OESTE SEM LEI (Slow west, 2015, See-Saw Films/Film4/DMC Film, 84min) Direção e roteiro: John Maclean. Fotografia: Robbie Ryan. Montagem: Roland Gallois, Jon Gregory. Música: Jed Kurzel. Figurino: Kirsty Cameron. Direção de arte/cenários: Kim Sinclair/Amber Richards. Produção executiva: Katherine Butler, Michael Fassbender, Zygi Kamasa. Produção: Iain Canning, Rachel Gardner, Conor McCaughan, Emile Sherman. Elenco: Michael Fassbender, Kodi Smith-McPhee, Caren Pistorius, Ben Mendehlson, Brian Sergent, Edwin Wright, Rory McCann. Estreia: 24/01/15 (Festival de Sundance)
Que Michael Fassbender é um dos maiores atores de sua geração não é novidade para ninguém. Em poucos anos, ele entregou performances arrebatadoras em filmes tão distintos como "Fome" (2008), "Shame" (2011) e "12 anos de escravidão" (2013) - todos dirigidos pelo cineasta Steve McQueen - e trafegou pelos mais diversos estilos, incluindo a ficção científica ("Prometheus", de 2012), o filme de ação ("Assassin's Creed", de 2015) e a cinebiografia ("Steve Jobs", também de 2015). Em "Oeste sem lei" ele volta sua atenção para outro gênero caro ao inconsciente coletivo da plateia - e um dos mais tradicionais de Hollywood: o western. Assinando também como produtor executivo do filme, ele banca a estreia do músico John Maclean (da banda folk The Beta Band) como roteirista e diretor, e aproveita sua versatilidade em favor de uma trama que, se não apresenta grandes novidades, ao menos respeita os cânones do gênero e mantém a atenção do público até seu climático final - com direito a um tiroteio dos mais empolgantes e um desfecho emocionante.
É interessante perceber como Maclean se utiliza dos elementos mais clássicos do western - a figura do cavaleiro solitário, a fotografia caprichada, ataques indígenas, o embate entre mocinhos e bandidos - ao mesmo tempo em que os envolve com certa aura de modernidade. Ao contrário de outras produções que transformaram o gênero em piada (como os filmes "Young guns"), o cineasta estreante demonstra reverência ao que já foi realizado enquanto conta sua história com ritmo e estilo próprios. Evitando a prolixidade e o exagero, Maclean é minimalista, lembrando mais os contemplativos filmes de Clint Eastwood do que os épicos de John Ford - até a duração é tímida, pouco menos de uma hora e meia (modesta para os padrões comerciais). Modesto também foi seu orçamento, estimado em meros dois milhões de dólares, o que lhe permitiu estrear no Festival de Sundance de 2015 - de onde saiu laureado com o Grande Prêmio do Júri. Aplaudido também por críticos europeus (que reconheceram nele as qualidades que sua bilheteria escassa escondeu do grande público), "Oeste sem lei" é uma grata surpresa para quem procura entretenimento sem abrir mão de alguns "detalhes" - como um bom roteiro, uma direção inspirada e atores competentes.
Apesar de Michael Fasbnder ser o produtor executivo e o nome mais conhecido do elenco, seu personagem não é o protagonista da trama. Quem comanda a narrativa é o muito jovem Kodi Smith-McPhee, conhecido por seu trabalho em "A estrada" (2010) e "Deixe ela entrar" (2011). Ele vive Jay Cavendish, um escocês de apenas 16 anos de idade que cai na estrada atrás daquela que considera a mulher de sua vida, a independente Rose Ross (Caren Pistorius) - que, junto com seu pai, John (Rory McCann), tornou-se fugitiva depois de um incidente com o tio de Jay, que não aprovava a amizade do sobrinho com alguém de nível social inferior. Seguindo os passos de Rose, Jay chega ao oeste norte-americano, onde encontra o experiente Silas Selleck (Fassbender em pessoa), com quem logo inicia uma relação de camaradagem - ainda que o misterioso cavaleiro não seja uma pessoa de muitas palavras. O que Jay nem desconfia é que Silas também quer encontrar Rose e John, mas por motivos bem menos emocionais: a dupla está sendo procurada e existe uma recompensa de cinco mil dólares à espera de quem os entregar.
O roteiro de "Oeste sem lei" se concentra em dar consistência à nascente amizade entre Jay e Silas, enquanto, através de flashbacks, vai contando a história de amor unilateral entre o menino e Rose. Equilibrando as duas linhas narrativas sem maiores sobressaltos, John Maclean se revela um cineasta discreto e inteligente: com pouco dinheiro para gastar, preferiu priorizar os personagens à ação, para somente nos minutos finais entregar à plateia o clímax emocional, que encerra a trajetória de seus protagonistas de forma coerente e digna. O desfecho do "romance" entre Jay e Rose pode até soar um pouco rápido demais, mas é inegável que proporciona ao filme uma conclusão verossímil e emocional. Fugindo com destreza dos clichês ao mesmo tempo em que os abraça quando necessário, o filme é uma bela surpresa para os fãs do gênero, de Fassbender e do bom cinema independente.
Filmes, filmes e mais filmes. De todos os gêneros, países, épocas e níveis de qualidade.
Mostrando postagens com marcador MICHAEL FASSBENDER. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador MICHAEL FASSBENDER. Mostrar todas as postagens
segunda-feira
sexta-feira
MACBETH: AMBIÇÃO E GUERRA
MACBETH: AMBIÇÃO E GUERRA (Macbeth, 2015, See-Saw Films/DMC Film, 113min) Direção: Justin Kurzel. Roteiro: Todd Louiso, Jacob Koskoff, Michael Lessie, peça teatral de William Shakespeare. Fotografia: Adam Arkapaw. Montagem: Chris Dickens. Música: Jed Kurzel. Figurino: Jacqueline Durran. Direção de arte/cenários: Fiona Crombie/Alice Felton. Produção executiva: Jenny Borgars, Oliver Courson, Danny Perkins, Tessa Ross, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Iain Canning, Laura Hastings-Smith, Emile Sherman. Elenco: Michael Fassbender, Marion Cottilard, Paddy Considine, David Thewlis, Jack Reynor, Sean Harris, Elizabeth Debicki. Estreia: 23/5/15 (Festival de Cannes)
Escrito no início dos anos 1600, o texto de "Macbeth" tornou-se, com um tempo, um dos mais celebrados do imortal William Shakespeare - e também o mais cercado de superstições e lendas a respeito de suas montagens. Ao falar basicamente sobre o mal e a ambição, a obra chegou ao ponto de ser chamada simplesmente de "a peça escocesa", como forma de isolar toda as maldições que (segundo consta) atinge suas montagens. Dona de alguns dos personagens mais conhecidos do teatro mundial - especialmente o personagem-título e sua esposa -, a peça também chegou ao cinema em diversas ocasiões, mais notadamente em uma versão dirigida por Orson Welles em 1948 e uma adaptação de Roman Polanski, lançada em 1971. Sem uma nova releitura cinematográfica desde então, "Macbeth" chegou ao século XXI sob a direção do australiano Justin Wurzel - relativamente conhecido de circuitos de festivais graças à sua estreia como cineasta, "Os crimes de Snowtown" (2011): visualmente exuberante, dramaticamente convincente e passível de uma nova compreensão psicológica, "Macbeth: ambição e guerra" tem a seu favor, também, a certeira escalação de seus dois atores centrais. Sempre arrebatadores, Michael Fassbender e Marion Cottilard - que voltariam a trabalhar com o diretor na adaptação do videogame "Assassin's Creed" - agigantam o filme de Wurzel e dignificam uma das maiores obras teatrais da história.
Violenta, impiedosa e cruel, a trama de "Macbeth" não poupa sangue e apresenta seus protagonistas como um casal absolutamente ganancioso e frio. O roteiro do filme de Wurzel dá uma amenizada em suas características principais, mas o faz de maneira orgânica e coerente com a visão proposta pelo cineasta: o Macbeth de Michael Fassbender sofre de um grave transtorno pós-traumático, oriundo de suas batalhas para defender o trono da Escócia e garantir o reinado de Duncan (David Thewlis), seu parente distante; e sua esposa, vivida por Marion Cottilard, é atormentada pela perda precoce de um filho, um fato que, se não a absolve de todos os pecados que virá a cometer, ao menos oferece ao espectador (e à atriz) uma camada a mais de complexidade e humanidade. Substituindo Natalie Portman - a escolha original para o papel -, Cottilard pode parecer, por sua nacionalidade, uma opção estranha para uma personagem tão vinculada a intérpretes britânicas, mas basta uma cena para que o público deixe de lado qualquer reserva e se deixe envolver pela sedução de uma das mais perversas criações dramáticas do teatro universal: um misto de beleza, inteligência e calculismo, Lady Macbeth encontra em Cottilard uma personificação exemplar, que justifica toda e qualquer ascendência sobre o marido ambicioso.
E se Marion Cottilard encarna com perfeição a infame esposa do protagonista, Michael Fassbender não faz por menos na pele de Macbeth. Dedicado e intenso, Fassbender entrega-se de maneira avassaladora ao filme - adaptação de sua preferida dentre as peças de Shakespeare. Segundo o diretor, o ator alemão leu o roteiro nada menos que 200 vezes antes que as filmagens sequer começassem - e o resultado de tanto empenho é perceptível em cada cena: transmitindo sem erro todas as nuances de seu personagem (ambição, medo, paranoia, coragem, loucura), Fassbender não apenas entrega uma atuação impecável, mas também a coloca instantaneamente no rol das maiores interpretações de sua carreira repleta de grandes desempenhos, e na cobiçada companhia de nomes como Laurence Olivier, Orson Welles, Ian McKellen e Kenneth Branagh - atores internacionalmente reconhecidos como intérpretes shakespereanos. A intensidade de Fassbender, assim como sua figura imponente e carismática, engole cada cena do filme de Kurzel, mesmo quando ao lado de colegas também bastante talentosos - desde o veterano David Thewlis como o Rei Duncan até o jovem Jack Reynor, que, vindo do cinema independente, interpreta com segurança o príncipe Malcolm. Mesmo que suas participações sejam pequenas, servem como apoio ao trabalho irretocável do protagonista.
E se não bastasse as atuações irrepreensíveis de seu elenco, "Macbeth: ambição e guerra" consegue se destacar também por seu visual. A bela fotografia de Adam Arkapaw é a moldura perfeita para a violenta trama que se desenrola diante dos olhos do espectador, ilustrando com imagens o estado mental de seus personagens. Nem mesmo as pequenas mudanças em relação à peça (a criação de uma quarta feiticeira, por exemplo) são capazes de estragar o espetáculo, especialmente porque o roteiro segue a sangrenta história ao pé da letra. Para quem ainda não conhece, ela acompanha a trajetória de Macbeth, um general que, depois de receber, através de feiticeiras, a notícia de que se tornará o rei da Escócia, se une à esposa para apressar tal destino, eliminando todas as pessoas que poderiam ser um empecilho para tal - sejam elas homens, mulheres ou crianças. A partir daí, sua ambição desmedida o empurra para a paranoia, a loucura e ainda mais violência - tudo tratado com seriedade e delicadeza pela direção de Wurzel, que se mostra plenamente digno de comandar uma das mais importantes sagas do teatro universal. Para os fãs de Shakespeare é um programa indispensável!
Escrito no início dos anos 1600, o texto de "Macbeth" tornou-se, com um tempo, um dos mais celebrados do imortal William Shakespeare - e também o mais cercado de superstições e lendas a respeito de suas montagens. Ao falar basicamente sobre o mal e a ambição, a obra chegou ao ponto de ser chamada simplesmente de "a peça escocesa", como forma de isolar toda as maldições que (segundo consta) atinge suas montagens. Dona de alguns dos personagens mais conhecidos do teatro mundial - especialmente o personagem-título e sua esposa -, a peça também chegou ao cinema em diversas ocasiões, mais notadamente em uma versão dirigida por Orson Welles em 1948 e uma adaptação de Roman Polanski, lançada em 1971. Sem uma nova releitura cinematográfica desde então, "Macbeth" chegou ao século XXI sob a direção do australiano Justin Wurzel - relativamente conhecido de circuitos de festivais graças à sua estreia como cineasta, "Os crimes de Snowtown" (2011): visualmente exuberante, dramaticamente convincente e passível de uma nova compreensão psicológica, "Macbeth: ambição e guerra" tem a seu favor, também, a certeira escalação de seus dois atores centrais. Sempre arrebatadores, Michael Fassbender e Marion Cottilard - que voltariam a trabalhar com o diretor na adaptação do videogame "Assassin's Creed" - agigantam o filme de Wurzel e dignificam uma das maiores obras teatrais da história.
Violenta, impiedosa e cruel, a trama de "Macbeth" não poupa sangue e apresenta seus protagonistas como um casal absolutamente ganancioso e frio. O roteiro do filme de Wurzel dá uma amenizada em suas características principais, mas o faz de maneira orgânica e coerente com a visão proposta pelo cineasta: o Macbeth de Michael Fassbender sofre de um grave transtorno pós-traumático, oriundo de suas batalhas para defender o trono da Escócia e garantir o reinado de Duncan (David Thewlis), seu parente distante; e sua esposa, vivida por Marion Cottilard, é atormentada pela perda precoce de um filho, um fato que, se não a absolve de todos os pecados que virá a cometer, ao menos oferece ao espectador (e à atriz) uma camada a mais de complexidade e humanidade. Substituindo Natalie Portman - a escolha original para o papel -, Cottilard pode parecer, por sua nacionalidade, uma opção estranha para uma personagem tão vinculada a intérpretes britânicas, mas basta uma cena para que o público deixe de lado qualquer reserva e se deixe envolver pela sedução de uma das mais perversas criações dramáticas do teatro universal: um misto de beleza, inteligência e calculismo, Lady Macbeth encontra em Cottilard uma personificação exemplar, que justifica toda e qualquer ascendência sobre o marido ambicioso.
E se Marion Cottilard encarna com perfeição a infame esposa do protagonista, Michael Fassbender não faz por menos na pele de Macbeth. Dedicado e intenso, Fassbender entrega-se de maneira avassaladora ao filme - adaptação de sua preferida dentre as peças de Shakespeare. Segundo o diretor, o ator alemão leu o roteiro nada menos que 200 vezes antes que as filmagens sequer começassem - e o resultado de tanto empenho é perceptível em cada cena: transmitindo sem erro todas as nuances de seu personagem (ambição, medo, paranoia, coragem, loucura), Fassbender não apenas entrega uma atuação impecável, mas também a coloca instantaneamente no rol das maiores interpretações de sua carreira repleta de grandes desempenhos, e na cobiçada companhia de nomes como Laurence Olivier, Orson Welles, Ian McKellen e Kenneth Branagh - atores internacionalmente reconhecidos como intérpretes shakespereanos. A intensidade de Fassbender, assim como sua figura imponente e carismática, engole cada cena do filme de Kurzel, mesmo quando ao lado de colegas também bastante talentosos - desde o veterano David Thewlis como o Rei Duncan até o jovem Jack Reynor, que, vindo do cinema independente, interpreta com segurança o príncipe Malcolm. Mesmo que suas participações sejam pequenas, servem como apoio ao trabalho irretocável do protagonista.
E se não bastasse as atuações irrepreensíveis de seu elenco, "Macbeth: ambição e guerra" consegue se destacar também por seu visual. A bela fotografia de Adam Arkapaw é a moldura perfeita para a violenta trama que se desenrola diante dos olhos do espectador, ilustrando com imagens o estado mental de seus personagens. Nem mesmo as pequenas mudanças em relação à peça (a criação de uma quarta feiticeira, por exemplo) são capazes de estragar o espetáculo, especialmente porque o roteiro segue a sangrenta história ao pé da letra. Para quem ainda não conhece, ela acompanha a trajetória de Macbeth, um general que, depois de receber, através de feiticeiras, a notícia de que se tornará o rei da Escócia, se une à esposa para apressar tal destino, eliminando todas as pessoas que poderiam ser um empecilho para tal - sejam elas homens, mulheres ou crianças. A partir daí, sua ambição desmedida o empurra para a paranoia, a loucura e ainda mais violência - tudo tratado com seriedade e delicadeza pela direção de Wurzel, que se mostra plenamente digno de comandar uma das mais importantes sagas do teatro universal. Para os fãs de Shakespeare é um programa indispensável!
terça-feira
SEM SAÍDA
SEM SAÍDA (Eden Lake, 2008, Rollercoaster Films/Aramid Entertainment, 91min) Direção e roteiro: James Watkins. Fotografia: Christopher Ross. Montagem: Jon Harris. Música: David Julyan. Figurino: Keith Madden. Direção de arte/cenários: Simon Bowles/Lisa Chugg. Produção executiva: Conor McCaughan. Produção: Christian Colson, Richard Holmes. Elenco: Kelly Reilly, Michael Fassbender, Jack O'Connell, Finn Atkins, Jumayn Hunter, Thomas Turgoose. Estreia: 12/8/08
Em 2008 o ator alemão Michael Fassbender ainda não tinha o prestígio que viria a acumular alguns anos mais tarde em Hollywood, dividindo sua carreira entre blockbusters ("Prometheus" e a série de filmes "X-Men") e produções incensadas pela crítica e que lhe dariam indicações ao Oscar ("12 anos de escravidão" e "Steve Jobs"). No entanto, basta um pouco de atenção para perceber que, mesmo em filmes menores, de gênero e orçamento barato, ele já demonstrava grande talento. "Sem saída", uma obra despretensiosa, rodada na Inglaterra e sem grandes astros no elenco, é um dos mais aterradores filmes de suspense de sua época. Com nítida inspiração em clássicos como "Amargo pesadelo" (72) e "O massacre da serra elétrica" (73), o roteirista e diretor James Watkins transforma em realidade - ao menos nas telas - os mais angustiantes terrores da plateia, sem poupar sangue, violência e muita tensão.
Como é tradicional em filmes do estilo, tudo começa na maior tranquilidade, com a beleza da natureza como moldura e um belo casal de namorados apaixonados em busca de um fim-de-semana de paz e amor. A professora primária Jenny (Kelly Reilly) aceita o pedido de seu amado, Steve (Michael Fassbender), de conhecer um lago afastado, frequentado por ele na adolescência e que está em vias de ser limitado à visitação pela construção de um condomínio de luxo. Steve, na verdade, tem a intenção de pedir a mão da jovem em casamento, mas antes mesmo que ele tenha a oportunidade de tocar no assunto, um grupo de adolescentes pouco amigáveis cruza seu caminho: a princípio apenas inconvenientes, eles batem de frente com Steve, que, ao defender a namorada imediatamente se torna inimigo do bando. Depois de um trágico confronto,os arruaceiros - filhos conhecidos de moradores dos arredores e liderados pelo delinquente Brett (Jack O'Connell) - passam a aterrorizar os namorados, que, cercados por uma extrema violência, passam a lutar pela sobrevivência dentro de uma densa e isolada floresta.
Construindo o suspense com inteligência e parcimônia, Watkins mergulha a plateia em um universo onde, aos poucos, a única regra é sobreviver. Desprovidos de quaisquer ferramentas que possam lhes ajudar a escapar de uma situação banal transformada em um surreal pesadelo, Steve e Jenny conquistam a simpatia do público justamente por serem vítimas inocentes de um jogo cruel e gratuito, que chega aos limites do horror físico. Sem poupar cenas explícitas e sanguinolentas, o diretor embarca em uma trilha de sadismo de dar inveja a qualquer filme B - com a diferença crucial de que ele sabe como contar uma história e utilizar tais elementos agoniantes apenas como instrumentos para isso e não os elegendo como ponto principal da trama. Para isso, ele conta com a presença de ótimos atores nos papéis centrais, ao contrário da regra geral que sempre conta com um elenco de canastrões para ilustrar sequências de banhos de sangue irresponsáveis.
Com um subtexto extremamente relevante - como a criação paterna pode levar os filhos a estados do mais absoluto desrespeito pelos outros seres humanos - e um roteiro conciso, James Watkins (que alguns anos depois comandaria "A mulher de preto", com Daniel Radcliffe, com economia muito maior de sangue e violência) assina um trabalho digno de figurar entre os grandes de seu gênero. Michael Fassbender demonstra com seu Steve aquilo que todo mundo logo saberia - ele é um ator de grandes recursos, capaz de passar de um homem romântico a um homem disposto a tudo para defender a mulher que ama (apenas para tornar-se uma presa fácil de quem não tem nada a perder). Jack O'Connell, que seria revelado por Angelina Jolie em "Invencível" (2014), transmite com intensidade a fúria animal e quase irracional de seu Brett (com direito a uma última cena arrepiante). E à Kelly Reilly cabe a mais desafiadora parte do conjunto: ultrapassar os limites de sua personagem quase clichê (a mulher que precisa defender-se sozinha das ameaças à sua vida) e fazer dela alguém com quem o público realmente se importe. Não apenas ela consegue isso como torna o desfecho da história algo ainda mais surpreendente e chocante. Com um trio de protagonistas como esse, cenas de arrepiar (que podem incomodar aos mais sensíveis) e um roteiro que segue as regras mas consegue fazê-las parecerem novas em folha, "Sem saída" é uma gratíssima surpresa. Imperdível para quem gosta de sofrer no conforto de casa.
Em 2008 o ator alemão Michael Fassbender ainda não tinha o prestígio que viria a acumular alguns anos mais tarde em Hollywood, dividindo sua carreira entre blockbusters ("Prometheus" e a série de filmes "X-Men") e produções incensadas pela crítica e que lhe dariam indicações ao Oscar ("12 anos de escravidão" e "Steve Jobs"). No entanto, basta um pouco de atenção para perceber que, mesmo em filmes menores, de gênero e orçamento barato, ele já demonstrava grande talento. "Sem saída", uma obra despretensiosa, rodada na Inglaterra e sem grandes astros no elenco, é um dos mais aterradores filmes de suspense de sua época. Com nítida inspiração em clássicos como "Amargo pesadelo" (72) e "O massacre da serra elétrica" (73), o roteirista e diretor James Watkins transforma em realidade - ao menos nas telas - os mais angustiantes terrores da plateia, sem poupar sangue, violência e muita tensão.
Como é tradicional em filmes do estilo, tudo começa na maior tranquilidade, com a beleza da natureza como moldura e um belo casal de namorados apaixonados em busca de um fim-de-semana de paz e amor. A professora primária Jenny (Kelly Reilly) aceita o pedido de seu amado, Steve (Michael Fassbender), de conhecer um lago afastado, frequentado por ele na adolescência e que está em vias de ser limitado à visitação pela construção de um condomínio de luxo. Steve, na verdade, tem a intenção de pedir a mão da jovem em casamento, mas antes mesmo que ele tenha a oportunidade de tocar no assunto, um grupo de adolescentes pouco amigáveis cruza seu caminho: a princípio apenas inconvenientes, eles batem de frente com Steve, que, ao defender a namorada imediatamente se torna inimigo do bando. Depois de um trágico confronto,os arruaceiros - filhos conhecidos de moradores dos arredores e liderados pelo delinquente Brett (Jack O'Connell) - passam a aterrorizar os namorados, que, cercados por uma extrema violência, passam a lutar pela sobrevivência dentro de uma densa e isolada floresta.
Construindo o suspense com inteligência e parcimônia, Watkins mergulha a plateia em um universo onde, aos poucos, a única regra é sobreviver. Desprovidos de quaisquer ferramentas que possam lhes ajudar a escapar de uma situação banal transformada em um surreal pesadelo, Steve e Jenny conquistam a simpatia do público justamente por serem vítimas inocentes de um jogo cruel e gratuito, que chega aos limites do horror físico. Sem poupar cenas explícitas e sanguinolentas, o diretor embarca em uma trilha de sadismo de dar inveja a qualquer filme B - com a diferença crucial de que ele sabe como contar uma história e utilizar tais elementos agoniantes apenas como instrumentos para isso e não os elegendo como ponto principal da trama. Para isso, ele conta com a presença de ótimos atores nos papéis centrais, ao contrário da regra geral que sempre conta com um elenco de canastrões para ilustrar sequências de banhos de sangue irresponsáveis.
Com um subtexto extremamente relevante - como a criação paterna pode levar os filhos a estados do mais absoluto desrespeito pelos outros seres humanos - e um roteiro conciso, James Watkins (que alguns anos depois comandaria "A mulher de preto", com Daniel Radcliffe, com economia muito maior de sangue e violência) assina um trabalho digno de figurar entre os grandes de seu gênero. Michael Fassbender demonstra com seu Steve aquilo que todo mundo logo saberia - ele é um ator de grandes recursos, capaz de passar de um homem romântico a um homem disposto a tudo para defender a mulher que ama (apenas para tornar-se uma presa fácil de quem não tem nada a perder). Jack O'Connell, que seria revelado por Angelina Jolie em "Invencível" (2014), transmite com intensidade a fúria animal e quase irracional de seu Brett (com direito a uma última cena arrepiante). E à Kelly Reilly cabe a mais desafiadora parte do conjunto: ultrapassar os limites de sua personagem quase clichê (a mulher que precisa defender-se sozinha das ameaças à sua vida) e fazer dela alguém com quem o público realmente se importe. Não apenas ela consegue isso como torna o desfecho da história algo ainda mais surpreendente e chocante. Com um trio de protagonistas como esse, cenas de arrepiar (que podem incomodar aos mais sensíveis) e um roteiro que segue as regras mas consegue fazê-las parecerem novas em folha, "Sem saída" é uma gratíssima surpresa. Imperdível para quem gosta de sofrer no conforto de casa.
segunda-feira
PROMETHEUS
PROMETHEUS (Prometheus, 2012, 20th Century Fox, 124min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Jon Spaihts, Damon Lindelof, elementos criados por Dan O'Bannon, Ronald Shusett. Fotografia: Dariusz Wolski. Montagem: Pietro Scalia. Música: Marc Streitenfeld. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Sonja Klaus. Produção executiva: Michael Costigan, Michael Ellenberg, Mark Huffam, Damon Lindelof. Produção: David Giler, Walter Hill, Ridley Scott. Elenco: Noomi Rapace, Michael Fassbender, Logan Marshal-Green, Charlize Theron, Guy Pearce, Idris Elba, Rafe Spall, Patrick Wilson. Estreia: 11/4/12
Em 1979, o filme "Alien: o oitavo passageiro" estreou e mudou a forma como o público e a crítica passaram a enxergar a ficção científica no cinema. Referência absoluta no gênero desde então, gerou fortunas com suas sequências - dirigidas por James Cameron (86), David Fincher (92) e Jean-Pierre Jeunet (98) - e nunca deixou de suscitar especulações a respeito de possíveis novas continuações. Demorou mais de três décadas, porém, para que seu diretor original, Ridley Scott, retomasse as rédeas do universo que ajudou a moldar. Para surpresa de muitos, porém, o cineasta inglês não retomou as aventuras da destemida Tenente Ripley, interpretada por Sigourney Weaver nos quatro primeiros capítulos da série: em "Prometheus", ele conta, de maneira elegante mas não menos tensa, fatos acontecidos décadas antes de tudo que foi mostrado no original, em uma jogada ousada e inteligente. Foi parcialmente bem-sucedido: nos EUA, a bilheteria foi apenas razoável (126 milhões de dólares contra o orçamento generoso de 130), mas no resto do mundo, aproveitando-se da fama de uma das marcas mais famosas de Hollywood, chegou perto de 280 milhões. Longe de ser também uma unanimidade entre a crítica, ficou no meio-termo entre aqueles que louvaram a coragem do diretor em fugir do óbvio e aqueles que esperavam muito mais do reencontro do criador com a criatura. Mas, afinal, "Prometheus" é um bom filme ou apenas um mero caça-níqueis de luxo?
Há duas maneiras de se assistir e julgar "Prometheus": como um espectador neófito, a quem todo o universo criado nos quatro primeiros filmes simplesmente inexiste (e a quem portanto tudo é novidade, como um filme qualquer do gênero), ou como um fã da série, ansioso por conhecer as origens de um dos monstros mais longevos da ficção científica cinematográfica (e, consequentemente, muito mais exigente quando se trata do assunto). Para ambas as tribos, o roteiro oferece belos momentos de ação e suspense - tudo orquestrado com a elegância natural de Ridley Scott e um visual estonteante, cortesia da bela fotografia de Dariusz Wolski e da extraordinária direção de arte, concebida a partir do filme original de 1979, mas mostrada ao público do século XXI com todo o requinte que um orçamento generoso e efeitos visuais caprichados podem proporcionar. Porém, ao tentar abraçar esses dois mundos, Scott acabou por ficar no meio do caminho entre a claustrofobia do primeiro capítulo e o senso de espetáculo que James Cameron injetou na continuação de 1986. Coerentemente, em seus dois primeiros atos - em que a atmosfera de tensão sobrepõe-se à ação graficamente violenta - Scott mostra-se mais à vontade em conduzir sua narrativa, dosando com parcimônia momentos mais contemplativos com sequências que dão pistas sobre o que virá pela frente, quando seus personagens finalmente serão obrigados a encarar que não estão sozinhos no universo - e, pior ainda, o estão dividindo com uma espécie não exatamente amistosa.
A trama de "Prometheus" se passa em 2093 - vinte e nove anos antes, portanto, dos acontecimentos do primeiro "Alien". A dupla de arqueologistas Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) faz parte da seleta tripulação escolhida pelo milionário Peter Weyland (Guy Pearce sob pesadíssima maquiagem) para explorar vida extra-terrestre, uma vez que foram responsáveis por encontrar, em uma remota ilha da Escócia algum tempo antes, desenhos rupestres que confirmam suas teorias de há recados para a humanidade desde tempos imemoriais. Depois de hibernar por alguns anos, o grupo de cientistas desembarca em um planeta desconhecido, com a missão de encontrar aqueles que acredita-se ser os criadores da raça humana. A diretora da missão, a ambiciosa Meredith Vickers (Charlize Theron), os proíbe de qualquer contato com tais seres e permanece na nave, ao contrário de David (Michael Fassbender), um androide perfeitamente construído para conviver entre os humanos que é o homem de confiança de Weyland. Assim como em "Alien", eles encontram o que não deveriam encontrar, e sobem a bordo de posse da cabeça de um humanoide que encontram no planeta. Durante a investigação que busca mais detalhes sobre o encontrado, uma série de violentos incidentes que vitimam os cientistas fazem com que Vickers e Shaw entrem em conflito sobre como lidar com a situação e de que forma podem sair com vida do planeta - e ao mesmo tempo manter a salvo as descobertas que seus estudos realizaram.
Assim como acontece em todos os episódios da série "Alien", a trama de "Prometheus" gira em torno de um alienígena assassino que vai trucidando cada um dos personagens, normalmente apresentados com pouca profundidade pelo roteiro. No filme de Scott não é diferente. Com exceção da protagonista vivida por Noomi Rapace (a estrela da versão sueca de "Os homens que não amavam as mulheres"), nenhum dos tripulantes da nave é explorado além de um nível superficial pelo roteiro - até mesmo o romance entre Elizabeth e Charlie é tratado sem muito cuidado, apesar da boa química entre os atores. Charlize Theron está bem na pele da ambiciosa Meredith Vickers, mas não tem muito o que fazer além de servir de um empecilho a mais na missão de seus colegas de viagem. Sobra, então, a Michael Fassbender roubar a cena mais uma vez: como o androide David, ele chama a atenção da plateia desde sua primeira cena, transmitindo com perfeição todas as nuances de um personagem que, mesmo não sendo humano, apresenta muito mais complexidades do que se poderia esperar. É Fassbender quem dá o toque de mais sensibilidade de um filme que, apesar de alguns exageros inverossímeis (que tal uma personagem sair correndo depois de uma cesareana?), diverte e impressiona pela qualidade técnica. Não chega a ser um "Alien: o oitavo passageiro" - mas algum dos filmes da série chega?
Em 1979, o filme "Alien: o oitavo passageiro" estreou e mudou a forma como o público e a crítica passaram a enxergar a ficção científica no cinema. Referência absoluta no gênero desde então, gerou fortunas com suas sequências - dirigidas por James Cameron (86), David Fincher (92) e Jean-Pierre Jeunet (98) - e nunca deixou de suscitar especulações a respeito de possíveis novas continuações. Demorou mais de três décadas, porém, para que seu diretor original, Ridley Scott, retomasse as rédeas do universo que ajudou a moldar. Para surpresa de muitos, porém, o cineasta inglês não retomou as aventuras da destemida Tenente Ripley, interpretada por Sigourney Weaver nos quatro primeiros capítulos da série: em "Prometheus", ele conta, de maneira elegante mas não menos tensa, fatos acontecidos décadas antes de tudo que foi mostrado no original, em uma jogada ousada e inteligente. Foi parcialmente bem-sucedido: nos EUA, a bilheteria foi apenas razoável (126 milhões de dólares contra o orçamento generoso de 130), mas no resto do mundo, aproveitando-se da fama de uma das marcas mais famosas de Hollywood, chegou perto de 280 milhões. Longe de ser também uma unanimidade entre a crítica, ficou no meio-termo entre aqueles que louvaram a coragem do diretor em fugir do óbvio e aqueles que esperavam muito mais do reencontro do criador com a criatura. Mas, afinal, "Prometheus" é um bom filme ou apenas um mero caça-níqueis de luxo?
Há duas maneiras de se assistir e julgar "Prometheus": como um espectador neófito, a quem todo o universo criado nos quatro primeiros filmes simplesmente inexiste (e a quem portanto tudo é novidade, como um filme qualquer do gênero), ou como um fã da série, ansioso por conhecer as origens de um dos monstros mais longevos da ficção científica cinematográfica (e, consequentemente, muito mais exigente quando se trata do assunto). Para ambas as tribos, o roteiro oferece belos momentos de ação e suspense - tudo orquestrado com a elegância natural de Ridley Scott e um visual estonteante, cortesia da bela fotografia de Dariusz Wolski e da extraordinária direção de arte, concebida a partir do filme original de 1979, mas mostrada ao público do século XXI com todo o requinte que um orçamento generoso e efeitos visuais caprichados podem proporcionar. Porém, ao tentar abraçar esses dois mundos, Scott acabou por ficar no meio do caminho entre a claustrofobia do primeiro capítulo e o senso de espetáculo que James Cameron injetou na continuação de 1986. Coerentemente, em seus dois primeiros atos - em que a atmosfera de tensão sobrepõe-se à ação graficamente violenta - Scott mostra-se mais à vontade em conduzir sua narrativa, dosando com parcimônia momentos mais contemplativos com sequências que dão pistas sobre o que virá pela frente, quando seus personagens finalmente serão obrigados a encarar que não estão sozinhos no universo - e, pior ainda, o estão dividindo com uma espécie não exatamente amistosa.
A trama de "Prometheus" se passa em 2093 - vinte e nove anos antes, portanto, dos acontecimentos do primeiro "Alien". A dupla de arqueologistas Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) faz parte da seleta tripulação escolhida pelo milionário Peter Weyland (Guy Pearce sob pesadíssima maquiagem) para explorar vida extra-terrestre, uma vez que foram responsáveis por encontrar, em uma remota ilha da Escócia algum tempo antes, desenhos rupestres que confirmam suas teorias de há recados para a humanidade desde tempos imemoriais. Depois de hibernar por alguns anos, o grupo de cientistas desembarca em um planeta desconhecido, com a missão de encontrar aqueles que acredita-se ser os criadores da raça humana. A diretora da missão, a ambiciosa Meredith Vickers (Charlize Theron), os proíbe de qualquer contato com tais seres e permanece na nave, ao contrário de David (Michael Fassbender), um androide perfeitamente construído para conviver entre os humanos que é o homem de confiança de Weyland. Assim como em "Alien", eles encontram o que não deveriam encontrar, e sobem a bordo de posse da cabeça de um humanoide que encontram no planeta. Durante a investigação que busca mais detalhes sobre o encontrado, uma série de violentos incidentes que vitimam os cientistas fazem com que Vickers e Shaw entrem em conflito sobre como lidar com a situação e de que forma podem sair com vida do planeta - e ao mesmo tempo manter a salvo as descobertas que seus estudos realizaram.
Assim como acontece em todos os episódios da série "Alien", a trama de "Prometheus" gira em torno de um alienígena assassino que vai trucidando cada um dos personagens, normalmente apresentados com pouca profundidade pelo roteiro. No filme de Scott não é diferente. Com exceção da protagonista vivida por Noomi Rapace (a estrela da versão sueca de "Os homens que não amavam as mulheres"), nenhum dos tripulantes da nave é explorado além de um nível superficial pelo roteiro - até mesmo o romance entre Elizabeth e Charlie é tratado sem muito cuidado, apesar da boa química entre os atores. Charlize Theron está bem na pele da ambiciosa Meredith Vickers, mas não tem muito o que fazer além de servir de um empecilho a mais na missão de seus colegas de viagem. Sobra, então, a Michael Fassbender roubar a cena mais uma vez: como o androide David, ele chama a atenção da plateia desde sua primeira cena, transmitindo com perfeição todas as nuances de um personagem que, mesmo não sendo humano, apresenta muito mais complexidades do que se poderia esperar. É Fassbender quem dá o toque de mais sensibilidade de um filme que, apesar de alguns exageros inverossímeis (que tal uma personagem sair correndo depois de uma cesareana?), diverte e impressiona pela qualidade técnica. Não chega a ser um "Alien: o oitavo passageiro" - mas algum dos filmes da série chega?
sexta-feira
A LUZ ENTRE OCEANOS
Que o cineasta Derek Cianfrance sabe como filmar o desespero humano diante da impotência causada pelo destino não é novidade para quem assistiu a seus dois filmes mais conhecidos, o devastador "Namorados para sempre" (2010) - que deu à Michelle Williams uma merecida indicação ao Oscar - e o surpreendente "O lugar onde tudo termina" (2012) - em que repetiu a parceria bem-sucedida com Ryan Gosling. Porém, ele jamais foi tão longe em esmiuçar o sofrimento alheio quanto em "A luz entre oceanos", sua adaptação do romance homônimo de M.L. Stedman, que estreou no Festival de Veneza de 2016 e que, apesar das inúmeras qualidades, passou em branco pelas cerimônias de premiação da temporada. Com o elenco liderado por dois nomes em alta na indústria - o casal também na vida real Michael Fassbender e Alicia Vikander (ela recém laureada com o Oscar de coadjuvante por "A garota dinamarquesa", de 2015), o filme de Cianfrance é um romance à moda antiga, repleto de reviravoltas melodramáticas e espaço para lágrimas constantes, mas dotado de uma sensibilidade rara que o impede de escorregar no piegas - especialmente graças às interpretações inspiradíssimas de seus atores centrais.
Demonstrando um senso de delicadeza poucas vezes visto em sua carreira de personagens fortes e quase brutais em suas atitudes, Michael Fassbender mostra mais uma vez porque é um dos melhores atores de sua geração, na pele de Tom Sherbourne, um homem tímido e reservado que aceita um emprego temporário para cuidar do farol de uma ilha localizada a quilômetros de distância de uma pequena cidade litorânea da Austrália, no início do século XX. Veterano da I Guerra Mundial, Tom vê na solidão da ilha um alento para sua personalidade introspectiva, mas quando ele conhece a jovem Isabel (Alicia Vikander), filha do homem que lhe ofereceu o emprego, não consegue evitar de sentir-se atraído por ela. Quando o trabalho se transforma de temporário em efetivo, ele a pede em casamento e os dois vão viver seu romance emoldurados pela belíssima costa australiana, tendo contato com o restante da civilização apenas quatro vezes por ano. A romântica história de amor entre os dois, porém, sofre um forte abalo quando Isabel perde o bebê que esperava já no final da gravidez. Algum tempo depois, novamente esperando um filho, ela sofre novo aborto espontâneo e entra em uma severa depressão. Sem saber o que fazer para ajudar a esposa, Tom acaba se deixando envolver pelas circunstâncias quando, pouco depois, encontra um bote à deriva, com um homem morto e um bebê vivo. Convencido pela mulher a assumir a criança como se fosse sua, Tom se permite manter a mentira para poupar Isabel de mais tristezas, mas quando eles retornam à cidade para o batizado, uma surpresa começa a martelar-lhe a consciência: ele encontra Hannah Roennfeldt (Rachel Weisz), a verdadeira mãe de sua filha.
A partir daí, "A luz entre oceanos" oscila entre um dramalhão romanesco sobre a culpa de Tom e suas tentativas de reparar seu erro, a busca de Hannah - filha de pai influente e com uma cota respeitável de dramas pessoais a resolver - pelo remetente de cartas anônimas falando de sua filha e os problemas de relacionamento entre o rapaz e Isabel, incapaz de lidar sequer com a possibilidade de perder novamente a criança que ama. Cianfrance, também autor do roteiro, mantém as três linhas narrativas sem perder o fio da meada, oferecendo ao público e aos atores personagens críveis e multidimensionais, repletos de qualidades heroicas e defeitos reprováveis. Tom, do alto de sua hombridade, luta para fazer o que é certo mesmo sabendo que isso pode destruir seu casamento e a mulher que ama - e que a honestidade, nesse caso, pode lhe levar à cadeia. Essa complexidade é tirada de letra por Michael Fassbender, um estupendo ator, capaz de injetar humanidade e verdade em cada papel. Alicia Vikander está no tom certo, mesmo que sua personagem pouco faça além de chorar e sofrer como uma heroína de folhetim. E Rachel Weisz, do momento em que entra em cena até suas sequências finais, segura com firmeza uma antagonista também provida de razões, ainda que possa ser vista com antipatia devido às ações que toma para recuperar sua filha. Centrado nesse trio de personagens fortes e em uma história emocionante, o filme consegue evitar a emoção fácil, equilibrando-se com maestria em um tom mais europeu de cinema, enfatizando os dramas com a trilha sonora impecável de Alexandre Desplat e o ritmo cadenciado como as marés.
Com valores de produção deslumbrantes, como a fotografia arrasadora de Adam Arkapaw e uma reconstituição de época eficiente e cuidadosa, "A luz entre oceanos" é basicamente um filme de personagens e seus dramas. Ciente de tais características - que se encaixam em sua maneira de fazer cinema - Derek Cianfrance as enfatiza de forma a hipnotizar a plateia com interpretações emotivas mas jamais exageradas. Tudo em seu filme é convincente, desde o amor nascente entre Tom e Isabel até seu final melancólico e realista - passando por todas as fases de seu trágico relacionamento - e isso se deve principalmente à química entre seus atores e à segurança que imprime em cada cena. Um diretor que acredita em atores e em sua capacidade de segurar uma história, ele transforma o que poderia ser um melodrama insustentável em uma bela e devastadora trama de amor e culpa. Um dos filmes subestimados da temporada 2016, que merece ser descoberto e louvado por suas inúmeras qualidades.
12 ANOS DE ESCRAVIDÃO
12 ANOS DE ESCRAVIDÃO (12 years a slave, 2013, Regency Enterprises/River Road Entertainment, 134min) Direção: Steve McQueen. Roteiro: John Ridley, livro de Solomon Northup. Fotografia: Sean Bobbitt. Montagem: Joe Walker. Música: Hans Zimmer. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Adam Stockhausen/Alice Baker. Produção executiva: John Ridley, Tessa Ross, Bianca Stigter. Produção: Dede Gardner, Anthony Katagas, Jeremy Kleiner, Steve McQueen, Arnon Milchan, Brad Pitt, Bill Pohlad. Elenco: Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Lupita Nyong'o, Sarah Paulson, Benedict Cumberbatch, Paul Dano, Paul Giamatti, Brad Pitt. Estreia: 30/8/13 (Festival de Telluride)
9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steve McQueen), Ator (Chiwetel Ejiofor), Ator Coadjuvante (Michael Fassbender), Atriz Coadjuvante (Lupita Nyong'o), Roteiro Adaptado, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Oscar: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Lupita Nyong'o), Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme/Drama
A ainda curta filmografia em longa-metragem do cineasta Steve McQueen - até então restrita a dois nomes, os poderosos "Hunger" e "Shame" - ganhou um importante terceiro capítulo com "12 anos de escravidão", um filme que se utiliza de seu requintado senso estético para contar uma trama pungente e cruel sobre um dos períodos mais nefastos da história da humanidade. Baseado em um história real, seu trabalho - premiado com um Golden Globe de melhor drama e três estatuetas do Oscar, incluindo melhor filme) - tem um apelo mais universal do que os anteriores, mas, assim como eles, prescinde dos clichês ao evitar o sentimentalismo fácil, armadilha na qual os filmes sobre o tema frequentemente caem. Se a intenção do espectador é emocionar-se com longas sequências de maus-tratos ao som de um música grandiloquente e discursos empolados sobre liberdade, o filme não é este. "12 anos de escravidão" é forte, sim, mas sua força reside justamente em seu distanciamento milimetricamente calculado para emocionar sem pieguice.
O roteiro repleto de elipses - o que tanto ajuda na agilidade quanto atrapalha na compreensão de alguns fatos para quem está acostumado à maneira quase didática com que Hollywood normalmente trata seu público - talvez seja o primeiro fator de estranhamento do filme de McQueen."12 anos de escravidão" já começa sem explicar muito, deixando a audiência tão atônita quanto o protagonista, que se vê, sem entender muito o que está se passando, como um escravo, muito tempo depois de já ter sido liberto e ter uma vida como um homem comum nos EUA pré-Guerra de Secessão. É aos poucos que a trama começa a ser explicada, e mesmo assim, não de maneira linear. O roteirista John Ridley (também oscarizado) parece ter compreendido exatamente o estilo do cineasta, preferindo mostrar a luta do protagonista pela reconquista da liberdade mais através de imagens poderosas do que por diálogos - não chega a ser nervosamente silencioso como seus filmes anteriores, mas aposta acertadamente nas sensações em detrimento da manipulação sentimental.
E é a opção de Steve McQueen em fugir da manipulação o grande diferencial de seu filme. Por ser negro - e consequentemente ter uma ligação bastante emocional com o tema da obra - seria previsível que McQueen se deixasse levar pela tendência a enfatizar o lado fisicamente cruel da narrativa, forçando o espectador a emocionar-se com uma música redundante e interpretações exageradas. Seguindo o caminho oposto, ele prefere documentar a história sem subterfúgios outros que não o absurdo da situação, acreditando - acertadamente - que não é necessário aumentar o que já é sofrido o suficiente. A tática dá certo? Sim e não. Sim porque oferece mais ao público do que o esperado em termos de qualidade narrativa. Não porque talvez esse mesmo público - mal-acostumado que está - tivesse em mente mais um espetáculo de sadismo do que um libelo delicado à liberdade.
E não dá para falar de "12 anos de escravidão" - e louvar suas inúmeras qualidades - sem mencionar o elenco excepcional escalado por Steve McQueen. Chiwetel Ejiofor, até então um ator relegado a papéis coadjuvantes em filmes grandes ("Simplesmente amor" e "2012") ou papéis importantes em filmes bons pouco vistos ("Coisas belas e sujas") entrega uma performance silenciosa e expressiva no papel de Solomon Northup, um homem determinado a encarar seu destino sem deixar de perder a dignidade de ser humano - mesmo diante de atrocidades e golpes baixos. A estreante Lupita Nyong'o dá um show como a desesperada Patsey, objeto de desejo de seu senhor - e por isso mesmo alvo da ira de sua senhora - em pelo menos uma grande cena (seu Oscar de atriz coadjuvante foi mais do que merecido). E, se o elenco masculino conta ainda com bons momentos de Paul Dano e a presença do produtor Brad Pitt, é novamente Michael Fassbender (em seu terceiro trabalho com o diretor) quem rouba todas as cenas em que aparece. Como o cruel Edwin Epps, o ator alemão comprova seu imenso talento em um personagem a anos-luz de distância de seu militante político de "Hunger" ou o viciado em sexo de "Shame". Basta que apareça em cena para que Fassbender convença a audiência de sua maldade inerente. Não é pouca coisa.
No final das contas, "12 anos de escravidão" é um grande filme, contado com elegância e emoção nas medidas certas e que tem a ousadia de manter o estilo de seu diretor mesmo que ele não seja o que a grande massa espera. Vai fazer história, independente de ter sido eclipsado na cerimônia do Oscar pelos efeitos especiais de "Gravidade" - não teve um orçamento milionário, mas tem um coração imenso.
9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steve McQueen), Ator (Chiwetel Ejiofor), Ator Coadjuvante (Michael Fassbender), Atriz Coadjuvante (Lupita Nyong'o), Roteiro Adaptado, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Oscar: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Lupita Nyong'o), Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme/Drama
A ainda curta filmografia em longa-metragem do cineasta Steve McQueen - até então restrita a dois nomes, os poderosos "Hunger" e "Shame" - ganhou um importante terceiro capítulo com "12 anos de escravidão", um filme que se utiliza de seu requintado senso estético para contar uma trama pungente e cruel sobre um dos períodos mais nefastos da história da humanidade. Baseado em um história real, seu trabalho - premiado com um Golden Globe de melhor drama e três estatuetas do Oscar, incluindo melhor filme) - tem um apelo mais universal do que os anteriores, mas, assim como eles, prescinde dos clichês ao evitar o sentimentalismo fácil, armadilha na qual os filmes sobre o tema frequentemente caem. Se a intenção do espectador é emocionar-se com longas sequências de maus-tratos ao som de um música grandiloquente e discursos empolados sobre liberdade, o filme não é este. "12 anos de escravidão" é forte, sim, mas sua força reside justamente em seu distanciamento milimetricamente calculado para emocionar sem pieguice.
O roteiro repleto de elipses - o que tanto ajuda na agilidade quanto atrapalha na compreensão de alguns fatos para quem está acostumado à maneira quase didática com que Hollywood normalmente trata seu público - talvez seja o primeiro fator de estranhamento do filme de McQueen."12 anos de escravidão" já começa sem explicar muito, deixando a audiência tão atônita quanto o protagonista, que se vê, sem entender muito o que está se passando, como um escravo, muito tempo depois de já ter sido liberto e ter uma vida como um homem comum nos EUA pré-Guerra de Secessão. É aos poucos que a trama começa a ser explicada, e mesmo assim, não de maneira linear. O roteirista John Ridley (também oscarizado) parece ter compreendido exatamente o estilo do cineasta, preferindo mostrar a luta do protagonista pela reconquista da liberdade mais através de imagens poderosas do que por diálogos - não chega a ser nervosamente silencioso como seus filmes anteriores, mas aposta acertadamente nas sensações em detrimento da manipulação sentimental.
E é a opção de Steve McQueen em fugir da manipulação o grande diferencial de seu filme. Por ser negro - e consequentemente ter uma ligação bastante emocional com o tema da obra - seria previsível que McQueen se deixasse levar pela tendência a enfatizar o lado fisicamente cruel da narrativa, forçando o espectador a emocionar-se com uma música redundante e interpretações exageradas. Seguindo o caminho oposto, ele prefere documentar a história sem subterfúgios outros que não o absurdo da situação, acreditando - acertadamente - que não é necessário aumentar o que já é sofrido o suficiente. A tática dá certo? Sim e não. Sim porque oferece mais ao público do que o esperado em termos de qualidade narrativa. Não porque talvez esse mesmo público - mal-acostumado que está - tivesse em mente mais um espetáculo de sadismo do que um libelo delicado à liberdade.
E não dá para falar de "12 anos de escravidão" - e louvar suas inúmeras qualidades - sem mencionar o elenco excepcional escalado por Steve McQueen. Chiwetel Ejiofor, até então um ator relegado a papéis coadjuvantes em filmes grandes ("Simplesmente amor" e "2012") ou papéis importantes em filmes bons pouco vistos ("Coisas belas e sujas") entrega uma performance silenciosa e expressiva no papel de Solomon Northup, um homem determinado a encarar seu destino sem deixar de perder a dignidade de ser humano - mesmo diante de atrocidades e golpes baixos. A estreante Lupita Nyong'o dá um show como a desesperada Patsey, objeto de desejo de seu senhor - e por isso mesmo alvo da ira de sua senhora - em pelo menos uma grande cena (seu Oscar de atriz coadjuvante foi mais do que merecido). E, se o elenco masculino conta ainda com bons momentos de Paul Dano e a presença do produtor Brad Pitt, é novamente Michael Fassbender (em seu terceiro trabalho com o diretor) quem rouba todas as cenas em que aparece. Como o cruel Edwin Epps, o ator alemão comprova seu imenso talento em um personagem a anos-luz de distância de seu militante político de "Hunger" ou o viciado em sexo de "Shame". Basta que apareça em cena para que Fassbender convença a audiência de sua maldade inerente. Não é pouca coisa.
No final das contas, "12 anos de escravidão" é um grande filme, contado com elegância e emoção nas medidas certas e que tem a ousadia de manter o estilo de seu diretor mesmo que ele não seja o que a grande massa espera. Vai fazer história, independente de ter sido eclipsado na cerimônia do Oscar pelos efeitos especiais de "Gravidade" - não teve um orçamento milionário, mas tem um coração imenso.
quarta-feira
JANE EYRE
JANE EYRE (Jane Eyre, 2011, Focus Features/BBC Films, 120min) Direção: Cary Joji Fukunaga. Roteiro: Moira Buffini, romance de Charlotte Bronte. Fotografia: Adriano Goldman. Montagem: Melanie Ann Oliver. Música: Dario Marianelli. Figurino: Michael O'Connor. Direção de arte/cenários: Will Hughes-Jones/Tina Jones, Greer Whitewick. Produção executiva: Peter Hampden, Christine Langan. Produção: Alison Owen, Paul Trijbits. Elenco: Mia Wasikowska, Michael Fassbender, Judi Dench, Jamie Bell, Sally Hawkings. Estreia: 09/3/11
Indicado ao Oscar de Figurino
Desde que assumiu o papel-título da versão milionária de Tim Burton para "Alice no país das maravilhas", a australiana Mia Wasikowska tornou-se uma das atrizes mais requisitadas de sua geração, estrelando desde histórias de amor contemporâneas ("Inquietos", de Gus Van Sant) até produções de prestígio ("Albert Nobbs", ao lado de Glenn Close e "Um ato de liberdade", com Daniel Craig). O entusiasmo com que crítica e indústria a receberam, porém, não deixa de ser um tanto exagerado: apesar de seu rosto servir a diferentes épocas e gêneros, não é difícil perceber que seu alcance dramático não é dos maiores, o que fica patente sempre que lhe é exigido um pouco mais de intensidade. Tal característica - disfarçada pela tendência ao exagero de Burton e aos papéis secundários nos filmes de Rodrigo Garcia e Edward Zwick citados acima - fica óbvia quando Wasikowska é confrontada com um papel de densidade maior, como a protagonista de "Jane Eyre", oitava adaptação do clássico romance de Charlotte Bronte para as telas (contando cinema e televisão): sem conseguir evitar as mesmas caras e bocas de sempre, ela é o elo fraco do filme de Cary Joji Fukunaga, especialmente quando contracena com atores de recursos muito maiores.
Segunda escolha para o papel - em substituição à Ellen Page - Wasikowska não consegue transmitir toda a intensidade que a história (repleta de segredos, tragédias e romances impossíveis) pede, mas não chega a comprometer o resultado final, graças à direção sensível de Fukunaga, que evita que o roteiro se transforme em um dramalhão inconsequente ou excessivamente sombrio. Sem o senso de humor das obras de Jane Austen - com quem dialoga em temática e ambientação - o romance de Bronte (irmã de Emily, autora de "O morro dos ventos uivantes") é um convite quase irresistível à uma adaptação pomposa e pesada, mas felizmente escapa de tal destino ao optar por uma narrativa clássica, sim, mas jamais enfadonha ou desprovida de intensidade. O roteiro, bastante fiel a seu material de origem, sabe brincar com o interesse da plateia ao revelar aos poucos seus trunfos - desde os dramáticos até os artísticos, que atendem pelos nomes de Judi Dench e Michael Fassbender.
A trama, para quem não conhece é simples e quase pueril em um primeiro olhar: tudo começa quando o jovem pastor St. John Rivers (Jamie Bell, o garotinho de "Billy Elliot") encontra, debaixo de chuva e em condições precárias de saúde, uma moça desconhecida que, depois de socorrida, se apresenta como Jane Eyre. Agradecida ao rapaz e suas duas prestativas irmãs, Eyre conta a eles sua sofrida história de privações e solidão, iniciadas no orfanato para onde foi mandada por sua tia, Mrs. Reed (Sally Hawkings). Empregada como professora dos filhos dos camponeses da comunidade do pastor, a jovem esconde dele, porém, os motivos que a levaram até a situação em que se encontra: o amor impossível que nutre por Mr. Rochester (Michael Fassbender), dono da mansão onde ela trabalhava como preceptora de uma menina francesa adotada por ele. Sua história, que envolve segredos e desilusão, acaba vindo à tona, porém, quando ela é pedida em casamento por seu honrado novo patrão.
A bela fotografia de Adriano Goldman, que deixa de lado as paisagens lúdicas e ensolaradas para retratar uma Inglaterra bucólica sombria e intimidante é fator primordial da qualidade de "Jane Eyre", que reflete em seu visual os tormentos pelos quais passam seus personagens. Michael Fassbender mais uma vez entrega uma performance acima da média, transmitindo em apenas um olhar todo o turbilhão emocional de seu complexo Mr. Rochester e, se em alguns momentos a trama soa como uma novela mexicana - em especial as revelações que impedem a consumação do romance entre o casal central - a sofisticação do diretor impede que o resultado final se torne apenas um dramalhão clássico a mais. Indicado ao Oscar de figurino - perdeu para "O artista" - o filme de Cary Joji Fukunaga é uma adaptação digna e admirável, que não é prejudicada nem mesmo pela apatia de sua atriz central.
Indicado ao Oscar de Figurino
Desde que assumiu o papel-título da versão milionária de Tim Burton para "Alice no país das maravilhas", a australiana Mia Wasikowska tornou-se uma das atrizes mais requisitadas de sua geração, estrelando desde histórias de amor contemporâneas ("Inquietos", de Gus Van Sant) até produções de prestígio ("Albert Nobbs", ao lado de Glenn Close e "Um ato de liberdade", com Daniel Craig). O entusiasmo com que crítica e indústria a receberam, porém, não deixa de ser um tanto exagerado: apesar de seu rosto servir a diferentes épocas e gêneros, não é difícil perceber que seu alcance dramático não é dos maiores, o que fica patente sempre que lhe é exigido um pouco mais de intensidade. Tal característica - disfarçada pela tendência ao exagero de Burton e aos papéis secundários nos filmes de Rodrigo Garcia e Edward Zwick citados acima - fica óbvia quando Wasikowska é confrontada com um papel de densidade maior, como a protagonista de "Jane Eyre", oitava adaptação do clássico romance de Charlotte Bronte para as telas (contando cinema e televisão): sem conseguir evitar as mesmas caras e bocas de sempre, ela é o elo fraco do filme de Cary Joji Fukunaga, especialmente quando contracena com atores de recursos muito maiores.
Segunda escolha para o papel - em substituição à Ellen Page - Wasikowska não consegue transmitir toda a intensidade que a história (repleta de segredos, tragédias e romances impossíveis) pede, mas não chega a comprometer o resultado final, graças à direção sensível de Fukunaga, que evita que o roteiro se transforme em um dramalhão inconsequente ou excessivamente sombrio. Sem o senso de humor das obras de Jane Austen - com quem dialoga em temática e ambientação - o romance de Bronte (irmã de Emily, autora de "O morro dos ventos uivantes") é um convite quase irresistível à uma adaptação pomposa e pesada, mas felizmente escapa de tal destino ao optar por uma narrativa clássica, sim, mas jamais enfadonha ou desprovida de intensidade. O roteiro, bastante fiel a seu material de origem, sabe brincar com o interesse da plateia ao revelar aos poucos seus trunfos - desde os dramáticos até os artísticos, que atendem pelos nomes de Judi Dench e Michael Fassbender.
A trama, para quem não conhece é simples e quase pueril em um primeiro olhar: tudo começa quando o jovem pastor St. John Rivers (Jamie Bell, o garotinho de "Billy Elliot") encontra, debaixo de chuva e em condições precárias de saúde, uma moça desconhecida que, depois de socorrida, se apresenta como Jane Eyre. Agradecida ao rapaz e suas duas prestativas irmãs, Eyre conta a eles sua sofrida história de privações e solidão, iniciadas no orfanato para onde foi mandada por sua tia, Mrs. Reed (Sally Hawkings). Empregada como professora dos filhos dos camponeses da comunidade do pastor, a jovem esconde dele, porém, os motivos que a levaram até a situação em que se encontra: o amor impossível que nutre por Mr. Rochester (Michael Fassbender), dono da mansão onde ela trabalhava como preceptora de uma menina francesa adotada por ele. Sua história, que envolve segredos e desilusão, acaba vindo à tona, porém, quando ela é pedida em casamento por seu honrado novo patrão.
A bela fotografia de Adriano Goldman, que deixa de lado as paisagens lúdicas e ensolaradas para retratar uma Inglaterra bucólica sombria e intimidante é fator primordial da qualidade de "Jane Eyre", que reflete em seu visual os tormentos pelos quais passam seus personagens. Michael Fassbender mais uma vez entrega uma performance acima da média, transmitindo em apenas um olhar todo o turbilhão emocional de seu complexo Mr. Rochester e, se em alguns momentos a trama soa como uma novela mexicana - em especial as revelações que impedem a consumação do romance entre o casal central - a sofisticação do diretor impede que o resultado final se torne apenas um dramalhão clássico a mais. Indicado ao Oscar de figurino - perdeu para "O artista" - o filme de Cary Joji Fukunaga é uma adaptação digna e admirável, que não é prejudicada nem mesmo pela apatia de sua atriz central.
X-MEN: PRIMEIRA CLASSE
X-MEN: PRIMEIRA CLASSE (X-Men: First Class, 2011, 20th Century Fox/Marvel Entertainment, 132min) Direção: Matthew Vaughn. Roteiro: Ashley Edward Miller, Zack Stentz, Jane Goldman, Matthew Vaughn, estória de Sheldon Turner, Bryan Singer. Fotografia: John Mathieson. Montagem: Eddie Hamilton, Lee Smith. Música: Henry Jackman. Figurino: Sammy Sheldon. Direção de arte/cenários: Chris Seagers/Erin Boyd, Sonja Klaus. Produção executiva: Stan Lee, Josh McLaglen, Tarquin Pack. Produção: Gregory Goodman, Simon Kinberg, Lauren Shuller Donner, Bryan Singer. Elenco: Michael Fassbender, James McAvoy, Kevin Bacon, Jennifer Lawrence, Rose Byrne, Nicholas Hoult, January Jones, Oliver Platt, Zoe Kravitz, Jason Flemyng, Lucas Till, James Remar, Matt Craven, Ray Wise. Estreia: 25/5/11
Não é preciso ser fã de HQ para se divertir assistindo a "X-Men: Primeira Classe", que traz de volta aos cinemas a trupe de mutantes da Marvel que devolveu qualidade e bilheteria às adaptações de comic books à sétima arte. Desde que Bryan Singer lançou o primeiro "X-Men", em 2000, personagens como Homem-aranha, Homem-de-ferro e afins lotaram salas de cinema e redimiram muitas transposições que anteriormente se equivocaram e quase sepultaram o que se tornaria um dos mais importantes gêneros cinematográficos do século XXI. Quando se trata de X-Men, porém, nem é necessário gostar do estilo para curtir as duas horas do filme de Matthew Vaughn. Basta pegar refrigerante e pipoca e se deixar ser levado por uma trama que, a despeito de versar sobre heróis mutantes, fala também, sutilmente (ou nem tanto, às vezes), sobre a tolerância às diferenças.
Para quem não sabe, esse primeiro filme do que promete ser uma nova série não é uma continuação da primeira trilogia - cujo segundo capítulo é tudo aquilo que se pode esperar de um filme de ação e um pouco mais: seguindo uma tendência cada vez maior, o que se mostra aqui é a gênese de toda a história contada antes, ou seja, não se pode esperar Ciclope, ou Jean Gray, ou Tempestade, ou Wolverine (ops, será que não??). A trama dessa nova investida da Marvel nas telas apresenta o início da relação de amizade/admiração/rivalidade entre duas das personagens mais interessantes do universo dos quadrinhos: Charles Xavier e Erik Lehnsherr, também conhecido como Magneto.
Vividos pelo inglês James McAvoy e pelo alemão Michael Fassbender, Xavier e Erik são a base de um roteiro que é valorizado pela seriedade (ainda que nunca deixe de lado o senso de humor). A inteligência da audiência jamais é desrespeitada, principalmente pela coragem dos produtores em situar toda a trama na famigerada crise dos mísseis de Cuba, momento crucial do governo Kennedy e que quase jogou o mundo em uma terceira guerra. É nesse momento, essencial para a história mundial, que a raça dos mutantes tem sua primeira cisão: de um lado, aqueles que acreditam em uma política de tolerância, liderados por Xavier. De outro, o grupo que vislumbra na guerra absoluta a solução para os problemas de discriminação e preconceito. Tem como não gostar de um filme que trata de assuntos tão sérios de forma tão comercial e popular?
"X-Men: Primeira Classe" começa em um campo de concentração polonês em 1944 (assim como o primeiro filme), quando Erik começa a perceber seus poderes de manipular metais. No mesmo ano, o jovem Charles Xavier também tem ciência de seus grandes poderes e assume a jovem Raven (também uma mutante) como sua irmã de criação. Em 1962, os caminhos dos dois jovens irão se cruzar na busca de Erik pela vingança contra Sebastian Shaw (Kevin Bacon), que matou sua mãe e na tentativa da CIA (na figura de Moira MacTaggert, vivida pela australiana Rose Byrne) em impedir a III Guerra Mundial, que está prestes a acontecer devido ao embargo americano ao país de Fidel Castro. Juntos, Xavier e Erik iniciam o recrutamento de jovens mutantes.
Resumir um filme de "X-Men" não é tarefa das mais fáceis, uma vez que sempre acontece tanta coisa - e de forma tão orgânica e natural - que é mais fácil realmente apertar o botão de relaxar e curtir cada cena, cada momento, cada diálogo. Sim, em toda a série - talvez com a possível exceção do fraco "Wolverine: Origens" - há o cuidado com a relação entre as personagens e a maneira com que os acontecimentos se conectam. E aqui, o público é brindado com duas aparições-relâmpago muito divertidas e com algumas cenas que explicam muito do que está por vir (ou já veio, depende de como se vê as coisas). E é por isso que a escolha do elenco, mais uma vez, mostrou-se extremamente acertada. James McAvoy é um dos melhores jovens atores do momento, e Jennifer Lawrence (já então indicada ao Oscar por "Inverno da alma" e no caminho para vencer a estatueta por "O lado bom da vida") se sai muito bem como a adolescente Mística. Nicholas Hoult (o ator de "Um grande garoto", irreconhecível) e Kevin Bacon também não deixam a peteca cair (Bacon, aliás, parece se divertir muito no papel de vilão). Mas é inegável que o maior destaque é Michael Fassbender. Na ausência de Wolverine, é ele quem tem as melhores cenas, é por ele que o público torce mais fervorosamente e é ele que é o responsável por empolgar a audiência (até mesmo na esperada sequência que explica o motivo de Xavier estar preso em uma cadeira de rodas nas continuações). E honra o papel, vivido majestosamente por Ian McKellen nas primeiras partes.
Em suma, "X-Men: Primeira Classe" não decepciona os fãs dos primeiros filmes - ao menos àqueles que nunca leram uma linha sequer dos quadrinhos - e nem de longe é tão decepcionante quanto "Wolverine: Origens". É um exemplo a ser seguido por quem preza unir qualidade e sucesso financeiro. Vida longa aos mutantes!
Não é preciso ser fã de HQ para se divertir assistindo a "X-Men: Primeira Classe", que traz de volta aos cinemas a trupe de mutantes da Marvel que devolveu qualidade e bilheteria às adaptações de comic books à sétima arte. Desde que Bryan Singer lançou o primeiro "X-Men", em 2000, personagens como Homem-aranha, Homem-de-ferro e afins lotaram salas de cinema e redimiram muitas transposições que anteriormente se equivocaram e quase sepultaram o que se tornaria um dos mais importantes gêneros cinematográficos do século XXI. Quando se trata de X-Men, porém, nem é necessário gostar do estilo para curtir as duas horas do filme de Matthew Vaughn. Basta pegar refrigerante e pipoca e se deixar ser levado por uma trama que, a despeito de versar sobre heróis mutantes, fala também, sutilmente (ou nem tanto, às vezes), sobre a tolerância às diferenças.
Para quem não sabe, esse primeiro filme do que promete ser uma nova série não é uma continuação da primeira trilogia - cujo segundo capítulo é tudo aquilo que se pode esperar de um filme de ação e um pouco mais: seguindo uma tendência cada vez maior, o que se mostra aqui é a gênese de toda a história contada antes, ou seja, não se pode esperar Ciclope, ou Jean Gray, ou Tempestade, ou Wolverine (ops, será que não??). A trama dessa nova investida da Marvel nas telas apresenta o início da relação de amizade/admiração/rivalidade entre duas das personagens mais interessantes do universo dos quadrinhos: Charles Xavier e Erik Lehnsherr, também conhecido como Magneto.
Vividos pelo inglês James McAvoy e pelo alemão Michael Fassbender, Xavier e Erik são a base de um roteiro que é valorizado pela seriedade (ainda que nunca deixe de lado o senso de humor). A inteligência da audiência jamais é desrespeitada, principalmente pela coragem dos produtores em situar toda a trama na famigerada crise dos mísseis de Cuba, momento crucial do governo Kennedy e que quase jogou o mundo em uma terceira guerra. É nesse momento, essencial para a história mundial, que a raça dos mutantes tem sua primeira cisão: de um lado, aqueles que acreditam em uma política de tolerância, liderados por Xavier. De outro, o grupo que vislumbra na guerra absoluta a solução para os problemas de discriminação e preconceito. Tem como não gostar de um filme que trata de assuntos tão sérios de forma tão comercial e popular?
"X-Men: Primeira Classe" começa em um campo de concentração polonês em 1944 (assim como o primeiro filme), quando Erik começa a perceber seus poderes de manipular metais. No mesmo ano, o jovem Charles Xavier também tem ciência de seus grandes poderes e assume a jovem Raven (também uma mutante) como sua irmã de criação. Em 1962, os caminhos dos dois jovens irão se cruzar na busca de Erik pela vingança contra Sebastian Shaw (Kevin Bacon), que matou sua mãe e na tentativa da CIA (na figura de Moira MacTaggert, vivida pela australiana Rose Byrne) em impedir a III Guerra Mundial, que está prestes a acontecer devido ao embargo americano ao país de Fidel Castro. Juntos, Xavier e Erik iniciam o recrutamento de jovens mutantes.
Resumir um filme de "X-Men" não é tarefa das mais fáceis, uma vez que sempre acontece tanta coisa - e de forma tão orgânica e natural - que é mais fácil realmente apertar o botão de relaxar e curtir cada cena, cada momento, cada diálogo. Sim, em toda a série - talvez com a possível exceção do fraco "Wolverine: Origens" - há o cuidado com a relação entre as personagens e a maneira com que os acontecimentos se conectam. E aqui, o público é brindado com duas aparições-relâmpago muito divertidas e com algumas cenas que explicam muito do que está por vir (ou já veio, depende de como se vê as coisas). E é por isso que a escolha do elenco, mais uma vez, mostrou-se extremamente acertada. James McAvoy é um dos melhores jovens atores do momento, e Jennifer Lawrence (já então indicada ao Oscar por "Inverno da alma" e no caminho para vencer a estatueta por "O lado bom da vida") se sai muito bem como a adolescente Mística. Nicholas Hoult (o ator de "Um grande garoto", irreconhecível) e Kevin Bacon também não deixam a peteca cair (Bacon, aliás, parece se divertir muito no papel de vilão). Mas é inegável que o maior destaque é Michael Fassbender. Na ausência de Wolverine, é ele quem tem as melhores cenas, é por ele que o público torce mais fervorosamente e é ele que é o responsável por empolgar a audiência (até mesmo na esperada sequência que explica o motivo de Xavier estar preso em uma cadeira de rodas nas continuações). E honra o papel, vivido majestosamente por Ian McKellen nas primeiras partes.
Em suma, "X-Men: Primeira Classe" não decepciona os fãs dos primeiros filmes - ao menos àqueles que nunca leram uma linha sequer dos quadrinhos - e nem de longe é tão decepcionante quanto "Wolverine: Origens". É um exemplo a ser seguido por quem preza unir qualidade e sucesso financeiro. Vida longa aos mutantes!
sábado
SHAME
SHAME (Shame, 2011, See-Saw Films/Film4/UK Council, 101min) Direção: Steve McQueen. Roteiro: Steve McQueen, Abi Morgan. Fotografia: Sean Bobbitt. Montagem: Joe Walker. Música: Harry Escott. Figurino: David Robinson. Direção de arte/cenários: Judy Becker/Heather Loeffler. Produção executiva: Peter Hampden, Tim Haslam, Tessa Ross, Robert Walak. Produção: Iain Canning, Emile Sherman. Elenco: Michael Fassbender, Carey Mulligan, James Badge Dale. Estreia: 04/9/11 (Festival de Veneza)
Quem teve a oportunidade de assistir
ao devastador “Fome” (09) – estreia do artista plástico Steve McQueen como
cineasta – sabe do que ele é capaz com sua fé inabalável no poder da imagem em
detrimento das palavras. Construindo um filme calcado basicamente no visual
(mas com um longo diálogo de 12 minutos filmado em plano-sequência), McQueen –
homônimo do ator norte-americano famoso por filmes como “Papillon” e “Inferno
na torre” – contou a trágica história do irlandês Bobby Sands, que, lutando pelo
direito de ser tratado como preso político na Inglaterra dos anos 80, morreu em
consequência de uma greve de fome logo depois de eleito deputado. O segundo
filme do diretor, “Shame”, não foge muito de sua cartilha que prega a imagem
como principal ponto de referência do cinema, construindo toda a tensão de sua
trama – assim como seus desdobramentos e subtextos – sobre um poderoso alicerce
compartilhado de “Fome”: o extraordinário ator Michael Fassbender.
É o alemão Fassbender, com seu imenso
talento, que sustenta a ousadia formal de McQueen em contar sua história com o
mínimo possível de diálogos, privilegiando enquadramentos, luzes e a edição –
em suma, tudo aquilo que faz do cinema uma arte diferente do teatro e da
literatura. Não que os personagens de “Shame” não falem, mas sempre que isso
acontece o diretor parece fazer questão de mostrar que o mais importante é o
que está por trás do que é dito, escondido no que não é falado, disfarçado
tanto na polidez de encontros sociais quanto na violência verbal de discussões
familiares. “Shame” é um filme de olhares, de sensações, de silêncios – mas ao
mesmo tempo, é uma obra avassaladora em sua elegância calculada, que retrata,
como poucos filmes contemporâneos, o estado de espírito de sua época – o
famigerado zeitgeist. Quem espera
encontrar nele uma trama ágil e repleta de reviravoltas dramáticas certamente
irá se decepcionar – seu ritmo é muito mais europeu do que hollywoodiano – mas
aqueles que buscam no cinema um convite à reflexão e ao raciocínio não terão do
que reclamar.
Fassbender – no mesmo ano em que
viveu Carl Jung em “Um método perigoso”, de David Cronenberg e um androide em
“Prometheus”, de Ridley Scott, com a mesma desenvoltura – interpreta Brandon,
um homem bonito, bem-sucedido, charmoso e inteligente que circula em uma Nova
York igualmente fotogênica e glamourosa. Por trás de sua aparência tranquila,
porém, existe um turbilhão aparentemente incessante: ele é viciado em sexo. Não
satisfeito em dormir com qualquer mulher que cruze seu caminho, ele paga
prostitutas, tem uma coleção de vídeos eróticos e nem mesmo seu computador no
ambiente de trabalho é livre de todo tipo de material sensual. Entre sessões
contínuas de masturbação e um desfile de mulheres por sua cama – todas
sistematicamente afastadas de qualquer vínculo emocional que possam querer ter
– Brandon tenta esconder até de si mesmo um vazio existencial que ele sublima
com uma quantidade acima do normal de sexo. Esse vazio existencial – muito bem
enterrado sob toneladas de amor-próprio – acaba vindo à tona quando chega à
cidade sua irmã caçula, a cantora Sissy (Carey Mulligan), também portadora de uma
saudável dose de problemas psicológicos. A relação entre os dois – traumática?
incestuosa? puramente fraternal? – acaba por ser o catalisador de uma profunda
viagem de Brandon a seu mundo íntimo.
E essa justamente essa viagem de
Brandon ao âmago de sua personalidade que interessa a McQueen: dando ênfase a
inúmeros closes dos olhos azuis e inquietos de Michael Fassbender, o cineasta
os utiliza como guia a uma angustiante jornada dentro da mente de um homem
acostumado a ter o controle absoluto de sua vida (através do sexo casual e
insaciável) quando se vê diante do imponderável poder de uma mulher cujo
passado – e aí está outro grande acerto do filme – nunca é oferecido ao
espectador. O roteiro, do diretor e de Abi Morgan foge do óbvio e do corriqueiro ao negar ao público
informações essenciais de seus personagens, mostrando apenas o que a bela fotografia
alcança. Há algo de muito doloroso no passado de Brandon e Sissy – a inesquecível
sequência em que ela canta “New York, New York” e o leva às lágrimas deixa isso
bem claro – mas somente eles dois sabem e continuarão sabendo: não interessa a
McQueen o que aconteceu, e sim as consequências disso na existência de ambos.
Contrariando as regras, o diretor não hesita em filmar um diálogo importante
pelas costas de seus atores – deixando que suas entonações e vozes comandem as
emoções – e tampouco deixa que o puritanismo do cinema americano fique em seu
caminho: apesar de ser um filme calcado basicamente em sexo, as cenas eróticas
de “Shame” surgem mais como ilustração da busca desesperada do protagonista por
algo que nem ele mesmo sabe exatamente o que é do que como alavanca para
fantasias sexuais da plateia. E se Fassbender surpreende em cenas de nudez
frontal – o terror dos grandes estúdios – é porque sua confiança no diretor e
em suas ideias é total (não à toa eles voltariam a trabalhar juntos em “12 anos
de escravidão”, que deu ao ator sua primeira indicação ao Oscar, como
coadjuvante).
“Shame” não é um filme de fácil
leitura ou de absorção imediata. Steve McQueen é um diretor que mais pergunta
do que responde, que provoca discussões, que toca em feridas e tabus
inacreditáveis em pleno século XXI. Autor de soluções visuais extasiantes e
dono de pleno domínio da câmera – que soa por vezes intrusiva e por outras mera
testemunha neutra – ele convida a plateia a mergulhar em um universo
aparentemente familiar (afinal é Nova York, a capital do mundo) para logo em
seguida enfatizar, através da música e da fotografia, uma solidão dolorida e
que não demonstra intenção de ir embora. Por esse ângulo, o final em aberto é
extremamente coerente, deixando no espectador um sentimento de desconforto que
apenas coroa o belíssimo trabalho do diretor. “Shame” é, com certeza, um dos
filmes fundamentais de sua época.
Assinar:
Postagens (Atom)
O PREÇO DA TRAIÇÃO
O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...
-
FRAGMENTADO (Split, 2016, Universal Pictures, 117min) Direção e roteiro: M. Night Shyamalan. Fotografia: Michael Gioulakis. Montagem: Luke...
-
PSICOPATA AMERICANO (American psycho, 2000, Lions Gate Films, 102min ) Direção: Mary Harron. Roteiro: Mary Harron, Guinevere Turner, r...
-
O SILÊNCIO DOS INOCENTES (The silence of the lambs, 1991, Orion Pictures, 118min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Ted Tally, romance de ...














