SANGUE PELA GLÓRIA (Bleed for this, 2016, Verdi Productions, 117min) Direção: Ben Younger. Roteiro: Ben Younger, estória de Ben Younger, Pippa Bianco, Angelo Pizzo. Fotografia: Larkin Seiple. Montagem: Zachary Stuart-Pontier. Música: Julia Holter. Figurino: Melissa Vargas. Direção de arte/cenários: Kay Lee/Kim Leoleis. Produção executiva: David Gendron, Michael Hansen, Myles Nestel, Joshua Sason, Martin Scorsese, Michelle Verdi, Lisa Wilson. Produção: Bruce Cohen, Noah Kraft, Pamela Thur, Emma Tillinger Koskoff, Chad A. Verdi, Ben Younger. Elenco: Miles Teller, Aaron Eckhart, Ciarán Hinds, Katey Sagal, Ted Levine, Amanda Clayton. Estreia: 02/9/16 (Festival de Teluride)
Em 2005, o diretor Ben Younger lançou a comédia romântica "Terapia do amor", estrelada por Meryl Streep e Uma Thurman - que revelava um senso de humor inteligente e com altas doses de realismo. Demorou, no entanto, mais de dez anos para que o cineasta voltasse para trás das câmeras - e surpreendentemente, com um filme radicalmente diferente do anterior. Uma história real, dramática e inspiradora, "Sangue pela glória" pode não ser exatamente original, revolucionário ou mesmo marcante, mas, realizado pela mísera quantia de seis milhões de dólares e filmado em meros 24 dias (segundo o próprio Younger), é uma produção honesta e simpática, valorizada pela atuação de Miles Teller, um jovem ator em ascensão que demonstra comprometimento e dedicação a cada novo trabalho. Assumindo de corpo e alma o protagonismo de uma história tão inacreditável quanto emocionante, Teller demonstra segurança necessária para tornar críveis mesmo algumas reviravoltas que, em mãos menos competentes, poderiam soar totalmente inverossímeis - apesar de terem realmente acontecido.
Parte de uma série de filmes que inclui os já clássicos "Rocky, um lutador" (1976), "Touro indomável" (1980) e "Menina de ouro" (2004), "Sangue pela glória" nem de longe tenta ser ousado em sua narrativa, seja ela visual ou verbal. O roteiro - escrito pelo próprio diretor - é simples, linear e sem grandes arroubos de criatividade, preferindo manter seu diálogo direto com a plateia ao invés de buscar artifícios modernosos. A edição segue a mesma ideia, assim como a fotografia naturalista, que evita filtros e efeitos para concentrar-se no desenvolvimento da trama: tudo no filme segue a mesma linha de extrema discrição, o que é uma espécie de alento em uma época em que qualquer produção sonha em ser épica. No entanto, essa sutileza em excesso também acaba por prejudicar um pouco o resultado final: por mais talentoso que Teller seja, por mais dramática que seja a história contada, sua conexão sentimental com a plateia não é tão satisfatória quanto poderia: ao abdicar de grandiosidade, Younger também opta por fugir do sentimentalismo - por consequência, impede uma maior empatia do público com seu personagem central.
Vinny Pazienza é um jovem lutador de boxe, talentoso e quase arrogante, que se dedica ao esporte com a mesma intensidade com que costuma apostar em cassinos e desafiar campeões de sua categoria. No auge de sua ascensão profissional, no início da década de 90, ele sofre um violento acidente de carro e, em consequência disso, vê ameaçada até mesmo a possibilidade de voltar a andar. Depois de passar por um doloroso e sacrificante tratamento, porém, Vinny resolve provar a todos que é capaz não apenas de caminhar novamente, mas de voltar aos ringues. Com a ajuda de seu treinador, Kevin Rooney (Aaron Eckhart), o rapaz desafia o próprio destino e surpreende a família, os amigos e o público ao anunciar que está pronto para voltar ao boxe - em uma categoria superior àquela de antes do acidente. Seu pai, Angelo (Ciarán Hinds), a princípio temeroso dos resultados da quase irresponsabilidade do filho, acaba por ser de crucial importância para sua autoconfiança - que inspira todos à sua volta.
Quem assistir à "Sangue pela glória" procurando por um grande filme, inesquecível e intenso, certamente irá se decepcionar, uma vez que o roteiro apresenta todos os clichês possíveis do gênero (herói sofredor que dá a volta por cima, o treinamento desgastante, o treinador compreensivo, o clímax final). Porém, quem buscar um entretenimento rápido e competente dentro de suas limitações, irá encontrar nele uma pequena pérola. Miles Teller tem carisma o bastante para conquistar o espectador, Aaron Eckhart está irreconhecível como Rooney, as cenas de luta são dirigidas com cuidado e em nenhum momento a narrativa escorrega no piegas. Não é um marco do cinema, mas tampouco uma produção frouxa e desinteressante: é um daqueles filmes que passam rápido, mas que também desaparecem rapidamente da memória. Mas vale pela volta de Younger, um talento a ser desenvolvido.
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sábado
quarta-feira
DÁLIA NEGRA
DÁLIA NEGRA (The Black Dahlia, 2006, Universal Pictures, 121min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: Josh Friedman, romance de James Ellroy. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Bill Pankow. Música: Mark Isham. Figurino: Jenny Beavan. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/Elli Griff. Produção executiva: Boaz Davidson, Rolf Deyhle, Danny Dimbort, James B. Harris, Henrik Huydts, Josef Lautenschlager, Trevor Short, Andreas Thiesmeyer, John Thompson. Produção: Rudy Cohen, Moshe Diamant, Avi Lerner, Art Linson. Elenco: Josh Hartnett, Aaron Eckhart, Scarlett Johansson, Hilary Swank, Mia Kirschner, Mike Starr, Fiona Shaw, Patrick Fishler. Estreia: 30/8/06 (Festival de Veneza)
Indicado ao Oscar de Fotografia
Em 1997, o filme "Los Angeles, cidade proibida" deixou de quatro a indústria cinematográfica, o público, a crítica e até a Academia - que lhe deu dois Oscar e só não foi além porque um tal "Titanic" estava fazendo estragos na bilheteria e no coração dos espectadores. Baseado em um extenso e complexo romance policial de James Ellroy ambientado na terra do cinema nos dourados anos 50, o filme de Curtis Hanson estabeleceu um novo parâmetro para o gênero noir, lançou a carreira de Russell Crowe, mostrou que Kim Basinger poderia ser convincente como atriz e, de quebra, surpreendeu a plateia com uma trama intrincada, repleta de personagens fascinantes e um desfecho mais do que satisfatório. Quase uma década depois, Brian De Palma - um cineasta propenso tanto a obras geniais como "Os intocáveis" quanto a bombas homéricas como "Olhos de serpente" - tentou repetir o feito com "Dália negra". A fórmula era quase a mesma: um livro de Ellroy, dois policiais machões liderando a investigação de um assassinato (que aconteceu na vida real), mulheres fatais, corrupção policial e um período histórico mais do que apropriado a todos esses elementos (a dura, porém romântica, década de 40). Por que é, então, que, ao contrário da obra de Hanson, "Dália negra" resultou em um filme tão, mas tão ruim?
Na verdade, várias respostas podem ser dadas - e todas elas estarão certas. Aqueles que culparem a escolha de Josh Hartnett para liderar o elenco no papel crucial do jovem policial e boxeador Bucky Bleichert, não poder ter mais razão, já que Hartnett nunca apresentou sequer uma atuação decente na carreira - e não faz diferente no filme de DePalma, com uma interpretação pífia e risível, que jamais permite ao espectador envolver-se nos dramas de seu personagem. A parcela que apontar os dedos para o equívoco da escalação de Hilary Swank para o crucial papel da femme fatale Madeleine Linscott terão carradas de razão - boa atriz ela é, mas totalmente inadequada como uma socialite sexualmente voraz (e que o roteiro insiste em dizer que é parecida com a personagem-título, vivida por Mia Kirschner, uma atriz sem semelhança física alguma com ela). Até mesmo os mais gentis, que podem questionar a necessidade de Scarlett Johansson de tentar ser sexy em toda e qualquer cena - mesmo que ela a principio não peça tal característica - não estão errados, principalmente quando se sabe que, posteriormente, Johansson exploraria esse seu discutível talento em absolutamente todos os filmes que fez. Mas, mesmo com todos esses defeitos gritando diante da audiência, o que há de mais fatal nas pretensões de "Dália negra" em ser um filme memorável positivamente é seu roteiro: sem a inteligência de Curtis Hanson e Brian Elgeland de enxugar a trama, modificar o que deveria e não confundir o foco da narrativa, Josh Friedman (também autor da versão spielberguiana de "Guerra dos mundos") entregou a De Palma uma obra sem personalidade, confusa, sem um centro narrativo e, mal dos mares, chata de doer.
Restou ao cineasta o desafio de transformar a mixórdia de Friedman em um filme minimamente interessante, coisa que nem mesmo suas décadas de experiência foram suficientes para lhe ajudar. Tudo bem, DePalma ainda deve ser aplaudido por algumas sequências visualmente empolgantes - duas, para ser mais exato - mas sempre que tenta sair de sua zona de conforto e buscar um algo a mais em termos dramáticos, esbarra em uma trama mal costurada que tenta dar conta de várias histórias e termina por não ser bem-sucedida em nenhuma delas. Nem mesmo a presença do competente Aaron Eckhart é o bastante, já que nem mesmo o melhor ator do mundo seria capaz de consertar tantos erros juntos - que conseguem contaminar até a normalmente eficiente Fiona Shaw, que, na pele da mãe de Hilary Swank na tela, protagoniza uma das cenas mais constrangedoras de sua carreira. É de se pensar - e suspirar tristemente - nas misérias que David Fincher faria à frente do projeto que, sim, esteve em suas mãos, mas do qual desistiu depois de perceber que suas ideias (um longa em preto-e-branco com três horas de duração) jamais conseguiriam ser aceitas pelo estúdio - que deve ter ficado extremamente arrependido com o fato, já que gastou 50 milhões de dólares em um filme que, merecidamente, não rendeu nem metade disso nas bilheterias.
Mas, afinal, qual é a história de "Dália negra"? A princípio - e a julgar pelo título - poderia-se dizer que é a investigação da polícia de Los Angeles do brutal assassinato de uma jovem aspirante a atriz, morta em 1947 e jogada com o corpo partido ao meio em um terreno baldio da cidade. Porém, no filme, tal investigação (de um crime real, cujos culpados - um dos quais matou também a mãe do escritor Jams Ellroy - só foram descobertos em 2003) é apenas incidental: o roteiro concentra-se principalmente no quadrilátero amoroso formado pelos policiais Bucky Bleichert (Josh Hartnett e sua total falta de talento) e Lee Blanchard (Aaron Eckhart, o melhor do elenco), a jovem Kay Lake (Scarlett Johansson com seus tiques habituais) e a misteriosa socialite Madeleine Linscott (Hilary Swank, totalmente fora de tom). Esses quatro personagens são a base do roteiro de Friedman, mas não conseguem sustentar sua esquizofrenia generalizada - eles entram e saem de cena sem a menor sintonia e sem propósito aparente, em cenas que soam extremamente aleatórias. Restam apenas a atmosfera bem criada pela fotografia do veterano Vilmos Zsigmond (indicada ao Oscar) e a reconstituição de época cuidadosa. Muito pouco para um filme que tinha grandes ambições. Uma pena.
Indicado ao Oscar de Fotografia
Em 1997, o filme "Los Angeles, cidade proibida" deixou de quatro a indústria cinematográfica, o público, a crítica e até a Academia - que lhe deu dois Oscar e só não foi além porque um tal "Titanic" estava fazendo estragos na bilheteria e no coração dos espectadores. Baseado em um extenso e complexo romance policial de James Ellroy ambientado na terra do cinema nos dourados anos 50, o filme de Curtis Hanson estabeleceu um novo parâmetro para o gênero noir, lançou a carreira de Russell Crowe, mostrou que Kim Basinger poderia ser convincente como atriz e, de quebra, surpreendeu a plateia com uma trama intrincada, repleta de personagens fascinantes e um desfecho mais do que satisfatório. Quase uma década depois, Brian De Palma - um cineasta propenso tanto a obras geniais como "Os intocáveis" quanto a bombas homéricas como "Olhos de serpente" - tentou repetir o feito com "Dália negra". A fórmula era quase a mesma: um livro de Ellroy, dois policiais machões liderando a investigação de um assassinato (que aconteceu na vida real), mulheres fatais, corrupção policial e um período histórico mais do que apropriado a todos esses elementos (a dura, porém romântica, década de 40). Por que é, então, que, ao contrário da obra de Hanson, "Dália negra" resultou em um filme tão, mas tão ruim?
Na verdade, várias respostas podem ser dadas - e todas elas estarão certas. Aqueles que culparem a escolha de Josh Hartnett para liderar o elenco no papel crucial do jovem policial e boxeador Bucky Bleichert, não poder ter mais razão, já que Hartnett nunca apresentou sequer uma atuação decente na carreira - e não faz diferente no filme de DePalma, com uma interpretação pífia e risível, que jamais permite ao espectador envolver-se nos dramas de seu personagem. A parcela que apontar os dedos para o equívoco da escalação de Hilary Swank para o crucial papel da femme fatale Madeleine Linscott terão carradas de razão - boa atriz ela é, mas totalmente inadequada como uma socialite sexualmente voraz (e que o roteiro insiste em dizer que é parecida com a personagem-título, vivida por Mia Kirschner, uma atriz sem semelhança física alguma com ela). Até mesmo os mais gentis, que podem questionar a necessidade de Scarlett Johansson de tentar ser sexy em toda e qualquer cena - mesmo que ela a principio não peça tal característica - não estão errados, principalmente quando se sabe que, posteriormente, Johansson exploraria esse seu discutível talento em absolutamente todos os filmes que fez. Mas, mesmo com todos esses defeitos gritando diante da audiência, o que há de mais fatal nas pretensões de "Dália negra" em ser um filme memorável positivamente é seu roteiro: sem a inteligência de Curtis Hanson e Brian Elgeland de enxugar a trama, modificar o que deveria e não confundir o foco da narrativa, Josh Friedman (também autor da versão spielberguiana de "Guerra dos mundos") entregou a De Palma uma obra sem personalidade, confusa, sem um centro narrativo e, mal dos mares, chata de doer.
Restou ao cineasta o desafio de transformar a mixórdia de Friedman em um filme minimamente interessante, coisa que nem mesmo suas décadas de experiência foram suficientes para lhe ajudar. Tudo bem, DePalma ainda deve ser aplaudido por algumas sequências visualmente empolgantes - duas, para ser mais exato - mas sempre que tenta sair de sua zona de conforto e buscar um algo a mais em termos dramáticos, esbarra em uma trama mal costurada que tenta dar conta de várias histórias e termina por não ser bem-sucedida em nenhuma delas. Nem mesmo a presença do competente Aaron Eckhart é o bastante, já que nem mesmo o melhor ator do mundo seria capaz de consertar tantos erros juntos - que conseguem contaminar até a normalmente eficiente Fiona Shaw, que, na pele da mãe de Hilary Swank na tela, protagoniza uma das cenas mais constrangedoras de sua carreira. É de se pensar - e suspirar tristemente - nas misérias que David Fincher faria à frente do projeto que, sim, esteve em suas mãos, mas do qual desistiu depois de perceber que suas ideias (um longa em preto-e-branco com três horas de duração) jamais conseguiriam ser aceitas pelo estúdio - que deve ter ficado extremamente arrependido com o fato, já que gastou 50 milhões de dólares em um filme que, merecidamente, não rendeu nem metade disso nas bilheterias.
Mas, afinal, qual é a história de "Dália negra"? A princípio - e a julgar pelo título - poderia-se dizer que é a investigação da polícia de Los Angeles do brutal assassinato de uma jovem aspirante a atriz, morta em 1947 e jogada com o corpo partido ao meio em um terreno baldio da cidade. Porém, no filme, tal investigação (de um crime real, cujos culpados - um dos quais matou também a mãe do escritor Jams Ellroy - só foram descobertos em 2003) é apenas incidental: o roteiro concentra-se principalmente no quadrilátero amoroso formado pelos policiais Bucky Bleichert (Josh Hartnett e sua total falta de talento) e Lee Blanchard (Aaron Eckhart, o melhor do elenco), a jovem Kay Lake (Scarlett Johansson com seus tiques habituais) e a misteriosa socialite Madeleine Linscott (Hilary Swank, totalmente fora de tom). Esses quatro personagens são a base do roteiro de Friedman, mas não conseguem sustentar sua esquizofrenia generalizada - eles entram e saem de cena sem a menor sintonia e sem propósito aparente, em cenas que soam extremamente aleatórias. Restam apenas a atmosfera bem criada pela fotografia do veterano Vilmos Zsigmond (indicada ao Oscar) e a reconstituição de época cuidadosa. Muito pouco para um filme que tinha grandes ambições. Uma pena.
terça-feira
REENCONTRANDO A FELICIDADE
REENCONTRANDO A FELICIDADE (Rabbit hole, 2010, Olympus Pictures, 91min) Direção: John Cameron Mitchell. Roteiro: David Lindsay-Abaire, peça teatral de David Lindsay-Abaire. Fotografia: Frank G. DeMarco. Montagem: Joe Klotz. Música: Anton Sanko. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Kalina Ivanov/Diana Salzburg. Produção executiva: William Lischak, Linda McDonough, Brian O'Shea, Dan Revers. Produção: Nicole Kidman, Gigi Pritzker, Per Saari, Leslie Urdang, Dean Vanech. Elenco: Nicole Kidman, Aaron Eckhart, Dianne Wiest, Sandra Oh, Miles Teller. Estreia: 13/9/10 (Festival de Toronto)
Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Nicole Kidman)
Fugindo do sentimentalismo barato e apostando em diálogos crus e realistas – mas nunca carentes de uma alta dose de emoção – o roteiro de “Reencontrando a felicidade” (um título nacional no mínimo equivocado, haja visto que nenhum personagem chega a reencontrar a tal felicidade) foge magistralmente das limitações de sua origem teatral não apenas por oxigenar a claustrofobia que poderia surgir de uma verborragia excessiva mas também por possibilitar à direção de Mitchell um viés mais cinematográfico em termos visuais. Ainda que o cineasta não ouse narrativa ou formalmente, em nenhum momento seu filme se torna um aborrecido exercício de autocompaixão ou masoquismo. Respeitando a força dos personagens de Lindsay-Abaire, o diretor se deixa conduzir por seus dramas sem nunca escorregar no exagero, contornando até mesmo os momentos mais tensos com uma sensibilidade que lembra o cinema europeu, avesso à qualquer tipo de pieguice. Os embates entre Kidman e Eckhart, por exemplo, fogem do tradicional esquema lacrimoso dos filmes do gênero, oferecendo a ambos a chance de exercitar suas maiores qualidades.
Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Nicole Kidman)
É difícil acreditar que o John
Cameron Mitchell que assina o drama “Reencontrando a felicidade” é o mesmo
inquieto e energético cineasta que ficou conhecido internacionalmente com
“Hedwig” – uma festa para os olhos e ouvidos, dotado de um cinismo iconoclasta
devastador e anárquico. Não porque essa adaptação da peça de teatro de David
Lindsay Abaire (feita pelo próprio dramaturgo) seja medíocre ou algo parecido,
mas sim porque é radicalmente diferente do filme de estreia do diretor, tanto
em tom quanto em intenção. Melancólica, recheada de emoções brutas e desprovida
de qualquer senso de humor capaz de amenizar sua força dramática, a história de
um casal tentando superar a imensa dor da perda de um filho ainda criança
revela em Mitchell um cineasta capaz de sair de sua zona de conforto e mesmo
assim atingir a empatia do público – principalmente graças às atuações
milagrosas de seu par de protagonistas, Nicole Kidman e Aaron Eckhart.
Kidman e Eckhart interpretam Becca e
Howie Corbett, um casal jovem, bonito e bem-sucedido que vê sua vida
paradisíaca virar de cabeça para baixo com a violenta morte de seu filho,
atropelado por um carro acima do limite da velocidade dirigido pelo adolescente
(Miles Teller). Oito meses depois da tragédia, eles tentam, cada um à sua
maneira, superar seus sentimentos de dor e desespero: Howie acredita que grupos
de apoio podem lhes ajudar e conta com a ajuda da igualmente traumatizada
Gaby (Sandra Oh) para seguir em frente – mas não consegue deixar de “visitar” o
filho em um vídeo gravado em seu celular. Becca, por sua vez, esconde seus
sentimentos e, vez por outra, extravasa sua revolta em discussões com a família
– a mãe, (Dianne Wiest), que também já perdeu um filho, e a irmã, , que acaba
de descobrir-se grávida. Uma reviravolta acontece em sua vida, porém, quando
ela inicia uma hesitante relação de amizade com o jovem Jason (Miles Teller), consumido pela
culpa do acidente – uma relação que irá por em xeque todos os questionamentos
da enlutada mãe e jogá-la em rota de colisão com o marido.
Fugindo do sentimentalismo barato e apostando em diálogos crus e realistas – mas nunca carentes de uma alta dose de emoção – o roteiro de “Reencontrando a felicidade” (um título nacional no mínimo equivocado, haja visto que nenhum personagem chega a reencontrar a tal felicidade) foge magistralmente das limitações de sua origem teatral não apenas por oxigenar a claustrofobia que poderia surgir de uma verborragia excessiva mas também por possibilitar à direção de Mitchell um viés mais cinematográfico em termos visuais. Ainda que o cineasta não ouse narrativa ou formalmente, em nenhum momento seu filme se torna um aborrecido exercício de autocompaixão ou masoquismo. Respeitando a força dos personagens de Lindsay-Abaire, o diretor se deixa conduzir por seus dramas sem nunca escorregar no exagero, contornando até mesmo os momentos mais tensos com uma sensibilidade que lembra o cinema europeu, avesso à qualquer tipo de pieguice. Os embates entre Kidman e Eckhart, por exemplo, fogem do tradicional esquema lacrimoso dos filmes do gênero, oferecendo a ambos a chance de exercitar suas maiores qualidades.
Eckhart – que já demonstrou talento
para o cinismo desbragado em “Na companhia de homens” (97) e “Obrigado por
fumar” (06) – tem um desempenho acima da média, transmitindo todo o turbilhão
de sentimentos de seu personagem com uma potência dramática ainda não explorada
por Hollywood. Enquanto isso, Kidman volta à sua melhor forma – esquecida
diante de uma série de filmes bem aquém de seu talento – com uma personagem
que, ao contrário do que se poderia esperar, não se resume a lágrimas e
agressões. O vasto espectro de emoções mostrado por Kidman em pouco menos de 90
minutos justifica sua indicação ao Oscar de melhor atriz – que ela perdeu para
Natalie Portman, por “Cisne negro” – e confirma a capacidade de John Cameron
Mitchell de se reinventar e escapar do gueto artístico em que sua bem-sucedida
estreia poderia lhe aprisionar. Contando ainda com atuações preciosas de Dianne
Wiest (com pelo menos duas grandes cenas) e do então desconhecido Miles Teller
(que se consagraria em 2015 com o ótimo “Whiplash, em busca da perfeição”),
“Reencontrando a felicidade” é um palco para seus ótimos atores e mais uma
prova de que um bom texto, uma direção competente e emoções verdadeiras são
ingredientes mais do que suficientes para a realização de um belo e comovente drama
familiar.
segunda-feira
BATMAN, O CAVALEIRO DAS TREVAS
BATMAN, O CAVALEIRO DAS TREVAS (The dark knight, 2008, Warner
Bros, 152min) Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan,
Jonathan Nolan, estória de Christopher Nolan, David S. Goyer,
personagens de Bob Kane. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Lee Smith.
Música: James Newton Howard, Hans Zimmer. Figurino: Lindy Hemming.
Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Peter Lando. Produção
executiva: Kevin de La Noy, Benjamin Melniker, Thomas Tull, Michael E.
Uslan. Produção: Christopher Nolan, Charles Roven, Emma Thomas. Elenco:
Christian Bale, Heath Ledger, Maggie Gyllenhaal, Morgan Freeman, Aaron
Eckhart, Michael Caine, Cillian Murphy, Anthony Michael Hall. Estreia:
14/7/08
8 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Heath Ledger), Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Efeitos Visuais, Maquiagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Heath Ledger), Edição de Som
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Heath Ledger)
Em 2005, o cineasta Christopher Nolan provou a todos que o fracasso dos filmes "Batman eternamente" e "Batman & Robin" eram unicamente culpa da concepção equivocada do diretor Joel Schumacher - que os transformou em ridículas alegorias carnavalescas e aniquilou qualquer complexidade da personagem - do que de um possível desinteresse da plateia por novas aventuras do heroi mascarado. Ao recuperar o tom sombrio da criação de Bob Kane, dando a seu "Batman begins" a seriedade apropriada, o autor de filmes criativos e inteligentes como "Amnésia" e "Insônia" não apenas imprimiu ao trabalho sua assinatura como também conquistou uma nova legião de fãs, deixando de lado a versão cartunesca de Tim Burton e cafona de Schumacher. O melhor na história toda, porém, é que esse primeiro capítulo, a despeito de suas inúmeras qualidades, foi apenas o prelúdio para aquele que Nolan transformaria na mais espetacular adaptação da personagem para as telas em seu segundo capítulo: mais longo, mais anabolizado e nem por isso menos inteligente e empolgante, "Batman: o cavaleiro das trevas" é ainda melhor do que o seu original - e, não à toa, rendeu extraordinários 533 milhões de dólares somente no mercado doméstico, tornando-se uma das maiores bilheterias da história. Nada mais justo e merecido!
Ao contrário da maioria das adaptações de quadrinhos para o cinema, que dão prioridade às cenas de ação e a piadinhas de gosto duvidoso, "Batman: o cavaleiro das trevas" - assim como seu antecessor - leva sua trama a sério, injetando complexidade narrativa e densidade psicológica a seus personagens sem sacrificar aquilo que a plateia mais anseia: sequências de pura adrenalina, filmadas com o melhor que um orçamento milionário pode oferecer (e um diretor de imenso talento como Nolan pode proporcionar). Sendo assim, nem mesmo a longa duração do filme (duas horas e meia) consegue atrapalhar a diversão - equilibrada com maestria pela direção, pelo roteiro impecável e pela escalação extraordinária do elenco (que substituiu acertadamente a chatinha Katie Holmes pela ótima Maggie Gyllenhaal no papel crucial de Rachel Dawes, a amada do heroi mascarado que é a catalisadora do clímax inesperado e sanguinolento do final, capaz de surpreender àqueles que não conhecem de cabo a rabo todas as histórias de Batman nos quadrinhos).
Um dos maiores destaques de "Batman: o cavaleiro das trevas" é, sem sombra de dúvida, a atuação nunca aquém de espetacular de Heath Ledger naquele que seria seu último filme completo - ele ainda foi visto no bizarro "O mundo imaginário do Dr. Parnassus", de Terry Gillian, mas não chegou a finalizar as filmagens, morrendo de overdose de drogas autorizadas em janeiro de 2008. Na pele do doentio Coringa, o jovem ator australiano revelado na comédia adolescente "10 coisas que eu odeio em você" deixa para trás a caracterização clássica de Jack Nicholson no filme de 1989 dirigido por Tim Burton e cria um vilão inesquecível já em sua primeira cena - um assalto a banco que termina em violência e que dá o tom exato da história a ser contada. Usando e abusando de trejeitos que dão a seu personagem uma personalidade única, Ledger tornou-se apenas o segundo ator a receber um Oscar póstumo - depois do veterano Peter Finch, de "Rede de intrigas" - em uma premiação que jamais deve ser creditada à emoção dos eleitores: seu trabalho é fascinante, escapando fácil dos clichês do gênero e atingindo um nível poucas vezes vista em filmes do gênero.
E a história, afinal, qual é? Basta dizer que Batman (mais uma vez interpretado por Christian Bale) continua aterrorizando os criminosos de Gotham City, apesar das dúvidas que circundam suas intenções. Quando um novo promotor público, Harvey Dent (Aron Eckhart) é eleito, Bruce Wayne - para quem não sabe a verdadeira identidade do heroi) - respira aliviado, acreditando que as coisas finalmente começarão a mudar em sua metrópole. Suas esperanças começam a mostrar-se infundadas, porém, quando um misterioso fora-da-lei auto-nomeado Coringa surge, disposto a disseminar o caos e a violência - e enfrentar Batman cara a cara.
Apesar da sinopse soar como mais do mesmo, "Batman: o cavaleiro das trevas" tem um roteiro inteligente, que jamais se deixa cair nas armadilhas fáceis de um blockbuster, buscando, pelo contrário, exigir do espectador mais do que o corriqueiro nos filmes do gênero. Essa sua qualidade acabou despertando polêmicas quando a Academia indicou-lhe a oito estatuetas, mas ignorou-o nas categorias mais importantes, como melhor filme e diretor. A gritaria dos fãs de certa forma incentivou o aumento do número de filmes indicados na categoria principal a partir do ano seguinte - em uma tentativa dos acadêmicos de aproximar o público mais jovem da cerimônia de entrega dos prêmios (e que ainda não se mostrou muito eficaz). O fato, porém, é que o filme de Nolan tinha qualidades suficientes para ser lembrado como um dos melhores de seu ano. Pode não ter sido um grande vencedor do Oscar, mas é, certamente, adorado pelos fãs.
8 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Heath Ledger), Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Efeitos Visuais, Maquiagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Heath Ledger), Edição de Som
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Heath Ledger)
Em 2005, o cineasta Christopher Nolan provou a todos que o fracasso dos filmes "Batman eternamente" e "Batman & Robin" eram unicamente culpa da concepção equivocada do diretor Joel Schumacher - que os transformou em ridículas alegorias carnavalescas e aniquilou qualquer complexidade da personagem - do que de um possível desinteresse da plateia por novas aventuras do heroi mascarado. Ao recuperar o tom sombrio da criação de Bob Kane, dando a seu "Batman begins" a seriedade apropriada, o autor de filmes criativos e inteligentes como "Amnésia" e "Insônia" não apenas imprimiu ao trabalho sua assinatura como também conquistou uma nova legião de fãs, deixando de lado a versão cartunesca de Tim Burton e cafona de Schumacher. O melhor na história toda, porém, é que esse primeiro capítulo, a despeito de suas inúmeras qualidades, foi apenas o prelúdio para aquele que Nolan transformaria na mais espetacular adaptação da personagem para as telas em seu segundo capítulo: mais longo, mais anabolizado e nem por isso menos inteligente e empolgante, "Batman: o cavaleiro das trevas" é ainda melhor do que o seu original - e, não à toa, rendeu extraordinários 533 milhões de dólares somente no mercado doméstico, tornando-se uma das maiores bilheterias da história. Nada mais justo e merecido!
Ao contrário da maioria das adaptações de quadrinhos para o cinema, que dão prioridade às cenas de ação e a piadinhas de gosto duvidoso, "Batman: o cavaleiro das trevas" - assim como seu antecessor - leva sua trama a sério, injetando complexidade narrativa e densidade psicológica a seus personagens sem sacrificar aquilo que a plateia mais anseia: sequências de pura adrenalina, filmadas com o melhor que um orçamento milionário pode oferecer (e um diretor de imenso talento como Nolan pode proporcionar). Sendo assim, nem mesmo a longa duração do filme (duas horas e meia) consegue atrapalhar a diversão - equilibrada com maestria pela direção, pelo roteiro impecável e pela escalação extraordinária do elenco (que substituiu acertadamente a chatinha Katie Holmes pela ótima Maggie Gyllenhaal no papel crucial de Rachel Dawes, a amada do heroi mascarado que é a catalisadora do clímax inesperado e sanguinolento do final, capaz de surpreender àqueles que não conhecem de cabo a rabo todas as histórias de Batman nos quadrinhos).
Um dos maiores destaques de "Batman: o cavaleiro das trevas" é, sem sombra de dúvida, a atuação nunca aquém de espetacular de Heath Ledger naquele que seria seu último filme completo - ele ainda foi visto no bizarro "O mundo imaginário do Dr. Parnassus", de Terry Gillian, mas não chegou a finalizar as filmagens, morrendo de overdose de drogas autorizadas em janeiro de 2008. Na pele do doentio Coringa, o jovem ator australiano revelado na comédia adolescente "10 coisas que eu odeio em você" deixa para trás a caracterização clássica de Jack Nicholson no filme de 1989 dirigido por Tim Burton e cria um vilão inesquecível já em sua primeira cena - um assalto a banco que termina em violência e que dá o tom exato da história a ser contada. Usando e abusando de trejeitos que dão a seu personagem uma personalidade única, Ledger tornou-se apenas o segundo ator a receber um Oscar póstumo - depois do veterano Peter Finch, de "Rede de intrigas" - em uma premiação que jamais deve ser creditada à emoção dos eleitores: seu trabalho é fascinante, escapando fácil dos clichês do gênero e atingindo um nível poucas vezes vista em filmes do gênero.
E a história, afinal, qual é? Basta dizer que Batman (mais uma vez interpretado por Christian Bale) continua aterrorizando os criminosos de Gotham City, apesar das dúvidas que circundam suas intenções. Quando um novo promotor público, Harvey Dent (Aron Eckhart) é eleito, Bruce Wayne - para quem não sabe a verdadeira identidade do heroi) - respira aliviado, acreditando que as coisas finalmente começarão a mudar em sua metrópole. Suas esperanças começam a mostrar-se infundadas, porém, quando um misterioso fora-da-lei auto-nomeado Coringa surge, disposto a disseminar o caos e a violência - e enfrentar Batman cara a cara.
Apesar da sinopse soar como mais do mesmo, "Batman: o cavaleiro das trevas" tem um roteiro inteligente, que jamais se deixa cair nas armadilhas fáceis de um blockbuster, buscando, pelo contrário, exigir do espectador mais do que o corriqueiro nos filmes do gênero. Essa sua qualidade acabou despertando polêmicas quando a Academia indicou-lhe a oito estatuetas, mas ignorou-o nas categorias mais importantes, como melhor filme e diretor. A gritaria dos fãs de certa forma incentivou o aumento do número de filmes indicados na categoria principal a partir do ano seguinte - em uma tentativa dos acadêmicos de aproximar o público mais jovem da cerimônia de entrega dos prêmios (e que ainda não se mostrou muito eficaz). O fato, porém, é que o filme de Nolan tinha qualidades suficientes para ser lembrado como um dos melhores de seu ano. Pode não ter sido um grande vencedor do Oscar, mas é, certamente, adorado pelos fãs.
OBRIGADO POR FUMAR
OBRIGADO POR FUMAR (Thank you for smoking, 2005, Room 9 Entertainment, 92min) Direção: Jason Reitman. Roteiro: Jason Reitman, romance de Christopher Buckley. Fotografia: James Whitaker. Montagem: Dana E. Glauberman. Música: Rolfe Kent. Figurino: Danny Glicker. Direção de arte/cenários: Steve Saklad/Kurt Meisenbach. Produção executiva: Michael Beugg, Alessandro Camon, Max Levchin, Elon Musk, Edward R. Pressman, John Schmidt, Peter Thiel, Mark Woolway. Produção: David O. Sacks. Elenco: Aaron Eckhart, Katie Holmes, Maria Bello, Cameron Bright, Robert Duvall, Todd Louiso, J.K. Simmons, Kim Dickens, William H. Macy, Sam Elliot, Adam Brody, Rob Lowe, Melora Hardin. Estreia: 09/9/05 (Festival de Toronto)
Em uma época tão ridiculamente apegada a uma risível onda de correção política não deixa de ser um motivo de grandes comemorações que um filme como "Obrigado por fumar" tenha chegado às telas. Cínico, debochado e sardônico, o filme de estreia do cineasta Jason Reitman - filho do diretor Ivan e que se tornaria queridinho da crítica com seu filme seguinte, o hypado e inferior "Juno" - é um tapa na cara das convenções sociais dos EUA do início do século XXI, ao eleger como seu protagonista um anti-herói desprovido de moralidade e ética e que, apesar disso (ou talvez até mesmo por causa disso) é total e absolutamente carismático. Interpretado por um Aaron Eckhart mais à vontade do que nunca, Nick Naylor, lobista da indústria tabagista americana, é provavelmente uma das personagens mais interessantes a surgir na comédia ianque em muito tempo.
Criado pelo escritor Christopher Buckley no livro que deu origem ao filme, Naylor é o vice-presidente da Academia dos Estudos do Tabaco e, como tal, é um aguerrido defensor de seu produto, o que o torna de cara uma persona non grata por uma parcela do Congresso americano, em especial o senador Ortolan Finistirre (William H. Macy, ótimo), que propõe que todo e qualquer maço de cigarro seja vendido com a imagem mundial de veneno (uma caveira com dois ossos cruzados). Sendo constantemente agredido pela patrulha politicamente correta, Naylor ainda precisa lidar com a possibilidade de seu único filho, Joey (Cameron Bright) desprezar seu trabalho. Para evitar isso - e desafiar a ex-mulher - ele resolve então levar o menino em uma viagem a negócios, onde lhe mostrará o outro lado de seu emprego. Nesse meio tempo - que envolve uma viagem a produtores de Hollywood e a um ex-garoto propaganda que está morrendo de câncer de pulmão - ele ainda se envolverá com uma ambiciosa repórter, Heather Holloway (Katie Holmes), cuja maior intenção é fazer com ele uma reportagem pouco amável.

O maior mérito de "Obrigado por fumar" - além da veia cafajeste de Eckhart voltar a aflorar depois do polêmico "Na companhia de homens" - é o roteiro esperto de Reitman, que esbanja sarcasmo e tiradas engraçadíssimas a respeito do american way of life. São particularmente inspirados os diálogos que incluem Naylor e seus melhores amigos - auto-denonimados como os Mercadores da Morte - que representam as indústrias de arma e álcool e ficam disputando quem é o recordista de óbitos no país. A visita do protagonista ao executivo de cinema vivido por Rob Lowe também é hilariante - dando um vislumbre de como são as reuniões que resultam em filmes já originados como bombas - e nem mesmo o que em tese deveria ser levado a sério - a doença do símbolo da masculinidade imposta pelo cigarro (em uma atuação inspirada de Sam Elliott) - é retratado com sobriedade. E justamente essa coragem em não se deixar contaminar pelo corriqueiro é que eleva o filme de Reitman a um nível superior às comédias que emburrecem o espectador.
No fim das contas, "Obrigado por fumar" é uma comédia das mais inteligentes produzidas no cinema americano em muito tempo. Não arranca gargalhadas histéricas, mas mexe com o cérebro e com a percecpção da audiência a respeito de um assunto que já foi tratado anteriormente com seriedade e contundência no ótimo "O informante". Assistir aos dois na corrida provavelmente seria muito mais útil do que muitos comerciais apelativos transmitidos pela TV.
Em uma época tão ridiculamente apegada a uma risível onda de correção política não deixa de ser um motivo de grandes comemorações que um filme como "Obrigado por fumar" tenha chegado às telas. Cínico, debochado e sardônico, o filme de estreia do cineasta Jason Reitman - filho do diretor Ivan e que se tornaria queridinho da crítica com seu filme seguinte, o hypado e inferior "Juno" - é um tapa na cara das convenções sociais dos EUA do início do século XXI, ao eleger como seu protagonista um anti-herói desprovido de moralidade e ética e que, apesar disso (ou talvez até mesmo por causa disso) é total e absolutamente carismático. Interpretado por um Aaron Eckhart mais à vontade do que nunca, Nick Naylor, lobista da indústria tabagista americana, é provavelmente uma das personagens mais interessantes a surgir na comédia ianque em muito tempo.
Criado pelo escritor Christopher Buckley no livro que deu origem ao filme, Naylor é o vice-presidente da Academia dos Estudos do Tabaco e, como tal, é um aguerrido defensor de seu produto, o que o torna de cara uma persona non grata por uma parcela do Congresso americano, em especial o senador Ortolan Finistirre (William H. Macy, ótimo), que propõe que todo e qualquer maço de cigarro seja vendido com a imagem mundial de veneno (uma caveira com dois ossos cruzados). Sendo constantemente agredido pela patrulha politicamente correta, Naylor ainda precisa lidar com a possibilidade de seu único filho, Joey (Cameron Bright) desprezar seu trabalho. Para evitar isso - e desafiar a ex-mulher - ele resolve então levar o menino em uma viagem a negócios, onde lhe mostrará o outro lado de seu emprego. Nesse meio tempo - que envolve uma viagem a produtores de Hollywood e a um ex-garoto propaganda que está morrendo de câncer de pulmão - ele ainda se envolverá com uma ambiciosa repórter, Heather Holloway (Katie Holmes), cuja maior intenção é fazer com ele uma reportagem pouco amável.
O maior mérito de "Obrigado por fumar" - além da veia cafajeste de Eckhart voltar a aflorar depois do polêmico "Na companhia de homens" - é o roteiro esperto de Reitman, que esbanja sarcasmo e tiradas engraçadíssimas a respeito do american way of life. São particularmente inspirados os diálogos que incluem Naylor e seus melhores amigos - auto-denonimados como os Mercadores da Morte - que representam as indústrias de arma e álcool e ficam disputando quem é o recordista de óbitos no país. A visita do protagonista ao executivo de cinema vivido por Rob Lowe também é hilariante - dando um vislumbre de como são as reuniões que resultam em filmes já originados como bombas - e nem mesmo o que em tese deveria ser levado a sério - a doença do símbolo da masculinidade imposta pelo cigarro (em uma atuação inspirada de Sam Elliott) - é retratado com sobriedade. E justamente essa coragem em não se deixar contaminar pelo corriqueiro é que eleva o filme de Reitman a um nível superior às comédias que emburrecem o espectador.
No fim das contas, "Obrigado por fumar" é uma comédia das mais inteligentes produzidas no cinema americano em muito tempo. Não arranca gargalhadas histéricas, mas mexe com o cérebro e com a percecpção da audiência a respeito de um assunto que já foi tratado anteriormente com seriedade e contundência no ótimo "O informante". Assistir aos dois na corrida provavelmente seria muito mais útil do que muitos comerciais apelativos transmitidos pela TV.
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