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terça-feira

OS QUERIDINHOS DA AMÉRICA


OS QUERIDINHOS DA AMÉRICA (America's sweethearts, 2001, Columbia Pictures/Revolution Studios, 102min) Direção: Joe Roth. Roteiro: Billy Crystal, Peter Tolan. Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: Stephen A. Rotter. Música: James Newton Howard. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Garreth Stover/Larry Dias. Produção executiva: Charles Newirth, Peter Tolan. Produção: Susan Arnold, Billy Crystal, Donna Arkoff Roth. Elenco: Julia Roberts, John Cusack, Billy Crystal, Catherine Zeta-Jones, Stanley Tucci, Christopher Walken, Alan Arkin, Hank Azaria, Seth Green, Rainn Wilson. Estreia: 17/7/2001

Quando Billy Crystal escreveu o roteiro de "Os queridinhos da América" seus planos incluíam dirigir o filme e ficar com o principal papel masculino - além de desejar repetir a vitoriosa dupla com Meg Ryan depois do sucesso de "Harry & Sally: feitos um para o outro" (1989). As coisas nem sempre saem como imaginado, porém, principalmente em Hollywood: quando a produção finalmente começou Ryan passava por um período difícil (que envolvia o fim de seu casamento de anos com Dennis Quaid e o relacionamento escandaloso e breve com Russell Crowe) e Crystal percebeu que estava velho demais para viver o galã de uma comédia romântica. A ideia de manter o projeto, no entanto, era boa demais para ser deixada de lado e, com o veterano ator deixando a direção a cargo de Joe Roth e assumindo o segundo (e talvez mais interessante) papel masculino da história, o filme recebeu o reforço de Catherine Zeta-Jones e Julia Roberts (ainda fresquinha do Oscar de melhor atriz) e estreou em pleno verão norte-americano. Pode não ter sido um sucesso estrondoso de bilheteria - menos de 150 milhões de dólares arrecadados internacionalmente -, mas foi um respiro adulto em uma temporada cujos maiores êxitos comerciais foram direcionados ao público infantojuvenil, como "Harry Potter e a pedra filosofal", "Monstros S/A" e "Shrek". Simpático e inofensivo - mesmo com as alfinetadas na indústria de cinema norte-americano -, o filme segura bem uma sessão da tarde, mas está a anos-luz de distância dos melhores exemplares do gênero.

A trama gira em torno de Eddie Thomas (John Cusack) e Gwen Harrison (Catherine Zeta-Jones), dois astros de cinema que, como deixa claro o título, são os queridinhos das plateias, que lotam as salas de cinema para vê-los juntos. Casados também na vida real, eles acabam se separando quando Gwen trai Eddie com o galã latino Hector (Hank Azaria), fato que leva o ator a uma crise de nervos que o afasta da mídia. Acusada de ser a culpada pela separação, Gwen vê a chance de recuperar a simpatia do público quando Lee Phillips (Billy Crystal), responsável pelo setor de  relações públicas do estúdio, a procura com a proposta de embarcar em um concorrido esquema de promoção para seu novo filme - o último que ela estrelou com o ex-marido. Gwen demora a aceitar a ideia, mas é convencida pela irmã e assessora Kiki (Julia Roberts), que é apaixonada em segredo por Eddie - que, mesmo ainda revoltado com a ex-mulher, sai da clinica para tentar salvar a imagem da dupla. O que nenhum dois dois atores sabe, na verdade, é que os esforços de Lee tem outro motivo: disfarçar o fato de que o diretor do filme, o excêntrico Hal Weidmann (Christopher Walken), está com o material escondido e pretende mostrar a montagem final somente na hora da pré-estreia. Enquanto Lee precisa lidar com a fogueira das vaidades de atores, diretores e executivos do estúdio (temerosos de um fracasso monumental devido ao escândalo de seus astros), um romance inesperado surge entre o traumatizado Eddie e Kiki, antes um patinho feio que vivia à sombra da irmã, e agora uma bela e bem resolvida mulher.

 

Apesar de o romance entre Kiki e Eddie ter sido vendido como o principal ponto de interesse de "Os queridinhos da América", o que mais funciona no filme de Joe Roth - cineasta pouco inspirado e sem maiores sucessos no currículo - são as referências e piadas sobre Hollywood e sua indústria. Na pele do experiente Lee Phillips, o ator e roteirista Billy Crystal solta farpas sobre tudo e todos - desde a figura do recluso Hal Weidmann, claramente inspirado no veterano Hal Ashby, até as infames e repetitivas entrevistas a que atores são submetidos durante o período de lançamento de seus filmes. Crystal, com seu conhecido cinismo e sagacidade, é quem melhor se sai, bem mais à vontade em cena do que seus colegas de elenco. Subaproveitada, Julia Roberts tem pouco a fazer com uma personagem que não explora todo o seu carisma, e John Cusack (substituindo Robert Downey Jr., à época ainda um nome pouco confiável junto aos estúdios, por seus problemas com drogas) parece desconfortável em explorar um lado romântico pouco comum em sua carreira repleta de tipos pouco convencionais. E do quarteto central, a bela Catherine Zeta-Jones sobressai-se com seu dom para a fina ironia, que seria recompensado pouco depois com um Oscar de coadjuvante por "Chicago" (2002).

É inegável que "Os queridinhos da América" sofre de falta de um foco narrativo claro. Afinal, qual é a história principal que quer contar? Os bastidores da indústria de cinema hollywoodiano? A relação complicada entre dois astros populares que tem suas vidas devassadas pelo público e pela mídia? O romance inesperado entre dois cunhados? A constante necessidade de aprovação que surge junto com a fama? Essa indecisão, apesar de alguns diálogos preciosos e do talento de todos os envolvidos (Stanley Tucci como um executivo, Alan Arkin como um médico pouco confiável, Rainn Wilson como um repórter bisbilhoteiro, Seth Green como um estagiário que confunde Audrey e Katherine Hepburn), prejudica o resultado final e torna o filme uma produção esquecível, ainda que agradável. Não chega de ser um desperdício de tempo, mas quase uma decepção que tanta gente boa possa ter feito algo tão insosso.

domingo

CAMINHOS VIOLENTOS

CAMINHOS VIOLENTOS (At close range, 1986, Hemdale, 111min) Direção: James Foley. Roteiro: Nicholas Kazan, estória de Nicholas Kazan, Elliott Lewitt. Fotografia: Juan Ruíz Anchia. Montagem: Howard Smith. Música: Patrick Leonard. Figurino: Hilary Rosenfeld. Direção de arte/cenários: Peter Jamison/R. Chris Westlund. Produção executiva: John Daly, Derek Gibson. Produção: Don Guest, Elliott Lewitt. Elenco: Christopher Walken, Sean Penn, Mary Stuart Masterson, Chris Penn, David Strathairn, Millie Perkins, Eileen Ryan, Kiefer Sutherland, Crispin Glover. Estreia: Fevereiro de 1986 (Festival de Berlim)

A parceria artística entre Madonna e Sean Penn - um dos casais mais explosivos e comentados da década de 80 - nunca foi exatamente auspiciosa. Seu único encontro nas telas foi no desastroso "Surpresa de Shangai" (86), um fracasso comercial e de crítica, e não fosse por manchetes frequentes expondo sua relação complicada - e algumas canções do álbum "True blue", lançado em 1984 - era bem possível que seu casamento tivesse passado à história sem maiores lembranças. Mas, justiça seja feita, se as carreiras de ambos entraram em curva ascendente depois do divórcio em 1989, ao menos uma colaboração entre os dois (ainda que indireta) pode ser creditada a seu favor: é de Madonna e seu parceiro musical de então, Patrick Leonard, a bela "Live to tell", tema musical de "Caminhos violentos", estrelado por Penn. Das primeiras imagens até os créditos finais, a melancólica canção pontua com firmeza uma história trágica e verdadeira, dirigida por James Foley - que também dirigiria a cantora em "Quem é essa garota?" (87) e em alguns videoclipes - e calcada visualmente nos filmes de rebeldia juvenil da década de 50. É um filme dramaticamente potente, escorado na atuação visceral do jovem ator e que confirma seu status de indisciplinado mais talentoso de sua geração.

Baseado em fatos reais, ocorridos no estado da Pensilvânia, "Caminhos violentos" é filmado por James Foley com uma clima crescente de claustrofobia e tensão, com uma fotografia crua e seca e uma edição direta e objetiva. Sem floreios estilísticos ou artifícios narrativos, o roteiro, escrito por Nicholas Kazan - filho de Elia, que dirigiu o ícone da rebeldia no cinema, James Dean, em seu filme de estreia, "Vidas amargas" (54) - opta pelo naturalismo, entregando ao espectador uma obra impactante e dolorosa, uma história pungente de amor e violência entre pai e filho, valorizada pelo embate de atuações entre Penn (então um jovem ator em começo de carreira) e Christopher Walken (já consagrado com um Oscar por "O franco-atirador", de 1978). Apesar de sua evidente entrega ao papel, Walken não foi, porém, a primeira escolha do diretor - quem o recusou foi ninguém menos que Robert DeNiro, que o considerou sombrio demais. Talvez DeNiro tivesse um pouco de razão (apesar de aceitar, pouco depois, viver o diabo em pessoa no impressionante "Coração satânico", de Alan Parker): o pai criminoso e cruel interpretado por Walken é, sem dúvida, um dos personagens mais intensos de uma carreira repleta deles, e sem dúvida, um de seus pontos altos.


Brad Whitewood, o personagem de Walken, é o centro da trama de "Caminhos violentos": um pai ausente que, depois de anos sem dar notícias, volta ao convívio dos dois filhos, Brad Jr. e Tommy (Sean Penn e Chris Penn, irmãos também na vida real). Quem se deixa seduzir facilmente pela vida de pequenos crimes do pai é Brad Jr., um rapaz que divide seu tempo entre alguns serviços mecânicos, consumo de drogas leves e o namoro com a delicada Terry (Mary Stuart Masterson): frequentando a casa do pai e participando de alguns de seus roubos de tratores, ele passa a vislumbrar uma vida menos sacrificada que poderá lhe ajudar a planejar um futuro com a namorada. As coisas saem do controle, porém, quando o rapaz percebe que a vida bandida do pai não se resume apenas a furtos supostamente inocentes: testemunha de uma fria queima de arquivo, Brad Jr. tentará, então, afastar-se da rede de violência que ameaça não apenas a sua própria sobrevivência, mas também das pessoas que ama.

Fracasso de bilheteria nos EUA mas elogiado pelos críticos europeus, "Caminhos violentos" foge dos padrões comerciais do cinemão de Hollywood ao eleger como protagonistas dois personagens pouco heróicos e/ou simpáticos. Mesmo que Brad Jr. lute contra o destino trágico que parece lhe ser inevitável e para isso bata de frente com o próprio pai, ele tampouco é um exemplo de conduta, errando com mais frequência do que acertando e envolvendo pessoas inocentes em um mundo de sangue e brutalidade. É graças ao trabalho irretocável de Sean Penn que ele conquista a simpatia do espectador e conduz a narrativa até o final avassalador, em um clímax cujo poder está centrado basicamente na química entre os dois atores e na direção segura de Foley - que se utiliza de todos os elementos dramáticos de forma a emoldurar uma trama densa e pessimista. Um dos trabalhos fundamentais da trajetória de Sean Penn rumo ao estrelato, "Caminhos violentos" é também, com justiça, um de seus filmes preferidos da década de 80 - uma obra imperdível.

quinta-feira

VOANDO ALTO

VOANDO ALTO (Eddie the Eagle, 2016, Hurwitz Creative/Marv Films/Saville Productions, 106min) Direção: Dexter Fletcher. Roteiro: Sean Macaulay, Simon Kelton, estória de Simon Kelton. Fotografia: George Richmond. Montagem: Martin Walsh. Música: Matthew Margeson. Direção de arte/cenários: Mike Gunn/Naomi Moore. Produção executiva: Zygi Kamasa, Pierre Lagrange, Stephen Marks, Peter Morton, Claudia Vaughn. Produção: Adam Bohling, Rupert Maconick, David Reid, Valerie Van Galder, Matthew Vaughn. Elenco: Hugh Jackman, Taron Egerton, Tom Costello, Jim Broadbent, Christopher Walken. Estreia: 26/01/16 (Festival de Sundance)

As Olimpíadas de Inverno de 1988, em Calgary, Canadá, tornaram-se famosas no cinema graças ao filme "Jamaica abaixo de zero" (93), que contava a história da primeira equipe de trenó do país através de uma comédia em tom familiar. Mas na mesma competição, em outra categoria - salto de esqui - um outro atleta chamava a atenção, não por medalhas ou excelência, mas sim por sua paixão pelo esporte e pela persistência em ser o primeiro britânico a disputar os jogos em um esporte sem tradição em sua nação. Ao cativar o público torcedor, Eddie "The Eagle" Edwards tornou-se uma figura icônica a tal ponto de ser convidado para carregar a tocha olímpica dos jogos de 2010, em uma demonstração de sua importância para o espírito esportivo declarado pelo criador das Olimpíadas modernas, Pierre de Coubertin: "O mais importante nos Jogos Olímpicos não é ganhar, mas participar. O importante na vida não é o triunfo, e sim a luta." Desde então - ou mais precisamente desde 1999, projetos cinematográficos sobre a trajetória de Edwards começaram a surgir, a despeito de sua relutância em permitir uma adaptação. O fracasso de uma tentativa com o ator Steve Coogan - que tencionava realizar uma comédia rasgada sobre o assunto - deixou o campo livre, então, para o diretor e produtor Matthew Vaugh, de "Kingsman: Serviço Secreto" (2014) reconectar-se com o roteiro que havia lido alguns anos antes e que havia deixado de lado. Surgia "Voando alto", uma terna, divertida e emocionante comédia capaz de arrancar sorrisos do mais cético dos espectadores.

Por uma dessas circunstâncias do destino, Vaughn decidiu produzir o filme sobre Edwards depois de assistir, junto com os filhos, a uma exibição na televisão de "Jamaica abaixo de zero". Com o firme propósito de realizar uma obra de tom familiar, sem a violência - repleta de ironia, mas ainda assim violência - de seu "Kingsman", o cineasta preferiu deixar de lado a direção e oferecer o projeto a seu amigo de longa data Dexter Fletcher, ator de seu primeiro filme como produtor, "Jogos, trapaças e dois canos fumegantes", lançado quase vinte anos antes. Tornado diretor com o passar do tempo, Fletcher aceitou o desafio e, com a aprovação de Edwards, "Voando alto" começava finalmente a tomar forma. Não da maneira tradicional, mas com um toque de leveza e humor que faria do filme não uma cinebiografia convencional, mas antes disso, uma releitura em tom cômico de sua trajetória rumo à realização de seu sonho de ser um atleta olímpico. Para isso, não apenas muitos fatos foram alterados - com a anuência do próprio biografado - como personagens foram simplesmente inventados, como forma de impulsionar a narrativa em uma direção mais facilmente palatável ao gosto das plateias. Nascia, assim, a figura de Bronson Peary, um ex-atleta que se torna o hesitante treinador de Edwards e seu maior aliado na luta contra os céticos - e cínicos - burocratas do esporte britânico.


Segundo o roteiro de Simon Kelt e Sean Macaulay - que Edwards diz ser apenas dez ou quinze por centro baseado na verdade - o protagonista, filho único de um gesseiro e de uma dona-de-casa britânicos, sempre sonhou em ser um atleta olímpico, mesmo diante das dificuldades impostas por um problema físico na perna esquerda, que praticamente o impedia de andar direito. Livre do aparelho que o acompanhou na infância, Eddie passa a treinar obsessivamente com o objetivo de participar dos jogos, sempre desencorajado pelo pai, que deseja que ele siga sua profissão. Contrariando até mesmo o Comitê Técnico da Grã-Bretanha - que não deseja um amador tão destreinado junto com seus talentosos atletas - e contando apenas com o apoio da mãe, Edwards resolve ir treinar na Alemanha (na verdade, Eddie foi para os EUA), e lá conhece Bronson Peary (Hugh Jackman), que anos antes, devido a seu comportamento arrogante, deixou de ser um astro do esporte para trabalhar limpando os campos de treino. Depois de muito insistir, Eddie convence Peary a treiná-lo, talvez não para ganhar medalhas, mas para estabelecer um recorde para seu país e provar a todos que a perseverança e a paixão pelo esporte são maiores que a fama e o dinheiro.

Com esse subtexto familiar e politicamente correto, seria fácil para "Voando alto" esbarrar em clichês e sentimentalismos. Porém, em um toque de gênio, Vaughn e Fletcher fazem do filme uma homenagem carinhosa e empolgante a todos aqueles que um dia já tiveram um sonho. Acompanhado por uma trilha sonora caprichada, uma edição ágil, senso de humor inteligente e interpretações impecáveis, o que poderia ser um aborrecido e previsível amontoado de lugares-comuns cede espaço ao divertido retrato de uma paixão quase proibida que se torna, aos poucos, plenamente tangível. Para isso, é imprescindível a atuação exemplar do jovem Taron Egerton, descoberto por Vaughan em "Kingsman": dos maneirismos físicos à linguagem corporal, do visual à voz e à postura, Egerton incorpora Eddie Edwards com extrema perfeição, aliando um carisma impressionante à já facilmente adorável personalidade do protagonista. Sua química com Hugh Jackman é um dos pontos altos de um filme repleto deles. Despretensioso, inspirador e muito, mas muito divertido, "Voando alto" é uma pequena obra-prima, que mesmo quando apela aos clichês, o faz com sinceridade e respeito. Imperdível!

segunda-feira

SETE PSICOPATAS E UM SHIH TZU

SETE PSICOPATAS E UM SHIH TZU (Seven psychopaths, 2012, CBS Films/Film4, 110min) Direção e roteiro: Martin McDonagh. Fotografia: Ben Davis. Montagem: Lisa Gunning. Música: Carter Burwell. Figurino: Karen Patch. Direção de arte/cenários: David Wasco/Lisa Reynolds-Wasco. Produção executiva: Tessa Ross. Produção: Graham Broadbent, Peter Czernin, Martin McDonagh. Elenco: Colin Farrell, Sam Rockwell, Woody Harrelson, Christopher Walken, Abbie Cornish, Michael Pitt, Harry Dean Stanton, Gabourey Sidibe, Zeljko Ivanek, Tom Waits, Brendan Sexton III, Olga Kurylenko. Estreia: 07/9/12 (Festival de Toronto)

A primeira cena remete aos filmes de Quentin Tarantino: uma dupla de matadores de aluguel joga conversa fora enquanto espera a chegada de sua próxima vítima - um bate-papo que vai do gângster Dillinger a "O poderoso chefão". Repentina e violentamente, a sequência termina com uma inesperada reviravolta, que pega tanto os personagens quanto o público de surpresa. Mas que o espectador não se deixe enganar: apesar de ser mais um cineasta/roteirista influenciado pela lufada de ar fresco que Tarantino deixou entrar no cinema policial americano na segunda metade dos anos 90, Martin McDonagh tem identidade própria, conforme mostrado em "Na mira do chefe" - uma comédia independente que encantou a crítica em 2008 e chegou a ser indicada ao Oscar de roteiro original. Repetindo sua parceria com o ator Colin Farrell, ele faz de seu "Sete psicopatas e um shih tzu" um filme ainda melhor que sua estreia, repleto de um humor negro que ameniza de forma inteligente sua extrema violência e um uso brilhante de meta-linguagem que o aproxima do genial "Adaptação", de Spike Jonze.

Assim como no filme estrelado por Nicolas Cage em 2002, o personagem de Colin Farrell, Marty Faranan, é um estressado e angustiado roteirista que sofre a pressão de sentir-se incapaz de escrever uma linha sequer de seu próximo trabalho, do qual tem certeza apenas do título, "Sete psicopatas". Com a intenção um tanto esdrúxula de contar uma história sobre serial killers que evite a violência excessiva e ofereça à plateia uma sensação de paz e otimismo, ele se vê a cada dia mais entregue à bebida - "culpa de sua herança irlandesa!", dispara seu melhor amigo, o ator desempregado Billy Bickle (Sam Rockwell, excelente), que divide com o neurótico protagonista de "Taxi driver" bem mais do que o sobrenome. Sócio do excêntrico Hans Kieslowski (Christopher Walken) no rentável "negócio" de empréstimo de cães - eles roubam os animais e depois os devolvem nobremente aos donos, embolsando as recompensas - Bickle deseja ser colaborador de Marty em seu roteiro, e para isso não se intimida em colocar um anúncio em uma revista chamando psicopatas à sua casa para que contem suas histórias. Não bastasse tal insanidade, os dois amigos passam a ser perseguidos por Charlie Costello (Woody Harrelson), um mafioso impiedoso que descobre que seu amado cãozinho shih tzu, Bonny, está em suas mãos. Aflito e incapaz de pensar em uma forma de sair da confusão, Marty acaba por empreender uma fuga surreal - que pode, afinal, lhe dar as ideias necessárias para a conclusão de sua trama.


Brincando com a linguagem e desconstruindo sem cerimônia as regras pré-estabelecidas de como construir uma história com início, meio e fim bem definidos e claros, Martin McDonagh faz de seu "Sete psicopatas e um shih tzu" uma deliciosa mistura de comédia e policial, muitas vezes borrando propositalmente suas linhas divisórias. Apresentando seus personagens como seres falíveis e por vezes contraditórios - caso do mafioso durão apaixonado por seu "cachorro gay", como define Billy - ele foge dos clichês do gênero, apostando mais no bizarro de cada um do que em suas características mais realistas. Essa lente distorcida oferece à plateia a possibilidade de embarcar em uma jornada cujo final não é possível prever desde seus primeiros momentos, como acontece na maioria da produção em massa da indústria hollywoodiana. Se aceitar as regras propostas pelo cineasta - ou seja, esquecer todas aquelas a que está acostumado por uma exposição sistemática a filmes quase iguais - o espectador tem grandes chances de se surpreender rindo em um instante e roendo as unhas em outro, principalmente na primeira metade, quando os psicopatas são apresentados em sequências dignas de figurar em antologias. Quem duvida basta prestar atenção à história do psicopata religioso (interpretado por Harry Dean Stanton): é de grudar os olhos na tela.

E se não bastasse um roteiro tão criativo - que muda de tom em sua metade final apenas para enfatizar seu rompimento com qualquer regra arbitrária - "Sete psicopatas e um shih tzu" ainda se beneficia (e muito) de um elenco em dias inspiradíssimos. Colin Farrell mostra mais uma vez que é um dos melhores atores subestimados de sua geração, apresentando um timing cômico ainda poucas vezes explorado e que comprova sua versatilidade. Woody Harrelson, Sam Rockwell e Christopher Walken, como de costume, roubam para si seus personagens, imprimindo a eles suas personalidades fortes e as participações especiais (Michael Pitt, Harry Dean Stanton, Tom Waits, Gabourey Sidibe) transformam uma divertida brincadeira em um filme com aura de cult, a ser descoberto e valorizado com o passar do tempo. Poucos filmes merecem uma segunda chance tanto quanto ele!

quinta-feira

AMOR À QUEIMA-ROUPA

AMOR À QUEIMA-ROUPA (True romance, 1993, Morgan Creek Productions, 120min) Direção: Tony Scott. Roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Jeffrey L. Kimball. Montagem: Michael Tronick, Christian Wagner. Música: Hans Zimmer. Figurino: Susan Becker. Direção de arte/cenários: Benjamín Fernández/Thomas L. Roysden. Produção executiva: James G. Robinson, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Gary Barber, Samuel Hadida, Steve Perry, Bill Unger. Elenco: Christian Slater, Patricia Arquette, Gary Oldman, Christopher Walken, Dennis Hopper, Brad Pitt, Saul Rubinek, Michael Rapaport, James Gandolfini, Samuel L. Jackson, Val Kilmer, Bronson Pinchot, Chris Penn, Tom Sizemore, Maria Pitillo. Estreia: 10/9/93

Antes de tornar-se febre e ser considerado o "novo Martin Scorsese" graças ao sucesso imediato de seu violento "Cães de aluguel" (92), Quentin Tarantino trabalhava como gerente de uma video-locadora, como qualquer fã de cinema bem informado sabe. O que talvez pouca gente saiba é que, durante esse período, ele e seu colega Roger Avary trabalharam em uma gigantesca história com mais de 500 páginas recheada de todas as características que posteriormente marcariam a obra do mais venerado cineasta da década de 90. Logicamente um roteiro de 500 páginas jamais seria produzido, nem mesmo pelo mais alucinado estúdio de Hollywood e a trama acabou sendo dividida em dois filmes que aparentemente nada tem em comum: o primeiro, "Assassinos por natureza", acabou se transformando em um gigantesco manifesto anti-violência dirigido por Oliver Stone e anabolizado com um excesso de efeitos de filmagem que descaracterizou o texto de Tarantino e provocou duras críticas de seu autor (apesar de ser um grande filme ainda não devidamente reconhecido por todo mundo). O segundo, com narrativa mais tradicional - mas ainda assim extremamente violento - é "Amor à queima-roupa", vendido por meros 50 mil dólares e dirigido pelo inglês Tony Scott, irmão de Ridley e mais conhecido como o autor de filmes bem-sucedidos comercialmente mas ocos em conteúdo, como "Top Gun, ases indomáveis" (86) e "Um tira da pesada II" (87). De posse do roteiro ágil e sem melindres de Tarantino - e com um grande elenco em dias pra lá de inspirados - Scott conseguiu assinar o melhor filme de sua carreira, tragicamente encerrada em agosto de 2012 com um suicídio que abalou Hollywood.

Apesar de parecer estranha a afirmação, "Amor à queima-roupa" é, como diz o título, uma história de amor, ainda que revestida de todas as obsessões e neuroses da década de 90 - bem com de suas referências à cultura contemporânea e às cenas de sexo bem fotografadas e quentes na medida certa. A fotogênica (ainda que um tanto canastrona) dupla central serve perfeitamente às intenções da trama, rocambolesca, exagerada e extremamente divertida. Clarence (Christian Slater no melhor papel de sua carreira) é um jovem atendente de uma loja de quadrinhos raros (referência autobiográfica de Tarantino) que sofre com sua falta de aptidões sociais. Na noite de seu aniversário, ele vai ao cinema assistir a uma sessão tripla de filmes de kung-fu e conhece a doce Alabama (Patricia Arquette), com quem sente uma identificação imediata. Os dois passam a noite juntos, se apaixonam e a verdade cai sobre eles como um balde de água fria: ela é prostituta e foi contratada pelo chefe do rapaz como presente de aniversário. Ao invés de ficar arrasado e sentir-se traído, Clarence sente na confissão da moça uma prova de sinceridade e a pede em casamento. Para que possam viver sua vida em paz, porém, eles precisam se livrar do cafetão de Alabama, o bizarro Drexl (Gary Oldman). E é aí que os problemas realmente começam.


Depois de um confronto com Drexl, em que tanto o cafetão quanto todos os seus comparsas são mortos, Clarence fica de posse de uma mala com 500 mil dólares em cocaína. Vendo nessa trágica circunstância a chance de ficar rico e poder viver ao lado da amada Alabama, eles viajam até Hollywood para vender a droga ao produtor de cinema (Saul Rubinek), mas não sabem que atrás deles está o verdadeiro dono da mercadoria - um mafioso pouco dado a sutilezas que não hesita em matar quem atrapalhe seu caminho - e a polícia de Los Angeles, disposta a tudo para desbaratar a quadrilha de traficantes. O resultado, como se poderia esperar, é um daqueles massacres que só Hollywood sabe orquestrar sem ofender a suscetibilidade da plateia. Exercitando a violência como poucas vezes em sua filmografia, Scott deita e rola em sequências feitas para o delírio dos fãs do gênero - em especial a luta entre Alabama e o capanga vivido pelo saudoso James Gandolfini, em que até mesmo um saca-rolhas serve de arma. É para nenhum fã de sangue botar defeito.

Mas, por trás da violência, das sacadas pop de Quentin Tarantino e do elenco cool, "Amor à queima-roupa" é um bom filme? Sem dúvida. Apesar de nunca ter conseguido realizar antes um filme que combinasse o visual apurado de suas produções com um conteúdo digno de tanto capricho, aqui ele tem a chance de explorar tanto a direção de atores - o que não é difícil quando se tem em cena dois monstros como Christopher Walken e Dennis Hopper, por exemplo - quanto o desenvolvimento de uma trama que, apesar dos clichês (utilizados com destreza ímpar), é inteligente e bem construída. O ritmo imposto a partir da morte de Drexl é alucinado, equilibrado com doses de humor negro e participações especiais que vão desde um Brad Pitt chapado em todas as cenas até a um Val Kilmer que não mostra o rosto como o fantasma de Elvis Presley que aconselha Clarence em suas aventuras. É uma história de amor ao gosto de Quentin Tarantino, com tudo que faz do seu cinema bom ou ruim, dependendo do ponto de vista. É pegar ou largar.

sexta-feira

A HORA DA ZONA MORTA

A HORA DA ZONA MORTA (Dead zone, 1983, Dino de Laurentiis Company, 103min) Direção: David Cronenberg. Roteiro: Jeffrey Boam, romance de Stephen King. Fotografia: Mark Irwin. Montagem: Ronald Sanders. Música: Michael Kamen. Figurino: Olga Dimitrov. Direção de arte/cenários: Carol Spier/Tom Coulter. Produção: Debra Hill. Elenco: Christopher Walken, Brooke Adams, Martin Sheen, Tom Skerrit, Colleen Dewhurst, Nicholas Campbell, Herbert Lom. Estreia: 21/10/83

Stephen King começou a firmar-se como um nome quente dentro da indústria hollywoodiana quando o sucesso de bilheteria de "Carrie, a estranha" (76), de Brian DePalma e o prestígio de "O iluminado" (80), de Stanley Kubrick comprovaram que por trás de uma boa história de terror poderia haver inteligência e criatividade. Por isso não deixou de ser surpreendente quando o nome do canadense David Cronenberg foi anunciado como o diretor de "A hora da zona morta", mais um romance de King a ser adaptado para as telas no início da década de 80: conhecido por filmes pouco afeitos à sutilezas, como os polêmicos "Enraivecida, na fúria do sexo" (77) e "Scanners, sua mente pode destruir" (81), o cineasta acabou por convencer até mesmo o mais pessimista fã do escritor, porém, quando sua adaptação finalmente foi lançada, no final de 1983. Não só a trama chegou às telas da forma mais fiel possível como Cronenberg conseguiu imprimir a ela uma personalidade e um suspense que funcionam em todos os níveis. Estrelado pelo sempre sinistro Christopher Walken - já oscarizado pelo soldado neurótico de "O franco-atirador" (78) - o filme mantém a atenção da plateia desde seu início angustiante até suas climáticas cenas finais, além de contar uma história recheada o suficiente de ganchos e personagens interessantes.

Walken - em papel que King queria que fosse de Bill Murray, veja só - interpreta Johnny Smith, um professor de inglês de Castle Rock, uma pequena cidade do Maine (que se tornaria cenário preferido de várias histórias de Stephen King a partir de então). Em uma noite chuvosa qualquer, ele deixa sua noiva, Sarah (Brooke Adams), em casa e sofre um grave acidente de carro que o deixa em coma profundo por cinco anos. Depois de acordar - e perceber que sua vida não tem mais condições de ser a mesma, uma vez que Sarah já está casada com outro homem e é mãe de um bebê - Johnny descobre ainda que sua situação lhe presenteou com o estranho dom da clarividência: ao tocar nas pessoas, ele tem o poder de descobrir coisas tais como um incêndio na casa de uma enfermeira, a verdade sobre o desaparecimento da mãe de seu médico (perdida desde a II Guerra Mundial) e, mais importante ainda, é procurado pelo xerife (Tom Skerrit) para ajudar na busca de um assassino serial. Tamanha pressão o acaba levando a esconder-se de todos os que conhece, até que seu caminho se cruza com Greg Stillson (Martin Sheen), um político popular que é candidato ao Senado e pode não ser tão honesto quanto deseja parecer.


Realmente, para quem conhece a obra de David Cronenberg - que posteriormente ainda cometeria filmes que causaram extrema controvérsia, como "Mistérios e paixões" (91) e "Crash, estranhos prazeres" (96) - seu trabalho em "A hora da zona morta" chega a ser convencional. Sem nunca abrir mãos das convenções de um gênero tão pouco aberto a inovações narrativas, o cineasta mantém o interesse do público apostando suas fichas na atuação na medida exata de Christopher Walken, cujo rosto naturalmente ambíguo transmite todas as vastas sensações de seu personagem, um herói trágico na tradição de uma Cassandra grega. O suspense crescente, que Cronenberg manipula com extrema consciência, é construído com detalhes, nunca deixando de lado o drama inerente a uma existência como a de Johnny, eternamente na corda bamba entre o horror e a tragédia. E é também importante para tamanha precisão no suspense a trilha sonora discreta mas eficaz do veterano Michael Kamen, que jamais anuncia os momentos de maior tensão, preferindo, ao contrário, comentá-los conforme a ação vai se delineando diante dos olhos do espectador.

Uma das melhores adaptações de um livro de terror de Stephen King para as telas, "A hora da zona morta" se beneficia também do fato de saber terminar. Ao contrário de várias futuras transições da obra do escritor, que são estragadas por finais sem sentido ou forçados, o filme de David Cronenberg tem um desfecho climático, coerente e emocionante, valorizado pela atuação brilhante de Martin Sheen, que equilibra com inteligência a canastrice comum aos políticos demagogos com uma riqueza de nuances que deixa a audiência à espera de seu próximo movimento - que nunca é aquele esperado, o que dá ao filme sua sensação de imprevisibilidade que faz dele uma experiência ainda hoje bastante intrigante.


quarta-feira

HAIRSPRAY, EM BUSCA DA FAMA


HAIRSPRAY, EM BUSCA DA FAMA (Hairspray, 2007, New Line Cinema, 117min) Direção: Adam Shankman. Roteiro: Leslie Dixon, roteiro original de John Waters, peça musical de Mark O'Donnell, Thomas Meehan. Fotografia: Bojan Bazelli. Montagem: Michael Tronick. Música: Marc Shaiman. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: David Gropman/Gordon Sim. Produção executiva: Toby Emmerich, Jennifer Gigbot, Garrett Grant, Mark Kaufman, Michael Lynne, Marc Shaiman, Adam Shankman, Bob Shaye. Produção: Neil Meron, Craig Zadan. Elenco: John Travolta, Michelle Pfeiffer, Christopher Walken, Queen Latifah, Zac Efron, James Marsden, Amanda Bynes, Brittany Snow, Nikki Blonsky. Estreia: 13/7/07

O caminho natural de um produto artístico quando resolve mudar de mídia raramente é alterado. Às vezes um filme vira peça de teatro ou musical da Broadway e em alguns casos o contrário também acontece. O que é raro, mas também acontece, é o caminho tortuoso de "Os produtores" - inspirada no filme "Primavera para Hitler", de Mel Brooks, transformou-se em musical nos palcos e depois chegou às telas em 2005 estrelado por Nathan Lane, Matthew Broderick e Uma Thurman. "Hairspray, em busca da fama" faz parte desse seleto grupo. Inspirado no "clássico" de John Waters, o musical fez enorme sucesso no teatro e voltou a seu lar de origem, o cinema, cheio de moral. Com uma renda de quase 120 milhões de dólares de arrecadação nas bilheterias americanas, o filme de Adam Shankman - que exagerou na sacarose em "Um amor para recordar" e no humor pasteurizado em "Doze é demais 2" - agradou também à crítica (foi indicado a 3 Golden Globes) e surpreendeu o mundo ao mostrar um John Travolta extremamente à vontade cantando e dançando... no papel de uma dona-de-casa fora de forma.

No filme original - onde a característica de Waters de exagerar no kitsch era elevada à décima potência de deboche - a rotunda Edna Turnblad era interpretada pelo travesti Divine, um dos atores-símbolo de sua filmografia. Nessa versão século XXI, a ideia de manter um ator no papel mostrou-se novamente acertada. Além do choque de dar de cara com Travolta - um dos maiores símbolos sexuais do cinema nos anos 70/80 - bem acima do peso e na pele de uma personagem feminina, a decisão mostra com perfeição o espírito despido de preconceitos com que o filme chega a seu público. Nada mais adequado, aliás, já que a trama central fala justamente sobre discriminação. Apesar do tema, porém, que não se espere nenhum tratado sociológico. Com um registro leve e engraçado, "Hairspray" conquista pelo bom-humor e por seu compromisso único e exclusivo com a diversão.


Apesar de ser a presença sempre magnética de Travolta que mais chama a atenção do filme, sua Edna Turnblad não é a protagonista. O posto de personagem central ficou nas mãos da novata Nikky Blonsky, que interpreta a sonhadora Tracy, adolescente gordinha da pequena cidade de Baltimore que, no ano de 1962 (ou seja, no auge da luta pelos direitos civis dos afrodescendentes) passa os dias obcecada com "The Corny Collins Show", programa musical de TV que, para sua esperança, sofre um desfalque em seu elenco de dançarinas. Certa de que tem chances de ganhar a vaga - a ser disputada em um concurso - Tracy conta com a ajuda de seu amigo Seaweed (Elijah Kelley), que lhe ensina passos novos, discriminados como dança de gueto. Durante sua campanha para a vaga, Tracy toma contato com a discriminação racial do programa - que conta apenas com dançarinos brancos, dando espaço aos jovens negros apenas uma vez por mês - e do país como um todo, chamando a atenção da mídia e de Link Larkin (Zac Efron), jovem galã integrante do programa que se apaixona por ela, para desespero de sua "namorada" Amber Von Tessle (Brittany Snow). Quem também não gosta nada dessas novidades todas é a mãe de Amber, Velma (Michelle Pfeiffer), que também é gerente de programação da emissora que transmite o programa de Collins.

Conquistando desde seus créditos de abertura que mostram Tracy a caminho da escola, "Hairspray" tem a seu favor o ritmo adequado e o humor quase ingênuo, que reflete a época na qual se passa. Mesmo quando falam de temas sérios, o roteiro e a música fazem questão de lembrar o espectador de que eles estão assistindo a apenas uma comédia musical, sem maiores pretensões que não entreter. É essa sua falta de pretensão sua maior qualidade, além do elenco inspiradíssimo. Além de Travolta - que se diverte notadamente em cena e tem uma química invejável com seu marido na tela, Christopher Walken - a bela Michelle Pfeiffer mostra que não tem nada a temer com a idade, ficando com um papel que quase foi oferecido a Meryl Streep e Madonna. Zac Efron e Nikky Blonsky estão ótimos em seus papéis e se Queen Latifah não chega a ser totalmente aproveitada, ao menos não desparece diante de alguns números musicais realmente empolgantes.

Engraçado, divertido e leve, "Hairspray, em busca da fama" só perde um pouco seu ritmo em seu terço final - ainda que o recupere bravamente em seu desfecho. Mas é um entretenimento de primeira.

PRENDA-ME SE FOR CAPAZ

PRENDA-ME SE FOR CAPAZ (Catch me if you can, 2002, Dreamworks SKG, 141min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Jeff Nathanson, livro de Frank Abgnale Jr., Stan Redding. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Claudette Didul, Leslie A. Pope. Produção executiva: Barry Kemp, Laurie MacDonald, Tony Romano, Michael Shane. Produção: Walter F. Parkes, Steven Spielberg. Elenco: Tom Hanks, Leonardo DiCaprio, Christopher Walken, Martin Sheen, Nathalie Baye, Amy Adams, Jennifer Garner, James Brolin. Estreia: 25/12/02

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Christopher Walken), Trilha Sonora Original

Juntar no mesmo filme Steven Spielberg, Tom Hanks e Leonardo DiCaprio não tinha como dar errado. E não deu. No entanto, apesar da renda mundial de mais de 350 milhões de dólares, "Prenda-me se for capaz" desconcertou a crítica por sua mistura de gêneros. Ora uma comédia despretensiosa, ora um filme de ação com momentos dramáticos, a transposição para as telas da história real do Frank Abgnale Jr. não conquistou tantos prêmios quanto merecia. No mesmo ano em que "Chicago" fez a festa na cerimônia do Oscar, o filme de Spielberg teve que contentar-se com meras duas indicações: ator coadjuvante para Christopher Walken e trilha sonora original para o veterano John Williams.

Realizado por Spielberg logo depois de "A.I. - Inteligência artificial", "Prenda-me se for capaz" é nitidamente menos ambicioso em termos visuais e dramáticos. Assumindo a direção depois da desistência de David Fincher, Gore Verbinski, Cameron Crowe e Lasse Halstrom, o cineasta demonstra ter retomado o tom leve e divertido do início de sua carreira, deixando de lado os temas pesados de seus filmes dramáticos e com intenções a Oscar - incluindo aí o malfadado "Amistad", que morreu na praia de suas boas intenções. Da música espirituosa de Williams à fotografia esplêndida de Janusz Kaminski (que evita as sombras e apresenta um filme solar e alto-astral) tudo parece dizer ao público que sim, o diretor é o mesmo homem que esteve por trás (como produtor) de filmes essenciais ao entretenimento dos anos 80 e 90 que visavam a diversão pura e simples.

 

Baseado no livro autobiográfico escrito por Abgnale e Stan Redding, "Prenda-me se for capaz" começa em 1963, quando o jovem Frank (Leonardo DiCaprio) está com 19 anos e seus pais (Christopher Walken e Nathalie Baye) se separam. Abalado com a situação, o rapaz foge para Nova York, onde começa uma carreira como falsificador utilizando cheques que ganhou de presente de seu pai, a quem idolatra. Em pouco tempo ele consegue mais de 2 milhões de dólares e passa a ser perseguido pelo FBI, na figura de Carl Hanrattu (Tom Hanks), que fica obcecado em caçá-lo. Para fugir da polícia - e continuar sua vida de luxo e conforto- Frank se faz passar por piloto da Pan Am e médico, chegando a ficar noivo da tímida Brenda (Amy Adams). Entre ele e Hanratty surge, surpreendentemente, uma relação de admiração mútua.

É interessante como o roteiro de Jeff Nathanson tenta estabelecer uma espécie de relação paternal entre seus dois protagonistas, sem que para isso precise apelar para conceitos freudianos que fatalmente afastariam o grande público. Nas mãos experientes de Spielberg tudo soa menos sério e mais divertido. Mesmo que não seja exatamente uma comédia - ao menos não uma comédia de gargalhadas - "Prenda-me se for capaz" tem um clima de sessão da tarde descompromissada. O humor impresso por Nathanson é sutil e irônico e encontra no timing perfeito de Tom Hanks um intérprete ideal, enquanto DiCaprio deita e rola com uma personagem que é o sonho de qualquer jovem ator. Mesmo que contracenem bem pouco, os dois protagonistas são os principais responsáveis por elevar o nível de qualidade do filme, em performances exatas, seguradas por um elenco coadjuvante que jamais deixa a peteca cair: não apenas ChristopherWalken está soberbo como Frank Abgnale pai, mas também Nathalie Baye e Martin Sheen apresentam trabalhos dignos de nota - e até mesmo a participação rápida de Jennifer Garner não deixa de ser uma delícia.

"Prenda-me se for capaz" é mais uma prova de que Steven Spielberg é um diretor versátil, capaz de cativar o espectador contando qualquer tipo de história. E é um dos mais divertidos filmes de 2002, injustamente esquecido pelo Oscar.

segunda-feira

A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA

A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA (Sleepy hollow, 1999, Paramount Pictures, 105min) Direção: Tim Burton. Roteiro: Andrew Kevin Walker, história de Kevin Yagher, Andrew Kevin Walker, romance de Washington Irving. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Chris Lebenzon, Joel Negron. Música: Danny Elfman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Rick Heinrichs/Peter Young. Produção executiva: Francis Ford Coppola, Larry Franco. Produção: Scott Rudin, Adam Schroeder. Elenco: Johnny Depp, Christina Ricci, Christopher Walken, Miranda Richardson, Casper Van Dien, Michael Gambon, Jeffrey Jones, Lisa Marie, Christopher Lee. Estreia: 19/11/99

3 indicações ao Oscar: Fotografia, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Direção de Arte/Cenários

Um conto gótico de terror, estrelado por um detetive exótico, coadjuvado por bruxas e que contata com um vilão sem cabeça só poderia mesmo ser contado por Tim Burton. Em “A lenda do cavaleiro sem cabeça”, o cineasta buscou em uma história clássica americana a inspiração para mais um trabalho autoral, visualmente arrebatador. Dessa vez, porém, ele não conseguiu atingir a força de suas duas obras-primas “Edward Mãos de Tesoura” (1990) e “Ed Wood” (1994), sintomaticamente estreladas pelo mesmo Johnny Depp que aqui completa sua terceira colaboração com Burton.

Dessa vez Depp não interpreta um ser com tesouras no lugar das mãos nem mesmo um cineasta sem talento mas apaixonado por sua arte. Na história escrita no século XIX por Irving Washington e roteirizada por Andrew Kevin Walker (autor de “Seven”) ele vive Ichabod Crane, um detetive de métodos exóticos e passado traumático que é enviado de Nova York para uma cidadezinha do interior chamada Sleepy Hollow para investigar uma série de violentos crimes, onde as vítimas são decapitadas. Chegando no local, Crane logo fica sabendo que todos no vilarejo sabem que o culpado pelas mortes é um temido Cavaleiro Sem Cabeça, que quer vingar seu trágico fim. Sua investigação, no entanto, o leva a crer que os poderosos da cidade sabem bem mais do que revelam e ele então passa a correr sério risco de vida, enquanto se encanta com a doce Katrina (Christina Ricci), que também parece esconder segredos.



O visual de “A lenda do cavaleiro sem cabeça” é espetacular. Não há um ângulo sequer fotografado por Emmanuel Lubezki que não pareça uma pintura. A direção de arte (premiada com o Oscar da categoria) é impecável e algumas cenas são sublimes, apesar da violência. Apesar de tudo, falta ao filme um coração. Talvez por não ser uma história própria, onde poderia aproveitar sua criatividade a toda prova, Burton parece tímido, com medo de envolver-se emocionalmente na trama contada, o que fez muita diferença em seus trabalhos anteriores com Depp, aqui mais uma vez em sua persona cool, ainda que com os mesmos maneirismos de sempre e a eterna mania de parecer diferente e acrescentar um humor duvidoso à sua atuação, o que dilui consideravelmente a tensão da história.

Aliás, a opção de Burton em fugir da seriedade é que de certa forma estraga o prazer que se poderia tirar de "A lenda do cavaleiro sem cabeça". Se tivesse escolhido seguir um caminho mais dark, certamente o diretor faria jus à beleza plástica de sua obra, dando um toque de classe e sobriedade a um gênero que anda sempre perigosamente na corda bamba entre o grotesco e o patético. Nem mesmo a resolução do caso - quando os culpados são finalmente revelados e punidos - empolga dramaticamente, apesar de contar com um elenco de peso, onde destacam-se Miranda Richardson, Jeffrey Jones e um assustador Christopher Walken, que nem precisa falar para impressionar. A impressão que fica ao final da sessão é que algo muito importante ficou faltando. Não resta a menor dúvida de que Tim Burton é um cineasta de enorme talento e energia, mas “A lenda do cavaleiro sem cabeça” tem visual de mais pra história de menos.

sábado

PULP FICTION - TEMPO DE VIOLÊNCIA

PULP FICTION, TEMPO DE VIOLÊNCIA (Pulp fiction, 1994, Miramax Films/Jersey Films/A Band Apart, 154min) Direção: Quentin Tarantino. Roteiro: Quentin Tarantino, histórias de Quentin Tarantino e Lawrence Bender. Fotografia: Andrzej Sekula. Montagem: Sally Menke. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: David Wasco/Sandy Reynolds-Wasco. Produção executiva: Danny DeVito, Michael Shamberg, Stacey Sher. Produção: Lawrence Bender. Elenco: John Travolta, Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Uma Thurman, Harvey Keitel, Christopher Walken, Tim Roth, Amanda Plummer, Maria de Medeiros, Ving Rhames, Frank Whaley, Quentin Tarantino, Alexis Arquette. Estreia: Maio de 1994 (Festival de Cannes)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Quentin Tarantino), Ator (John Travolta), Ator Coadjuvante (Samuel L. Jackson), Atriz Coadjuvante (Uma Thurman), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Roteiro Original
Palma de Ouro no Festival de Cannes (Melhor Filme)

Já faz mais de quinze anos que "Pulp fiction" levou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e sua influência sobre o cinema americano - e mundial - ainda está longe de arrefecer. Primeiro filme de Quentin Tarantino depois de sua bombástica estreia - o violento "Cães de aluguel" - "Pulp fiction" pegou o mundo de surpresa ao subverter praticamente todas as regras pré-concebidas do cinemão comercial e apresentar um painel cru, engraçado e amoral de pessoas que circulam em um universo particularmente interessante ao cineasta. Desfilam pela tela - por cerca de duas horas e meia de duração - assassinos de aluguel, gângsteres de esquina, boxeadores fracassados e junkies irremediáveis. Vindo da cabeça de Tarantino - dono de um enciclopédico conhecimento sobre filmes B - não é de se estranhar nenhum detalhe de "Pulp fiction". O que é de deixar qualquer um surpreso é o fato do filme ter chegado pertinho de ganhar o Oscar máximo. Não chegou lá - ficou "apenas" com a estatueta de roteiro original - mas só concorrer ao lado de obras certinhas - excelentes, sem dúvida, mas pouco inovadoras - como "Forrest Gump" e "Um sonho de liberdade", já é motivo de choque.


Quentin Tarantino - assim como David Lynch e Pedro Almodovar - é uma espécie de deus de seu próprio universo. Em seus filmes qualquer coisa é possível, qualquer absurdo é compreensível e qualquer personagem é crível. Dentro de seu específico mundo - decorado e sonorizado com uma mistura de anos 60, 70 e 80 aparentemente sem nexo - ele conduz o espectador a situações bizarras sem dar espaço a questionamentos supérfluos. É somente dentro da obra sui generis do cineasta que matadores verborrágicos em vias de converter-se cruzam o caminho de foragidos ameaçados de morte que adiam a fuga para correr atrás de relíquias familiares - e que dão de cara com bizarros estupradores sadomasoquistas. Sim, isso é "Pulp fiction". Isso e muito mais.

Narrado fora de ordem cronológica - artifício que funciona à perfeição aqui, mas que virou quase uma praga em seu rastro, uma vez que qualquer filme "moderno" a utilizou sem parcimônia desde então - "Pulp fiction" começa apresentando um casal de assaltantes, Pumpkin (Tim Roth) e Honey Bunny (Amanda Plummer), que decide dar uma virada na vida e partir para ações mais ambiciosas e menos perigosas. Antes mesmo que sua história tenha um desfecho, o público é levado a conhecer Vincent Vega (John Travolta no mais consistente retorno de sua carreira) e Jules Winfield (Samuel L. Jackson), em vias de cumprir uma "missão" para seu chefe, o temível Marsellus Wallace (Ving Rhames). Tão logo o trabalho dos dois companheiros é finalizado, começa a história do encontro entre o desajeitado Vincent com Mia (Uma Thurman), a esposa de seu patrão, uma ex-atriz apaixonada por drogas pesadas que o leva a um pesadelo noturno ao sofrer uma overdose acidental. Em seguida, somos jogados na aventura de Butch Coolidge (Bruce Willis), um boxeador que, desafiando o combinado com seus contratadores - entregar uma importante luta - foge em disparada rumo aos braços da namorada, Fabienne (Maria de Medeiros), mas é obrigado a fazer uma retirada estratégica para recuperar o relógio de ouro que pertenceu a seu avô e a seu pai - só para ser vítima de um estranho sequestro ao lado de seu inimigo. E para finalizar tudo, Jules e Vincent são obrigados a chamar o eficiente Mr. Wolf (Harvey Keitel) para resolver um grave e sangrento acidente provocado com um tiro disparado sem querer.



Mesmo hoje, depois de dezenas de imitações baratas e sofríveis, "Pulp fiction" se mantém como revolucionário e impactante. Seu texto afiado (e principalmente repleto de uma naturalidade rara), sua trilha sonora sensacional (impossível não lembrar de sequências inteiras ao ouvir algumas de suas canções), sua absoluta falta de compromisso com o déja-vu e seu humor sardônico são marcas registradas de Tarantino e não são encontradas em quaisquer filmes que beberam de sua fonte. O estilo de Tarantino é legítimo, ao contrário de seus copiadores, e isso faz toda a diferença: o texto de "Pulp fiction soa orgânico e jamais forçado e encontra em seus atores os intérpretes ideais. E é nesse quesito que o cineasta mais influente da década de 90 se sobressai gritantemente: sem seu elenco, escalado a dedo, "Pulp fiction" provavelmente perderia muito de seu impacto.

Ainda que tenha sido John Travolta o mais festejado dos atores do filme - em um retorno que lhe deu uma merecida indicação ao Oscar - é difícil não se deixar fascinar pelos olhos hipnotizantes de Samuel L. Jackson (dono dos diálogos mais substanciais e cultuados da obra) ou seduzir pelo charme de Uma Thurman (que só aceitou fazer parte do elenco depois que o próprio diretor leu o roteiro todo pelo telefone). Tanto Jackson quanto Thurman concorreram à estatueta mais cobiçada do cinema e poderiam facilmente ter vencido. E é um duro golpe aos detratores que insistem em dizer que Tarantino não é bom diretor de atores ver o que ele consegue fazer com Bruce Willis, por exemplo, na melhor atuação de sua carreira, ou com Ving Rhames, um ator pouco conhecido alçado à categoria de assustador com sua performance como Marsellus Wallace - um gângster perigoso flagrado pelas câmeras hiperativas do cineasta em um momento de extrema fragilidade. E isso que nem é preciso falar de nomes consagrados como Harvey Keitel, Christopher Walken e Tim Roth, que apenas reiteram seu talento mesmo em pequenos papéis.

A força de "Pulp fiction" reside em suas inúmeras qualidades que, somadas, fazem dele o filme fundamental de sua época. Parte do inconsciente coletivo de uma legião de fãs da sétima arte, a obra-prima de Quentin Tarantino - se bem que quase todos os seus filmes o são - é um perfeito exemplo do quão inteligente, excitante e corajoso o cinema americano pode ser. Para ver, rever e trever, sempre com a mesma sensação de ineditismo.

O FRANCO-ATIRADOR


O FRANCO-ATIRADOR (The deer hunter, 1978, Universal Pictures, 182min) Direção: Michael Cimino. Roteiro: Deric Washburn, baseado em uma história de Michael Cimino, Deric Washburn, Louis Garfinkle, Quinn K. Redeker. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Peter Zinner. Música: Stanley Myers. Casting: Cis Corman. Produção: Michael Cimino, Michael Deeley, John Peverall, Barry Spikings. Elenco: Robert DeNiro, John Savage, John Cazale, Christopher Walken, Meryl Streep, George Dzunza, Chuck Aspegren. Estreia: 08/12/78

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Michael Cimino), Ator (Robert DeNiro), Ator Coadjuvante (Christopher Walken), Atriz Coadjuvante (Meryl Streep), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Som
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Michael Cimino), Ator Coadjuvante (Christopher Walken), Montagem, Som
Vencedor do Golden Globe de Melhor Diretor (Michael Cimino)


A guerra do Vietnã acabou em 1975 e não demorou muito para que alguns - corajosos - cineastas resolvessem mexer nas feridas ainda abertas do povo americano em relação à tragédia. Em 1978, nada menos do que dois filmes bastante interessantes e bem-sucedidos deram voz aos veteranos de um dos mais absurdos conflitos bélicos da história (se é que algum conflito bélico é menos do que absurdo...) Dirigido por Hal Ashby, "Amargo regresso" deu Oscars a Jane Fonda e Jon Voight, mas "O franco-atirador", de Michael Cimino, saiu-se ainda melhor, levando pra casa 5 estatuetas concedidas pela Academia, entre as quais as de Melhor Filme, Direção e Ator Coadjuvante. Em comum, os dois filmes tem, além da temática, uma visão humanista e a preocupação com as consequências psicológicas da guerra, tanto em quem lutou nela quanto nas pessoas que os rodeiam.

A trama de "O franco-atirador" passa-se basicamente em uma pequena cidade da Pensilvânia, que tem a indústria do aço como principal meio de subsistência. É lá que moram três amigos que estão às vésperas de embarcar para o Vietnã. Mike (Robert DeNiro), Nick (Christopher Walken) e Steven(John Savage) aproveitam o casamento do último para realizar uma espécie de festa de despedida antes do embarque - que só acontecerá depois de uma última caçada de cervos, um de seus hobbies e, talvez, um de seus últimos encontros com os amigos. Já na guerra, os amigos são feitos reféns, sofrem torturas físicas e psicológicas - em especial uma roleta-russa apavorante que virou marca registrada do filme. Depois de conseguirem fugir, no entanto, eles não mais parecem unidos. Steven volta pra casa sem as duas pernas e praticamente abandona a esposa e o filho pequeno. E ao chegar em sua cidade natal, Mike descobre que Nick não retornou do conflito e resolve buscá-lo, mesmo sendo apaixonado pela noiva dele, Linda (Meryl Streep). Chegando novamente no Vietnã, ele encontra seu melhor amigo em total desequilíbrio emocional.


O melhor em "O franco-atirador" não são suas cenas de guerra - ainda que sejam extremamente bem-feitas e realistas. O que mais chama atenção no filme de Cimino (que desfrutou de alguns momentos de glória antes de ver sua carreira afundar com o megalomaníaco "O portal do paraíso") é sua profunda compreensão humana, sua sensibilidade em lidar com as relações interpessoais traumáticas das personagens sem soar piegas ou exagerado. E para isso conta com um elenco nunca aquém do espetacular. Na pele de Mike, Robert DeNiro mais uma vez demonstra seu talento além do normal. Todas as suas cenas dramáticas são dignas de figurar entre os momentos de maior destaque na sua carreira: seu romance hesitante com Linda, sua relação de culpa com Steven e sua busca de redenção com Nick fecham um círculo de sentimentos que só mesmo alguém com o cacife de DeNiro poderia encarar com tal segurança. E cercado dos atores que ele está, não há como ter erro.

Meryl Streep (com sua primeira indicação ao Oscar) improvisou a maioria de suas falas, com o incentivo do diretor e transmite a intensidade de seus sentimentos contraditórios com a segurança de uma veterana - além de ter ameaçado abandonar o filme caso se concretizasse a ameaça de demissão do ator John Cazale, que estava morrendo de câncer durante a produção e de quem era noiva. Cazale terminou o filme (suas cenas foram as primeiras a ser filmadas) e morreu em seguida, deixando um legado de grandes filmes (os dois primeiros "O poderoso chefão" e "Um dia de cão" entre eles) e atuações intensas. John Savage, como Steven, passa a exata noção do desespero de um homem ao sentir-se privado de sua integridade física devido a uma violência sem razão e Christopher Walken levou sua estatueta de ator coadjuvante por seu trabalho impressionante como Nick, protagonista das duas cenas mais conhecidas do filme (e que foram responsáveis por uma onda de suicídios com roleta-russa nos anos subsequentes).

A longa sequência inicial de "O franco-atirador" não deixa de evocar as primeiras cenas de "O poderoso chefão" (que também começa com um casamento), mas ao contrário do filme de Copolla, aqui a violência que cobre o céu das personagens é menos glamourosa e mais crua e verdadeira. A guerra, em "O franco-atirador" é uma personagem a mais, um pesadelo constante na memória de seus veteranos e de seus familiares. Assim como o tiro único que deve matar o cervo do título original, ela é capaz de aniquilar a essência de felicidade dos seres humanos. A melancólica cena final, no bar em que os amigos costumavam se reunir, é de partir o coração. Não é de surpreender que tenha sido tão bem recebido na ocasião de seu lançamento: é um testamento vivo de um inconsciente coletivo em uma época marcada pela desilusão e pela tristeza.

Mais que um filme de guerra, "O franco-atirador" é um filme de pessoas lidando com ela e, como tal, um precioso estudo sobre a dor e a (falta de) esperança.

NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA


NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA (Annie Hall, 1977, United Artists, 93min) Direção: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen, Marshall Brickman. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Wendy Greene Bricmont, Ralph Rosenblum. Figurino: Ruth Morley. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Robert Drumheller, Justin Scoppa Jr. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Robert Greenhut. Produção: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Tony Roberts, Carol Kane, Shelley Duvall, Colleen Drewhurst, Christopher Walken. Estreia: 20/4/77

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Woody Allen), Ator (Woody Allen), Atriz (Diane Keaton), Roteiro Original
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Woody Allen), Atriz (Diane Keaton), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Comédia ou Musical (Diane Keaton)


Quando lançou "Noivo neurótico, noiva nervosa", em 1977, Woody Allen já não era nenhum iniciante. Já havia lançado sete filmes, todos comédias bastante elogiadas pela crítica, mas relegadas à espécie de limbo que é reservado ao gênero. Foi preciso que o mais neurótico dos cineastas nova-iorquinos incluísse toques de romantismo em sua obra para finalmente levar pra casa o Oscar de melhor filme, direção e roteiro. Mesmo que tenha fugido do padrão de sua obra até então, normalmente direcionada a um público específico, "Noivo neurótico" talvez seja o filme que melhor define sua carreira a partir daí. Já estão presentes em sua deliciosa comédia romântica (sim, ele também tem uma alma romântica) todos os elementos que que o cineasta iria amadurecer em seus inúmeros trabalhos posteriores, em maior ou menor grau: o humor geralmente judeu, neurótico, erudito e sofisticado que angariou tanto fãs fiéis quando detratores ferozes.

Basicamente “Noivo neurótico, noiva nervosa” é uma história de amor, sem tirar nem pôr. O protagonista Alvyn Singer (o próprio Allen praticamente inaugurando sua persona mundialmente conhecida) é um humorista infeliz com sua carreira na TV que se apaixona pela levemente neurótica Annie Hall (Diane Keaton, que viveu um romance com o diretor, inspirou a personagem e levou o Oscar de melhor atriz), que tenta tornar-se cantora. O romance dos dois evolui à medida em que eles passam a se conhecer melhor, mas as diferenças entre os dois começam a tornar-se empecilhos no caminho de sua felicidade. Nesse meio tempo, ela conhece um empresário musical (vivido pelo cantor Paul Simon) e ele tenta reconhecer em seus relacionamentos passados os sinais que o levaram à crise.


O que diferencia “Annie Hall” (o título original soa infinitamente melhor do que o nome equivocado da versão nacional, uma vez que os protagonistas nunca foram noivos) das outras comédias românticas é o fato de que, além de Allen estar anos-luz da imagem do galã dos tradicionais exemplares do gênero, suas personagens enfrentam problemas mais próximos da realidade do que seus congêneres. Nada de tramas rocambolescas ou vilões estereotipados (apesar do primeiro esboço do roteiro falar sobre um crime em primeiro lugar e deixar o romance em segundo plano). O que leva o romance de Alvyn e Annie à exaustão é a própria vida, com seus caminhos às vezes tão complicados. E a dor do fim de um relacionamento também pode servir como motivo de criação, a exemplo do protagonista, que escreve uma peça de teatro tentando resolver sua conflituosa e ao mesmo tempo carinhosa relação com sua amada - o que de certa forma também foi feito por Woody, uma vez que Annie, sua protagonista feminina é claramente inspirada em Diane Keaton (cujo nome verdadeiro é Diane Hall e tem o apelido de Annie). Keaton, inclusive, utiliza de suas próprias roupas em cena (e seu figurino foi bastante imitado na época, diga-se de passagem).

A criatividade do roteiro de Allen fica evidente em momentos de grandes ideias, como o desenho animado que defende as madrastas das histórias infantis, as legendas explicando os pensamentos das personagens enquanto travam sua primeira conversa e a cena em que Annie está literalmente com o pensamento longe de sua transa com o namorado. Isso sem falar em alguns das tiradas mais inspiradas e engraçadas da carreira do diretor ("Em Los Angeles eles não jogam o lixo fora, eles reciclam em forma de programas de televisão", vocifera Alvyn quando obrigado a visitar a Califórnia).

Anos depois de seu lançamento, “Noivo neurótico, noiva nervosa” pode ter perdido parte de seu frescor e de seu senso de novidade, mas os diálogos espertos escritos por Woody Allen e a bela homenagem feita à Diane, em um papel sob medida continuam tão atuais quanto em sua estreia.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...