A CASA DO FIM DO MUNDO (A home at the end of the world, 2004, Warner Independent Pictures, 97min) Direção: Michael Mayer. Roteiro: Michael Cunningham, romance de sua autoria. Fotografia: Enrique Chediak. Montagem: Andrew Marcus, Lee Percy. Música: Duncan Sheik. Figurino: Beth Pasternak. Direção de arte/cenários: Michael Shaw/Mark Steel. Produção executiva: Michael Hogan, John Sloss. Produção: John N. Hart Jr., Tom Hulce, Pamela Koffler, Katie Roumel, Jeffrey Sharp, Christine Vachon, John Wells. Elenco: Colin Farrell, Dallas Roberts, Robin Wright Penn, Sissy Spacek, Erik Smith, Harris Allan. Estreia: 09/6/94
Michael Cunningham é um excelente escritor. Vencedor do Pulitzer por "As horas" - que deu origem ao filme vencedor do Oscar de melhor atriz (Nicole Kidman) - e autor devidamente reconhecido pela qualidade consistente de seus personagens, ele achou que poderia, também, virar roteirista de cinema. Porém, uma coisa é escrever um romance, com espaço para divagações e aprofundamentos psicológicos e outra bem diferente é colocar em imagens as situações e personagens imaginadas - especialmente quando não se tem muito tempo para isso. É por isso que "A casa do fim do mundo", baseado em um livro escrito por ele mesmo, não funciona como poderia em sua transição para as telas. Enquanto "As horas" foi adaptado pelo dramaturgo David Hare, acostumado com a linguagem dramática e experiente em dotar de ritmo até mesmo um enredo truncado por uma estrutura que comportava três tempos diferentes, a versão para as telas de "Uma casa no fim do mundo" (título bem mais apropriado, apesar da pequena diferença) não chega nem aos pés do material original, esvaziando seus personagens e a trama central e banalizando sua discussão a respeito de amizade, amor e definições de família.
Prejudicado pela inexperiência de seu diretor, Michael Mayer, estreando em longas-metragem, e pelo roteiro superficial (uma decepção, haja visto que Cunningham é um escritor comprovadamente capaz), "A casa do fim do mundo" não atinge nem de longe todo o seu potencial. Começando pelas caracterizações um tanto óbvias e preguiçosas, passando por um desenvolvimento sonolento e culminando com um final anticlimático, o filme desperdiça bons atores em uma produção que nem ao menos tenta ser ousada ou corajosa. Os personagens, riquíssimos nas páginas do romance, parecem apenas estereótipos na tela, clichês ambulantes que não conseguem cativar o espectador ou sequer interessá-lo em uma trama que corre aos tropeções, sem nenhuma sutileza ou emoção. Some-se a isso a falta de carisma de Dallas Roberts - um dos protagonistas - e a falta de química entre Colin Farrell e Robin Wright (então ainda assinando com o sobrenome de Sean Penn) e o resultado é desastroso. Só não é pior porque, apesar da direção sem inspiração, Farrell e Wright são sensacionais e compensam (quase) todos os deslizes.
Assim como no livro, a estória começa mostrando o início da amizade entre Bobby e Jonathan, dois adolescentes que, em 1974, estão prestes a se aventurar no mundo das drogas e do sexo. Bobby é traumatizado pela morte trágica do irmão mais velho, e vive com o pai alcóolatra desde que perdeu a mãe - o que o faz aproximar-se ainda mais de Alice (Sissy Spacek), a mãe de Jonathan. O relacionamento dos rapazes vai ficando cada vez mais íntimo (em todos os quesitos) e eles se separam apenas quando Jonathan abandona Cleveland para estudar em Nova York. Alguns anos mais tarde, Bobby (já na pele de Colin Farrell, um tanto deslocado no papel) resolve procurar o velho amigo e tentar a vida longe da zona de conforto. É então que chega ao apartamento onde Jonathan (interpretado pelo novato Dallas Roberts) vive com Clare (Robin Wright Penn), uma mulher um pouco mais velha com quem ele mantém um relacionamento pouco tradicional. Logo Bobby e Clare se envolvem - a despeito dela ser apaixonada por Jonathan - e os três passam a viver juntos, como uma atípica família. As coisas avançam quando Clare fica grávida e todos eles resolvem se mudar para uma propriedade afastada, perto de Woodstock.
Os lances dramáticos da trama, costurados com delicadeza no romance, são jogados ao espectador sem muita parcimônia, na adaptação feita por Cunningham. Todas as nuances que envolvem o triângulo amoroso central - Bobby ama Clare, que ama Jonathan, que ama Bobby - são desenvolvidos quase com medo, sem aprofundamento algum. Temas como a homossexualidade de Jonathan, seu relacionamento com Bobby e a doença que os aproxima ainda mais, são tratados sem a delicadeza esperada - assim como a relação entre Clare e Bobby, que soa abrupta e inverossímil. O próprio Bobby é dono de uma inocência tão grande que é difícil de acreditar, principalmente porque Colin Farrell - um ótimo ator, fato já demonstrado diversas vezes - soa desconfortável em boa parte do filme. Além disso, tudo parece muito fácil para os protagonistas: não há conflitos, não há grandes problemas (ao menos na forma como tudo é tratado pelo roteiro) e até o final é completamente incoerente. Uma pena que um livro tão formidável tenha sido adaptado com tão pouco cuidado justamente por seu autor. Poderia ser mais uma obra-prima, mas é apenas um filme muito aquém de suas possibilidades.
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segunda-feira
INTRIGAS DE ESTADO
INTRIGAS DE ESTADO (State of play, 2009, Universal Pictures/Working Title Films, 127min) Direção: Kevin MacDonald. Roteiro: Matthew Michael Carnahan, Tony Gilroy, Billy Ray, série de televisão de Paul Abbott. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Justine Wright. Música: Alex Heffes. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Cheryl Carasik. Produção executiva: Paul Abbott, Liza Chasin, Debra Hayward, E. Benneth Walsh. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Andrew Hauptman. Elenco: Russell Crowe, Ben Affleck, Rachel McAdams, Helen Mirren, Robin Wright, Jason Bateman, Jeff Daniels, Viola Davis, David Harbour. Estreia: 17/4/09
Na falta de bons roteiros originais, ou ao menos na falta de coragem de investir em ideias novas, Hollywood constantemente volta sua atenção para materiais já previamente testados, seja em livros, histórias em quadrinhos ou até mesmo em clássicos queridos pelo público. Nessa ânsia por encontrar boas histórias, nem ao menos programas de televisão são poupados. Um exemplo dessa afirmação é "Intrigas de estado", uma produção de primeira linha, com atores famosos e consagrados, um estúdio tradicional (Universal Pictures) e um diretor promissor que tem origem em uma série da BBC inglesa, levada ao ar em 2003. Com uma sutil mudança em um crucial detalhe da trama - substituiu-se uma companhia de petróleo por uma agência militar - e a tentativa de condensar seis episódios em palatáveis duas horas de duração, o filme de Kevin MacDonald (de "O último rei da Escócia", que deu o Oscar de melhor ator a Forest Whitaker em 2007), o filme acabou por passar quase em branco nos EUA e não conquistar nem mesmo a boa vontade da crítica, apesar de contar com um elenco de primeira e com um tema bastante inflamável em um país ainda em estado de nervos com os constantes conflitos no Oriente Médio.
Aliás, o escocês Kevin MacDonald nem foi a primeira escolha do estúdio para comandar "Intrigas de estado", cuja pré-produção foi uma verdadeira dança das cadeiras. O primeiro nome cotado para a direção foi o de Edward Zwick, que nem chegou a manter-se por muito tempo no cargo. Antes de MacDonald finalmente assinar com o estúdio, nomes tão díspares quanto Ang Lee, Richard Linklater, Jim Jarmusch e Brian DePalma foram sondados - e, obviamente, cada um deles certamente daria um enfoque e um estilo diferentes ao roteiro. Com um cineasta como MacDonald (competente mas sem a força suficiente para chamar público por si só) à frente do projeto, apenas um elenco de peso poderia equilibrar as coisas - e nesse ponto nenhum produtor estava disposto a brincadeiras. A princípio o filme reuniria Brad Pitt e Edward Norton quase dez anos depois de seu cultuado "Clube da luta" (1999), o que imediatamente acendeu o interesse de todo mundo. Porém, uma greve de roteiristas tirou Pitt do filme (o ator queria que partes do roteiro fossem reescritas) e o atraso acabou por também afastar Norton. Ben Affleck imediatamente embarcou em seu lugar, mas antes que Russell Crowe assumisse o lugar de Brad, outros astros foram cogitados para o papel - mais precisamente Nicolas Cage, Johnny Depp e Tom Hanks. Com Robin Wright (ainda Penn) e Rachel McAdams nos principais papéis femininos e Helen Mirren substituindo o conterrâneo Bill Nighy na pele da editora-chefe do Washigton Globe, tudo parecia garantir uma vitória certa. Porém, a bilheteria tímida de pouco mais de 37 milhões de dólares no mercado doméstico mostrou que nem sempre uma receita de sucesso funciona como o esperado. E nesse caso específico, somente a aversão das plateias a qualquer trama remotamente ligada às guerras do governo Bush pode explicar.
Não há nada de flagrantemente errado em "Intrigas de estado": o roteiro é inteligente e com um bom número de reviravoltas; a direção de MacDonald é sóbria e competente (ainda que sem brilho); o elenco é homogêneo (apesar das caras e bocas de Ben Affleck) e o ritmo é eficiente, mérito da edição ágil de Justine Wright, da fotografia precisa de Rodrigo Prieto e da trilha sonora de Alex Heffes. Então por que a receptividade tão morna (ou até mesmo fria)? Talvez seja mesmo o fato de que produções que tem as guerras no Oriente Médio nunca conquistarem boas bilheterias - nem mesmo quando juntam um time como Matt Damon e o diretor Paul Greengrass, que apesar do sucesso de seus filmes sobre Jason Bourne amargaram o naufrágio de "Zona verde" em 2010. Mas é também preciso reconhecer que, apesar da reunião de talentos e da história instigante, "Intrigas de estado" é um filme apenas correto, sem aquele tempero que transforma um mero entretenimento em um filme inesquecível. Talvez seja a falta de química entre Russell Crowe (ótimo ator mas em modo piloto automático) e Ben Affleck (péssimo ator que mata a dubiedade de seu personagem graças às suas limitações dramáticas). Talvez seja o foco confuso - afinal, qual das tramas é realmente a mais importante? Ou talvez seja mesmo porque a história simplesmente falha em cativar o interesse da plateia e seus personagens sejam desprovidos de qualquer carisma.
O filme até que começa bem: pelas ruas de Washington, um homem é perseguido por outro e, quando finalmente se vê encurralado, morre a tiros. Um ciclista que passava no local também é atingido pelo criminoso e, no dia seguinte, a jovem Sonia Baker (Maria Thayer) morre em um misterioso acidente no metrô da cidade. Sua morte é manchete, uma vez que ela fazia parte de uma comissão que investigava a fundo uma empresa privada em vias de tornar-se a responsável pela segurança militar dos EUA. Seu trágico e inesperado fim também revela um romance secreto com Stephen Collins (Ben Affleck), um senador casado que é um dos principais integrantes da comissão. O "acidente" chama a atenção da jovem e ambiciosa repórter Della Frye (Rachel McAdams), que vê no caso a oportunidade de mudar de status dentro do Washington Globe. Para isso, ela conta com a ajuda do veterano Cal McAffrey (Russell Crowe), que, não apenas tem interesse jornalístico no caso: ele é amigo pessoal de Collins - e viveu um apaixonado romance com a esposa dele, Ann (Robin Wright Penn). Conforme as investigações avançam, McAffrey chega à conclusão de que terá de decidir entre acreditar ou não no velho amigo, que pode ter muito mais responsabilidade nas mortes do que aparenta.
A questão é: vale a pena gastar duas horas assistindo a "Intrigas de estado"? Sim e não. O produto final é um filme obviamente bem produzido, com uma equipe acima de qualquer suspeita e uma história com desdobramentos certamente surpreendente - em especial ao espectador menos escolado. Porém, o filme soa frio, quase distante da audiência, sem um personagem no qual o público pode se espelhar. Mesmo o heroico jornalista vivido por Russell Crowe não consegue conectar-se com a plateia, em parte pela quase antipatia que o ator neozelandês transmite no papel. Rachel McAdams faz o que pode com uma personagem bem chatinha, e Ben Affleck é o Ben Affleck de sempre, com uma gama de nuances rasa e apática. Só mesmo as presenças de Helen Mirren e Robin Wright conseguem sobressair-se - mesmo em papéis pequenos as duas atrizes são uma delícia de ver.
Na falta de bons roteiros originais, ou ao menos na falta de coragem de investir em ideias novas, Hollywood constantemente volta sua atenção para materiais já previamente testados, seja em livros, histórias em quadrinhos ou até mesmo em clássicos queridos pelo público. Nessa ânsia por encontrar boas histórias, nem ao menos programas de televisão são poupados. Um exemplo dessa afirmação é "Intrigas de estado", uma produção de primeira linha, com atores famosos e consagrados, um estúdio tradicional (Universal Pictures) e um diretor promissor que tem origem em uma série da BBC inglesa, levada ao ar em 2003. Com uma sutil mudança em um crucial detalhe da trama - substituiu-se uma companhia de petróleo por uma agência militar - e a tentativa de condensar seis episódios em palatáveis duas horas de duração, o filme de Kevin MacDonald (de "O último rei da Escócia", que deu o Oscar de melhor ator a Forest Whitaker em 2007), o filme acabou por passar quase em branco nos EUA e não conquistar nem mesmo a boa vontade da crítica, apesar de contar com um elenco de primeira e com um tema bastante inflamável em um país ainda em estado de nervos com os constantes conflitos no Oriente Médio.
Aliás, o escocês Kevin MacDonald nem foi a primeira escolha do estúdio para comandar "Intrigas de estado", cuja pré-produção foi uma verdadeira dança das cadeiras. O primeiro nome cotado para a direção foi o de Edward Zwick, que nem chegou a manter-se por muito tempo no cargo. Antes de MacDonald finalmente assinar com o estúdio, nomes tão díspares quanto Ang Lee, Richard Linklater, Jim Jarmusch e Brian DePalma foram sondados - e, obviamente, cada um deles certamente daria um enfoque e um estilo diferentes ao roteiro. Com um cineasta como MacDonald (competente mas sem a força suficiente para chamar público por si só) à frente do projeto, apenas um elenco de peso poderia equilibrar as coisas - e nesse ponto nenhum produtor estava disposto a brincadeiras. A princípio o filme reuniria Brad Pitt e Edward Norton quase dez anos depois de seu cultuado "Clube da luta" (1999), o que imediatamente acendeu o interesse de todo mundo. Porém, uma greve de roteiristas tirou Pitt do filme (o ator queria que partes do roteiro fossem reescritas) e o atraso acabou por também afastar Norton. Ben Affleck imediatamente embarcou em seu lugar, mas antes que Russell Crowe assumisse o lugar de Brad, outros astros foram cogitados para o papel - mais precisamente Nicolas Cage, Johnny Depp e Tom Hanks. Com Robin Wright (ainda Penn) e Rachel McAdams nos principais papéis femininos e Helen Mirren substituindo o conterrâneo Bill Nighy na pele da editora-chefe do Washigton Globe, tudo parecia garantir uma vitória certa. Porém, a bilheteria tímida de pouco mais de 37 milhões de dólares no mercado doméstico mostrou que nem sempre uma receita de sucesso funciona como o esperado. E nesse caso específico, somente a aversão das plateias a qualquer trama remotamente ligada às guerras do governo Bush pode explicar.
Não há nada de flagrantemente errado em "Intrigas de estado": o roteiro é inteligente e com um bom número de reviravoltas; a direção de MacDonald é sóbria e competente (ainda que sem brilho); o elenco é homogêneo (apesar das caras e bocas de Ben Affleck) e o ritmo é eficiente, mérito da edição ágil de Justine Wright, da fotografia precisa de Rodrigo Prieto e da trilha sonora de Alex Heffes. Então por que a receptividade tão morna (ou até mesmo fria)? Talvez seja mesmo o fato de que produções que tem as guerras no Oriente Médio nunca conquistarem boas bilheterias - nem mesmo quando juntam um time como Matt Damon e o diretor Paul Greengrass, que apesar do sucesso de seus filmes sobre Jason Bourne amargaram o naufrágio de "Zona verde" em 2010. Mas é também preciso reconhecer que, apesar da reunião de talentos e da história instigante, "Intrigas de estado" é um filme apenas correto, sem aquele tempero que transforma um mero entretenimento em um filme inesquecível. Talvez seja a falta de química entre Russell Crowe (ótimo ator mas em modo piloto automático) e Ben Affleck (péssimo ator que mata a dubiedade de seu personagem graças às suas limitações dramáticas). Talvez seja o foco confuso - afinal, qual das tramas é realmente a mais importante? Ou talvez seja mesmo porque a história simplesmente falha em cativar o interesse da plateia e seus personagens sejam desprovidos de qualquer carisma.
O filme até que começa bem: pelas ruas de Washington, um homem é perseguido por outro e, quando finalmente se vê encurralado, morre a tiros. Um ciclista que passava no local também é atingido pelo criminoso e, no dia seguinte, a jovem Sonia Baker (Maria Thayer) morre em um misterioso acidente no metrô da cidade. Sua morte é manchete, uma vez que ela fazia parte de uma comissão que investigava a fundo uma empresa privada em vias de tornar-se a responsável pela segurança militar dos EUA. Seu trágico e inesperado fim também revela um romance secreto com Stephen Collins (Ben Affleck), um senador casado que é um dos principais integrantes da comissão. O "acidente" chama a atenção da jovem e ambiciosa repórter Della Frye (Rachel McAdams), que vê no caso a oportunidade de mudar de status dentro do Washington Globe. Para isso, ela conta com a ajuda do veterano Cal McAffrey (Russell Crowe), que, não apenas tem interesse jornalístico no caso: ele é amigo pessoal de Collins - e viveu um apaixonado romance com a esposa dele, Ann (Robin Wright Penn). Conforme as investigações avançam, McAffrey chega à conclusão de que terá de decidir entre acreditar ou não no velho amigo, que pode ter muito mais responsabilidade nas mortes do que aparenta.
A questão é: vale a pena gastar duas horas assistindo a "Intrigas de estado"? Sim e não. O produto final é um filme obviamente bem produzido, com uma equipe acima de qualquer suspeita e uma história com desdobramentos certamente surpreendente - em especial ao espectador menos escolado. Porém, o filme soa frio, quase distante da audiência, sem um personagem no qual o público pode se espelhar. Mesmo o heroico jornalista vivido por Russell Crowe não consegue conectar-se com a plateia, em parte pela quase antipatia que o ator neozelandês transmite no papel. Rachel McAdams faz o que pode com uma personagem bem chatinha, e Ben Affleck é o Ben Affleck de sempre, com uma gama de nuances rasa e apática. Só mesmo as presenças de Helen Mirren e Robin Wright conseguem sobressair-se - mesmo em papéis pequenos as duas atrizes são uma delícia de ver.
quinta-feira
O HOMEM QUE MUDOU O JOGO
O HOMEM QUE MUDOU O JOGO (Moneyball, 2011, ColumbiaPictures, 131min) Direção: Bennett Miller. Roteiro: Steven Zaillian, Aaron Sorkin, livro de Michael Lewis. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Christopher Tellefsen. Música: Mychael Danna. Figurino: Kasia Malicja Maione. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: Mark Bakshi, Andrew Karsch, Sidney Kimmel, Scott Rudin. Produção: Michael De Luca, Rachael Horovitz, Brad Pitt. Elenco: Brad Pitt, Jonah Hill, Philip Seymour Hoffman, Robin Wright, Chris Pratt, Spike Jonze, Stephen Bishop, Brent Jennings, Tammy Blanchard, Arliss Howard. Estreia: 09/9/11 (Festival de Toronto)
06 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Brad Pitt), Ator Coadjuvante (Jonah Hill), Roteiro Adaptado, Montagem, Mixagem de Som
Poucas pessoas em Hollywood conseguiriam convencer um estúdio a bancar um filme a respeito de beisebol e matemática, dois assuntos não exatamente populares - especialmente fora dos EUA, onde o esporte é praticamente veneno de bilheteria. E uma dessas poucas pessoas é o diretor Steven Soderbergh, que desde 1989, quando ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes com "sexo, mentiras e videotape", consagrou-se como o cineasta independente mais bem-sucedido do cinema norte-americano. Nem mesmo alguns tiros n'água foram o suficiente para diminuir seu prestígio na indústria - e o Oscar de melhor diretor por "Traffic" (2000) no mesmo ano em que também concorria por "Erin Brokovich, uma mulher de talento" só aumentou seu cacife. Portanto, quando Soderbergh surgiu com a ideia de fazer um filme sobre o esporte com o elenco formado por ex-jogadores e profissionais da liga, poucos se surpreenderam com a aquiescência da Columbia Pictures em bancar os custos da produção. A surpresa veio mesmo quando o próprio diretor saiu fora do projeto, por divergências em relação ao roteiro, escrito pelo premiado Steven Zaillian. A entrada em cena de um novo comandante - Bennett Miller, indicado ao Oscar por "Capote" (05) - e um astro de primeira grandeza no papel principal - Brad Pitt - imediatamente inchou o orçamento, e o que seria uma produção menor ganhou destaque na mídia e nas cerimônias de premiação. Indicado a seis Oscar - incluindo melhor filme e ator - e com uma considerável bilheteria doméstica de mais de 75 milhões de dólares, "O homem que mudou o jogo" talvez tenha sido super-apreciado, mas é um filme bastante interessante, a despeito de seu tema pouco atraente.
Desprovido de seu charme de galã e de seu carisma irresistível, Brad Pitt arrancou uma indicação ao Oscar de melhor ator por seu desempenho como Billy Beane, o gerente geral de um time de beisebol de Oakland que tenta, com a ajuda de seu novo assistente, Peter Brand (Jonah Hill, lembrado como coadjuvante pela Academia), melhorar os índices de aproveitamento de sua equipe mesmo com um orçamento irrisório em comparação com os rivais. Perdendo os atletas-astros para times maiores, Beane e Brand - formado em Economia e sem nenhuma relação com o esporte em si - criam uma nova forma de calcular o quanto cada jogador pode render em campo, através de gráficos e percentuais. Contratando homens até então desacreditados ou relegados ao banco de reservas, eles enfrentam a descrença dos analistas técnicos e até do treinador, Art Howe (Philip Seymour Hoffman); Mas, para surpresa de todos, depois de um período de tempo as vitórias começam a acumular-se, transformando o Oakland Athletics em uma espécie de fenômeno inesperado.
Baseado em uma história real, contada por Michael Lewis em seu livro "Moneyball", o filme de Bennet Miller se beneficia de uma edição inteligente, que mergulha o espectador dentro não apenas dos jogos em si - cujas regras não são tão facilmente compreensíveis quanto as do futebol - mas das entranhas do esporte em geral. A melancolia dos estádios vazios, a frieza das negociações contratuais, a agonia das derrotas e a euforia das vitórias são retratadas de forma quase documental, com a câmera de Wally Pfister (diretor de fotografia preferido de Christopher Nolan) sempre atenta a qualquer detalhe capaz de humanizar cada um de seus personagens. Mesclando imagens de arquivo com cenas feitas especialmente para o filme, Miller consegue a proeza de enfatizar a emoção do esporte sem precisar, para isso, abdicar de uma certa dose de racionalidade que dá ao resultado final uma curiosa mescla entre cérebro e coração: é impossível não torcer pelos desacreditados jogadores menosprezados, mesmo que a direção quase cirúrgica evite qualquer traço de sentimentalismo. Até mesmo a relação entre Beane e a filha pré-adolescente é tratada com discrição, apesar de permitir à Pitt que demonstre a sutileza de sua atuação.
Centrando todo seu foco nos dois protagonistas, "O homem que mudou o jogo" conta com participações especiais ilustres - além de Philip Seymour Hoffman como o treinador Art Howe, aparecem em cena Robin Wright (como a ex-mulher de Beane), o diretor Spike Jonze (como o novo marido dela) e Chris Pratt, antes de tornar-se popular como o herói de "Guardiões da galáxia" (2014), como um dos jogadores resgatados pelo método audacioso de Beane e Brand. Como um filme que se propõe a narrar uma história quase inacreditável sem apelar para grandes reviravoltas ou artifícios dramáticos, se utiliza de um excelente roteiro - que, inicialmente escrito por Steven Zaillian, foi burilado por Aaron Sorkin e indicado ao Oscar a categoria, perdendo para "Os descendentes" - para celebrar a persistência e o amor ao esporte, na figura de um protagonista falível e realista, iluminado por flashbacks reveladores que explicam sua trajetória de atleta promissor a gerente em crise profissional. Sem excesso de nenhuma natureza - característica de seu diretor - é uma obra que cresce em uma revisão, desde que se saiba exatamente quais são seus objetivos e seu estilo narrativo. Mais uma bola dentro na carreira de Brad Pitt.
06 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Brad Pitt), Ator Coadjuvante (Jonah Hill), Roteiro Adaptado, Montagem, Mixagem de Som
Poucas pessoas em Hollywood conseguiriam convencer um estúdio a bancar um filme a respeito de beisebol e matemática, dois assuntos não exatamente populares - especialmente fora dos EUA, onde o esporte é praticamente veneno de bilheteria. E uma dessas poucas pessoas é o diretor Steven Soderbergh, que desde 1989, quando ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes com "sexo, mentiras e videotape", consagrou-se como o cineasta independente mais bem-sucedido do cinema norte-americano. Nem mesmo alguns tiros n'água foram o suficiente para diminuir seu prestígio na indústria - e o Oscar de melhor diretor por "Traffic" (2000) no mesmo ano em que também concorria por "Erin Brokovich, uma mulher de talento" só aumentou seu cacife. Portanto, quando Soderbergh surgiu com a ideia de fazer um filme sobre o esporte com o elenco formado por ex-jogadores e profissionais da liga, poucos se surpreenderam com a aquiescência da Columbia Pictures em bancar os custos da produção. A surpresa veio mesmo quando o próprio diretor saiu fora do projeto, por divergências em relação ao roteiro, escrito pelo premiado Steven Zaillian. A entrada em cena de um novo comandante - Bennett Miller, indicado ao Oscar por "Capote" (05) - e um astro de primeira grandeza no papel principal - Brad Pitt - imediatamente inchou o orçamento, e o que seria uma produção menor ganhou destaque na mídia e nas cerimônias de premiação. Indicado a seis Oscar - incluindo melhor filme e ator - e com uma considerável bilheteria doméstica de mais de 75 milhões de dólares, "O homem que mudou o jogo" talvez tenha sido super-apreciado, mas é um filme bastante interessante, a despeito de seu tema pouco atraente.
Desprovido de seu charme de galã e de seu carisma irresistível, Brad Pitt arrancou uma indicação ao Oscar de melhor ator por seu desempenho como Billy Beane, o gerente geral de um time de beisebol de Oakland que tenta, com a ajuda de seu novo assistente, Peter Brand (Jonah Hill, lembrado como coadjuvante pela Academia), melhorar os índices de aproveitamento de sua equipe mesmo com um orçamento irrisório em comparação com os rivais. Perdendo os atletas-astros para times maiores, Beane e Brand - formado em Economia e sem nenhuma relação com o esporte em si - criam uma nova forma de calcular o quanto cada jogador pode render em campo, através de gráficos e percentuais. Contratando homens até então desacreditados ou relegados ao banco de reservas, eles enfrentam a descrença dos analistas técnicos e até do treinador, Art Howe (Philip Seymour Hoffman); Mas, para surpresa de todos, depois de um período de tempo as vitórias começam a acumular-se, transformando o Oakland Athletics em uma espécie de fenômeno inesperado.
Baseado em uma história real, contada por Michael Lewis em seu livro "Moneyball", o filme de Bennet Miller se beneficia de uma edição inteligente, que mergulha o espectador dentro não apenas dos jogos em si - cujas regras não são tão facilmente compreensíveis quanto as do futebol - mas das entranhas do esporte em geral. A melancolia dos estádios vazios, a frieza das negociações contratuais, a agonia das derrotas e a euforia das vitórias são retratadas de forma quase documental, com a câmera de Wally Pfister (diretor de fotografia preferido de Christopher Nolan) sempre atenta a qualquer detalhe capaz de humanizar cada um de seus personagens. Mesclando imagens de arquivo com cenas feitas especialmente para o filme, Miller consegue a proeza de enfatizar a emoção do esporte sem precisar, para isso, abdicar de uma certa dose de racionalidade que dá ao resultado final uma curiosa mescla entre cérebro e coração: é impossível não torcer pelos desacreditados jogadores menosprezados, mesmo que a direção quase cirúrgica evite qualquer traço de sentimentalismo. Até mesmo a relação entre Beane e a filha pré-adolescente é tratada com discrição, apesar de permitir à Pitt que demonstre a sutileza de sua atuação.
Centrando todo seu foco nos dois protagonistas, "O homem que mudou o jogo" conta com participações especiais ilustres - além de Philip Seymour Hoffman como o treinador Art Howe, aparecem em cena Robin Wright (como a ex-mulher de Beane), o diretor Spike Jonze (como o novo marido dela) e Chris Pratt, antes de tornar-se popular como o herói de "Guardiões da galáxia" (2014), como um dos jogadores resgatados pelo método audacioso de Beane e Brand. Como um filme que se propõe a narrar uma história quase inacreditável sem apelar para grandes reviravoltas ou artifícios dramáticos, se utiliza de um excelente roteiro - que, inicialmente escrito por Steven Zaillian, foi burilado por Aaron Sorkin e indicado ao Oscar a categoria, perdendo para "Os descendentes" - para celebrar a persistência e o amor ao esporte, na figura de um protagonista falível e realista, iluminado por flashbacks reveladores que explicam sua trajetória de atleta promissor a gerente em crise profissional. Sem excesso de nenhuma natureza - característica de seu diretor - é uma obra que cresce em uma revisão, desde que se saiba exatamente quais são seus objetivos e seu estilo narrativo. Mais uma bola dentro na carreira de Brad Pitt.
UMA CARTA DE AMOR
UMA CARTA DE AMOR (Message in a bottle, 1999, Warner Bros, 131min) Direção: Luis Mandoki. Roteiro:
Gerald DiPego, romance de Nicholas Sparks. Fotografia: Caleb Deschanel.
Montagem: Steven Weisberg. Música: Gabriel Yared. Figurino: Bernie
Pollack. Direção de arte/cenários: Jeffrey Beecroft/Dorree Cooper,
Elaine O'Donnell, CC Perkinson. Produção: Kevin Costner, Denise DiNovi,
Jim Wilson. Elenco: Kevin Costner, Robin Wright-Penn, Paul Newman, John
Savage, Ileana Douglas, Robbie Coltrane. Estreia: 12/02/99
Primeiro romance de Nicholas Sparks a ser adaptado para o cinema - antes, portanto, que a fórmula de seus livros se tornasse facilmente reconhecível a qualquer espectador, por mais distraído que seja - "Uma carta de amor" é, também, um dos melhores filmes baseados em sua obra, normalmente exagerada no dramalhão a ponto da superficialidade. Marcando também o retorno de Kevin Costner às boas graças do público depois de um período negro em que estrelou fracassos retumbantes como "Waterworld, o segredo das águas" e "O mensageiro", o filme de Luis Mandoki é um drama romântico à moda antiga, feito sob medida para quem gosta de se emocionar ao assistir a uma bela e devastadora história de amor.
Mesmo que não tenha sido um sucesso extraordinário de bilheteria, "Uma carta de amor" devolveu a Costner - um dos astros mais quentes do final dos anos 80 e do começo da década de 90 - um pouco do respeito e do prestígio acumulado com êxitos acachapantes com "Os intocáveis", "JFK", "O guarda-costas" e principalmente "Dança com lobos", sua estreia como diretor e que lhe rendeu o Oscar da categoria (além de outras seis estatuetas, incluindo melhor filme). Deixando de lado sua tendência à megalomania e seu ego exarcebado (apesar de ainda assinar como um dos produtores), Costner entrega à plateia uma das melhores e mais naturais atuações de sua carreira, mostrando que, apesar dos erros monumentais de sua trajetória, ele é um astro de grande carisma, especialmente quando tem a seu lado atores do porte de Paul Newman e Robin Wright Penn, capazes de iluminar qualquer cena com seu imenso talento. São eles que dão à trama - nada especial e até um tanto previsível - o charme e a credibilidade necessários para que ela se torne uma experiência interessante e comovente.
Apesar do nome de Costner ser o primeiro dos créditos, a verdadeira protagonista é Theresa Osborne, a personagem vivida pela bela Robin Wright (então Penn): pesquisadora do jornal Chicago Tribune, ela encontra, durante um período de descanso à beira do mar, uma garrafa contendo uma bela e triste carta romântica, endereçada a uma mulher chamada Catherine. Comovida com o texto e intrigada com uma possível história a ser publicada - principalmente quando descobre outras cartas escritas pelo mesmo autor, ela investiga o caso com a ajuda de uma colega de trabalho e chega até uma pequena cidade costeira, onde conhece Garrett Blake (Costner), um viúvo charmoso e introvertido que vive às turras com a família de sua falecida mulher e se recusa a esquecer o passado. Encantada com Garrett, Theresa esconde dele o real motivo de sua visita e os dois acabam se envolvendo. Ela, desiludida com um divórcio recente e ele ainda enfrentando um luto de dois anos, se apaixonam perdidamente, redescobrindo sentimentos que consideravam enterrados dentro de si. Mas será que Garrett saberá compreender as razões que levaram Theresa a ocultar a verdade sobre seu encontro?
Mesmo que esteja longe de ser uma obra-prima - em parte porque o roteiro não dá espaço a um aprofundamento maior aos personagens e à trama e em parte porque a intenção do filme é apenas emocionar seu público - "Uma carta de amor" cumpre o que promete. É um romance adulto, estrelado por atores competentes (Paul Newman dá show em cada cena em que aparece como o ranzinza pai de Costner) e com uma história que não tenta inventar a roda, mas prende a atenção do início até o final trágico como é comum na obra de Sparks. Com uma química potente entre Kevin Costner e Robin Wright Penn, é também um dos romances mais consistentes de sua época. Os fãs não tem do que reclamar.
Primeiro romance de Nicholas Sparks a ser adaptado para o cinema - antes, portanto, que a fórmula de seus livros se tornasse facilmente reconhecível a qualquer espectador, por mais distraído que seja - "Uma carta de amor" é, também, um dos melhores filmes baseados em sua obra, normalmente exagerada no dramalhão a ponto da superficialidade. Marcando também o retorno de Kevin Costner às boas graças do público depois de um período negro em que estrelou fracassos retumbantes como "Waterworld, o segredo das águas" e "O mensageiro", o filme de Luis Mandoki é um drama romântico à moda antiga, feito sob medida para quem gosta de se emocionar ao assistir a uma bela e devastadora história de amor.
Mesmo que não tenha sido um sucesso extraordinário de bilheteria, "Uma carta de amor" devolveu a Costner - um dos astros mais quentes do final dos anos 80 e do começo da década de 90 - um pouco do respeito e do prestígio acumulado com êxitos acachapantes com "Os intocáveis", "JFK", "O guarda-costas" e principalmente "Dança com lobos", sua estreia como diretor e que lhe rendeu o Oscar da categoria (além de outras seis estatuetas, incluindo melhor filme). Deixando de lado sua tendência à megalomania e seu ego exarcebado (apesar de ainda assinar como um dos produtores), Costner entrega à plateia uma das melhores e mais naturais atuações de sua carreira, mostrando que, apesar dos erros monumentais de sua trajetória, ele é um astro de grande carisma, especialmente quando tem a seu lado atores do porte de Paul Newman e Robin Wright Penn, capazes de iluminar qualquer cena com seu imenso talento. São eles que dão à trama - nada especial e até um tanto previsível - o charme e a credibilidade necessários para que ela se torne uma experiência interessante e comovente.
Apesar do nome de Costner ser o primeiro dos créditos, a verdadeira protagonista é Theresa Osborne, a personagem vivida pela bela Robin Wright (então Penn): pesquisadora do jornal Chicago Tribune, ela encontra, durante um período de descanso à beira do mar, uma garrafa contendo uma bela e triste carta romântica, endereçada a uma mulher chamada Catherine. Comovida com o texto e intrigada com uma possível história a ser publicada - principalmente quando descobre outras cartas escritas pelo mesmo autor, ela investiga o caso com a ajuda de uma colega de trabalho e chega até uma pequena cidade costeira, onde conhece Garrett Blake (Costner), um viúvo charmoso e introvertido que vive às turras com a família de sua falecida mulher e se recusa a esquecer o passado. Encantada com Garrett, Theresa esconde dele o real motivo de sua visita e os dois acabam se envolvendo. Ela, desiludida com um divórcio recente e ele ainda enfrentando um luto de dois anos, se apaixonam perdidamente, redescobrindo sentimentos que consideravam enterrados dentro de si. Mas será que Garrett saberá compreender as razões que levaram Theresa a ocultar a verdade sobre seu encontro?
Mesmo que esteja longe de ser uma obra-prima - em parte porque o roteiro não dá espaço a um aprofundamento maior aos personagens e à trama e em parte porque a intenção do filme é apenas emocionar seu público - "Uma carta de amor" cumpre o que promete. É um romance adulto, estrelado por atores competentes (Paul Newman dá show em cada cena em que aparece como o ranzinza pai de Costner) e com uma história que não tenta inventar a roda, mas prende a atenção do início até o final trágico como é comum na obra de Sparks. Com uma química potente entre Kevin Costner e Robin Wright Penn, é também um dos romances mais consistentes de sua época. Os fãs não tem do que reclamar.
segunda-feira
LOUCOS DE AMOR
LOUCOS
DE AMOR (She's so lovely, 1997, Miramax/Clyde is Hungry Productions,
100min) Direção: Nick Cassavetes. Roteiro: John Cassavetes. Fotografia:
Thierry Arbogast. Montagem: Petra Von Oelffen. Música: Joseph Vitarelli.
Figurino: Beatrix Aruna-Pasztor. Direção de arte/cenários: David
Wasco/Sandy Reynolds-Wasco. Produção executiva: Bernard Bouix, Gérard
Depardieu, Sean Penn, John Travolta. Produção: René Cleitman. Elenco:
Sean Penn, Robin Wright Penn, John Travolta, Harry Dean Stanton, James
Gandolfini, Debi Mazar, Gena Rowlands, Burt Young, Talia Shire. Estreia:
15/5/97 (Festival de Cannes)
Vencedor da Palma de Ouro (Melhor Ator) no Festival de Cannes 1997: Sean Penn
Diretor de filmes extremamente densos, que examinavam a fundo as relações interpessoais sem firulas estéticas e que invariavelmente deixavam no espectador uma sensação amarga, John Cassavetes foi pioneiro também em fugir dos ditames dos grandes estúdios, buscando formas independentes de lançar suas obras. Eternamente lembrado como o marido satanista de Mia Farrow em "O bebê de Rosemary", Cassavetes foi casado com a atriz Gena Rowlands - presença constante em sua filmografia - e morreu prematuramente, aos 59 anos, em fevereiro de 1989, antes de sequer começar a dirigir um novo projeto, a ser estrelado por Sean Penn. Felizmente o roteiro já estava pronto, e, quase dez anos depois da morte de John, "Loucos de amor" finalmente chegou as telas em grande estilo, estreando no Festival de Cannes - de onde saiu com o prêmio de melhor ator. Na direção, mostrando que seu talento passou para a geração seguinte, seu filho Nick, que emulou o espírito realista e seco do pai ao realizar uma obra que, a despeito de ter sido lançada no final da década de 90, tem a cara e a alma de um drama setentista.
Melancólico e pessimista, "Loucos de amor" já começa mostrando a que veio, apresentando ao público uma protagonista feminina complexa, irresponsável e paradoxalmente encantadora: Maureen (Robin Wright Penn) mora em um prédio decadente de um bairro pobre de Nova York, está grávida de poucos meses do marido que sumiu há três dias e não hesita em beber e fumar pelas ruas da cidade, enquanto flerta - mais por carência do que por tesão - com um vizinho aparentemente gentil, Kiefer (James Gandolfini), que aproveita a primeira oportunidade para espancá-la e estuprá-la. Quando seu marido, Eddie (Sean Penn) finalmente volta para casa, como se nada tivesse acontecido, ela resolve esconder dele a violência sofrida, por medo de uma represália. Quando o fato vem à tona, porém, o já agressivo Eddie não resiste e parte para a agressão, obrigando sua esposa a chamar um hospital psiquiátrico para impedí-lo de cometer um crime. A medida não basta e Eddie acaba sendo condenado a passar dez anos em uma instituição, depois de atirar em um médico. Uma década mais tarde, Eddie finalmente volta à liberdade - sem a noção do tempo que passou preso - e descobre que Maureen mudou seu estilo de vida. Casada novamente e mãe de três meninas, ela agora é uma equilibrada dona-de-casa que vive em paz com o novo marido, Joey (John Travolta). O retorno de Eddie a seu universo, porém, irá fazê-la questionar sua felicidade.
Dividindo seu filme em duas partes claras e esteticamente diferentes - o antes e o depois na vida de Eddie e Maurenn - Nick Cassavetes praticamente dirigiu dois filmes em um: o decadente, triste e boêmio mundo do casal na primeira metade é, paradoxalmente, mais romântico e passional, um mundo ao qual ambos pertencem e no qual se sentem à vontade, apesar das dificuldades financeiras. A segunda metade do filme é solar, clara, brilhante, sufocante aos olhos tanto de um Eddie recém-liberto de um pesadelo de dez anos quanto de uma Maureen que escondeu seu lado selvagem e transgressor atrás de uma fachada bem construída de mulher do lar. Não é por acaso que o tom da narrativa também muda quando acontece a transição: o que era trágico e escuro dá lugar a uma quase comédia, com direito a um Sean Penn exageradamente louro e uma menina de nove anos que entra na discussão familiar bebendo cerveja como gente grande. Esse contraste - que pode parecer gratuito - é a cara de "Loucos de amor", um filme que sacode as expectativas da plateia em suas pré-concepções de amor, felicidade e lealdade.
Porém, se foi Sean Penn quem levou o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes, não é ele quem melhor traduz as dicotomias psicológicas do filme, apesar de estar fabuloso como sempre. Quem rouba a cena, traduzindo em imagens e em uma interpretação impecável todas as nuances do roteiro é a excelente Robin Wright Penn, casada com Sean à época. Seu trabalho de composição é absolutamente perfeito, desde o visual - de cabelos curtos e mal pintados na primeira parte a uma delicadeza de traços e gestos na segunda - até na maneira discreta e sutil que ela mostra a angústia de sua Maureen através do olhar e da entonação de voz. O que parece ser dois personagens distintos transforma-se rapidamente em uma única personalidade toda vez que ela está em cena, lembrando à audiência que todo o turbilhão de sentimentos mostrados no filme está se passando dentro da mesma - e apaixonada mulher. Robin realmente é, como diz o título original, adorável. Uma atriz extraordinária no melhor papel de sua carreira.
Vencedor da Palma de Ouro (Melhor Ator) no Festival de Cannes 1997: Sean Penn
Diretor de filmes extremamente densos, que examinavam a fundo as relações interpessoais sem firulas estéticas e que invariavelmente deixavam no espectador uma sensação amarga, John Cassavetes foi pioneiro também em fugir dos ditames dos grandes estúdios, buscando formas independentes de lançar suas obras. Eternamente lembrado como o marido satanista de Mia Farrow em "O bebê de Rosemary", Cassavetes foi casado com a atriz Gena Rowlands - presença constante em sua filmografia - e morreu prematuramente, aos 59 anos, em fevereiro de 1989, antes de sequer começar a dirigir um novo projeto, a ser estrelado por Sean Penn. Felizmente o roteiro já estava pronto, e, quase dez anos depois da morte de John, "Loucos de amor" finalmente chegou as telas em grande estilo, estreando no Festival de Cannes - de onde saiu com o prêmio de melhor ator. Na direção, mostrando que seu talento passou para a geração seguinte, seu filho Nick, que emulou o espírito realista e seco do pai ao realizar uma obra que, a despeito de ter sido lançada no final da década de 90, tem a cara e a alma de um drama setentista.
Melancólico e pessimista, "Loucos de amor" já começa mostrando a que veio, apresentando ao público uma protagonista feminina complexa, irresponsável e paradoxalmente encantadora: Maureen (Robin Wright Penn) mora em um prédio decadente de um bairro pobre de Nova York, está grávida de poucos meses do marido que sumiu há três dias e não hesita em beber e fumar pelas ruas da cidade, enquanto flerta - mais por carência do que por tesão - com um vizinho aparentemente gentil, Kiefer (James Gandolfini), que aproveita a primeira oportunidade para espancá-la e estuprá-la. Quando seu marido, Eddie (Sean Penn) finalmente volta para casa, como se nada tivesse acontecido, ela resolve esconder dele a violência sofrida, por medo de uma represália. Quando o fato vem à tona, porém, o já agressivo Eddie não resiste e parte para a agressão, obrigando sua esposa a chamar um hospital psiquiátrico para impedí-lo de cometer um crime. A medida não basta e Eddie acaba sendo condenado a passar dez anos em uma instituição, depois de atirar em um médico. Uma década mais tarde, Eddie finalmente volta à liberdade - sem a noção do tempo que passou preso - e descobre que Maureen mudou seu estilo de vida. Casada novamente e mãe de três meninas, ela agora é uma equilibrada dona-de-casa que vive em paz com o novo marido, Joey (John Travolta). O retorno de Eddie a seu universo, porém, irá fazê-la questionar sua felicidade.
Dividindo seu filme em duas partes claras e esteticamente diferentes - o antes e o depois na vida de Eddie e Maurenn - Nick Cassavetes praticamente dirigiu dois filmes em um: o decadente, triste e boêmio mundo do casal na primeira metade é, paradoxalmente, mais romântico e passional, um mundo ao qual ambos pertencem e no qual se sentem à vontade, apesar das dificuldades financeiras. A segunda metade do filme é solar, clara, brilhante, sufocante aos olhos tanto de um Eddie recém-liberto de um pesadelo de dez anos quanto de uma Maureen que escondeu seu lado selvagem e transgressor atrás de uma fachada bem construída de mulher do lar. Não é por acaso que o tom da narrativa também muda quando acontece a transição: o que era trágico e escuro dá lugar a uma quase comédia, com direito a um Sean Penn exageradamente louro e uma menina de nove anos que entra na discussão familiar bebendo cerveja como gente grande. Esse contraste - que pode parecer gratuito - é a cara de "Loucos de amor", um filme que sacode as expectativas da plateia em suas pré-concepções de amor, felicidade e lealdade.
Porém, se foi Sean Penn quem levou o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes, não é ele quem melhor traduz as dicotomias psicológicas do filme, apesar de estar fabuloso como sempre. Quem rouba a cena, traduzindo em imagens e em uma interpretação impecável todas as nuances do roteiro é a excelente Robin Wright Penn, casada com Sean à época. Seu trabalho de composição é absolutamente perfeito, desde o visual - de cabelos curtos e mal pintados na primeira parte a uma delicadeza de traços e gestos na segunda - até na maneira discreta e sutil que ela mostra a angústia de sua Maureen através do olhar e da entonação de voz. O que parece ser dois personagens distintos transforma-se rapidamente em uma única personalidade toda vez que ela está em cena, lembrando à audiência que todo o turbilhão de sentimentos mostrados no filme está se passando dentro da mesma - e apaixonada mulher. Robin realmente é, como diz o título original, adorável. Uma atriz extraordinária no melhor papel de sua carreira.
terça-feira
MILLENNIUM, OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES
MILLENNIUM - OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES (The girl with the dragon tattoo, 2011, Columbia Pictures/MGM Pictures, 158min) Direção: David Fincher. Roteiro: Steven Zaillian, romance de Stieg Larsson. Fotografia: Jeff Cronenweth. Montagem: Kirk Baxter, Angus Wall. Música: Atticus Ross, Trent Reznor. Figurino: Trish Summerville. Direção de arte/cenários: Donald Graham Burt/K.C. Fox, Erik Videgard. Produção executiva: Anni Faurbye Fernandez, Ryan Kavanaugh, Mikael Wallen, Steven Zaillian. Produção: Ceán Chaffin, Scott Rudin, Soren Staermose, Ole Sondberg. Elenco: Daniel Craig, Rooney Mara, Christopher Plummer, Stellan Skarsgard, Robin Wright, Joely Richardson, Goran Visjnic. Estreia: 12/12/11
5 indicações ao Oscar: Atriz (Rooney Mara), Fotografia, Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor do Oscar de Montagem
“Você irá investigar o mais detestável grupo de pessoas que poderia encontrar: minha família!” É assim, com palavras tão pouco lisonjeiras, que o milionário Henrik Vanger (Christopher Plummer) descreve ao jornalista Mikael Blomkvist quem são as pessoas que ele irá investigar caso aceite sua tentadora proposta de trabalho: descobrir o paradeiro (ou o trágico destino) de sua sobrinha, desaparecida há mais de quarenta anos, durante um final de semana festivo em sua imensa propriedade na Suécia. Em crise profissional devido a um processo movido contra um empresário corrupto denunciado em uma de suas reportagens, Blomkvist recebe a ideia com carinho, afinal, dinheiro, um lugar escondido dos colegas da imprensa e sossego não surgem com frequência à sua frente. Mas será que tudo será tão tranquilo como ele imagina?
Para quem não conhece – se é que alguém não conhece – Mikael Blomkvist é um dos dois protagonistas de um dos maiores fenômenos literários dos últimos anos, a trilogia “Millenium”, escrita pelo sueco Stieg Larsson. Com milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, adaptações para o cinema em seu país natal e personagens fascinantes, a série de romances policiais logo chamou a atenção dos produtores de Hollywood, mais especificamente Kathleen Kennedy. Uma das produtoras do sucesso “O curioso caso de Benjamin Button” (08) – além de vários filmes dirigidos por Steven Spielberg – Kennedy propôs a adaptação ao diretor do filme estrelado por Brad Pitt, o incensado David Fincher. Escolado por produções complicadas, Fincher sequer leu o primeiro dos três livros, mas é o nome dele que surge nos créditos da versão americana de “Os homens que não amavam as mulheres”, co-produção da Columbia Pictures e da MGM. Levando-se em consideração que em seu currículo constam filmes como “Seven, os sete crimes capitais” (95) e “Zodíaco” (07), Fincher era realmente o homem ideal para levar às telas – ao menos com sotaque ianque – a intrincada e fascinante trama criada por Larsson. Ao lado de sua equipe de confiança – o diretor de fotografia Jeff Cronenweth, os editores Kirk Baxter e Angus Wall, os músicos Trent Reznor e Atticus Ross – e de um roteiro que consegue condensar em duas horas e meia as mais de 500 páginas do romance original (cortesia do oscarizado Steven Zaillian, de “A lista de Schindler”), Fincher ofereceu ao público um filme que, contrariando as expectativas, supera a versão sueca em clima, tensão e fluência narrativa. Em suma, um filmaço de prender a atenção do primeiro ao último minuto.
Na pele de Blomkvist, surge em cena Daniel Craig, tornado astro desde sua escolha para viver o James Bond do filme “Casino Royale”. Deixando de lado sua faceta heroica, Craig mostra-se a opção perfeita para o papel, oferecendo um viés frágil e inseguro a um personagem que, embora inteligente e corajoso, encontra uma parceria ainda mais radical na segunda personagem fascinante criada por Larsson – que morreu aos 50 anos, antes da publicação e do sucesso de vendas de suas obras – e imortalizada nas telas de cinema: Lisbeth Salander, a hacker agressiva e brilhante que se junta a ele em sua missão de descobrir o paradeiro da jovem Vanger. Vivida originalmente por Noomi Rapace – que a partir dela encontrou espaço no cinema mainstream, em filmes como “Prometheus” (12) e “Sherlock Holmes” (10) – e disputada a tapa pelas jovens atrizes americanas, Salander é o tipo de personagem capaz de consagrar sua intérprete, com sua mistura de mistério, raiva e uma delicadeza física capaz de esconder uma grande fúria. A escolhida por Fincher – e talvez o grande achado do filme – comprovou essa teoria da melhor maneira possível: até então quase desconhecida, Rooney Mara abocanhou uma indicação ao Oscar por seu desempenho. O que era uma aposta arriscada de Fincher – que a havia dirigido em um papel pequeno em “A rede social” – tornou-se, então, uma felicíssima previsão.
Passando a perna em nomes bem mais conhecidos do público, como Scarlett Johansson (considerada sexy demais por Fincher), Carey Mulligan, Ellen Page, Kirsten Stewart, Keira Knightley, Mia Wasikowska, Anne Hathaway, Evan Rachel Wood e Eva Green – além de outras menos cotadas e uma Natalie Portman que recusou o papel alegando extremo cansaço das filmagens de “Cisne negro” – Mara calou a boca daqueles que duvidavam de sua capacidade de dar vida a uma personagem tão complexa e tão adorada pelos leitores espalhados pelo mundo. A princípio dona de uma hostilidade e uma quase antipatia que poderiam jogar contra si, aos poucos Salander vai sendo revelada ao público pelo roteiro esperto de Zaillian e pela direção atenciosa de Fincher, que não foge de apelar para cenas de uma violência surpreendente em tempos tão mornos. Antes mesmo de encontrar-se, depois de mais de uma hora de projeção, com Blomkvist – a quem investigou a pedido do próprio Vanger – Salander já não é mais uma desconhecida da audiência, que compartilha com ela a dor de uma situação extrema da qual ela se livra com uma inteligência e uma ousadia empolgantes. É uma dupla e tanto, responsável por um dos melhores filmes policiais do início do século, uma feliz conjunção de inúmeros fatores comandados por um cineasta genial, capaz de transformar uma história policial em uma produção inesquecível.
A trama de “Os homens que não amavam as mulheres”, na verdade, é dividida em várias, que se complementam com o desenrolar da narrativa. Primeiro, existe a tentativa de Blomkvist em provar sua inocência no caso de calúnia e difamação promovido contra suas reportagens para a revista Millennium, comandada por sua também amante (Robin Wright). Depois, há a sua investigação a respeito do desaparecimento (ou provável morte) da sobrinha de Henrik Vanger – cujas maiores pistas estão no testemunho de uma antiga amiga que estava presente à reunião familiar no fatídico dia de seu sumiço (interpretada por Joely Richardson) e em uma série de fotos encontradas pelo jornalista (e que servem como homenagem silenciosa ao cinema em si, graças à edição espetacular de Baxter e Wall). Por fim, existe o relacionamento entre o intrigado protagonista e a torturada e rebelde Lisbeth, que ele contrata para ajudá-lo em sua missão. O roteiro de Steven Zaillian costura todas as pontas com maestria, mergulhando a plateia em um suspense aterrador e claustrofóbico, sem pausas para piadinhas ou qualquer tipo de leveza – até mesmo o romance que se desenha entre Blomkvist e Salander é cercado de uma quase frieza que condiz com a bela paisagem da Suécia. Fincher conduz tudo como um maestro, sempre encontrando a melhor solução para cada cena, comprovando seu talento imenso em imprimir na tela uma visão realista do mundo que cerca os personagens – pode-se, inclusive, dizer que os gélidos cenários são um personagem a mais do filme, tamanha sua importância em enfatizar o clima soturno da história. Se o filme não é perfeito, a culpa é somente do clímax, que deixa de lado o tom mais cerebral imposto até então para apelar para o confronto físico entre mocinho e bandido – e mesmo assim, a direção de Fincher é tão poderosa que fica difícil se incomodar com o clichê.
Enorme sucesso de bilheteria, “Os homens que não amavam as mulheres” deveria ter sido o primeiro filme de uma trilogia, como aconteceu em forma de livro e produções suecas. Infelizmente, por inúmeras razões o projeto das continuações, que contariam com os mesmos protagonistas, acabou não saindo do papel, para tristeza dos fãs da história e de David Fincher – que seria imprescindível para a manutenção da qualidade do primeiro episódio. Mesmo assim, foi o pontapé inicial da carreira que promete ser bastante vitoriosa de Rooney Mara – que voltou a ser indicada ao Oscar, dessa vez como coadjuvante, por “Carol” (15) – e provou que Daniel Craig pode ir muito mais além de James Bond. Ficando com um papel para o qual foram considerados Johnny Depp, Viggo Mortensen, Brad Pitt e George Clooney, Craig saiu-se muito melhor que a encomenda, transformando Mikael Blomkvist em um de seus melhores e mais importantes trabalhos em Hollywood.
5 indicações ao Oscar: Atriz (Rooney Mara), Fotografia, Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor do Oscar de Montagem
“Você irá investigar o mais detestável grupo de pessoas que poderia encontrar: minha família!” É assim, com palavras tão pouco lisonjeiras, que o milionário Henrik Vanger (Christopher Plummer) descreve ao jornalista Mikael Blomkvist quem são as pessoas que ele irá investigar caso aceite sua tentadora proposta de trabalho: descobrir o paradeiro (ou o trágico destino) de sua sobrinha, desaparecida há mais de quarenta anos, durante um final de semana festivo em sua imensa propriedade na Suécia. Em crise profissional devido a um processo movido contra um empresário corrupto denunciado em uma de suas reportagens, Blomkvist recebe a ideia com carinho, afinal, dinheiro, um lugar escondido dos colegas da imprensa e sossego não surgem com frequência à sua frente. Mas será que tudo será tão tranquilo como ele imagina?
Para quem não conhece – se é que alguém não conhece – Mikael Blomkvist é um dos dois protagonistas de um dos maiores fenômenos literários dos últimos anos, a trilogia “Millenium”, escrita pelo sueco Stieg Larsson. Com milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, adaptações para o cinema em seu país natal e personagens fascinantes, a série de romances policiais logo chamou a atenção dos produtores de Hollywood, mais especificamente Kathleen Kennedy. Uma das produtoras do sucesso “O curioso caso de Benjamin Button” (08) – além de vários filmes dirigidos por Steven Spielberg – Kennedy propôs a adaptação ao diretor do filme estrelado por Brad Pitt, o incensado David Fincher. Escolado por produções complicadas, Fincher sequer leu o primeiro dos três livros, mas é o nome dele que surge nos créditos da versão americana de “Os homens que não amavam as mulheres”, co-produção da Columbia Pictures e da MGM. Levando-se em consideração que em seu currículo constam filmes como “Seven, os sete crimes capitais” (95) e “Zodíaco” (07), Fincher era realmente o homem ideal para levar às telas – ao menos com sotaque ianque – a intrincada e fascinante trama criada por Larsson. Ao lado de sua equipe de confiança – o diretor de fotografia Jeff Cronenweth, os editores Kirk Baxter e Angus Wall, os músicos Trent Reznor e Atticus Ross – e de um roteiro que consegue condensar em duas horas e meia as mais de 500 páginas do romance original (cortesia do oscarizado Steven Zaillian, de “A lista de Schindler”), Fincher ofereceu ao público um filme que, contrariando as expectativas, supera a versão sueca em clima, tensão e fluência narrativa. Em suma, um filmaço de prender a atenção do primeiro ao último minuto.
Na pele de Blomkvist, surge em cena Daniel Craig, tornado astro desde sua escolha para viver o James Bond do filme “Casino Royale”. Deixando de lado sua faceta heroica, Craig mostra-se a opção perfeita para o papel, oferecendo um viés frágil e inseguro a um personagem que, embora inteligente e corajoso, encontra uma parceria ainda mais radical na segunda personagem fascinante criada por Larsson – que morreu aos 50 anos, antes da publicação e do sucesso de vendas de suas obras – e imortalizada nas telas de cinema: Lisbeth Salander, a hacker agressiva e brilhante que se junta a ele em sua missão de descobrir o paradeiro da jovem Vanger. Vivida originalmente por Noomi Rapace – que a partir dela encontrou espaço no cinema mainstream, em filmes como “Prometheus” (12) e “Sherlock Holmes” (10) – e disputada a tapa pelas jovens atrizes americanas, Salander é o tipo de personagem capaz de consagrar sua intérprete, com sua mistura de mistério, raiva e uma delicadeza física capaz de esconder uma grande fúria. A escolhida por Fincher – e talvez o grande achado do filme – comprovou essa teoria da melhor maneira possível: até então quase desconhecida, Rooney Mara abocanhou uma indicação ao Oscar por seu desempenho. O que era uma aposta arriscada de Fincher – que a havia dirigido em um papel pequeno em “A rede social” – tornou-se, então, uma felicíssima previsão.
Passando a perna em nomes bem mais conhecidos do público, como Scarlett Johansson (considerada sexy demais por Fincher), Carey Mulligan, Ellen Page, Kirsten Stewart, Keira Knightley, Mia Wasikowska, Anne Hathaway, Evan Rachel Wood e Eva Green – além de outras menos cotadas e uma Natalie Portman que recusou o papel alegando extremo cansaço das filmagens de “Cisne negro” – Mara calou a boca daqueles que duvidavam de sua capacidade de dar vida a uma personagem tão complexa e tão adorada pelos leitores espalhados pelo mundo. A princípio dona de uma hostilidade e uma quase antipatia que poderiam jogar contra si, aos poucos Salander vai sendo revelada ao público pelo roteiro esperto de Zaillian e pela direção atenciosa de Fincher, que não foge de apelar para cenas de uma violência surpreendente em tempos tão mornos. Antes mesmo de encontrar-se, depois de mais de uma hora de projeção, com Blomkvist – a quem investigou a pedido do próprio Vanger – Salander já não é mais uma desconhecida da audiência, que compartilha com ela a dor de uma situação extrema da qual ela se livra com uma inteligência e uma ousadia empolgantes. É uma dupla e tanto, responsável por um dos melhores filmes policiais do início do século, uma feliz conjunção de inúmeros fatores comandados por um cineasta genial, capaz de transformar uma história policial em uma produção inesquecível.
A trama de “Os homens que não amavam as mulheres”, na verdade, é dividida em várias, que se complementam com o desenrolar da narrativa. Primeiro, existe a tentativa de Blomkvist em provar sua inocência no caso de calúnia e difamação promovido contra suas reportagens para a revista Millennium, comandada por sua também amante (Robin Wright). Depois, há a sua investigação a respeito do desaparecimento (ou provável morte) da sobrinha de Henrik Vanger – cujas maiores pistas estão no testemunho de uma antiga amiga que estava presente à reunião familiar no fatídico dia de seu sumiço (interpretada por Joely Richardson) e em uma série de fotos encontradas pelo jornalista (e que servem como homenagem silenciosa ao cinema em si, graças à edição espetacular de Baxter e Wall). Por fim, existe o relacionamento entre o intrigado protagonista e a torturada e rebelde Lisbeth, que ele contrata para ajudá-lo em sua missão. O roteiro de Steven Zaillian costura todas as pontas com maestria, mergulhando a plateia em um suspense aterrador e claustrofóbico, sem pausas para piadinhas ou qualquer tipo de leveza – até mesmo o romance que se desenha entre Blomkvist e Salander é cercado de uma quase frieza que condiz com a bela paisagem da Suécia. Fincher conduz tudo como um maestro, sempre encontrando a melhor solução para cada cena, comprovando seu talento imenso em imprimir na tela uma visão realista do mundo que cerca os personagens – pode-se, inclusive, dizer que os gélidos cenários são um personagem a mais do filme, tamanha sua importância em enfatizar o clima soturno da história. Se o filme não é perfeito, a culpa é somente do clímax, que deixa de lado o tom mais cerebral imposto até então para apelar para o confronto físico entre mocinho e bandido – e mesmo assim, a direção de Fincher é tão poderosa que fica difícil se incomodar com o clichê.
Enorme sucesso de bilheteria, “Os homens que não amavam as mulheres” deveria ter sido o primeiro filme de uma trilogia, como aconteceu em forma de livro e produções suecas. Infelizmente, por inúmeras razões o projeto das continuações, que contariam com os mesmos protagonistas, acabou não saindo do papel, para tristeza dos fãs da história e de David Fincher – que seria imprescindível para a manutenção da qualidade do primeiro episódio. Mesmo assim, foi o pontapé inicial da carreira que promete ser bastante vitoriosa de Rooney Mara – que voltou a ser indicada ao Oscar, dessa vez como coadjuvante, por “Carol” (15) – e provou que Daniel Craig pode ir muito mais além de James Bond. Ficando com um papel para o qual foram considerados Johnny Depp, Viggo Mortensen, Brad Pitt e George Clooney, Craig saiu-se muito melhor que a encomenda, transformando Mikael Blomkvist em um de seus melhores e mais importantes trabalhos em Hollywood.
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OS AGENTES DO DESTINO
OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...





