O HOMEM QUE MUDOU O JOGO (Moneyball, 2011, ColumbiaPictures, 131min) Direção: Bennett Miller. Roteiro: Steven Zaillian, Aaron Sorkin, livro de Michael Lewis. Fotografia: Wally Pfister. Montagem: Christopher Tellefsen. Música: Mychael Danna. Figurino: Kasia Malicja Maione. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: Mark Bakshi, Andrew Karsch, Sidney Kimmel, Scott Rudin. Produção: Michael De Luca, Rachael Horovitz, Brad Pitt. Elenco: Brad Pitt, Jonah Hill, Philip Seymour Hoffman, Robin Wright, Chris Pratt, Spike Jonze, Stephen Bishop, Brent Jennings, Tammy Blanchard, Arliss Howard. Estreia: 09/9/11 (Festival de Toronto)
06 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Brad Pitt), Ator Coadjuvante (Jonah Hill), Roteiro Adaptado, Montagem, Mixagem de Som
Poucas pessoas em Hollywood conseguiriam convencer um estúdio a bancar um filme a respeito de beisebol e matemática, dois assuntos não exatamente populares - especialmente fora dos EUA, onde o esporte é praticamente veneno de bilheteria. E uma dessas poucas pessoas é o diretor Steven Soderbergh, que desde 1989, quando ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes com "sexo, mentiras e videotape", consagrou-se como o cineasta independente mais bem-sucedido do cinema norte-americano. Nem mesmo alguns tiros n'água foram o suficiente para diminuir seu prestígio na indústria - e o Oscar de melhor diretor por "Traffic" (2000) no mesmo ano em que também concorria por "Erin Brokovich, uma mulher de talento" só aumentou seu cacife. Portanto, quando Soderbergh surgiu com a ideia de fazer um filme sobre o esporte com o elenco formado por ex-jogadores e profissionais da liga, poucos se surpreenderam com a aquiescência da Columbia Pictures em bancar os custos da produção. A surpresa veio mesmo quando o próprio diretor saiu fora do projeto, por divergências em relação ao roteiro, escrito pelo premiado Steven Zaillian. A entrada em cena de um novo comandante - Bennett Miller, indicado ao Oscar por "Capote" (05) - e um astro de primeira grandeza no papel principal - Brad Pitt - imediatamente inchou o orçamento, e o que seria uma produção menor ganhou destaque na mídia e nas cerimônias de premiação. Indicado a seis Oscar - incluindo melhor filme e ator - e com uma considerável bilheteria doméstica de mais de 75 milhões de dólares, "O homem que mudou o jogo" talvez tenha sido super-apreciado, mas é um filme bastante interessante, a despeito de seu tema pouco atraente.
Desprovido de seu charme de galã e de seu carisma irresistível, Brad Pitt arrancou uma indicação ao Oscar de melhor ator por seu desempenho como Billy Beane, o gerente geral de um time de beisebol de Oakland que tenta, com a ajuda de seu novo assistente, Peter Brand (Jonah Hill, lembrado como coadjuvante pela Academia), melhorar os índices de aproveitamento de sua equipe mesmo com um orçamento irrisório em comparação com os rivais. Perdendo os atletas-astros para times maiores, Beane e Brand - formado em Economia e sem nenhuma relação com o esporte em si - criam uma nova forma de calcular o quanto cada jogador pode render em campo, através de gráficos e percentuais. Contratando homens até então desacreditados ou relegados ao banco de reservas, eles enfrentam a descrença dos analistas técnicos e até do treinador, Art Howe (Philip Seymour Hoffman); Mas, para surpresa de todos, depois de um período de tempo as vitórias começam a acumular-se, transformando o Oakland Athletics em uma espécie de fenômeno inesperado.
Baseado em uma história real, contada por Michael Lewis em seu livro "Moneyball", o filme de Bennet Miller se beneficia de uma edição inteligente, que mergulha o espectador dentro não apenas dos jogos em si - cujas regras não são tão facilmente compreensíveis quanto as do futebol - mas das entranhas do esporte em geral. A melancolia dos estádios vazios, a frieza das negociações contratuais, a agonia das derrotas e a euforia das vitórias são retratadas de forma quase documental, com a câmera de Wally Pfister (diretor de fotografia preferido de Christopher Nolan) sempre atenta a qualquer detalhe capaz de humanizar cada um de seus personagens. Mesclando imagens de arquivo com cenas feitas especialmente para o filme, Miller consegue a proeza de enfatizar a emoção do esporte sem precisar, para isso, abdicar de uma certa dose de racionalidade que dá ao resultado final uma curiosa mescla entre cérebro e coração: é impossível não torcer pelos desacreditados jogadores menosprezados, mesmo que a direção quase cirúrgica evite qualquer traço de sentimentalismo. Até mesmo a relação entre Beane e a filha pré-adolescente é tratada com discrição, apesar de permitir à Pitt que demonstre a sutileza de sua atuação.
Centrando todo seu foco nos dois protagonistas, "O homem que mudou o jogo" conta com participações especiais ilustres - além de Philip Seymour Hoffman como o treinador Art Howe, aparecem em cena Robin Wright (como a ex-mulher de Beane), o diretor Spike Jonze (como o novo marido dela) e Chris Pratt, antes de tornar-se popular como o herói de "Guardiões da galáxia" (2014), como um dos jogadores resgatados pelo método audacioso de Beane e Brand. Como um filme que se propõe a narrar uma história quase inacreditável sem apelar para grandes reviravoltas ou artifícios dramáticos, se utiliza de um excelente roteiro - que, inicialmente escrito por Steven Zaillian, foi burilado por Aaron Sorkin e indicado ao Oscar a categoria, perdendo para "Os descendentes" - para celebrar a persistência e o amor ao esporte, na figura de um protagonista falível e realista, iluminado por flashbacks reveladores que explicam sua trajetória de atleta promissor a gerente em crise profissional. Sem excesso de nenhuma natureza - característica de seu diretor - é uma obra que cresce em uma revisão, desde que se saiba exatamente quais são seus objetivos e seu estilo narrativo. Mais uma bola dentro na carreira de Brad Pitt.
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segunda-feira
ELA
ELA
(Her, 2013, Annapurna Pictures, 126min) Direção e roteiro: Spike Jonze.
Fotografia: Hoyte Van Hoytema. Montagem: Jeff Buchanan, Eric
Zumbrunnen. Música: Arcade Fire. Figurino: Casey Storm. Direção de
arte/cenários: K.K. Barrett/Gene Serdena. Produção executiva: Chelsea
Barnard, Natalie Farrey, Daniel Lupi. Produção: Megan Ellison, Spike
Jonze, Vincent Landay. Elenco: Joaquin Phoenix, Scarlett Johansson, Amy
Adams, Rooney Mara, Chris Pratt, Matt Letscher. Estreia: 12/10/13
(Festival de Nova York)
5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original, Trilha Sonora Original, Canção Original ("The moon song"), Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Roteiro Original
Deve ser interessante conversar com Spike Jonze. Em um carreira como cineasta que conta com apenas quatro obras, o ex-marido de Sofia Coppola, cujo inicio de carreira foi dirigir videoclipes de artistas como Bjork e Fatboy Slim é, sem qualquer dúvida, uma das mais criativas mentes da engessada Hollywood do século XXI, capaz de legar ao público trabalhos que tem como principal característica a ousadia temática e narrativa. Foi assim com o bizarro "Quero ser John Malkovich" - que lhe deu, de cara, uma indicação ao Oscar de diretor - com o metalinguístico "Adaptação" - que deu a Meryl Streep um de seus papéis mais desafiadores - e até com o infantil "Onde vivem os monstros" - que fugiu da esfera limitadora da faixa etária para emocionar muitos adultos. Não é de estranhar, portanto, que seja seu nome que esteja nos créditos de "Ela", o estranho no ninho entre os indicados ao Oscar de melhor filme de 2013.
Estranho no ninho? Sim. Em um ano em que o favoritismo estava entre o superestimado "Gravidade" - que à parte os efeitos visuais é apenas mais um filme comercial bem feitinho - e o socialmente relevante "12 anos de escravidão" - que apesar das qualidades é o tipo de obra que a Academia adora cobrir de láureas - é surpreendente que uma obra como "Ela" tenha encontrado seu espaço. Bizarro desde seu tema - a história de amor entre um homem e um sistema operacional de última geração criado a partir das necessidades do proprietário - até a forma com que lida com ele - sem apelos sentimentais mas ainda assim emocionalmente potente - o filme de Jonze foge bastante do padrão dos tradicionais romances produzidos em Hollywood por pelo menos mais uma razão: exigir que o público não desligue o cérebro para acompanhar sua trama.
Em um futuro não muito distante, o introvertido Theodore (Joaquin Phoenix), ainda machucado pelo fim de seu casamento com a bela Catherine (Rooney Mara), compra um novo sistema operacional, que pode ser moldado de acordo com a personalidade e as necessidades do proprietário. Batizado com o nome de Samantha, o SO passa a lhe fazer companhia em seus momentos de solidão e, surpreendentemente, surge entre eles um relacionamento que ultrapassa os limites tecnológicos. Apaixonados um pelo outro, os dois precisam aprender a lidar com a nova situação - não tanto por causa das pessoas a seu redor, acostumadas com os avanços da informática, mas por causa das próprias limitações físicas e emocionais da bizarra situação, bem como a dificuldade de Theodore de conviver com seus próprios sentimentos.
Interpretado magistralmente por Joaquin Phoenix - a escolha ideal para personagens à margem do convencional - Theodore retrata com perfeição um geração insegura em termos sentimentais que, mesmo cercada de tecnologia e até mesmo de pessoas de carne e osso, não consegue libertar-se do medo da solidão e do sofrimento. Perito em escrever cartas de amor para estranhos - sua profissão - ele é incapaz de deixar para trás um relacionamento fracassado e apela para o que deveria ser um porto seguro, apenas para descobrir que o amor é, definitivamente, algo intangível e imensurável, que foge de qualquer padrão e cálculo. É apaixonante a maneira com que Jonze consegue contar sua história sem contar muito mais do que com o trabalho de Phoenix, a voz de Scarlett Johansson, pouquíssimos coadjuvantes (destaque para a sempre ótima Amy Adams) e um visual clean, que transmite a sensação de vazio que perpassa a existência do protagonista até seu encontro com Samantha. A bela trilha sonora - indicada ao Oscar, assim como a canção "The moon song", delicada e comovente - completa o quadro, comentando a ação sem interferir em excesso nos devaneios de Theodore.
Ao mesmo tempo de uma complexidade brilhante e uma simplicidade estontente, "Ela" talvez seja o melhor filme da carreira de Jonze. E isso não é pouco. Merecido vencedor do Oscar de roteiro original - delicado, engraçado, comovente e realmente original - o trabalho do cineasta é daqueles raros projetos em que tudo está no lugar certo, funcionando como um relógio. A fotografia sóbria, a direção de arte caprichada que cria um universo particular sem excessos, a música suave, o figurino bizarro e a escalação do elenco são peças fundamentais para que o resultado final seja primoroso, uma pequena obra-prima de sua geração.
5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original, Trilha Sonora Original, Canção Original ("The moon song"), Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Roteiro Original
Deve ser interessante conversar com Spike Jonze. Em um carreira como cineasta que conta com apenas quatro obras, o ex-marido de Sofia Coppola, cujo inicio de carreira foi dirigir videoclipes de artistas como Bjork e Fatboy Slim é, sem qualquer dúvida, uma das mais criativas mentes da engessada Hollywood do século XXI, capaz de legar ao público trabalhos que tem como principal característica a ousadia temática e narrativa. Foi assim com o bizarro "Quero ser John Malkovich" - que lhe deu, de cara, uma indicação ao Oscar de diretor - com o metalinguístico "Adaptação" - que deu a Meryl Streep um de seus papéis mais desafiadores - e até com o infantil "Onde vivem os monstros" - que fugiu da esfera limitadora da faixa etária para emocionar muitos adultos. Não é de estranhar, portanto, que seja seu nome que esteja nos créditos de "Ela", o estranho no ninho entre os indicados ao Oscar de melhor filme de 2013.
Estranho no ninho? Sim. Em um ano em que o favoritismo estava entre o superestimado "Gravidade" - que à parte os efeitos visuais é apenas mais um filme comercial bem feitinho - e o socialmente relevante "12 anos de escravidão" - que apesar das qualidades é o tipo de obra que a Academia adora cobrir de láureas - é surpreendente que uma obra como "Ela" tenha encontrado seu espaço. Bizarro desde seu tema - a história de amor entre um homem e um sistema operacional de última geração criado a partir das necessidades do proprietário - até a forma com que lida com ele - sem apelos sentimentais mas ainda assim emocionalmente potente - o filme de Jonze foge bastante do padrão dos tradicionais romances produzidos em Hollywood por pelo menos mais uma razão: exigir que o público não desligue o cérebro para acompanhar sua trama.
Em um futuro não muito distante, o introvertido Theodore (Joaquin Phoenix), ainda machucado pelo fim de seu casamento com a bela Catherine (Rooney Mara), compra um novo sistema operacional, que pode ser moldado de acordo com a personalidade e as necessidades do proprietário. Batizado com o nome de Samantha, o SO passa a lhe fazer companhia em seus momentos de solidão e, surpreendentemente, surge entre eles um relacionamento que ultrapassa os limites tecnológicos. Apaixonados um pelo outro, os dois precisam aprender a lidar com a nova situação - não tanto por causa das pessoas a seu redor, acostumadas com os avanços da informática, mas por causa das próprias limitações físicas e emocionais da bizarra situação, bem como a dificuldade de Theodore de conviver com seus próprios sentimentos.
Interpretado magistralmente por Joaquin Phoenix - a escolha ideal para personagens à margem do convencional - Theodore retrata com perfeição um geração insegura em termos sentimentais que, mesmo cercada de tecnologia e até mesmo de pessoas de carne e osso, não consegue libertar-se do medo da solidão e do sofrimento. Perito em escrever cartas de amor para estranhos - sua profissão - ele é incapaz de deixar para trás um relacionamento fracassado e apela para o que deveria ser um porto seguro, apenas para descobrir que o amor é, definitivamente, algo intangível e imensurável, que foge de qualquer padrão e cálculo. É apaixonante a maneira com que Jonze consegue contar sua história sem contar muito mais do que com o trabalho de Phoenix, a voz de Scarlett Johansson, pouquíssimos coadjuvantes (destaque para a sempre ótima Amy Adams) e um visual clean, que transmite a sensação de vazio que perpassa a existência do protagonista até seu encontro com Samantha. A bela trilha sonora - indicada ao Oscar, assim como a canção "The moon song", delicada e comovente - completa o quadro, comentando a ação sem interferir em excesso nos devaneios de Theodore.
Ao mesmo tempo de uma complexidade brilhante e uma simplicidade estontente, "Ela" talvez seja o melhor filme da carreira de Jonze. E isso não é pouco. Merecido vencedor do Oscar de roteiro original - delicado, engraçado, comovente e realmente original - o trabalho do cineasta é daqueles raros projetos em que tudo está no lugar certo, funcionando como um relógio. A fotografia sóbria, a direção de arte caprichada que cria um universo particular sem excessos, a música suave, o figurino bizarro e a escalação do elenco são peças fundamentais para que o resultado final seja primoroso, uma pequena obra-prima de sua geração.
terça-feira
ADAPTAÇÃO
ADAPTAÇÃO (Adaptation, 2002, Good Machine, 114min) Direção: Spike Jonze. Roteiro: Charlie Kaufman, David Kaufman, livro "O ladrão de orquídeas", de Susan Orlean. Fotografia: Lance Acord. Montagem: Eric Zumbrunnen. Música: Carter Burwell. Figurino: Casey Storm. Direção de arte/cenários: K.K. Barrett/Gene Serdena. Produção executiva: Charlie Kaufman, Peter Saraf. Produção: Jonathan Demme, Edward Saxon. Elenco: Nicolas Cage, Meryl Streep, Chris Cooper, Brian Cox, Maggie Gyllenhaal, Ron Livingstone, Tilda Swinton, Cara Seymour, Judy Greer. Estreia: 06/12/02
4 indicações ao Oscar: Ator (Nicolas Cage), Ator Coadjuvante (Chris Cooper), Atriz Coadjuvante (Meryl Streep), Roteiro Adaptado
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Chris Cooper)
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Coadjuvante (Chris Cooper), Atriz Coadjuvante (Meryl Streep)
4 indicações ao Oscar: Ator (Nicolas Cage), Ator Coadjuvante (Chris Cooper), Atriz Coadjuvante (Meryl Streep), Roteiro Adaptado
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Chris Cooper)
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator Coadjuvante (Chris Cooper), Atriz Coadjuvante (Meryl Streep)
Depois de fazer sucesso como roteirista de “Quero ser John Malkovich”, pelo qual foi até mesmo indicado ao Oscar, o escritor Charlie Kaufman (Nicolas Cage) recebe a proposta de adaptar para as telas o livro “O ladrão de orquídeas”, da jornalista Susan Orlean (Meryl Streep). Ao ler a obra, no entanto, Kaufman entra em pânico: o livro, que conta a história do botânico John Laroche (Chris Cooper) não tem uma forma linear, ou pior ainda, não tem nem história. Em total crise de criatividade, Charlie ainda tem que aturar em sua própria casa as idéias de Donald (novamente Cage), seu irmão gêmeo, que também ambiciona a carreira de roteirista e está escrevendo um filme completamente sem pé nem cabeça, mas que, por ironia, agrada em cheio aos executivos de Hollywood. Sem saber que rumo tomar, Charlie chega a criar uma inexistente história de amor entre a escritora e seu objeto de estudo e, em momento de total desamparo, a procurar a ajuda de um professor de cursos de roteiro, um charlatão profissional que vive de ensinar aos sonhadores autores de cinema a fórmula do sucesso (vivido magistralmente por Brian Cox). No ápice do desespero, Charlie tenta, então, sua cartada mais absurda: pede ajuda a seu irmão, que transforma o livro de Orlean em uma trama de tráfico de drogas, violência e sexo.
Neste brilhante exercício de metalinguagem, o excepcional Charlie Kaufman conseguiu superar a si próprio. Enquanto “Quero ser John Malkovich” era um primor de criatividade e humor negro, “Adaptação” é a afinação de uma mente no mínimo enlouquecida. Ao criticar a própria indústria hollywoodiana com todas as suas idiossincrasias e incoerências, ele criou um filme que todos os roteiristas de cinema poderiam sonhaR criar: inteligente, engraçado e absolutamente inovador, pra não dizer quase esquizofrênico. Quando a agente do roteirista Kaufman, vivida no filme por Tilda Swinton diz, a certo momento que adoraria entrar na sua mente, só o que podemos pensar é que ela não é a única. Charlie Kaufman é tão louco que assina seu roteiro como se o tivesse escrito ao lado do irmão Donald, que na verdade nem existe. E pensar que a Academia indicou (a ambos) para um Oscar.

“Adaptação” não é um filme para qualquer público. Suas sutilezas são tantas que só mesmo aqueles que conhecem razoavelmente as engrenagens do cinema conseguem captar de imediato. Um exemplo claro: quando Donald, o irmão enlouquecido de Charlie começa a ajudar no processo de escrita do filme, a obra de Jonze muda totalmente de estilo. De uma narrativa clássica e com intenções sérias, vira um samba do crioulo doido, com direito a perseguições de carro, tiroteios e até um jacaré salvador. Erro de direção? Não, erro de percepção do público. E é aí que entra o talento do diretor Spize Jonze, que já havia trabalhado com um texto de Kaufman no supra citado “Quero ser John Malkovich”.
“Adaptação” não é um filme para qualquer público. Suas sutilezas são tantas que só mesmo aqueles que conhecem razoavelmente as engrenagens do cinema conseguem captar de imediato. Um exemplo claro: quando Donald, o irmão enlouquecido de Charlie começa a ajudar no processo de escrita do filme, a obra de Jonze muda totalmente de estilo. De uma narrativa clássica e com intenções sérias, vira um samba do crioulo doido, com direito a perseguições de carro, tiroteios e até um jacaré salvador. Erro de direção? Não, erro de percepção do público. E é aí que entra o talento do diretor Spize Jonze, que já havia trabalhado com um texto de Kaufman no supra citado “Quero ser John Malkovich”.
Egresso de videoclipes, Jonze parece não dar a mínima para as regras de se fazer cinema. Criativo, ousado, por vezes delirante, o cineasta não busca as soluções mais fáceis. Ele quer complicar, quer fazer o povo pensar e rir de si mesmo. E o faz com a ajuda inenarrável de seu elenco. Nicolas Cage nunca esteve melhor em sua carreira (nem mesmo em “Despedida em Las Vegas”, que lhe deu um Oscar), em uma atuação dupla absurdamente engraçada; Chris Cooper levou sua estatueta pelo complexo John Laroche, que dependendo do ponto de vista de cada autor, tinha uma personalidade distinta. E Meryl Streep prova mais uma vez porque é a melhor atriz americana em atividade. Na pele da sensível escritora Susan Orlean (cujo livro existe de verdade, mas não tem absolutamente nada a ver com o filme), Streep rouba todas as cenas em que aparece, fazendo uma personagem totalmente distante do que estamos acostumados a vê-la.
"Adaptação" é tão bom, mas tão bom, que até mesmo seu trailer vale a pena assistir, de tão irônico. Não é um humor de fácil assimilação, mas é uma aula de roteiro e metalinguagem como raramente se vê nesses tempos em que tudo chega ao público de forma mastigadinha e preguiçosa.
"Adaptação" é tão bom, mas tão bom, que até mesmo seu trailer vale a pena assistir, de tão irônico. Não é um humor de fácil assimilação, mas é uma aula de roteiro e metalinguagem como raramente se vê nesses tempos em que tudo chega ao público de forma mastigadinha e preguiçosa.
quinta-feira
QUERO SER JOHN MALKOVICH
QUERO SER JOHN MALKOVICH (Being John Malkovich, 1999, Gramercy Pictures, 112min) Direção: Spike Jonze. Roteiro: Charlie Kaufman. Fotografia: Lance Acord. Montagem: Eric Zumbrunnen. Música: Carter Burwell. Figurino: Casey Storm. Direção de arte/cenários: K.K. Barrett/Gene Serdena. Produção executiva: Charlie Kaufman, Michael Kuhn. Produção: Steve Golin, Vincent Landay, Sandy Stern, Michael Stipe. Elenco: John Cusack, Catherine Keener, Cameron Diaz, John Malkovich, Mary Kay Place, Charlie Sheen. Estreia: 29/10/99
3 indicações ao Oscar: Diretor (Spike Jonze), Atriz Coadjuvante (Catherine Keener), Roteiro Original
Quando se diz que um filme é bizarro a imagem que normalmente vem à mente é a de alguma cena criada pelo Monthy Phyton - grupo inglês capaz de contar as piadas mais surreais de maneira mais simples. No entanto, depois de apenas alguns minutos de "Quero ser John Malkovich", o conceito de bizarro no cinema atinge um novo patamar. Disparado o dono do roteiro mais tresloucado do final do milênio, o filme do então estreante Spike Jonze (egresso dos videoclipes e visto como ator em "Três reis") passa longe do trivial e, se assusta uma parcela do público ao negar-se a concessões comerciais, imediatamente marca seu lugar como uma das mais alvissareiras estreias do cinema americano de todos os tempos.
John Cusack, desgrenhado e fugindo como o diabo da cruz de um visual de galã vive Craig Schwartz, um rapaz desempregado que tenta ganhar a vida com seus impressionantes shows de marionetes. Casado com Dotty (uma Cameron Diaz irreconhecível), uma amante incondicional de animais, ele vive uma vida sem graça até que encontra trabalho como arquivista em uma empresa localizada no 7 ½ andar (!!) de um prédio comercial. Encantado com Maxine (Catherine Keener), uma colega de trabalho, ele tem sua existência transformada ao descobrir, sem querer, um portal que dá diretamente no cérebro do ator John Malkovich. Unindo-se à ambiciosa Maxine, ele começa a cobrar 200 dólares por pessoa que queira passar 15 minutos dentro da mente do ator – e depois ser jogado à beira de uma rodovia em Nova Jérsei. As coisas se complicam para ele quando sua mulher também entra no cérebro de Malkovich, descobre que sempre quis ser um homem – e se apaixona por Maxine.
Não há nenhuma linha do roteiro delirante de Charlie Kaufman que seja convencional, banal ou previsível. Desde os diálogos surreais - o documentário sobre a criação do 7 1/2º andar beira a perfeição de um pesadelo - até os cenários inacreditáveis, tudo no filme de Jonze clama por atenção. Até mesmo a participação do próprio John Malkovich em cenas pretensamente constrangedoras mostram que se está diante de um diretor e de um roteirista sem medo de embarcar em uma jornada sem precedentes em termos de humor. A coragem do elenco também é notável - em especial uma horrenda Cameron Diaz - e a participação especial de nomes como Sean Penn e David Fincher apenas reitera o nível de qualidade de um filme que jamais busca a risada fácil.
"Quero ser John Malkovich" é um dos filmes essenciais do final da década de 90, por sua criatividade, sua inteligência e por oferecer à plateia muito mais do que comédias simples oferecem a cada lançamento. Pode não agradar a todo mundo, mas ninguém pode acusá-lo de ser comum.
TRÊS REIS
TRÊS REIS (Three kings, 1999, Warner Bros., 114min) Direção: David O. Russell. Roteiro: David O. Russell, história de John Ridley. Fotografia: Newton Thomas Sigel. Montagem: Robert K. Lambert. Música: Carter Burwell. Figurino: Kym Barrett. Direção de arte/cenários: Catherine Hardwicke/Gene Serdena. Produção executiva: Bruce Berman, Gregory Goodman, Kelly Smith-Wait. Produção: Paul Junger Witt, Edward L. McDonnell, Charles Roven. Elenco: George Clooney, Mark Wahlberg, Ice Cube, Spike Jonze, Cliff Curtis, Nora Dunn, Jamie Kennedy, Mykelti Williamson, Judy Greer. Estreia: 01/10/99
Tudo que o povo americano conseguiu visualizar da Guerra do Golfo foram as imagens transmitidas pelas emissoras de televisão. Uma guerra totalmente midiática, sem heróis nem vítimas – pelo menos nos conceitos consagrados como tais – que, se deixou um gosto de vazio nas bocas ianques, mas que pelo menos legou “Três reis”, um dos filmes mais alucinados de 1999, que brinca no tênue limite entre o deboche inteligente e a seriedade que um tema como tal merece. Dirigido pelo desconhecido David O. Russell, que também assina o roteiro - e conseguiu a chance de ser indicado ao Oscar de diretor em 2011 por "O vencedor" - o filme consegue ser chocante, engraçado e dar uma visão completamente inusitada do conflito que jogou americanos em territórios árabes.
Na verdade, o filme começa quando a guerra termina. Às vésperas de embarcar de volta pra casa, o Coronel Archer (George Clooney, cada vez mais à vontade nas telas) junta-se a outros três soldados em uma cruzada pessoal. Ele, o pai de primeira viagem Troy (Mark Whalberg, escolhendo seus papéis com a firmeza de um veterano), o engajado (Ice Cube, hilário) e o atrapalhado (o video-clipeiro que brinca de cineasta Spike Jonze) descobrem um mapa – escondido em um lugar surreal – que dá a exata localização de todo o ouro roubado por Sadam Hussein do povo do Kwait. Dispostos a mudar de vida, eles resolvem buscar o tesouro, batendo de frente com a miséria do povo do Iraque, com a violência com a qual pouco contato tiveram durante as batalhas e com a verdade sobre a guerra criada pelo presidente do país mais poderoso do mundo.

"Três reis" destaca-se também por não pretender levantar nenhuma bandeira politicamente correta. Os protagonistas não são heróis imaculados (muito pelo contrário) e nem tampouco os normalmente vilões na visão norte-americana (os oponentes) são poços de crueldade, ainda que em determinados momentos quase o sejam. Felizmente o humor alucinado do roteiro não permite que a coisa toda seja levada demasiadamente a sério - e a presença de um sensacional George Clooney apenas reitera o tom de brincadeira do filme, cuja edição ágil impede o tédio e foge do tradicional esquema dos filmes de guerra, onde as batalhas são o centro da ação. Talvez incomode os fãs mais aguerridos do gênero, mas pode conquistar a plateia mais afeita a novidades estilísticas.
Longe de ser diversão fácil – ainda que contenha todos os ingredientes necessários a um sucesso de bilheteria (leia-se ação, tiros, humor e atores conhecidos) – “Três reis” destaca-se principalmente por sua coragem em lidar com um tema sério de maneira irreverente, sem nunca deixar-se cair na tentação de apelar para a piada fácil ou tiroteios desnecessários. A violência do filme é cuidadosamente encaixada em momentos-chave para que nunca resvale para o banal e a fotografia estourada de Newton Thomas Sigel colabora para a sensação de calor e sufocamento que o deserto iraquiano passa ao espectador. Mesmo o humor tem seu senso de ironia e amargura que pouco é encontrado em filmes americanos, especialmente nos de guerra. O relativo heroísmo dos soldados, no final, não soa como patriotada barata e sim como questão de humanidade. E a bela canção “In God’s country”, da banda irlandesa U2 fecha a obra com chave de ouro.
Tudo que o povo americano conseguiu visualizar da Guerra do Golfo foram as imagens transmitidas pelas emissoras de televisão. Uma guerra totalmente midiática, sem heróis nem vítimas – pelo menos nos conceitos consagrados como tais – que, se deixou um gosto de vazio nas bocas ianques, mas que pelo menos legou “Três reis”, um dos filmes mais alucinados de 1999, que brinca no tênue limite entre o deboche inteligente e a seriedade que um tema como tal merece. Dirigido pelo desconhecido David O. Russell, que também assina o roteiro - e conseguiu a chance de ser indicado ao Oscar de diretor em 2011 por "O vencedor" - o filme consegue ser chocante, engraçado e dar uma visão completamente inusitada do conflito que jogou americanos em territórios árabes.
Na verdade, o filme começa quando a guerra termina. Às vésperas de embarcar de volta pra casa, o Coronel Archer (George Clooney, cada vez mais à vontade nas telas) junta-se a outros três soldados em uma cruzada pessoal. Ele, o pai de primeira viagem Troy (Mark Whalberg, escolhendo seus papéis com a firmeza de um veterano), o engajado (Ice Cube, hilário) e o atrapalhado (o video-clipeiro que brinca de cineasta Spike Jonze) descobrem um mapa – escondido em um lugar surreal – que dá a exata localização de todo o ouro roubado por Sadam Hussein do povo do Kwait. Dispostos a mudar de vida, eles resolvem buscar o tesouro, batendo de frente com a miséria do povo do Iraque, com a violência com a qual pouco contato tiveram durante as batalhas e com a verdade sobre a guerra criada pelo presidente do país mais poderoso do mundo.
"Três reis" destaca-se também por não pretender levantar nenhuma bandeira politicamente correta. Os protagonistas não são heróis imaculados (muito pelo contrário) e nem tampouco os normalmente vilões na visão norte-americana (os oponentes) são poços de crueldade, ainda que em determinados momentos quase o sejam. Felizmente o humor alucinado do roteiro não permite que a coisa toda seja levada demasiadamente a sério - e a presença de um sensacional George Clooney apenas reitera o tom de brincadeira do filme, cuja edição ágil impede o tédio e foge do tradicional esquema dos filmes de guerra, onde as batalhas são o centro da ação. Talvez incomode os fãs mais aguerridos do gênero, mas pode conquistar a plateia mais afeita a novidades estilísticas.
Longe de ser diversão fácil – ainda que contenha todos os ingredientes necessários a um sucesso de bilheteria (leia-se ação, tiros, humor e atores conhecidos) – “Três reis” destaca-se principalmente por sua coragem em lidar com um tema sério de maneira irreverente, sem nunca deixar-se cair na tentação de apelar para a piada fácil ou tiroteios desnecessários. A violência do filme é cuidadosamente encaixada em momentos-chave para que nunca resvale para o banal e a fotografia estourada de Newton Thomas Sigel colabora para a sensação de calor e sufocamento que o deserto iraquiano passa ao espectador. Mesmo o humor tem seu senso de ironia e amargura que pouco é encontrado em filmes americanos, especialmente nos de guerra. O relativo heroísmo dos soldados, no final, não soa como patriotada barata e sim como questão de humanidade. E a bela canção “In God’s country”, da banda irlandesa U2 fecha a obra com chave de ouro.
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