BUBBLE (The bubble/Ha-Buah, 2006, Uchovsky Fox/Metro Productions, 90min) Direção: Eytan Fox. Roteiro: Eytan Fox, Gal Uchovsky. Fotografia: Yaron Scharf. Montagem: Yosef Grunfeld, Yaniv Rize. Música: Ivri Lider. Figurino: Oren Dar. Direção de arte/cenários: Oren Dar, Ido Dolev. Produção executiva: Leon Edery, Moshe Edery, Micky Rabinovitz, David Silber. Produção: Ronen Ben-Tal, Amir Feingold, Gal Uchovsky. Elenco: Ohad Knoller, Yousef 'Joe' Sweid, Daniella Wircer, Alon Freidmann, Zohar Liba. Estreia: 29/6/06
Tel Aviv, a segunda maior cidade de Israel, é frequentemente descrita como uma cidade cosmopolita e à parte - dentro do possível - dos violentos conflitos raciais que dividem o país. Justamente por isso apelidada carinhosamente de "A bolha", ela é o cenário e personagem de "Bubble", elogiado drama do diretor Eytan Fox, conhecido do público desde seu belo e romântico "Delicada relação" (2002) - que acompanhava de forma sensível o amor entre dois soldados israelitas. Novamente voltando sua câmera para uma história de amor homossexual - dessa vez com contornos políticos um pouco mais definidos e uma preocupação social mais explícita -, Fox consegue ser ainda mais feliz: premiado em diversos festivais de cinema voltados à comunidade LGBT, "Bubble" é um filme de várias camadas, com personagens bem desenvolvidos e uma trama que mescla romantismo e realismo em doses exatas - e que não se furta a criticar, de forma contundente, a cultura de ódio que separa judeus e palestinos.
Se Tel Aviv é chamada de "A bolha", o mesmo nome pode ser aplicado ao apartamento de um trio de amigos que moram na cidade e tentam levar a vida sem envolver-se em questões políticas. Noam (Ohad Knoller) acaba de sair de seu serviço militar e trabalha como vendedor em uma loja de discos; Yali (Alon Friedman) é gerente de um bar de propriedade de um casal de lésbicas; e Lulu (Daniella Wircer) é desenhista de moda. Seu pacto de manter-se longe de qualquer assunto que possa lhes fazer sair de seu mundo particular, porém, é alterado quando Noam conhece Ashraf (Yousef "Joe" Sweid), um árabe que chega à cidade de forma clandestina em busca de trabalho. Empregado por Yali e apaixonado por Noam, o rapaz precisa não apenas esconder sua origem mas também despistar seu modo de vida da própria família, que, conservadora, tem até um casamento arranjado para ele. A situação dramática de Ashraf - cujo cunhado é um importante membro do Jihad - acaba atingindo a todos, que passam a viver em constante tensão, e a fortalecer a relação entre ele e Noam, que não aceita ver sua relação ameaçada por questões religiosas.
Ao cercar sua dupla de protagonistas por coadjuvantes com histórias e dramas particulares - Lulu não se conforma com a atitude de um ex-amante que a abandonou depois de sua primeira noite e não enxerga que é alvo do amor platônico de um amigo; Yali vive uma relação de desejo e repulsa por um militar que conheceu no trabalho; a irmã de Ashraf está em vias de casar-se e é alvo da intolerância dos soldados da fronteira - o roteiro de "Bubble" cria um panorama rico e profundo de diferentes estilos de vida que fazem de Tel Aviv uma cidade com vida própria. Ao contrapor a rotina rígida dos árabes ortodoxos com a juventude que frequenta raves e assume uma existência desprovida de preconceitos de raça e orientação sexual, Eytan Fox traça um painel universal, retratando um mundo onde o moderno convive (nem sempre de forma harmoniosa) com o tradicional, e pessoas são vistas unicamente por sua religião e não por suas personalidades - únicas e ao mesmo tempo tão semelhantes. Fox equilibra com inteligência momentos românticos com sequências de tensão e busca até mesmo inserir humor quando é possível, amparado por uma trilha sonora eclética (que conta com a brasileira Bebel Gilberto) e por atuações inspiradas.
Com uma química transbordante entre seus atores principais - que transmitem a exata noção de familiaridade e intimidade que o roteiro exige - e um ritmo que vai envolvendo o espectador gradativamente até o final inesperado, "Bubble" é uma obra que ultrapassa a delimitação de "filme gay" - por mais que seu casal protagonista seja de homossexuais e outros gays tenham importância crucial na narrativa, sua intenção é jogar luz em um tema cada vez mais premente na sociedade mundial: a intolerância. A violência que está impregnada em cada sequência do filme, sempre à espreita e à espera de explodir, é a violência que existe em qualquer parte do mundo, contra gays, negros, indígenas, mulheres e praticantes de qualquer religião que não seja a "correta". Em seu filme, Fox deixa claro que é impossível permanecer dentro de uma bolha, distante do mundo: há sempre uma fresta por onde a realidade penetra, para fazer seus estragos - ou para despertar o melhor de cada um. "Bubble" é um filme que faz refletir enquanto conta sua história, e se emociona é porque consegue cativar o espectador com personagens humanos, verossímeis e encantadores, que parecem de carne e osso e que podem morar na casa ao lado. É um filme a ser descoberto e admirado por qualquer um que acredite no amor e na solidariedade.
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ALÉM DA FRONTEIRA
ALÉM DA FRONTEIRA (Out in the dark, 2012, Channel 10/Israel Film Fund, 96min) Direção: Michael Mayer. Roteiro: Michael Mayer, Yael Shafrir. Fotografia: Ran Aviad. Montagem: Maria Gonzales. Música: Mark Holden, Michael Lopez. Figurino: Hamada Atallah. Direção de arte: Sharon Eagle. Produção: Michael Mayer, Lihu Roter. Elenco: Nicholas Jacob, Michael Aloni, Jameel Khoury, Alon Pdut. Estreia: 07/9/12 (Festival de Toronto)
Houve um tempo em que o cinema de temática homossexual preocupava-se unicamente em levantar sua bandeira, como um ato de repúdio a um preconceito que existia até mesmo dentro da própria indústria do entretenimento. Com a relativa liberdade adquirida com os ares do século XXI, o risco que muitos atores corriam ao interpretar personagens gays foi-se transformando em uma forma de chamar a atenção para um nicho de mercado que gritava por atenção - e também como atalho para certa cobiçada estatueta dourada. Mas não apenas Hollywood descobriu que histórias sobre "o amor que não ousa dizer seu nome" de que falava Oscar Wilde são um campo rico de possibilidades. Filmes das mais variadas nacionalidades começaram a chegar às telas, retratando diversas realidades ligadas ao assunto, ainda que nem sempre de forma satisfatória. Um exemplo feliz, mesmo que pouco festejado junto à crítica e ao público é "Além da fronteira", uma produção israelense que acrescenta um explosivo ingrediente ao tema: a violenta rivalidade entre judeus e palestinos.
Nimr Mashrawi (Nicholas Jacob) é um jovem palestino que estuda Psicologia em Israel, graças a um Passe Estudantil que permite seu trânsito entre os dois países. Roy Schaefer (Michael Aloni) é um advogado tentando estabelecer sua carreira com a ajuda do pai, um respeitável e influente profissional. Os dois rapazes de apaixonam perdidamente apesar das diferenças culturais que contrapõem seus países de origem e do fato de Nimr esconder sua sexualidade da família - o irmão mais velho, a mãe viúva e a irmã em idade de arranjar um marido de acordo com os preceitos da religião. O relacionamento relativamente tranquilo entre os dois - que nem mesmo o preconceito velado dos aparentemente informados pais de Roy - sofre um abalo quando o passe de Nimr é repentinamente cancelado pelo Serviço Secreto Israelense, que ameaça desmascará-lo diante de sua família se ele não servir de informante em relação a atos terroristas em Tel Aviv. Separados, eles tentam encontrar uma solução para seu dilema, mas o que Roy nem desconfia é que Nimr está na verdade protegendo seu irmão, Nabil (Jameel Khoury), que esconde armas em sua casa. Tal segredo - e suas consequências - irá por em xeque o amor entre os dois.
Mesmo que não se aprofunde a contento em questões que poderiam elevar seu filme a um nível menos romântico e mais politicamente relevante, o cineasta Michael Mayer, também coautor do roteiro, consegue um feito e tanto. Sem apelar para cenas de sexo além das estritamente necessárias, ele estabelece o tom correto da relação entre seus protagonistas, centrada na admiração mútua e no carinho. É uma história de amor madura e honesta, com personagens que fogem do estereótipo gay festivo mas que também não tentam forjar uma virilidade ostensiva que escancaria um preconceito ao contrário. Na vida diária, Nimr e Roy são homens comuns, com suas vidas e desejos profissionais bem definidos e, principalmente no caso de Roy, bem resolvidos quanto à sua sexualidade. Juntos, se completam e rejeitam todas as forças que os podem separar. O roteiro faz questão de não criar entre eles nenhum tipo de conflito excessivo, como prova da confiança na potência do principal problema que eles irão enfrentar no ato final da trama, que joga a plateia em meio a uma sequência de acontecimentos que conduzem a um final corajosamente inesperado.
Fugindo à tentação de criar uma história de amor gay fofinha ou arrebatadoramente sexy, Mayer merece crédito também por discutir, ainda que superficialmente, um assunto ainda não devidamente explorado pelo cinema: a violência contra gays palestinos, vítimas frequentes de assassinatos pelas próprias famílias ou discriminados a ponto de expulsão do país. O roteiro apenas pincela de leve tais questões, preferindo focar-se na ameaça específica em relação ao casal central, mas já faz refletir e causa uma indignação que deve fazer aparecer, em breve, alguma história ainda mais contundente. "Além da fronteira" peca por não aprofundar seus personagens - a relação entre Nimr e a família poderia render muito mais, assim como o preconceito velado dos pais de Roy em relação à origem de Nimr - mas em momento algum os desrespeita ou os trata com condescendência. É honesto, é direto e é forte o bastante para envolver o espectador. É o que se espera de bom cinema, independente de suas ideias ou bandeiras.
Houve um tempo em que o cinema de temática homossexual preocupava-se unicamente em levantar sua bandeira, como um ato de repúdio a um preconceito que existia até mesmo dentro da própria indústria do entretenimento. Com a relativa liberdade adquirida com os ares do século XXI, o risco que muitos atores corriam ao interpretar personagens gays foi-se transformando em uma forma de chamar a atenção para um nicho de mercado que gritava por atenção - e também como atalho para certa cobiçada estatueta dourada. Mas não apenas Hollywood descobriu que histórias sobre "o amor que não ousa dizer seu nome" de que falava Oscar Wilde são um campo rico de possibilidades. Filmes das mais variadas nacionalidades começaram a chegar às telas, retratando diversas realidades ligadas ao assunto, ainda que nem sempre de forma satisfatória. Um exemplo feliz, mesmo que pouco festejado junto à crítica e ao público é "Além da fronteira", uma produção israelense que acrescenta um explosivo ingrediente ao tema: a violenta rivalidade entre judeus e palestinos.
Nimr Mashrawi (Nicholas Jacob) é um jovem palestino que estuda Psicologia em Israel, graças a um Passe Estudantil que permite seu trânsito entre os dois países. Roy Schaefer (Michael Aloni) é um advogado tentando estabelecer sua carreira com a ajuda do pai, um respeitável e influente profissional. Os dois rapazes de apaixonam perdidamente apesar das diferenças culturais que contrapõem seus países de origem e do fato de Nimr esconder sua sexualidade da família - o irmão mais velho, a mãe viúva e a irmã em idade de arranjar um marido de acordo com os preceitos da religião. O relacionamento relativamente tranquilo entre os dois - que nem mesmo o preconceito velado dos aparentemente informados pais de Roy - sofre um abalo quando o passe de Nimr é repentinamente cancelado pelo Serviço Secreto Israelense, que ameaça desmascará-lo diante de sua família se ele não servir de informante em relação a atos terroristas em Tel Aviv. Separados, eles tentam encontrar uma solução para seu dilema, mas o que Roy nem desconfia é que Nimr está na verdade protegendo seu irmão, Nabil (Jameel Khoury), que esconde armas em sua casa. Tal segredo - e suas consequências - irá por em xeque o amor entre os dois.
Mesmo que não se aprofunde a contento em questões que poderiam elevar seu filme a um nível menos romântico e mais politicamente relevante, o cineasta Michael Mayer, também coautor do roteiro, consegue um feito e tanto. Sem apelar para cenas de sexo além das estritamente necessárias, ele estabelece o tom correto da relação entre seus protagonistas, centrada na admiração mútua e no carinho. É uma história de amor madura e honesta, com personagens que fogem do estereótipo gay festivo mas que também não tentam forjar uma virilidade ostensiva que escancaria um preconceito ao contrário. Na vida diária, Nimr e Roy são homens comuns, com suas vidas e desejos profissionais bem definidos e, principalmente no caso de Roy, bem resolvidos quanto à sua sexualidade. Juntos, se completam e rejeitam todas as forças que os podem separar. O roteiro faz questão de não criar entre eles nenhum tipo de conflito excessivo, como prova da confiança na potência do principal problema que eles irão enfrentar no ato final da trama, que joga a plateia em meio a uma sequência de acontecimentos que conduzem a um final corajosamente inesperado.
Fugindo à tentação de criar uma história de amor gay fofinha ou arrebatadoramente sexy, Mayer merece crédito também por discutir, ainda que superficialmente, um assunto ainda não devidamente explorado pelo cinema: a violência contra gays palestinos, vítimas frequentes de assassinatos pelas próprias famílias ou discriminados a ponto de expulsão do país. O roteiro apenas pincela de leve tais questões, preferindo focar-se na ameaça específica em relação ao casal central, mas já faz refletir e causa uma indignação que deve fazer aparecer, em breve, alguma história ainda mais contundente. "Além da fronteira" peca por não aprofundar seus personagens - a relação entre Nimr e a família poderia render muito mais, assim como o preconceito velado dos pais de Roy em relação à origem de Nimr - mas em momento algum os desrespeita ou os trata com condescendência. É honesto, é direto e é forte o bastante para envolver o espectador. É o que se espera de bom cinema, independente de suas ideias ou bandeiras.
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