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segunda-feira

W.

W. (W., 2008, Lionsgate, 129min) Direção: Oliver Stone. Stanley Weiser. Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: Alexis Chavez, Joe Hutsching, Julie Monroe. Música: Paul Cantelon. Figurino: Direção de arte/cenários: Derek R. Hill/Mel Cooper. Produção executiva: Teresa Cheung, Elliot Ferwerda, Peter Graves, Johnny Honn, Christopher Mapp, Tom Ortenberg, Thomas Stertchi, Matthew Street, David Whealey, Albert Yeung. Produção: Bill Block, Moritz Borman, Paul Hanson, Eric Kopeloff. Elenco: Josh Brolin, James Cromwell, Richard Dreyfuss, Elizabeth Banks, Ellen Burstyn, Scott Glenn, Jeffrey Wright, Thandie Newton, Toby Jones, Jason Ritter, Noah Whyle, Ioan Gruffudd, Jesse Bradford. Elenco: 16/8/08 (Festival de Austin)


Levando-se em conta as simpatias democratas de Oliver Stone e sua falta de meias-palavras quando o assunto é política, não deixa de ser surpreendente o quanto “W.”, sua cinebiografia do presidente norte-americano George W. Bush, é relativamente suave e quase benevolente em relação ao protagonista. Tudo bem que o próprio cineasta já havia relutado em contar sua trajetória tão prematuramente – em 2004 ele mesmo declarou que ainda era muito cedo para perspectivas históricas sobre o então candidato à reeleição -, mas nada fazia prever que seu filme fugiria de maiores polêmicas, principalmente quando se trata do autor de obras tão inflamáveis quanto “JFK” (91) e “Assassinos por natureza” (94), que despertaram furor na crítica e no público. Contado de forma a não utilizar os artifícios narrativos comuns à filmografia de Stone, “W.” é uma biografia convencional, acadêmica e, por vezes, bastante tediosa. Nem de longe lembra os melhores momentos do diretor – ainda que conte com uma atuação surpreendente de Josh Brolin no papel central.

Substituindo Christian Bale – que abandonou o projeto pouco antes do começo das filmagens -, Brolin aproveitou-se de uma ótima fase de sua então renascida carreira para ser escolhido por Stone para viver Bush. Vindo dos sucessos de crítica “O gânster” e “Onde os fracos não tem vez” (ambos de 2007), o outrora astro juvenil demonstra segurança ímpar em dar vida a um personagem ambíguo, complexo e pouco carismático, mas que assumiu importância absoluta no comando dos EUA por dois mandatos consecutivos – e protagonizou algumas das passagens mais sombrias da história do país, como o atentado às Torres Gêmeas e a guerra a Saddam Hussein. Não necessariamente parecido fisicamente com Bush, o ator incorpora o personagem em sotaque, expressão corporal e maneirismos sutis – e brilha sempre que o roteiro lhe permite. Tem mais sorte que o restante do (vasto e conhecido) elenco, que parece estar em cena apenas como meros figurantes: apenas James Cromwell como George Bush pai tem chances de mostrar serviço, enquanto nomes como Ellen Burstyn (como Barbara Bush), Thandie Newton (Condoleeza Rice) e Richard Dreyfuss (o vice-presidente Dick Cheney) soam perdidos em meio à edição vai-e-volta (único resquício do velho Oliver Stone): Dreyfuss, inclusive, teve sérios problemas com o cineasta e nenhum deles parece disposto a repetir a parceria – talvez a primeira opção para o papel, Robert Duvall, fosse menos complicada para a produção.



Se em “Nixon” (95) o foco de Oliver Stone foi, como se poderia esperar, o escândalo Watergate (que servia como ponto de convergência para uma narrativa fora de ordem cronológica), em “W.” o cineasta escolhe como ponto de partida a crise estabelecida pelo trauma pós-11 de setembro, quando Bush se vê obrigado a lidar com a ameaça terrorista em pleno solo pátrio – e responder à altura de um líder de sua importância. O presidente precisa tomar a atitude certa, não apenas para demonstrar seu controle sobre a situação, mas também para conquistar o que mais lhe importa na vida: o aplauso de seu próprio pai. É essa odisseia de Bush – a busca pela aprovação e respeito paterno – a base do roteiro de Stanley Weiser: mais do que esmiuçar os bastidores da política americana, o filme de Oliver Stone investiga (sem maior profundidade, mas com respeito e sensibilidade quase inesperadas) a carência de seu protagonista e sua necessidade quase doentia de provar-se capaz aos olhos do pai. Por ele, o jovem Bush é capaz de abandonar a vida no Texas e partir rumo a Washington com a esposa, Laura (Elizabeth Banks), para ajudar em sua campanha para presidente – mas nem ele é motivo suficiente para demover o ambicioso político a desistir da candidatura a governador, alguns anos mais tarde. Essa dubiedade entre a vontade de agradar ao pai e a ambição de ascender ao poder é um dos pontos mais interessantes da trama, e é sublinhada por algumas belas tomadas de Bush flertando com seu sonho de tornar-se jogador de beisebol. Infelizmente o roteiro não se aprofunda nessa questão e nem tampouco em sua relação com Jeb (Jason Ritter), seu irmão caçula e principal responsável por sua imagem quase patética diante do pai. Quando juntos em cena, Josh Brolin e James Cromwell estão impecáveis, mas Stone perde a oportunidade de explorar com mais ênfase a relação entre os dois, sugerindo bem mais do que mostrando.

É impossível negar que “W.” é um produto com tudo de melhor que Hollywood pode oferecer: da fotografia inspirada de Phedon Papamichael à trilha sonora de Paul Cantelon, tudo funciona como deveria, todas as peças estão no devido lugar. O problema, para choque de todos, é justamente o que poderia ser maior trunfo: a direção de Oliver Stone. A quilômetros de distância de seus momentos mais provocativos, Stone parece estar no piloto automático, sem a contundência habitual ou até mesmo a ferocidade em questionar uma das personalidades mais controversas de sua geração. Não à toa, o filme passou em brancas nuvens tanto nas bilheterias quanto nas cerimônias de premiação, uma situação pouco comum na carreira do cineasta. Fica a impressão de um filme que tinha tudo para marcar época, mas que teve medo de explorar todas a sua potencialidade. Ainda que não seja ruim, é muito pouco perto do talento de seu realizador.

sexta-feira

SNOWDEN: HERÓI OU TRAIDOR

SNOWDEN: HERÓI OU TRAIDOR (Snowden, 2016, Endgame Entertainment/Vendian Entertainment/KrautPack Entertainment, 134min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, Kieran Fitzgerald, livro de Anatoly Kucherena e Luke Harding. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Alex Marquez, Lee Percy. Música: Craig Armstrong. Figurino: Bina Daigegler. Direção de arte/cenários: Mark Tildesley/Véronique Melery. Produção executiva: Max Averlaiz, Michael Bassick, Olivier Cottet-Puinel, Douglas Hansen, José Ibañez, Peter Lawson, Romain Le Grand, Bahman Naraghi, Tom Ortenberg, Jérôme Seydoux, James Stern, Christopher Woodrow. Produção: Moritz Borman, Eric Kopeloff, Philip Schulz-Deyle, Fernando Sulichin. Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Melissa Leo, Zachary Quinto, Shailene Woodley, Nicolas Cage, Rhys Ifans, Tom Wilkinson, Joely Richardson, Logan Marshall-Green, Timothy Olyphant, Ben Chaplin, Scott Eastwood. Estreia: 21/7/16

Se existe um cineasta certo para contar a história de Edward Snowden nas telas de cinema, esse cineasta é Oliver Stone. Politicamente ativo e pouco dado a sutilezas, Stone ganhou dois Oscar de direção por cutucar o governo americano a respeito da guerra do Vietnã (por "Platoon", de 1986, e "Nascido em 4 de julho", de 1989) e nunca mediu palavras - ou imagens - para deixar bem claras suas posições liberais e democratas. Há muito tempo sem um grande sucesso de bilheteria - seu último trabalho a fazer barulho comercialmente foi "JFK", em 1991 - e massacrado impiedosamente pela crítica por seus trabalhos mais recentes, como "As Torres Gêmeas" (2006) e "Selvagens" (2012), Stone encontrou na trajetória arriscada e corajosa do jovem informante a matéria-prima para uma produção não apenas contundente e atual, mas extremamente necessária. Como era de se esperar, o filme fracassou comercialmente - nos EUA rendeu pouco mais da metade de seu orçamento, estimado em 40 milhões de dólares - e dividiu a crítica, mas é inegável que é o melhor Stone desde "Assassinos por natureza" (94), o que é ainda mais admirável quando se percebe que é também um dos filmes de narrativa mais acessível da carreira do diretor.

Dispensando os cacoetes visuais e artifícios narrativos que vem marcando sua carreira desde a década de 90, Oliver Stone faz de "Snowden: herói ou traidor" uma obra linear e quase convencional, que aposta muito mais no roteiro quase didático do que no visual exuberante - é a primeira vez que o cineasta se utiliza de câmeras digitais sem que seja em um documentário. Apesar da edição continuar sendo um dos destaques (aqui a cargo de Alex Marquez e Lee Percy), Stone abre mão de suas manias de despejar diante da audiência imagens em ritmo alucinante e quase esquizofrênico: a história é, sim, contada em duas linhas de tempo distintas, mas sem que uma atropele a outra e sem que o público perca o fio da meada diante do excesso de informações. O roteiro, baseado no livro "Time of the Octopus" do advogado russo Anatoly Kucherena - tratado como ficção mas amplamente baseado em entrevistas com Snowden -, é a força motriz do filme, a base sobre a qual o diretor constrói uma severa crítica ao modo como os governos Bush e Obama lidaram com espionagem em grande escala e nas graves consequências de tais atos. Com imagens reais de governos atingidos pelo escândalo - incluindo o Brasil - e sem medo de apontar dedos, "Snowden" é surpreendentemente sóbrio e honesto. Stone parece dizer, com sua direção discreta, que a história (forte, assustadora, chocante) é maior do que qualquer tentativa de manipulação artística.


O filme começa em junho de 2013, quando o jovem Edward Snowden (Joseph Gordon-Levitt) se encontra com o jornalista Glenn Greenwald (Zachary Quinto) e a documentarista Laura Poitras (Melissa Leo) em um hotel de Hong Kong - Greenwald mais tarde seria um dos mais ferrenhos opositores ao golpe parlamentar que destitui a presidente Dilma Roussef, e Proitas ganharia o Oscar de documentário por "Cidadãoquatro" (2014), justamente sobre o escândalo denunciado por Snowden. O encontro entre os três tem uma razão muito simples, ainda que potencialmente explosiva: o rapaz, ex-funcionário da CIA e da NSA, tem documentos que comprovam sem espaço para quaisquer dúvidas, de que o governo norte-americano, em nome da defesa nacional, tem acesso irrestrito a informações pessoais e confidenciais de todo o planeta - e que as utiliza sem nenhum critério ético ou moral. A partir daí, o roteiro intercala as reuniões do grupo (que contam ainda com o repórter do jornal "The Guardian", Ewen MacAskill (Tom Wilkinson)) com a trajetória do rapaz dentro das agências de segurança do país. Com inteligência acima da média e digno da confiança de seus colegas e superiores, Snowden aos poucos vai tomando conhecimento do absurdo que é a rede de espionagem que ele mesmo criou (com objetivos outros, menos invasivos). Ao lado da namorada, Lindsay (Shailene Woodley), ele entra em uma severa crise de consciência até que resolve expor toda a verdade ao mundo.

Um thriller político da mais alta qualidade - que consegue equilibrar com maestria tanto o suspense quanto a crítica ao governo -, "Snowden" comprova que Oliver Stone é, apesar de alguns exageros de sua carreira, um dos cineastas mais instigantes de Hollywood. Destemido e feroz em suas declarações cinematográficas, é também um contador de histórias nato, convincente e quase diabólico em suas tentativas de vender seu peixe. Além do mais, é um excelente diretor de atores: se todo o elenco de "Snowden" é homogeneamente competente (incluindo uma pequena participação de Nicolas Cage), a composição de Joseph Gordon-Levitt é impressionante. Mesmo sem ter semelhanças físicas com o protagonista, quando está em cena o jovem ator simplesmente se transforma no personagem: a voz, o gestual e a forma de falar engolem Levitt e fazem surgir um Edward Snowden irretocável, capaz de confundir aos desavisados - tal similaridade física fica evidente na última cena, em que o verdadeiro Snowden faz uma aparição rápida e marcante. Injustamente esquecido pelo Oscar - que desde "Nixon", de 1995, nunca mais indicou filmes de Stone em nenhuma categoria - e por outras cerimônias de premiação (apenas o Satellite Awards lhe deu uma indicação), Gordon-Levitt comprova ser um dos mais talentosos e versáteis atores de sua geração, capaz de encarar desafios sem medo e sem se repetir. Se "Snowden: herói ou traidor" é tão bom, pode-se dizer que é devido à união perfeita entre diretor, tema, roteiro e ator principal. Um dos grandes filmes de 2016.

segunda-feira

INTRIGAS DE ESTADO

INTRIGAS DE ESTADO (State of play, 2009, Universal Pictures/Working Title Films, 127min) Direção: Kevin MacDonald. Roteiro: Matthew Michael Carnahan, Tony Gilroy, Billy Ray, série de televisão de Paul Abbott. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Justine Wright. Música: Alex Heffes. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Cheryl Carasik. Produção executiva: Paul Abbott, Liza Chasin, Debra Hayward, E. Benneth Walsh. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Andrew Hauptman. Elenco: Russell Crowe, Ben Affleck, Rachel McAdams, Helen Mirren, Robin Wright, Jason Bateman, Jeff Daniels, Viola Davis, David Harbour. Estreia: 17/4/09

Na falta de bons roteiros originais, ou ao menos na falta de coragem de investir em ideias novas, Hollywood constantemente volta sua atenção para materiais já previamente testados, seja em livros, histórias em quadrinhos ou até mesmo em clássicos queridos pelo público. Nessa ânsia por encontrar boas histórias, nem ao menos programas de televisão são poupados. Um exemplo dessa afirmação é "Intrigas de estado", uma produção de primeira linha, com atores famosos e consagrados, um estúdio tradicional (Universal Pictures) e um diretor promissor que tem origem em uma série da BBC inglesa, levada ao ar em 2003. Com uma sutil mudança em um crucial detalhe da trama - substituiu-se uma companhia de petróleo por uma agência militar - e a tentativa de condensar seis episódios em palatáveis duas horas de duração, o filme de Kevin MacDonald (de "O último rei da Escócia", que deu o Oscar de melhor ator a Forest Whitaker em 2007), o filme acabou por passar quase em branco nos EUA e não conquistar nem mesmo a boa vontade da crítica, apesar de contar com um elenco de primeira e com um tema bastante inflamável em um país ainda em estado de nervos com os constantes conflitos no Oriente Médio.

Aliás, o escocês Kevin MacDonald nem foi a primeira escolha do estúdio para comandar "Intrigas de estado", cuja pré-produção foi uma verdadeira dança das cadeiras. O primeiro nome cotado para a direção foi o de Edward Zwick, que nem chegou a manter-se por muito tempo no cargo. Antes de MacDonald finalmente assinar com o estúdio, nomes tão díspares quanto Ang Lee, Richard Linklater, Jim Jarmusch e Brian DePalma foram sondados - e, obviamente, cada um deles certamente daria um enfoque e um estilo diferentes ao roteiro. Com um cineasta como MacDonald (competente mas sem a força suficiente para chamar público por si só) à frente do projeto, apenas um elenco de peso poderia equilibrar as coisas - e nesse ponto nenhum produtor estava disposto a brincadeiras. A princípio o filme reuniria Brad Pitt e Edward Norton quase dez anos depois de seu cultuado "Clube da luta" (1999), o que imediatamente acendeu o interesse de todo mundo. Porém, uma greve de roteiristas tirou Pitt do filme (o ator queria que partes do roteiro fossem reescritas) e o atraso acabou por também afastar Norton. Ben Affleck imediatamente embarcou em seu lugar, mas antes que Russell Crowe assumisse o lugar de Brad, outros astros foram cogitados para o papel - mais precisamente Nicolas Cage, Johnny Depp e Tom Hanks. Com Robin Wright (ainda Penn) e Rachel McAdams nos principais papéis femininos e Helen Mirren substituindo o conterrâneo Bill Nighy na pele da editora-chefe do Washigton Globe, tudo parecia garantir uma vitória certa. Porém, a bilheteria tímida de pouco mais de 37 milhões de dólares no mercado doméstico mostrou que nem sempre uma receita de sucesso funciona como o esperado. E nesse caso específico, somente a aversão das plateias a qualquer trama remotamente ligada às guerras do governo Bush pode explicar.


Não há nada de flagrantemente errado em "Intrigas de estado": o roteiro é inteligente e com um bom número de reviravoltas; a direção de MacDonald é sóbria e competente (ainda que sem brilho); o elenco é homogêneo (apesar das caras e bocas de Ben Affleck) e o ritmo é eficiente, mérito da edição ágil de Justine Wright, da fotografia precisa de Rodrigo Prieto e da trilha sonora de Alex Heffes. Então por que a receptividade tão morna (ou até mesmo fria)? Talvez seja mesmo o fato de que produções que tem as guerras no Oriente Médio nunca conquistarem boas bilheterias - nem mesmo quando juntam um time como Matt Damon e o diretor Paul Greengrass, que apesar do sucesso de seus filmes sobre Jason Bourne amargaram o naufrágio de "Zona verde" em 2010. Mas é também preciso reconhecer que, apesar da reunião de talentos e da história instigante, "Intrigas de estado" é um filme apenas correto, sem aquele tempero que transforma um mero entretenimento em um filme inesquecível. Talvez seja a falta de química entre Russell Crowe (ótimo ator mas em modo piloto automático) e Ben Affleck (péssimo ator que mata a dubiedade de seu personagem graças às suas limitações dramáticas). Talvez seja o foco confuso - afinal, qual das tramas é realmente a mais importante? Ou talvez seja mesmo porque a história simplesmente falha em cativar o interesse da plateia e seus personagens sejam desprovidos de qualquer carisma.

O filme até que começa bem: pelas ruas de Washington, um homem é perseguido por outro e, quando finalmente se vê encurralado, morre a tiros. Um ciclista que passava no local também é atingido pelo criminoso e, no dia seguinte, a jovem Sonia Baker (Maria Thayer) morre em um misterioso acidente no metrô da cidade. Sua morte é manchete, uma vez que ela fazia parte de uma comissão que investigava a fundo uma empresa privada em vias de tornar-se a responsável pela segurança militar dos EUA. Seu trágico e inesperado fim também revela um romance secreto com Stephen Collins (Ben Affleck), um senador casado que é um dos principais integrantes da comissão. O "acidente" chama a atenção da jovem e ambiciosa repórter Della Frye (Rachel McAdams), que vê no caso a oportunidade de mudar de status dentro do Washington Globe. Para isso, ela conta com a ajuda do veterano Cal McAffrey (Russell Crowe), que, não apenas tem interesse jornalístico no caso: ele é amigo pessoal de Collins - e viveu um apaixonado romance com a esposa dele, Ann (Robin Wright Penn). Conforme as investigações avançam, McAffrey chega à conclusão de que terá de decidir entre acreditar ou não no velho amigo, que pode ter muito mais responsabilidade nas mortes do que aparenta.

A questão é: vale a pena gastar duas horas assistindo a "Intrigas de estado"? Sim e não. O produto final é um filme obviamente bem produzido, com uma equipe acima de qualquer suspeita e uma história com desdobramentos certamente surpreendente - em especial ao espectador menos escolado. Porém, o filme soa frio, quase distante da audiência, sem um personagem no qual o público pode se espelhar. Mesmo o heroico jornalista vivido por Russell Crowe não consegue conectar-se com a plateia, em parte pela quase antipatia que o ator neozelandês transmite no papel. Rachel McAdams faz o que pode com uma personagem bem chatinha, e Ben Affleck é o Ben Affleck de sempre, com uma gama de nuances rasa e apática. Só mesmo as presenças de Helen Mirren e Robin Wright conseguem sobressair-se - mesmo em papéis pequenos as duas atrizes são uma delícia de ver.

sábado

CONSPIRAÇÃO E PODER

CONSPIRAÇÃO E PODER (Truth, 2015, Sony Pictures Classics, 125min) Direção: James Vanderbilt. Roteiro: James Vanderbilt, livro "Truth and duty: the press. the president, and the privilege of power", de Mary Mapes. Fotografia: Mandy Walker. Montagem: Richard Francis-Bruce. Música: Brian Tyler. Figurino: Amanda Neale. Direção de arte/cenários: Fiona Crombie, Kirk Petruccelli/Glen W. Johnson. Produção executiva: Antonia Barnard, Mikkel Bondesen, James Packer, Steven Silver, Neil Tabatznik. Produção: Bradley J. Fischer, Doug Mankoff, Brett Ratner, William Sherak, Andrew Spaulding, James Vanderbilt. Elenco: Cate Blanchett, Robert Redford, Dennis Quaid, Topher Grace, Elisabeth Moss, Bruce Greenwood, Stacy Keach, Dermot Mulroney. Estreia: 12/9/15 (Festival de Toronto)

O romance entre o cinema e os bastidores do jornalismo já rendeu clássicos inquestionáveis, desde aqueles que defendem a imprensa - "Todos os homens do presidente" (76) - até aqueles que criticam seus abusos - "A montanha dos sete abutres" (57) e "Rede de intrigas" (76). Em 2015, para marcar sua estreia como diretor, o roteirista James Vanderbilt resolveu acrescentar mais um título à primeira lista com "Conspiração e poder", transposição para as telas de uma história real que abalou o telejornalismo norte-americano em 2004 e colocou o então candidato à reeleição George W. Bush diante de um escândalo que quase lhe custou o segundo mandato - mas que, por incrível que pareça, prejudicou muito mais a equipe jornalística do prestigiado "60 minutos", incluindo seu respeitado apresentador Dan Rather. Com base no livro escrito por Mary Mapes, a produtora do programa e principal mira do ataque dos partidários de Bush, Vanderbilt - autor do elogiado script de "Zodíaco" (06), de David Fincher - amargou um fracasso de bilheteria e foi ignorado pelas cerimônias de premiação, mas não faz feio em comparação com outros filmes do gênero, principalmente pela equação equilibrada entre uma boa história e um elenco afiadíssimo, liderado por Cate Blanchett e Robert Redford - coincidentemente um dos atores centrais do icônico "Todos os homens do presidente".

Se no celebrado filme de Alan J. Pakula o galã mais cobiçado das décadas de 60 e 70 vivia um dos repórteres que desmascararam o presidente Richard Nixon no escândalo chamado Watergate, dessa vez Redford assume com tranquilidade um papel de segundo plano, ainda que igualmente importante para os desdobramentos da ação. Cabe à Cate Blanchett - linda e excelente atriz como sempre - a função de estar na linha de frente. Ela vive Mary Mapes, uma competente e dedicada produtora jornalística, responsável por algumas das pautas mais premiadas e importantes do programa "60 Minutos", apresentado pelo veterano Dan Rather (Redford, em atuação elogiada pelo próprio repórter) na CBS. Conhecida por sua fé no jornalismo como fonte de levar a verdade ao público, ela põe a mão em uma matéria de enorme potencial político quando, em 2004, descobre uma série de documentos que comprovam que o então jovem George W. Bush usou de sua influência política e financeira para fugir da Guerra do Vietnã - e, pior ainda, desertou do serviço militar por um período de tempo. Partindo apenas da palavra de Bill Burkett (Stacy Keach) um ex-militar ressentido contra o governo, e com pressa de colocar o programa no ar antes das eleições, Mapes logo sente o gostinho do sucesso ser substituído pelo sabor amargo da opinião pública: peritos surgem para questionar os documentos, testemunhas antes seguras dos fatos mudam de ideia e até mesmo alguns poderosos da emissora passam a duvidar da veracidade da notícia. Sua carreira, até então intocável, passa a depender de ela conseguir provar suas acusações.





Imprimindo um tom sóbrio e elegante à sua narrativa, James Vanderbilt faz uma estreia bastante competente, com bom uso de todos os elementos clássicos do gênero e a exploração correta de cada membro de sua equipe, da diretora de fotografia Mandy Walker e do editor Richard Francis-Bruce - indicado ao Oscar por "Um sonho de liberdade" (94) e "Seven" (95) - até a trilha sonora minimalista, quase imperceptível, de Brian Tyler, que só se faz notar em momentos cruciais, mantendo-se discreta e eficaz durante toda a projeção. Tomando claramente o lado de Mapes na questão - afinal de contas o ponto de vista é dela - e questionando com contundência os mecanismos da busca incansável pela verdade no jornalismo, Vanderbilt cria um panorama bastante rico da situação, conduzindo a plateia pelos meandros do telejornalismo sem nunca perder de mão seu interesse pelos personagens. O time formado por Mapes é tratado com carinho e particular interesse, explorando os desejos e ambições de cada um que a cerca. Há Roger Charles (Dennis Quaid), um militar aposentado e ainda fiel à sua vocação, mas ainda mais leal à verdade; há o jovem Mike Smith (Topher Grace), cuja carreira repleta de altos e baixos trai sua sede de aventuras; e há Lucy Scott (Elizabeth Moss), que entra na jogada com o objetivo de somar pontos à sua carreira e acaba por encontrar um labirinto traiçoeiro. O roteiro dá espaço a cada um desses personagens, mas jamais perde o foco - e essa é sua maior qualidade.

Sem buscar apoio em momentos cômicos ou românticos, "Conspiração e poder" é um retrato atraente e envolvente de um assunto cada vez mais em voga em tempos tão vorazes em termos de informação (e má informação): discutindo os limites da ética e a força do dinheiro e do poder em questões de alto impacto, o roteiro é uma aula de narrativa simples e direta. Apesar de sua verborragia - algo de que poucos filmes sobre o assunto conseguem escapar - e do interesse quase restrito ao público norte-americano (que fez pouco caso do filme nas bilheterias, injustamente), é uma produção de classe e inteligência, que conquista o espectador pelo cérebro e não pela adrenalina. Pode soar um tanto esquemático e frio para quem busca mais tensão e um grande clímax, mas é potente o bastante para permanecer na memória - em especial graças ao desempenho exemplar (mais um!) de Cate Blanchett. Corpo e alma do filme, ela responde pelas cenas mais intensas da produção - em especial em seu embate final com seus inquisidores, liderados por Dermot Mulroney. Estoica, corajosa e brilhante, Mary Mapes encontrou em Blanchett a intérprete ideal. E ao público, resta aplaudir.

domingo

NO (No, 2012, Participant Media/Funny Balloons, 118min) Direção: Pablo Larraín. Roteiro: Pedro Peirano, peça teatral de Antonio Skármeta. Fotografia: Sergio Armstrong. Montagem: Andrea Chignoli. Música: Carlos Cabezas. Figurino: Francisca Román. Direção de arte/cenários: Estefania Larrain/María Eugenia Hederra. Produção executiva: Juan Ignacio Correa, Mariane Hartard, Rocío Jadue, Jonathan King. Produção: Daniel Marc Dreifuss, Juan de Dios Larraín, Pablo Larraín. Elenco: Gael García Bernal, Alfredo Castro, Luis Gnecco, Néstor Cantillana, Antonia Zegers, Elsa Poblete. Estreia: 18/5/12 (Festival de Cannes)

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

Entre 1973 e 1988, o Chile viveu sob uma feroz ditadura militar, representada na figura do General Augusto Pinochet, que assumiu a presidência depois de derrubar, através de um golpe de estado, o eleito Salvador Allende. Sob forte pressão popular - e acreditando que jamais sairia derrotado de uma eleição depois de tanto tempo no comando - o ditador aceitou, então, a proposta de realização de um plebiscito que decidiria sua continuidade ou não como chefe do país. Como parte do processo, uma campanha televisionada no período de 27 dias, com quinze minutos de duração para cada time. Seria democrático se o governo não tivesse muito mais recursos do que a oposição - mas a luta pela justiça encontra forças na adversidade, na paixão de seus militantes e na busca constante pela liberdade. Essa é a mensagem por trás de "No", belo trabalho do cineasta Pablo Larraín, indicado ao Oscar 2012 de melhor filme estrangeiro. Baseado em uma peça teatral escrita pelo mesmo Antonio Skármeta de "O carteiro e o poeta", o filme de Larraín é centrado basicamente na batalha dos opositores ao regime, que, mesmo dispondo de pouco dinheiro e apoio oficial, conseguiram derrubar um dos mais sangrentos e vis golpes de estado da história da América Latina.

A trama centra-se em René Saavedra (o sempre ótimo Gael García Bernal), publicitário jovem e talentoso, que é convidado para participar da organização da campanha pelo "Não" - que, vitoriosa, obrigaria o governo a clamar por novas eleições diretas. Filho de exilados políticos, o rapaz hesita em aceitar a proposta mesmo sendo simpático à causa, especialmente porque seu patrão, Lucho Guzmán (Alfredo Castro), é um dos diretores da campanha oposta. Sabendo que está mexendo com um vespeiro, porém, René aceita o desafio e passa a colaborar com a criação de uma série de pequenos filmes que celebram a alegria e a liberdade - em oposição ao que muitos participantes da campanha desejam, por considerar o assunto sério demais para ser tratado com leveza. Conforme o tempo vai passando e as diferenças criativas vão sendo superadas (ou não), o governo começa a perceber que talvez tenha sido uma péssima ideia dar voz a seus inimigos, principalmente em rede nacional.


Para dar mais realismo às cenas, Larraín, em seu projeto mais acessível ao grande público - depois de sucessos de crítica mais densos e herméticos, como "Tony Manero" (2008) e "Post Mortem" (2010) - utilizou-se de câmeras utilizadas no final da década de 80, criando sequências que parecem realmente ter saído do momento histórico que retrata. Intercalando cenas do filme com imagens das campanhas reais, o cineasta insere o espectador dentro da jornada de René e seus companheiros rumo à liberdade tão sonhada. Sem disfarçar sua simpatia pelo fim da ditadura, o roteiro questiona os argumentos daqueles favoráveis ao regime sem, no entanto, apelar para o didatismo ou o panfletário, acreditando plenamente na força da história e seus desdobramentos. Ao impor a narrativa sob a ótica de Saavedra - um cidadão comum, que viveu todos os problemas da ditadura sem estar nos bastidores do poder - Larraín enfatiza o óbvio: um regime ditatorial e opressor afeta a todos, por mais que se tenha a ilusão de liberdade e progresso. Quando decide comprar a briga pelo "Não", o protagonista compra também uma série de consequências que podem destruir sua carreira e sua família, e sua coragem é que lhe transforma em herói - ao menos um herói do dia-a-dia, capaz de, com pequenos gestos, transformar seu pedaço de mundo e aqueles a seu redor. Não deixa de ser surpreendente que o diretor desse conto de esperança seja Larraín, um cineasta pouco afeito a delicadezas e finais felizes.

Empolgante como um thriller político - mas sem o peso de um Costa-Gavras ou Oliver Stone - "No" é uma produção pequena em ambição mas grandiosa em resultados. A indicação ao Oscar foi apenas consequência de um trabalho cuidadoso, apaixonado e inteligente, capaz de conquistar até mesmo àqueles avessos a qualquer tipo de filme do gênero. Com um roteiro fluido e esperto, uma direção discreta que jamais comete excessos e um elenco impecável - liderado por um inspirado Gael García Bernal, perfeito em viver tipos comuns - é uma pequena obra-prima do cinema chileno, competente em todos os aspectos e fascinante como drama humano e social. Uma mostra e tanto do novo cinema latino-americano.

terça-feira

A GRANDE ILUSÃO

A GRANDE ILUSÃO (All the king's men, 2006, Columbia Pictures, 128min) Direçao: Steven Zaillian. Roteiro: Steven Zaillian, romance de Robert Penn Warren. Fotografia: Pawel Edelman. Montagem: Wayne Wahrman. Música: James Horner. Figurino: Marit Allen. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandenstein/Patricia Schneider. Produção executiva: James Carville, Andy Grosch, Michael Hausman, Ryan Kavanaugh, Todd Phillips, Andreas Schmid, David Thwaites. Produção: Ken Lemberger, Mike Medavoy, Arnold W. Messer, Steven Zaillian. Elenco: Sean Penn, Jude Law, Kate Winslet, Anthony Hopkins, Mark Ruffalo, Patricia Clarkson, James Gandolfini, Jackie Earle Haley, Kathy Baker, Talia Balsam, Tom McCarthy. Estreia: 10/9/06 (Festival de Toronto)

O remake de "A grande ilusão", cujo original de 1949 ganhou os Oscar de melhor filme, ator (Broderick Crawford) e atriz coadjuvante (Mercedes McCambridge), serviu para reiterar duas verdades absolutas em Hollywood: primeiro, que política é um assunto que definitivamente não atrai as plateias americanas que frequentam as salas de cinema; segundo, que nem mesmo uma seleção de atores do primeiríssimo escalão é capaz de fazer mágica quando há o desinteresse do público. Com um elenco estrelado, repleto de astros vencedores e indicados ao Oscar, o filme de Steven Zaillian - ele mesmo ganhador da estatueta pelo roteiro de "A lista de Schindler" (93) - fracassou homericamente nas bilheterias e não obteve apoio nem mesmo da crítica especializada, que praticamente ignorou sua estreia - um ano depois, aliás, da data inicialmente prevista para seu lançamento. Mas o que é mais chocante nessa história toda é que o filme, apesar de violentamente rechaçado, está muito longe de ser ruim ou medíocre: é um trabalho bastante interessante, valorizado por seus intérpretes e com uma trama de grande relevância política, especialmente nos dias que seguem.

Baseado não no filme de Robert Rossen, mas mais especificamente no romance que lhe deu origem - escrito por Robert Penn Warren e inspirado na trajetória do político Huey Long, que foi governador da Louisiana - "A grande ilusão" tem como protagonista o populista Willie Stark (Sean Penn, em grande performance), que se torna governador do estado depois de desmascarar os conchavos de políticos mais experientes que queriam usá-lo como joguete. Incensado pela população carente, que vê nele uma sinceridade que inexiste em outros candidatos, Stark vê sua ascensão incomodar as camadas mais importantes da região, homens de grande poder financeiro que se sentem ameaçados com as promessas e obras do novo líder. Embriagado pelo poder - que o faz trair sucessivamente a esposa, tanto com jovens artistas quanto com sua auxiliar de campanha, Sadie Burke (Patricia Clarkson) - Stark entra na mira de seus inimigos, que iniciam uma campanha pedindo seu impeachment. Abusando de métodos pouco ortodoxos, ele então pede ajuda ao jornalista Jack Burden (Jude Law), que o acompanha desde seus primeiros dias de vida pública, a tentar descobrir algum podre no passado de seu principal rival, o juiz Irwin (Anthony Hopkins) - que vem a ser, por coincidência, padrinho do jovem. Não bastasse tanta confusão, Burden testemunha a forma como Stark se deixa envolver pelo lado sujo do poder, o que inclui seu melhor amigo de juventude, Adam Stanton (Mark Ruffalo) e a irmã deste, seu grande amor Anne (Kate Winslet).


Apesar da profusão de personagens importantes - defendidos por atores nunca aquém de brilhantes - e da trama com mais de um foco de interesse, "A grande ilusão" não incorre no erro tão comum de confundir o espectador, com idas e vindas desnecessárias: sempre que faz uso de flashback, o roteiro de Zaillian o faz com inteligência e parcimônia, servindo-se dele para iluminar detalhes a respeito de seus protagonistas e explicar ao público os caminhos que os levaram até determinado ponto da narrativa. Vista sob a ótica de Jack Burden - um Jude Law injustamente esquecido pelas cerimônias de premiação - e, portanto, com um certo distanciamento que vai sumindo aos poucos, a história de Willie Stark não prescinde de tramoias, ameaças, chantagens e violência, mas, ao situar a trama na década de 50 (décadas antes da mídia imediatista dos dias atuais), o diretor/roteirista de certa forma justifica os atos quase desprezíveis de seu personagem central. É perceptível que, apesar dos erros cometidos por Stark em sua ascensão, há uma certa dose de simpatia por ele - talvez devido à atuação cheia de garra de Sean Penn, talvez devido à maneira brutal com que ele é desprezado pelos poderosos. Essa ambiguidade, bem retratada por Zaillian é outro ponto forte do filme, que jamais aponta uma verdade absoluta sobre Stark, oferecendo à plateia algo a refletir mesmo depois do fim da sessão.

Logicamente, o filme de Zaillian não é perfeito, e sua demora em engrenar é um de seus pecados - a primeira sequência, que mostra Stark, Burden e seu segurança/capanga (Jackie Earle Haley) em direção à residência de um de seus inimigos mais confunde do que intriga. A transformação de Stark também é um tanto problemática, uma vez que não fica muito claro ao espectador em que momento de sua trajetória ele se deixou seduzir pelo poder fácil e por suas vantagens - e qual o destino de sua esposa, a princípio importantíssima em suas decisões e repentinamente desaparecida da narrativa. Mas são defeitos pequenos diante de um filme forte, interessante e realizado perceptivelmente com esmero e dedicação - Sean Penn e Mark Ruffalo, por exemplo, são atores politicamente engajados, o que deve ter contribuído consideravelmente em suas decisões de participar do projeto. Uma pena que não encontrou sua audiência: "A grande ilusão" é um filme que merece ser descoberto.

A DAMA DE FERRO

A DAMA DE FERRO (The Iron Lady, 2011, Pathé/Film4/UK Film Council, 100min) Direção: Phillyda Lloyd. Roteiro: Abi Morgan. Fotografia: Elliot Davis. Montagem: Justine Wright. Música: Thomas Newman. Figurino: Consolata Boyle. Direção de arte/cenários: Simon Elliott/Annie Gilhooly. Produção executiva: Françoise Ivernel, Adam Kulick, Cameron McCracken, Tessa Ross. Produção: Damian Jones. Elenco: Meryl Streep, Jim Brodabent, Olivia Collman, Richard E. Grant. Estreia: 30/12/11

Vencedor de 2 Oscar: Melhor Atriz (Meryl Streep), Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Meryl Streep)

Uma das principais características de um grande ator é a sua possibilidade de transformar qualquer filme, por pior que ele seja, em uma experiência menos dolorosa. Jack Nicholson faz isso como ninguém. Kevin Spacey idem. E é exatamente isso que Meryl Streep faz com "A dama de ferro". A cinebiografia de Margareth Thatcher, primeira-ministra britânica que esteve no poder entre 1979 e 1990 é de uma mediocridade tão grande que chega a fazer com que o trabalho anterior de sua diretora, o musical "Mamma Mia" - que era divertido e solar mas só isso! - soe como um "Cantando na chuva". No entanto, Streep é tão, tão soberana em seu ofício que é a única coisa que impede o filme de naufragar solenemente sem deixar sobreviventes.

Quando o filme começa Thatcher já está aposentada e apresentando alguns sinais de demência, chegando a conversar com Denis (Jim Broadbent, subaproveitado), o marido que já morreu. Enquanto se prepara para doar suas roupas, ela relembra sua trajetória política, desde a juventude - quando, filha do humilde dono de uma mercearia era humilhada pelas colegas - até a maturidade, passando por sua eleição para o Parlamento inglês e por todos os momentos mais importantes de seu mandato. O problema maior do roteiro (que utiliza de forma preguiçosa o batido recurso do flashback) é que tudo é muito confuso e superficial, não se detendo satisfatoriamente a nenhum aspecto da vida de sua protagonista. Pontos importantes da carreira de Thatcher (como sua firmeza durante a Guerra das Malvinas e seu confronto com os atentados do IRA, que tiraram a vida de seu porta-voz) passam pela tela de forma desordenada, sem dar ao público nem a oportunidade de conhecer um pouco melhor a história política do país durante essa fase tão importante nem de travar conhecimento com o ser humano por trás da persona política engendrada pela primeira-ministra. Ao tentar equilibrar esses dois pontos, Phillyda Lloyd tropeça em sua falta de experiência.


Enquanto "Mamma Mia" não precisava mais do que o carisma de seu elenco e das canções conhecidas desde sempre do grupo ABBA, "A dama de ferro" necessitava de uma mão mais firme em seu comando. Ao contrário do que Stephen Frears fez em "A rainha" - dar à sua protagonista um senso de humanidade quase desconhecido do grande público ao narrar um período específico de seu reinado - Lloyd tenta abraçar uma trajetória de vida inteira em um filme de menos de duas horas e se perde em suas pretensões. Sua Margaret Thatcher não é nem a bruxa que muitos pintam nem a idealista que seus correligionários sempre tentaram vender, mas não é questão de equilíbrio e sim de um roteiro esquizofrênico e sem foco que dá pouco espaço até mesmo para o brilho de sua atriz central. Mas mesmo assim, com todos os problemas, Streep brilha avassaladora no papel que lhe deu o esperado terceiro Oscar (felizmente o politicamente correto não foi mais forte e Viola Davis, apesar de ótima em "Histórias cruzadas", não tirou o prêmio da veterana atriz).

Ajudada por uma maquiagem competente (que deveria servir de exemplo aos profissionais de "J. Edgar"), a mais respeitada atriz americana em atividade faz o possível e o impossível para dar credibilidade ao filme, convencendo em todas as fases da personagem, com um sotaque perfeito e todas as qualidades que fazem dela o mito vivo que é. Mesmo trabalhando em cima de um material quase oco - e o artifício dramático de contar a história através de suas conversas com o fantasma do marido morto não ajuda em nada - Streep dá vida e consistência à sua personagem e salva o filme de ser absoluta e irremediavelmente esquecível. Salve Meryl!

quarta-feira

TUDO PELO PODER

TUDO PELO PODER (The ides of March, 2011, Cross Creek Pictures, 101min) Direção: George Clooney. Roteiro: George Clooney, Grant Heslov, Beau Willimon, peça teatral "Farragut North", de Beau Willimon. Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: Stephen Mirrione. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Sharon Seymour/Maggie Martin. Produção executiva: Leonardo DiCaprio, Guy East, Barbara A. Hall, Jennifer Kiloran, Stephen Pevner, Nigel Sinclair, Todd Thompson, Nina Wolarsky. Produção: George Clooney, Grant Heslov, Brian Oliver. Elenco: Ryan Gosling, George Clooney, Evan Rachel Wood, Paul Giamatti, Philip Seymour Hoffman. Estreia: 31/8/11 (Festival de Veneza)

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado
Filmes sobre política, via de regra, são veneno de bilheteria. Mais afeitas a efeitos visuais, heróis mascarados e comédias óbvias de humor rasteiro, as plateias geralmente ignoram produções que tentam falar de assuntos mais sérios. Mesmo assim, tem gente que insiste. George Clooney é um integrante contumaz desse grupo de inconformados. Com o prestígio e o sucesso acumulado por anos de serviço à comunidade hollywoodiana – que perdoou até mesmo o fiasco que foi “Batman & Robin” (97) – Clooney conseguiu levar seu segundo longa-metragem atrás das câmeras, “Boa noite, e boa sorte” (05), às indicações ao Oscar de filme e diretor, sem falar em outras produções de notável teor sócio-político que, sem sua presença, provavelmente nem teriam visto a luz dos projetores – desde a comédia de guerra “Três reis” (00) até o altamente combustível “Syriana” (05), que lhe rendeu a estatueta de ator coadjuvante. Por isso, não é de surpreender que: a) ele tenha voltado ao tema político em seu quarto filme, e b) tal filme, “Tudo pelo poder”, tenha naufragado solenemente nas bilheterias americanas a despeito de seu nome e do grande elenco que o acompanha. Não deixa de ser uma injustiça: baseado na peça de teatro “Farraguth North”, escrita por Beau Willimon – que também co-assina o roteiro, ao lado de Clooney e de seu habitual colaborador e produtor Grant Heslov – “Tudo pelo poder” é um filmaço sobre os bastidores da luta partidária e as desilusões que inevitavelmente vem à reboque de sua podridão.
Em um ano particularmente espetacular em sua carreira, o canadense Ryan Gosling supera toda e qualquer expectativa na pele de Stephen Meyers, um jovem idealista que faz parte do comitê de campanha de Mike Morris (George Clooney em pessoa), pré-candidato do Partido Democrata à Presidência dos EUA. Morris, já aprovado como governador, é uma figura carismática, intensa e cuja plataforma eleitoral abarca os direitos civis, a ecologia e a pretensão de encerrar a sequência de guerras em que o país se viu envolvido. É também bem casado com uma mulher respeitável (Jennifer Ehle) e, mesmo não escondendo de ninguém seu ateísmo (um potencial problema em uma nação bastante religiosa), vê suas chances de ganhar a eleição aumentarem a cada dia. Convivendo diretamente com o chefe de campanha de Morris, o experiente Paul Zara (Philip Seymour Hoffman), Stephen vai tomando consciência de todos os meandros do mundo político, especialmente quando relacionados ao jogo sujo proporcionado pelo rival direto de Zara, o pouco confiável Tom Duffy (Paul Giamatti), que lhe acena com a possibilidade de mudar de time e passar a fazer parte da equipe rival. Trabalhando incansavelmente, Stephen encontra tempo para iniciar um romance com a estagiária Molly Stearns (Evan-Rachel Wood), despistar a onipresente repórter Ida Horowicz (Marisa Tomei) e descobrir, da pior forma possível, que até mesmo os mais impolutos ídolos tem pés de barro.


Sabendo da força da trama criada por Willimon – direta, simples, sem afetações e perigosamente realista – Clooney abriu mão de virtuosismos técnicos para concentrar seu foco no caminho de seu protagonista rumo à desilusão total e a consequente transformação de seu caráter diante do inesperado. O herói da história, Stephen Meyers – que Ryan Gosling vive com uma intensidade que se reflete em cada olhar, em cada expressão de angústia e desespero – serve como alter-ego do espectador, saltando de choque em choque em direção a trevas que ele jamais imaginou existir. Gosling executa com perfeição a transição de um jovem inocente e leal a uma raposa capaz dos atos mais baixos, como chantagem e mentira. É mérito do roteiro, inclusive, fazer com que essa transformação não soe repentina demais ou inverossímil: o público entende os motivos de Meyers. O público se solidariza com ele. E, para surpresa geral, o público aceita e aplaude quando a inocência se perde para sempre. No meio dos lobos, envolvido por conspirações subterrâneas, só o que resta a Meyers é tentar sobreviver da maneira mais eficiente – nem que para isso tenha que sacrificar a própria alma.
Esse pessimismo (realismo? cinismo?) do roteiro – que concorreu ao Oscar - não pode ser mais atual. Diante de uma política internacional que desrespeita até mesmo os mais óbvios conceitos de dignidade pessoal, a história de “Tudo pelo poder” soa não como um aviso, mas como um comentário ácido e perspicaz. Como forma de universalizar a trama, o roteiro foge da armadilha de tentar explicar a política americana, preferindo jogar seu foco nas relações humanas por trás dos palanques, um leque de relações tão ou mais revoltante. Para isso, conta com um elenco de coadjuvantes de ouro: Philip Seymour Hoffman dá olé em cada cena, Marisa Tomei nunca esteve tão bem, Paul Giamatti transmite com precisão o tom mefistofélico de seu personagem e Evan Rachel Wood está na medida certa de pureza e sedução. Mas o show é, sem dúvida, de Ryan Gosling. No mesmo ano em que criou o misterioso dublê envolvido com um perigoso grupo de criminosos no excepcional “Drive”, ele sustenta com firmeza de veterano um tratado doloroso sobre o desencanto. Merecia, no mínimo, uma lembrança da Academia. Mas seria esperar demais de um grupo tão conservador e arraigado a valores que o próprio filme faz questão de espatifar.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...