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sexta-feira

GAROTA EXEMPLAR

GAROTA EXEMPLAR (Gone girl, 2014, 20th Century Fox, 149min) Direção: David Fincher. Roteiro: Gillian Flynn, romance de sua autoria. Fotografia: Jeff Cronenweth. Montagem: Kirk Baxter. Música: Trent Reznor, Atticus Ross. Figurino: Trish Summerville. Direção de arte/cenários: Donald Graham Burt/Douglas A. Mowat. Produção executiva: Leslie Dixon, Bruna Papandrea. Produção: Ceán Chaffin, Joshua Donen, Arnon Milchan, Reese Witherspoon. Elenco: Ben Affleck, Rosamund Pike, Neil Patrick Harris, Tyler Perry, Kim Dickens, Patrick Fugit, Sela Ward. Estreia: 26/9/14 (Festival de Nova York)

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Rosamund Pike)

Poucos cineastas norte-americanos em atividade parecem ter tanto gosto pelos desvãos da mente humana quanto David Fincher. Desde que mergulhou Brad Pitt e Morgan Freeman na busca por um serial killer que matava de acordo com os sete pecados capitais no já antológico “Seven, os sete crimes capitais”, em 1995, o homem que começou sua carreira cinematográfica brigando com a indústria por discordar dos rumos de seu primeiro filme – a saber, o terceiro capítulo da série “Alien”, lançado em 1992 – consagrou-se como um brilhante artesão da violência (nunca totalmente explícita, sempre estilizada e frequentemente dotada de uma paradoxal beleza). Foi assim que ele narrou a caça a um dos mais infames criminosos da história dos EUA no subestimado “Zodíaco” (2007) e deu personalidade própria ao remake do sueco “Os homens que não amavam as mulheres” (que deu à atriz Rooney Mara uma indicação ao Oscar 2012) – filmes adultos e sérios que tinham, em seu DNA, a coragem de contar, sem subterfúgios, histórias que, em mãos menos talentosas, poderiam descambar para o sadismo e/ou a pasteurização mais banal do gênero. Nada mais apropriado, portanto, que o nome de Fincher estampe os créditos de “Garota exemplar”, bem-sucedida (artística e comercialmente) adaptação de um dos romances policiais mais populares dos últimos anos. Imprimindo seu bom-gosto e sua obsessão perfeccionista em cada minuto de projeção, o diretor conseguiu o que parece cada dia mais difícil no cinemão americano: unir popularidade à qualidade artística. “Garota exemplar” é um triunfo em ambos os quesitos.
           
O romance de Gillian Flynn – também autora do roteiro conciso e inteligente – vendeu mais de seis milhões de exemplares pelo mundo, e era questão de tempo até que seus direitos fossem adquiridos para uma adaptação para o cinema. Foi a atriz Reese Witherspoon quem primeiro viu as possibilidades da trama e, creditada como produtora, quase assumiu também o papel principal. Mudou de ideia quanto ao trabalho diante das câmeras, foi fazer “Livre”, com Jean-Marc Valée (filme que lhe rendeu uma indicação ao Oscar) e deixou o caminho livre para que Fincher optasse pela inglesa Rosamund Pike – uma ilustre quase desconhecida que agarrou com unhas e dentes sua maior oportunidade até então. Foi um gol de placa. Não apenas Pike angariou calorosos elogios da crítica como acabou disputando a estatueta dourada justamente com Witherspoon – única indicação do filme, o que de imediato o coloca como um dos injustiçados da cerimônia de 2015. Não importa que o Oscar de melhor atriz tenha ficado com Julianne Moore em “Para sempre Alice” – um belo desempenho de uma atriz extraordinária: a atuação de Pike como Amy Dunne, a protagonista feminina de “Garota exemplar” teve o impacto de uma epifania, um sopro de novidade dentro de uma indústria como Hollywood, pródiga em criar estrelas pouco brilhantes. Descrever o porquê de tantos aplausos ao trabalho de Pike sem estragar as boas surpresas da trama do filme é tarefa inglória, mas pode-se dizer, sem medo de atrapalhar a delícia que é desvendar a história criada por Flynn, que a jovem atriz constrói não apenas uma Amy Dunne, e sim várias, de acordo com os ângulos variados que vão sendo mostrados pela câmera sempre esperta e surpreendente de Fincher e seu diretor de fotografia preferido, Jeff Cronenweth.



O filme em si começa na manhã do dia 05 de julho de 2010, em uma pequena cidade do Missouri, onde mora o jovem e atraente casal Nick e Amy Dunne – vividos por Ben Affleck e Rosamund Pike. O que era para ser um dia mais ou menos comum em suas vidas (o mais ou menos refere-se ao fato de ser o dia de seu aniversário de casamento) aos poucos torna-se o pesadelo de Nick: procurado no bar que mantém ao lado da irmã gêmea Margo (Connie Cun), ele chega em sua confortável e espaçosa casa para descobrir que Amy desapareceu misteriosamente – e os móveis revirados na sala não são um bom motivo para otimismo. O desaparecimento de Amy logo torna-se notícia na cidade, no estado e aos poucos no país, já que a jovem – linda, loura, gentil e saudável – é uma espécie de ídolo nacional através de uma série de livros infantis escritos por sua mãe e inspirados em sua vida. Como sempre acontece nesses casos, Nick torna-se o suspeito número 1 da polícia – representada principalmente pelos detetives Rhonda Boney (Kim Dickens) e Jim Gilpin (Patrick Fugit) – e tenta desesperadamente ajudar nas buscas e nas investigações, que incluem seu pai doente mental, vagabundos drogados que resultaram da decadência financeira da cidade e até mesmo antigos admiradores de Amy, que, segundo consta, sempre atraiu homens perigosos para sua volta.
            
O grande lance de inteligência de “Garota exemplar” – o livro e o filme em iguais medidas – é deixar que o espectador se envolva com a trama policial seguindo o raciocínio lógico do gênero, com suas regras e paradigmas, para depois, exatamente em sua metade, virar a mesa e expor um outro lado da questão, revelando então tudo aquilo que estava escondido na manga. As viradas no rumo da história se sucedem com parcimônia e naturalidade, levando o público a questionar-se continuamente: Nick é inocente ou culpado? Amy está realmente morta? Se não foi Nick quem cometeu o crime, quem foi? Houve, afinal, um crime? E a mais importante das questões, levantada mais explicitamente no romance e mais sutilmente em sua versão para as telas: qual o papel da verdade em um casamento? O quanto precisamos fingir para que possamos manter um relacionamento?
            
Essa questão crucial exposta por Gillian Flynn percorre todo o filme de David Fincher, que se recusa a tratar Nick Dunne como um homem errado hitchcockiano – afinal, ele também tem esqueletos no armário, mesmo que talvez seja inocente do crime pelo qual está sendo acusado – ou como um marido frio e calculista capaz de tramar a morte da mulher que aparentemente ama – e cuja morte lhe traria benefícios financeiros e a liberdade que ele vem ansiando. Sutilmente, o diretor vai mostrando todas as faces de seu protagonista, revelando aos poucos as camadas que revestem seu matrimônio. Para isso, ele conta com um recurso desprezado por roteiristas em geral mas que aqui funciona à perfeição: o diário de Amy, onde ela conta (através de narração em off e flashbacks) toda a sua história de amor com o marido, desde o encantamento inicial até a crise iniciada com problemas de dinheiro e a mudança de Nova York para a pequena cidade onde tem início a trama policial. Com uma edição absurdamente precisa (a cargo do mesmo Kirk Baxter que levou o Oscar por “A rede social” e “Os homens que não amavam as mulheres”, ambos de Fincher), as memórias de Amy, as investigações da polícia e as tentativas de Nick em provar sua inocência mesmo quando tudo aponta para sua culpa se entrelaçam em uma narrativa coesa, forte e visualmente dinâmica, em que se destaca a fotografia requintada e a trilha sonora discreta, quase minimalista, que surge apenas nos momentos em que se torna imprescindível.
            
Conseguindo manter a plateia sem fôlego até o minuto final da projeção – até mesmo daqueles que conhecem a história através das páginas do livro – David Fincher mostra, mais uma vez, que é um mestre na arte narrativa audiovisual. Não apenas arrancou de Ben Affleck uma atuação competente – o rosto quase impassível do ator acaba servindo muito bem ao propósito de manter a dúvida a respeito da real personalidade de seu personagem – como foi feliz em subverter algumas das regras básicas do gênero policial, ousando fazer do espectador o cúmplice silencioso e surpreso de uma das mais criativas mentes criminosas da literatura (e do cinema) dos últimos anos. Mesmo com algumas pequenas ressalvas – Neil Patrick Harris não convence muito como um antigo amor de Amy, que tem importância fundamental no desfecho da história, por exemplo – “Garota exemplar” é um filme extraordinário (mais um) na carreira brilhante de seu diretor. Sem ele tudo poderia ter sido bem menos feliz – como outra adaptação de livro de Gillian Flynn, o fraquíssimo “Lugares escuros”, mostra sem espaço para discussões.

quarta-feira

UMA LONGA QUEDA

UMA LONGA QUEDA (A long way down, 2014, Wildgaze Films/BBC Films, 96min) Direção: Pascal Chaumeil. Roteiro: Jack Thorne, romance de Nick Hornby. Fotografia: Ben Davis. Montagem: Chril Gill, Barney Pilling. Música: Dario Marianelli. Figurino: Odile Dicks-Mireaux. Direção de arte/cenários: Chris Oddy/Kate Guyan. Produção executiva: Christoph Daniel, Nick Hornby, Zygi Kamasa, Marc Schimdheiny, Thorsten Schumacher, Dario Suter. Produção: Finola Dwyer, Amanda Posey. Elenco: Pierce Brosnan, Toni Collette, Imogene Poots, Aaron Paul, Sam Neil, Rosamund Pike. Estreia: 10/02/14 (Festival de Berlim)

No começo dos anos 2000 não havia autor mais em voga dentro de Hollywood do que o inglês Nick Hornby. Com seu talento incomum para contar histórias simples protagonizadas por pessoas de carne e osso e recheadas de referências à cultura pop, ele viu dois de seus livros serem adaptados com enorme sucesso para as telas: "Alta fidelidade", estrelado por John Cusack chegou aos cinemas em 1999, e "Um grande garoto", com Hugh Grant em uma de suas melhores atuações, foi lançado em 2002 e chegou a concorrer ao Oscar de roteiro. Depois disso, ele viu seu "Febre de bola" ser transfigurado em uma adaptação pouco feliz em um filme quase ignorado pelo público e inverteu o caminho que costumava trilhar, passando de autor de romances transportados para a tela a roteirista de livros alheios - o que lhe rendeu indicações ao Oscar por "Educação" (2009) e "Brooklyn", que concorre à estatueta em 2016. Isso não significa, no entanto, que os produtores tenham esquecido sua obra. Um exemplo disso é "Uma longa queda", que mesmo sem ter a mesma qualidade quase impecável dos filmes estrelados por Cusack e Grant, ainda consegue ser um passatempo agradável e dono de um humor irônico e agradável - apesar de ter como tema central um assunto pouco palatável à grande audiência: o suicídio.

Tudo começa em uma noite de Ano-novo, quando Martin (Pierce Brosnan), um famoso apresentador de talk show chega ao topo de um prédio de Londres disposto a acabar com a própria vida, depois de um escândalo de sedução de uma menor que acabou com sua carreira. Antes mesmo de criar coragem para chegar às vias de fato, ele percebe a chegada de Maureen (Toni Colette), a mãe solteira de um rapaz doente, que também tem a intenção de acabar com seus problemas se atirando de cima do edifício. A eles juntam-se, logo em seguida, a rebelde Jess (Imogen Poots), filha de um influente político e que acaba de ser abandonada pelo namorado, e JJ (Aaron Paul, da série "Breaking bad"), um entregador de pizza que revela sofrer de câncer cerebral. Frustrados em seus planos, os quatro acabam por fazer um pacto que consiste em ajudar-se mutuamente e tentar resolver seus problemas. Antes do novo encontro, marcado para o Dia dos Namorados, porém, eles tornam-se muito mais próximos do que poderiam imaginar.


Mesmo sem o frescor romântico pop de "Alta fidelidade" e o sarcasmo niilista de "Um grande garoto", o resultado final de "Uma longa queda" é extremamente simpático e divertido, principalmente devido à química entre seus quatro atores centrais. Toni Collete, sempre ótima, volta a viver uma suicida saída da imaginação de Hornby (em "Um grande garoto" ela vivia a depressiva mãe do adolescente desajustado que dava título ao romance e ao filme) e conquista o espectador sem precisar fazer muito esforço. Pierce Brosnan sai-se muito bem na pele da constrangida celebridade em desgraça e Aaron Paul tem sua melhor chance no cinema como um jovem cheio de segredos que descobre o amor onde menos poderia esperar (e substitui à altura a escolha inicial, Emile Hirsch). E a jovem inglesa Imogen Poots - conhecida como a namorada de Anton Yelchin no remake de "A hora do espanto" - mostra-se talentosa o bastante para quase roubar a cena dos parceiros mais experientes. Nem mesmo a queda de ritmo no meio do filme prejudica a coesão atingida pelo cineasta francês Pascal Chaumeil - que dirigiu o simpático "Como arrasar um coração" e morreu aos 54 anos, em agosto de 2015 - e do roteiro delicado de Jack Thorne, oriundo de séries da televisão britânica. Sem buscar a lágrima ou o riso fáceis, o filme cativa principalmente pela sutileza, artigo raro em produções comerciais - não chega a ser surpresa que o filme tenha passado quase em branco pelas telas de cinema.

"Uma longa queda" não é um grande filme. Tem seus defeitinhos de ritmo e em algumas vezes parece quase superficial. Mas é agradável do início ao fim, não trata o espectador como bobo e tem um elenco que justifica plenamente uma sessão de hora e meia. Uma pedida excelente para uma tarde chuvosa ou momentos de tédio. Mais um filme digno da obra literária de Nick Hornby, um dos mais interessantes escritores de sua geração.

terça-feira

UM CRIME DE MESTRE

UM CRIME DE MESTRE (Fracture, 2007, New Line Cinema/Castle Rock Entertainment, 113min) Direção: Gregory Hoblit. Roteiro: Daniel Pyne, Glenn Gers, estória de Daniel Pyne. Fotografia: Kramer Morgenthau. Montagem: David Rosenbloom. Música: Jeff Dana, Mychael Danna. Figurino: Elisabetta Beraldo. Direção de arte/cenários: Paul Eads/Nancy Nye. Produção executiva: Toby Emmerich, Liz Glotzer, Hawk Koch. Produção: Charles Weinstock. Elenco: Anthony Hopkins, Ryan Gosling, David Strathairn, Rosamund Pike, Embeth Davidtz, Billy Burke, Fiona Shaw, Bob Gunton, Xander Berkeley, Zoe Kazan. Estreia: 11/4/07

Em seu filme de estreia, o cineasta Gregory Hoblit conquistou o público com uma instigante trama de tribunal que colocava frente a frente um advogado vaidoso e arrogante (Richard Gere) e um jovem sacristão acusado de matar violentamente um arcebispo. O filme era "As duas faces de um crime" e, além de ter dado a primeira chance no cinema a Edward Norton - que a aproveitou como poucos, chegando ao páreo do Oscar de coadjuvante - mostrou em Hoblit um cineasta correto e atencioso com os atores e o texto. Tais características são claras também em "Um crime de mestre", lançado mais de uma década depois e que, assim como em seu primeiro filme, junta em cena um ator veterano e um talento promissor, no caso, Anthony Hopkins - o eterno Hannibal Lecter - e Ryan Gosling, iniciando uma trajetória de bons papéis e filmes menos esquecíveis como "Cálculo mortal". E a menção ao mais famoso canibal do cinema não é casual: mesmo sendo um grande ator, é impossível não perceber em sua atuação como o milionário Ted Crawford traços bem nítidos do papel que lhe deu a estatueta da Academia.

O olhar frio, o calculismo e um certo tom de superioridade ao restante da humanidade são algumas  das similaridades entre Lecter e Crawford, um milionário do ramo da aviação que, ao descobrir o relacionamento extra-conjugal de sua esposa, Jennifer (Embeth Davidtz), planeja sua morte com requintes de artista: ao chegar em casa depois de um encontro com o amante, Jennifer é atingida com um tiro no rosto e é internada em coma. Acuado pela polícia dentro de sua mansão, Crawford confessa o crime e é preso imediatamente. O defensor público escalado para cuidar de seu caso é o ambicioso Willy Beachum (Ryan Gosling), jovem advogado em vias de dar um salto na carreira e tornar-se sócio de uma conceituada firma da qual faz parte a sedutora Nikki Gardner (Rosamund Pike) - com quem ele acaba se envolvendo romanticamente. Acontece que Beachum não está muito interessado no caso por considerá-lo perdido - o suspeito, afinal de contas, fez uma confissão à polícia e foi preso em flagrante. No entanto, uma surpresa na condução das preliminares do julgamento o faz mudar de ideia: defendendo a si mesmo diante do juiz, Crawford põe em dúvida a veracidade de sua confissão ao revelar, durante um depoimento, que o policial que o prendeu, Robert Nunnaly (Billy Burke), era o amante de sua mulher.


Por vezes o roteiro de "Um crime de mestre" exagera nas tecnicalidades do direito penal americano, mas nada que o público acostumado a uma constante dieta de filmes do gênero não consiga acompanhar sem dificuldade, principalmente porque Hoblit tem pleno domínio do ritmo de seu filme, impedindo qualquer queda no interesse pela trama. É lógico que o duelo de interpretações entre Gosling e Hopkins dá um molho especial à narrativa, fotografada com elegância e sofisticação em ângulos de câmera criativos e que enfatizam o tom de quebra-cabeças da história. E se Hopkins repete à exaustão os tiques que lhe deram fama, o jovem Gosling deita e rola com a oportunidade de contracenar com um dos monstros sagrados do cinema: ficando com o papel para o qual também foi testado Chris Evans - o futuro Capitão América das telas - ele entrega uma atuação visceral que lhe conduziu em seguida ao posto de uma das maiores promessas de Hollywood (não à toa, ele recebeu uma indicação ao Oscar de melhor ator por seu desempenho no independente "Half Nelson" às vésperas da estreia de "Um crime de mestre" nos EUA). Suas cenas com Hopkins - tensas e calcadas basicamente no talento dos atores - e com Rosamund Pike - banhadas em uma tensão sexual na dose certa - são, certamente, as melhores do filme.

"Um crime de mestre" não é um filme brilhante, mas tem qualidades o bastante para satisfazer o gosto dos fãs do gênero, com suas viradas, seus diálogos inteligentes e um final que, apesar de não atingir todo o seu potencial, é coerente e verossímil. Além do mais, nada é mais instigante do que testemunhar um duelo de interpretações entre dois ótimos atores de gerações diferentes. Um programa de nível para quem prefere utilizar o cérebro ao invés dos músculos.

quarta-feira

EDUCAÇÃO


EDUCAÇÃO (An education, 2009, BBC Films, 100min) Direção: Lone Scherfig. Roteiro: Nick Hornby, livro de Lynn Barber. Fotografia: John de Borman. Montagem: Barney Pilling. Música: Paul Englishby. Figurino: Odile Dicks-Mireaux. Direção de arte/cenários: Andrew McAlpine/Anna Lynch Robinson. Produção executiva: Douglas E. Hansen, Nick Hornby, Wendy Japhet, Jamie Laurenson, James D. Stern, David M. Thompson. Produção: Fiona Dwyer, Amanda Posey. Elenco: Carey Mulligan, Peter Sarsgaard, Alfred Molina, Cara Seymour, Dominic Cooper, Olivia Williams, Rosamund Pike, Emma Thompson. Estreia: 18/01/09 (Sundance)

3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Carey Mulligan), Roteiro Adaptado

Existem inúmeras maneiras de um filme conquistar seu público. Astros com cachês milionários, efeitos visuais de ponta, orçamentos estratosféricos, campanhas de marketing enlouquecedoras... Mas nada disso é suficiente se falta o essencial: gente. Pessoas, com sentimentos dúbios e por essa razão mesmo verdadeiros são ainda o principal motivo que faz com que duas horas no escurinho do cinema não sejam apenas 120 minutos de uma vida jogados fora. E é justamente esse senso de "humanismo" que gera filmes como "Educação", que, mesmo sem nenhum dos ingredientes citados acima conquistou seu lugar ao sol em várias listas de melhores filmes de 2009. Glória suprema? Indicações ao Oscar de melhor filme, melhor atriz (Carey Mulligan) e roteiro adaptado (trabalho a cargo do escritor Nick Hornby). Merecia mais.


"Educação" é baseado no livro de memórias de Lynn Barber e se passa na Inglaterra do início dos anos 60, tempo do existencialismo francês e da explosão do jazz. A protagonista é Jenny Mellor (vivida por uma Carey Mulligan impecável), uma adolescente de 16 anos, filha única, extremamente cobrada pelos pais (Alfred Molina e Cara Seymour), que a querem vê-la estudando em Oxford, como maneira de melhorar de vida. Seus objetivos, no entanto, começam a sofrer alterações quando ela conhece David Goldman (Peter Sarsgaard), um homem duas décadas mais velho, que, sedutoramente, a apresenta a um mundo totalmente novo. Ao lado dele e de um casal de amigos da mesma idade, Jenny passa a frequentar clubes noturnos, concertos de jazz, leilões de arte e até mesmo conhecer a Paris de seus sonhos. A princípio contra a vontade de seus pais e posteriormente incentivada por eles, a jovem inicia seu próprio processo de educação, chegando a questionar a formação acadêmica da escola onde estuda (e batendo de frente com algumas professoras, vividas pelas ótimas Olivia Williams e Emma Thompson).


Contar mais sobre "Educação" é tirar o grande prazer que é surpreender-se com sua elegância, sua classe, seu humor sutil e britânico, pontuado por uma cálida trilha sonora e uma reconstituição de época acima de qualquer crítica. A história de amor entre Jenny e David se desenrola em seu próprio ritmo, imposto pelas convenções sociais do período e pela decisão da protagonista em manter sua pureza até os 17 anos. É uma história sem maiores sobressaltos (com exceção do último e chocante) contada com delicadeza pela estreante Lone Scherfing e interpretada com talento de gente grande por Carey Mulligan (que merecia bem mais o Oscar do que a vencedora Sandra Bullock). Ao lado de veteranos das telas, a jovem Carey irradia frescor, inteligência e abre seu caminho para futuros e maiores voos.

quinta-feira

ORGULHO E PRECONCEITO

ORGULHO E PRECONCEITO (Pride & Prejudice, 2005, Focus Features/Universal Pictures, 127min) Direção: Joe Wright. Roteiro: Deborah Moggach, romance de Jane Austen. Fotografia: Roman Osin. Montagem: Paul Tothill. Música: Dario Marianelli. Figurino: Jacqueline Durran. Direção de arte/cenários: Sarah Greenwood/Katie Spencer. Produção executiva: Liza Chasin, Debra Hayward. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Paul Webster. Elenco: Keira Knightley, Matthew McFayden, Judi Dench, Rosamund Pike, Carey Mulligan, Donald Sutherland, Brenda Blethyn, Jena Malone, Talulah Riley. Estreia: 25/7/05

4 indicações ao Oscar: Atriz (Keira Knightley), Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de arte/cenários

Publicado em 1813, o romance "Orgulho e preconceito" acabou tornando-se o mais popular e amado dentre toda a obra da escritora inglesa Jane Austen - também autora de obras conhecidas que foram adaptadas para o cinema, como "Razão e sensibilidade" e "Emma". Transformado em filme pela primeira vez em 1940 - com Greer Garson e Laurence Olivier nos papéis principais - a história de amor entre a orgulhosa Elizabeth Benneth e o circunspecto Mr. Darcy sempre esteve no inconsciente coletivo das milhares de leitoras que nunca deixaram que a obra caísse no esquecimento. Porém, depois de uma bem-sucedida adaptação para a tv britânica em 1995 - mesmo ano em que Austen tornou-se febre entre os estúdios de cinema - parecia que não havia mais espaço para mais uma releitura. Foi aí que entrou em cena o cineasta Joe Wright, estreando com o pé direito no cinema.

Nascido em 1972 e egresso da televisão inglesa, Wright surpreendeu crítica e público ao assinar um filme elegante e que mantinha em perfeito equilíbrio o romance e o senso de humor da obra de Austen - algo que o bem mais experiente Ang Lee também havia conseguido na versão de "Razão e sensibilidade" de 1995. Sem preocupar-se com as adaptações anteriores, Wright construiu seu filme como se fosse uma história de amor inédita e surpreendente, e seu frescor fica patente logo em suas primeiras cenas, onde ele apresenta a barulhenta e vital família Bennett, liderada por um Donald Sutherland particularmente inspirado e uma Brenda Blethyn mostrando porque era uma das inglesas preferidas da Academia no final dos anos 90 - quando concorreu ao Oscar por "Segredos e mentiras" e "Little Voice, a voz de uma estrela". Os veteranos atores vivem os pais de uma ninhada de cinco meninas, todas em idade de arrumar um marido - de preferência ricos e bem educados. A protagonista é sua primogênita, Elizabeth (Keira Knightley), de personalidade forte e ideias à frente de seu tempo, que a levam a declinar de propostas tidas como irrecusáveis. Seu jeito pouco afeito às convenções sociais acabam por aproximá-la - e ao mesmo tempo afastá-la - do aparentemente esnobe Mr. Darcy (Matthew Macfadyen), um rico proprietário vizinho de sua família.



Tirando proveito do estilo gracioso e um tanto sardônico do romance de Jane Austen, "Orgulho e preconceito" é um vitorioso principalmente por não ter vergonha das origens plenamente folhetinescas e romanescas de seu original. O roteiro - que contou com a colaboração preciosa e não creditada de Emma Thompson - ao mesmo tempo em que descreve o estilo de vida de sua época com carinho e romantismo não deixa de criticá-lo de maneira sutil e divertida. A história de amor entre Elizabeth e Mr. Darcy, por exemplo, cede espaço em muitos momentos, para tramas paralelas sempre bastante interessantes e com os dois pés fincados no classicismo vitoriano de sua autora - tramas repletas de reviravoltas, mal-entendidos e principalmente amores eternos e dramáticos. E Wright tem a sorte - ou o talento de escolha - para contar com um elenco extraordinário, onde Donald Sutherland e Brenda Blethyn são apenas a ponta do iceberg.

Na pele de Elizabeth Bennett, a frágil Keira Knightley - em alta na época pelo sucesso de "Piratas do Caribe" - oferece uma de suas atuações mais felizes, onde mescla a força de sua personagem com uma delicadeza ímpar diante do amor. Matthew Macfadyen cria um Mr. Darcy impecável, rivalizando com dois grandes intérpretes da personagem, Laurence Olivier e Colin Firth. Mesmo que soe muito mais antipático do que deveria em um filme que apesar de tudo é uma história de amor, Macfadyen faz o contraponto perfeito à sutileza de Knightley - indicada ao Oscar por seu desempenho. Juntos, eles conseguem conquistar a audiência, que passa a torcer por seu final feliz logo que os dois cruzam os olhares - e dos quais vão adiante com diálogos de uma mordacidade deliciosa.

Fotografado com requinte e dono de uma reconstituição de época brilhante, "Orgulho e preconceito" não faz feio diante de suas versões anteriores, revelando em Joe Wright um cineasta competente e criativo - qualidades que seu trabalho seguinte, o estarrecedor "Desejo e reparação" deixaria ainda mais claro. Um programa obrigatório para os românticos.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...