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domingo

QUANDO O CORAÇÃO FLORESCE

QUANDO O CORAÇÃO FLORESCE (Summertime, 1955, United Artists, 99min) Direção: David Lean. Roteiro: David Lean, H.E. Bates, peça teatral "The time of the cuckoo", de Arthur Laurents. Fotografia: Jack Hildyard. Montagem: Peter Taylor. Música: Alessandro Cicognini. Direção de arte/cenários: Vincent Korda. Produção: Ilya Lopert. Elenco: Katharine Hepburn, Rossano Brazzi, Isa Miranda, Darren McGavin, Mari Aldon, Gaetano Autiero. Estreia: 29/5/55 (Festival de Veneza)

2 indicações ao Oscar: Diretor (David Lean), Atriz (Katharine Hepburn)

Quando aceitou o papel de Jane Hudson, uma secretária solteirona que descobre o amor em uma viagem à Itália, a atriz Katharine Hepburn já estava longe dos sets de filmagem desde "A mulher absoluta", de George Cukor - uma de suas várias colaborações com o ator Spencer Tracy. Seu retorno ao cinema, depois de três anos afastada, lhe rendeu a sexta indicação ao Oscar de melhor atriz. Baseado em uma peça de teatro estrelada por Shirley Booth e estreada em 1952, "Quando o coração floresce" é um filme perfeito para os românticos e um deleite para os olhos. Filmado quase totalmente na própria Veneza, o filme ofereceu à Hepburn o raro desafio de interpretar uma mulher apaixonada e vulnerável, e ao diretor David Lean a chance de assinar um último filme de pequena escala antes de dedicar-se a produções épicas e monumentalmente caras - seu filme seguinte seria "A ponte do Rio Kwai", lançado em 1957. Simples e sem afetações, "Quando o coração floresce" é, ao mesmo tempo, a história de um amor maduro e um cartão postal de seu cenário natural. E também o preferido de Lean dentre toda a sua filmografia - o que, haja visto seu currículo, é um elogio e tanto.

O primeiro cineasta interessado em dirigir a adaptação a peça de Arthur Laurents, chamada originalmente de "The time of the cuckoo", foi Roberto Rosselini. Um dos criadores do neorrealismo italiano planejava entregar à sua amada Ingrid Bergman o papel principal, mas o projeto não foi adiante em suas mãos. Olivia de Havilland também chegou a considerar a ideia de protagonizá-lo, e até mesmo Vittorio De Sica esteve entre os possíveis nomes do elenco - e não como diretor, mas no papel do galante Renato de Rossi, o galã que balança o coração da solitária Jane. Quando David Lean assumiu as rédeas da produção é que as coisas encontraram seu rumo, ou ao menos, era a impressão. Quando decidiu filmar tudo em locações, o premiado cineasta não tinha ideia dos problemas que teria de enfrentar: a equipe chegou em Veneza em plena alta temporada, e as filmagens, logicamente, demandavam de controle, o que significava que muitos dos turistas não contavam com tais transtornos. Lean teve de pagar pelos prejuízos dos comerciantes, dos condutores de gôndolas e até pela restauração de uma igreja da cidade. Afora esse pequeno empecilho, porém, tudo transcorreu tranquilamente - até mesmo a filmagem da cena em que Katharine Hepburn teve que cair em um dos canais de Veneza (e que lhe rendeu uma infecção no olho que nunca mais a abandonou). Foi tudo tão pacífico que Lean confirmou sua paixão pela cidade e fez dela seu segundo lar.


Já os moradores de Veneza, depois da confusão proporcionada pelas filmagens, foram surpreendidos com um efeito positivo para sua economia: após o lançamento de ""Quando o coração floresce" (justamente no festival de cinema realizado na cidade), o turismo no local simplesmente dobrou. Os espectadores conquistados pela história de amor contada por Lean queriam visitar os cenários do filme - e desde então Veneza é considerada uma das cidades mais românticas do mundo. Tudo por conta de uma história de amor madura, que rejeita o sentimentalismo e abraça um tom de romance outonal que trata o espectador com respeito - e que apresenta mais uma interpretação impecável de Hepburn. Ela vive Jane Hudson, que depois de anos de trabalho finalmente consegue realizar a viagem dos sonhos. Sozinha - acompanhada apenas por sua câmera filmadora -, ela passeia por Veneza absorvendo a atmosfera lírica da cidade. Ao entrar em um antiquário para comprar um objeto pelo qual se apaixonou, ela conhece Renato de Rossi (Rossano Brazzi), que acaba por se tornar seu amigo. Aos poucos, no entanto, Jane percebe que quer mais do que a amizade do sedutor Renato - mas nem tudo é o que parece, e em breve ela terá de lutar contra seus próprios valores para se entregar ao amor.

Assim como em "Desencanto" (1945), um de seus mais memoráveis filmes, David Lean retrata uma relação amorosa condenada pelas regras sociais. Mais uma vez seus personagens são jogados em um turbilhão sentimental e precisam encontrar forças para lutar por sua felicidade, que está justamente em um local aparentemente inalcançável. Katharine Hepburn é uma força da natureza: qualquer cena, por mais insignificante que pareça, é transformada em um espetáculo à parte - principalmente no terço final, quando ela precisa decidir entre a felicidade (ainda que fugaz) ou a ética social. A Rossano Brazzi resta pontuar com discrição o desempenho de Hepburn e entregar uma performance correta, mas jamais brilhante. A química entre os dois não chega a ser faiscante - o amor talvez surja de forma um tanto rápida -, mas é inegável que juntos eles conseguem cumprir o que o filme promete: um romance entre pessoas adultas e com sentimentos palpáveis, que pode fazer com que os mais sensíveis espectadores derramem uma ou outra lagrimazinha. Não é nem de longe o melhor filme de David Lean, mas oferece ao público uma trama séria e emocionante.

sexta-feira

O LEÃO NO INVERNO

O LEÃO NO INVERNO (The lion in winter, 1968, Haworth Productions, 134min) Direção: Anthny Harvey. Roteiro: James Goldman, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Douglas Slocombe. Montagem: John Bloom. Música: John Barry. Figurino: Margaret Furse. Direção de arte/cenários: Peter Murton/Lee Poll. Produção executiva: Joseph E. Levine. Produção: Martin Poll. Elenco: Peter O'Toole, Katharine Hepburn, Anthony Hopkins, Timothy Dalton, John Castle, Nigel Terry, Jane Merrow, Nigel Stock. Estreia: 30/10/68

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Anthony Harvey), Ator (Peter O'Toole), Atriz (Katharine Hepburn), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Figurino
Vencedor de 3 Oscar: Atriz (Katharine Hepburn), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Ator/Drama (Peter O'Toole) 

A cerimônia de entrega do Oscar de 1969 - para premiar os melhores da temporada 1968 - não surpreendeu apenas àqueles que ficaram chocados com a vitória do açucarado "Oliver" em um período tão atribulado da história dos EUA, com a luta pelos direitos civis pegando fogo e o conservadorismo americano sendo posto em xeque com produções como "Bonnie & Clyde", "No calor da noite", "A primeira noite de um homem" e "Adivinhe quem vem para jantar?" - todos lançados em 1967 e amplamente incensados por crítica e público. O maior choque da noite foi o inédito empate na categoria de melhor atriz (fato até hoje não repetido pelos votantes) entre a novata Barbra Streisand (premiada também com um Golden Globe por sua performance em "Funny girl") e a veterana Katharine Hepburn, que não apenas vencia pela terceira vez (iria repetir a façanha em outra ocasião ainda, por "Num lago dourado", de 1981) como pegava todo mundo de surpresa ao ser escolhida novamente apenas um ano depois de sua estatueta por "Adivinhe quem vem para jantar?". Hoje, vista à distância, porém, é inegável afirmar que, mais do que apenas um gesto de carinho da Academia pela consagrada atriz, sua vitória foi incontestável: sutil, poderoso e avassalador, seu desempenho irretocável é, talvez, a maior qualidade de um filme repleto delas.

Adaptado da peça teatral escrita por James Goldman que estreou na Broadway em 1966, estrelada por Rosemary Harris e Robert Preston, o roteiro do próprio dramaturgo (vencedor do Oscar da categoria, batendo, entre outros, "O bebê de Rosemary", de Roman Polanski) se utiliza de personagens reais para imaginar uma trama de traições, ressentimentos e desajuste familiar em plena Inglaterra do século XII. Tudo começa quando, às vésperas do Natal de 1183, o Rei Henrique II (Peter O'Toole, indicado ao Oscar de melhor ator) resolve reunir sua família para decidir qual dos seus três filhos tem mais condições de ocupar o trono após sua morte. Para isso, além de chamá-los, ele também convida para o encontro sua esposa, Eleanor de Aquitaine (Katharine Hepburn), a quem mantém presa em uma torre distante de seu castelo devido a seus constantes desentendimentos. Eleanor tem preferência por seu filho Richard (Anthony Hopkins em seu segundo filme), e essa é apenas mais uma diferença entre ela e seu marido, que tenciona ser sucedido por John (Nigel Terry) - rapaz prometido há anos para a jovem Alais (Jane Merrow), irmã do Príncipe Philip II (Timothy Dalton), da França, também presentes nas festividades. O problema é que Alais é amante do rei - e esse será mais um empecilho para uma decisão simples e unânime: não demora para que as máscaras de civilidade e fraternidade caiam e todos mostrem suas verdadeiras (e nem sempre nobres) intenções.


Mantendo a estrutura teatral de sua origem mas sem perder o ritmo e mantendo constante a tensão que empurra a trama para frequentes embates entre os personagens, o roteiro de "O leão no inverno" se beneficia muito da extrema qualidade de seus diálogos e da direção precisa de Anthony Harvey - editor de clássicos, como "Lolita" (62) e "Dr. Fantástico"(64), de Stanley Kubrick. Ciente do excelente material que tinha em mãos, Harvey não faz muito mais do que deixar com que seus (ótimos) atores façam seus shows particulares, em especial Hepburn e O'Toole. Ainda se recuperando da perda de seu parceiro profissional e de vida Spencer Tracy, ela está em um de seus melhores momentos da carreira, com uma intocável aura de classe mesmo quando é humilhada pelo marido, interpretado por O'Toole com garra evidente. Na pele de um soberano tão cruel quanto caloroso, ele equilibra com segurança ímpar todas as nuances de um Rei Lear, preso a convenções familiares que deseja abandonar e lutando para manter o poder mesmo quando este parece escapar de suas mãos. Todas as vezes em que os dois monstros sagrados estão em cena é difícil tirar os olhos da tela: com o domínio completo da arte da atuação, eles nem mesmo precisam falar para transmitir uma vasta gama de sentimentos - e o olhar de Hepburn (ainda apaixonado, apesar de tudo) é, provavelmente, um dos mais fascinantes de Hollywood.

Com uma teia de traições e mentiras que vão se acumulando até o final climático, "O leão no inverno" é um espetáculo adulto, que prescinde de efeitos visuais poderosos ou piadas fáceis para atingir seu público. Não chega a ser historicamente acurado, apesar dos personagens terem realmente existido, mas é inteligente e dramático, recheado de cenas e situações que crescem com a potente trilha sonora de John Barry (também premiada com um Oscar) e a reconstituição de época caprichada, que mergulha o espectador em um universo distante no tempo mas paradoxalmente atual, com suas disputas pelo poder e alianças nem sempre legítimas. Aqueles que não tem paciência com filmes com longos diálogos talvez se sintam aborrecidos, mas é irresistível a todos que procuram um produto cujo brilho nem mesmo o passar das décadas conseguiu apagar. Uma pequena obra-prima - e pensar que ninguém sequer consegue lembrar de "Oliver"!!

sábado

ADIVINHE QUEM VEM PARA JANTAR

ADIVINHE QUEM VEM PARA JANTAR (Guess who's coming to dinner, 1967,Columbia Pictures Productions, 108min) Direção: Stanley Kramer. Roteiro: William Rose. Fotografia: Sam Leavitt. Montagem: Robert C. Jones. Música: De Vol. Direção de arte/cenários: Robert Clatworthy/Frank Tubble. Produção: Stanley Kramer. Elenco: Katharine Hepburn, Spencer Tracy, Sidney Poitier, Katharine Houghton, Cecil Kellaway, Beah Richards. Estreia: 11/12/67

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stanley Kramer), Ator (Spencer Tracy), Atriz (Katharine Hepburn), Ator Coadjuvante (Cecil Kellaway), Atriz Coadjuvante (Beah Richards), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Adaptada, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 2 Oscar: Atriz (Katharine Hepburn), Roteiro Original

Não deixa de ser uma coincidência poética o fato de meros dois dias separarem a morte do ator Spencer Tracy e a decisão por unanimidade da Suprema Corte norte-americana em declarar inconstitucional a lei que considerava crime, em 14 estados dos EUA, o casamento interracial: o último filme do consagrado ator - e que ele havia finalizado apenas 17 dias antes de morrer - punha em discussão justamente uma das maiores chagas do país que veria, menos de um ano depois, o assassinato de Martin Luther King: o racismo muitas vezes mascarado pela hipocrisia e pelo verniz do liberalismo da classe média. Dirigido por Stanley Kramer, um dos mais politizados cineastas de sua época, "Adivinhe quem vem para jantar" marcou também a última colaboração - de nove - entre Tracy e Katharine Hepburn, um dos casais não oficiais mais queridos e respeitados de Hollywood e a primeira vez que um filme com um assunto tabu como a miscigenação deixou pra trás o fracasso de bilheteria e tornou-se um grande sucesso comercial e de crítica. Mas, à parte a importância do tema, dos veteranos atores e da competência de Kramer em tornar palatável até o mais controverso dos assuntos, o grande trunfo do filme, e o que fez neutralizar todo e qualquer risco, tinha um nome: Sidney Poitier.

Um dos nomes mais populares entre as plateias norte-americanas dos anos 60, Sidney Poitier representava o que para muitos era a epítome do bom-moço, e sua penetração junto inclusive às camadas mais preconceituosas do público era derivada justamente dessa figura respeitável, honesta e bem-sucedida que seus personagens transmitiam a cada filme. Seu sucesso era tão inquestionável que até mesmo um Oscar de melhor ator ele chegou a ganhar, em 1963, pelo filme "Uma voz nas sombras" - vale lembrar que até então nenhum ator negro havia chegado a tanto e isso era um feito considerável em um país ainda em convulsão com as frequentemente sangrentas lutas pelos direitos civis. Como era de se esperar, porém, o sucesso de Poitier e sua persona forjada ao prazer e gosto de uma audiência branca encontrava resistência justamente junto a seus pretensos semelhantes: ativistas dos movimentos negros rechaçavam com desprezo a pasteurização de sua cultura para melhor fruição de um público predominantemente WASP - branco, anglo-saxão, protestante. O filme "O mordomo da Casa Branca" (2014), de Lee Daniels, exemplifica a questão, em uma discussão entre o protagonista (Forest Whitaker), dedicado aos presidentes do país, e seu filho (David Oyleomo), radical ativista do grupo Panteras Negras que via em Poitier um exemplo a ser renegado pelo povo afro-americano. A importância do ator na indústria do entretenimento ianque é inegável - mas também o são os questionamentos levantados pelos não-entusiastas. E essa dubiedade é, talvez, o cerne de "Adivinhe quem vem para jantar", um filme repleto de boas intenções mas que, de certa forma, esbarra em um muro de escolhas questionáveis em sua narrativa.


Diretor de filmes de suma importância social e política, como "O vento será tua herança" (60) - sobre um professor do interior dos EUA que vai parar no banco dos réus por ensinar a Teoria da Evolução de Darwin aos alunos - e "Julgamento em Nuremberg" - que tratava da batalha para condenar criminosos nazistas da II Guerra Mudial - o inteligente Stanley Kramer sabia que o tema de "Adivinhe quem vem para jantar" era controverso e poderia melindrar os mais conservadores (leia-se preconceituosos) do país. Foi com esse pensamento em vista que resolveu transformar seu protagonista negro em alguém que pudesse ser mais palatável a essa parcela do público - a quem, de certa forma, a mensagem era dirigida. Entra em cena, então, Sidney Poitier, com seu jeito polido, educado, inofensivo até. No filme, ele vive o dr. John Prentice, médico bem-sucedido, viúvo e repleto de boas intenções que entra na vida da família Drayton - brancos, cultos, inteligentes e aparentemente liberais - como uma tempestade inesperada: ele é apresentado pela jovem Joey (Katharine Houghton) como seu noivo, por quem se apaixonou perdidamente durante uma viagem ao Havaí. Mais do que simplesmente um namoro inconsequente, a relação entre os dois se revela séria e urgente, já que pretendem casar-se em poucos dias. Os até então modernos Matt (Spencer Tracy) - editor de um jornal de grande circulação - e Christina (Katharine Hepburn) - dona de uma galeria de arte - se veem, então, diante de uma situação que põe em xeque suas convicções e teorias. Quando os pais de John também entram na jogada, para um jantar ao qual também comparece um padre católico (Cecil Kellaway, indicado ao Oscar de coadjuvante), a noite se transforma em um debate onde se discute não apenas o futuro do casal, mas também o amor em geral e a situação social de um país inteiro.

A questão de John Prentice ser o protótipo do bom-moço - como se apenas se ele cumprisse todas as regras impostas por uma sociedade branca ele fosse apto a receber seu aval - ainda é muito discutida, como forma de diminuir o impacto de "Adivinhe quem vem para jantar" à época de sua estreia. Lógico que não foi a escolha ideal em termos ideológicos - é o mesmo que hoje em dia se fazer um filme com personagens gays que vivem sob normas heteronormativas como forma de não chocar a audiência e angariar sua simpatia - mas é injusto não reconhecer que Kramer, juntamente com o roteirista William Rose, fez um trabalho bastante corajoso e importante, além de não esquecer jamais dos ingredientes que fazem um bom filme: uma história interessante, um roteiro ágil e vivaz, uma direção firme e um elenco de sonhos. O último dueto entre Spencer Tracy e Katharine Hepburn é digno de seus melhores trabalhos, e fica na história como um testemunho de dois astros inteligentes, talentosos e engajados. É só deixar de lado a ideia de que poderia ter sido diferente e assistir ao filme pelo que ele é para apreender sua relevância e deleite.

quarta-feira

DE REPENTE, NO ÚLTIMO VERÃO

DE REPENTE, NO ÚLTIMO VERÃO (Suddenly, last summer, 1959, Columbia Pictures, 114min) Direção: Joseph L. Mankiewicz. Roteiro: Gore Vidal, Tennessee Williams, peça teatral de Tenneessee Williams. Fotografia: Jack Hildyard. Montagem: William Hornbeck, Thomas G. Stanford. Música: Malcolm Arnold, Buxton Orr. Figurino: Oliver Messel. Direção de arte/cenários: Oliver Messel/Scott Slimon. Produção: Sam Spiegel. Elenco: Elizabeth Taylor, Montgomery Clift, Katharine Hepburn. Estreia: 22/12/59

3 indicações ao Oscar: Atriz (Katharine Hepburn, Elizabeth Taylor), Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Elizabeth Taylor)

Segundo a biografia "Tracy and Hepburn", de Garson Kanin, quando seu trabalho em "De repente, no último verão" chegou ao final, Katharine Hepburn aproximou-se do diretor Joseph L. Mankiewicz e do produtor Sam Spiegel e, furiosa, encheu-os de impropérios e acabou seu discurso cuspindo em seu rosto. Apesar do gênio difícil da atriz, não foi apenas um ato de rebeldia sem causa: seu ato final era a resposta ao modo cruel com que os dois homens haviam tratado o ator Montgomery Clift durante as filmagens. Já na fase posterior a seu acidente de carro em 1956 - que quase o matou e o jogou definitivamente na dependência de remédios que afinal apressaria sua morte dez anos depois - Clift só não foi substituído no papel central masculino graças à sua amiga de longa data Elizabeth Taylor, que ameaçou também abandonar o projeto caso ele fosse demitido. Esse clima pouco amistoso entre diretor, produtor e astro refletia-se na maneira pouco gentil com que o ator era tratado - e que resultou no acesso de raiva de Hepburn.

Baseado em uma peça teatral de um ato escrita pelo sempre polêmico Tennessee Williams - que também assinou "Um bonde chamado desejo" - e roteirizado pelo próprio autor e pelo escritor Gore Vidal, "De repente, no último verão" teve sua história amenizada na transição para o cinema, devido às restrições impostas pela censura, que jamais teria deixado que ficassem explícitos nas telas seus principais temas, que incluíam homossexualidade, incesto, estupro e canibalismo. Ainda assim, foi muito por causa das críticas que repeliam todo o peso do filme que ele acabou fazendo sucesso - por isso e pela reunião, pela primeira e única vez, de três grandes nomes do cinema da época. Taylor e Hepburn acabaram sendo indicadas ao Oscar de melhor atriz, e Liz foi premiada com o Golden Globe por seu desempenho como a complexa Catherine Holly - papel que Patricia Neal havia defendido com garra na montagem da peça em Londres.


Apesar de aparecer somente do primeiro terço de projeção, Catherine, a personagem de Taylor, é a peça-chave da trama de Williams, dirigida com pulso firme por Mankiewicz - famoso por sua tirania e pelo Oscar de diretor pelo inesquecível "A malvada", de 1950. Antes que ela surja em cena, o público é apresentado a ela através da história contada por sua tia, a milionária Violet Venable (Katharine Hepburn), que vive isolada em uma mansão excêntrica, solitária desde a morte de seu único filho, Sebastian, descrito por ela como um poeta sensível e delicado. Segundo Violet, a morte do rapaz, acontecida um ano antes devido a um ataque cardíaco em uma praia da Espanha, causou um grande desequilíbrio em sua sobrinha, que, desde então, vem sofrendo de sérios problemas de desequilíbrio mental. Preocupada, Violet quer que John Crukowicz (Montgomery Clift) - famoso por suas experiências no campo da neurocirurgia - faça uma lobotomia na jovem, acenando com uma generosa doação para seu hospital. Quando conhece Catherine, porém, o médico passa a desconfiar que sua doença tem origem nas lembranças ocultas que ela tem da morte do primo e resolve forçá-la a encarar a tragédia - que não aconteceu conforme narrado por Violet.

Ainda que exagere em muitos pontos em sua trama - inspirada em sua própria irmã, que sofreu uma lobotomia - Williams consegue, em "De repente, no último verão", construir uma tensão crescente, que prende a atenção do público até seus momentos finais. Sem pausa para o humor ou instantes mais leves, o roteiro discorre fluentemente sobre assuntos pouco agradáveis ao gosto médio do público, conforme dito anteriormente. Não há espaço para romantismo - ainda que a atração entre o médico e Catherine seja óbvia - ou para soluções fáceis. Mankiewicz filma o hospital psiquiátrico sem dourar a pílula, mostrando com crueza o estado dos pacientes e não hesita em pesar a mão quando necessário. Infelizmente as restrições da censura - que limou a maioria das cenas que esclareciam a real personalidade de Sebastian - não permitiram que o filme fosse mais a fundo, o que certamente daria à obra uma ressonância ainda maior.

Forte, tenso e interpretado por três dos maiores atores da era dourada de Hollywood, "De repente, no último verão" é uma prova de que, apesar do caráter pouco admirável, Joseph L. Mankiewicz era capaz de prestar grandes serviços à sétima arte.

NUM LAGO DOURADO


NUM LAGO DOURADO (On golden pond, 1981, Universal Pictures, 109min) Direção: Mark Rydell. Roteiro: Ernest Thompson, baseado em sua peça teatral homônima. Fotografia: Billy Williams. Montagem: Robert L. Wolfe. Música: Dave Grusin. Figurino: Dorothy Jeakins. Direção de arte/cenários: Stephen Grimes/Jane Bogart. Casting: Dianne Crittenden, Barry Primus. Produção: Bruce Gilbert. Elenco: Henry Fonda, Katharine Hepburn, Jane Fonda, Doug McKeon, Dabney Coleman. Estreia: 04/12/81

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mark Rydell), Ator (Henry Fonda), Atriz (Katharine Hepburn), Atriz Coadjuvante (Jane Fonda), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Som
Vencedor de 3 Oscar: Ator (Henry Fonda), Atriz (Katharine Hepburn), Roteiro Adaptado
Vencedor de 3 Golden Globes: Filme/Drama, Ator/Drama (Henry Fonda), Roteiro


Existem no mínimo dois motivos para que o filme "Num lago dourado" tenha sido feito. Primeiro, para registrar em película o emocionante encontro entre duas gerações de uma nobre linhagem do cinema americano (que vivem na tela um interessante paralelo do que viviam na realidade) e para dar a Henry Fonda, aos 76 anos de idade, sua maior chance de levar um Oscar. O primeiro objetivo foi atingido plenamente: ao lado da filha Jane, de forma comovente, o veterano ator exorcisa uma difícil relação familiar em frente à plateia de forma comovente. E no resultado do segundo motivo saiu-se ainda melhor: não só Fonda levou a estatueta como sua companheira de cena, Katharine Hepburn arrebatou seu quarto Oscar, estabelecendo um recorde que não dá sinais de ser batido tão cedo.

Escrito pelo dramaturgo Ernest Thompson baseado em sua peça teatral homônima, o roteiro de "Num lago dourado" versa sobre assuntos normalmente considerados venenos de bilheteria, como velhice, medo da morte e relações familiares problemáticas. Totalmente escorado no trabalho de atores e em seus diálogos bem escritos, em detrimento de efeitos visuais e piadas infames (que já na época de seu lançamento faziam a alegria dos estúdios), o filme de Mark Rydell conquista justamente pela simplicidade de seu enredo e pela felicidade na escalação de seu elenco. Ao contrário de aborrecer o público com falas inflamadas e lugares-comuns, "Num lago dourado" oferece à plateia um espetáculo de delicadeza e bom gosto, que exige apenas um mínimo de sensibilidade para emocionar a audiência sem apelar para golpes baixos.

A trama do filme se passa no verão em que Norman Thayler Jr (vivido com sutileza por Henry Fonda em seu último papel) completa 80 anos. Irascível, rabugento e sem maiores admirações pelos seres humanos em geral, ele chega até sua casa de verão com a dedicada esposa Ethel (Katharine Hepburn) pra comemorar seu aniversário e afastar-se do turbilhão da cidade grande. Logo em seguida sua única filha, Chelsea (Jane Fonda) também chega ao local, acompanhada do novo namorado, Bill Ray (Dabney Coleman) e do filho deste (Doug McKeon), um menino de 13 anos de idade, rebelde e pouco amistoso. Fica patente para os visitantes que a relação entre pai e filha não é das mais saudáveis, mas mesmo assim tudo transcorre dentro da normalidade. As coisas mudam de figura quando Chelsea pede aos pais que fiquem cuidando de seu futuro enteado enquanto ela viaja com Bill Ray. O que poderia ser uma temeridade, no entanto, acaba ajudando tanto o menino, que torna-se mais afável, quanto o próprio Norman, que vê no rapaz o neto que nunca teve.


A maior beleza de "Num lago dourado", além de sua fotografia deslumbrante, é a maneira com que o roteiro de Thompson trata suas personagens. Abdicando de qualquer condescendência, ele criou personagens dolorosamente reais, repletos das qualidades e defeitos de qualquer ser humano. Norman é um homem amargurado, chato, de uma misantropia quase patológica, mas ao mesmo tempo se envolve em uma relação de amizade e amor com um pré-adolescente que busca aceitação e carinho. E sua filha, uma mulher fechada em suas mágoas de infância tenta desesperadamente conquistar a admiração de um pai do qual nunca teve mais do que críticas. No meio deles, uma mãe carinhosa e amorosa que luta para uní-los através dos laços de sangue.

É inegável que "Num lago dourado" ganha muito com os embates verbais entre os dois Fonda de seu elenco, ambos vibrantes e à flor da pele. Mas é injusto não aplaudir também a química entre o bom e velho Henry e o menino Doug McKeon (que, a despeito de seu bom trabalho não conseguiu uma carreira decente em Hollywood): as cenas entre os dois transmitem uma ternura quase palpável, que emociona sem ser piegas. E emocionante, aliás, é um eufemismo para o que acontece quando Fonda e Katharine Hepburn estão juntos. O último ato do filme, em que o velho casa volta a ficar sozinho em casa depois da partida de seus convidados é de uma pungência ímpar. Sem recorrer a truques sujos para tentar a emoção do espectador, o texto de Thompson e a direção elegante de Mark Rydell atingem o máximo de beleza ao deixar que seus intérpretes brilhem ao máximo. E eles dão um show à parte, provando que talento definitivamente não envelhece.

    OS AGENTES DO DESTINO

      OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...