata (com o financiamento do pobre marido) o famoso e competente Billy Flynn (Richard Gere), que também defende Velma. As duas passam, então, a disputar a atenção do advogado e as manchetes dos jornais.



Talvez a maior qualidade de "Chicago" seja mesmo seu roteiro: Bill Condon (que dirigiu o sensacional "Deuses e monstros", de 1998) consegue o feito raro de manter o tom irônico de suas primeiras cenas até os créditos de encerramento, sempre entregando à plateia diálogos inteligentes e sarcásticos, seja em falas ou canções, todas elas absolutamente bem encaixadas na história, por si só interessante o bastante. A química entre as duas protagonistas (ambas indicadas ao Oscar, mas apenas Zeta-Jones premiada, de forma um tanto estranha, como coadjuvante) é extraordinária e é perceptível sua entrega ao trabalho. Todos os belos números musicais são dirigidos com extrema competência por Marshall e belissimamente fotografados por Dion Beebe, que dá uma atmosfera de sonho a todos eles. A ideia genial do cineasta - e que deu rumo à adaptação para o cinema - foi fazer com que todos os números sejam originários da imaginação fértil de Roxie, que, assim vê a carcereira Mamma Morton (Queen Latifah, ótima) como uma sofisticada crooner e a execução de uma companheira de prisão como uma apresentação de mágica. É particularmente feliz a ideia de Marshall conduzir a entrevista coletiva de Roxie e Billy como se ela fosse um títere (e a execução da cena é, no mínimo, antológica).

Beneficiando-se do sucesso de "Moulin Rouge" - cujos elogios e popularidade abriu as portas para que novos musicais pudessem ser produzidos pela terra do cinema - "Chicago" conquista principalmente por não ousar demais como o filme de Baz Luhrmann. É um filme claramente moderno, mas com uma linguagem tradicional, que peca apenas por não surpreender em termos estilísticos. Rob Marshall segue à risca a cartilha de Bob Fosse, com coreografias excepcionais e um apurado visual, brincando muito mais com as pequenas ironias que cercam suas personagens do que com o gênero em si, como fez o filme estrelado por Nicole Kidman e Ewan McGregor. Proporciona brilhantes momentos-solos a seus atores (John C. Reilly deita e rola com "Mr.Cellophane" mas Richard Gere mostra sua fragilidade artística com "Razzle Dazzle") e revela em Marshall um cineasta atento aos detalhes e às sutilezas de um projeto tão ambicioso. E além de tudo - e o que é ainda melhor - diverte sem tratar a audiência como débil mental.

Muita gente torceu o nariz para o generoso número de Oscar para "Chicago" - em especial os fãs de seus rivais na briga pela estatueta "As horas" e "Gangues de Nova York". Mas é inegável que é um trabalho de primeira grandeza, realizado com um talento incomum e que remete aos bons tempos de uma Hollywood glamourosa e que tinha no entretenimento sua principal preocupação.

quinta-feira

INFIDELIDADE

INFIDELIDADE (Unfaithful, 2002, Fox 2000 Pictures, 112min) Direção: Adrian Lyne. Roteiro: Alvin Sargent, William Broyles Jr., roteiro original de Claude Chabrol. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: Anne V. Coates. Música: Jan A.P. Kaczmarek. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Brian Morris/Susan Tyson. Produção executiva: Lawrence Steven Meyers, Arnon Milchan, Pierre-Richard Muller. Produção: G. Mac Brown, Adrian Lyne. Elenco: Richard Gere, Diane Lane, Olivier Martinez, Chad Lowe, Erik Per Sullivan, Michelle Monaghan, Myra Lucretia Taylor. Estreia: 10/5/02

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Diane Lane)

Em 1986 o cineasta inglês Adrian Lyne inspirou centenas de casais mundo afora com as tórridas fantasias retratadas no cult "9 1/2 semanas de amor". No ano seguinte, apavorou homens casados e foi indicado ao Oscar por "Atração fatal" e em 1993 aproveitou o auge da beleza de Demi Moore para provocar polêmica com "Proposta indecente". Utilizando mais uma vez seus ingredientes "infalíveis" ele voltou à a baila com "Infidelidade", que mistura a sensualidade de "9 1/2" com a temática adulta de "Atração" e a controvérsia de "Proposta". O resultado é um filme que não se decide entre o drama, o erotismo e o suspense e que tem como maior trunfo a atuação irrepreensível de Diane Lane.

Lane mereceu uma surpreendente indicação ao Oscar por seu trabalho como Connie Sumner, uma dona-de-casa que leva uma vida tranquila e sem maiores sobressaltos em um subúrbio de Nova York, ao lado do marido, Edward (Richard Gere no atípico papel de marido sem sex-appeal) e do filho pequeno. Em uma tarde como outra qualquer em Manhattan, durante uma ventania ela esbarra no sexy Paul Martel (o inexpressivo francês Olivier Martinez), um comerciante de livros usados e vai pra casa dele cuidar de um ferimento no joelho. Intrigada com o rapaz, logo ela passa a encontrar-se regularmente com ele, iniciando um quente e passional relacionamento extra-conjugal. Em breve a relação começa a atrapalhar a rotina de Connie e despertar a suspeita do marido, que, desconfiado, contrata um detetive para seguir a mulher. Quando a verdade vem à tona, uma tragédia transforma a vida de todos.


O problema maior de "Infidelidade" é justamente sua falta de foco. O que parecia um drama familiar - casal sendo obrigado a lidar com a falta de novidades e uma traição - logo transforma-se em um romance com um erotismo tórrido e de bom gosto - marca registrada do diretor - e, no terço final, vira um filme de suspense de pouco alcance, que ainda consegue decepcionar com mais uma conclusão decepcionante e ambígua, que enfraquece o conjunto (e isso vindo do homem que não teve medo de fazer Glenn Close cozinhar um coelhinho de estimação!) Se tivesse se concentrado em qualquer uma das vertentes que a história - baseada em um filme de Claude Chabrol - oferece, Lyne com certeza teria tido mais sucesso, principalmente porque daria a seu elenco personagens menos unidimensionais e um tanto inverossímeis.

Mas para não dizer que não falei das flores, nem tudo é fraco em "Infidelidade". Como já foi dito, as cenas de sexo entre Diane Lane e Olivier Martinez são fotografadas com maestria por Peter Biziou - vencedor de um Oscar por "Mississipi em chamas" - e o clima de tensão que permeia o filme são realmente competentes. Mas é a presença luminosa de Lane que definitivamente salva a obra de Adrian Lyne da vala dos dramas corriqueiros que infestam as sessões de sábado à noite na televisão. Madura e bonita como nunca, ele consegue transmitir toda a gama de emoções que o roteiro limitado lhe proporciona (um exemplo claro dessa afirmação é a cena em que, em um trem, ela relembra o primeiro encontro sexual com o amante, uma cena filmada em um único take e que é suficiente para deixar claros os sentimentos da personagem). Apesar de todos os problemas do filme, ela vale cada minuto de projeção, em uma interpretação que lhe colocou entre os grandes nomes de sua geração.

segunda-feira

AS DUAS FACES DE UM CRIME

AS DUAS FACES DE UM CRIME (Primal fear, 1996, Paramount Pictures, 129min) Direção: Gregory Hoblit. Roteiro: Steve Shagan, Ann Biderman, romance de William Diehl. Fotografia: Michael Chapman. Montagem: David Rosenbloom. Música: James Newton Howard. Figurino: Betsy Cox. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Cindy Carr. Produção executiva: Howard W. Koch Jr.. Produção: Gary Lucchesi. Elenco: Richard Gere, Laura Linney, Edward Norton, John Mahoney, Alfre Woodard, Frances McDormand, Terry O'Quinn, Andre Braugher, Steven Bauer, Maura Tierney, Jon Seda. Estreia: 03/4/96

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Edward Norton)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Edward Norton)

Desde que teve sua carreira ressuscitada com os sucessos de "Justiça cega", de Mike Figgis e principalmente "Uma linda mulher", de Garry Marshall, o ator Richard Gere correu o sério risco de tê-la novamente perdido, devido a escolhas equivocadas como "Lancelot", com Sean Connery, "Mr. Jones", com Lena Olin e até mesmo o interessante mas fracassado comercialmente "Intersection", onde trabalhou ao lado de Sharon Stone. Para sua sorte, no entanto, um pouco ambicioso filme de tribunal devolveu a ele as boas graças da crítica e do público. Dirigido por um então desconhecido Gregory Hoblit, "As duas faces de um crime" é um policial que, a despeito de não fugir dos elementos tradicionais do gênero, o faz com respeito e sobriedade. Além disso, o filme, baseado no romance de William Diehl, tem para si a distinção de ter revelado um dos melhores jovens atores da década: Edward Norton.

Aos 26 anos, Norton é apenas o quinto nome a aparecer nos créditos de abertura de "As duas faces de um crime", mas quem assiste ao filme sabe que ele é seu maior trunfo. Desconhecido da audiência, ele ficou com um papel que foi oferecido a Leonardo DiCaprio e cobiçado por Matt Damon, e logo de cara recebeu uma merecida indicação ao Oscar de ator coadjuvante - que perdeu para a histérica atuação de Cuba Gooding Jr. em "Jerry Maguire". Sua interpretação, repleta de nuances, foge das armadilhas que o roteiro oferece e consegue fazer até com que o normalmente inexpressivo Gere saia de sua zona de conforto para entregar um trabalho bastante consistente.


Gere interpreta Martin Vail, um advogado narcisista e talentoso que não mede esforços para aparecer na mídia. Uma chance de ouro para aumentar sua popularidade surge quando um respeitado arcebispo é violentamente assassinado e um de seus coroinhas, o tímido Aron Stampler (Edward Norton) é preso e acusado pelo crime. Tentando inocentar seu cliente, Vail vai aos tribunais contra a promotora Janet Venable (Laura Linney), sua ex-amante. Conforme as investigações de Vail e seus assessores vão transcorrendo, novas revelações sobre a personalidade da vítima começam a aparecer, e ligações dele com poderosos homens de negócio - inclusive o procurador do Estado, John Shaugnessy (John Mahoney), o patrão de Janet - levam a outros e surpreendentes rumos.

A maior qualidade do roteiro de "As duas faces de um crime" é embaralhar as cartas de sua trama para jamais deixar o público matar a charada antes das cenas finais. Durante toda a projeção há sempre aquela virtual pulga atrás da orelha sobre quais os reais motivos que levaram o arcebispo a ser assassinado e Gregory Hoblit - demonstrando uma firmeza admirável na direção - conduz a audiência por vários caminhos até finalmente apresentar seu desfecho, coerente e um tanto chocante. Quem já assistiu não tem mais o elemento surpresa que lhe dá mais destaque ao lado de seus congêneres, mas mesmo quem o assiste mais de uma vez é obrigado a concordar que mesmo assim o filme é muito superior que a média. E novamente voltamos a Edward Norton.

A estreia alvissareira de Norton - que no mesmo ano seria dirigido por Milos Forman e Woody Allen - dá um charme especial a "As duas faces de um crime". Talentoso e inteligente, ele não confunde a fragilidade de sua personagem com fragilidade na atuação, apresentando uma atuação visceral e hipnotizante. Se Richard Gere e Laura Linney são os reais protagonistas do filme - e se saem bem, aliás - é Norton, com seu rosto capaz de expressar emoções díspares em questão de segundos que rouba o filme para si. Por ele, vale a pena ver e rever.

quinta-feira

SOMMERSBY, O RETORNO DE UM ESTRANHO

SOMMERSBY, O RETORNO DE UM ESTRANHO (Sommersby, 1993, Warner Bros, 114min) Direção: Jon Amiel. Roteiro: Nicholas Meyer, Sarah Kernochan, história de Nicholas Meyer, Anthony Shaffer, roteiro original "The return of Martin Guerre", de Jean-Claude Carrière, Daniel Vigne. Fotografia: Philippe Rousselot. Montagem: Peter Boyle. Música: Danny Elfman. Figurino: Marilyn Vance-Straker. Direção de arte/cenários: Bruno Rubeo/Michael Seirton. Casting: Billy Hopkins, Suzanne Smith. Produção executiva: Richard Gere, Maggie Wilde. Produção: Arnon Milchan, Steven Reuther. Elenco: Jodie Foster, Richard Gere, Bill Pullman, R. Lee Ermey, James Earl Jones. Estreia: 05/02/93

Jodie Foster em um filme romântico pode soar estranho, mas é justamente essa escalação ousada de elenco que faz com que "Sommersby, o retorno de um estranho" sobressaia em meio a tantas histórias de amor lançadas anualmente nas telas de cinema. Refilmagem do francês "O retorno de Martin Guerre", estrelado por Gérard Depardieu, o filme do diretor Jon Amiel tem na presença sempre magnética de Foster (em seu primeiro trabalho pós-Oscar por "O silêncio dos inocentes") seu principal trunfo e, para sorte do público, nem mesmo o normalmente apático Richard Gere (que aqui também é produtor executivo) consegue atrapalhar.


Nesta versão americana, Foster vive Laurel Sommersby, uma mulher forte (como todas as personagens da carreira da atriz) que, logo depois da Guerra de Secessão, luta para manter sua casa e seu filho pequeno. Cortejada por um vizinho (Bill Pullman antes de ser catapultado ao estrelato em "Independence Day"), ela é a pessoa que mais fica surpresa quando reencontra seu marido Jack (Richard Gere), que era dado como morto em uma batalha e reaparece, com desejo de retomar o que é seu. A maior surpresa de Laurel, no entanto, não é a volta do marido e sim sua radical transformação. De grosseiro, rude e mau-caráter, Jack tornou-se romântico, gentil e, mais do que tudo, um homem disposto a tirar a fazenda do vermelho e reconstruí-la. Não demora muito e Laurel cai de amores pelo marido que costumava espancá-la e concebeu seu filho praticamente em um estupro. Ao mesmo tempo, porém, ela tem a certeza quase absoluta de que há algo de errado com ele.



Suas dúvidas começam a ficar maiores quando Jack é acusado de assassinato e surge a possibilidade de que ele na verdade seja um impostor. Laurel fica então divida se quer que o homem por quem está apaixonada diga a verdade e vá preso por falsidade ideológica ou se prefere que ele mantenha sua palavra e possa ser condenado à morte. E é justamente essa dúvida que leva “Sommersby” pra frente. A partir do momento em que a identidade do homem que passa a dividir a cama e a vida com Laurel é posta em questionamento, o filme esquenta e dá espaço para o brilho da atuação de Jodie Foster. E que atuação! Provando – mais uma vez – que é uma das melhores atrizes de sua geração, ela rouba o filme todo pra si, mal deixando espaço para seus coadjuvantes – que incluem o sempre eficaz R. Lee Ermey.

"Sommersby" não é o melhor filme da carreira vitoriosa de Foster, mas é um de seus trabalhos mais maduros e, sem dúvida, o mais romântico e sensual. Seu talento é tão especial que ajuda até mesmo Richard Gere a não estar tão mal.  Somado ao fato de ter um final surpreendente e que foge aos clichês do gênero, é um fato que o recomenda sem maiores medos.

UMA LINDA MULHER

UMA LINDA MULHER (Pretty woman, 1990, Touchstone Pictures, 125min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: J.F. Lawton. Fotografia: Charles Minsky. Montagem: Priscilla Nedd. Música: James Newton Howard. Figurino: Marilyn Vance. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Garrett Lewis. Casting: Dianne Crittenden. Produção executiva: Laura Ziskin. Produção: Arnon Milchan, Steven Reuther. Elenco: Richard Gere, Julia Roberts, Jason Alexander, Laura San Giacomo, Hector Elizondo, Ralph Bellamy. Estreia: 23/3/90

Indicado ao Oscar de Atriz (Julia Roberts)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Comédia ou Musical (Julia Roberts)

Alguns filmes tem a sorte de ser feitos na hora certa, com o elenco certo e do jeito certo. "Uma linda mulher", uma das comédias românticas mais bem-sucedidas da história pode ser considerado como um deles. Escrito primeiramente como uma sombria comédia sobre o triste mundo da prostituição, o roteiro de J.F. Lawton transformou-se em uma história de amor que é, até hoje, um dos maiores sonhos de consumo do público feminino. Ao transportar a história de Cinderela para o Hollywood Boulevard, "Uma linda mulher" não apenas ganhou em bom humor, glamour e alto-astral, mas também revelou ao mundo aquela que se tornaria a atriz mais bem paga das décadas seguintes e uma das mais duradouras estrelas na voraz fogueira das vaidades que é o mundo do cinema: Julia Roberts.

Dando continuidade à mais bem-sucedida fase de sua carreira - que iniciou-se como símbolo sexual no final dos anos 70 e passou por um ostracismo duradouro que começou a ir embora com o sucesso comercial do policial "Justiça cega" - Richard Gere vive, em "Uma linda mulher", aquele que talvez seja sua personagem mais marcante, o empresário Edward Lewis, um multimilionário incapaz de demonstrar sentimentos, mas que é um expert na hora de comprar empresas em dificuldades financeiras e depois vendê-las em partes. Viajando a Los Angeles a negócios, Lewis acaba se perdendo nas ruas da cidade e, ao solicitar informações, conhece a bela prostituta Vivian Ward (Julia Roberts). Um tanto encantado com os modos vibrantes e autênticos da moçoila, ele faz a ela uma proposta irrecusável; ser sua acompanhante durante a semana em que ele será obrigado a permanecer na cidade, comparecendo com ele a eventos sociais - e o que é ainda melhor, com direito a ficar com todas as roupas compradas para isso, além de polpudos três mil dólares. Frequentando restaurantes sofisticados, indo à ópera e vivendo uma vida de princesa - em contraste com a violência e as necessidades financeiras com que estava acostumada - não demora para que Vivian se apaixone por Edward, mesmo tendo plena convicção da impossibilidade de seu romance.



Um sucesso tanto ensurdecedor quanto surpreendente à época de seu lançamento, "Uma linda mulher" acabou tornando-se cult por excelência. Adorado pela parcela de público que prefere diversão inofensiva à elocubrações filosóficas dentro de uma sala de cinema, o filme de Garry Marshall é um conjunto de qualidades certeiras para o êxito de um exemplar do gênero. A química entre o casal central é espetacular (ainda que sua reunião no apenas razoável "Noiva em fuga", dez anos depois, não tenha repetido o mesmo frisson), a trilha sonora é uma delícia - com resgate inclusive da ótima canção-título de Roy Orbison -, as piadas são engraçadas na medida certa, o romance - apesar de tudo - é verossímil e, por que negar?, até mesmo o tom um tanto fútil - precursor da série "Sex and the city" - funciona às mil maravilhas. Então por que tanta gente adora falar mal de Uma linda mulher?

Críticos pretensamente sérios não se permitem gostar de "Uma linda mulher". O acusam de ser vazio, de ser apenas mais uma comédia romântica igual a dezenas de outras e, quando não tem mais argumentos, até mesmo repudiam sua ideologia - sim, há quem acuse o final feliz de Vivian Ward de ser responsável por jogar meninas de família nas calçadas... É sério!!! Mas "Uma linda mulher" é uma divertida história de amor, capaz de alegrar qualquer tarde chuvosa, com um balde de pipocas e uma garrafa de Coca-cola em mãos - ou champagne e morangos, se você tiver sorte...

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...