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terça-feira

ARIZONA NUNCA MAIS


ARIZONA NUNCA MAIS (Raising Arizona, 1987, 20th Century Fox/Circle Films, 94min) Direção: Joel Coen. Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen. Fotografia: Barry Sonnenfeld. Montagem: Michael R. Miller. Música: Carter Burwell. Figurino: Richard Hornug. Direção de arte/cenários: Jane Musky/Robert Kracik. Produção executiva: James Jacks. Produção: Ethan Coen. Elenco: Nicolas Cage, Holly Hunter, John Goodman, William Forsythe, Frances McDormand, Trey Wilson, Randall "Tex" Cobb. Estreia: 06/3/87

O que fazer depois que seu filme de estreia - uma produção independente barata e sem astros hollywoodianos - se torna queridinho da crítica e coloca seu nome dentre as maiores promessas do novo cinema norte-americano? Se a pergunta fosse feita a Joel e Ethan Coen, os irmãos responsáveis pela direção, roteiro e produção do desconcertante "Gosto de sangue" (1984), a resposta certamente revelaria seu desejo de realizar o oposto de seu primeiro filme. Muito mais leve, solar e otimista do que seu antecessor - mas ainda com generosas doses de um humor todo particular -, "Arizona nunca mais" pegou crítica e público de surpresa quando estreou e apresentou, sem nenhum traço de pudor, uma história de amor doce, engraçada e familiar - e que, para deixar tudo ainda mais alto-astral, com um risonho e louro bebê fazendo as vezes de catalisador da ação. Diferindo radicalmente do suspense pesado e violento que marcou sua impactante chegada ao mundo do cinema, "Arizona nunca mais" demonstrou, para quem estivesse disposto a ver e ouvir, que os irmãos Coen não tinham se beneficiado da famigerada sorte de principiante - e que tinham muito, mas muito talento e criatividade a oferecer.

Escrito em três meses e meio (depois que o projeto de "Na roda da fortuna" foi adiado indefinidamente devido a seu orçamento milionário), o roteiro de "Arizona nunca mais" surgiu, segundo os próprios diretores, da vontade de ambos em escrever um bom papel para Holly Hunter, então começando o que viria a ser uma carreira vitoriosa. Desse desejo nasceu Edwina (ou Ed), uma policial dedicada e sensível que sonha em casar e ter uma família - mesmo que seja com alguém tão disfuncional quanto Herbert McDunnough (ou H.I.), um bandido pé-de-chinelo que se apaixona por ela quando é preso pelo assalto a uma loja de conveniências. Seduzida pela atenção que lhe é dispensada por H.I. - que lhe enche de gentilezas a cada vez que é capturado pela polícia -, Ed aceita seu pedido de casamento. Sua nova vida, em um trailer no deserto do Arizona, só não é completa pela falta de um filho - um problema aparentemente insolúvel depois que Ed se descobre estéril e o casal percebe que, graças à extensa ficha criminal de H.I., adoção tampouco é uma opção. A luz no fim do túnel que reacende a esperança de felicidade dos ansiosos pais de família surge em uma notícia de jornal: e se o casal roubasse um dos recém-nascidos quintulos do milionário Nathan Arizona (Trey Wilson)? Afinal de contas, segundo o raciocínio de H.I. e Ed, o magnata e sua esposa "tem mais do que podem cuidar".


O sequestro do pequeno Nathan Jr., logicamente, não é visto com tranquilidade por Arizona, que divulga uma recompensa de 10 mil dólares a quem lhe ajudar a recuperar o filho - um desdobramento que, no entanto, não afeta a consciência do novo núcleo familiar. Encantados com a nova rotina, Ed e H.I. tentam levar uma vida normal, socializando com outros casais (Sam MacMurray e uma impagável Frances McDormand) e fugindo de seu passado - algo complicado, especialmente quando recebem a visita de dois ex-colegas de crime de H.I, os pouco sutis Gale (John Goodman) e Evelle (William Forsythe), que não demoram a descobrir a identidade do bebê e se sentem bastante tentados pela recompensa oferecida. Não bastasse tantas ameaças à felicidade familiar, o apavorante Leonard Smalls (Randal "Tex" Cobb) surge como uma bomba no caminho dos protagonistas: a bordo de sua potente moto e com uma aparência assustadora, o imenso mercenário decide que, se não conseguir convencer Arizona a lhe pagar cinco vezes mais do que a recompensa oferecida, irá recuperar o sorridente e simpático bebê e vender no mercado negro. Como se não bastasse tantos problemas, H.I. é demitido - depois de recusar uma troca de casais com o patrão - e recomeça a flertar com o crime.

Em um papel feito sob medida para seu histrionismo por vezes exagerado - e para o qual Kevin Costner foi testado três vezes -, Nicolas Cage está na medida certa. Com seu cabelo rebelde - que fica mais e mais arrepiado conforme o nível de estresse de seu personagem vai aumentando - e o eterno olhar descrente diante de tanta confusão em uma vida que sonhava fácil, o ator (que mais tarde seria conhecido tanto por seu Oscar por "Despedida em Las Vegas", de 1995, quanto por suas incursões no cinema de ação) faz o contraponto perfeito à atuação quase meiga de Holly Hunter - que, no entanto, apresenta um timing cômico impecável. Com movimentos de câmera criativos (herança dos tempos em que Joel Coen foi assistente de direção de Sam Raimi em seu clássico trash "Uma noite alucinante: a morte do demônio", de 1981) e personagens no limite do surreal, "Arizona nunca mais" parece um desenho animado em live action: suas sequências de ação brincam com o público de forma a enfatizar a falta de compromisso com a realidade. Exatamente como desejavam - fugir de qualquer comparação com "Gosto de sangue" -, os irmãos Coen fizeram de sua primeira comédia um marco e uma influência no cinema independente norte-americano. Um feito e tanto para quem ainda precisava chegar aos sets com storyboards completos como forma de economizar o orçamento tímido de apenas cinco milhões de dólares. Definitivamente talento não tem preço!

segunda-feira

ATÔMICA

ATÔMICA (Atomic blonde, 2017, Universal Pictures/Focus Features, 115min) Direção: David Leitch. Roteiro: Kurt Johanstad, graphic novel de Antony Johnston, Sam Hart. Fotografia: Jonathan Sela. Montagem: Elisabet Ronaldsdóttir. Música: Tyler Bates. Figurino: Cindy Evans. Direção de arte/cenários: David Scheunemann/Zsuzsa Mihalek, Mark Rosinski. Produção executiva: David Guillod, Kurt Johanstad, Nicky Meyer, Joe Nozemak, Steven V. Scavelli, Marc Shaberg, Ethan Smith. Produção: A.J. Dix, Eric Gitter, Beth Kono, Kelly McCormick, Peter Schwering, Charlize Theron. Elenco: Charlize Theron, James McAvoy, Eddie Marsan, John Goodman, Toby Jones, James Faulkner, Sofia Boutella, Bill Skarsgaard, Til Schweiger. Estreia: 12/3/2017

Quando "Mad Max: estrada da fúria" (2015) surpreendeu todo mundo com uma arrecadação internacional de mais de 375 milhões de dólares e seis Oscar (além das indicações a melhor filme e diretor), os executivos chegaram à conclusão de que a) filmes de ação comandados por mulheres ainda era um nicho consideravelmente promissor e b) Charlize Theron, com sua beleza e carisma, parecia ser a atriz ideal para preencher essa lacuna no gênero, a despeito do fracasso de bilheteria de "Aeon Flux", estrelado por ela em um já distante 2005. Por coincidência, destino ou inconsciente coletivo na indústria, a bela Theron vinha tentando há cinco anos tirar do papel a adaptação da graphic novel "The coldest city", de Antony Johnston e Sam Hart, e viu no interesse dos estúdios a chance de finalmente o filme a sair dos planos e tornar-se realidade. Com um custo modesto de cerca de 30 milhões de dólares, por fim o filme saiu: como novo nome, "Atomic Blonde", um coastro em ascensão - James McAvoy - e um visual arrebatador - cortesia da fotografia de Jonathan Sela. Fugindo da estreia em pleno verão - quando os blockbusters são lançados em busca dos dólares de quem está de férias -, "Atômica" acabou se dando bem, arrecadando pouco mais de 100 milhões pelo mundo.

Dirigido por David Leitch - estreando como diretor depois da experiência de co-dirigir "John Wick: de volta ao jogo", de 2014 -, "Atômica" é um filme que deve muito à trilogia Jason Bourne, mas de certa forma consegue andar sozinho. Sua trama não é nada criativa - algo que há muito não se vê em filmes que tratam de espionagem - e seus personagens são rasos, sem qualquer traço de sutileza ou complexidade. No entanto, situar sua trama na iminência da queda do muro de Berlim permite ao diretor retratar a efervescência da Alemanha dos anos 1980 através dos cenários e de uma trilha sonora genial, que inclui New Order, Nena, Sioux And The Banshees, The Clash, David Bowie (que chegou a negociar uma participação no elenco pouco antes de sua morte) e George Michael - cuja "Father figure" enfeita uma das várias lutas corpo-a-corpo do filme. Já o enredo, rocambolesco e um tanto confuso em alguns momentos, acaba por se tornar, diante da beleza de Theron e das cenas de ação, quase desnecessário: é apenas um fio que conduz a narrativa, repleta de reviravoltas, traições e paranoias típicas da Guerra Fria.


Quando o filme começa, a espiã inglesa Lorraine Broughton (Charlize Theron, no auge da sensualidade) está sendo interrogada por Eric Gray (Toby Jones), um agente do MI6 britânico, e Emmett Kurzfeld (John Goodman), agente da CIA, a respeito de sua estadia em Berlim pouco antes da queda do muro. Lorraine foi ao país para pôr as mãos em uma lista que contém os nomes de todos os agentes secretos - tanto dos EUA quanto da Rússia. Por causa dessa lista, o agente inglês James Cascoigne (Sam Hargrave) foi morto - e Lorraine tem um motivo a mais para encontrar os responsáveis por sua morte, já que teve um romance (também secreto) com Cascoigne. Quem ajuda a bela espiã em sua trajetória de violência e traição é seu contato em Berlim, o pouco ortodoxo David Percival (James McAvoy) - e a misteriosa Delphine Lasalle (Sofia Boutella) também parece saber mais do que aparenta. Em uma narrativa que vai e vem no tempo, o espectador segue os preparados e misteriosos agentes pelas ruas de Berlim - uma cidade literalmente dividida.

Quando a sessão de "Atômica" termina, a sensação é de ter dado uma volta na montanha-russa. Explorando o talento de Charlize Theron em fazer suas próprias cenas de luta - depois de um treinamento com nada menos que oito preparadores físicos e com dois dentes quebrados como consequência -, David Leitch coreografa tais embates com o máximo de veracidade possível. Apesar de as cenas de ação dominarem o roteiro (ao invés de qualquer minimalismo como acontece em "O espião que sabia demais", por exemplo), não há, em nenhum momento, a sensação de dèja-vu: por mais que se saiba que a protagonista sempre vai vencer os duelos, não deixa de ser empolgante acompanhá-los com prazer. A química entre Theron e James McAvoy (apesar de não haver romance entre seus personagens) é convincente, e o elenco coadjuvante empresta prestígio à produção. Mesmo que soe como mais do mesmo, "Atômica" cumpre o que promete - não à toa, rendeu mais de 100 milhões de dólares pelo mundo e confirmou o status de grande estrela do gênero à bela Charlize Theron - uma das produtoras do filme. Diversão descompromissada e acima da média.

terça-feira

VOCÊ NÃO CONHECE O JACK

VOCÊ NÃO CONHECE O JACK (You don't know Jack, 2010, HBO Films, 134min) Direção: Barry Levinson. Roteiro: Adam Mazer. Fotografia: Eigil Bryld. Montagem: Aaron Yanes. Música: Marcelo Zarvos. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Mark Ricker/Rena DeAngelo. Produção executiva: Lydia Dean Pilcher, Tom Fontana, Steve Lee Jones, Barry Levinson, Glenn Rigberg. Produção: Scott Ferguson. Elenco: Al Pacino, Brenda Vaccaro, Susan Sarandon, John Goodman, Danny Huston, Deirdre O'Connell, Todd Susman. Estreia: 14/4/10

Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator em Minissérie ou Filme Para TV (Al Pacino)

Tivesse sido realizado para o cinema, como foi planejado a princípio, "Você não conhece o Jack" certamente teria alcançado a cerimônia do Oscar: dirigido por Barry Levinson (vencedor da estatueta por "Rain Man", de 1988) e estrelado por Al Pacino (premiado por "Perfume de mulher", em 1993, depois de várias outras infrutíferas indicações) e Susan Sarandon (a melhor atriz de 1995 por "Os últimos passos de um homem"), o filme que narra a luta real de um médico pelo direito dos pacientes ao suicídio assistido é uma empolgante demonstração do talento de seu realizador em contar uma história com todas as ferramentas de que dispõe - sem soar didático ou polêmico em excesso. Mesmo sendo perceptivelmente simpático à causa de seu protagonista, Levinson constrói seu filme de forma sóbria e responsável, amparado por uma atuação avassaladora de Pacino e um roteiro inteligente de Adam Mazer, que equilibra com maestria as batalhas jurídicas travadas nos tribunais e momentos de grande emoção, em boa parte oferecidos por imagens reais de pacientes que procuraram aliviar seu sofrimento pelas mãos daquele que ficou conhecido como "Doutor Morte". Com uma atuação avassaladora de Pacino (que acabou ganhando o Golden Globe, o Emmy e o SAG Award), o filme é também o melhor filme de Levinson desde "Mera coincidência" (97) - e um dos mais fascinantes sobre o tema já realizados.

Jack Kevorkian, o protagonista, era um médico, filho de armênios, que, nos anos 90, tornou-se conhecido mundialmente não apenas por defender a eutanásia como forma de permitir uma morte digna como desfecho de doenças terminais, mas também por colaborar, através de uma máquina criada por ele, para que tais pacientes tivessem seu desejo atendido. Suas ações o levaram a capas de revistas, a programas de entrevistas no rádio e na televisão, e principalmente aos tribunais: acusado de homicídio em alguns casos, Kevorkian contava com a ajuda de seu advogado, Geoffrey Fieger (Danny Huston, com uma horrenda peruca loura), sua irmã, Margo (Brenda Vaccaro), seu fornecedor de medicamentos, Neal Nicol (John Goodman), e a militante pró-direito de escolha Janet Good (Susan Sarandon). Acreditando piamente em seus princípios, o grupo acaba por enfrentar a ira de religiosos e a gana de advogados ambiciosos, que veem na figura do médico a chance de alavancar suas carreiras. Cada golpe, porém, faz de Kevorkian um homem mais forte e decidido a levar a discussão até o mais alto grau de justiça dos EUA: a Suprema Corte.


Magistralmente editado - com cenas reais, onde Pacino substitui, por computação gráfica, o verdadeiro Kevorkian em entrevistas com possíveis pacientes - e centrado basicamente em discutir o assunto de forma racional e honesta, "Você não conhece o Jack" apresenta uma abordagem séria, que não esconde a visão benevolente que tem de seu protagonista, mas ao mesmo tempo respeita a visão negativa de certos setores mais conservadores da sociedade norte-americana. Ao construir um Jack Kevorkian humano, falível e fatalmente solitário em suas questões éticas, o roteiro de Adam Mazer o retrata quase como um mártir, mas o trabalho impecável de Al Pacino evita que essa luz demasiado positiva o transforme em um santo irretocável. Dotando seu personagem de nuances, o veterano ator mostra que, mesmo depois dos 70 anos, ainda pode surpreender a plateia - há muito tempo não se via Pacino tão à vontade em cena, em um papel que lhe oferece mil oportunidades de brilho e aplausos. Mesmo que contracene com nomes de peso, é ele a alma do filme - e seu principal sustentáculo em mais de duas horas de duração.

Apesar da longa duração, no entanto, "Você não conhece o Jack" jamais se torna cansativo ou repetitivo - algo admirável, em especial quando se percebe que grande parte da história é restrita aos atendimentos de Jack e suas consequências jurídicas. Por incrível que pareça, o vai-e-volta de tribunais, os longos diálogos e o tom melancólico, ao contrário de atrapalhar o ritmo, parecem dar coesão e consistência a uma trama que, apesar de densa e dramática, apela igualmente para a razão e a emoção. Como testemunhas privilegiadas, o público tem a oportunidade de conhecer os ideais e os métodos de um dos homens mais polêmicos de sua época de forma clara e inteligente, sem manipulações piegas ou sensacionalistas. É um trabalho maduro e honesto, assinado por um diretor de talento inquestionável - apesar de alguns tropeços constrangedores na carreira - e estrelado por um dos maiores atores dos EUA. É, por seu tema e por seu resultado final, um filme imprescindível!

O DIA DO ATENTADO

O DIA DO ATENTADO (Patriots Day, 2016, Bluegrass Films/CBS Films/Closest to the Hole Productions, 133min) Direção: Peter Berg. Roteiro: Peter Berg, Matt Cook, Joshua Zetumer, estória de Peter Berg, Matt Cook, Paul Tamasy, Eric Johnson. Fotografia: Tobias A. Schliessler. Montagem: Gabriel Fleming, Colby Parker Jr.. Música: Trent Reznor, Atticus Ross. Figurino: Virginia Johnson. Direção de arte/cenários: Tom Duffield/Ronald R. Reiss. Produção executiva: Louis G. Friedman, Eric Johnson, Nicholas Nesbitt, John Logan Pierson, Paul Tamasy, Dan Wilson. Produção: Dorothy Aufiero, Dylan Clark, Stephen Levinson, Hutch Parker, Michael Radutzky, Scott Stuber, Mark Wahlberg. Elenco: Mark Wahlberg, Kevin Bacon, Michelle Monaghan, J.K. Simmons, John Goodman. Estreia: 17/11/16

Algo semelhante já havia acontecido em 1974, quando dois projetos diferentes com o mesmo tema - no caso um incêndio de grandes proporções em um arranha-céu - se transformaram em um único filme, o mastodôntico "Inferno na torre", dirigido por John Guillermin e estrelado por gente do naipe de Paul Newman, Steve McQueen, Faye Dunaway e Fred Astaire. "O dia do atentado" não tem o mesmo escopo milionário, mas tem uma origem semelhante: dois roteiros independentes que, com o mesmo pano de fundo, se fundem em um mesmo produto, com intenções e ritmos distintos para atingir todos os públicos possíveis. Assim, o mesmo filme se divide em um quase documentário sobre o trágico atentado na Maratona de Boston em 2013 -  com detalhes sobre a investigação que levou aos culpados e momentos de ação e suspense - e um drama a respeito das vítimas e seus familiares, assim como todos os envolvidos na busca pelos criminosos. Centrada principalmente em um personagem criado especialmente para o filme como um amálgama de vários policiais da cidade, a terceira colaboração entre o diretor Peter Berg e o ator Mark Wahlberg é um competente entretenimento, mas que peca justamente por sua falta de foco. Quando se concentra no melhor que Berg sabe fazer (uma obra tensa e eficiente de suspense) é um ótimo filme. Quando busca a emoção mais sutil acaba por perder o ritmo imposto por algumas sequências de tirar o fôlego.

Assim como no ótimo "O grande herói" (2014) e no apenas mediano "Horizonte profundo" (2016) - as colaborações anteriores do cineasta com Wahlberg - o roteiro de "O dia do atentado" tem como objetivo realçar os momentos mais valorosos de seus protagonistas, mas nem sempre o equilíbrio funciona nesse terceiro capítulo. À vontade quando dirige sequências mais tensas e tecnicamente complexas, Berg parece não ter a mesma desenvoltura em comandar momentos de maior emoção - o que acaba por fazer com que seu filme, por mais que tente fugir do rótulo, seja mais um exemplar de um gênero que tem fãs incondicionais ao redor do mundo: "O dia do atentado" até se esforça em ser mais do que um filme policial de ação, mas sua vocação para entretenimento rápido (mais do que um drama edificante e memorável) fica evidente sempre que suas câmeras passam do sofrimento nos hospitais para a adrenalina das ruas. Com uma edição competente e um desenho de som inteligente, a corrida atrás dos responsáveis por um dos mais graves atentados à bomba em território americano da história é muito mais empolgante e interessante do que os cuidados médicos a suas vítimas. Coincidência ou não, o filme "O que te faz mais forte", estrelado por Jake Gyllenhaal (e que conta a trajetória de um dos sobreviventes) foca mais no drama pessoal do protagonista - e acaba sendo um complemento à obra de Berg.


Ao contrário da maioria dos filmes norte-americanos que recriam as tragédias ocorridas em seu solo como produções de heroísmo pessoal (vide "Torres gêmeas", de Oliver Stone e o próprio "Horizonte profundo", do mesmo Peter Berg), "O dia do atentado" demora a estabelecer-se como um filme de ação, preferindo gastar seus preciosos minutos iniciais apresentando alguns dos personagens que irão conviver com o público pelas duas horas seguintes. É assim que surge o Sargento Tommy Saunders (Mark Wahlberg sem muito o que fazer e sem a importância que alguns cartazes fazem entender): casado com a bela Carol (Michelle Monaghan), ele se destaca no trabalho pelas ruas de Boston, cidade a que conhece como a palma da mão. É ele quem irá ser a peça crucial na caçada aos irmãos Tsarnaev - os culpados pela explosão de uma bomba junto aos espectadores da tradicional maratona da cidade. Antes que a caçada comece, no entanto, o roteiro faz questão de introduzir à audiência outros nomes fundamentais da história, como o casal Patrick Downes (Christopher O'Shea) e Jessica Kinsky (Rachel Brosnahan), a jovem cientista Li (Lana Condor), o estudante Dun Meng (Jimmy O. Yang) e Steve Woolfenden (Dustin Tucker) e seu filho pequeno: todos serão vítimas, em maior ou menor grau, do violento incidente, e Berg cuida para não exagerar na sacarose, tratando seus personagens com respeito e cuidado - mesmo que posteriormente os acabe deixando em segundo plano).

Depois de explosão - antecedida com sequências que mostram sua preparação pelos irmãos Tamerlan (Themo Melikidze) e Dzokhar (Alex Wolff) - a trama de "O dia do atentado" finalmente se bifurca, convidando a plateia para testemunhar a agonia das vítimas da explosão (nada de muito sofisticado emocionalmente ou tampouco inédito) e a corrida dos policiais do FBI, liderados pelo agente especial Rick Deslauriers (Kevin Bacon), atrás dos responsáveis. As longas sequências pelas ruas da cidade, em uma noite particularmente tensa e violenta, são preciosas, mostrando o cuidado do diretor em ser ao mesmo tempo realista e capaz de envolver o público com as ferramentas básicas do suspense. São momentos em que o filme cresce e atinge todo o seu potencial - algo que o mesmo diretor fez em "O grande herói", uma produção de guerra que explora todos os elementos do gênero de forma inteligente e honesta. A opção do roteiro em não fazer de Tommy Saunders um herói individual é corajosa, uma vez que o público espera algo assim de um filme de ação, mas acaba, paradoxalmente, enfraquecendo um pouco seu clímax - apesar de ele ser, ainda assim, potente o bastante para grudar a plateia na poltrona. No fim das contas, "O dia do atentado" é um bom filme de ação, com algumas doses de drama e um domínio técnico invejável de sua equipe. Não é inesquecível, mas está um patamar acima da média das produções do gênero simplesmente por não subestimar a inteligência do espectador.

domingo

INSIDE LLEWYN DAVIS - BALADA DE UM HOMEM COMUM

INSIDE LLEWYN DAVIS - BALADA DE UM HOMEM COMUM (Inside Llewyn Davis, 2013, CBS Films/StudioCanal, 104min) Direção e roteiro: Ethan Coen, Joel Coen. Fotografia: Bruno Delbonnel. Montagem: Roderick Jaynes. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Susan Bode Tyson. Produção executiva: Olivier Courson, Robert Graf, Ron Halpern. Produção: Ethan Coen, Joel Coen, Scott Rudin. Elenco: Oscar Isaac, Carey Mulligan, Justin Timberlake, Ethan Phillips, Max Casella, Adam Driver, John Goodman, Garrett Hedlund, F. Murray Abraham. Estreia: 19/5/13 (Festival de Cannes)

2 indicações ao Oscar: Fotografia, Mixagem de Som

Não adianta. Entra ano e sai ano, os irmãos Coen continuam sendo uma voz única (por mais paradoxal que seja a afirmação, uma vez que eles são dois) dentro da mesmice do cinema americano. Mesmo que por vezes aceitem fazer o jogo da indústria - com filmes mais comerciais, como "O amor custa caro" e "Queime depois de ler", que ainda assim tem um quê de rebeldia disfarçada pelos elencos estelares - eles nunca abrem mão de imprimir em cada trabalho uma personalidade que os diferenciam do mainstream. Mais uma prova disso - se é que precisa de mais uma - é o melancólico "Inside Llewyn Davis, balada de um homem comum", injustamente ignorado pela mesma Academia que encheu de louvores o fraco e previsível "Clube de compras Dallas". Repleto das qualidades que fazem da filmografia dos Coen uma das mais consistentes do cinema ianque desde sua estreia com a revisita ao filme noir "Gosto de sangue" (84), a odisseia do músico folk do título, vivido com intensidade crua pelo ótimo Oscar Isaac, é uma pérola de sensibilidade, humor negro e boa música, capaz de envolver a audiência sem precisar de grandes eventos dramáticos para isso.

Llewyn Davis, o protagonista, é um cantor folk sem lar, sem lenço e sem documento que transita pelo Greenwich Village de 1961, buscando uma chance de firmar-se na carreira depois do suicídio do parceiro artístico. Seguindo o vento, ele conta com a ajuda dos amigos para sobreviver sem um endereço fixo - mesmo que em várias ocasiões surjam conflitos sérios entre eles, especialmente com Jean (Carey Mulligan, mais uma vez ameaçando roubar a cena), namorada e parceira musical do talentoso Jim (o cantor Justin Timberlake acertando mais uma vez em sua carreira cinematográfica), que lhe revela estar grávida depois de um rápido e traumático caso. Sua vida itinerante o faz questionar frequentemente sua opção em tentar a vida artística, mas seu amor pela música sempre fala mais alto, mesmo quando tudo parece lhe gritar o contrário. Solitário e melancólico, ele vaga sem destino pelas ruas de Nova York - e Chicago - acompanhado apenas por um gato do qual nem sabe o nome e de seu violão, sua arma contra a mediocridade e a agressividade de um mundo hostil à sua presença quase invisível.





Tendo sua trajetória ilustrada pela excepcional trilha sonora supervisionada por T Bone Burnett (que fez o mesmo com "Coração louco", que deu o Oscar de melhor ator a Jeff Bridges em 2010) e iluminada magistralmente pela câmera do francês Bruno Delbonnell (merecidamente indicada a uma estatueta da Academia), que transforma cada cena em uma pequena obra de arte que reflete seu estado de espírito atormentado mas sempre inquebrantável, Llewyn Davis é mais um anti-heroi criado pelos irmãos Coen, um homem que, conforme destaca o desnecessário subtítulo nacional, é comum em seus sentimentos mas brilhante em sua tenacidade artística. Seus expressivos silêncios, seu olhar triste e a força de sua música - passional e potente - falam mais do que seus diálogos, repletos de um desamparo e de uma desesperança que contrastam com sua resiliência. Exímios roteiristas, os irmãos Coen preenchem seu filme ora com ataques agressivos ao protagonista - em especial quando se trata de Jean e sua metralhadora de ofensas - ora com um senso de humor negro sutil e inteligente. Em uma jogada de mestre, eles ainda dão a seu protagonista uma revelação bombástica, que pode (ou não) mudar drasticamente seu destino e fazem a escolha certa em relação à sua decisão de encará-la.


Brilhantemente interpretado por Oscar Isaac - ator nascido na Guatemala e que já foi visto mas pouco notado em filmes como "Drive" (onde fazia o marido de Carey Mulligan) e "W/E, o romance do século" (dirigido por Madonna) - Llewyn Davis passa o filme inteiro lutando contra os obstáculos de um cotidiano opressor e preto-e-branco contando apenas com sua quase implacável confiança em seu talento quase nunca devidamente reconhecido (e é diferente na vida real?). Passando por momentos ora surreais - como a carona com um desagradável John Goodman, colaborador habitual dos cineastas - ora de um tristeza quase tangível, o filme conquista pela sofisticação de sua narrativa e pela delicadeza estonteante de seu visual. É um pequeno grande filme que merece ser reconhecido como tal - nem que seja para provar que nem só de elaborados efeitos especiais vive o cinema americano.

terça-feira

ARGO

ARGO (Argo, 2012, Warner Bros, 120min) Direção: Ben Affleck. Roteiro: Chris Terrio, livro "The master of disguise", de Antonio J. Mendez e artigo "The great escape", de Joshuah Bearman. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: William Goldenberg. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Sharon Seymour/Jan Pascale. Produção executiva: Chris Brigham, Chay Carter, Tim Headington, Graham King, David Klawans. Produção: Ben Affleck, George Clooney, Grant Heslov. Elenco: Ben Affleck, John Goodman, Alan Arkin, Bryan Cranston, Victor Garber, Chris Messina, Tate Donovan, Kyle Chandler, Zeljko Ivanek, Clea DuVall, Scott McNairy, Rory Cochrane, Christopher Denham, Kerry Bishé, Bob Gunton. Estreia: 31/8/12 (Festival de Telluride)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Alan Arkin), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 3 Oscar: Melhor Filme, Roteiro Adaptado, Montagem
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Melhor Diretor (Ben Affleck)

Desde que chegou pela primeira vez às telas, no Festival de Cinema de Telluride, em agosto de 2012, o terceiro longa-metragem do ator medíocre tornado diretor talentoso Ben Affleck começou as especulações a respeito de suas possíveis indicações ao Oscar. Nada mais justo. Enxuto, sóbrio e contando uma inacreditável história real ainda bastante relevante em uma época de constantes conflitos raciais e políticos, "Argo" conquistou a crítica e merecidos Golden Globes de melhor drama e diretor. Infelizmente a Academia não foi assim tão generosa, deixando o amigo de Matt Damon de fora do páreo e diminuindo as chances da vitória na categoria principal. Mesmo assim, indicado em 7 categorias, "Argo" deu a volta por cima e riu por último, convertendo 3 das mais importantes indicações em estatuetas douradas: melhor filme, roteiro adaptado e montagem - todos eles prêmios justos e bastante merecidos.

Tendo entre seus produtores o ator George Clooney - que tinha planos de dirigir e estrelar o filme desde 2007 - "Argo" encontrou em Ben Affleck um comandante dos melhores. Assumindo também o papel principal que quase ficou com Brad Pitt, ele consegue a proeza de deixar a vaidade de lado para focar-se totalmente na história, ocorrida em 1980 e que se manteve secreta até meados da década seguinte. Sem querer tornar-se maior do que os acontecimentos, ele dá também a oportunidade a seus atores brilharem sem fazer muito esforço - o que inclui o ótimo Bryan Cranston (consagrado pela série de TV "Breaking bad") e o veterano Alan Arkin, indicado ao Oscar de coadjuvante. Dono de um belo roteiro, que não obriga o espectador a ter prévio conhecimento dos fatos que retrata (ao menos em profundidade), explicando-os de forma clara mas nunca exageradamente didática, o filme apresenta a seu público uma história bem contada e discreta em suas ambições, mas que acaba sendo fascinante justamente por isso.


A história começa em 1979, quando um grupo de mais de 50 diplomatas americanos é mantido refém na embaixada dos EUA no Irã por um grupo de revolucionários que exigem o repatriamento de seu xá. No entanto, um grupo de seis colegas consegue escapar e encontra proteção na casa do embaixador canadense Ken Taylor (Victor Garber). Alguns meses depois, ao perceber que as coisas não parecem se encaminhar para um final feliz imediato, a CIA pede ajuda a Tony Mendez (interpretado com discrição pelo próprio Affleck), especialista em repatriamentos de emergência. Depois de pensar em várias possibilidades, o agente tem a ideia - a princípio tida como absurda, mas depois aceita com ressalvas por seus superiores - de disfarçar os reféns como uma equipe canadense de filmagens em busca de locações para um filme de ficção científica chamado "Argo". Contando com o apoio do produtor de cinema Lester Siegel (Alan Arkin) e do maquiador John Chambers (John Goodman), Mendez cria uma verdadeira operação de guerra que inclui campanha de marketing em jornais temáticos, passaportes falsos e biografias inventadas. Com tudo pronto, ele embarca para Teerã com o objetivo de trazer todos os seis conterrâneos sãos e salvos para casa.

O maior mérito do roteiro de Chris Terrio - baseado em um livro escrito pelo próprio Mendez, que foi um dos apresentadores do Golden Globe de 2013 - é manter o ritmo e o suspense durante todo o tempo de projeção, mesmo contando uma história cujo final hoje em dia é amplamente conhecido. Mesmo que exagere um bocadinho na sequência final, aumentando a tensão de forma a tornar o filme mais palatável como entretenimento hollywoodiano, o script de Terrio acerta em intercalar com maestria os preparativos para a fuga com as dúvidas dos reféns e a constante ameaça dos revolucionários, sem apelar para heroísmos baratos ou vilanias maniqueístas. Ainda que seja claro quem é quem - americanos do bem contra iranianos do mal - não existe, no resultado final, aquele ranço tão ufanista que estraga boa parte do cinema que se propõe político. A ideia de Affleck não é levantar bandeiras e sim contar uma bela história. E isso ele consegue com louvor, fazendo de "Argo" um dos grandes filmes de seu tempo.

sábado

O VOO

O VOO (Flight, 2012, Paramount Pictures, 138min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: John Gatins. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Jeremiah O'Driscoll. Música: Alan Silvestri. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Nelson Coates/James Edward Ferrell Jr.. Produção executiva: Cherylanne Martin. Produção: Laurie MacDonald, Walter F. Parkes, Jack Rapke, Steve Starkey, Robert Zemeckis. Elenco: Denzel Washington, John Goodman, Don Cheadle, Bruce Greenwood, Kelly Reilly, Melissa Leo, Brian Geraghty, James Badge Dale. Estreia: 14/10/12 (Festival de Nova York)

2 indicações ao Oscar: Ator (Denzel Washington), Roteiro Original

Levando-se em consideração que a filmografia de Robert Zemeckis inclui a trilogia "De volta para o futuro", o revolucionário "Uma cilada para Roger Rabbit" e o megapremiado "Forrest Gump" - e que desde "Náufrago", de um distante ano 2000 ele não brindava seu público com filmes em live-action - não deixa de ser surpreendente ver seu nome assinando "O voo", uma produção simples, honesta e humana e que, excetuando-se uma tensa sequência que mostra um acidente aéreo, prescinde de efeitos visuais e artifícios estilísticos para conquistar a plateia. Depois de uma sucessão de trabalhos cujo visual importava mais do que o conteúdo, o mais bem-sucedido discípulo de Steven Spielberg marcou sua volta de maneira discreta mas bastante eficiente. Com uma renda de mais de 90 milhões de dólares no mercado americano - contra seu custo de apenas 30 milhões - "O voo" ainda conseguiu agradar à crítica e à Academia de Hollywood, que o brindou com duas indicações ao Oscar: roteiro original e ator - Denzel Washington em uma atuação bem mais contida do que o normal e consequentemente mais humana e passível de identificação com o espectador.

Afeito à personagens heroicas e/ou arrogantes, Washington se sai notavelmente bem em um papel que foge de sua zona de conforto. Whip Whitaker, o piloto de aviões alcóolatra e viciado em drogas que consegue milagrosamente evitar uma tragédia de grandes proporções e depois se vê acossado por seus superiores e pela própria consciência é uma das melhores personagens de sua carreira, lhe proporcionando a chance de explorar nuances de seu talento até então escondidos sob a camada de exarcebada autoestima que seus trabalhos anteriores insinuavam. Poucas vezes o público viu Denzel tão frágil e inseguro e esse risco - talvez calculado, mas eficiente - é a maior qualidade de um filme, que, mesmo mantendo o interesse da plateia até seu final, não consegue deixar de esbarrar em alguns clichês. Ainda assim, é um filme acima da média, graças a uma união de talentos que não tinha como dar errado.


Dirigido com firmeza e sutileza por um Robert Zemeckis de volta à sua atenção às personagens e seus atores - qualidade que lhe rendeu um Oscar por "Forrest Gump" e que sempre ficou muito em evidência em seus trabalhos, mesmo os menos sérios - "O voo" é, na verdade, totalmente centrado na figura de Whitaker, um homem em constante luta contra seus fantasmas que, depois do desastre do avião que pilotava (mesmo calibrado de álcool e cocaína) vê suas certezas abaladas e tenta reencontrar seu caminho - e sente-se pressionado por uma investigação que pode dar fim à sua carreira. Zemeckis acerta em centrar a trama nas costas capazes de Washington, mas de certa forma isso acaba deixando de lado algumas possibilidades interessantes - como sua relação com a jovem viciada Nicole (Kelly Reilly), tratada de forma um tanto desajeitada pelo roteiro, escrito com seriedade e grande senso de ritmo. Sem ter muito onde apoiar-se - até mesmo as cenas de tribunal soam apenas corretas e não empolgantes, apesar do auxílio luxuoso de Melissa Leo - resta ao ator (indicado ao Oscar, mas sem muitas chances de vitória ao encarar Daniel Day-Lewis e sua recriação de Abraham Lincoln no filme de Spielberg) dar seu show particular, o que com certeza agrada a seus fãs e pode conquistar outros.c

"O voo" é um belo drama, dirigido com competência e estrelado por um ator em um grande momento. Pode não ser excepcional ou inesquecível, mas cumpre o que promete sem aborrecer ao espectador. Em uma temporada repleta de obras ambiciosas e morosas como os louvados "Lincoln" e "Os miseráveis", não deixou de ser um oásis de simplicidade e concisão - e que entrega a John Goodman um dos melhores papéis de sua carreira, como o amigo e fornecedor de drogas do protagonista que tem suas cenas ilustradas com canções dos Rolling Stones. É um alívio cômico não exagerado que ajuda personagem e plateia a respirar por alguns minutos diante de tanto drama.

TÃO FORTE, TÃO PERTO

TÃO FORTE, TÃO PERTO (Extremely loud & incredibly close, 2011, Warner Bros, 129min) Direção: Stephen Daldry. Roteiro: Eric Roth, romance de Jonathan Safran Foer. Fotografia: Chris Menges. Montagem: Claire Simpson. Mùsica: Alexandre Desplat. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: K.K. Barrett/George De Titta Jr. Produção executiva: Celia Costas, Mark Roybal, NOra Skinner. Produção: Scott Rudin. Elenco: Tom Hanks, Sandra Bullock, Thomas Horn, Max Von Sydow, Viola Davis, Jeffrey Wright, John Goodman, Zoe Campbell. Estreia: 25/12/11

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Max Von Sydow)

O inglês Stephen Daldry tem uma boa folha de serviços prestados ao cinema desde sua estreia com o lírico “Billy Elliot” (00), que de cara lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor diretor. Depois, voltou ao páreo pelo brilhante “As horas” (02) – que deu à Nicole Kidman a estatueta de melhor atriz – e pelo dramático “O leitor” (08) – que também premiou sua protagonista, Kate Winslet, com uma estatueta dourada. De seus três primeiros (e ótimos) filmes, dois foram homenageados pela Academia com uma indicação ao Oscar máximo, o que encheu o público e a crítica de expectativas em relação a seu quarto trabalho. A estreia de “Tão forte e tão perto”, no entanto, mostrou que todo mundo corre o risco de errar. Mesmo arrebatando uma quase inexplicável indicação ao Oscar de melhor filme – um quase que pode ser compreendido pelos humores da parcela mais conservadora da Academia – e tendo conquistado alguns críticos, o filme de Daldry é uma decepção quase total, principalmente por ter como seu maior e mais irrecuperável defeito a péssima escolha de seu ator principal. Ao contrário do que aconteceu quando Jamie Bell saiu do anonimato para dar vida e alma ao menino que sonhava com o balé em “Billy Elliot”, a opção pelo novato Thomas Horn para protagonizar “Tão forte, tão perto” arruinou todo o projeto de Daldry. Descoberto em um programa de perguntas e respostas da TV americana, Horn faz com que assistir-se ao filme se torne uma tortura quase insuportável. E não é preciso ser cientista da NASA para saber que quando um protagonista (a base de qualquer filme, afinal) não tem empatia com o público, não há marketing milagroso o suficiente para salvá-lo da ruína.
Ok, “Tão forte e tão perto” não chega a ser uma ruína completa – Daldry é um diretor de muito talento para perder tanto a mão, e os coadjuvantes são admiráveis (inclui-se aqui Tom Hanks em uma participação especial mas essencial ao estabelecimento da trama, Max Von Sydow em uma interpretação indicada ao Oscar e Viola Davis injetando humanidade em cada cena que aparece). Mas para cada qualidade que apresenta – a edição de Claire Simpson, com momentos brilhantes e a bela trilha sonora de Alexandre Desplat – existe uma série de problemas que impedem o espectador de mergulhar sem reservas na história criada pelo escritor Jonathan Safran Foer. O primeiro deles – e o maior, a ponto de praticamente anular o que o filme tem de bom – é, como afirmado anteriormente, o protagonista. Não apenas o personagem é chato, irritante, mimado e histérico, como seu intérprete consegue – ao invés de diluir tais características pouco louváveis – ampliá-las ainda mais. A cada cena em que Thomas Horn aparece na pele do herói da história, Oskar Schell, gritando, esperneando e xingando quem aparece em sua frente, é uma tentação imensa não abandonar a trama, por mais interessante que ela pudesse ter parecido em seu princípio.
E, é preciso reconhecer, o pontapé inicial é instigante: o atentado às Torres Gêmeas em onze de setembro de 2001 deixa órfão de pai o excêntrico Oskar Schell, um menino com problemas em interatividade social – a ponto de ter sido considerado suspeito de portar a Síndrome de Asperger – e que, devido a seu modo especial de comportamento, dedica-se a atividades que requerem o máximo de atenção e método. A perda da referência paterna joga Oskar em um estado ainda mais particular de existência – as caças ao tesouro promovidas por Thomas (Tom Hanks) pela cidade de Nova York e pelo Central Park cessam por completo e ele não consegue ligar-se satisfatoriamente com a mãe, Linda (Sandra Bullock, que não ajuda nem atrapalha). A chance de reconectar-se com o passado surge, porém, quando o menino encontra, sem querer, uma chave guardada dentro de um pequeno envelope dirigido a alguém com o nome Black. Crente de que tal objeto faz parte de mais um enigma proposto por Thomas, o menino começa então uma jornada detalhada – e matematicamente assustadora – para tentar localizar o dono da chave. No caminho, encontra todo tipo de pessoa, o que o irá obrigar a lidar com uma realidade com a qual ele nunca antes havia tido contato.

A busca de Oskar pela resolução do enigma da chave misteriosa e da identidade de Black é interessante: o roteiro do premiado Eric Roth (Oscar por “Forrest Gump: o contador de histórias”) é bem amarrado e prende como pode a atenção da plateia, com personagens coadjuvantes irresistíveis como a doce Abby (interpretada por Viola Davis) e outros que, mesmo sem uma linha de diálogo, conseguem emocionar com seus dramas pessoais. Quando Max Von Sydow entra em cena, então, tudo parece que vai finalmente deslanchar: surdo-mudo graças a um trauma pessoal, seu personagem (que paga pelo aluguel em um quarto na casa da avó de Oskar e junta-se a ele na peregrinação em busca de respostas) rouba o filme em poucos minutos – mas então seu silêncio esbarra na histeria do protagonista juvenil e tudo vai por água abaixo. O primeiro encontro entre os dois – quando o menino conta sua história ao calado interlocutor – poderia ser empolgante, com seu texto inteligente e montagem ágil: na voz irritante de Thomas Horn é quase uma tortura. E se levarmos em consideração o quão frágil é o clímax do filme, o final da sessão dá uma violenta sensação de tempo perdido.
Mas é apenas uma sensação. “Tão forte e tão perto” é bem dirigido, bem escrito, bem editado e tem algumas qualidades quase redentoras, como Von Sydow, Viola e Tom Hanks. A história é interessante, há momentos de real emoção e – o que ainda é raro no cinema americano – o trauma do 11/9 é tratado sob um viés humano e sensível. Mas, levando-se em conta o quão boa poderia ter sido a união de tanta gente talentosa, não deixa de ser um filme frustrante e bastante chato. Um escorregão na carreira até então brilhante de Stephen Daldry.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...