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quarta-feira

BRINCANDO NOS CAMPOS DO SENHOR

 


BRINCANDO NOS CAMPOS DO SENHOR (At play in the fields of the Lord, 1991, The Saul Zaentz Company, 189min) Direção: Hector Babenco. Roteiro: Jean-Claude Carrière, Hector Babenco, Vincent Patrick, romance de Peter Mathiessen. Fotografia: Lauro Escorel. Montagem: William M. Anderson, Armen Minasian. Música: Zbiniew Preisner. Figurino: Aggie Guerard-Rodgers, Rita Murtinho. Direção de arte/cenários: Clovis Bueno/Dagoberto Assis. Produção executiva: David Nichols, Francisco Ramalho Jr.. Produção: Saul Zaentz. Elenco: Tom Berenger, John Lithgow, Daryl Hannah, Aidan Quinn, Tom Waits, Kathy Bates, Stênio Garcia, Nelson Xavier, José Dumont. Estreia: 06/12/91

Desde que foi publicado, em 1965, o romance "Brincando nos campos do Senhor" esteve na mira do cinema. Fascinado com o belo livro de Peter Mathiessen, que discutia temas relevantes e que estariam em voga no final do milênio, como ecologia, tolerância religiosa e racismo, o produtor Saul Zaentz imediatamente pensou em transportá-lo para as telas - mas chegou tarde demais em sua tentativa de adquirir os direitos de adaptação, comprados pela MGM. Persistente, ele viu o projeto nascer e morrer em diversas ocasiões - sob o comando de nomes fortes, como John Huston e Milos Forman e com estrelas do porte de Marlon Brando, Paul Newman e Richard Gere no elenco - sem nunca desistir de seus planos. Foi somente em 1989, porém, que o sonho se tornou realidade: mediante o pagamento de 1,4 milhão de dólares, Zaentz tinha, em mãos, a possibilidade de apresentar ao público de cinema uma história poderosa, intensa e emocionante como só os maiores épicos conseguem ser. Mal poderia imaginar, no entanto, que apesar das imensas qualidades que seu filme viria a ter, ele não conquistaria a audiência da maneira imaginada: com um custo estimado de 36 milhões de dólares e uma renda mundial de pouco mais de 1 milhão, a versão cinematográfica de "Brincando nos campos do Senhor" foi um dos mais retumbantes fracassos da década de 1990 e colocou a carreira do diretor Hector Babenco - vindo do prestígio de "O beijo da mulher-aranha" (1985) e "Ironweed" (1987) - em um hiato do qual só saiu sete anos mais tarde com "Coração iluminado" (1998).

Filmado inteiramente na Amazônia, entre junho e dezembro de 1990, o filme tomou quase dois anos da vida de Babenco antes mesmo do começo das filmagens. Ocupado em escolher locações e escrever o roteiro ao lado do experiente Jean-Claude Carrière - colaborador habitual de Buñuel -, o cineasta argentino/brasileiro ainda teria maus momentos pela frente. Da desistência de Laura Dern - que recusou-se a mergulhar em um rio com águas não exatamente limpas - às reclamações de parte da equipe, trabalhando em situação quase insalubre, a produção enfrentou problemas constantes que em nada ajudavam a amenizar o clima de constante insatisfação. Babenco, tenso e ciente da responsabilidade de comandar um projeto tão ambicioso e arriscado, orquestrava uma sinfonia das mais complicadas, com astros hollywoodianos misturados a atores brasileiros, extras locais e condições climáticas que impediam qualquer planejamento a longo prazo. Diante de tantos percalços, portanto, não apenas é notável que o filme tenha sido lançado, como que tenha resultado em um produto tão bom. A despeito de seu fiasco comercial - talvez explicável pelo teor controverso da trama -, "Brincando nos campos do Senhor" é o melhor filme da carreira do cineasta, e uma das produções mais subestimadas da década de 1990.


Em um breve resumo - que apenas dá as coordenadas para uma trama com desdobramentos complexos e surpreendentes -, o filme de Babenco conta a história de dois casais de missionários evangélicos que chegam à Amazônia com o objetivo de converter os índios locais, depois do violento fracasso de seus predecessores católicos. O líder do grupo é o ambicioso Leslie Huben (John Lithgow), que se preocupa mais em disputar os nativos com os rivais católicos do que exatamente salvar suas almas, e é ele quem recebe a família Quarrier, formada pelo idealista Martin (Aidan Quinn), pela fanática Hazel (Kathy Bates) e pelo pequeno Billy (Niilo Kivirinta) - que não demora a encantar-se com a liberdade dos indígenas, para desespero de sua mãe. O embate entre missionários e nativos deixa claro o choque entre culturas quase irreconciliáveis, especialmente quando fica claro que interesses financeiros estão por trás da chegada dos religiosos, que sem o saber, estão colaborando com empresários dispostos a dizimar tribos inteiras para ter acesso a minerais valiosos. Complicando ainda mais a situação, o piloto americano Lewis Moon (Tom Berenger) resolve se deixar seduzir por suas origens indígenas e se junta a seus ancestrais - o que não o impede de ser irremediavelmente atraído pela bela Andy (Daryl Hannah), esposa de Leslie.

A princípio a longa duração do filme - mais de três horas - pode assustar ao espectador menos paciente. Porém, tão logo as belas imagens de Lauro Escorel surjam na tela, fica claro que uma metragem menor prejudicaria consideravelmente a coerência interna e a solidez da história. Não há nenhuma cena desnecessária no filme de Babenco, e cada sequência empurra a trama em direção ao clímax - triste, chocante, infelizmente realista. Cuidadosamente produzido - seja em termos de composição visual, sonora e de construção de personagens -, o filme envolve justamente por não se deixar seduzir pelos caminhos narrativos mais fáceis. O roteiro, fluido, dá o tempo necessário a cada um de seus vários personagens, deixando claro ao espectador cada motivação e sentimento - o que, em muitos casos no cinemão hollywoodiano, é algo raro. E se em "O beijo da mulher-aranha" a mescla de atores brasileiros e estrangeiros deixava tudo um tanto caótico, o mesmo não se repete aqui: todos os atores estão em excelente momento, especialmente Kathy Bates (dona de alguns dos momentos mais catárticos) e Tom Berenger (cuja atuação é, sem favor, uma das melhores de sua carreira, apesar da opinião contrária do próprio Babenco). As caracterizações - outro ponto sensível em produções do gênero - são fascinantes e verossímeis (responsabilidade de especialistas no assunto), e a opção de colocar a Amazônia como um personagem a mais e não apenas um cenário passivo é um golpe de mestre - talvez pressionado pela própria natureza do local, mas mesmo assim brilhante.

Por fim, não é difícil entender os motivos que levaram "Brincando nos campos do Senhor" ao fracasso comercial. Não apenas o filme de Babenco foi lançado em um período complicado - final do ano, quando os estúdios mostram suas maiores armas para a temporada de premiações - como apresenta um tema bastante indigesto para o público médio frequentador de salas de exibição. É difícil imaginar famílias indo ao cinema assistir a uma produção que bate tão violentamente contra a colonização anglo-saxã e que discute com seriedade assuntos que só viriam a se tornar prementes algum tempo mais tarde. "Brincando" é um filme sério demais, feito com respeito demais para plateias acostumadas a blockbusters - ironia das ironias, o filme de Babenco é uma das maiores inspirações de James Cameron na sua concepção de "Avatar" (2010), o suprassumo do cinemão comercial feito em Hollywood. Que um dia a obra-prima do cineasta seja descoberta e avaliada como merece!

quinta-feira

JANTAR COM BEATRIZ

JANTAR COM BEATRIZ (Beatriz at dinner, 2017, Bron Studios/Killer Films, 81min) Dieção: Miguel Arteta. Roteiro: Mike White. Fotografia: Wyatt Garfield. Montagem: Jay Deuby. Música: Mark Mothersbaugh. Figurino: Christina Blackaller. Direção de arte/cenários: Ashley Fenton, Madelaine Frezza. Produção executiva: Jason Cloth, Brad Feinstein, Lewis Hendler, Richard McConnell, Andrew Pollack, Alan Simpson, Jose Tamez, Paul Tennyson. Produção: Aaron L. Gilbert, David Hinojosa, Pamela Koffler, Christine Vachon. Elenco: Salma Hayek, John Lithgow, Connie Britton, Chloe Sevigny, Jay Duplass, Amy Landecker, David Warshofsky. Estreia: 23/01/17 (Festival de Sundance)

É uma pena que nem todos os bons filmes lançados no Festival de Sundance encontrem uma distribuição decente e tenham as mesmas chances das grandes produções hollywoodianas de chegar até o público - e às cerimônias de premiação, que afinal de contas lhes dariam o aval necessário para o sucesso comercial. Por causa do domínio de mercado dos blockbusters, por exemplo, filmes como "Jantar com Beatriz" ficam restritos a pequenas plateias mais antenadas e dispostas a procurar alternativas ao que é oferecido sem critério nas salas de exibição. Dirigido por Miguel Arteta - o cineasta porto-riquenho que proporcionou à Jennifer Aniston um de seus melhores papéis no cinema, em "Por um sentido na vida" (2002) - e estrelado por uma impressionante Salma Hayek, "Jantar com Beatriz" é uma obra concisa (pouco mais de 80 minutos de duração, contando com os créditos finais) e socialmente relevante, um filme que vai envolvendo o espectador gradualmente em um tom de suspense e imprevisibilidade do qual é impossível desvencilhar-se até a última (e melancólica) cena.

Completamente desprovida da sensualidade vulcânica que a elevou a um dos maiores símbolos sexuais do final da década de 90 - mais precisamente desde que encarou uma perigosa vampira em "Um drink no inferno" (96) - e muito mais consistente como atriz do que em seu trabalho que lhe rendeu uma indicação ao Oscar em 2003, por "Frida", Salma Hayek entrega, em "Jantar com Beatriz", uma atuação madura e minimalista, que reflete com inteligência um texto ácido e moralmente impactante sobre o estado político e social da era Trump - um momento crucial para os EUA e sua relação com o resto do mundo. Assumindo sem reservas sua origem mexicana, Hayek constrói uma protagonista cujas nuances cada vez mais complexas vão encontrando espaço no decorrer da narrativa, ora cruel, ora dotada de um humor cínico, característica do roteirista Mike White - criador da série "Enlightened", estrelada por Laura Dern em 2011. Conseguindo escapar inclusive de alguns momentos maniqueístas propostos por White, o desempenho de Hayek já seria motivo suficiente para garantir uma melhor carreira para o filme - mas há muito mais a se aplaudir.





Beatriz, a personagem de Hayek, é um primor: imigrante mexicana há décadas morando nos EUA, ela trabalha em um centro de medicina holística, como especialista em tratamentos alternativos. Desde as primeiras cenas fica clara a sua paixão pelos animais e pela natureza, sua calma e atitudes zen em relação à vida e tudo a seu redor. Como uma profissional dedicada e reconhecida, ela é amiga de Kathy (Connie Britton) - cuja filha ela ajudou a recuperar-se de um câncer há algum tempo -, e é nessa condição que ela se vê convidada a ficar em sua mansão para um jantar que será oferecido a um milionário que está fazendo negócios com seu marido, Grant (David Warshofsky). Com o carro estragado e aguardando o socorro de um conhecido, Beatriz aceita o convite - apesar de não estar devidamente vestida para tal - e não demora a perceber que não está em seu habitat natural. Simples e direta, sem afetações, ela tenta compreender a quase futilidade de Kathy (a quem ela realmente devota lealdade e amizade) quando na presença de um dos casais convidados à recepção, Alex (Jay Duplass) e Shannon (Chloe Sevigny). A chegada do homenageado, porém, é que irá deflagrar novos conflitos: o empresário Doug Strutt (John Lithgow) é a antítese de tudo em que Beatriz acredita, um homem frio e insensível, capaz de apelar para atos ilegais para aumentar sua fortuna e comandar caçadas na África pelo puro prazer de matar. A figura de Doug - em atuação inspirada de Lithgow - é que despertará em Beatriz, até então uma testemunha calada e um tanto ingênua dos assuntos tratados à mesa, uma angústia e uma fúria que terão desdobramentos surpreendentes.

Sem exagerar nas reviravoltas - o que daria ao filme um tom de melodrama barato - mas mantendo em suspenso toda e qualquer possibilidade de conflito, "Jantar com Beatriz" é um triunfo de concisão e objetividade. Por mais que suas cenas iniciais pareçam avulsas ou desnecessárias, são elas que vão costurando, com sutileza, todo o contorno da personalidade da protagonista - que conquista a simpatia do público justamente por lutar pelo que acredita mesmo diante de seus maiores oponentes. A câmera não se furta a mostrar Salma Hayek em close diversas vezes, como forma de sublinhar sua surpresa, seu choque, sua indignação frente a um universo que ela simplesmente não consegue (e nem pretende) compreender. Sua personagem, uma representante legítima do eterno conflito entre Davi e Golias, é um presente à atriz, e ela não foge da responsabilidade, entregando uma performance impecável - e levando a plateia a torcer por seus princípios e talvez até converter-se a eles. "Jantar com Beatriz" é um filme necessário, tocante e inteligente, que retrata como poucos o abismo social e ético que vem aumentando exponencialmente não apenas nos EUA, mas em todo o mundo. Uma obra imprescindível - ainda que termine de forma um tanto brusca e anticlimática.

segunda-feira

ARMAS NA MESA

ARMAS NA MESA (Miss Sloane, 2016, Transfilm/Archery Pictures/Canal + Distribution, 132min) Direção: John Madden. Roteiro: Jonathan Perera. Fotografia: Sebastian Blenkov. Montagem: Alexander Berner. Música: Max Richter. Figurino: Georgina Yarhi. Direção de arte/cenários: Matthew Davies/Peter P. Nicolakakos. Produção executiva: Patrick Chu, Claude Léger, Jonathan Vanger. Produção: Ben Browning, Khris Thykier, Ariel Zeitoun. Elenco: Jessica Chastain, Mark Strong, Alison Pill, John Litghow, Christine Baranski, Michael Stuhlbarg, Sam Waterston, Jake Lacy, Dylan Baker, Gugu Mbatha-Raw. Estreia: 11/11/16

Uma das mais poderosas e importantes dos EUA, a indústria bélica afeta diretamente a economia e a sociedade norte-americanas, uma das mais benevolentes em leis de porte e compra de armas - e cujas consequências frequentam o noticiário com assustadora regularidade, com atentados violentos e mortais contra civis. O tema chegou a ser tema do impressionante documentário "Tiros em Columbine", de Michael Moore, vencedor do Oscar da categoria em 2001, e volta e meia serve de assunto para discussões sérias e polêmicas que envolvem políticos, empresários e a sociedade em geral, mas Hollywood, sintomaticamente, poucas vezes entrou na controvertida questão. Por isso não deixa de ser uma surpresa que um filme como "Armas na mesa" tenha surgido - ainda que timidamente, uma vez que não foi bem nas bilheterias e foi injustamente ignorado pelo Oscar - e tocado nesse nervo tão dolorido do american way of life. Dirigido por John Madden, que já conheceu o gostinho do sucesso com "Shakespeare apaixonado" (98) e estrelado por uma avassaladora Jessica Chastain, merecidamente indicada ao Golden Globe de melhor atriz dramática, o filme não aprofunda a questão, mas a utiliza como pano de fundo para uma trama inteligente e envolvente, que surpreende até os minutos finais.

A fascinante e complexa protagonista é Elizabeth Sloane, uma lobista talentosa e afeita a métodos pouco ortodoxos para atingir seus objetivos profissionais - mas que, paradoxalmente, só aceita trabalhos que vão ao encontro de seus princípios pessoais. É por essa razão que ela recusa a oferta milionária de um grupo de empresários que a procuram para que ela batalhe contra uma emenda constitucional que propõe mais rigidez na liberação de licenças para porte de arma no país. Conforme o raciocínio das velhas raposas, o fato de Elizabeth ser mulher poderia lhe dar ainda mais confiabilidade junto ao público feminino - seu maior alvo. Sentindo-se pressionada até mesmo por seu chefe, George Dupont (Sam Waterston), ela surpreende a todos ao aliar-se com uma firma de advocacia concorrente, que tenta justamente o oposto no Congresso. Liderada por Rodolfo Schmidt (Mark Strong), a nova equipe da ousada lobista passa a ser formada por antigos colaboradores, que entram, então, em rota de colisão com os remanescentes de seu antigo grupo, como o ambicioso Pat Connors (Michael Stuhlbarg) e a jovem Jane Molloy (Alisson Pill). Disposta a qualquer coisa para manter seu currículo, Elizabeth Sloane não medirá esforços para conquistar a opinião pública - inclusive usar o trauma de uma colega, Esme Manucharian (Gugu Mbatha-Raw), cujo passado esconde um terrível acontecimento.


Com um roteiro que vai revelando aos poucos todos os seus desdobramentos e uma personagem central repleta de nuances, "Armas na mesa" é um filme feito para adultos, para uma plateia exigente que busca tramas consistentes e imprevisíveis. Sua protagonista é uma das mais impressionantes da temporada 2016, e a interpretação irretocável de Jessica Chastain (mais uma, na verdade) é, além de sua maior qualidade, seu ponto de sustentação. Ao dotar Elizabeth Sloane de uma série de defeitos e aproximá-la do espectador médio - com suas frustrações pessoais, sua solidão, sua inadequação à normalidade - o filme trabalha de maneira exemplar a intersecção entre a trama política e o drama pessoal, que o leva a um clímax poderoso e surpreendente. Chastain está brilhante e rouba todas as cenas em que aparece, seja humilhando opositores, discutindo com inimigos, conversando com o terapeuta ou ensaiando uma hesitante relação com o garoto de programa Forde (Jake Lacy), que lhe faz repensar algumas de suas atitudes. Seu desempenho é tão forte que eclipsa até mesmo gente talentosa como John Lithgow e Sam Waterston, que pouco tem a fazer senão pontuar seu show. Não foi à toa que John Madden pensou imediatamente nela quando leu o roteiro - ambos já tem outro trabalho em conjunto, o subestimado "A grande mentira" (2010), mas aqui atingem um outro nível de entendimento profissional, absolutamente mais sofisticado.

De ritmo mais lento que a maioria das produções hollywoodianas - que privilegiam uma edição histérica em detrimento do desenvolvimento de personagens e de sua história - "Armas na mesa" convida o público a não apenas refletir sobre um tema relevante, mas também a mergulhar em um universo poucas vezes retratados com fidelidade no cinema. Ao testemunhar as artimanhas de Elizabeth em sua trajetória rumo ao sucesso profissional, a plateia se vê diante de um mundo de negociações escusas, de mentiras, chantagens e jogos baixos que em muito reflete a realidade não só norte-americana, mas de todos os países democráticos do mundo. Sem forçar a mão nas discussões políticas e preferindo enfatizar a personalidade dúbia de sua protagonista, o roteiro de Jonathan Perera torna-se universal e brinda a audiência com diálogos acima da média e um desenvolvimento gradual, que conquista a cada cena, até seu final explosivo. Um filme que merece ser descoberto - e que injustamente não rendeu à sua atriz principal todos os aplausos que ela merece.

quarta-feira

UM TIRO NA NOITE

UM TIRO NA NOITE (Blow out, 1981, Cinema 77/Geria/Filmway Pictures, 107min) Direção e roteiro: Brian De Palma. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Paul Hirsch. Música: Pino Donaggio. Figurino: Vicki Sanchez. Direção de arte/cenários: Paul Sylbert/Bruce Weintraub. Produção executiva: Fred Caruso. Produção: George Litto. Elenco: John Travolta, Karen Allen, John Lithgow, Dennis Franz, Peter Boyden, Curt May. Estreia: 07/7/81

Acostumado a uma sucessão de altos e baixos em uma trajetória profissional que tanto lhe deu grandes sucessos de bilheteria, como "Os embalos de sábado à noite" (77), "Grease: nos tempos da brilhantina" (78) - e até o fraquinho mas imensamente popular "Olha quem está falando" (89) - quanto fracassos homéricos, a exemplo do tenebroso "Perfeição" (85), o ator John Travolta experimentou, em 1994, uma ressurreição de espantar até aos mais crédulos e vividos fãs de cinema, quando voltou a tornar-se um nome quente em Hollywood graças ao incensado "Pulp fiction: tempo de violência". O filme deu um bem-vindo novo fôlego a uma carreira praticamente estagnada, respeito da crítica e até mesmo uma indicação ao Oscar. Aplaudido aos quatro ventos, louvado e considerado uma das mais influentes obras da década de 90, o trabalho de Quentin Tarantino revelou a uma nova geração de espectadores um talento dramático que pouca gente conseguia vislumbrar no galã de olhos azuis que não hesitou em deixar a vaidade de lado para interpretar um matador de aluguel viciado em cocaína e muitos quilos acima do peso ideal. Esse talento, revelado em um desempenho icônico, foi descoberto por Tarantino não em seus filmes mais celebrados, onde requebrava o corpo em coreografias que marcaram época, mas sim em uma trama de suspense que naufragou nas bilheterias no início dos anos 80 apesar de suas vastas qualidades artísticas. Dirigido por Brian De Palma logo após o impacto de "Vestida para matar" - em que prestava reverência ao mestre Hitchcock - "Um tiro na noite" confirmou sua capacidade de aproveitar os velhos clichês do gênero em histórias originais, mas não encontrou seu público e teve de contentar-se em esperar que o tempo o tornasse cult - e desse à Travolta a chance de voltar às boas graças da indústria.

Como o título original já denuncia, "Um tiro na noite" é uma homenagem clara e reverente ao clássico "Blow up: depois daquele beijo" (66), de Michelangelo Antonioni. No filme do cineasta italiano, um jovem fotógrafo descobria um assassinato ocorrido em um parque no momento de revelar seus negativos. Na obra assinada por De Palma - que mesmo inspirado por Antonioni não deixa de lado seu fetiche pelos ensinamentos de Hitchcock - o protagonista é Jack Terry (John Travolta), um técnico de som de filmes de terror barato que tem sua vida transformada em uma madrugada, quando, ao gravar ruídos para um de seus próximos trabalhos, acaba sendo testemunha de um acidente de carro que mata um candidato à presidência dos EUA. No processo, salva da morte por afogamento a acompanhante do político, a prostituta Sally Bedina (Nancy Allen, à época casada com o diretor), e entra de gaiato em uma conspiração muito mais perigosa quando, ao escutar os sons gravados, descobre que antes do estouro do pneu que causou a queda do carro no rio, um tiro foi disparado. Ignorado pela polícia e pelas autoridades, Jack se une à Sally para desmascarar os culpados, utilizando-se, para isso, de seus conhecimentos profissionais.


Um apaixonado confesso pela arte cinematográfica e seus artifícios narrativos (que utiliza sem pestanejar em praticamente toda a sua filmografia), Brian De Palma faz, em "Um tiro na noite", uma bela homenagem à sétima arte, muito bem embalada em um gênero que domina como poucos. Desde a primeira sequência, que abraça carinhosamente os filmes B de horror, o cineasta oferece à plateia uma trama intrigante (ainda que previsível em muitos momentos) e recheada de um tesão explícito pela arte de fazer cinema, De Palma usa a trajetória de seu protagonista em busca da verdade como um pretexto para exibir seu vasto conhecimento do ofício. Tudo funciona como um relógio em sua narrativa visual e sonora, começando com a sutil trilha sonora de Pino Donaggio, passando pela edição enxuta e claustrofóbica de Paul Hirsch e chegando ao desenho de som, o ponto crucial do filme e razão de ser de sua existência: foi durante o processo de sonorização de "Vestida para matar" que o diretor teve a ideia de contar uma história que explorasse os bastidores do cinema através de uma técnica pouco conhecida (e também pouco valorizada) pela plateia. Surgiu, então, um enredo que misturava momentos de pura tensão, curiosidades sobre bastidores e uma conspiração que lembrava (e muito) um acidente de carro envolvendo o então senador Edward Kennedy.

Mas nem mesmo essa citação clara e óbvia a um fato político acontecido em seu próprio país - somada ao interessante mergulho no que acontece por trás das câmeras - ajudou a plateia a se deixar seduzir pelo filme. John Travolta - segunda opção para o papel, substituindo Al Pacino - arrancou elogios da crítica, mas deu início a um período escuro da carreira, que teria seguimento com "Os embalos de sábado continuam" (83) e uma série de produções ignoradas nas bilheterias. Não se sabe exatamente o que causou tal descaso popular ao filme de Brian De Palma - uma produção correta, com grandes momentos de suspense e um roteiro inteligente - mas talvez a ideia de um dos produtores (à época desconsiderada rapidamente) pudesse ter ajudado no resultado final, em termos comerciais: sem carisma e pouco conhecida do público, Nancy Allen teve seu papel quase oferecido à Olivia Newton-John, como forma de capitalizar sua química com o galã, já comprovada em "Grease". Mas Travolta já não era mais o protagonista dançante de seus maiores hits e buscava novos desafios artísticos. Demorou mais de dez anos - e o faro de Quentin Tarantino - para ser reconhecido como bom ator, mas basta prestar atenção em sua atuação em "Um tiro na noite" para perceber que seu talento já estava presente. Com mais de trinta anos de idade, o filme merece ser descoberto pelas novas gerações.

sexta-feira

DÍVIDA DE HONRA

DÍVIDA DE HONRA (The homesman, 2014, ) Direção: Tommy Lee Jones. Roteiro: Tommy Lee Jones, Kieran Fitzgerald, Wesley A. Oliver, romance de Glendon Swarthout. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Roberto Silvi. Música: Marco Beltrami. Figurino: Lahly Poore-Ericson. Direção de arte/cenários: Merideth Boswell/Wendy Ozols-Barnes. Produção executiva: G. Hughes Abell, Deborah Dobson Bach, Michael Fitzgerald, Tommy Lee Jones, Richard Romero. Produção: Luc Besson, Peter Brant, Brian Kennedy. Elenco: Tommy Lee Jones, Hilary Swank, Miranda Otto, John Litghow, James Spader, Grace Gummer, Meryl Streep, Hailee Steinfeld, William Fichtner, Sonja Richter, Tim Blake Nelson. Estreia: 18/5/14 (Festival de Cannes)

A primeira incursão de Tommy Lee Jones atrás das câmeras aconteceu em 2005, com o seco e agreste faroeste "Três enterros", e o ator, vencedor do Oscar de coadjuvante por "O fugitivo" (93), mostrou-se um cineasta atento e sensível às necessidades de um gênero em constante mutação. Porém, demorou quase uma década - e outras duas indicações à estatueta da Academia, por "No vale das sombras" (07) e "Lincoln" (12) - para que Jones retornasse à cadeira de diretor, sintomaticamente com outro faroeste. No entanto, apesar de "Dívida de honra" compartilhar do mesmo universo de sua estreia, seu segundo filme tem um viés menos violento e mais contemplativo, reflexo de um fato raro no gênero: o olhar feminino não apenas como testemunha distante, mas sim como parte ativa do desenrolar da trama.  Baseado em um romance de Glendon Swarthout, "Dívida de honra" tem como um de seus protagonistas a determinada e solitária Mary Bee Cuddy, interpretada com a dedicação habitual de Hilary Swank em um papel que lhe rendeu os maiores elogios de sua carreira desde o Oscar por "Menina de ouro" (04).

Quem procura um faroeste como aqueles que fizeram a glória de John Ford, Sérgio Leone e Clint Eastwood certamente irá se decepcionar com "Dívida de honra", dono de um ritmo e de uma trama que dispensa tiroteios, sacrifícios heróicos e duelos ao sol - ainda que a fotografia extraordinária de Rodrigo Prieto faça sua parte de encantar o espectador.  A trama começa no Nebraska da segunda metade do século XIX, quando a independente e corajosa Mary Bee - solteirona que vê todas as suas tentativas de mudar de status fracassarem sistematicamente - aceita o desafio de levar três mulheres da região que mergulharam na loucura até Iowa, onde poderão ter um tratamento adequado. Assumindo uma missão que deveria ser masculina, ela se vê de uma hora para outra no meio dos descampados do oeste. No meio do caminho, ela dá de cara com George Briggs (Tommy Lee Jones), em vias de morrer enforcado por inimigos. Por ter salvo sua vida, ela propõe a Briggs que a acompanhe em sua viagem, como forma de protegê-la e às suas conterrâneas. Ele aceita a proposta - com o incentivo de um pagamento - e aos poucos surge uma espécie de amizade entre eles, dificultada pelo desejo ainda vívido de Mary Bee de casar-se.


Ao incutir na trama central de seu filme um olhar feminista, Tommy Lee Jones surpreende positivamente não apenas por dar voz a um gênero normalmente relegado a segundo plano na vasta filmografia sobre o Velho Oeste, mas também por abrir um leque de possibilidades dramáticas que tornam seu filme imprevisível. Assim como Katharine Hepburn e Humphrey Bogart se apaixonaram em "Uma aventura na África" - mesmo sendo a personagem de Hepburn uma religiosa renitente - também Mary Bee pode convencer o seco e mau-humorado George Briggs a vê-la não apenas como a fonte de um pagamento mas também como uma mulher, disposta a aceitá-lo como marido. Apesar de não ser o foco da narrativa, tal questão paira grandiosa sobre os personagens a cada momento, até que uma reviravolta muda a percepção da plateia, os planos de um dos dois e o desfecho da história - que conta com as participações mais do que especiais de Hailee Steinfeld (indicada ao Oscar de coadjuvante por outro western, "Bravura indômita", de 2010) e Meryl Streep, em um papel pequeno que lhe dá oportunidade de contracenar com a filha Grace Gummer, que vive uma das três mulheres desequilibradas conduzidas pela carroça de Mary Bee.

Um faroeste atípico mas realizado com alma e extremo talento na frente e atrás das câmeras, "Dívida de honra" consegue o feito de ser ainda melhor que o filme anterior de Lee Jones, "Três enterros", que tinha roteiro de Guillermo Arriaga (dos primeiros filmes de Alejandro Iñárritu) e um tom mais trágico e violento. Contemplativo e dotado de uma melancolia quase palpável, é um projeto maduro e sério, com a marca de seu diretor, um dos mais respeitados atores de sua geração e mais uma interpretação digna de nota de sua estrela, Hilary Swank. São os dois os grandes responsáveis pela qualidade inegável da obra. Para os fãs e os não-fãs do gênero é um grande programa.

terça-feira

O AMOR É ESTRANHO

O AMOR É ESTRANHO (Love is strange, 2014, Parts and Labor, 94min) Direção: Ira Sachs. Roteiro: Ira Sachs, Mauricio Zacharias. Fotografia: Christos Voudouris. Montagem: Affonso Gonçalves, Michael Taylor. Figurino: Arjhun Basin. Direção de arte/cenários: Amy Williams/Kendall Anderson. Produção executiva: Ali Betil, Mayank Bhatter, Abraham Brown, Marcy Feller, Gabby Hanna, Christos V. Konstantakapoulos, Jim Lande, Sophie Mas, Elika Portnoy, Blythe Robertson, Lourenço Sant'Anna, Jim Stephens, Rodrigo Teixeira, L.A. Teodosio. Produção: Lucas Joaquin, Lars Knudsen, Ira Sachs, Jayne Baron Sherman, Jay Van Hoy. Elenco: Alfred Molina, John Lithgow, Marisa Tomei, Darren Burrows, Charlie Tahan, Cheynne Jackson, Christina Kirk, Manny Perez, Eric Tabach. Estreia: 18/01/14 (Festival de Sundance)

Com os direitos dos homossexuais a cada dia mais garantidos nos EUA, um pequeno fenômeno começou a tomar conta da dramaturgia norte-americana: filmes e seriados que voltam seu olhar para a terceira idade, uma parcela da população gay normalmente relegada a notas de rodapé do gênero. Na televisão, "Transparent" mostra a reação de uma família quando o patriarca assume seu lado crossdresser (homens que se vestem de mulher sem necessariamente sentir-se atraídos por outros homens) e "Grace & Frankie" (com Jane Fonda e Lily Tomlin) conta a história de duas mulheres de setenta anos que precisam lidar com o fato de seus maridos serem amantes há anos. No cinema, um belo exemplo da vertente é "O amor é estranho", uma produção independente que estreou no Festival de Sundance de 2014 e conquistou elogios calorosos da crítica apesar de ter passado quase em brancas nuvens nos cinemas ianques quando estreou pra valer, no segundo semestre. Lembrado por premiações relativamente importantes - o Independent Spirit Awards o indicou em quatro categorias e o Satellite Awards em duas - o filme de Ira Sachs merece ser descoberto por inúmeras razões, mas a principal delas é, sem dúvida, a escolha certeira dos protagonistas.

Dois atores geniais e subestimados, Alfred Molina e John Lithgow são os principais nomes do elenco escalado por Sachs. O primeiro interpreta George Garea, um professor de música adorado pelos alunos e admirado pela comunidade acadêmica. Lithgow vive Ben Hull, um pintor talentoso mas pouco valorizado pelo mercado nova-iorquino. Os dois vivem juntos e apaixonadamente há quase quarenta anos e finalmente decidem se casar, amparados pelos novos ares libeirais que lhes permite a oficialização do relacionamento. A felicidade, porém, dura pouco. George é demitido da escola católica onde lecionava (culpa dos rígidos princípios morais da instituição) e, sem conseguir manter o apartamento onde moravam, os dois são obrigados a viver separadamente até que a situação se ajeite. George vai morar com um casal de amigos policiais, Ted (Cheynne Jackson) e Roberto (Manny Perez), e Ben passa a dividir o quarto com o adolescente rebelde Joey (Charlie Tahan), filho de seu sobrinho Elliott (Darren Burrows) e da escritora Kate (Marisa Tomei). Mesmo com a boa-vontade dos anfitriões, porém, eles não conseguem deixar de sentir falta de sua antiga vida, especialmente quando Ben passa a desconfiar que sua presença na casa do sobrinho pode estar causando uma crise em seu casamento.


Emocionante sem ser piegas e com senso de humor sem apelar para piadas previsíveis ou bobas, o roteiro de "O amor é estranho" conquista o espectador por ser o mais perto possível da realidade. Seus personagens centrais não são galãs assépticos tampouco símbolos sexuais desejáveis. As pessoas que os rodeiam não são vilões cruéis nem exemplos de bondade e altruísmo. Seus problemas são verossímeis - aluguel excessivo, preconceito, idade avançada - e seus momentos de felicidade soam extremamente genuínos, como se fossem de pessoas da família. Os diálogos são frescos, diretos, de uma simplicidade comovente e inteligente. E a forma como Sachs - que tem no currículo outro filme de temática gay, chamado "Deixe a luze acesa", de 2012, mais pesado e menos simpático - conduz sua narrativa tem uma suavidade que cativa a audiência e permite que ela chegue às cenas finais torcendo por um final feliz mais que merecido. Em cenas românticas nunca exageradas ou caricatas, Lithgow e Molina vivem momentos especialíssimos na carreira, construindo personagens que poderiam facilmente cair na armadilha do exagero de forma sutil e discreta. Juntos, eles formam um casal contra o qual é impossível não torcer.

Um drama romântico leve, sensível e repleto de boas intenções, "O amor é estranho" brinda o espectador com uma história que emociona e faz refletir, que faz questionar a forma como a vida é vivida e a importância de cada momento. É um trabalho simples e eficiente, capaz de arrancar lágrimas e sorrisos com a mesma facilidade. Merece ser descoberto.

NOITE DE ANO-NOVO

NOITE DE ANO-NOVO (New Year's Eve, 2011, New Line Cinema, 113min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: Katherine Fugate. Fotografia: Charles Minsky. Montagem: Michael Tronick. Música: John Debney. Figurino: Gary Jones. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Leslie E. Rollins. Produção executiva: Samuel J. Brown, Michael Disco, Toby Emmerich, Diana Pokorny, Josie Rosen. Produção: Mike Karz, Garry Marshall, Wayne Rice. Elenco: Michelle Pfeiffer, Robert DeNiro, Hilary Swank, Hale Berry, Katherine Heigl, Sarah Jessica Parker, Josh Duhamel, Abigail Breslin, Ashton Kutcher, Lea Michele, Zac Efron, Jon Bon Jovi, Jessica Biel, Sarah Paulson, Hector Elizondo, John Lithgow, Cary Elwes, Allysa Milano, Common, Seth Meyers, Til Schweiger, Carla Gugino, Sofia Vergara, James Belushi, Cherry Jones, Ludacris, Ryan Seacrest. Estreia: 05/12/11

 Aproveitar datas comemorativas como pretexto para realizar filmes - e consequentemente ganhar dinheiro aproveitando o marketing gratuito que isso gera - é uma espécie de tradição em Hollywood. Mas se até recentemente apenas filmes de terror apelavam para o calendário em busca de ideias - vide as séries "Sexta-feira 13" e "Halloween" e o tenebroso "11/11/11", que se valia de uma data rara para contar uma história sem pé nem cabeça - ultimamente um outro gênero vem se apropriando do conceito. Aliás, mais precisamente um cineasta: Garry Marshall, que em 1990 deu a Julia Roberts sua grande chance para o estrelato em "Uma linda mulher". Em 2010 ele lançou "Idas e vindas do amor", uma comédia romântica que foi execrada quase unanimemente a despeito de seu elenco milionário - que incluía a própria Roberts, assim como Bradley Cooper, Ashton Kutscher, Kathy Bates, Anne Hathaway e Jamie Foxx. No entanto, apesar das críticas negativas, o filme rendeu mais de 200 milhões de dólares mundo afora, o que encorajou o cineasta a partir para uma espécie de segundo capítulo de sua saga "romântico/comemorativa". "Noite de ano-novo" chegou aos cinemas americanos em dezembro de 2011 e, como era de se esperar, foi novamente massacrado pela crítica.

Utilizando-se do artifício que fez a glória de Robert Altman - contar várias histórias paralelas de personagens aparentemente sem conexão alguma - "Noite de ano-novo" segue rigidamente a fórmula do filme anterior de Marshall, mesclando tramas engraçadinhas, dramáticas e românticas sem dar atenção especial a nenhuma delas (e consequentemente superficializando todas as relações mostradas, inclusive aquelas que poderiam render muito mais). Além disso, o cineasta insiste em tentar atingir públicos de todas as idades, pondo lado a lado atores respeitados e/ou oscarizados (Robert DeNiro, Michelle Pfeiffer, Hale Berry e Hilary Swank) e jovens promessas/ídolos adolescentes (Abrigail Breslin, Zac Efron, Lea Michelle). Para completar o elenco, figurinhas fáceis do gênero, como Katherine Heigl, Sarah Jessica Parker e Josh Duhamel e seu ator-fetiche, Hector Elizondo. Soma-se à receita uma trilha sonora moderna, histórias que não machucam ninguém e uma espécie de lição de moral a respeito de amor e perdão e o bolo está pronto. A questão é: esse bolo tão repleto de ingredientes deu liga?


Tudo depende do estado de espírito do espectador e de suas expectativas. Como toda produção hollywoodiana, "Noite de ano-novo" é bem fotografada, bem editada e, no mínimo, agradável. Mas nem todas as suas histórias cativam tanto quanto poderiam. Se não vejamos. Ingrid (Michelle Pfeiffer de cabelos castanhos) acaba de pedir demissão de um emprego que não mais lhe satisfazia e propõe ao jovem mensageiro Paul (Zac Efron) que a ajuda a cumprir uma lista de resoluções até a meia-noite - o pagamento será convites para uma cobiçada festa de revéillon. Stan Harris (Robert DeNiro) é o desenganado paciente cujo último desejo é assistir a chegada no novo ano em Times Square do terraço do hospital e que passa a noite acompanhado da dedicada enfermeira Aimée (Hale Berry), cujos planos para a virada ela não conta a ninguém. Tess e Griffin Byrne (Jessica Biel e Seth Meyers) estão em vias de ter o primeiro filho quando descobrem que a maternidade dá um prêmio de 25 mil dólares ao bebê que vier ao mundo nos primeiros minutos do novo ano e entram em competição com outro casal na mesma situação, Grace e James Schwab (Sarah Paulson e Seth Meyers).

Já o cantor de rock Jensen (Jon Bon Jovi) tenta reconquistar a hesitante Laura (Katherine Heigl), a chef de cozinha a quem decepcionou um ano antes e que ele espera que seja sua mulher e a jovem Elise (Lea Michele, da série "Glee") é uma de suas backing-vocals que se vê presa no elevador enquanto se prepara para um show e tem que lidar com o ranzinza Randy (Ashton Kutcher, com as mesmas caras e bocas de sempre), seu vizinho que odeia as comemorações de fim de ano. A data também se mostra estressante para a estilista Kim (Sarah Jessica Parker), que entra em conflito com a filha adolescente Hailey (Abigail Breslin, a pequena Miss Sunshine em pessoa), que quer passar a meia-noite com um grupo de amigos e dar o primeiro beijo no coleguinha por quem é apaixonada. A responsável pela festa em Times Square, Claire Morgan (Hilary Swank), também passa por maus bocados quando um dos principais atrativos do show dá errado e ela precisa apelar para um veterano ex-colega ressentido com a demissão, Kominsky (Hector Elizondo). Para finalizar, o jovem herdeiro Sam Ahern (Josh Duhamel) sai de uma festa de casamento no interior para tentar chegar a tempo ao encontro marcado um ano antes com uma mulher que conheceu por acaso e por quem se apaixonou instantaneamente. O segredo a respeito de quem é essa mulher e de como algumas das histórias irão se conectar é um charme a mais do filme, mesmo que esteja diluído em tantas tramas.

É lógico que "Noite de ano-novo" está a anos-luz de filmes do mesmo estilo como o delicioso "Simplesmente amor", mas tampouco é algo a ser desprezado totalmente. Apesar de ser dramaticamente falho, consegue ser simpático a maior parte do tempo (inclusive quando obriga a plateia a ver Jon Bon Jovi tentando atuar) e, mesmo que algumas das relações mostradas na tela não cheguem a convencer a plateia (principalmente pelo pouco tempo disponível para desenvolvê-las) não deixa de ser um alívio perceber que nem só de desenhos animados vive o cinema americano nessa época de festas. "Noite de ano-novo" cumpre o que promete (entreter sem compromisso), mas nunca vai além disso. Pode divertir aos menos exigentes. E só.

quarta-feira

OS DELÍRIOS DE CONSUMO DE BECKY BLOOM

OS DELÍRIOS DE CONSUMO DE BECKY BLOOM (Confessions of a shopaholic, 2009, Touchstone Pictures, 104min) Direção: P.J. Hogan. Roteiro: Tracey Jackson, Tim Firth, Kayla Alpert, romances de Sophie Kinsella. Fotografia: Jo Willems. Montagem: William Goldenberg. Música: James Newton Howard. Figurino: Pat Field. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Alyssa Winter. Produção executiva: Ron Bozman, Chad Oman, Mike Stenson. Produção: Jerry Bruckheimer. Elenco: Isla Fisher, Hugh Dancy, Krysten Ritter, John Lithgow, Joan Cusack, John Goodman, Kristin Scott Thomas, Lynn Redgrave, Julie Hagerty. Estreia: 05/02/09

A heroína de "Os delírios de consumo de Becky Bloom" - comédia romântica baseada nos dois primeiros livros de uma série de cinco volumes escritos pela britânica Sophie Kinsela - tem traços de algumas das mais populares personagens femininas a cruzar as telas de sua época. De Bridget Jones - criada por Helen Fielding e interpretada por Renée Zelwegger em dois filmes - ela tem a nacionalidade, o azar nos relacionamentos afetivos e a dificuldade sobre-humana de tirar suas contas do vermelho. De Elle Woods - que catapultou a carreira de Reese Witherspoon nos dois capitulos de "Legalmente loira" - ela herdou o amor incondicional por roupas, acessórios e sapatos de marcas famosas e a incapacidade de sair de casa sem estar vestida dos pés à cabeça com suas griffes preferidas. De Andrea Sachs - a sofrida assistente de Meryl Streep que Anne Hathaway viveu em "O diabo veste Prada" - ela tem a mesma profissão (jornalista) e o ambiente profissional (o mundo editorial, com suas armadilhas e pressões). E com as personagens de "Sex and the city" - série da HBO que também foi transposta para o cinema - ela divide o gosto pelo luxo, pelo romance e pela sofisticação... e a cidade de Nova York, para onde foi transferida pelos roteiristas apenas para uma "maior conexão com o público norte-americano". Com tantas referências na bagagem - apertadas ao lado do figurino caprichado da mesma Patricia Field da série estrelada por Sarah Jessica Parker e do filme com Hathaway - não é de admirar, portanto, que ela tenha passado quase em brancas nuvens. Mesmo com uma bilheteria mundial de mais de 100 milhões de dólares, as aventuras da consumista mais conhecida da literatura feminina não marcou época como suas colegas de shopping-center - matando logo em seu primeiro filme uma possível marca milionária para seduzir pelo visual e pela identificação as espectadoras que leram todos os cinco romances. Culpa do excesso de semelhanças? Da falta de carisma da atriz central? Da crise que tornou a estória um tanto fora de hora? Ou simplesmente falta de interesse da plateia?


Um pouco de tudo, talvez. Mesmo que Hollywood não se canse de contar e recontar as mesmas histórias a ponto de esgotá-las, a renda dos filmes contraria a teoria do cansaço com a falta de imaginação - não se pode esquecer que estamos falando de uma indústria que despeja continuações e mais continuações a cada temporada, sempre com êxitos cada vez maiores. Será então que Isla Fisher tem sua parcela de culpa no sucesso apenas mediano da empreitada? Pode ser. Desconhecida do grande público, Fischer é uma boa atriz, mas não tem o mesmo carisma de Reese Witherspoon - que chegou a ser cotada para o papel, recusando-o por considerá-lo parecido demais com sua Elle Woods. Será que as outras atrizes consideradas para protagonizar o filme teriam melhor sorte? É possível, já que na lista constam nomes como Kirsten Dunst, Rachel McAdams, Emily Blunt, Amanda Seyfried, Lindsay Lohan e até mesmo Anne Hathaway. Mas culpar Fisher - responsável por alguns dos melhores momentos de humor físico do filme - é leviano e até injusto. Então seria a crise econômica a responsável pela recepção morna à produção, que tinha como protagonista uma consumista contumaz? Se a resposta for essa, então como explicar as bilheterias monstruosas de filmes como "Avatar", "Se beber, não case", "Sherlock Holmes" e "Harry Potter e o enigma do príncipe", todos lançados no mesmo ano? Ok, "Becky Bloom" tem uma parcela restrita de público-alvo, mas então onde entra "Lua nova" nessa equação?

Dirigido pelo australiano P.J. Hogan - cujo talento foi mais do que comprovado com o sucesso de "O casamento de Muriel" (94) e "O casamento do meu melhor amigo" (97) - "Os delírios de consumo de Becky Bloom" é uma comédia romântica bobinha e leve, e como tal deve ser considerada e apreciada, apesar do abuso de clichês. Sua protagonista, Rebecca Bloomwood, é uma jovem jornalista que, sem emprego que lhe permita pagar seus excessos financeiros, acaba por encontrar trabalho em uma revista de economia editada pelo charmoso Luke Brandon (o sr. Claire Danes) - filho de uma milionária que tenta esconder suas origens para vencer pelo próprio talento. Com o apelido de "A moça da echarpe verde", ela começa a escrever uma coluna mensal sobre finanças pessoais para leigos e torna-se a sensação da revista. Apaixonada pelo chefe e incapaz de livrar-se do vício em compras - a ponto de brigar com a melhor amiga e passar os dias fugindo de um insistente cobrador que não parece disposto a desistir da caça - ela luta constantemente contra o saldo bancário e sua frustração profissional, já que seu sonho é trabalhar na "Alette", a revista de moda comandada pela fria Alette Naylor (Kristin Scott Thomas).

O fato é que "Os delírios de consumo de Becky Bloom", apesar de alguns acertos, é apenas mais uma sessão da tarde descerebrada que se utiliza de elementos já devidamente testados e aprovados para conquistar o bolso da plateia. Não tem a ironia de "Legalmente loira", o sarcasmo de Bridget Jones, a mordacidade de "O diabo veste Prada" e as geniais sacadas verbais e sexuais de "Sex and the city". Diverte em alguns momentos - é ótima a ideia de ver as manequins das vitrines ganhando vida quando a veem e é sempre um prazer ver Kristin Scot Thomas em cena - mas não consegue evitar a sensação de "mais do mesmo" em vários outros. A decisão da Touchstone em não dar continuidade à série foi acertada: acompanhar Becky Bloom como mãe e esposa certamente não seria uma boa ideia.

terça-feira

TESTEMUNHA DO SILÊNCIO

TESTEMUNHA DO SILÊNCIO (Silent fall, 1994, Warner Bros, 101min) Direção: Bruce Beresford. Roteiro: Akiva Goldsman. Fotografia: Peter James. Montagem: Ian Crafford. Música: Stewart Copeland. Figurino: Colleen Kelsall. Direção de arte/cenários: John Stoddart/Patty Malone. Produção executiva: Gary Barber. Produção: James G. Robinson. Elenco: Richard Dreyfuss, Linda Hamilton, Liv Tyler, J.T. Walsh, John Lithgow, Ben Faulkner. Estreia: 28/10/94

Um dos atores mais populares da segunda metade dos anos 70 - quando protagonizou "Tubarão" (75) e "Contatos imediatos de terceiro grau" (77) e foi o mais jovem vencedor do Oscar na categoria principal até então, por "A garota do adeus" (77) - Richard Dreyfuss não teve a mesma sorte nas décadas seguintes, equilibrando bons filmes de más bilheterias ("Querem me enlouquecer", com Barbra Streisand, de 87 e "Além da eternidade", de Steven Spielberg, de 89, por exemplo), filmes agradáveis que fizeram sucesso de público ("Tocaia", de 1987 e "Nosso querido Bob", de 1991) e produções francamente ruins, que não chegavam nem perto de explorar todo o seu talento (a continuação de "Tocaia", lançada em 1993). Infelizmente, antes de tentar uma volta por cima com a indicação merecida ao Oscar de melhor ator por "Mr. Holland, adorável professor" (95), ele acrescentou mais um filme desnecessário à sua carreira. Com uma trama instigante e uma lista de créditos excitante - o cineasta Bruce Beresford, a atriz Linda Hamilton e a beldade Liv Tyler estreando no cinema - "Testemunha do silêncio" acabou decepcionando o público, a crítica e a Warner, que empatou 30 milhões de dólares em uma produção que não recuperou nem 10% do orçamento. E o pior é que a culpa nem é de Dreyfuss.

Por mais que esteja quase no piloto automático em sua atuação, Dreyfuss não pode ser responsabilizado pelo fracasso de "Testemunha de silêncio", dirigido de forma burocrática e sem emoção por Beresford - que sintomaticamente, cinco anos antes, viu seu "Conduzindo Miss Daisy" levar o Oscar de melhor filme sem que ele ao menos tivesse sido indicado. Seu personagem, o terapeuta infantil Jake Rainer, especializado em autismo infantil e traumatizado com o suicídio de um paciente em seu centro de tratamento, poderia ser rico em nuances, mas o roteiro de Akiva Goldsman - que oito anos depois também seria premiado pela Academia por "Uma mente brilhante" - parece não ter interesse em desenvolver a complexidade de seu protagonista, ilustrando seu drama com uma ou duas cenas ligeiras e alguns poucos diálogos com a esposa Karen (Linda Hamilton, subaproveitada ao máximo). O foco da trama - interessante, mas igualmente desenvolvido de forma capenga e quase inverossímil - é uma investigação policial na qual ele é envolvido a contragosto e que vai acabar por fazê-lo rever sua decisão de abandonar a medicina.


O filme começa quando Rainer é chamado pelo xerife Mitch Rivers (J.T. Walsh) - com quem tem uma antiga relação de amizade - à cena de um brutal assassinato ocorrido na pequena cidade onde vive. A princípio o médico não entende os motivos que o levaram a ser convocado à propriedade onde um casal de classe média alta foi violentamente atacado a facadas em seu quarto, mas a razão logo surge quando ele encontra o filho caçula do casal, Tim (o ótimo Ben Faulkner), coberto de sangue, com uma faca nas mãos e falando coisas desconexas. Fica claro que o menino é autista e testemunhou o crime, mas não é do interesse de Rainer fazer parte das investigações até que a bela Sylvie (Liv Tyler), filha mais velha das vítimas implora que ele os ajude. Percebendo que, caso se recuse a colaborar com seu tratamento à base de psicologia infantil o pequeno Tim cairá nas mãos de outro médico (John Lithgow), bem mais afeito a drogas do que a conversas, ele aceita o desafio. No meio do caminho, pistas e revelações levam a polícia para inúmeros caminhos na busca pelo assassino.

A história de "Testemunha do silêncio" é interessante, e o desfecho poderia surpreender, caso tudo não corresse de forma tão preguiçosa. O roteiro, como afirmado anteriormente, desperdiça a chance de equilibrar um filme policial tenso com um drama médico eficiente ao optar sempre pelas soluções mais fáceis - e menos críveis. A direção é fria e quadrada, sem buscar em seu elenco de bons atores - Dreyfuss, Hamilton, Lithgow - interpretações mais do que corretas. E, se o pequeno Ben Faulkner dá show vivendo o atormentado Tim, o mesmo não pode ser dito de Liv Tyler, que estreava no cinema na pele de sua irmã mais velha, Sylvie. Vinda do mundo do rock - é filha do vocalista da banda Aerosmith, Steven Tyler, e havia estrelado o videoclipe "Crazy", da banda do papai, ao lado da atriz Alicia Silverstone - Liv mostrou que realmente era uma mulher deslumbrante, mas desprovida de talento dramático em um papel-chave para a trama. Felizmente, com o tempo, ela melhorou bastante e hoje é uma atriz relativamente competente. Mas, diante de tantos erros cometidos por "Testemunha do silêncio" sua apatia fica ainda mais gritante. Uma pena.

O DOSSIÊ PELICANO

O DOSSIÊ PELICANO (The Pelican Brief, 1993, Warner Bros, 141min) Direção: Alan J. Pakula. Roteiro: Alan J. Pakula, romance de John Grisham. Fotografia: Stephen Golblatt. Montagem: Tom Rolf, Trudy Ship. Música: James Horner. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Philip Rosenberg/Lisa Fischer, Rick Simpson. Produção: Pieter Jan Brugge, Alan J. Pakula. Elenco: Julia Roberts, Denzel Washington, Sam Shepard, John Heard, Tony Goldwin, James B. Sikking, Stanley Tucci, Hume Cronyn, John Lithgow, Anthony Heald, Cynthia Nixon. Estreia: 17/12/93

Depois de tornar-se a maior estrela surgida em Hollywood no início da década de 90 - e ter sido indicada duas vezes consecutivas ao Oscar - Julia Roberts achou que era hora de dar uma parada: presente mais nas páginas de tabloides sensacionalistas (graças a seu casamento com Kiefer Sutherland desmarcado em cima da hora, seu romance com o ator Jason Patric e posteriormente seu casamento-surpresa com o cantor country Lyle Lovett) do que nos sets de filmagens, a linda mulher que havia encantado os homens e inspirado as mulheres de plateias do mundo inteiro tentava colocar ordem na vida pessoal. Questão resolvida, era hora, então, de voltar ao batente, e para isso nada melhor do que um papel escrito especialmente para ela por um autor em vias de tornar-se o nome mais quente da terra do cinema: John Grisham. Autor do best-seller que deu origem ao filme "A firma" (93), estrelado por Tom Cruise, Grisham criou a protagonista de seu livro seguinte, "O dossiê Pelicano" com Roberts como modelo - não foi preciso muito para que a atriz, lisonjeada, topasse o desafio de encarná-la em seu retorno às telas sem nem mesmo ler a adaptação do romance.

Especializado em uma literatura digestiva, fluente e de pegada fácil, Grisham conquistou milhares de leitores com seus protagonistas, invariavelmente advogados ou estudantes de Direito que se veem forçados a lidar com a ganância e a corrupção do meio em que se instruem. No caso de "O dossiê Pelicano" a bola da vez é Darby Shaw (Julia Roberts, linda e carismática como sempre), uma jovem estudante que, apesar de manter um romance secreto com Thomas Callahan (Sam Shepard) - seu professor e mentor - é dedicada e inteligente o bastante para, sozinha, encontrar o fio da meada de uma conspiração gigantesca (e que envolve membros da Casa Branca) na morte de dois juízes da Suprema Corte. O dossiê que ela escreve apontando os possíveis responsáveis - e que leva o nome de pelicano por causa da ave ameaçada de extinção graças à exploração criminosa de petróleo feita pelos culpados - acaba chegando ao FBI e, consequentemente, ela se vê perseguida e ameaçada de morte. Cercada de violência - que vitima seu amante e qualquer pessoa de quem ela se aproxima - ela recorre a Gray Grantham (Denzel Washington), repórter político em quem ela passa a confiar cegamente.


Acostumado a assinar filmes que tratam de conspirações - são dele "Todos os homens do presidente" (76) e "A trama" - o diretor Alan J. Pakula foi a escolha certa para conduzir "O dossiê Pelicano". Cineasta sóbrio e inteligente, ele consegue extrair sempre o melhor de seu elenco e escolher ângulos improváveis para suas cenas, sejam elas longos diálogos explanativos ou empolgantes correrias dentro de um estacionamento coberto. Mesmo que seu filme seja um tanto longo demais para os padrões comerciais hollywoodianos - quase duas horas e meia de pouca ação e muito papo - ele consegue manter o interesse da plateia graças à tensão construída pela trilha sonora adequada de James Horner, pela fotografia claustrofóbica de Stephen Goldblatt e principalmente pela química entre Julia e Denzel - que foi convencido pela atriz a tomar parte no projeto. É uma bênção, também, que não exista um interesse romântico entre os protagonistas - o que diminuiria o impacto da trama central - e que o final não apele para o clichê da luta corporal entre mocinhos e bandidos. Além disso, Pakula cria alguns momentos brilhantes - como a morte de um dos vilões em pleno parque de diversões e a tentativa de matar Gray e Darby em um carro armado com uma bomba - que amenizam o tom quase morno da narrativa.

Quem está acostumado aos thrillers americanos leva um choque ao assistir a "O dossiê Pelicano": o ritmo é mais lento, o desenvolvimento é menos atropelado e as reações dos personagens são mais críveis do que na maioria dos filmes do mainstream. Ao mesmo tempo que isso qualifica o filme de Pakula como um produto mais inteligente que a média, afasta a plateia que busca adrenalina e a catarse que normalmente acompanha o gênero. Pakula era um diretor elegante, que fugia da violência gratuita, e isso está claro em cada fotograma de seu filme. A história pode não empolgar, mas a qualidade da narrativa é impecável.

segunda-feira

KINSEY - VAMOS FALAR DE SEXO


KINSEY (Kinsey, 2004, Fox Searchlight Pictures, 118min) Direção e roteiro: Bill Condon. Fotografia: Frederick Elmes. Montagem: Virginia Katz. Música: Carter Burwell. Figurino: Bruce Finlayson. Direção de arte/cenários: Richard Sherman/Andrew Baseman. Produção executiva: Francis Ford Coppola, Kirk D'Amico, Michael Kuhn, Bobby Rock. Produção: Gail Mutrux. Elenco: Liam Neeson, Laura Linney, Peter Sarsgaard, Timothy Hutton, Chris O'Donnell, Oliver Platt, John Lithgow, Tim Curry, Veronica Cartwright, Julianne Nicholson, John Krasinski, Luke McFarlane, Dylan Baker, Lynn Redgrave. Estreia: 04/9/04 (Festival de Telluride)

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Laura Linney)

Nascido em 1894 e morto em 1956, o entomologista e zoológo norte-americano Alfred Kinsey publicou, em 1948, um estudo detalhado sobre a sexualidade masculina que escandalizou a sociedade dos EUA. Em 1953, repetiu a dose, dessa vez focando sua atenção às mulheres. Uma das mais controversas personalidades do século XX, o cientista é, também, o protagonista de "Kinsey - Vamos falar de sexo", dirigido pelo mesmo Bill Condon que escreveu os roteiros dos premiados "Deuses e monstros" e "Chicago". Elogiado pela crítica ianque, o projeto não fez grande barulho nas bilheterias e tampouco conseguiu fazer o sucesso esperado nas cerimônias de premiação - com exceção de uma duvidosa indicação ao Oscar de coadjuvante para Laura Linney, passou batido pelos tapetes vermelhos. Mas é competente ao extremo, dotado de um senso de ironia raro e, melhor ainda, ousado na medida certa.

Ao concentrar seu roteiro no período mais prolífico das pesquisas de Kinsey - com um pequeno prólogo mostrando a juventude do protagonista - Condon tem a felicidade de poder se dedicar com ênfase tanto ao lado profissional quanto doméstico do cientista, sem ter que compactar em duas horas toda uma vida repleta de controvérsias e problemas pessoais. Contando com uma atuação excepcional de Liam Neeson - injustamente esquecido pela Academia - o filme começa mostrando a adolescência e a juventude do cientista, criado por um pai repressor (grande momento de John Lithgow), seus estudos de zoologia, o casamento com aquela que lhe acompanharia pela vida toda (Laura Linney) e a descoberta de sua real vocação: o estudo da sexualidade humana. E é a partir daí que "Kinsey" mostra a que veio. Com uma edição inteligente e um roteiro ágil, Condon conduz sua trama de forma um tanto didática, mas jamais enfadonha. Quando surge em cena seu colaborador Clyde Martin (Peter Sarsgaard), um jovem bissexual que se envolve tanto com o cientista quanto com sua mulher, tudo se torna ainda mais interessante.

 

Ao inserir no roteiro a possibilidade de Kinsey experimentar na carne toda a teoria de seu vasto estudo - e Condon nem precisou inventar nada disso, o que é ainda melhor - o filme ganha em peso e dramaticidade. Ao se ver quase obrigada a dividir o marido com outro homem (com quem também se envolve sexualmente), a personagem de Laura Linney dá a atriz a chance de sair da sombra de Neeson e mostrar um trabalho igualmente poderoso. E, sob tudo isso, há a ironia subjacente que faz com que os colaboradores do cientista comecem a sentir que o objeto de sua pesquisa tem muito mais poder sobre suas vidas (e seus casamentos) do que supunham a princípio. Esse efeito que o sexo causa em todos eles é a prova de que "Kinsey" não é apenas uma biografia, e sim um estudo sobre o sexo em si - e tudo que ele movimenta. Não foi à toa que o protagonista chegou à capa da revista Time e provocou polêmica por onde passou. Falar sobre sexo nos anos 40 em uma América ainda mais pudica do que a de hoje era corajoso e quase temerário - em vários momentos de seu filme, o diretor espalha cenas em que Kinsey era alvo de piadas e preconceito (e é especialmente interessante a cena em que um de seus colegas abandona uma entrevista por recusar-se a ouvir o relato de um pedófilo). A neutralidade de Alfred Kinsey diante de seus objetos de estudo só cai quando ele ouve o agradecimento de uma mulher de meia-idade que revela ter mudado de vida graças a ele. Com uma interpretação emocionante de Lynn Redgrave, essa cena - já no final da projeção - resume toda a importância do protagonista para a sociedade ocidental.

Longe de ser uma biografia quadradinha e sem graça, "Kinsey" é um belo exemplo de que um roteiro consistente, um diretor talentoso e um elenco bem escalado fazem muito mais por um filme do que orçamentos milionários e piadas apelativas. Mesmo tocando em um assunto que ainda hoje assusta os mais pudicos, é um filme imperdível e brilhantemente atual.

A QUALQUER PREÇO

A QUALQUER PREÇO (A civil action, 1998, Touchstone Pictures/Paramount Pictures/Wildwood Enterprises, 115min) Direção: Steven Zaillian. Roteiro: Steven Zaillian, romance de Jonathan Harr. Fotografia: Conrad L. Hall. Montagem: Wayne Wahrman. Música: Danny Elfman. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: David Gropman/Tracey A. Doyle. Produção executiva: David Wisnievitz, Steven Zaillian. Produção: Rachel Pfeffer, Robert Redford, Scott Rudin. Elenco: John Travolta, Robert Duvall, Tony Shalhoub, William H. Macy, Zeljko Ivanek, John Lithgow, Kathleen Quinlan, James Gandolfini, Dan Hedaya, Stephen Fry, Sydney Pollack. Estreia: 25/12/98

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Robert Duvall), Fotografia
Vencedor do Screen Actors Guild: Ator Coadjuvante (Robert Duvall)

Cerca de dois anos antes que Julia Roberts ganhasse o Oscar por seu trabalho em "Erin Brokovich, uma mulher de talento", uma história semelhante já havia sido levada às telas, sob a competente direção de Steven Zaillian, premiado pela Academia pelo roteiro de "A lista de Schindler". Baseado em um livro de Jonathan Harr - por sua vez inspirado em um fato real - "A qualquer preço" é um eficiente drama de tribunal, que compensa sua falta de maiores emoções por uma narrativa enxuta e sóbria, valorizada pela bela fotografia do veterano Conrad L. Hall e pelo trabalho sutil de John Travolta.

Tentando manter a boa fase da carreira - fase essa que começou com a indicação ao Oscar por "Pulp fiction" - Travolta tem uma atuação discreta como Jan Schlichtmann, um advogado bem-sucedido de Boston que vê cair em suas mãos um caso que pode lhe dar fama e dinheiro: oito famílias o procuram com o objetivo de processar um curtume responsável por poluir um rio que lhes proporciona a água potável que consomem. Dessas famílias, crianças morreram de leucemia e, através de uma das mães, Anne Anderson (Kathleen Quinlan), ele toma contato com todos os problemas causados pela empresa (na figura de seu dono, vivido por um perfeito Dan Hedaya). Indo para os tribunais, Jan enfrenta o advogado Jerome Facher (Robert Duvall) e fica meses a fio em um julgamento complicado que acaba com todo o dinheiro de sua firma. Mesmo falido, ele transforma o caso em uma espécie de obsessão.


O roteiro, escrito pelo próprio Zaillian, foge como o diabo da cruz das armadilhas de transformar o filme em um drama lacrimoso - assim como o fez Francis Ford Coppola em "O homem que fazia chover" - e prefere centrar seu foco nos problemas financeiros de seu protagonista, mais um exemplar de personagem que sofre uma transformação ética no decorrer do processo. John Travolta segura bem a gradual mudança na personalidade de Schlichtmann, nunca ultrapassando os limites da discrição. Seu trabalho encontra eco em William H. Macy (como seu contador) e Kathleen Quinlan, que também se destaca pelo minimalismo, apesar do fato de apenas Robert Duvall ter sido lembrado pelas cerimônias de premiação (o veterano ator chegou a ser indicado ao Oscar). Em um filme que dá mais importância a seus atores do que a qualquer outro quesito, "A qualquer preço" encontra em seu elenco o maior trunfo.

Pecando por evitar maiores reviravoltas ou grandes cenas dramáticas que fazem a glória dos filmes de tribunal, "A qualquer preço" é um programa que agrada aos fãs do gênero justamente por evitar seus maiores clichês. É um tanto longo demais, mas vale uma conferida.

FOOTLOOSE, RITMO LOUCO


FOOTLOOSE, RITMO LOUCO (Footloose, 1984, Paramount Pictures, 107min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Dean Pitchford. Fotografia: Ric Waite. Montagem: Paul Hirsch. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Ron Hobbs/Mary Olivia Swanson. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Marci Liroff. Produção executiva: Daniel Melnick. Produção: Lewis J. Rachmil, Craig Zadan. Elenco: Kevin Bacon, Lori Singer, Dianne Wiest, John Lithgow, Chris Penn, Sarah Jessica Parker. Estreia: 17/02/84

2 indicações ao Oscar: Canção ("Footlose", "Let's hear it for the boy")

Existem situações apresentadas em filmes que parecem tão absurdas que é difícil acreditar que elas realmente aconteceram na vida real. E é mais ou menos isso que acontece quando se assiste a "Footloose, ritmo louco", um dos clássicos absolutos dos anos 80, constantemente reprisado na televisão aberta na década seguinte. Segundo Kenny Loggins, compositor da conhecida canção-tema indicada ao Oscar, os acontecimentos mostrados no filme de Herbert Ross são inspirados em eventos que realmente aconteceram em uma pequena cidade de Oklahoma em 1978, quando um grupo de adolescentes conseguiu acabar com a lei que proibia qualquer tipo de dança nas festas.

Logicamente o roteiro de Dean Pitchford floreia um pouco a história para melhor apetecer à plateia jovem, que lotou sessões de cinema mundo afora e transformou o filme em um sucesso atemporal - há inclusive boatos de uma refilmagem, que Zach Efron dispensou para não ficar marcado como ator de musicais. Mas o fato é que apesar de parecer forçada, a trama é baseada em situações reais e conquista o público independentemente de suas origens veridícas. Kevin Bacon, no papel que lhe rendeu o estrelato aos 24 anos, vive Ren McCormack, que chega, depois do divórcio dos pais, a uma pequena cidade do interior dos EUA. Acostumado com uma vida liberal e quase independente, ele fica chocado com a rigidez das regras impostas por Shaw Moore (John Lithgow), o reverendo da cidade. Seguidas cegamente pela população - mas questionadas ferozmente por sua filha Ariel (Lori Singer) - as leis morais impedem inclusive que os jovens da cidade possam dançar em suas festas. Apaixonado por Ariel, Ren resolve convencer seus colegas a exigir uma festa de formatura com tudo que eles tem direito - e bate de frente com o líder espiritual do lugar.


Sem pretensões maiores a não ser contar uma história simples e divertida - ainda que critique de forma não muito velada a hipocrisia religiosa e utilize a dança mais uma vez como metáfora para o sexo - o filme de Herbert Ross (diretor do elogiadíssimo "Momento de decisão") seduz justamente por sua falta de ambição. Não há grandes complexidades psicológicas em suas personagens - ainda que os atos do reverendo tenham razões bem justificáveis - e nem mesmo o romance central chega a ser eletrizante (culpa talvez da fraca Lori Singer, que ficou com o papel principal depois da recusa de várias atrizes jovens que começavam no cinema à época). Mas sua trilha sonora vibrante conquista até o mais preguiçoso espectador.

Aliás, é o público fiel que faz de "Footloose" o sucesso que ele é ate hoje. Kevin Bacon, mesmo consagrado por inúmeros outros papéis importantes, ainda é lembrado por seu Ren McCormack (que o diga um engraçadíssimo episódio da extinta série "Will & Grace") e sua coreografia enlouquecida - e ele ficou com o papel apenas porque Tom Cruise estava compromissado com outro filme e Rob Lowe machucou-se antes das filmagens. E seria interessante imaginar como seria o resultado final se o megalomaníaco Michael Cimino tivesse sido o diretor ou qualquer outra atriz fizesse par romântico com Bacon - e aí pode-se escolher entre Daryl Hannah, Melanie Griffith, Michelle Pfeiffer, Jamie Lee Curtis, Meg Ryan, Jennifer Jason-Leigh, Jodie Foster, Brooke Shields, Diane Lane ou Bridget Fonda. Possivelmente qualquer uma seria mais memorável que a apática Lori Singer, que permite, em uma revisão, ser eclipsada pelos coadjuvantes que fizeram carreira - o falecido Chris Penn bem mais magro e a Carrie Bradshaw em pessoa Sarah Jessica Parker em uma partipação pequena.

"Footloose" ainda funciona como sessão de tarde. E sua música-tema ainda levanta qualquer festa saudosista.

sexta-feira

LAÇOS DE TERNURA


LAÇOS DE TERNURA (Terms of endearment, 1983, Paramount Pictures, 132min) Direção: James L. Brooks. Roteiro: James L. Brooks, romance de Larry McMurtry. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem: Richard Marks. Música: Michael Gore. Figurino: Kristi Zea. Direção de arte/cenários: Polly Platt/Anthony Mondell, Tom Pedigo. Casting: Ellen Chenoweth, Juliet Taylor. Produção: James L. Brooks. Elenco: Shirley MacLaine, Debra Winger, Jack Nicholson, Jeff Daniels, John Lithgow, Danny De Vito. Estreia: 20/11/83

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (James L. Brooks), Atriz (Shirley MacLaine, Debra Winger), Ator Coadjuvante (John Lithgow, Jack Nicholson), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora, Direção de arte, Som
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (James L. Brooks), Atriz (Shirley MacLaine), Ator Coadjuvante (Jack Nicholson), Roteiro Adaptado
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Atriz/Drama (Shirley MacLaine), Ator Coadjuvante (Jack Nicholson), Roteiro


Poucos filmes são capazes de fazer rir e chorar com a mesma facilidade. E ainda menos filmes conseguem retratar seres humanos como eles são, com falhas de caráter e mesmo assim adoráveis, com rígidas normas morais e ainda assim capazes de atos condenáveis aos olhos alheios. Talvez por isso “Laços de ternura” tenha feito tanto sucesso e emocionado tanta gente. Ao dar vida aos personagens criados por Larry McMurtry em seu romance homônimo, o roteirista e diretor James L. Brooks fez deles tão humanos quanto os vizinhos. Em uma época de filmes tão fora da realidade quanto “O retorno de Jedi”, a história de amor e quase ódio entre mãe e filha foi um oásis de inteligência e sensibilidade.

Em uma atuação brilhante premiada com o Oscar, a veterana Shirley MacLaine vive Aurora Greenway, uma viúva autoritária que tem sérios problemas com sua única filha, a rebelde Emma (Debra Winger). Quando Emma resolve se casar com o professor universitário Flap (Jeff Daniels), o relacionamento entre elas, que nunca foi dos melhores, fica ainda pior. Enquanto Aurora se envolve aos poucos com seu vizinho, o sedutor ex-astronauta Garrett Breedlove (Jack Nicholson, em mais uma de suas irrepreensíveis atuações), Emma entra em crise em seu casamento, envolve-se com outro homem e descobre ter câncer.


Os direitos do romance de Larry McMurtry foram comprados pela atriz Jennifer Jones, que pensava em interpretar Aurora, com Sissy Spacek no papel de Emma. As mudanças no elenco, no entanto, não poderiam ter sido mais certeiras. Apesar de estar no auge de seu vício em cocaína - e que a levava a constantes brigas com MacLaine - Debra Winger entrega uma atuação comovente e delicada como uma mulher aprisionada em uma vida doméstica insatisfatória que busca refúgio em uma relação extra-conjugal. Indicada ao Oscar de melhor atriz, Winger herdou o papel depois da recusa de Jodie Foster - que preferiu continuar estudando, à época - e está inesquecível principalmente em suas cenas finais, onde sua personagem se despede dos filhos. Difícil segurar as lágrimas.

Mas talvez o maior mérito de “Laços de ternura” seja o de equilibrar brilhantemente o humor e o drama. O terço inicial do filme tem estrutura de uma leve comédia familiar, que aos poucos vai tornando-se um drama sentimental e quase piegas. Nas mãos de atores menos competentes e experientes provavelmente o filme descambaria para um novelão. No entanto, Brooks tem a seu favor um elenco impecável e em dias inspirados. Como mãe e filha, Shirley MacLaine e Debra Winger formam uma dupla de ouro, capazes de passar suas emoções com veracidade e naturalidade. Coadjuvadas por Jack Nicholson (com uma personagem criada especialmente para o filme)e com um texto enxuto e bem escrito para trabalhar em cima não tinha como dar errado. Pode ser choroso, sentimentalóide e até exagerado, mas “Laços de ternura” é provavelmente um dos filmes mais honestos a respeito do relacionamento entre mãe e filha já feitos até hoje. E deu a Shirley MacLaine a oportunidade máxima de sua carreira, merecidamente premiada com um Oscar.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...