Mostrando postagens com marcador KATE WINSLET. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador KATE WINSLET. Mostrar todas as postagens

quarta-feira

A DESPEDIDA


A DESPEDIDA (Blackbird, 2019, Millenium Media/Busted Shark Productions/Eclectic Pictures, 97min) Direção: Roger Michell. Roteiro: Christian Torpe, roteiro original de sua autoria. Fotografia: Mike Eley. Montagem: Kristina Hetheringon. Música: Peter Gregson. Figurino: Dinah Collin. Direção de arte/cenários: John Paul Kelly/Caroline Smith. Produção executiva: Boaz  Davidson, Andrey Georgiev, Jeffrey Greenstein, Andrew Kotliar, Avi Lerner, Bryan Lord, Heidy Jo Markel, Joshua Sason, Trevor Short, Jonathan Yunger, Elizabeth Zavoyskiy. Produção: David Bernardi, Sherryl Clark, Rob Van Norden. Elenco: Susan Sarandon, Kate Winslet, Mia Wasikowska, Sam Neill, Lindsay Dunca, Rainn Wilson, Bex-Taylo-Klaus, Anson Boon. Estreia: 06/9/2019 (Festival de Toronto)

Portadora de uma doença degenerativa incurável, mulher reúne a família em um último fim-de-semana, com o objetivo de aparar as arestas de suas relações e despedir-se daqueles a quem ama. A sinopse do filme "A despedida" soa tão genérica quanto seu título nacional, mas a boa notícia é que, apesar dos clichês abundantes, o remake do dinamarquês "Coração mudo" (2014), comandado por Roger Michell, é uma produção bastante digna e capaz de comover o público com facilidade - principalmente pela união de um elenco que conta com duas vencedoras do Oscar e atores com prestígio e experiência suficientes para evitar o dramalhão fácil. Nem sempre consegue escapar das armadilhas de uma trama assumidamente emocional, mas dotado de um ritmo agradável e um roteiro que trata de um assunto pesado - a eutanásia - com uma leveza inesperada, o filme é uma bela surpresa, ainda que pouco marcante, o que se refletiu em sua repercussão quase nula desde sua estreia no Festival de Toronto de 2019.

Escrito pelo mesmo Christian Thorpe do filme original, o roteiro de "A despedida" apresenta seus personagens aos poucos - e só expõe a situação principal depois que o espectador já os conhece o bastante para apreciar suas reações diante de um dilema dos mais dilacerantes. Lily (Susan Sarandon, sempre excepcional) e Paul (Sam Neill) formam um casal apaixonado e leal, que criou suas duas filhas com amor e liberdade. A mais velha, Jennifer (Kate Winslet) cresceu uma mulher um tanto controladora, que não abre muito espaço para espontaneidade em sua vida, para incômodo do marido, Michael (Rainn Wilson), e do filho adolescente Jonathan (Anson Boon). A caçula, Anna (Mia Wasikowska), mais rebeldes e desajustada, vive em constantes altos e baixos, o que interfere inclusive no seu relacionamento com a namorada, Chris (Bex Taylor-Klaus). Sofrendo de uma doença que em pouco tempo lhe deixará completamente incapaz de uma vida normal, Lily decide cometer suicídio assistido, contando com a ajuda do marido, que é médico, e para despedir-se adequadamente de todos a quem ama, organiza um fim-de-semana em sua bela casa no litoral - uma espécie de Natal adiantado, que conta também com a presença da sempre fiel e melhor amiga Liz (Lindsay Duncan). Reunido, o grupo tenta ignorar a tensão de uma morte anunciada - o que traz à tona ressentimentos, segredos e sentimentos até então disfarçados sob a aparência de uma família feliz.


 

Não há novidades em "A despedida": o tema, os personagens, os conflitos, tudo parece já ter sido explorado em outras produções mais ou menos bem-sucedidas. Mas é inegável que no filme de Michell - o homem por trás do delicioso "Um lugar chamado Notting Hill" (1999) - as engrenagens funcionam com uma delicadeza ímpar. Por mais que as coisas aconteçam de acordo com os manuais de roteiro (com direito a reviravoltas e um equilíbrio sutil entre drama e algum humor), é difícil não se deixar envolver com o drama proposto, principalmente por jogar luz sob um tema ainda doloroso e polêmico. A produção acerta em não se deixar levar por um tom fúnebre - para o que colabora a luminosa fotografia de Mike Eley, que tira proveito da beleza natural de West Sussex como contraponto à angústia da trama. Também não atrapalha nem um pouco ter em cena atores tão à vontade quanto o elenco escolhido - um time de excelentes intérpretes, que aproveitam cada linha de diálogo para brilhar. Se Susan Sarandon e Kate Winslet não precisam provar mais nada há algum tempo, sobra para Rainn Wilson e Bex Taylor-Klaus chamarem a atenção: ele distante anos-luz de seu mais célebre personagem - o Dwight da série "The office" - e ela oferecendo nuances inesperadas as uma personagem que poderia facilmente cair no estereótipo barato.

"A despedida" não é um filme que fica na memória. Talvez seja sintomático que, apesar do tema, do gênero e do elenco brilhante, tenha sido solenemente ignorado em todas as cerimônias de premiação que tanto apreciam seu estilo. Porém, ao abraçar com sensibilidade e honestidade uma história com tantas possibilidades de cair no grotesco ou no sentimentaloide mais ofensivo, se torna um programa de rara inteligência e sutileza. E claro, contar com um elenco tão fabuloso apenas ajuda a tornar tudo bem mais palatável. É um filme com (grandes) qualidades e (alguns) defeitos - a falta de originalidade sendo o mais óbvio. Mas é, acima de tudo, um filme digno ainda que por vezes um tanto superficial.

sábado

BELEZA OCULTA

BELEZA OCULTA (Collateral beauty, 2016, New Line Cinema/Village Roadshow Pictures, 97min) Direção: David Frankel. Roteiro: Allan Loeb. Fotografia: Maryse Alberti. Montagem: Andrew Marcus. Música: Theodore Shapiro. Figurino: Leah Katznelson. Direção de arte/cenários: Beth Mickle/Kara Zeigon. Produção executiva: Michael Bederman, Bruce Berman, Richard Brener, Peter Cron, Michael Disco, Toby Emmerich, Steven Muchin, Steven Pearl, Ankur Rungta. Produção: Anthony Bregman, Bard Dorros, Kevin Scott Frakes, Allan Loeb, Michael Sugar. Elenco: Will Smith, Edward Norton, Kate Winslet, Helen Mirren, Keira Knightley, Michael Peña, Naomie Harris, Jacob Latimore. Estreia: 12/12/16

Conhecido por liderar o elenco de produções de bilheteria milionária, como "Independence Day" (96) e "Homens de preto" (97), o ator Will Smith entrou no século XXI disposto a mostrar que também sabia ser sério quando necessário - e de cara recebeu uma indicação ao Oscar de melhor ator por "Ali" (2001). A partir daí dividiu a carreira em produções que se escoravam unicamente em seu carisma para conquistar o público - "Eu, robô" (2004), "Hitch: conselheiro amoroso" (2005), "Eu sou a lenda" (2007) e "Hancock" (2008) - e tentativas de manter sua aura de intérprete dramático e maduro - "À procura da felicidade" (2006, que lhe rendeu outra indicação à estatueta dourada), "Sete vidas" (2008) e "Um homem entre gigantes" (2015). É dessa segunda leva que surgiu "Beleza oculta", uma sensível e um tanto inverossímil fábula sobre o amor, o perdão e a esperança dirigida pelo mesmo David Frankel da comédia "O diabo veste Prada" (2006). Ficando com o papel principal que foi de Hugh Jackman até que problemas de agenda o impediram de manter-se no projeto, Smith entrega mais um desempenho memorável, ao lado de um elenco estelar que conta com Kate Winslet, Edward Norton, Keira Knightley e Helen Mirren. Sucesso apenas moderado nos EUA, o filme é uma adocicada fábula natalina que pode até emocionar aos menos exigentes mas carece de um roteiro menos óbvio - apesar de sua reviravolta final relativamente surpreendente.

Quando o filme começa, o público é apresentado ao publicitário Howard - interpretado de corpo e alma por Smith - comemorando, ao lado dos sócios, um ano extremamente produtivo e bem-sucedido profissionalmente. Três anos mais tarde, porém, a situação é bastante diferente: sua agência está em franco declínio com a perda de importantes clientes, basicamente devido à falta de interesse de Howard, que perdeu todo o entusiasmo com a vida desde a morte de sua única filha, fato que o levou ao divórcio e uma depressão profunda. Preocupados com Howard - ou mais precisamente com os problemas financeiros que sua nova rotina pode acarretar - seus três colegas resolvem tomar uma atitude tão desesperada quanto surreal: sabendo que, em seus delírios, o rapaz escreveu cartas melancólicas ao Amor, ao Tempo e à Morte, eles contratam três atores de teatro amador para confrontar o rapaz e fazê-lo voltar ao normal. A ideia, no entanto, não é assim tão altruísta, já que o objetivo também é desacreditar Howard diante de investidores e obrigá-lo a vender sua parte na empresa. É assim que entram em cena Brigitte (Helen Mirren), Amy (Keira Knightley) e Raffi (Jacob Latimore) - respectivamente, a Morte, o Amor e o Tempo - para ajudar a resolver a situação. Nesse meio-tempo, Howard tenta frequentar um grupo de apoio às pessoas de luto, liderado por Madeleine (Naomi Harris) - também uma mulher lutando contra a tristeza depois de perder uma filha.


O roteiro de "Beleza oculta" poderia centrar-se apenas na história de Howard e seus amigos imaginários, mas, para embaralhar ainda mais as coisas, seus três sócios também tem problemas com os quais lidar. Whit (Edward Norton) passa por um divórcio complicado e tem uma relação difícil com a filha adolescente; Claire (Kate Winslet), solteira, vê o tempo passar diante dos seus olhos sem que consiga realizar o sonho de tornar-se mãe; e Simon (Michael Peña), esconde de todos uma doença grave e incurável que em breve o privará da companhia da família. A seu modo, todos estão lidando com as abstrações citadas por Howard em seus momentos de tristeza, mas a trama deixa de aprofundar-se nas questões levantadas, preferindo contar uma história linear e recheada de sentimentalismo, que tenta emocionar ao apelar para o limite entre o comovente e o piegas. Apoiando-se no talento incontestável de seu elenco - que faz o possível e o impossível para dar consistência e verossimilhança a personagens nem sempre bem construídos no papel - o filme de David Frankel é visualmente atraente e cativa a plateia por apresentar com fluência emoções primárias e universais, mas falha ao subestimar a inteligência do espectador: tudo é entregue de forma maniqueísta e simplória, sem espaços para nada mais do que uma narrativa previsível e sem maiores traços de inventividade.

Will Smith está ótimo, convencendo em todas as nuances de seu personagem - assim como Helen Mirren consegue atingir as notas certas de sua Brigitte. Mas é uma pena que Frankel tenha desperdiçado atores tão talentosos quanto Edward Norton e Kate Winslet em papéis sem grandes possibilidades. "Beleza oculta" é um bom filme para quem procura se emocionar ou para os fãs do estupendo elenco reunido por David Frankel, mas deixa a sensação de promessa não totalmente cumprida, já que perde a oportunidade de ouro de ser inesquecível ou ter o impacto possível - tanto junto ao público quanto em relação à crítica, que torceu o nariz para seu roteiro raso e justificou sua falha também em conquistar os eleitores da Academia de Hollywood: mesmo com sua estreia acontecendo em dezembro (época quente para as produções que ambicionam indicações ao Oscar), foi ignorado por todas as cerimônias de premiação. Infelizmente não é o caso de ter sido injustiçado: é um filme agradável, mas jamais marcante.

terça-feira

A GRANDE ILUSÃO

A GRANDE ILUSÃO (All the king's men, 2006, Columbia Pictures, 128min) Direçao: Steven Zaillian. Roteiro: Steven Zaillian, romance de Robert Penn Warren. Fotografia: Pawel Edelman. Montagem: Wayne Wahrman. Música: James Horner. Figurino: Marit Allen. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandenstein/Patricia Schneider. Produção executiva: James Carville, Andy Grosch, Michael Hausman, Ryan Kavanaugh, Todd Phillips, Andreas Schmid, David Thwaites. Produção: Ken Lemberger, Mike Medavoy, Arnold W. Messer, Steven Zaillian. Elenco: Sean Penn, Jude Law, Kate Winslet, Anthony Hopkins, Mark Ruffalo, Patricia Clarkson, James Gandolfini, Jackie Earle Haley, Kathy Baker, Talia Balsam, Tom McCarthy. Estreia: 10/9/06 (Festival de Toronto)

O remake de "A grande ilusão", cujo original de 1949 ganhou os Oscar de melhor filme, ator (Broderick Crawford) e atriz coadjuvante (Mercedes McCambridge), serviu para reiterar duas verdades absolutas em Hollywood: primeiro, que política é um assunto que definitivamente não atrai as plateias americanas que frequentam as salas de cinema; segundo, que nem mesmo uma seleção de atores do primeiríssimo escalão é capaz de fazer mágica quando há o desinteresse do público. Com um elenco estrelado, repleto de astros vencedores e indicados ao Oscar, o filme de Steven Zaillian - ele mesmo ganhador da estatueta pelo roteiro de "A lista de Schindler" (93) - fracassou homericamente nas bilheterias e não obteve apoio nem mesmo da crítica especializada, que praticamente ignorou sua estreia - um ano depois, aliás, da data inicialmente prevista para seu lançamento. Mas o que é mais chocante nessa história toda é que o filme, apesar de violentamente rechaçado, está muito longe de ser ruim ou medíocre: é um trabalho bastante interessante, valorizado por seus intérpretes e com uma trama de grande relevância política, especialmente nos dias que seguem.

Baseado não no filme de Robert Rossen, mas mais especificamente no romance que lhe deu origem - escrito por Robert Penn Warren e inspirado na trajetória do político Huey Long, que foi governador da Louisiana - "A grande ilusão" tem como protagonista o populista Willie Stark (Sean Penn, em grande performance), que se torna governador do estado depois de desmascarar os conchavos de políticos mais experientes que queriam usá-lo como joguete. Incensado pela população carente, que vê nele uma sinceridade que inexiste em outros candidatos, Stark vê sua ascensão incomodar as camadas mais importantes da região, homens de grande poder financeiro que se sentem ameaçados com as promessas e obras do novo líder. Embriagado pelo poder - que o faz trair sucessivamente a esposa, tanto com jovens artistas quanto com sua auxiliar de campanha, Sadie Burke (Patricia Clarkson) - Stark entra na mira de seus inimigos, que iniciam uma campanha pedindo seu impeachment. Abusando de métodos pouco ortodoxos, ele então pede ajuda ao jornalista Jack Burden (Jude Law), que o acompanha desde seus primeiros dias de vida pública, a tentar descobrir algum podre no passado de seu principal rival, o juiz Irwin (Anthony Hopkins) - que vem a ser, por coincidência, padrinho do jovem. Não bastasse tanta confusão, Burden testemunha a forma como Stark se deixa envolver pelo lado sujo do poder, o que inclui seu melhor amigo de juventude, Adam Stanton (Mark Ruffalo) e a irmã deste, seu grande amor Anne (Kate Winslet).


Apesar da profusão de personagens importantes - defendidos por atores nunca aquém de brilhantes - e da trama com mais de um foco de interesse, "A grande ilusão" não incorre no erro tão comum de confundir o espectador, com idas e vindas desnecessárias: sempre que faz uso de flashback, o roteiro de Zaillian o faz com inteligência e parcimônia, servindo-se dele para iluminar detalhes a respeito de seus protagonistas e explicar ao público os caminhos que os levaram até determinado ponto da narrativa. Vista sob a ótica de Jack Burden - um Jude Law injustamente esquecido pelas cerimônias de premiação - e, portanto, com um certo distanciamento que vai sumindo aos poucos, a história de Willie Stark não prescinde de tramoias, ameaças, chantagens e violência, mas, ao situar a trama na década de 50 (décadas antes da mídia imediatista dos dias atuais), o diretor/roteirista de certa forma justifica os atos quase desprezíveis de seu personagem central. É perceptível que, apesar dos erros cometidos por Stark em sua ascensão, há uma certa dose de simpatia por ele - talvez devido à atuação cheia de garra de Sean Penn, talvez devido à maneira brutal com que ele é desprezado pelos poderosos. Essa ambiguidade, bem retratada por Zaillian é outro ponto forte do filme, que jamais aponta uma verdade absoluta sobre Stark, oferecendo à plateia algo a refletir mesmo depois do fim da sessão.

Logicamente, o filme de Zaillian não é perfeito, e sua demora em engrenar é um de seus pecados - a primeira sequência, que mostra Stark, Burden e seu segurança/capanga (Jackie Earle Haley) em direção à residência de um de seus inimigos mais confunde do que intriga. A transformação de Stark também é um tanto problemática, uma vez que não fica muito claro ao espectador em que momento de sua trajetória ele se deixou seduzir pelo poder fácil e por suas vantagens - e qual o destino de sua esposa, a princípio importantíssima em suas decisões e repentinamente desaparecida da narrativa. Mas são defeitos pequenos diante de um filme forte, interessante e realizado perceptivelmente com esmero e dedicação - Sean Penn e Mark Ruffalo, por exemplo, são atores politicamente engajados, o que deve ter contribuído consideravelmente em suas decisões de participar do projeto. Uma pena que não encontrou sua audiência: "A grande ilusão" é um filme que merece ser descoberto.

domingo

REFÉM DA PAIXÃO

REFÉM DA PAIXÃO (Labor day, 2013, Indian Paintbrush, 111min) Direção: Jason Reitman. Roteiro: Jason Reitman, romance de Joyce Maynard. Fotografia: Eric Steelberg. Montagem: Dana E. Glauberman. Música: Rolfe Kent. Figurino: Danny Glicker. Direção de arte/cenários: Steve Saklad/Tracey A. Doyle. Produção executiva: Michael Beugg, Steven M. Rales, Mark Roybal. Produção: Helen Estabrook, Lianne Halfon, Jason Reitman, Russell Smith. Elenco: Kate Winslet, Josh Brolin, Gattlin Griffith, Tobey Maguire, JK Simmons, Tom Lipinski, James Van Der Beek, Maika Monroe, Clark Gregg, Brooke Smith. Estreia: 30/8/13 (Festival de Telluride)
De um sujeito que assinou filmes como o cínico “Obrigado por fumar” (06), o sarcástico “Juno” (07), o cruel “Amor sem escalas” (09) e o ácido “Jovens adultos” (11) pode-se esperar qualquer coisa menos que escolha dirigir uma história de amor daquelas bem recheadas de clichês românticos e personagens heroicos, certo? Errado. Jason Reitman, talvez justamente para não ficar marcado por filmes que não retratam os seres humanos exatamente com simpatia resolveu fazer de seu quinto longa-metragem a adaptação do livro “Refém da paixão”, de Joyce Maynard, uma história de amor bem recheada de clichês românticos e personagens heroicos. A boa notícia? Ele consegue utilizar todos os lugares-comuns da trama a seu favor, construindo um romance delicado, simples e extremamente eficiente, ainda que nunca brilhante ou genial. Contando com atuações acima da média da sua dupla central – o que não é surpresa quando ela é formada por Kate Winslet e Josh Brolin – e revelando o ótimo Gattlin Griffith em um papel crucial, Reitman acerta mais uma vez e conquista o público com sobriedade e sensibilidade.
Situando sua trama no feriado do Dia do Trabalho de 1987 – um dos mais quentes da história – e em um cenário pouco explorado pelo cinemão americano – New Hampshire – Reitman, também autor da adaptação do romance de Maynard, apresenta um conto que apresenta, sem tentativas de soar original ou surpreendente, temas como solidão, depressão, perda da inocência e o despertar do sexo. São elementos já utilizados à exaustão por Hollywood e filmes de todas as nacionalidades, mas com um certo frescor e uma seriedade que torna impossível ao espectador resistir a eles. Justamente por adotar uma narrativa clássica apropriada à história que quer contar, o filho do também diretor Ivan Reitman conduz com simplicidade e sem sobressaltos um filme que em outras mãos menos talentosas certamente esbarraria na monotonia ou na previsibilidade. “Refém da paixão” é escorado em um ritmo que reflete com precisão a temperatura extrema que circunda os personagens – indolente, sexy e por vezes claustrofóbico.
Vivida por uma bela e intensa Kate Winslet, a protagonista do filme é Adele, uma dona-de-casa oprimida por uma depressão crônica tornada ainda pior com o abandono do marido, que a trocou pela secretária. Vivendo em companhia do filho único, o pré-adolescente Henry (Gattlin Griffith) e quase sem sair de casa, Adele resolve romper sua inércia justamente no dia em que Frank Chambers (Josh Brolin), um homem condenado a 18 anos de prisão por assassinato, foge do Hospital onde foi internado para tratar de uma apendicite. Na loja de departamentos onde vai comprar roupas novas para o início das aulas do filho, Adele é obrigada por Frank – sangrando mas nitidamente ameaçador – a levá-lo para sua casa e escondê-lo até a noite, quando então poderá continuar sua fuga. A princípio temerosa – por motivos mais do que óbvios – Adele aos poucos percebe, assim como Henry, que Frank não tem intenções criminosas em relação a eles e surge, então, uma relação amistosa. Assumindo o papel de homem da casa – consertando o carro, a calha, os degraus – e até enfrentando a cozinha – com uma já antológica cena em que os três, como uma família, assam uma torta de pêssegos – Frank acaba por encantar Adele, uma mulher solitária que vê nele uma figura masculina diferente do marido pouco confiável. Henry não demora a notar o interesse da mãe em Frank – e vice-versa – e luta internamente com a felicidade de ver a mãe reagindo ao mundo depois de muito tempo e o medo em relação ao destino de Frank, afinal de contas um foragido da Justiça.

Logicamente, como se trata de uma história de amor, o passado de Frank também é revolvido pelo roteiro, e conta com uma saudável cota de decepções e injustiças. Com flashbacks rápidos entremeados à trama central – e que apresenta Tom Lipinski, um ator idêntico a Josh Brolin fazendo seu papel na juventude – Reitman mostra à plateia que não há motivo para medo: Frank é um homem bom, e é permitido torcer para um final feliz entre ele e Adele. Esse tom de melodrama do filme, ao contrário do que se poderia esperar, funciona à perfeição. Como um bom contador de histórias, o cineasta quer que o público se afeiçoe a seus personagens e o faz com maestria. Fica difícil à plateia não se deixar envolver pelo romance entre Frank e Adele, especialmente porque a química entre Josh Brolin e Kate Winslet transborda pela tela.

Sem que seja preciso apelar para uma cena sequer de sexo, Jason Reitman inunda todas as sequências entre Winslet e Brolin com uma sensualidade à beira do inflamável. São olhares expressivos, toques delicados de mãos, sessões de cozinha e aulas de dança que orquestram a relação perigosa/apaixonada entre os personagens, e tal condição não escapa aos olhos do introvertido Henry, que justamente nesse momento está passando pela fatídica fase de despertar para o sexo oposto – que surge na figura de uma nova moradora da cidade, rebelde e ousada. O contraponto entre a mãe (redescobrindo o prazer e a paixão) e o filho (caminhando para o primeiro amor) surge como uma interessante subtrama, aprofundando os laços entre os dois e confirmando o talento do jovem Griffith em transmitir muito sem precisar falar quase nada. Intercaladas com alguns momentos de suspense bem dosados – o roteiro nunca deixa de lembrar que Frank é um criminoso – as cenas românticas de “Refém da paixão” buscam o familiar, a normalidade e a paz mesmo quando retrata uma situação muito longe da corriqueira. A família postiça de Henry – com um pai bem mais digno do título do que o verdadeiro – lhe oferece mais amor e exemplos do que a original: um contraste inteligente que eleva o filme acima da média do gênero.
Depois de sua metade, quando Adele e Frank resolvem fugir juntos, “Refém da paixão” perde um pouco o ritmo – que recupera no terço final, onde o suspense assume a protagonização em detrimento do romance. Mesmo assim fica difícil não perceber o cuidado da direção em manter uma coerência narrativa e no desenho dos personagens, construídos de forma a jamais trair suas concepções originais. Por mais que possa parecer a princípio, o amor entre a dupla central convence – como o encontro de duas almas torturadas finalmente vendo diante de si a possibilidade de carinho e compreensão. Essa verdade que transparece graças às atuações calorosas de Kate Winslet e Josh Brolin consegue até mesmo deixar perdoável o final um tanto abrupto em que Tobey Maguire assume o papel de Henry na fase adulta e serve como ponte para o desfecho que todos esperavam. É bonito, é coerente e é romântico até a medula. Mas funciona que é uma beleza.

sábado

PARA MAIORES

PARA MAIORES (Movie 43, 2013, Relativity Media, 94min) Direção: Elizabeth Banks, Steven Brill, Steve Carr, Rusty Candief, James Duffy, Griffin Dunne, Peter Farrelly, Patrik Forsberg, Will Graham, James Gunn, Brett Ratner, Jonathan van Tulleken. Roteiro: Rocky Russo, Jeremy Sosenko, Ricky Blitt, Bill O'Malley, Will Graham, Jack Kukoda, Matt Portenoy, Claes Kjellstrom, Jonas Wittenmark, Tobias Carlson, Will Carlough, Jonathan van Tulleken, Elizabeth Shapiro, Patrik Forsberg, Olle Sarri, Jacob Fleisher, Greg Pritkin, James Gunn. Fotografia: Mattian Anderssonn Rudh, Frank G. DeMarco, Steve Gainer, Matthew F. Leonetti, Daryn Okada, William Rexer, Eric Scherbarth, Newton Thomas Sigel, Tim Suhrstedt. Montagem: Debra Chiate, Patrick J. Don Vito, Suzy Elmiger, Mark Helfrich, Craig Herring, Myron I. Kerstein, Joe Randall-Cutler, Sam Seig, Cara Silverman, Sandy S. Solowitz, Jonathan van Tulleken, Hakan Warn, Paul Zucker. Música: Tyler Bates, Christophe Beck, Leo Birenberg, William Goodrum, Dave Hodge. Figurino: Anna Bingemann, Nancy Ceo, Roseanne Fiedler, Florence Kemper, Judianna Makovsky, Sydney Maresca, Salvador Pérez Jr.. Direção de arte/cenários: Toby Corbett, Jade Healy, Nolan Hooper, Robb Wilson King, Dina Lipton, Happy Massee, Arlan Jay Vetter, Inbal Weinberg/Jasmine E. Ballou, Robert Covelman, Andrea Mae Fenton, Isaac Gabaeff, Amber Haley, Jean Landry, Lance Lombardo, Jessica Panuccio, Halina Siwolop. Produção executiva: Ron Burkle, Jason Felts, Tucker Tooley, Tim Williams. Produção: Peter Farrelly, Ryan Kavanaugh, John Penotti, Charles B. Wessler. Elenco: Hugh Jackman, Kate Winslet, Liev Schreiber, Naomi Watts, Anna Faris, Chris Pratt, Kieran Culkin, Emma Stone, Richard Gere, Kate Bosworth, Justin Long, Jason Sudeikis, Uma Thurman, Bobby Cannavale, Kristen Bell, Christopher Mintz-Plasse, Chloe Grace Moretz, Gerard Butler, Sean William Scott, Johnny Knoxville, Halle Berry, Stephen Merchant, Terrence Howard, Elizabeth Banks, Josh Duhamel. Estreia: 25/01/13

A primeira pergunta que surge na cabeça do espectador enquanto sobem os créditos finais da comédia "Para maiores" é a tradicional em casos do tipo: "Por que diabos atores tão bons e tão consagrados aceitaram fazer essa porcaria?" De fato a lista de nomes envolvidos no projeto é de causar inveja a qualquer diretor de elenco de Hollywood - há desde indicados e vencedores do Oscar, como Hugh Jackman, Kate Winslet e Halle Berry, até astros em franca ascensão, como Emma Stone, Chris Pratt e Chloe Grace Moretz - especialmente se for levado em consideração que o orçamento total não ultrapassou os seis milhões de dólares, o que normalmente não paga nem um terço do cachê de alguns dos atores escalados. Mas a gritaria quase unânime contra o filme - apedrejado sem dó nem piedade por crítica e público - não deixa de ser um tanto quanto exagerada. Ok, o humor de alguns quadros está realmente no limite do bom-gosto e nem sempre funciona como poderia. Tudo bem, a história que os liga é pífia e em muitos momentos tem-se a nítida impressão de que o roteiro foi escrito por um grupo de adolescentes escatológicos no auge da puberdade. Mas outros grandes sucessos de bilheteria também não eram exatamente assim? Não é à toa que um dos roteiristas e diretores do filme seja Peter Farrelly - um dos irmãos responsáveis por "Debi & Loide", que, apesar de ter o mesmo tipo de humor, serviu de trampolim milionário para a carreira de Jim Carrey.

Talvez o maior estranhamento em relação à "Para maiores" seja justamente o fato de contar com atores de prestígio e respeito se prestando a situações constrangedoras normalmente relegadas a elencos de segundo ou terceiro escalões. Não é sempre que se vê Hugh Jackman interpretando um homem com os testículos localizados no queixo ou Halle Berry fazendo guacamole com um seio. Sim, é esse o nível de humor do filme, que usa e abusa do politicamente incorreto e de algumas piadas francamente ofensivas para conquistar as gargalhadas da audiência. De acordo com a bilheteria - pouco mais de 8 milhões em casa, cerca de 23 no mercado internacional - nem todo mundo entendeu (ou quis entender) a brincadeira. O estigma de humor pouco sofisticado pesou mais do que o elenco milionário, mas não é difícil de imaginar que, deixando o preconceito de lado (junto com qualquer tipo de suscetibilidade), o público possa ter alguns bons momentos de diversão, mesmo que jamais assuma isso diante dos outros.

Quem quiser encarar o desafio de experimentar a brincadeira quase insana que é "Para maiores" tem que se preparar para quase tudo. Literalmente. Tudo começa quando dois adolescentes, em busca de vingança contra um amigo nerd, falam a ele sobre a existência de um filme maldito, proibido em todos os países do mundo e que só pode ser localizado no submundo da Internet. Tal premissa - boba como convém - serve como elo de ligação entre todos os esquetes da produção, que fazem as vezes de alguns dos filmes encontrados durante a procura dos jovens. A partir daí é bobagem atrás de bobagem, com níveis variáveis de graça e escatologia. Se não, vejamos: no primeiro encontro com um solteirão cobiçadíssimo (Hugh Jackman), uma mulher (Kate Winslet) descobre que ele tem uma particularidade física desconcertante; Naomi Watts e Liev Schreiber (casados na vida real) contam a um casal de amigos como fazem para fazer de seu lar o ambiente escolar ideal para o filho adolescente que estuda em casa; às vésperas de pedir sua namorada (Anna Faris) em casamento, rapaz (Chris Pratt, casado com Faris também atrás das câmeras) se surpreende com uma proposta pouco usual da moça para apimentar suas relações sexuais; caixa de um supermercado (Kieran Culkin) reencontra a namorada (Emma Stone) e resolve por a relação em pratos limpos esquecendo de desligar o microfone e faz todos os clientes de testemunhas de suas palavras pouco sutis.


A sessão de humor descompromissado segue adiante mostrando uma reunião de acionistas de um IPod em forma de boneca que vem mutilando os pênis dos usuários adolescentes e que encontra no diretor da empresa (Richard Gere) um empecilho para as mudanças necessárias solicitadas por uma colega do sexo oposto (Kate Bosworth); Justin Long aparece como Robin, que frequenta uma sessão de encontros-relâmpagos e dá de cara com Lois Lane (Uma Thurman), a Supergirl (Kristen Bell), o Batman (Jason Sudeikis) e o Superman (Bobby Cannavale); Chloe Grace Moretz é uma adolescente que tem a primeira menstruação na casa do namorado e, desesperada, não consegue a ajuda dele e do cunhado (Christopher Mintz-Plasse) para resolver o problema; para limpar a barra com o melhor amigo (Sean William Scott), Johnny Knoxville lhe dá de presente um duende irlandês desbocado e violento (Gerard Butler), o que irá lhes causar grandes dores de cabeça (e em outras partes do corpo); Halle Berry e Stephen Merchant se encontram às cegas e iniciam uma brincadeira de "Verdade ou desafio" que logo descamba para consequências impensáveis; Terrence Howard é um treinador de basquete dos anos 50 que tenta convencer seus atletas negros que eles tem possibilidade de vencer os rivais brancos somente porque são negros; e Elizabeth Banks (diretora do esquete estrelado por Chloe Grace Moretz) tenta, no último quadro, convencer seu noivo (Josh Duhamell) que o gato que ele trata como filho a odeia e nutre por ele sentimentos pouco fraternais e muito sexuais.

É de frequente mau-gosto? Sim. É ofensivo e por vezes inacreditável? Também. Mas "Para maiores" atinge plenamente seu objetivo de jogar para o alto o politicamente correto que vem minando a comédia no cinema e fazer rir, mesmo que de nervoso. Como cinema - em termos técnicos e narrativos - é uma nulidade, mas sua coragem em nadar contra a corrente merece ser louvada até mesmo por todos aqueles que rejeitam ferozmente seu resultado final. Não é uma comédia para todo mundo - pode-se até dizer que é para poucos, em um extremo oposto à sofisticação de Woody Allen, por exemplo - mas pode encontrar seu público, desde que este esteja disposto a mergulhar sem medo na baixaria explícita de um filme que jamais se leva a sério. Questão apenas de querer se arriscar!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...