ROCK'N'ROLLA: A GRANDE ROUBADA (RocknRolla, 2008, Warner Bros/Dark Castle Entertainment, 114min) Direção e roteiro: Guy Ritchie. Fotografia: David Higgs. Montagem: James Herbert. Música: Steve Isles. Figurino: Suzie Harman. Direção de arte/cenários: Richard Bridgland/Debbie Moles. Produção executiva: Navid McIlhargey, Steve Richards. Produção: Steve Clark-Hall, Susan Downey, Guy Ritchie, Joel Silver. Elenco: Gerard Butler, Tom Wilkinson, Thandie Newton, Idris Elba, Tom Hardy, Mark Strong, Karel Roden, Tobby Kebbell, Ludacris, Jimi Mistry. Estreia: 04/9/98 (Festival de Toronto)
Um grupo de marginais pés-de-chinelo. Um mafioso que manda e desmanda no mercado imobiliário de Londres. Um roqueiro viciado em drogas que odeia o padrasto. Uma contadora sexy disposta a qualquer coisa para subir na vida. Um empresário russo com planos de construir um estádio na capital inglesa. Um capanga leal e dedicado. E uma dupla de empresários musicais tentando evitar o fechamento de suas casas noturnas. Com esses personagens falastrões, excêntricos e propensos a equilibrar o cérebro e as armas, o cineasta Guy Ritchie voltou às graças da crítica, depois do fracasso sucessivo de "Destino insólito", de 2002 (estrelado pela então esposa Madonna) e "Revólver", de 2005, que tentou arrancar uma atuação decente de Jason Statham. "Rock'n'Rolla: A grande roubada" não apenas lhe devolveu o prestígio perdido como lhe deu cacife suficiente para comandar uma nova versão de "Sherlock Holmes" (2009), com um orçamento milionário e grandes astros - Robert Downey Jr. e Jude Law - no elenco. Voltando a explorar o submundo criminoso londrino que lhe deu fama em seu filme de estreia, "Jogos, trapaças e dois canos fumegantes" (99), Ritchie atinge um equilíbrio admirável entre diversos gêneros (ação, policial, comédia) e confirma um estilo marcante de fazer cinema, influenciado pelo tom quase histérico de Quentin Tarantino mas dono de identidade própria.
Como é normal em sua filmografia, a trama de "Rock'n'Rolla" é complexa e com uma profusão de personagens que exige da plateia atenção absoluta: o centro do enredo é Lenny Cole (Tom Wilkinson), que fez fortuna intermediando negociações, muitas vezes de forma ilegal. Protetor de um grupo de bandidos intitulado Quadrilha Selvagem - liderada pelo carismático One Two (Gérard Butler) - e padrasto do roqueiro Johnny Quid (Toby Kebbell), Cole resolve ajudar o russo Uri Omovich (Karel Roden) a construir um estádio de futebol, utilizando, para isso, a influência de um vereador (Jimi Mistry) também chegado a uma propina. A partir daí, dois fatos independentes acabam por unir todos os personagens: o desaparecimento de um valioso quadro - emprestado por Uri à Cole e furtado por seu enteado - e o roubo dos sete milhões de euros destinados ao pagamento da construção do estádio. O roubo do dinheiro é responsabilidade de One Two e seus dois colegas mais fiéis - Mumbles (Idris Elba) e Bob (Tom Hardy) - e tem a cumplicidade da ambiciosa Stella (Thandie Newton), contadora e amante de Uri que acaba se deixando seduzir por One Two. Em volta de todas essas questões, existe também a dúvida dos integrantes da Quadrilha Selvagem a respeito de um informante que vem jogando seus integrantes na cadeia.
Recheando seu roteiro com diálogos espirituosos e situações surreais, Guy Ritchie oferece a seu público um desfile de sequências primorosas, editadas com inteligência e dotadas de um senso de humor admirável. A química entre Gérard Butler e Thandie Newton é explosiva, e a cena em que eles combinam seu segundo golpe em Uri é uma pérola de criatividade e tensão sexual. Tom Wilkinson mais uma vez demonstra porque é escolha certeira quando se trata de interpretar personagens arrogantes, e Tom Hardy rouba a cena na pele de um gângster homossexual apaixonado pelo melhor amigo e disposto a seduzir um advogado para descobrir quem lhe mandou para a cadeia - seu desempenho é tão incrível que foi a partir dele que Hardy cavou seu caminho em direção à glória do cinemão, sendo dirigido por Christopher Nolan em "A origem" (2010) e "Batman: O Cavaleiro das Trevas ressurge" (12). Dono de um humor singular, Ritchie não hesita em colocar na boca de seus personagens falas quase constrangedoras, mas que soam verossímeis e imprescindíveis ao desenvolvimento da complexa trama, que corre diante dos olhos do espectador com um ritmo alucinante e com um visual caprichado, que mostra sua evolução como cineasta. Brincando com os clichês do gênero ao mesmo tempo em que os reverencia, ele consegue resultado superior a outro de seus bem-sucedidos produtos, "Snatch: porcos e diamantes" (2001), estrelado por Brad Pitt e Benicio Del Toro.
"Rock'n'Rolla" é entretenimento de primeira, mas é bom que se avise que talvez sua trama exale testosterona demais para que seja apreciado pelo público feminino com o mesmo ardor do masculino. As piadas a um passo do preconceito, a grosseria incurável dos personagens e o excesso de palavrões podem afastar aos mais sensíveis, mas no fundo o filme de Guy Ritchie é uma grande brincadeira com os elementos do cinema policial - em especial dos anos 70. Extremamente à vontade como galã bagaceiro, Gérard Butler está em um de seus melhores desempenhos e sublinha com ironia e deboche todas as nuances da trama - que apesar da promessa da última cena, ainda não rendeu uma continuação. Infelizmente.
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sábado
PARA MAIORES
PARA MAIORES (Movie 43, 2013, Relativity Media, 94min) Direção: Elizabeth Banks, Steven Brill, Steve Carr, Rusty Candief, James Duffy, Griffin Dunne, Peter Farrelly, Patrik Forsberg, Will Graham, James Gunn, Brett Ratner, Jonathan van Tulleken. Roteiro: Rocky Russo, Jeremy Sosenko, Ricky Blitt, Bill O'Malley, Will Graham, Jack Kukoda, Matt Portenoy, Claes Kjellstrom, Jonas Wittenmark, Tobias Carlson, Will Carlough, Jonathan van Tulleken, Elizabeth Shapiro, Patrik Forsberg, Olle Sarri, Jacob Fleisher, Greg Pritkin, James Gunn. Fotografia: Mattian Anderssonn Rudh, Frank G. DeMarco, Steve Gainer, Matthew F. Leonetti, Daryn Okada, William Rexer, Eric Scherbarth, Newton Thomas Sigel, Tim Suhrstedt. Montagem: Debra Chiate, Patrick J. Don Vito, Suzy Elmiger, Mark Helfrich, Craig Herring, Myron I. Kerstein, Joe Randall-Cutler, Sam Seig, Cara Silverman, Sandy S. Solowitz, Jonathan van Tulleken, Hakan Warn, Paul Zucker. Música: Tyler Bates, Christophe Beck, Leo Birenberg, William Goodrum, Dave Hodge. Figurino: Anna Bingemann, Nancy Ceo, Roseanne Fiedler, Florence Kemper, Judianna Makovsky, Sydney Maresca, Salvador Pérez Jr.. Direção de arte/cenários: Toby Corbett, Jade Healy, Nolan Hooper, Robb Wilson King, Dina Lipton, Happy Massee, Arlan Jay Vetter, Inbal Weinberg/Jasmine E. Ballou, Robert Covelman, Andrea Mae Fenton, Isaac Gabaeff, Amber Haley, Jean Landry, Lance Lombardo, Jessica Panuccio, Halina Siwolop. Produção executiva: Ron Burkle, Jason Felts, Tucker Tooley, Tim Williams. Produção: Peter Farrelly, Ryan Kavanaugh, John Penotti, Charles B. Wessler. Elenco: Hugh Jackman, Kate Winslet, Liev Schreiber, Naomi Watts, Anna Faris, Chris Pratt, Kieran Culkin, Emma Stone, Richard Gere, Kate Bosworth, Justin Long, Jason Sudeikis, Uma Thurman, Bobby Cannavale, Kristen Bell, Christopher Mintz-Plasse, Chloe Grace Moretz, Gerard Butler, Sean William Scott, Johnny Knoxville, Halle Berry, Stephen Merchant, Terrence Howard, Elizabeth Banks, Josh Duhamel. Estreia: 25/01/13
A primeira pergunta que surge na cabeça do espectador enquanto sobem os créditos finais da comédia "Para maiores" é a tradicional em casos do tipo: "Por que diabos atores tão bons e tão consagrados aceitaram fazer essa porcaria?" De fato a lista de nomes envolvidos no projeto é de causar inveja a qualquer diretor de elenco de Hollywood - há desde indicados e vencedores do Oscar, como Hugh Jackman, Kate Winslet e Halle Berry, até astros em franca ascensão, como Emma Stone, Chris Pratt e Chloe Grace Moretz - especialmente se for levado em consideração que o orçamento total não ultrapassou os seis milhões de dólares, o que normalmente não paga nem um terço do cachê de alguns dos atores escalados. Mas a gritaria quase unânime contra o filme - apedrejado sem dó nem piedade por crítica e público - não deixa de ser um tanto quanto exagerada. Ok, o humor de alguns quadros está realmente no limite do bom-gosto e nem sempre funciona como poderia. Tudo bem, a história que os liga é pífia e em muitos momentos tem-se a nítida impressão de que o roteiro foi escrito por um grupo de adolescentes escatológicos no auge da puberdade. Mas outros grandes sucessos de bilheteria também não eram exatamente assim? Não é à toa que um dos roteiristas e diretores do filme seja Peter Farrelly - um dos irmãos responsáveis por "Debi & Loide", que, apesar de ter o mesmo tipo de humor, serviu de trampolim milionário para a carreira de Jim Carrey.
Talvez o maior estranhamento em relação à "Para maiores" seja justamente o fato de contar com atores de prestígio e respeito se prestando a situações constrangedoras normalmente relegadas a elencos de segundo ou terceiro escalões. Não é sempre que se vê Hugh Jackman interpretando um homem com os testículos localizados no queixo ou Halle Berry fazendo guacamole com um seio. Sim, é esse o nível de humor do filme, que usa e abusa do politicamente incorreto e de algumas piadas francamente ofensivas para conquistar as gargalhadas da audiência. De acordo com a bilheteria - pouco mais de 8 milhões em casa, cerca de 23 no mercado internacional - nem todo mundo entendeu (ou quis entender) a brincadeira. O estigma de humor pouco sofisticado pesou mais do que o elenco milionário, mas não é difícil de imaginar que, deixando o preconceito de lado (junto com qualquer tipo de suscetibilidade), o público possa ter alguns bons momentos de diversão, mesmo que jamais assuma isso diante dos outros.
Quem quiser encarar o desafio de experimentar a brincadeira quase insana que é "Para maiores" tem que se preparar para quase tudo. Literalmente. Tudo começa quando dois adolescentes, em busca de vingança contra um amigo nerd, falam a ele sobre a existência de um filme maldito, proibido em todos os países do mundo e que só pode ser localizado no submundo da Internet. Tal premissa - boba como convém - serve como elo de ligação entre todos os esquetes da produção, que fazem as vezes de alguns dos filmes encontrados durante a procura dos jovens. A partir daí é bobagem atrás de bobagem, com níveis variáveis de graça e escatologia. Se não, vejamos: no primeiro encontro com um solteirão cobiçadíssimo (Hugh Jackman), uma mulher (Kate Winslet) descobre que ele tem uma particularidade física desconcertante; Naomi Watts e Liev Schreiber (casados na vida real) contam a um casal de amigos como fazem para fazer de seu lar o ambiente escolar ideal para o filho adolescente que estuda em casa; às vésperas de pedir sua namorada (Anna Faris) em casamento, rapaz (Chris Pratt, casado com Faris também atrás das câmeras) se surpreende com uma proposta pouco usual da moça para apimentar suas relações sexuais; caixa de um supermercado (Kieran Culkin) reencontra a namorada (Emma Stone) e resolve por a relação em pratos limpos esquecendo de desligar o microfone e faz todos os clientes de testemunhas de suas palavras pouco sutis.
A sessão de humor descompromissado segue adiante mostrando uma reunião de acionistas de um IPod em forma de boneca que vem mutilando os pênis dos usuários adolescentes e que encontra no diretor da empresa (Richard Gere) um empecilho para as mudanças necessárias solicitadas por uma colega do sexo oposto (Kate Bosworth); Justin Long aparece como Robin, que frequenta uma sessão de encontros-relâmpagos e dá de cara com Lois Lane (Uma Thurman), a Supergirl (Kristen Bell), o Batman (Jason Sudeikis) e o Superman (Bobby Cannavale); Chloe Grace Moretz é uma adolescente que tem a primeira menstruação na casa do namorado e, desesperada, não consegue a ajuda dele e do cunhado (Christopher Mintz-Plasse) para resolver o problema; para limpar a barra com o melhor amigo (Sean William Scott), Johnny Knoxville lhe dá de presente um duende irlandês desbocado e violento (Gerard Butler), o que irá lhes causar grandes dores de cabeça (e em outras partes do corpo); Halle Berry e Stephen Merchant se encontram às cegas e iniciam uma brincadeira de "Verdade ou desafio" que logo descamba para consequências impensáveis; Terrence Howard é um treinador de basquete dos anos 50 que tenta convencer seus atletas negros que eles tem possibilidade de vencer os rivais brancos somente porque são negros; e Elizabeth Banks (diretora do esquete estrelado por Chloe Grace Moretz) tenta, no último quadro, convencer seu noivo (Josh Duhamell) que o gato que ele trata como filho a odeia e nutre por ele sentimentos pouco fraternais e muito sexuais.
É de frequente mau-gosto? Sim. É ofensivo e por vezes inacreditável? Também. Mas "Para maiores" atinge plenamente seu objetivo de jogar para o alto o politicamente correto que vem minando a comédia no cinema e fazer rir, mesmo que de nervoso. Como cinema - em termos técnicos e narrativos - é uma nulidade, mas sua coragem em nadar contra a corrente merece ser louvada até mesmo por todos aqueles que rejeitam ferozmente seu resultado final. Não é uma comédia para todo mundo - pode-se até dizer que é para poucos, em um extremo oposto à sofisticação de Woody Allen, por exemplo - mas pode encontrar seu público, desde que este esteja disposto a mergulhar sem medo na baixaria explícita de um filme que jamais se leva a sério. Questão apenas de querer se arriscar!
A primeira pergunta que surge na cabeça do espectador enquanto sobem os créditos finais da comédia "Para maiores" é a tradicional em casos do tipo: "Por que diabos atores tão bons e tão consagrados aceitaram fazer essa porcaria?" De fato a lista de nomes envolvidos no projeto é de causar inveja a qualquer diretor de elenco de Hollywood - há desde indicados e vencedores do Oscar, como Hugh Jackman, Kate Winslet e Halle Berry, até astros em franca ascensão, como Emma Stone, Chris Pratt e Chloe Grace Moretz - especialmente se for levado em consideração que o orçamento total não ultrapassou os seis milhões de dólares, o que normalmente não paga nem um terço do cachê de alguns dos atores escalados. Mas a gritaria quase unânime contra o filme - apedrejado sem dó nem piedade por crítica e público - não deixa de ser um tanto quanto exagerada. Ok, o humor de alguns quadros está realmente no limite do bom-gosto e nem sempre funciona como poderia. Tudo bem, a história que os liga é pífia e em muitos momentos tem-se a nítida impressão de que o roteiro foi escrito por um grupo de adolescentes escatológicos no auge da puberdade. Mas outros grandes sucessos de bilheteria também não eram exatamente assim? Não é à toa que um dos roteiristas e diretores do filme seja Peter Farrelly - um dos irmãos responsáveis por "Debi & Loide", que, apesar de ter o mesmo tipo de humor, serviu de trampolim milionário para a carreira de Jim Carrey.
Talvez o maior estranhamento em relação à "Para maiores" seja justamente o fato de contar com atores de prestígio e respeito se prestando a situações constrangedoras normalmente relegadas a elencos de segundo ou terceiro escalões. Não é sempre que se vê Hugh Jackman interpretando um homem com os testículos localizados no queixo ou Halle Berry fazendo guacamole com um seio. Sim, é esse o nível de humor do filme, que usa e abusa do politicamente incorreto e de algumas piadas francamente ofensivas para conquistar as gargalhadas da audiência. De acordo com a bilheteria - pouco mais de 8 milhões em casa, cerca de 23 no mercado internacional - nem todo mundo entendeu (ou quis entender) a brincadeira. O estigma de humor pouco sofisticado pesou mais do que o elenco milionário, mas não é difícil de imaginar que, deixando o preconceito de lado (junto com qualquer tipo de suscetibilidade), o público possa ter alguns bons momentos de diversão, mesmo que jamais assuma isso diante dos outros.
Quem quiser encarar o desafio de experimentar a brincadeira quase insana que é "Para maiores" tem que se preparar para quase tudo. Literalmente. Tudo começa quando dois adolescentes, em busca de vingança contra um amigo nerd, falam a ele sobre a existência de um filme maldito, proibido em todos os países do mundo e que só pode ser localizado no submundo da Internet. Tal premissa - boba como convém - serve como elo de ligação entre todos os esquetes da produção, que fazem as vezes de alguns dos filmes encontrados durante a procura dos jovens. A partir daí é bobagem atrás de bobagem, com níveis variáveis de graça e escatologia. Se não, vejamos: no primeiro encontro com um solteirão cobiçadíssimo (Hugh Jackman), uma mulher (Kate Winslet) descobre que ele tem uma particularidade física desconcertante; Naomi Watts e Liev Schreiber (casados na vida real) contam a um casal de amigos como fazem para fazer de seu lar o ambiente escolar ideal para o filho adolescente que estuda em casa; às vésperas de pedir sua namorada (Anna Faris) em casamento, rapaz (Chris Pratt, casado com Faris também atrás das câmeras) se surpreende com uma proposta pouco usual da moça para apimentar suas relações sexuais; caixa de um supermercado (Kieran Culkin) reencontra a namorada (Emma Stone) e resolve por a relação em pratos limpos esquecendo de desligar o microfone e faz todos os clientes de testemunhas de suas palavras pouco sutis.
A sessão de humor descompromissado segue adiante mostrando uma reunião de acionistas de um IPod em forma de boneca que vem mutilando os pênis dos usuários adolescentes e que encontra no diretor da empresa (Richard Gere) um empecilho para as mudanças necessárias solicitadas por uma colega do sexo oposto (Kate Bosworth); Justin Long aparece como Robin, que frequenta uma sessão de encontros-relâmpagos e dá de cara com Lois Lane (Uma Thurman), a Supergirl (Kristen Bell), o Batman (Jason Sudeikis) e o Superman (Bobby Cannavale); Chloe Grace Moretz é uma adolescente que tem a primeira menstruação na casa do namorado e, desesperada, não consegue a ajuda dele e do cunhado (Christopher Mintz-Plasse) para resolver o problema; para limpar a barra com o melhor amigo (Sean William Scott), Johnny Knoxville lhe dá de presente um duende irlandês desbocado e violento (Gerard Butler), o que irá lhes causar grandes dores de cabeça (e em outras partes do corpo); Halle Berry e Stephen Merchant se encontram às cegas e iniciam uma brincadeira de "Verdade ou desafio" que logo descamba para consequências impensáveis; Terrence Howard é um treinador de basquete dos anos 50 que tenta convencer seus atletas negros que eles tem possibilidade de vencer os rivais brancos somente porque são negros; e Elizabeth Banks (diretora do esquete estrelado por Chloe Grace Moretz) tenta, no último quadro, convencer seu noivo (Josh Duhamell) que o gato que ele trata como filho a odeia e nutre por ele sentimentos pouco fraternais e muito sexuais.
É de frequente mau-gosto? Sim. É ofensivo e por vezes inacreditável? Também. Mas "Para maiores" atinge plenamente seu objetivo de jogar para o alto o politicamente correto que vem minando a comédia no cinema e fazer rir, mesmo que de nervoso. Como cinema - em termos técnicos e narrativos - é uma nulidade, mas sua coragem em nadar contra a corrente merece ser louvada até mesmo por todos aqueles que rejeitam ferozmente seu resultado final. Não é uma comédia para todo mundo - pode-se até dizer que é para poucos, em um extremo oposto à sofisticação de Woody Allen, por exemplo - mas pode encontrar seu público, desde que este esteja disposto a mergulhar sem medo na baixaria explícita de um filme que jamais se leva a sério. Questão apenas de querer se arriscar!
terça-feira
A VERDADE NUA E CRUA
A VERDADE NUA E CRUA (The ugly truth, 2009, Lakeshore Entertainment,
96min) Direção: Robert Luketic. Roteiro: Nicole Eastman, Karen McCullah,
Kristen Smith, estória de Nicole Eastman. Fotografia: Russell
Carpenter. Montagem: Lisa Zeno Churgin. Música: Aaron Zigman. Figurino:
Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: Missy Stewart/Kathy Lucas.
Produção executiva: Katherine Heigl, Nancy Heigl, Ryan Kavanaugh, Andre
Lamal, Karen McCullah, Eric Reid, Kirsten Smith. Produção: Kimberly Di
Bonaventura, Gary Lucchesi, Deborah Jelin Newmyer, Steven Reuther, Tom
Rosenberg. Elenco: Katherine Heigl, Gerard Butler, Bree Turner, Eric
Winter. Estreia: 16/7/09
Desde que Meg Ryan abandonou o posto de "namoradinha da América" - um pouco para fugir do estereótipo limitatório da alcunha e um pouco porque passou da idade de ser a eterna mocinha romântica como o fez Doris Day nos anos 50 - seu posto foi rapidamente cobiçado por Katherine Heigl, estrela da telessérie "Grey's anatomy", que encontrou no gênero a porta mais fácil para fazer a transição entre a televisão e o cinema. Estrela de filmes agradáveis e simpáticos mas nunca brilhantes - como "Vestida para casar" e "Ligeiramente grávidos" - Heigl emplacou mais um sucesso em sua carreira com "A verdade nua e crua", que arrecadou quase 90 milhões de dólares somente nos EUA e acrescentou dois ingredientes até então inédito em sua filmografia água-com-açúcar: uma boa dose de sarcasmo e uma ousadia que beira o vulgar (apesar de funcionar às mil maravilhas), cortesia de seu parceiro de cena, Gerard Butler.
O escocês Butler - que estreou no cinema em 1997 com um papel pequeno em "Sua Majestade, Mrs. Brown" mas só começou a ser notado na segunda aventura da heroína Lara Croft, "A origem da vida", dando início a uma carreira eclética e a uma legião de fãs que se consolidou com "300" e "O fantasma da Ópera" - faz o contraponto perfeito a Heigl, exercitando com visível prazer seu lado cafajeste na pele de Mike Chadway, um apresentador de TV que faz sucesso ao revelar, sem subterfúgios, os pensamentos masculinos sobre os relacionamentos amorosos. Aplaudido pelos homens e disputado pelas mulheres, Chadway acaba contratado pela emissora onde Abby Richter (Heigl) trabalha como produtora. Solteira por jamais encontrar em um homem todas as qualidades que procura, ela antipatiza de cara com seu novo colega, mas acaba concordando - até mesmo por falta de alternativas - em deixar que ele a aconselhe em seu processo de conquista de Colin (Eric Winter), seu vizinho médico em quem ela está interessada.
Mesmo discordando das táticas machistas e aparentemente rudes de Mike, Abby vai aos poucos seduzindo seu alvo, sem perceber que na verdade o que está acontecendo é a típica situação de filmes do gênero: os opostos estão novamente se atraindo e ela e Chadway só precisam notar que foram feitos um para o outro.
A maneira com que tal desfecho chegará é conduzindo por Robert Luketic - que transformou Reese Witherspoon em estrela com "Legalmente loira" - sem medo de ofender aos mais suscetíveis. O roteiro não se furta a criar situações vexaminosas para Abby (o jantar no qual ela veste uma calcinha vibratória talvez seja a mais divertida delas) ou por na boca de Mike termos pouco vistos em comédias românticas, normalmente um reduto do politicamente correto. Butler se desvencilha com facilidade da tarefa de dar vida a seu personagem, um adorável canalha com um grau de carisma que ameniza até a mais cabeluda das barbaridades proferidas e Heighl não avança muito mais do que demonstrou anteriormente, o que evidencia que seu repertório de caras e bocas não é dos mais amplos. A química entre a dupla, porém, funciona bastante bem e conduz a trama até seu final - pena que o filme pareça mais longo do que é devido ao clímax forçado em um campeonato de balonagem que pouco acrescenta ao conjunto.
"A verdade nua e crua" é um típico filme de Katherine Heigl - que também assina como produtora executiva. Agrada aos fãs do estilo, mas não tem pretensões de mudar o mundo. Ainda assim, tem a vantagem de também conquistar o público masculino, que certamente se identificará com muitas das ideias tidas como machistas de Mike Chadway. Bom divertimento para quem procura um passatempo.
Desde que Meg Ryan abandonou o posto de "namoradinha da América" - um pouco para fugir do estereótipo limitatório da alcunha e um pouco porque passou da idade de ser a eterna mocinha romântica como o fez Doris Day nos anos 50 - seu posto foi rapidamente cobiçado por Katherine Heigl, estrela da telessérie "Grey's anatomy", que encontrou no gênero a porta mais fácil para fazer a transição entre a televisão e o cinema. Estrela de filmes agradáveis e simpáticos mas nunca brilhantes - como "Vestida para casar" e "Ligeiramente grávidos" - Heigl emplacou mais um sucesso em sua carreira com "A verdade nua e crua", que arrecadou quase 90 milhões de dólares somente nos EUA e acrescentou dois ingredientes até então inédito em sua filmografia água-com-açúcar: uma boa dose de sarcasmo e uma ousadia que beira o vulgar (apesar de funcionar às mil maravilhas), cortesia de seu parceiro de cena, Gerard Butler.
O escocês Butler - que estreou no cinema em 1997 com um papel pequeno em "Sua Majestade, Mrs. Brown" mas só começou a ser notado na segunda aventura da heroína Lara Croft, "A origem da vida", dando início a uma carreira eclética e a uma legião de fãs que se consolidou com "300" e "O fantasma da Ópera" - faz o contraponto perfeito a Heigl, exercitando com visível prazer seu lado cafajeste na pele de Mike Chadway, um apresentador de TV que faz sucesso ao revelar, sem subterfúgios, os pensamentos masculinos sobre os relacionamentos amorosos. Aplaudido pelos homens e disputado pelas mulheres, Chadway acaba contratado pela emissora onde Abby Richter (Heigl) trabalha como produtora. Solteira por jamais encontrar em um homem todas as qualidades que procura, ela antipatiza de cara com seu novo colega, mas acaba concordando - até mesmo por falta de alternativas - em deixar que ele a aconselhe em seu processo de conquista de Colin (Eric Winter), seu vizinho médico em quem ela está interessada.
Mesmo discordando das táticas machistas e aparentemente rudes de Mike, Abby vai aos poucos seduzindo seu alvo, sem perceber que na verdade o que está acontecendo é a típica situação de filmes do gênero: os opostos estão novamente se atraindo e ela e Chadway só precisam notar que foram feitos um para o outro.
A maneira com que tal desfecho chegará é conduzindo por Robert Luketic - que transformou Reese Witherspoon em estrela com "Legalmente loira" - sem medo de ofender aos mais suscetíveis. O roteiro não se furta a criar situações vexaminosas para Abby (o jantar no qual ela veste uma calcinha vibratória talvez seja a mais divertida delas) ou por na boca de Mike termos pouco vistos em comédias românticas, normalmente um reduto do politicamente correto. Butler se desvencilha com facilidade da tarefa de dar vida a seu personagem, um adorável canalha com um grau de carisma que ameniza até a mais cabeluda das barbaridades proferidas e Heighl não avança muito mais do que demonstrou anteriormente, o que evidencia que seu repertório de caras e bocas não é dos mais amplos. A química entre a dupla, porém, funciona bastante bem e conduz a trama até seu final - pena que o filme pareça mais longo do que é devido ao clímax forçado em um campeonato de balonagem que pouco acrescenta ao conjunto.
"A verdade nua e crua" é um típico filme de Katherine Heigl - que também assina como produtora executiva. Agrada aos fãs do estilo, mas não tem pretensões de mudar o mundo. Ainda assim, tem a vantagem de também conquistar o público masculino, que certamente se identificará com muitas das ideias tidas como machistas de Mike Chadway. Bom divertimento para quem procura um passatempo.
P.S. EU TE AMO
P. S. EU TE AMO (P. S. I love you, 2007, Alcon Entertainment, 126min) Direção: Richard LaGravenese. Roteiro: Richard LaGravenese, Steven Rogers, romance de Cecelia Aihern. Fotografia: Terry Stacey. Montagem: David Moritz. Música: John Powell. Figurino: Cindy Evans. Direção de arte/cenários: Sheperd Frankel/Alyssa Winter. Produção executiva: James Hollond, John H. Starke, Donald A. Starr, Daniel J. B. Taylor. Produção: Wendy Finerman, Broderick Johnson, Andrew A. Kosove, Molly Smith. Elenco: Hilary Swank, Gerard Butler, Kathy Bates, Harry Connick Jr., Jeffrey Dean Morgan, Lisa Kudrow, Gina Gershon. Estreia: 21/12/07
Richard LaGravanese tem em seu currículo de roteirista algumas pérolas do cinema americano, como "O pescador de ilusões" (pelo qual concorreu ao Oscar) e "As pontes de Madison", que levou multidões às lagrimas. Como cineasta, porém, não teve a mesma sorte, apesar das qualidades de seu "Escritores da liberdade", estrelado por Hilary Swank, seu filme mais relevante. E é justamente Swank, do alto de seu prestígio como vencedora de 2 estatuetas da Academia a protagonista daquele que acabou tornando-se seu maior sucesso como diretor. Romântico e melancólico, "P.S. Eu te amo", adaptado bastante livremente do livro de Cecelia Aihern é a prova de que nem só de mocinhas fortes vive a carreira da atriz. Mesmo que bem distante de seus melhores momentos, Swank lidera o elenco com desenvoltura e convence como uma jovem viúva que tenta superar a morte do marido com a ajuda dele mesmo.
A primeira - e longa - sequência do filme apresenta o casal formado por Holly (vivida por uma Swank mais frágil e feminina do que até então) e Gerry (Gerard Butler). Apaixonados, eles almejam uma vida melhor, um apartamento maior e um futuro onde terão filhos e dinheiro sobrando. O futuro, porém, não chega. Gerry morre de um tumor no cérebro, deixando Holly arrasada. Com dificuldades de seguir sua vida, porém, ela se surpreende quando, no dia de seu aniversário, recebe uma carta de Gerry, incentivando-a a sacudir a poeira, dar a volta por cima e recomeçar. A partir daí, ela passa a receber constante correspondência do marido - que chega até ela de forma misteriosa - e redescobre os prazeres da vida e o amor, que pode estar tanto com o tímido Daniel (Harry Connick Jr.), ajudante de sua mãe, ou com o sedutor William (Jeffrey Dean Morgan), um músico irlandês que, por coincidência, era amigo de Gerry.
Fazendo alterações substanciais no romance de Aihern - como mudar a ação para Nova York e acrescentar a personagem William, além de diminuir a numerosa família da protagonista - o roteiro de LaGravenese e Steven Rogers tem a seu favor o fato de dar à história um ritmo ágil, que equilibra com facilidade momentos de grande delicadeza e diálogos bem-humorados, em especial quando estão em cenas as melhores amigas de Holly, vividas por Gina Gershon e Lisa Kudrow - essa última repetindo os trejeitos de sua personagem mais famosa, a Phoebe da série "Friends". Quando Kathy Bates entra em cena, como a mãe de Holly, mostra porque é uma das atrizes mais respeitadas de Hollywood, e Jeffrey Dean Morgan exala carisma na pele de William, acrescentando ao filme um calor que falta sempre que Gerard Butler - usando e abusando de seu charme mezzo canastrão mezzo sedutor - não está presente. A atuação apática de Harry Connick Jr. tampouco colabora para o resultado final, o que deixa bastante claras suas limitações dramáticas. E, apesar de forçado, o final comove o suficiente.
Para os fãs do cinema romântico americano "P.S. Eu te amo" é um prato cheio. Apesar de mergulhar em alguns dos clichês mais batidos do gênero, conta uma história que prende a atenção até o final e conta com um elenco acima da média. Não muda a vida de ninguém, mas pode despertar muitas lágrimas.
Richard LaGravanese tem em seu currículo de roteirista algumas pérolas do cinema americano, como "O pescador de ilusões" (pelo qual concorreu ao Oscar) e "As pontes de Madison", que levou multidões às lagrimas. Como cineasta, porém, não teve a mesma sorte, apesar das qualidades de seu "Escritores da liberdade", estrelado por Hilary Swank, seu filme mais relevante. E é justamente Swank, do alto de seu prestígio como vencedora de 2 estatuetas da Academia a protagonista daquele que acabou tornando-se seu maior sucesso como diretor. Romântico e melancólico, "P.S. Eu te amo", adaptado bastante livremente do livro de Cecelia Aihern é a prova de que nem só de mocinhas fortes vive a carreira da atriz. Mesmo que bem distante de seus melhores momentos, Swank lidera o elenco com desenvoltura e convence como uma jovem viúva que tenta superar a morte do marido com a ajuda dele mesmo.
A primeira - e longa - sequência do filme apresenta o casal formado por Holly (vivida por uma Swank mais frágil e feminina do que até então) e Gerry (Gerard Butler). Apaixonados, eles almejam uma vida melhor, um apartamento maior e um futuro onde terão filhos e dinheiro sobrando. O futuro, porém, não chega. Gerry morre de um tumor no cérebro, deixando Holly arrasada. Com dificuldades de seguir sua vida, porém, ela se surpreende quando, no dia de seu aniversário, recebe uma carta de Gerry, incentivando-a a sacudir a poeira, dar a volta por cima e recomeçar. A partir daí, ela passa a receber constante correspondência do marido - que chega até ela de forma misteriosa - e redescobre os prazeres da vida e o amor, que pode estar tanto com o tímido Daniel (Harry Connick Jr.), ajudante de sua mãe, ou com o sedutor William (Jeffrey Dean Morgan), um músico irlandês que, por coincidência, era amigo de Gerry.
Para os fãs do cinema romântico americano "P.S. Eu te amo" é um prato cheio. Apesar de mergulhar em alguns dos clichês mais batidos do gênero, conta uma história que prende a atenção até o final e conta com um elenco acima da média. Não muda a vida de ninguém, mas pode despertar muitas lágrimas.
domingo
300
300 (300, 2006, Warner Bros, 117min) Direção: Zack Snyder. Roteiro: Zack Snyder, Kurt Johnstad, Michael B. Gordon, graphic novel de Frank Miller, Lynn Varley. Fotografia: Larry Fong. Montagem: William Hoy. Música: Tyler Bates. Figurino: Michael Wilkinson. Direção de arte/cenários: James D. Bissell/Paul Hotte, Philippe Lord. Produção executiva: William Fay, Craig J. Flores, Scott Mednick, Frank Miller, Deborah Snyder, Thomas Tull, Benjamin Waisbren. Produção: Mark Canton, Bernie Goldmann, Gianni Nunnari, Jeffrey Silver. Elenco: Gerard Butler, Lena Headey, Dominic West, David Wenham, Michael Fassbender, Rodrigo Santoro. Estreia: 09/12/06
As graphic novels criadas por Frank Miller não são apens histórias em quadrinhos para adultos, recheadas de violência extrema e mulheres sensuais. Como bem demonstrou a adaptação - melhor dizendo, a transposição - de "Sin City", feita em 2005 por Robert Rodriguez e o próprio Miller, a obra do autor oferece muito mais ao leitor (e depois espectador de cinema) do que simplesmente um visual caprichado. Enquanto "Sin City" surgiu como um herdeiro legítimo dos filmes noir americanos dos anos 40 e 50 (mas muito mais embalado com sangue e sexualidade), o impactante "300" - escrito com bases históricas - cativa o público por narrar acontecimentos reais anabolizados com efeitos especiais caprichados e uma produção impecável, sem deixar de lado um fator muito importante que muitos seguidores da linha Michael Bay de filmes de ação sempre ignoram: o desenvolvimento de personagens.
Tudo bem que não se pode esperar que um filme feito para divertir e levar multidões às salas de exibição tenha protagonistas psicologicamente bem delineados e com dramas existenciais muito profundos, mas o mínimo que se deseja de uma produção de boa qualidade é que o público consiga enxergar nas personagens retratadas um pequeno lastro de humanidade que seja. E é nesse ponto - somado à técnica sensacional - que "300" ganha de lavada de muitos congêneres. Seu heroi - e heroi aqui não é apenas figura de linguagem - é ninguém menos que Leônidas, o rei de Esparta que comandou um exército de apenas 300 homens contra os milhares de soldados comandados por Xerxes, rei da Pérsia, depois de ter se negado a uma submissão ao déspota. A história real, ocorrida no ano 480 a.C., encontrou em Miller o narrador ideal e em Zack Snyder o diretor perfeito. Com apenas um longa-metragem no currículo - "Madrugada dos mortos", refilmagem do clássico de horror de George A. Romero - o cineasta encontrou o equilíbrio exato entre cenas de batalha de arrepiar, personagens fortes e intrigas palacianas, sem deixar o ritmo cair nem tampouco esbarrar nas armadilhas que o gênero fatalmente cria. Se discursos inspiradores aparecem ao longo da projeção é porque realmente precisam estar ali - e gritados por um avassalador Gerard Butler, eles soam exatamente como são: parte essencial da narrativa.
É óbvio que nem Miller nem Zack Snyder tem como objetivo honrar a história com preciosismos, preferindo se dedicar a tudo que a trama tem de poético e heroico, tanto visualmente quanto em termos de roteiro. Portanto, quem procura uma versão historicamente perfeita deve passar ao largo de "300". Por mais que muito do que é contado no filme seja verdade, licenças poéticas volta e meia surgem diante dos olhos da plateia, mas tudo é mostrado de forma tão empolgante que fica difícil reclamar. Até mesmo quando a fantasia assume um lugar de destaque - caso do oráculo consultado por Leônidas no princípio do filme - ela tem uma função específica, não sendo apenas mais um artifício narrativo estéril. Emoldurando todas as cenas com uma fotografia espetacular e uma edição eficiente, Snyder ainda conta com uma reconstituição de época detalhista e uma maquiagem brilhante. Mas nada se compara ao elenco escolhido por ele.
Se o brasileiro Rodrigo Santoro não faz feio como o temível Xerxes - com sua voz modificada no computador para soar mais ameaçadora - e Dominic West desperta a ira da audiência com seu venal Theron - capaz de usar o amor da esposa de Leonidas como arma a favor de sua ambição - é o escocês Gerard Butler quem brilha acima de todos. Carismático e dono de uma voz potente e tonitruante - mal utilizada na versão de "O fantasma da ópera" comandada por Joel Schumacher - Butler criou um Leonidas inesquecível, feito de carne, osso e honra, que convence a plateia como rei, homem e heroi. Essa qualidade essencial - criar uma personagem crível e empática - é o maior trunfo de "300", acima de seus extraordinários feitos técnicos. Butler é o corpo e a alma do filme. O espectador, encantado, agradece.
As graphic novels criadas por Frank Miller não são apens histórias em quadrinhos para adultos, recheadas de violência extrema e mulheres sensuais. Como bem demonstrou a adaptação - melhor dizendo, a transposição - de "Sin City", feita em 2005 por Robert Rodriguez e o próprio Miller, a obra do autor oferece muito mais ao leitor (e depois espectador de cinema) do que simplesmente um visual caprichado. Enquanto "Sin City" surgiu como um herdeiro legítimo dos filmes noir americanos dos anos 40 e 50 (mas muito mais embalado com sangue e sexualidade), o impactante "300" - escrito com bases históricas - cativa o público por narrar acontecimentos reais anabolizados com efeitos especiais caprichados e uma produção impecável, sem deixar de lado um fator muito importante que muitos seguidores da linha Michael Bay de filmes de ação sempre ignoram: o desenvolvimento de personagens.
Tudo bem que não se pode esperar que um filme feito para divertir e levar multidões às salas de exibição tenha protagonistas psicologicamente bem delineados e com dramas existenciais muito profundos, mas o mínimo que se deseja de uma produção de boa qualidade é que o público consiga enxergar nas personagens retratadas um pequeno lastro de humanidade que seja. E é nesse ponto - somado à técnica sensacional - que "300" ganha de lavada de muitos congêneres. Seu heroi - e heroi aqui não é apenas figura de linguagem - é ninguém menos que Leônidas, o rei de Esparta que comandou um exército de apenas 300 homens contra os milhares de soldados comandados por Xerxes, rei da Pérsia, depois de ter se negado a uma submissão ao déspota. A história real, ocorrida no ano 480 a.C., encontrou em Miller o narrador ideal e em Zack Snyder o diretor perfeito. Com apenas um longa-metragem no currículo - "Madrugada dos mortos", refilmagem do clássico de horror de George A. Romero - o cineasta encontrou o equilíbrio exato entre cenas de batalha de arrepiar, personagens fortes e intrigas palacianas, sem deixar o ritmo cair nem tampouco esbarrar nas armadilhas que o gênero fatalmente cria. Se discursos inspiradores aparecem ao longo da projeção é porque realmente precisam estar ali - e gritados por um avassalador Gerard Butler, eles soam exatamente como são: parte essencial da narrativa.
É óbvio que nem Miller nem Zack Snyder tem como objetivo honrar a história com preciosismos, preferindo se dedicar a tudo que a trama tem de poético e heroico, tanto visualmente quanto em termos de roteiro. Portanto, quem procura uma versão historicamente perfeita deve passar ao largo de "300". Por mais que muito do que é contado no filme seja verdade, licenças poéticas volta e meia surgem diante dos olhos da plateia, mas tudo é mostrado de forma tão empolgante que fica difícil reclamar. Até mesmo quando a fantasia assume um lugar de destaque - caso do oráculo consultado por Leônidas no princípio do filme - ela tem uma função específica, não sendo apenas mais um artifício narrativo estéril. Emoldurando todas as cenas com uma fotografia espetacular e uma edição eficiente, Snyder ainda conta com uma reconstituição de época detalhista e uma maquiagem brilhante. Mas nada se compara ao elenco escolhido por ele.
Se o brasileiro Rodrigo Santoro não faz feio como o temível Xerxes - com sua voz modificada no computador para soar mais ameaçadora - e Dominic West desperta a ira da audiência com seu venal Theron - capaz de usar o amor da esposa de Leonidas como arma a favor de sua ambição - é o escocês Gerard Butler quem brilha acima de todos. Carismático e dono de uma voz potente e tonitruante - mal utilizada na versão de "O fantasma da ópera" comandada por Joel Schumacher - Butler criou um Leonidas inesquecível, feito de carne, osso e honra, que convence a plateia como rei, homem e heroi. Essa qualidade essencial - criar uma personagem crível e empática - é o maior trunfo de "300", acima de seus extraordinários feitos técnicos. Butler é o corpo e a alma do filme. O espectador, encantado, agradece.
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