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terça-feira

UMBERTO D.

UMBERTO D. (Umberto D., 1952, Rizzoli Film/Produzione Films Vittorio De Sica/Amato Film, 89min) Direção: Vittorio De Sica. Roteiro: Cesare Zavattini. Fotografia: G.R. Aldo. Montagem: Eraldo da Roma. Música: Alessando Cicognini. Direção de arte/cenários: Virgillio Marchi/Ferdinando Ruffo. Elenco: Carlo Battisti, Maria Pia Casillo, Lina Gennari, Ileana Simova. Estreia: 10/01/52 (Festival de Punta Del Este)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Umberto Domenico Ferrari (Carlo Battisti) não está em seus melhores dias. A aposentadoria que recebe do governo italiano mal serve para suas despesas pessoais, e está em vias de ser despejado do quarto que aluga há vinte anos em uma pensão. Sem família e sem amigos com os quais possa contar, ele encontra apoio apenas em seu cachorro de estimação, Flike, e em Maria (Maria Pia Casillo), funcionária da pensão que acaba de se descobrir grávida (ainda que não saiba com certeza quem é o pai). Sua maior urgência é conseguir dinheiro para pagar os aluguéis atrasados, mas nem a venda de seu relógio e de seus livros mais queridos são suficientes para atingir o valor total exigido pela fria Antonia (Lina Gennari) - que não tem a menor hesitação em usar seu quarto para prostituas quando ele não está em casa. Desesperado, Umberto se utiliza de artifícios - como fingir uma doença para ficar hospitalizado e adiar seus problemas -, mas não consegue abandonar seu fiel Flike, uma espécie de lembrança constante de lealdade e carinho. Estoico e resiliente (e um bocado esperto), Umberto D. é também o personagem-título do filme de Vittorio De Sica imediatamente após o estrondoso sucesso de "Ladrões de bicicleta" (1948). Emocionante e por vezes com um senso de humor inesperado, "Umberto D." faz uso inteligente das características do neorrealimo italiano enquanto seduz a plateia com um protagonista com o qual é impossível não simpatizar.

Se em Hollywood existe uma regra não escrita que dita que trabalhar com crianças e animais é o jeito mais certo de ser eclipsado, na carreira de Vittorio De Sica (ao menos durante o neorrealismo) a história é bem diferente. Enquanto em "Ladrões de bicicleta", o protagonista dividia a tela e as atenções com seu filho pequeno, que roubava as cenas sem pestanejar, em "Umberto D." o cineasta aposta - e acerta - no relacionamento entre seu personagem principal e um adorável cachorrinho. Apesar disso, não é um filme com apelo melodramático ou simples em excesso: o roteiro, sofisticado em sua simplicidade aparente, conquista o espectador sem fazer muita força, apresentando seus personagens e dramas pessoais com leveza e respeito. O equilíbrio de "Umberto D." entre a comédia quase inocente e o drama com brutais conotações realistas é um trunfo dos mais valiosos, e conduz o público por uma viagem sentimental (mas não piegas) rumo ao coração da sociedade italiana - ainda sofrendo as consequências da guerra e apresentando mazelas sociais pungentes. Não à toa, De Sica conta com coadjuvantes igualmente desnorteados - como Maria, escondendo a gravidez para não ser mandada embora, e Antonia, o poder financeiro que humilha os menos favorecidos enquanto canta alegremente em reuniões em sua casa.


A travessia de Umberto para conseguir dinheiro suficiente para pagar suas dívidas e manter-se ao lado de Flicke - uma companhia silenciosa mas que reafirma a sensibilidade do protagonista - passa por diversos níveis de desigualdade e desespero. Umberto come em um restaurante que dá comida aos necessitados (e alimenta seu cão secretamente), frequenta um hospital que pode lhe dar um lugar para dormir e entra em pânico diante da possibilidade de seu amigo de quatro patas ter sido morto pela carrocinha da cidade, durante sua falsa doença. De Sica consegue, ao mesmo tempo, mexer nas feridas pós-guerra e apresentar ao espectador uma história com sabor universal. Para isso, conta com a atuação sensível de Carlo Battisti, que transmite à plateia toda a angústia e esperteza de seu personagem, despertando dó e admiração na medida certa. É difícil ficar imune às sequências em que ele é obrigado a se desfazer de objetos queridos para conseguir pagar o aluguel - uma realidade ainda presente em muitos países, Brasil incluído. O que o público vê na tela não é apenas fruto da imaginação de um cineasta com preocupações sociais, e sim o retrato de uma parcela da população que nunca sabe de onde virá o próximo pagamento.

Dedicado ao pai do cineasta, "Umberto D." era o filme preferido de ninguém menos que Ingmar Bergman e foi eleito pela Associação de Críticos de Nova York como o melhor filme estrangeiro da temporada  (em empate com o genial "As diabólicas", de Henri-Georges Clouzot). É um filme sobre pessoas, sobre sentimentos, sobre dificuldades, mas, sobretudo, é um filme que ainda consegue emocionar e aquecer o coração. Menos sufocante que "Ladrões de bicicleta" - cujo desenvolvimento deixava o espectador em constante sofrimento -, é uma produção que pode arrancar lágrimas da audiência, mas que jamais busca a emoção fácil. Clássico europeu absoluto, é (mais uma) prova do talento de Vittorio De Sica em falar aos mais puros sentimentos da platéia. Um filme para ver, rever e admirar cada vez mais.

quarta-feira

LADRÕES DE BICICLETAS

LADRÕES DE BICICLETAS (Ladri di biciclette, 1948, Produzione De Sica, 89min) Direção: Vittorio De Sica. Roteiro: Oreste Biancoli, Suso D'Amico, Vittorio De Sica, Adolfo Franci, Gherardo Gherardi, Gerardo Guerrieri, Cesare Zavattini, romance de Luigi Bartolini, estória de Cesare Zavattini. Fotografia: Carlo Montuori. Montagem: Eraldo Da Roma. Música: Cicognini. Direção de arte: Antonio Traverso. Produção: Giuseppe Amato, Vittorio De Sica. Elenco: Lamberto Maggiorani, Enzo Staiola, Lianella Carell, Elena Altieri, Gino Saltamerenda. Estreia: 24/11/48

Indicado ao Oscar de Roteiro 
Vencedor de um Oscar especial
Vencedor do Golden Globe: Melhor Filme Estrangeiro 

Quando realizou "Vítimas da tormenta", em 1946, o cineasta Vittorio De Sica cativou os espectadores do mundo inteiro com seus atores mirins, que, mesmo sem experiência anterior, mostraram-se extremamente capazes de emocionar e soar como profissionais. Para seu filme seguinte, então, ele foi ainda mais ousado: todo o elenco de "Ladrões de bicicletas" era formado por pessoas comuns, escolhidos pelo diretor pelos mais variados critérios. E mais uma vez ele conseguiu: na pele do pequeno Bruno, Enzo Staiola, descoberto enquanto assistia às primeiras filmagens do projeto, atinge o coração da plateia sem fazer esforço. Ao lado do igualmente impressionante Lamberto Maggiorani, o menino é responsável por um dos filmes mais dolorosos tanto do neorrealismo italiano quanto do cinema mundial. Referência absoluta para cineastas das mais variadas partes do mundo, mereceu um Oscar especial (antes da criação da categoria destinada a produções não faladas em inglês) e foi premiado com um Golden Globe, o BAFTA (o Oscar britânico), o prêmio máximo do National Board of Review e pela Associação de Críticos de Nova York - além de ter concorrido ao prêmio da Academia por seu roteiro. Forte, pungente e tristemente real, é, também, uma dos mais bem acabadas produções italianas no período pós-guerra e talvez a obra-prima de seu criador.


Sofrendo para conseguir financiamento para seu projeto seguinte a "Vítimas de uma tormenta", Vittorio De Sica esbarrava sempre na questão das polêmicas levantadas por seu filme anterior - a história de dois amigos engraxates que se deparavam com questões como lealdade durante seu período em uma instituição penal. Ao mesmo tempo em que produtores hollywoodianos lhe acenavam com a possibilidade de entrar com o dinheiro - mas faziam exigências absurdas e totalmente contrárias aos desejos do diretor -, De Sica descobria, da pior maneira possível, que sucesso de crítica não correspondia, dentro da indústria cinematográfica, a êxito comercial. David O. Selznick, por exemplo - o produtor de "... E o vento levou" (39) - demonstrou interesse em "Ladrões de bicicletas", mas queria que o ator central fosse Cary Grant. Antes de decidir que faria o filme em seu país natal e da forma com que sonhava, De Sica até considerou escalar Henry Fonda (que já tinha interpretado o icônico Tom Joad em "As vinhas da ira", que dialogava em temática com o neorrealismo), mas preferiu, em última análise, escalar apenas atores não profissionais em seu elenco. Foi uma decisão acertadíssima: com Grant ou Fonda no papel principal o filme talvez alcançasse maior visibilidade no mercado norte-americano, mas dificilmente alcançaria o tom naturalista proposto - e tampouco a melancolia palpável que a escalação de Lamberto Maggiorani oferece ao filme e que faz dele uma das produções mais aclamadas da história do cinema italiano.





Maggiorani - que depois do filme voltou à sua realidade de desempregado em Roma - é a força maior por trás de "Ladrões de bicicleta": sua performance, ao mesmo tempo lírica e realista, oferece ao espectador uma vasta gama de emoções - vergonha, orgulho, tristeza, desamparo - e conquista logo nas primeiras imagens. Sua química com o pequeno Enzo Staiola é fascinante, especialmente quando se sabe que nenhum dos dois tinha experiência como atores e tampouco seguiram com a carreira após as filmagens. Assim como em "Vítimas da tormenta", De Sica busca ao máximo retratar a vida como ela é, sem muitos enfeites ou truques baixos para buscar a compaixão da plateia. Seu tom realista é sublinhado apenas pela bela trilha sonora e pela estória em si, que envolve o público e faz dele seu observador privilegiado. Em "Ladrões de bicicletas" não há vilões (ao menos como o cinema costuma apresentá-los): o protagonista luta contra a própria realidade, contra a sociedade que o alija, contra o desespero de seus semelhantes, contra a própria Itália do pós-guerra, tentando reunir seus pedaços e cicatrizar suas feridas. Não é um filme fácil - mas é um brilhante recorte de um país buscando se erguer dignamente depois da tormenta.

Lamberto Maggiorani dá vida (e sentimento) a Antonio Ricci, um pai de família desempregado há dois anos em uma Roma pouco fotogênica e ainda sofrendo com as consequências da guerra. Pai do pequeno Bruno (Enzo Staiola), ele tem a possibilidade de voltar a ter a dignidade de um trabalhador quando é contratado para colar posters de cinema pela cidade. A única exigência do empregador é que ele tenha uma bicicleta. Depois de retomar a sua (que estava empenhada), Antonio começa sua nova vida, mas é frustrado logo no começo, quando vê seu veículo (e fonte de renda) ser roubado na sua frente. Desesperado, ele tenta, com a ajuda de seu filho, encontrar o ladrão. A missão torna-se, aos poucos, mais complicada do que parece: Antonio não tem apenas que encontrar sua bicicleta em meio a milhares delas, mas também provar que é seu dono. No caminho, ele e Bruno mergulham nas ruínas de Roma, procurando o que é o símbolo de sua luta e orgulho - e Vittorio De Sica não poupa seu protagonista de sofrer na carne as consequências de um conflito desumano e violento. Emocionante sem ser piegas, "Ladrões de bicicletas" ainda consegue arrancar lágrimas com seu final delicado e melancólico - e todos os elogios e prêmios que arrebatou pelo mundo apenas comprovam sua qualidade e urgência. Tão necessário hoje como o era há sessenta anos, é uma obra-prima irretocável e atemporal.

VÍTIMAS DA TORMENTA

VÍTIMAS DA TORMENTA (Sciuscià, 1946, CG Entertainment, 87min) Direção: Vittorio De Sica. Roteiro: Sergio Amidei, Adolfo Franci, Cesare Giulio Viola, Cesare Zavattini. Fotografia: Anchise Brizzi. Montagem: Nicolò Lazzari. Música: Alessandro Cicognini. Direção de arte: Ivo Battelli, G. Lombardozzi. Produção: Paolo William Tamburella. Elenco: Franco Interlenghi, Rinaldo Smordini, Annielo Mele, Bruno Ortensi, Emilio Cigoli. Estreia: 27/4/46

Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Vencedor de um Oscar especial 

Mesmo antes de criar oficialmente a categoria de Melhor Filme Estrangeiro (o que ocorreria somente em 1956), a Academia de Hollywood já reconhecia, de uma forma ou outra, a excelência do cinema feito fora de seus domínios. Foi o caso de "Vítimas da tormenta", homenageado com um prêmio especial por suas grandes qualidades artísticas, "que provam ao mundo que o espírito criativo pode triunfar sobre a adversidade". Dirigida por Vittorio De Sica e eleita também um dos dez melhores filmes do ano pelo respeitado National Board of Review, a produção - parte integrante do aclamado neorrealismo italiano - concorreu ainda ao Oscar de roteiro original e preparou o cineasta para a sua grande obra-prima, "Ladrões de bicicleta", lançado dois anos mais tarde e que novamente encantou as plateias internacionais com seu equilíbrio entre o duro realismo do pós-guerra e a poesia da inocência infantil. Com um elenco predominantemente mirim, "Vítimas da tormenta" choca, emociona e faz refletir - e insere-se, por isso, na tradição de filmes imprescindíveis sobre a infância, como os posteriores "Os incompreendidos", de Truffaut, "Os esquecidos" (50), de Buñuel, e "Pixote: a lei do mais fraco" (81), de Hector Babenco.

A trama do filme se passa em uma Roma ainda sofrendo as consequências da guerra, com soldados norte-americanos convivendo pacificamente com a população local, que tenta retomar uma vida normal apesar da ruína econômica. É nesse ambiente que o público é apresentado a seus dois protagonistas, Pasquale e Giuseppe, que trabalham como engraxates nas ruas da cidade enquanto tentam economizar dinheiro para realizar um de seus maiores sonhos: comprar o cavalo pelo qual são apaixonados. Grandes e inseparáveis amigos, eles tem muito em comum, apesar de Pasquale viver nas ruas e Giuseppe ter uma família - da qual faz parte o pouco confiável Attilio, um rapaz frequentemente envolvido em problemas com a polícia. A rotina dos dois meninos, pouco empolgante, começa a mudar quando eles aceitam uma proposta de Attilio: vender cobertores roubados dos soldados a uma velha cartomante. Excitados com a possibilidade de comprar seu cavalo, os garotos aceitam a missão, mas acabam presos logo depois, envolvidos em um golpe que os leva imediatamente a um reformatório. Lá, eles são separados e colocados um contra o outro, como forma das autoridades conseguirem uma prova contra Attilio.


Construindo sua narrativa de forma a estabelecer uma crescente tensão entre seus protagonistas, que vem sua amizade posta à prova diante de armadilhas e situações violentas dentro do reformatório, "Vítimas da tormenta" consegue, ao mesmo tempo, manter as características do neorrealismo italiano - atores amadores, preocupação social, improvisações, um visual cru - e manter um constante tom de imprevisibilidade dramática. O elenco infantil é absolutamente impressionante, formado por jovens amadores que se destacam pela maneira natural e orgânica de transmitir uma vasta gama de emoções sem forçar o sentimentalismo. De Sica, um dos maiores diretores italianos de todos os tempos, extrai de seu elenco juvenil uma verdade dolorida, que imprime a cada sequência uma melancolia única, transmitida também pela bela fotografia em preto-e-branco de Anchise Brizzi e pela trilha sonora de Alessandro Cicognini, que, discretamente, comenta com suavidade os percalços dos protagonistas sem jamais chamar a atenção para si própria.

"Vítimas da tormenta" pode até não ser tão lembrado quanto outros filmes do neorrealismo italiano, como "Ladrões de bicicleta" (48), do próprio De Sica, ou o seminal "Roma: cidade aberta" (45), de Roberto Rossellini, mas é, sem dúvida nenhuma, um dos pontos altos do gênero. Atingindo o público tanto por seu lado emocional quanto por sua plasticidade cuidadosamente simples, o filme deixa sua marca graças à capacidade do diretor em contar uma história simples e universal, que ressoa atual mesmo tão distante cronologicamente. Com personagens que cativam logo na primeira cena - e que vão se tornando adultos precocemente em contato com a vida real -, é uma produção que machuca, mas, justamente por isso, se mantém inesquecível no coração da plateia. Excepcional!

terça-feira

DUAS MULHERES

DUAS MULHERES (La ciociara, 1960, Compagnia Cinematografica Champion, 100min) Direção: Vittorio De Sica. Roteiro: Vittorio De Sica, romance de Alberto Moravia, adaptação de Cesare Zavattini. Fotografia: Gabor Pogany. Montagem: Adriana Novelli. Música: Armando Trovajoli. Figurino: Elio Constanzi. Direção de arte/cenários: Gastone Medin/Elio Constanzi. Produção: Carlo Ponti. Elenco: Sophia Loren, Jean-Paul Belmondo, Eleonora Brown, Carlo Ninchi. Estreia: 22/12/60

Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Sophia Loren)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro 
Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Atriz (Sophia Loren)

Demorou quase três décadas até que a Academia de Hollywood finalmente percebesse que fora do alcance da língua inglesa também existia cinema de qualidade - a categoria de Melhor Filme Estrangeiro, por exemplo, só começou a ser oficialmente competitiva em 1956, quando "A estrada da vida", de Federico Fellini, levou a estatueta. Foi somente na cerimônia de 1961, no entanto - a de número 34 - que uma atriz conseguiu finalmente romper a barreira do idioma e sagrar-se vencedora do Oscar na categoria principal. E engana-se que para isso foi preciso que tivesse uma longa e vitoriosa carreira que justificasse um prêmio de consolação: a italiana Sophia Loren tinha apenas 27 anos de idade quando foi eleita pelos membros da Academia, batendo nomes como Audrey Hepburn ("Bonequinha de luxo") e Natalie Wood ("Clamor do sexo"). Além de jovem e no auge da sensualidade, Loren deixava claro, com sua interpretação visceral em "Duas mulheres", que talento não tinha idade, nacionalidade ou aparência física - e devolvia à Academia um pouco da credibilidade abalada com a vitória de Elizabeth Taylor no ano anterior por pura e simples piedade (ela ganhou por "Disque Butterfield 8" mais pelos sérios problemas de saúde pelos quais passava do que propriamente por mérito artístico).

A escalação de Loren para o papel principal de "Duas mulheres" foi um tanto problemática, apesar do produtor do filme ser seu marido, Carlo Ponti: quando surgiu a ideia de adaptar o romance de Alberto Moravia, publicado em 1958, o filme seria dirigido por George Cukor e produzido pela Paramount, com toda a estrutura de um grande estúdio hollywoodiano. A protagonista seria vivida por outra italiana, Anna Magnani, com quem Cukor havia trabalho em "A fúria da carne" (57) e que havia sido indicada ao Oscar pelo papel. Loren estaria no elenco, mas como a filha adolescente de Magnani, e então a história oferece duas versões: em uma delas, a estrela de "Roma, cidade aberta" abriu mão do filme por motivos de saúde e recomendou Sophia para o seu papel, certa de que ela não se importaria em interpretar uma mulher mais velha. Em outra, menos favorável à Magnani, ela recusou-se a dividir a cena com a jovem atriz por temer que sua aparência roubasse a cena e se tornasse o principal atrativo do filme. Seja como for, Cukor abandonou o projeto e o filme acabou sendo realizado no país natal de Moravia, em seu idioma original e filmado em cenários naturais - o que, de certa forma, aproximava o resultado final das raízes neorrealistas de seu novo diretor, Vittorio De Sica. Premiado no Festival de Cannes e com o Golden Globe de melhor filme estrangeiro, "Duas mulheres" terminou por beneficiar-se de suas dificuldades iniciais e ficar para a história.


A trama se passa em 1943, em meio ao auge da II Guerra Mundial. Em Roma, a viúva Cesira (Sophia Loren) vive como comerciante, mas, temerosa diante dos constantes bombardeios na capital italiana, decide abandoná-la e esconder-se em sua região natal, no interior do país, deixando sua propriedade aos cuidados de um antigo amante, Giovanni (Raf Vallone). Acompanhada da única filha, a adolescente Rosetta (Eleanora Brown), sua maior razão de viver e preocupação constante, Cesira atravessa cidades a pé, de mula e de trem, sofrendo com a possibilidade de ser atingida por algum dos aviões que fazem voos rasantes ou soldados perdidos pela região. Quando finalmente chega a seu destino, encontra um grupo de moradores que vivem à margem do conflito, ainda que cientes de sua importância no dia-a-dia. Desse grupo faz parte Michele (Jean-Paul Belmondo), um professor com tendências esquerdistas que não demora a encantar-se com a nova integrante do grupo - e que acaba por interessar a jovem Rosetta. A tranquilidade do lugar, porém, é maculada quando um grupo de soldados alemães obriga Michele a guiá-los pelas montanhas - com medo da aproximação da guerra, Cesira resolve voltar para Roma com Rosetta. Mas, para seu desespero, o que as espera é ainda pior que a fome e a miséria.

Restaurado em 2002, "Duas mulheres" é um dos filmes mais importantes da carreira do cineasta Vittorio De Sica - autor do emblemático "Ladrões de bicicleta" - e certamente a produção que atestou a maturidade do talento de Sophia Loren, que entrega uma atuação desesperada e sensual na medida certa. Inspirado em relatos verdadeiros ocorridos durante a II Guerra Mundial na região de Monte Cassino - onde mais de 60 mil mulheres sofreram violência sexual por soldados marroquinos - o romance de Alberto Moravia serviu de base para um filme de guerra onde ela surge apenas como uma sombra perigosa e nefasta, que faz vítimas tanto no campo de batalha quanto fora dele. Mesmo que o roteiro escrito pelo próprio diretor sofra de quedas de ritmo, algumas imagens são fortes o bastante para permanecer na memória do espectador e atestar seu talento em falar tão diretamente à emoção sem apelar para o piegas. Loren, linda e carismática, entrega uma performance arrebatadora - em um papel que repetiu no remake televisivo do filme, realizado em 1988 - e eleva o filme a um patamar acima dos dramas de guerra americanos, normalmente com um nível de patriotismo exagerado. Um filme para quem procura pela verdade humana mais do que por artifícios emocionais.

quinta-feira

OS GIRASSÓIS DA RÚSSIA

OS GIRASSÓIS DA RÚSSIA (Il girasoli, 1970, AVCO Embassy Pictures, 107min) Direção: Vittorio De Sica. Roteiro: Antonio Guerra, Cesare Zavattini. Fotografia: Giuseppe Rottuno. Montagem: Adriana Novelli. Música: Henry Mancini. Figurino: Enrico Sabbatini. Direção de arte/cenários: Piero Poletto/Giantito Burchiellaro. Produção executiva: Joseph E. Levine. Produção: Arthur Cohn, Carlo Ponti. Elenco: Sophia Loren, Marcello Mastroianni, Lyudmila Saveleva. Estreia: 14/3/70

Indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original

Os brutos também amam. O título do clássico western de George Stevens serve como perfeito exemplo para ilustrar "Os girassóis da Rússia", dirigido por Vittorio De Sica em 1970. Um dos maiores expoentes do neorrealismo italiano com o incensado "Ladrões de bicicleta", lançado em 1948, no auge do movimento, De Sica demonstra, em sua terceira colaboração com a dupla Sophia Loren/Marcello Mastroianni, que a crueza poética de seu filme mais ilustre poderia ceder lugar à delicadeza de uma história de amor, por mais devastadora que ela seja. Produzido por Carlo Ponti, marido de Loren, o filme foi um dos maiores sucessos da carreira do diretor justamente por apelar para um gênero popular e fugir das polêmicas nas quais a filmografia de seu país natal estava envolvida, ao tratar de temas pesados como terrorismo e política. Uma história de amor à moda antiga, "Os girassóis da Rússia" consegue emocionar ao mesmo tempo em que revela também os horrores da guerra - afinal de contas, ninguém é revelado no neorrealismo à toa.

Assim como a protagonista vivida por Audrey Tautou em "Eterno amor", realizado mais de três décadas depois por Jean-Pierre Jeunet, a Giovanna interpretada por Sophia Loren é uma mulher obcecada e decidida que, munida da certeza mais que absoluta de que seu grande amor não morreu na guerra e está impedido de voltar ao lar, parte em sua busca, sendo exposta às trágicas consequências do conflito. Casada há poucos dias com o hesitante Antonio (Marcello Mastroianni) quando ele partiu para lutar na Rússia, ela passa anos esperando seu retorno ao lar, acompanhada apenas da sogra. Cansada de esperar por notícias, ela toma uma atitude temerária e viaja para o exterior, sabendo, em seu coração, que irá reencontrá-lo, mas não tendo nenhuma certeza das circunstâncias em que isso acontecerá.


O roteiro, co-escrito pelo colaborador habitual de Sica, Cesare Zavattini, usa e abusa dos elementos clássicos do melodrama popular, intercalando com a busca de Giovanna flashbacks do início de seu relacionamento com Antonio e dotando-a da força inerente às heroínas trágicas, capazes de sacrifícios em prol do homem amado. Enquanto procura pelo marido, ela ouve relatos dolorosos da campanha italiana no exterior, filmados com extrema competência pelas lentes do experiente Giuseppe Rottuno, que mescla a frieza da neve com a dourada luz do sol que ilumina os girassóis - metáfora para a falta de controle do ser humano diante do destino. A trilha sonora melodiosa de Henry Mancini - indicada ao Oscar - completa o cenário, emoldurando liricamente uma história sobre renúncia, dor e amores desesperados.

Dirigido com sofisticação e delicadeza, "Os girassóis da Rússia" não tenciona ser um comentário social e político sobre a guerra, mas sim uma singela e comovente história de amor. E para isso, conta com um par central acima de qualquer crítica. Sophia Loren, já premiada com um Oscar e sem precisar provar nada pra ninguém, tem uma atuação primorosa, convencendo nas três fases de sua Giovanna: como a jovem calorosa, a esposa desesperada e a serena mulher convencida de seu destino, ela demonstra que, além de ser um dos mais duradouros símbolos sexuais da Itália, é também uma atriz de primeira. A Marcello Mastroianni resta pontuar com extrema correção o show de Loren.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...