FOME DE PODER (The founder, 2016, The Weinstein Company, 115min) Direção: John Lee Hancock. Roteiro: Robert Siegel. Fotografia: John Schwartzman. Montagem: Robert Frazen. Música: Carter Burwell. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Michael Corenblith/Susan Benjamin. Produção executiva: Glen Blasner, Holly Brown, Alison Cohen, David Glasser, David S. Greathouse, William D. Johnson, Christos V. Konstankapoulos, Karen Lunder, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Don Handfield, Jeremy Renner. Elenco: Michael Keaton, Laura Dern, John Carroll Lynch, Nick Offerman, Linda Cardellini, B.J. Novak, Patrick Wilson. Estreia: 24/11/16
Histórias de bastidores - como "A rede social", de David Fincher, sobre Mark Zuckerberg, criador do Facebook - sempre mostram que nem sempre a ética e a honestidade são os pilares para a construção de impérios. "Fome de poder", que narra a trajetória do homem que supostamente fundou a rede de fast food mais conhecida do mundo, o McDonald's, corrobora essa triste constatação. Dirigido pelo mesmo John Lee Hancock que contou histórias reais em "Um sonho possível" (2009), "Walt nos bastidores de 'Mary Poppins' (2014) e "Um homem entre gigantes" (2016), o filme, que tem o ator Jeremy Renner como um dos produtores, teve seus direitos de distribuição comprados pela Weinstein Company por sete milhões de dólares mas, mesmo lançado na temporada de possíveis indicados ao Oscar, passou em brancas nuvens pelos olhos tanto da Academia quanto do público, que não pareceu se interessar muito pelo assunto, apesar da presença de Michael Keaton no papel principal.
Continuando a boa fase inaugurada por sua performance indicada ao Oscar, no premiado "Birdman" (2014), Michael Keaton apresenta mais um trabalho bastante interessante - ainda que seu personagem não seja lá muito simpático - e, de certa forma, comanda o tom e o ritmo do filme de Hancock. Assumindo o papel que Tom Hanks (a primeira escolha dos produtores) recusou, o infame Beetlejuice parece estar se divertindo como nunca na pele do amoral Ray Kroc, um vendedor externo de equipamentos para lanchonetes que, cansado de fracassar em todas as suas tentativas de tornar-se independente financeiramente, descobre uma mina de ouro no restaurante de fast food de dois irmãos ambiciosos mas pouco dispostos a burlar seus ideais éticos. A trama começa em 1954, quando, durante uma viagem a negócios, Kroc conhece o McDonald's, de propriedade de Richard (Nick Offerman) e Maurice McDonald (John Carroll Lynch) e concebido pelos próprios irmãos, com diretrizes rígidas de qualidade - diferente de outras redes, o estabelecimento preza pela agilidade, bom atendimento e pela forma original de sua loja, localizada em San Bernardino, no estado da Califórnia. Intuindo que pode ganhar muito dinheiro explorando a franquia da marca, construindo lojas em outros estados do país, Kroc consegue convencer os McDonalds a lhe darem a autorização necessária para expandir o negócio. E é aí que as coisas saem do controle dos ingênuos empresários e mostram o verdadeiro caráter de seu novo sócio.
Pouco afeitos a dirigirem roteiros alheios, os irmãos Ethan e Joel Coen estiveram bem perto de assinar a direção de "Fome de poder", tamanho o seu entusiasmo pelo script de Robert Siegel, considerado um dos melhores inéditos de 2014. A dupla de diretores só não se manteve à frente do projeto porque já estavam trabalhando em "Ave, Cesar" - o que permitiu a John Lee Hancock ter em mãos um projeto que, segundo o próprio Siegel, era uma mistura entre "A rede social" (2010) e "Sangue negro"(2007) - elogiado drama de Paul Thomas Anderson sobre a ambição desmedida de um homem (vivido por um oscarizado Daniel Day-Lewis). Ao contrário de suas fontes de inspiração, porém, "Fome de poder" fica no meio termo entre a modernidade do primeiro (que deu um Oscar à Aaron Sorkin) e a densidade do segundo, baseado em um livro de Sinclair Lewis: consistente, mas sem maiores ousadias formais ou narrativas, a trama se desenvolve sem sobressaltos, mas deixa transparecer com facilidade sua carência em cativar o público por completo. Não há nada de errado no filme, mas ele tampouco consegue atingir todas as suas possibilidades - culpa talvez da direção burocrática de Hancock ou da personalidade francamente desagradável de seu protagonista.
Talvez a opção de colocar Tom Hanks no papel central fosse mais acertada do que a escolha de Michael Keaton: Hanks, com seu jeito de bom moço e carisma à toda prova tinha grandes chances de driblar as características menos simpáticas de Ray Kroc e torná-lo um personagem mais palatável ao gosto do público médio. Já Michael Keaton demonstra total intimidade com seu lado sombrio e pouco confiável - nem mesmo a esposa, vivida por Laura Dern, é poupada em sua trajetória. Do vendedor simpático e atencioso do começo do filme até o implacável empresário do final - quando finalmente mostra suas reais intenções de apossar-se da marca criada pelos irmãos McDonald - o trajeto de Kroc é ilustrado por Keaton com entusiasmo de principiante: apesar de não abrir mão de alguns de seus tiques mais conhecidos, o Batman de Tim Burton consegue se distanciar de seus personagens mais conhecidos e criar um anti-herói dos mais questionáveis, algo como o jornalista vivido por Kirk Douglas em "A montanha dos sete abutres" ou o polêmico editor da revista Hustler, interpretado por Woody Harrelson em "O povo contra Larry Flynt" (1996). São homens falhos em caráter, mas dotados de força de vontade e inteligência suficientes para encobrir seus defeitos mais óbvios. Mesmo sem ter conseguido empurrar "Fome de poder" aos tapetes vermelhos de sua temporada, Keaton é o grande destaque do filme e mantém o interesse do público até os minutos finais. Uma boa pedida para quem gosta de saber dos podres das grandes empresas.
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SPOTLIGHT: SEGREDOS REVELADOS
SPOTLIGHT: SEGREDOS REVELADOS (Spotlight, 2015, Participant Media/First Look Media/Anonymous Content, 128min) Direção: Tom McCarthy. Roteiro: Tom McCarthy, Josh Singer. Fotografia: Masanobu Takayanagi. Montagem: Tom McArdle. Música: Howard Shore. Figurino: Wendy Chuck. Direção de arte/cenários: Stephen H. Carter/Vanessa Knoll, Shane Vieau. Produção executiva: Michael Bederman, Bard Dorros, Jonathan King, Peter Lawson, Xavier Marchand, Pierre Omidyar, Tom Ortenberg, Josh Singer, Jeff Skoll. Produção: Blye Pagon Faust, Steve Golin, Nicole Rocklin, Michael Sugar. Elenco: Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachel McAdams, Liev Schreiber, John Slattery, Stanley Tucci, Billy Crudup, Brian D'Arcy James. Estreia: 03/9/15 (Festival de Veneza)
6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Tom McCarthy), Ator Coadjuvante (Mark Ruffalo), Atriz Coadjuvante (Rachel McAdams), Roteiro Original, Montagem
Vencedor de 2 Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original
O jornalismo é uma das carreiras mais retratadas por Hollywood, e já inspirou clássicos absolutos, como "A montanha dos sete abutres" (51), de Billy Wilder, "Rede de intrigas" (76), de Sidney Lumet, e "Todos os homens do presidente" (76), de Alan J. Pakula. Não por acaso, esses três exemplos da relação entre o cinema e a imprensa foram algumas das inspirações do diretor Tom McCarthy na realização de seu "Spotlight: segredos revelados", um dos mais contundentes e sérios ataques já realizados pela sétima arte contra a instituição da Igreja católica. Uma das mais premiadas produções da temporada 2015 - incluindo o cobiçado Oscar de melhor filme - a obra de McCarthy (também um ator e com o delicado "O visitante", de 2008, no currículo) é um soco no estômago do espectador, contando uma história que vai ao âmago de um dos maiores escândalos religiosos do século XX, mas em momento algum apela para o sensacionalismo. Narrado em um acertado tom semi-documental que evita qualquer tipo de espetacularização da dor, é o sóbrio e seco retrato de uma investigação jornalística responsável e relevante, que ganhou o Pulitzer em 2003 e revelou, sem medo de represálias, um esquema de acobertamento de centenas de crimes de abuso sexual infantil cometidos por padres durante décadas - e que mostrou-se de dimensão internacional quando atingiu também diversos outros países, incluindo o Brasil.
Talvez o principal acerto do roteiro, escrito por Josh Singer e o próprio diretor, tenha sido o de ater-se fielmente aos fatos, resistindo à tentação de eleger um protagonista com ares de herói para buscar a adesão da plateia. Confiando na força de sua história, McCarthy se propõe unicamente a explorar os meandros da investigação liderada pelo veterano Walter Robinson (Michael Keaton em grande fase na carreira): apoiado e incentivado pelo novo editor, Mark Baron (Liev Schreiber), ele reúne seu grupo de repórteres para aprofundar o caso de uma série de estupros cometidos por padres e tratados com condescendência por bispos e cardeais na região de Boston. Dedicados e inteligentes, os jornalistas partem, então, em busca da verdade, mesmo que isso possa abalar uma instituição respeitada e secular. Sasha Pfeiffer (Rachel McAdams), por exemplo, frequenta a missa ao lado da avó e compreende as implicações da publicação da matéria. O eficiente Mike Rezendes (Mark Ruffalo) é incansável em sua batalha pelas informações do advogado Mitchell Garabedian (Stanley Tucci). E Matt Carroll (Brian D'Arcy James), pai de família, sente-se ameaçado pela presença de possíveis abusadores próximo a seus filhos pequenos.
Desviando a câmera sempre que o drama ameaça ultrapassar os limites do bom-gosto e da discrição, Tom McCarthy aproxima o espectador através mais do cérebro do que do coração - ainda que não evite que a emoção tome conta em alguns momentos realmente tocantes. A edição precisa de Tom McArdle serve como sinalizador de tal sutileza: apesar dos diálogos fortes, "Spotlight" prefere o foco mais humanista da questão, apontando seu olhar para os braços marcados pelas seringas que uma das vítimas apresenta sem alarde, ou para a tensão constante de outra, que transfere para a comida uma vida inteira de depressão e angústia. A câmera quase voyeur chega a surpreender personagem e público quando testemunha um dos acusados, um aparentemente inofensivo senhor religioso, assumindo seus crimes e afirmando, tranquilamente, que também já foi estuprado. O roteiro de "Spotlight" tenta não sublinhar o que já é suficientemente brutal, e essa honestidade é um de seus maiores acertos: não há aquela trilha sonora crescente quando uma revelação é feita, não há lágrimas rolando diante de lembranças doloridas, não há heroísmo individual. Tudo bem que algumas cenas parecem feitas para apresentação no Oscar (como um discurso de Rezendes pertinho do final), mas são pecados insignificantes diante da grandeza de "Spotlight" como cinema.
Criticado por alguns justamente por seu estilo quase minimalista de contar uma história tão bombástica, Tom McCarthy fez uma sucessão de escolhas brilhantes para seu filme. É discreto, é honesto e é sério, o que falta para muitos filmes que se pretendem relevantes. Tem um elenco coeso e homogêneo (vencedor do prêmio máximo do Sindicato de Atores). E jamais tenta chamar mais a atenção do que a história que conta: ao eleger sua trama como principal elemento em uma época em que grandes orçamentos e personagens já consagrados formam o menu básico da programação, o diretor/ator/roteirista já merece ser aplaudido, e sua indicação ao Oscar ao lado de Alejandro Gonzalez Iñarrítu (por seu belo mas exibicionista "O regresso") demonstra que, mesmo quando cai na armadilha do previsível, a Academia sabe reconhecer quando alguém tenta ser verdadeiro e original. Uma pena que, diante das estatuetas técnicas de "Mad Max: Estrada da Fúria", "Spotlight" tenha ficado com apenas dois prêmios (filme e roteiro). Merecia mais.
6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Tom McCarthy), Ator Coadjuvante (Mark Ruffalo), Atriz Coadjuvante (Rachel McAdams), Roteiro Original, Montagem
Vencedor de 2 Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original
O jornalismo é uma das carreiras mais retratadas por Hollywood, e já inspirou clássicos absolutos, como "A montanha dos sete abutres" (51), de Billy Wilder, "Rede de intrigas" (76), de Sidney Lumet, e "Todos os homens do presidente" (76), de Alan J. Pakula. Não por acaso, esses três exemplos da relação entre o cinema e a imprensa foram algumas das inspirações do diretor Tom McCarthy na realização de seu "Spotlight: segredos revelados", um dos mais contundentes e sérios ataques já realizados pela sétima arte contra a instituição da Igreja católica. Uma das mais premiadas produções da temporada 2015 - incluindo o cobiçado Oscar de melhor filme - a obra de McCarthy (também um ator e com o delicado "O visitante", de 2008, no currículo) é um soco no estômago do espectador, contando uma história que vai ao âmago de um dos maiores escândalos religiosos do século XX, mas em momento algum apela para o sensacionalismo. Narrado em um acertado tom semi-documental que evita qualquer tipo de espetacularização da dor, é o sóbrio e seco retrato de uma investigação jornalística responsável e relevante, que ganhou o Pulitzer em 2003 e revelou, sem medo de represálias, um esquema de acobertamento de centenas de crimes de abuso sexual infantil cometidos por padres durante décadas - e que mostrou-se de dimensão internacional quando atingiu também diversos outros países, incluindo o Brasil.
Talvez o principal acerto do roteiro, escrito por Josh Singer e o próprio diretor, tenha sido o de ater-se fielmente aos fatos, resistindo à tentação de eleger um protagonista com ares de herói para buscar a adesão da plateia. Confiando na força de sua história, McCarthy se propõe unicamente a explorar os meandros da investigação liderada pelo veterano Walter Robinson (Michael Keaton em grande fase na carreira): apoiado e incentivado pelo novo editor, Mark Baron (Liev Schreiber), ele reúne seu grupo de repórteres para aprofundar o caso de uma série de estupros cometidos por padres e tratados com condescendência por bispos e cardeais na região de Boston. Dedicados e inteligentes, os jornalistas partem, então, em busca da verdade, mesmo que isso possa abalar uma instituição respeitada e secular. Sasha Pfeiffer (Rachel McAdams), por exemplo, frequenta a missa ao lado da avó e compreende as implicações da publicação da matéria. O eficiente Mike Rezendes (Mark Ruffalo) é incansável em sua batalha pelas informações do advogado Mitchell Garabedian (Stanley Tucci). E Matt Carroll (Brian D'Arcy James), pai de família, sente-se ameaçado pela presença de possíveis abusadores próximo a seus filhos pequenos.
Desviando a câmera sempre que o drama ameaça ultrapassar os limites do bom-gosto e da discrição, Tom McCarthy aproxima o espectador através mais do cérebro do que do coração - ainda que não evite que a emoção tome conta em alguns momentos realmente tocantes. A edição precisa de Tom McArdle serve como sinalizador de tal sutileza: apesar dos diálogos fortes, "Spotlight" prefere o foco mais humanista da questão, apontando seu olhar para os braços marcados pelas seringas que uma das vítimas apresenta sem alarde, ou para a tensão constante de outra, que transfere para a comida uma vida inteira de depressão e angústia. A câmera quase voyeur chega a surpreender personagem e público quando testemunha um dos acusados, um aparentemente inofensivo senhor religioso, assumindo seus crimes e afirmando, tranquilamente, que também já foi estuprado. O roteiro de "Spotlight" tenta não sublinhar o que já é suficientemente brutal, e essa honestidade é um de seus maiores acertos: não há aquela trilha sonora crescente quando uma revelação é feita, não há lágrimas rolando diante de lembranças doloridas, não há heroísmo individual. Tudo bem que algumas cenas parecem feitas para apresentação no Oscar (como um discurso de Rezendes pertinho do final), mas são pecados insignificantes diante da grandeza de "Spotlight" como cinema.
Criticado por alguns justamente por seu estilo quase minimalista de contar uma história tão bombástica, Tom McCarthy fez uma sucessão de escolhas brilhantes para seu filme. É discreto, é honesto e é sério, o que falta para muitos filmes que se pretendem relevantes. Tem um elenco coeso e homogêneo (vencedor do prêmio máximo do Sindicato de Atores). E jamais tenta chamar mais a atenção do que a história que conta: ao eleger sua trama como principal elemento em uma época em que grandes orçamentos e personagens já consagrados formam o menu básico da programação, o diretor/ator/roteirista já merece ser aplaudido, e sua indicação ao Oscar ao lado de Alejandro Gonzalez Iñarrítu (por seu belo mas exibicionista "O regresso") demonstra que, mesmo quando cai na armadilha do previsível, a Academia sabe reconhecer quando alguém tenta ser verdadeiro e original. Uma pena que, diante das estatuetas técnicas de "Mad Max: Estrada da Fúria", "Spotlight" tenha ficado com apenas dois prêmios (filme e roteiro). Merecia mais.
domingo
BIRDMAN ou (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA)
BIRDMAN ou (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA) (Birdman or (The unexcpected virtue of ignorance, 2014, New Regency Pictures, 119min) Direção: Alejandro González Iñárritu. Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dineralis Jr., Armando Bo. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Douglas Crise, Stephen Mirrione. Música: Antonio Sanchez. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/George De Titta Jr.. Produção executiva: Molly Conners, Sarah E. Johnson, Christopher Woodrow. Produção: Alejandro G. Iñárritu, John Lesher, Arnon Milchan, James W. Skotchdopole. Elenco: Michael Keaton, Edward Norton, Naomi Watts, Emma Stone, Zach Galifianakis. Estreia: 27/8/14 (Festival de Veneza)
9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alejandro González Iñárritu), Ator (Michael Keaton), Ator Coadjuvante (Edward Norton), Atriz Coadjuvante (Emma Stone), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alejandro González Iñárritu), Roteiro Original, Fotografia
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Ator Comédia/Musical (Michael Keaton), Roteiro
Quem estava acostumado a ver o nome de Alejandro Gonzalez Iñárritu nos créditos de filmes densos e praticamente desprovidos de qualquer tipo de senso de humor como "Amores brutos" (00), "21 gramas" (03), "Babel" (06) e "Biutiful" (10) provavelmente levou um susto ao deparar-se com seu "Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância)", que entrou firme e forte na disputa pelo Oscar de melhor filme de 2014 e deixou pra trás outros elogiados trabalhos da temporada - como "Boyhood, da infância à juventude" e "O Grande Hotel Budapeste" - ao abocanhar 4 estatuetas, incluindo filme e diretor. Abandonado o pessimismo realista que permeava seus três primeiros filmes - e sua parceria com o roteirista Guillermo Arriaga - o cineasta mexicano realizou seu trabalho mais poético, recheado de metáforas brilhantes sobre a arte, a vida e as relações interpessoais e dotado de um tom onírico e sarcástico que contrasta com o habitual realismo de sua cinematografia anterior. Amparado ainda em uma atuação arrebatadora do até então canastrão Michael Keaton - a maior de suas ferramentas de metalinguagem - o filme de Iñárritu discute, sem parecer pedante ou hermético, o culto vazio às celebridades, a efemeridade da fama, o sensacionalismo e a irresponsabilidade da mídia (Internet incluída) ao contar a aparentemente simples história de um decadente ator popular de cinema tentando provar-se um intérprete sério ao estrelar um peça de teatro na Broadway. Tecnicamente impecável e sombriamente engraçado, "Birdman" é, acima de tudo, um filme sobre a paixão pelo teatro, pela busca incessante da transcendência através da arte.
Riggan Thompson (Michael Keaton) é o que pode-se chamar de um ex-astro: protagonista de uma série de três filmes onde interpretou um super-herói chamado Birdman, ele viu sua carreira entrar em decadência vertiginosa depois de ter recusado um quarto capítulo, há mais de vinte anos. Considerando-se um fracassado quase irrecuperável, ele resolve dar uma última cartada para retomar sua autoestima e conquistar o respeito da crítica e do público: escrever, dirigir, produzir e estrelar uma peça de teatro na Broadway. Sua insegurança, porém, ameaça a estreia do espetáculo, assim como a gama de personagens surreais que o rodeiam, como Mike Shiner (Edward Norton, sensacional como sempre), ator de métodos tradicionais que se considera superior à toda a equipe por ter construído sua carreira nos palcos e não nas telas, e a filha de Riggan, Sam (Emma Stone), que acaba de sair de uma clínica de reabilitação. Além dos problemas normais de uma produção teatral, o ídolo de uma geração de cinéfilos também precisa enfrentar a má-vontade pré-concebida da crítica e lidar com a voz do próprio Birdman - que surge como uma espécie de conselheiro invisível que o empurra adiante em suas ambições.
"Birdman" é uma festa para os olhos, os ouvidos e o cérebro da plateia. A fotografia de Emmanuel Lubezki integra-se à narrativa de forma tão orgânica que parece quase invisível diante dos ilusórios planos-sequência criados por Iñárritu, que conduzem a plateia pelos corredores estreitos do teatro onde se passa a maior parte da ação apenas para culminar em um clímax de extrema poesia e força dramática. O roteiro - equilibrado com maestria entre o humor cáustico e o drama existencial de uma geração exposta ao nada admirável mundo novo da tecnologia que torna tudo vorazmente fugaz - soa como um bálsamo para um público acostumado a diálogos pobres e ginasiais. E as questões que discute - a prostituição da arte, o amor pelo teatro, a dicotomia prestígio/popularidade, a falta de sentido na fama pela fama - nunca foram tão prementes quanto hoje em dia, quando talento vem sendo mercadoria dispensável na fogueira das vaidades do sucesso instantâneo. Somados a tudo isso há ainda o elenco em dias de extrema inspiração: Michael Keaton, no papel de sua vida (literalmente), tinha tudo para ganhar um Oscar de melhor ator, caso a Academia não tivesse se rendido ao óbvio e homenageado Eddie Redmayne por sua caracterização de Stephen Hawking. E Edward Norton - duas vezes indicado anteriormente e duas vezes descaradamente roubado - teve o azar de encontrar J.K. Simmons pela frente: uma vitória sua teria sido surpreendente, mas jamais injusta.
Talvez uma parte do público - menos disposta a experiências que fujam do banal - rejeitem "Birdman" por sua estética, sua narrativa, seu tema. Mas provavelmente não seja essa parte da audiência que Alejandro Gonzalez Iñárritu queira atingir com sua magistral fábula. Encantar-se com a inteligência e a sutileza de seu trabalho é privilégio de quem consegue sonhar acordado apesar dos pesares. "Birdman" é para quem tem a arte na alma.
9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alejandro González Iñárritu), Ator (Michael Keaton), Ator Coadjuvante (Edward Norton), Atriz Coadjuvante (Emma Stone), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alejandro González Iñárritu), Roteiro Original, Fotografia
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Ator Comédia/Musical (Michael Keaton), Roteiro
Quem estava acostumado a ver o nome de Alejandro Gonzalez Iñárritu nos créditos de filmes densos e praticamente desprovidos de qualquer tipo de senso de humor como "Amores brutos" (00), "21 gramas" (03), "Babel" (06) e "Biutiful" (10) provavelmente levou um susto ao deparar-se com seu "Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância)", que entrou firme e forte na disputa pelo Oscar de melhor filme de 2014 e deixou pra trás outros elogiados trabalhos da temporada - como "Boyhood, da infância à juventude" e "O Grande Hotel Budapeste" - ao abocanhar 4 estatuetas, incluindo filme e diretor. Abandonado o pessimismo realista que permeava seus três primeiros filmes - e sua parceria com o roteirista Guillermo Arriaga - o cineasta mexicano realizou seu trabalho mais poético, recheado de metáforas brilhantes sobre a arte, a vida e as relações interpessoais e dotado de um tom onírico e sarcástico que contrasta com o habitual realismo de sua cinematografia anterior. Amparado ainda em uma atuação arrebatadora do até então canastrão Michael Keaton - a maior de suas ferramentas de metalinguagem - o filme de Iñárritu discute, sem parecer pedante ou hermético, o culto vazio às celebridades, a efemeridade da fama, o sensacionalismo e a irresponsabilidade da mídia (Internet incluída) ao contar a aparentemente simples história de um decadente ator popular de cinema tentando provar-se um intérprete sério ao estrelar um peça de teatro na Broadway. Tecnicamente impecável e sombriamente engraçado, "Birdman" é, acima de tudo, um filme sobre a paixão pelo teatro, pela busca incessante da transcendência através da arte.
Riggan Thompson (Michael Keaton) é o que pode-se chamar de um ex-astro: protagonista de uma série de três filmes onde interpretou um super-herói chamado Birdman, ele viu sua carreira entrar em decadência vertiginosa depois de ter recusado um quarto capítulo, há mais de vinte anos. Considerando-se um fracassado quase irrecuperável, ele resolve dar uma última cartada para retomar sua autoestima e conquistar o respeito da crítica e do público: escrever, dirigir, produzir e estrelar uma peça de teatro na Broadway. Sua insegurança, porém, ameaça a estreia do espetáculo, assim como a gama de personagens surreais que o rodeiam, como Mike Shiner (Edward Norton, sensacional como sempre), ator de métodos tradicionais que se considera superior à toda a equipe por ter construído sua carreira nos palcos e não nas telas, e a filha de Riggan, Sam (Emma Stone), que acaba de sair de uma clínica de reabilitação. Além dos problemas normais de uma produção teatral, o ídolo de uma geração de cinéfilos também precisa enfrentar a má-vontade pré-concebida da crítica e lidar com a voz do próprio Birdman - que surge como uma espécie de conselheiro invisível que o empurra adiante em suas ambições.
"Birdman" é uma festa para os olhos, os ouvidos e o cérebro da plateia. A fotografia de Emmanuel Lubezki integra-se à narrativa de forma tão orgânica que parece quase invisível diante dos ilusórios planos-sequência criados por Iñárritu, que conduzem a plateia pelos corredores estreitos do teatro onde se passa a maior parte da ação apenas para culminar em um clímax de extrema poesia e força dramática. O roteiro - equilibrado com maestria entre o humor cáustico e o drama existencial de uma geração exposta ao nada admirável mundo novo da tecnologia que torna tudo vorazmente fugaz - soa como um bálsamo para um público acostumado a diálogos pobres e ginasiais. E as questões que discute - a prostituição da arte, o amor pelo teatro, a dicotomia prestígio/popularidade, a falta de sentido na fama pela fama - nunca foram tão prementes quanto hoje em dia, quando talento vem sendo mercadoria dispensável na fogueira das vaidades do sucesso instantâneo. Somados a tudo isso há ainda o elenco em dias de extrema inspiração: Michael Keaton, no papel de sua vida (literalmente), tinha tudo para ganhar um Oscar de melhor ator, caso a Academia não tivesse se rendido ao óbvio e homenageado Eddie Redmayne por sua caracterização de Stephen Hawking. E Edward Norton - duas vezes indicado anteriormente e duas vezes descaradamente roubado - teve o azar de encontrar J.K. Simmons pela frente: uma vitória sua teria sido surpreendente, mas jamais injusta.
Talvez uma parte do público - menos disposta a experiências que fujam do banal - rejeitem "Birdman" por sua estética, sua narrativa, seu tema. Mas provavelmente não seja essa parte da audiência que Alejandro Gonzalez Iñárritu queira atingir com sua magistral fábula. Encantar-se com a inteligência e a sutileza de seu trabalho é privilégio de quem consegue sonhar acordado apesar dos pesares. "Birdman" é para quem tem a arte na alma.
sexta-feira
OS FANTASMAS SE DIVERTEM
OS FANTASMAS SE DIVERTEM (Beetlejuice, 1988, Geffen Company,
92min) Direção: Tim Burton. Roteiro: Michael McDowell, Warren Skaaren,
estória de Michael McDowell, Larry Wilson. Fotografia: Thomas Ackerman.
Montagem: Jane Kurson. Música: Danny Elfman. Figurino: Aggie Guerard
Rodgers. Direção de arte/cenários: Bo Welch/Catherine Mann. Produção:
Michael Bender, Richard Hashimoto, Larry Wilson. Elenco: Alec Baldwin,
Geena Davis, Winona Ryder, Michael Keaton, Catherine O'Hara, Jeffrey
Jones, Glenn Shadix. Estreia: 29/3/88
Vencedor do Oscar de Maquiagem
Era uma vez o roteiro de um filme de terror cujo protagonista era um demônio cujo objetivo era se disfarçar-se de humano para interagir com duas famílias normais, matar uma delas e estuprar a filha adolescente de outra. Conforme os anos iam passando e o roteiro ia sendo reescrito, as coisas começavam a mudar, até que um dia, com a entrada de Tim Burton no projeto, o que seria um apavorante exercício de horror transmutou-se em uma comédia de humor negro repleta das bizarrices e excentricidades que fariam a fama do diretor no futuro - a despeito de seu desvio para o cinemão comercial com os dois primeiros capítulos de "Batman" que ele comandou e encheram os bolsos da Warner Bros.. Visualmente criativo e dotado de um senso de ironia e mordacidade poucas vezes vistos nascidos dentro dos estúdios de Hollywood, "Os fantasmas se divertem" ainda teve um belo desempenho nas bilheterias americanas, arrecadando mais de 70 milhões de dólares contra um custo estimado de 15 milhões, e dobrou até mesmo os conservadores eleitores da Academia, arrebatando o Oscar de maquiagem, um trabalho artesanal que remava contra a maré dos dispendiosos efeitos visuais pós-"Star Wars".
Visto hoje, à luz dos anos, "Os fantasmas se divertem" é um típico filme de Tim Burton, que na época ainda era um talento pouco reconhecido, tendo dirigido apenas "As grandes aventuras de Pee-Wee" (85). O visual kitsch misturado com personagens excêntricos e tramas que desafiam os padrões de normalidade do american way of life estão no âmago de sua filmografia e são elementos cruciais em sua história sobre um casal de fantasmas camaradas que tentam, de todas as maneiras possíveis e imagináveis, retomar sua casa das mãos de uma família mais apavorante do que eles mesmos. Pontuado pela trilha sonora de Danny Elfman - que se tornaria colaborador habitual de Burton - o filme consegue a façanha de agradar ao público adulto da mesma forma com que conquista a plateia infantil, com suas brincadeiras visuais, humor insano e um elenco de personalidade que começa com um Michael Keaton pré-Batman na pele do asqueroso, lunático e francamente desagradável personagem-título, o bio-exorcista (!!) Beetlejuice e apresenta uma jovem Winona Ryder começando a carreira e Geena Davis no mesmo ano em que surpreendeu Hollywood levando o Oscar de coadjuvante por "O turista acidental".
Davis - que já tinha o sucesso de "A mosca" no currículo - interpreta Barbara, uma das metades do casal Maitland, completado pelo dedicado Adam (Alec Baldwin). Apaixonados um pelo outro e pela casa que construiram, eles morrem inesperadamente em um acidente de carro e não só precisam lidar com a nova realidade, mas também com o fato de que seu lar agora pertence à excêntrica família Deetz, que chegaram até mesmo a contratar um decorador para deixá-lo de acordo com sua personalidade. A mãe da família, Delia (Catherine O'Hara, substituindo Anjelica Huston com graça e timing perfeito) é uma bizarra escultora dada a aceitar conselhos de seu guru, e a filha do casal, Lydia (Winona Ryder) é a única que percebe que alguma coisa está errada no local. Desesperados com a possibilidade de serem obrigados a assistir seu sonho de consumo transformar-se em pesadelo, o casal Maitland acaba tendo que recorrer a Beetlejuice, um exorcista de seres vivos. Porém, uma vez que eles descobrem que o estranho ser é mais aterrador ainda do que os Deetz, somente a jovem Lydia pode ajudá-los.
Resumir a trama de "Os fantasmas se divertem" é tarefa inglória, uma vez que o roteiro não se furta a brincar com as expectativas do público, alternando-se entre o humor escrachado de Beetlejuice, a ironia quase sutil do núcleo da família Deetz e a impotência do casal Maitland diante de circunstâncias tão estranhas para eles quanto para o público. Tim Burton deita e rola com as inúmeras possibilidades oferecidas pela trama, oferecendo tanto efeitos especiais criados com técnicas quase primitivas quanto brincadeiras visuais que se equilibram entre o grotesco e o francamente engraçado. Para isso, ele conta com uma equipe digna dos maiores elogios, como o músico Danny Elfman e o designer de produção Bo Welch, que criou cenários perceptivelmente fakes que combinam com o tom artesanal do conceito do cineasta - não à toa, Burton dirigiria alguns anos depois, a cinebiografia de "Ed Wood", cujos filmes também eram quase um elogio ao kitsch e ao falso. Além deles, o elenco não é menos que espetacular: se Michael Keaton tem aqui a maior chance de mostrar-se um ator bancável (fato que comprovaria em seus trabalhos seguintes com o diretor, na pele do homem-morcego), Winona Ryder dava os primeiros passos de uma carreira que amadureceria bastante na década seguinte e Geena Davis também se fazia notar com ótima química com Alec Baldwin. No entanto, é difícil não destacar o trabalho de Catherine O'Hara, genial como Delia Deetz - é inesquecível, por exemplo, a sequência em que a família é assombrada por Beetlejuice durante um jantar com convidados e é obrigada a dançar a ritmada "Day-O (The Banana Boat Song)".
"Os fantasmas se divertem" é uma espécie de cartão de visitas de Tim Burton para Hollywood. Deu certo, como ficou comprovado com sua carreira bem-sucedida desde então. E é, também, um inventário das obsessões, das piadas e dos conceitos de seu diretor, um dos mais autorais e respeitados de uma terra tão pródiga em sepultar a criatividade alheia.
Vencedor do Oscar de Maquiagem
Era uma vez o roteiro de um filme de terror cujo protagonista era um demônio cujo objetivo era se disfarçar-se de humano para interagir com duas famílias normais, matar uma delas e estuprar a filha adolescente de outra. Conforme os anos iam passando e o roteiro ia sendo reescrito, as coisas começavam a mudar, até que um dia, com a entrada de Tim Burton no projeto, o que seria um apavorante exercício de horror transmutou-se em uma comédia de humor negro repleta das bizarrices e excentricidades que fariam a fama do diretor no futuro - a despeito de seu desvio para o cinemão comercial com os dois primeiros capítulos de "Batman" que ele comandou e encheram os bolsos da Warner Bros.. Visualmente criativo e dotado de um senso de ironia e mordacidade poucas vezes vistos nascidos dentro dos estúdios de Hollywood, "Os fantasmas se divertem" ainda teve um belo desempenho nas bilheterias americanas, arrecadando mais de 70 milhões de dólares contra um custo estimado de 15 milhões, e dobrou até mesmo os conservadores eleitores da Academia, arrebatando o Oscar de maquiagem, um trabalho artesanal que remava contra a maré dos dispendiosos efeitos visuais pós-"Star Wars".
Visto hoje, à luz dos anos, "Os fantasmas se divertem" é um típico filme de Tim Burton, que na época ainda era um talento pouco reconhecido, tendo dirigido apenas "As grandes aventuras de Pee-Wee" (85). O visual kitsch misturado com personagens excêntricos e tramas que desafiam os padrões de normalidade do american way of life estão no âmago de sua filmografia e são elementos cruciais em sua história sobre um casal de fantasmas camaradas que tentam, de todas as maneiras possíveis e imagináveis, retomar sua casa das mãos de uma família mais apavorante do que eles mesmos. Pontuado pela trilha sonora de Danny Elfman - que se tornaria colaborador habitual de Burton - o filme consegue a façanha de agradar ao público adulto da mesma forma com que conquista a plateia infantil, com suas brincadeiras visuais, humor insano e um elenco de personalidade que começa com um Michael Keaton pré-Batman na pele do asqueroso, lunático e francamente desagradável personagem-título, o bio-exorcista (!!) Beetlejuice e apresenta uma jovem Winona Ryder começando a carreira e Geena Davis no mesmo ano em que surpreendeu Hollywood levando o Oscar de coadjuvante por "O turista acidental".
Davis - que já tinha o sucesso de "A mosca" no currículo - interpreta Barbara, uma das metades do casal Maitland, completado pelo dedicado Adam (Alec Baldwin). Apaixonados um pelo outro e pela casa que construiram, eles morrem inesperadamente em um acidente de carro e não só precisam lidar com a nova realidade, mas também com o fato de que seu lar agora pertence à excêntrica família Deetz, que chegaram até mesmo a contratar um decorador para deixá-lo de acordo com sua personalidade. A mãe da família, Delia (Catherine O'Hara, substituindo Anjelica Huston com graça e timing perfeito) é uma bizarra escultora dada a aceitar conselhos de seu guru, e a filha do casal, Lydia (Winona Ryder) é a única que percebe que alguma coisa está errada no local. Desesperados com a possibilidade de serem obrigados a assistir seu sonho de consumo transformar-se em pesadelo, o casal Maitland acaba tendo que recorrer a Beetlejuice, um exorcista de seres vivos. Porém, uma vez que eles descobrem que o estranho ser é mais aterrador ainda do que os Deetz, somente a jovem Lydia pode ajudá-los.
Resumir a trama de "Os fantasmas se divertem" é tarefa inglória, uma vez que o roteiro não se furta a brincar com as expectativas do público, alternando-se entre o humor escrachado de Beetlejuice, a ironia quase sutil do núcleo da família Deetz e a impotência do casal Maitland diante de circunstâncias tão estranhas para eles quanto para o público. Tim Burton deita e rola com as inúmeras possibilidades oferecidas pela trama, oferecendo tanto efeitos especiais criados com técnicas quase primitivas quanto brincadeiras visuais que se equilibram entre o grotesco e o francamente engraçado. Para isso, ele conta com uma equipe digna dos maiores elogios, como o músico Danny Elfman e o designer de produção Bo Welch, que criou cenários perceptivelmente fakes que combinam com o tom artesanal do conceito do cineasta - não à toa, Burton dirigiria alguns anos depois, a cinebiografia de "Ed Wood", cujos filmes também eram quase um elogio ao kitsch e ao falso. Além deles, o elenco não é menos que espetacular: se Michael Keaton tem aqui a maior chance de mostrar-se um ator bancável (fato que comprovaria em seus trabalhos seguintes com o diretor, na pele do homem-morcego), Winona Ryder dava os primeiros passos de uma carreira que amadureceria bastante na década seguinte e Geena Davis também se fazia notar com ótima química com Alec Baldwin. No entanto, é difícil não destacar o trabalho de Catherine O'Hara, genial como Delia Deetz - é inesquecível, por exemplo, a sequência em que a família é assombrada por Beetlejuice durante um jantar com convidados e é obrigada a dançar a ritmada "Day-O (The Banana Boat Song)".
"Os fantasmas se divertem" é uma espécie de cartão de visitas de Tim Burton para Hollywood. Deu certo, como ficou comprovado com sua carreira bem-sucedida desde então. E é, também, um inventário das obsessões, das piadas e dos conceitos de seu diretor, um dos mais autorais e respeitados de uma terra tão pródiga em sepultar a criatividade alheia.
terça-feira
MINHA VIDA
MINHA VIDA (My life, 1993, Columbia Pictures, 117min) Direção e roteiro: Bruce Joel Rubin. Fotografia: Peter James. Montagem: Richard Chew. Música: John Barry. Figurino: Judy Ruskin. Direção de arte/cenários: Neil Spisak/Anne D. McCulley. Produção executiva: Gil Netter. Produção: Hunt Lowry, Bruce Joel Rubin, Jerry Zucker. Elenco: Michael Keaton, Nicole Kidman, Queen Latifah, Bradley Whitford, Michael Constantine, Haing S. Ngor. Estreia: 12/11/93
Depois que ganhou o Oscar de roteiro original por "Ghost, do outro lado da vida", Bruce Joel Rubin achou que já era hora de capitalizar em cima do prestígio e assinar seu primeiro filme como diretor. Mantendo o principal elemento que deu certo no sucesso estrelado por Patrick Swayze e Demi Moore - o sentimentalismo - Rubin acabou dando com os burros n'água. Sem a experiência de Jerry Zucker ou o carisma de Swayze, Demi e Whoopi Goldberg para segurar as pontas, "Minha vida" fracassou nas bilheterias e foi francamente ignorado pela crítica - quando não extremamente malhado. O pior de tudo é saber que, apesar de alguns nomes envolvidos no projeto, o filme realmente mereceu o fracasso: é chato, previsível, superficial e dramaticamente capenga.
Os problemas de "Minha vida" começam com Michael Keaton, um dos atores mais sem graça produzidos por Hollywood - e ainda colhendo os frutos pelo êxito de seus dois Batman dirigidos pelo amigo Tim Burton. No filme de Rubin ele vive Bob Jones, um profissional da publicidade que, desenganado pelos médicos e com poucos meses de vida, resolve gravar vários vídeos para o filho prestes a nascer. Enquanto segue com sua missão auto-imposta, ele é pressionado pela esposa, Gail (Nicole Kidman, ainda conhecida apenas como esposa de Tom Cruise) a reaproximar-se da família - com quem mantém uma relação problemática - e tentar terapias alternativas, o que o faz conhecer Mr. Ho (Haing S. Ngor, de "Os gritos do silêncio"). É o veterano massagista oriental que o fará descobrir dentro de si as mágoas que o prendem em sua carapaça de frieza e o empurrará para uma nova fase de sua vida. Keaton, com sua habitual falta de carisma, não conquista a simpatia do público, um erro fatal para a eficácia da trama.
É impressionante como Rubin - um roteirista que demonstrou um impecável senso de ritmo em seu filme mais famoso - tropeça constantemente nos clichês em seu primeiro trabalho como diretor. Desde a primeira cena o espectador percebe a causa dos problemas familiares do protagonista, e, por conseguinte, não demora a adivinhar o desfecho da história. A transformação de Bob de um homem sisudo e fechado em uma pessoa mais leve e sensível é brusca, quase inverossímil. A relação entre ele e Gail não transmite emoção, e as cenas que envolvem seus conflitos com os pais e o irmão (Bradley Whitford) soam dèja-vu total. Só o que funciona um pouco - e mesmo assim é pouco desenvolvida em detrimento da mudança de Bob - são as cenas em que o protagonista dá conselhos ao filho ainda em gestação: são os únicos momentos um pouco interessantes.
Tivesse desenvolvido melhor seu roteiro e escolhido um ator central menos apático, Bruce Joel Rubin poderia ter repetido o sucesso de "Ghost". Como está, "Minha vida" é apenas um Supercine de luxo, com todo o jeitão de filme feito para a tv.
Depois que ganhou o Oscar de roteiro original por "Ghost, do outro lado da vida", Bruce Joel Rubin achou que já era hora de capitalizar em cima do prestígio e assinar seu primeiro filme como diretor. Mantendo o principal elemento que deu certo no sucesso estrelado por Patrick Swayze e Demi Moore - o sentimentalismo - Rubin acabou dando com os burros n'água. Sem a experiência de Jerry Zucker ou o carisma de Swayze, Demi e Whoopi Goldberg para segurar as pontas, "Minha vida" fracassou nas bilheterias e foi francamente ignorado pela crítica - quando não extremamente malhado. O pior de tudo é saber que, apesar de alguns nomes envolvidos no projeto, o filme realmente mereceu o fracasso: é chato, previsível, superficial e dramaticamente capenga.
Os problemas de "Minha vida" começam com Michael Keaton, um dos atores mais sem graça produzidos por Hollywood - e ainda colhendo os frutos pelo êxito de seus dois Batman dirigidos pelo amigo Tim Burton. No filme de Rubin ele vive Bob Jones, um profissional da publicidade que, desenganado pelos médicos e com poucos meses de vida, resolve gravar vários vídeos para o filho prestes a nascer. Enquanto segue com sua missão auto-imposta, ele é pressionado pela esposa, Gail (Nicole Kidman, ainda conhecida apenas como esposa de Tom Cruise) a reaproximar-se da família - com quem mantém uma relação problemática - e tentar terapias alternativas, o que o faz conhecer Mr. Ho (Haing S. Ngor, de "Os gritos do silêncio"). É o veterano massagista oriental que o fará descobrir dentro de si as mágoas que o prendem em sua carapaça de frieza e o empurrará para uma nova fase de sua vida. Keaton, com sua habitual falta de carisma, não conquista a simpatia do público, um erro fatal para a eficácia da trama.
É impressionante como Rubin - um roteirista que demonstrou um impecável senso de ritmo em seu filme mais famoso - tropeça constantemente nos clichês em seu primeiro trabalho como diretor. Desde a primeira cena o espectador percebe a causa dos problemas familiares do protagonista, e, por conseguinte, não demora a adivinhar o desfecho da história. A transformação de Bob de um homem sisudo e fechado em uma pessoa mais leve e sensível é brusca, quase inverossímil. A relação entre ele e Gail não transmite emoção, e as cenas que envolvem seus conflitos com os pais e o irmão (Bradley Whitford) soam dèja-vu total. Só o que funciona um pouco - e mesmo assim é pouco desenvolvida em detrimento da mudança de Bob - são as cenas em que o protagonista dá conselhos ao filho ainda em gestação: são os únicos momentos um pouco interessantes.
Tivesse desenvolvido melhor seu roteiro e escolhido um ator central menos apático, Bruce Joel Rubin poderia ter repetido o sucesso de "Ghost". Como está, "Minha vida" é apenas um Supercine de luxo, com todo o jeitão de filme feito para a tv.
quinta-feira
JACKIE BROWN
JACKIE BROWN (Jackie Brown, 1997, Miramax Films, 154min) Direção: Quentin Tarantino. Roteiro: Quentin Tarantino, romance "Punch Rum", de Elmore Leonard. Fotografia: Guillermo Navarro. Montagem: Sally Menke. Figurino: Mary Claire Hannah. Direção de arte/cenários: David Wasco/Sandy-Reynolds Wasco. Produção executiva: Elmore Leonard, Bob Weinstein, Harvey Weistein. Produção: Richard N. Gladstein. Elenco: Pam Grier, Samuel L. Jackson, Robert Forster, Robert De Niro, Bridget Fonda, Michael Keaton, Chris Rock. Estreia: 25/12/97
Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Robert Forster)
Vencedor de Melhor Ator (Samuel L. Jackson) no Festival de Berlim
Pouco mais de três anos se passaram entre a estreia de "Pulp Fiction" no Festival de Cannes de 1994 - de onde saiu com a Palma de Ouro - e de "Jackie Brown", no natal de 1997. Talvez por excesso de expectativa, no entanto, o terceiro trabalho de Quentin Tarantino não causou o mesmo barulho daquele que muitos consideram sua obra-prima. Como prova da incoerência da crítica - e também de boa parcela do público - Tarantino foi vítima de si mesmo: todos aqueles que incensaram "Pulp fiction" por sua criatividade e inovação esperavam o mesmo de "Jackie Brown". Como o ex-atendentende de videolocadora pode ser tudo, menos repetitivo, o esperado não aconteceu. Bastante diferente de "Pulp fiction", seu filme foge do previsível e, se não revolucionou o mundo do cinema, ao menos reiterou a excelência de seu criador como um cineasta capaz de sempre pegar o espectador de surpresa.
Trabalhando pela primeira - e até agora única - vez em cima de material alheio, Tarantino adaptou o romance "Punch run", de Elmore Leonard à sua maneira, se apropriando da trama e das personagens com sua característica avidez. Transformar a protagonista em uma negra - no livro ela era branca - foi apenas o princípio: "Jackie Brown" pode até dever sua origem a Leonard (cujo "Irresistível paixão" também virou filme logo em seguida), mas é Tarantino puro, na sua mais cristalina essência. Estão no filme todas as suas obsessões: personagens marginalizadas, edição inteligente, diálogos longos e recheados de referências pop e principalmente atuações brilhantes - e de atores redescobertos por seu tradicional talento arqueológico.

A Jackie Brown do título - a tal que era branca e transformou-se em negra para dar a oportunidade para a atriz Pam Grier voltar aos holofotes depois de anos desaparecida do cinema (onde trabalhou em filmes sobre a cultura black nos anos 70) - é uma comissária de bordo de uma empresa de aviação mixuruca que faz vôos entre EUA e México. Para complementar sua magra renda, ela trabalha como atravessadora para Robin Ordell (Samuel L. Jackson), um vendedor de armas procurado pelo FBI. Pega em uma armadilha da polícia, ela se vê obrigada a deletar seu chefe, mas antes disso, bola um plano que a fará colocar a mão em 500 mil dólares que pertencem ao criminoso. Para isso, ela conta com a ajuda de Max (Robert Forster, outro ressuscitado pelo diretor), seu agente de condicional que tem uma quedinha por ela. Porém, o que ela não sabe é que outras pessoas também estão de olho na grana, em especial um antigo comparsa de Ordell, o ex-presidiário Louis (Robert DeNiro) e a sexy (Bridget Fonda), uma gata de praia que vê no dinheiro a chance de sua vida.
A bem da verdade, é difícil resumir a trama de "Jackie Brown" sem que se fique com a sensação de déja-vu: a sinopse é, realmente, quase derivativa, repleta dos clichês que povoam o gênero policial. Mas Quentin Tarantino não é um cineasta burocrático e isso fica claro em inúmeras sequências de um filme muito acima da média de seus congêneres. Se a primeira parte concentra-se na apresentação das personagens - e o faz com propriedade e um senso de humor negro invejáveis - sua segunda metade é nunca menos do que fascinante. Valorizado pela edição espetacular de Sally Menke (parceira fiel do diretor, morta em 2010), o roteiro vai de um drama policial sobre lealdade e segundas chances para um intrigante suspense, que prende o espectador na cadeira com a respiração em suspenso. A repetição da sequência do plano de Jackie - vista pelos pontos de vista diferentes das personagens - é genial, não dando à audiência nenhuma pista sobre o que virá. Quando tudo fica claro diante do público, é impossível não abrir um sorriso de cumplicidade...
E cumplicidade talvez seja a palavra-chave em "Jackie Brown". Quentin Tarantino faz com que a audiência entre aos poucos na história contada, para que, ao seu final, sinta-se como parte integrante da narrativa, testemunha privilegiada de uma trama tão cheia de detalhes que qualquer frase, qualquer tom, qualquer acontecimento, por mínimo que pareça, tem uma importância fundamental em seu desfecho. Para isso, conta com um Samuel L. Jackson brilhante (mais uma vez) e uma Pam Grier que justifica a transformação racial da protagonista (além de um inspirado Robert Forster e uma divertida Bridget Fonda). Apenas Michael Keaton, com sua habitual apatia, destoa do restante do elenco. Tendo ainda uma trilha sonora vibrante que prende desde a primeira cena e um elenco de personagens que Leonard criou e Tarantino adotou como um pai carinhoso, "Jackie Brown" é um trabalho que não deixa nada a desejar aos fãs de bom cinema. Azar de quem não consegue perceber que um tentar novo "Pulp fiction" seria a pior coisa que poderia acontecer à carreira de seu criador.
Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Robert Forster)
Vencedor de Melhor Ator (Samuel L. Jackson) no Festival de Berlim
Pouco mais de três anos se passaram entre a estreia de "Pulp Fiction" no Festival de Cannes de 1994 - de onde saiu com a Palma de Ouro - e de "Jackie Brown", no natal de 1997. Talvez por excesso de expectativa, no entanto, o terceiro trabalho de Quentin Tarantino não causou o mesmo barulho daquele que muitos consideram sua obra-prima. Como prova da incoerência da crítica - e também de boa parcela do público - Tarantino foi vítima de si mesmo: todos aqueles que incensaram "Pulp fiction" por sua criatividade e inovação esperavam o mesmo de "Jackie Brown". Como o ex-atendentende de videolocadora pode ser tudo, menos repetitivo, o esperado não aconteceu. Bastante diferente de "Pulp fiction", seu filme foge do previsível e, se não revolucionou o mundo do cinema, ao menos reiterou a excelência de seu criador como um cineasta capaz de sempre pegar o espectador de surpresa.
Trabalhando pela primeira - e até agora única - vez em cima de material alheio, Tarantino adaptou o romance "Punch run", de Elmore Leonard à sua maneira, se apropriando da trama e das personagens com sua característica avidez. Transformar a protagonista em uma negra - no livro ela era branca - foi apenas o princípio: "Jackie Brown" pode até dever sua origem a Leonard (cujo "Irresistível paixão" também virou filme logo em seguida), mas é Tarantino puro, na sua mais cristalina essência. Estão no filme todas as suas obsessões: personagens marginalizadas, edição inteligente, diálogos longos e recheados de referências pop e principalmente atuações brilhantes - e de atores redescobertos por seu tradicional talento arqueológico.
A Jackie Brown do título - a tal que era branca e transformou-se em negra para dar a oportunidade para a atriz Pam Grier voltar aos holofotes depois de anos desaparecida do cinema (onde trabalhou em filmes sobre a cultura black nos anos 70) - é uma comissária de bordo de uma empresa de aviação mixuruca que faz vôos entre EUA e México. Para complementar sua magra renda, ela trabalha como atravessadora para Robin Ordell (Samuel L. Jackson), um vendedor de armas procurado pelo FBI. Pega em uma armadilha da polícia, ela se vê obrigada a deletar seu chefe, mas antes disso, bola um plano que a fará colocar a mão em 500 mil dólares que pertencem ao criminoso. Para isso, ela conta com a ajuda de Max (Robert Forster, outro ressuscitado pelo diretor), seu agente de condicional que tem uma quedinha por ela. Porém, o que ela não sabe é que outras pessoas também estão de olho na grana, em especial um antigo comparsa de Ordell, o ex-presidiário Louis (Robert DeNiro) e a sexy (Bridget Fonda), uma gata de praia que vê no dinheiro a chance de sua vida.
A bem da verdade, é difícil resumir a trama de "Jackie Brown" sem que se fique com a sensação de déja-vu: a sinopse é, realmente, quase derivativa, repleta dos clichês que povoam o gênero policial. Mas Quentin Tarantino não é um cineasta burocrático e isso fica claro em inúmeras sequências de um filme muito acima da média de seus congêneres. Se a primeira parte concentra-se na apresentação das personagens - e o faz com propriedade e um senso de humor negro invejáveis - sua segunda metade é nunca menos do que fascinante. Valorizado pela edição espetacular de Sally Menke (parceira fiel do diretor, morta em 2010), o roteiro vai de um drama policial sobre lealdade e segundas chances para um intrigante suspense, que prende o espectador na cadeira com a respiração em suspenso. A repetição da sequência do plano de Jackie - vista pelos pontos de vista diferentes das personagens - é genial, não dando à audiência nenhuma pista sobre o que virá. Quando tudo fica claro diante do público, é impossível não abrir um sorriso de cumplicidade...
E cumplicidade talvez seja a palavra-chave em "Jackie Brown". Quentin Tarantino faz com que a audiência entre aos poucos na história contada, para que, ao seu final, sinta-se como parte integrante da narrativa, testemunha privilegiada de uma trama tão cheia de detalhes que qualquer frase, qualquer tom, qualquer acontecimento, por mínimo que pareça, tem uma importância fundamental em seu desfecho. Para isso, conta com um Samuel L. Jackson brilhante (mais uma vez) e uma Pam Grier que justifica a transformação racial da protagonista (além de um inspirado Robert Forster e uma divertida Bridget Fonda). Apenas Michael Keaton, com sua habitual apatia, destoa do restante do elenco. Tendo ainda uma trilha sonora vibrante que prende desde a primeira cena e um elenco de personagens que Leonard criou e Tarantino adotou como um pai carinhoso, "Jackie Brown" é um trabalho que não deixa nada a desejar aos fãs de bom cinema. Azar de quem não consegue perceber que um tentar novo "Pulp fiction" seria a pior coisa que poderia acontecer à carreira de seu criador.
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