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quinta-feira

ALIANÇA DO CRIME

 


ALIANÇA DO CRIME (Black Mass, 2015, Cross Creek Pictures, 123min) Direção: Scott Cooper. Roteiro: Mark Mallouk, Jez Butterworth, livro de Dick Lehr, Gerard O'Neill. Fotografia: Masanobu Takayanagi. Montagem: David Rosenbloom. Música: Tom Holkenborg. Figurino: Kasia Walicka Maimone. Direção de arte/cenários: Stefania Cella/Tracey Doyle. Produção executiva: Brett Granstaff, Gary Granstaff, Phil Hunt, Peter Mallouk, Ray Mallouk, Steven Mnuchin, James Packer, Brett Ratner, Compton Ross, Christopher Woodrow. Produção: Scott Cooper, John Lesher, Patrick McCormick, Brian Oliver, Tyler Thompson. Elenco: Johnny Depp, Joel Edgerton, Benedict Cumberbatch, Dakota Johnson, Kevin Bacon, Peter Sarsgaard, Jesse Plemons, Rory Cochrane, David Harbour, Adam Scott, Corey Stoll, Julianne Nicholson, Juno Temple. Estreia: 04/9/2015 (Festival de Veneza)

É difícil assistir a qualquer cena de "Aliança do crime" sem que o cinema de Martin Scorsese surja na memória do espectador. Não por sua qualidade (apenas razoável), mas porque, de uma forma ou outra, o cineasta nova-iorquino criou uma espécie de cânone em relação ao subgênero de filmes de gângster - ao menos aqueles menos épicos - do qual poucos diretores conseguem escapar. E, apesar da violência de sua trajetória e do número de vítimas que deixou em seu caminho, James "Whitey" Bulger - protagonista do filme de Scott Cooper - jamais poderia ser considerado um personagem glamoroso. Provavelmente o mais notável criminoso da história de South Boston (e irmão de um senador) foi beneficiado, durante anos, por um acordo com o FBI - que permitiu a ele expandir seus negócios escusos e aumentar sua lista de homicídios - e, em mãos ousadas como as de Scorsese poderia render uma pequena obra-prima (não por acaso há ecos de sua história em "Os infiltrados", vencedor do Oscar de 2007). Comandado por Scott Cooper, porém, o roteiro baseado no livro de Dick Lehr e Gerard O'Neill acabou esbarrando em uma direção quase apática - tão influenciada por outras produções semelhantes que acaba por tornar-se pouco memorável, apesar do caprichado trabalho de Johnny Depp no papel central.

Substituindo Guy Pearce - que abandonou o projeto - e dedicando a ele um cuidado que chegou a planejar um encontro (nunca realizado) com o verdadeiro Bulger, Depp impressionou os consultores do filme, antigos associados do criminoso, parte da imprensa especializada (que o indicou a um Critic's Choice Awards) e de seus colegas de ofício (que o fizeram concorrer a um prêmio do Sindicato de Atores). Seu desempenho é realmente potente, enfatizado por uma caracterização impecável, que inclui a maquiagem, o figurino e a expressão corporal que o afastam de boa parte dos personagens exóticos que marcam sua carreira: por incrível que pareça, apesar da monstruosidade de seus atos, Bugler encontra, no trabalho de seu protagonista, um tom que evita o maniqueísmo absoluto - algo que nem mesmo o roteiro morno consegue impedir. Em um elenco repleto de ótimos atores - dentre os quais Benedict Cumberbatch, Kevin Bacon, Jesse Plemons e Joel Edgerton - o normalmente exagerado Depp consegue destacar-se sem apelar para a caricatura e entrega sua melhor atuação desde "Donnie Brasco" (1997) - coincidentemente outro filme sobre um infiltrado na máfia. Desta vez do lado do crime, o ator preferido de Tim Burton deita e rola com seu personagem, mesmo que o ritmo imposto por Cooper - que dirigiu "Coração louco" (2009) e deu a Jeff Bridges seu merecido Oscar - seja contemplativo demais para uma produção do gênero.

 

Assim como em seu "Tudo por justiça" (2013), em que a ação transcorria em um ritmo próprio, sem pressa e concentrado mais em seus personagens do que na narrativa propriamente dita, Scott Cooper imprime a "Aliança do crime" uma pegada menos ágil e mais dramática. Ainda há violência - é um filme sobre gângsters, afinal de contas -, mas ela não se restringe apenas a tiros, sangue e agressões físicas: interessa mais ao cineasta o turbilhão emocional de seus personagens, afetados (ou não) pela tensão constante à sua volta. Bulger não é uma ilha, e cercado por familiares e associados, enreda a todos em sua rotina de fora da lei, desde a mulher, Lindsey Cyr (Dakota Johnson) - um relacionamento fadado a uma tragédia que envolve o filho pequeno - até o irmão, Billy (Benedict Cumberbatch), senador que põe a própria carreira em risco devido a seus laços de sangue. É, aliás, o relacionamento de Bulger com o agente do FBI John Connolly (Joel Edgerton em papel herdado de Tom Hardy) que empurra a trama: amigo de infância do temido bandido, Connolly convence seus superiores a fazer um acordo com ele, dando-lhe relativa liberdade de ação em troca de informações sobre a máfia local (um inimigo em comum). Aos poucos Bulger vai se tornando mais e mais poderoso - mas as coisas mudam quando um novo procurador é designado para a área. Disposto a não mais fechar os olhos para os crimes do gângster, Fred Whysack (Corey Stoll) dá início à derrocada de um império.

Mesmo que o ritmo de "Aliança do crime" fuja da agilidade esperada de um filme do gênero - especialmente quando o público já está devidamente acostumado à adrenalina de obras como "Os bons companheiros" (1990) -, o filme de Scott Cooper cumpre boa parte do que promete. O roteiro por vezes confunde com seu excesso de personagens e a edição repleta de flashbacks do experiente David Rosenbloom nem sempre dá conta de lidar com tanta informação, mas é inegável que a atuação hipnotizante de Johnny Depp e a trama em si (inacreditável por natureza) são elementos fortes o bastante para sustentar uma produção que tem o cuidado de recriar a Boston dos anos 1970 com precisão - aplausos também para o figurino caprichado de Kasia Walicka Maimone (que depois faria parceria com Steven Spielberg em "Ponte dos espiões", de 2015) e a trilha sonora, que inclui Rolling Stones, Fletwood Mac, Blondie e Ella Fitzgerald. No saldo final, "Aliança do crime" pode não ser uma obra-prima, mas oferece ao espectador um conjunto suficiente de elementos para mantê-lo diante da tela e aproveitar suas inúmeras qualidades.

PAIXÃO DE OCASIÃO


PAIXÃO DE OCASIÃO (Picture perfect, 1997, Warner Bros, 121min) Direção: Glenn Gordon Caron. Roteiro: Arleen Sorkin, Paul Slansky, Glenn Cordon Caron, estória de Arleen Sorkin, Paul Slansky, May Quigley. Fotografia: Paul Sarossy. Montagem: Robert Reitano. Música: Carter Burwell. Figurino: Jane Robinson. Direção de arte/cenários: Larry Fulton/Debra Schutt. Produção executiva: William Teitler. Produção: Erwin Stoff. Elenco: Jennifer Aniston, Kevin Bacon, Jay Mohr, Olympia Dukakis, Illeana Douglas, Kevin Dunn. Estreia: 01/8/97

Comédias românticas, via de regra, seguem algumas fórmulas - já consagradas e sem as quais os fãs do gênero se sentiriam órfãos. Uma dessas fórmulas (talvez a mais utilizada, mas sempre eficiente) é seguida quase à risca em "Paixão de ocasião", um dos primeiros sucessos no cinema de Jennifer Aniston - então já famosa por "Friends" mas ainda antes de seu célebre casamento com Brad Pitt. Dirigido por Glenn Gordon Caron, produtor executivo de televisão, mas com poucos trabalhos como cineasta, o filme, simpático e agradável, serviu para comprovar o carisma de Aniston, que se tornaria, com o passar dos anos, a mais bem sucedida integrante do elenco da série (ao menos na tela grande). Mesmo sem apresentar maiores novidades em seu enredo - e talvez justamente por isso -, a história de um triângulo amoroso surgido através de um mal entendido conquistou o público (em especial o feminino) com sua mistura de humor, romance, belas paisagens e uma trilha sonora moderna - em suma, a receita completa para uma bela sessão da tarde despretensiosa.

Kate (Jennifer Aniston) é uma jovem de 28 anos que trabalha em uma agência de publicidade de Nova York, ao lado do homem por quem é apaixonada, o galante Sam (Kevin Bacon). Ainda solteira apesar dos apelos de sua dramática mãe, Rita (Olympia Dukakis), que não vê a hora de ser avó, Kate está praticamente desistindo da vida amorosa quando percebe que nem mesmo sua vida profissional está andando pra frente devido a seu estado civil. Deixada de lado em uma campanha milionária somente por ser solteira - de acordo com seus chefes ela não tem a estabilidade necessária para que confiem a ela uma responsabilidade maior -, Kate acaba aceitando fazer parte de uma mentira criada por sua amiga e colega de trabalho Darcy (Illeana Douglas): de uma hora para outra, o cinegrafista Nick (Jay Mohr) - que vive de filmar eventos particulares em Massachussets - se torna seu noivo, graças a uma fotografia casual tirada em um casamento. Para manter a mentira, Kate convida Nick para visitá-la e acompanhá-la em um jantar de negócios - ele se apaixona de verdade por ela, que não percebe a situação por ainda estar obcecada por Sam, que repentinamente também passa a sentir-se atraído pela colega capaz de trair o noivo para ficar com ele.

 

As situações criadas pelo roteiro de "Paixão de ocasião" são deliciosas, tanto no que diz respeito aos problemas criados na vida de Kate por sua mentira quanto por seu encontro com Nick, que se demonstra uma pessoa adorável e muito mais apaixonante do que ela poderia prever. Ao contrário de seus colegas nova-iorquinos, esnobes e consumidos pelas carreiras, ela vê, no rapaz, alguém sensível e capaz de oferecer mais do que conversas sobre mercado financeiro e estabilidade profissional: delicado e atencioso, Nick é a antítese de Sam, egoísta, autocentrado e que só percebe Kate quando tem certeza de que ela, comprometida, não lhe cobrará mais do que noites de sexo escondido. Enquanto um mal entendido leva a outro, no entanto, a trama perde a oportunidade de discutir temas relevantes, como a posição da mulher no mercado de trabalho e o preconceito contra mulheres solteiras e independentes. Não chega a ser um demérito - afinal não parece ser a intenção do roteiro - mas soa a uma oportunidade perdida ignorar uma premissa tão cheia de possibilidades, principalmente porque, conforme é mostrado logo nas primeiras cenas, Kate é tão talentosa quanto qualquer um de sua agência, sendo casada ou solteira. Mas essa discussão praticamente inexiste no filme - e, levando-se em conta de que se trata de uma comédia romântica com o objetivo simples de entreter e deixar a plateia com um sorriso nos lábios, é algo perdoável e compreensível.

"Paixão de ocasião" é, para os ávidos consumidores do gênero, uma delícia. Atores fotogênicos e talentosos, um roteiro que não exige demais dos neurônios, um roteiro que trabalha os clichês com segurança e carinho e uma direção que não tenta sobrepujar os elementos de que dispõe. Correto e sem grandes deslizes, Glenn Gordon Caron - cujo maior crédito em cinema é "Love affair: segredos do coração" (1994), remake de "Tarde demais para esquecer" (1957) - conduz seu filme com elegância e, mesmo que pudesse inserir um pouco mais de leveza a seu ritmo, faz dele um programa sem contra-indicações. Em seu primeiro papel principal em um gênero que fez a glória de Meg Ryan, Jennifer Aniston mostra personalidade própria e carisma o bastante para alçar voos mais ambiciosos - como seu elogiado desempenho em "Cake: uma razão para viver", lançado em 2015 e que comprovou seu talento dramático.

domingo

APOLLO 13: DO DESASTRE AO TRIUNFO

APOLLO 13: DO DESASTRE AO TRIUNFO (Apollo 13, 1995, Universal Pictures, 140min) Direção: Ron Howard. Roteiro: William Broyles Jr., Al Reinert, livro de Jim Lovell, Jeffrey Kluger. Fotografia: Dean Cundey. Montagem: Dan Henley, Mike Hill. Música: James Horner. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Michael Corenblith/Merideth Boswell. Produção executiva: Todd Hallowell. Produção: Brian Grazer. Elenco: Tom Hanks, Bill Paxton, Kevin Bacon, Ed Harris, Gary Sinise, Kathleen Quinlan, Xander Berkeley, Loren Dean, Todd Louiso. Estreia: 22/6/95

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Ed Harris), Atriz Coadjuvante (Kathleen Quinlan), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Direção de Arte/Cenários, Som, Efeitos Visuais
Vencedor de 2 Oscar: Montagem, Som 

Em abril de 1970, o mundo parou graças à viagem de uma missão norte-americana à Lua. Não porque estivesse curioso sobre a viagem em si - Neil Armstrong já havia dado seus passos por lá no ano anterior e o interesse da mídia pela nova aventura da NASA não era dos maiores -, mas justamente porque o que era esperado ser um sucesso previsível acabou se tornando um pesadelo para os astronautas, suas famílias e os engenheiros responsáveis pelos cálculos que levaram à crise. A inesperada explosão em um dos tanques de oxigênio, ocorrida antes que a tripulação chegasse a seu destino, obrigou a um retorno imediato, com o risco iminente de um desfecho trágico - os três pilotos poderiam morrer de frio, sufocados pela falta de ar, envenenados pelo gás carbônico liberado por eles mesmos ou até incinerados ao entrar na atmosfera terrestre. De repente, o que era tratado com desdém por parte da população transformou-se em interesse internacional - e um desastre em potencial virou uma história de superação mais poderosa que qualquer roteiro que pudesse ser criado por Hollywood. E, levando-se em conta a avidez da indústria em capitalizar em cima de narrativas tão impactantes, até que demorou para que a trajetória da Apollo 13 chegasse aos cinemas: somente em 1995, duas décadas e meia depois dos fatos é que finalmente o astronauta Jim Lovell se veria retratado nas telas - mas, como forma de compensação, se veria interpretado por um dos maiores astros de sua geração: Tom Hanks.

Quando "Apollo 13: do desastre ao triunfo" chegou aos cinemas, sob a direção de Ron Howard, em pleno verão norte-americano, Hanks ainda estava saboreando seu segundo Oscar consecutivo de melhor ator, pelo megasucesso "Forrest Gump: o contador de histórias", de Robert Zemeckis. Não há dúvidas de que sua presença ajudou o filme de Howard a tornar-se um enorme êxito comercial, com mais de 170 milhões de dólares arrecadados somente no mercado doméstico (e mais de 350 milhões ao redor do mundo), mas também é certo de que o marketing da Universal Pictures, o talento do diretor em contar histórias que agradam a todos os tipos de público e o fabuloso empurrão da Academia, com nove indicações à estatueta dourada (incluindo melhor filme mas não diretor e ator, para surpresa de muitos). Tudo bem que, no final das contas, Mel Gibson e seu "Coração valente" acabaram se dando melhor na cerimônia do Oscar - deixando apenas os prêmios de edição e som para o filme de Howard -, mas, a esse ponto, a popularidade de "Apollo 13" já estava nas alturas e não precisava de qualquer espécie de selo de aprovação. Mesmo assim, o Screen Actors Guild fez sua parte, lhe conferindo duas láureas: melhor elenco e melhor ator coadjuvante (Ed Harris, também indicado ao Oscar e ao Golden Globe por seu desempenho como Gene Kranz, líder da missão em Houston).


Amparado no maior realismo possível de obter com um orçamento generoso, Ron Howard e sua equipe fizeram de "Apollo 13" um filme tecnicamente impecável - para as rápidas cenas em que a falta de gravidade é mostrada dentro da cápsula espacial, por exemplo, foi utilizado um avião com que a própria NASA trabalha para o treinamento de seus astronautas, que conseguem flutuar por cerca de 23 segundos a cada mergulho no ar. Os efeitos visuais (que perderam o Oscar para "Babe: o porquinho atrapalhado") são sutis, mas tão perfeitos que o próprio Jim Lovell, ao assistir ao filme, julgou que algumas imagens fossem cedidas pela agência norte-americana. Sublinhadas pela trilha sonora épica de James Horner, tais sequências enchem os olhos da plateia e equilibram a tensão e a angústia de seus personagens - nenhum deles especialmente dotado de uma profundidade dramática além da necessária para envolver o espectador. A opção do roteiro em concentrar praticamente toda a ação durante o período em que os protagonistas estavam completamente focados em sua missão é válida - problemas familiares e/ou outros conflitos são praticamente ignorados pelo roteiro, baseado no livro de Lovell e Jeffrey Kluver - e impede o filme de estender-se em excesso ou abusar de uma prolixidade que lhe seria prejudicial em termos de adrenalina. Tal medida não atrapalha, por exemplo, Kathleen Quinlan, que concorreu à estatueta de coadjuvante por sua atuação como Marilyn, a esposa de Lovell, dividida entre o desespero de ver o marido correndo o risco de não voltar vivo para casa e a resiliência necessária para não desabar diante das câmeras de televisão - repentinamente dispostas a dar espaço para a viagem que a princípio não despertara seu interesse.

Mas "Apollo 13" não é o show de um homem só - ou de uma técnica narrativa milimetricamente criada para deixar a plateia com os nervos à flor da pele até os últimos minutos. Como ex-ator mirim, Ron Howard sabe muito bem como explorar o melhor de cada um de seu elenco, repleto de rostos conhecidos do grande público. Tom Hanks lidera o elenco com o carisma habitual, mas divide a maior parte de seu tempo em cena com Bill Paxton e Kevin Bacon, igualmente competentes em transmitir toda a vasta gama de sensações experimentada por seus personagens. Em Terra, além de Kathleen Quinlan e Ed Harris, quem tem suprema importância em ajudar os desventurados protagonistas é Gary Sinise, que, na pele de Ken Mattingly - um astronauta que ficou de fora da missão na última hora -, reprisa sua parceria com Hanks, iniciada em "Forrest Gump". Equilibrando sua linha narrativa entre a técnica e a emoção, Howard criou um filme perfeito para todos os públicos - e já declarou de que se trata do filme preferido dentre todos os que já realizou. Se ufanismo pode incomodar um pouco, mas é inegável que "Apollo 13: do desastre ao triunfo" é, realmente, bem mais um triunfo do que um desastre.

terça-feira

O DIA DO ATENTADO

O DIA DO ATENTADO (Patriots Day, 2016, Bluegrass Films/CBS Films/Closest to the Hole Productions, 133min) Direção: Peter Berg. Roteiro: Peter Berg, Matt Cook, Joshua Zetumer, estória de Peter Berg, Matt Cook, Paul Tamasy, Eric Johnson. Fotografia: Tobias A. Schliessler. Montagem: Gabriel Fleming, Colby Parker Jr.. Música: Trent Reznor, Atticus Ross. Figurino: Virginia Johnson. Direção de arte/cenários: Tom Duffield/Ronald R. Reiss. Produção executiva: Louis G. Friedman, Eric Johnson, Nicholas Nesbitt, John Logan Pierson, Paul Tamasy, Dan Wilson. Produção: Dorothy Aufiero, Dylan Clark, Stephen Levinson, Hutch Parker, Michael Radutzky, Scott Stuber, Mark Wahlberg. Elenco: Mark Wahlberg, Kevin Bacon, Michelle Monaghan, J.K. Simmons, John Goodman. Estreia: 17/11/16

Algo semelhante já havia acontecido em 1974, quando dois projetos diferentes com o mesmo tema - no caso um incêndio de grandes proporções em um arranha-céu - se transformaram em um único filme, o mastodôntico "Inferno na torre", dirigido por John Guillermin e estrelado por gente do naipe de Paul Newman, Steve McQueen, Faye Dunaway e Fred Astaire. "O dia do atentado" não tem o mesmo escopo milionário, mas tem uma origem semelhante: dois roteiros independentes que, com o mesmo pano de fundo, se fundem em um mesmo produto, com intenções e ritmos distintos para atingir todos os públicos possíveis. Assim, o mesmo filme se divide em um quase documentário sobre o trágico atentado na Maratona de Boston em 2013 -  com detalhes sobre a investigação que levou aos culpados e momentos de ação e suspense - e um drama a respeito das vítimas e seus familiares, assim como todos os envolvidos na busca pelos criminosos. Centrada principalmente em um personagem criado especialmente para o filme como um amálgama de vários policiais da cidade, a terceira colaboração entre o diretor Peter Berg e o ator Mark Wahlberg é um competente entretenimento, mas que peca justamente por sua falta de foco. Quando se concentra no melhor que Berg sabe fazer (uma obra tensa e eficiente de suspense) é um ótimo filme. Quando busca a emoção mais sutil acaba por perder o ritmo imposto por algumas sequências de tirar o fôlego.

Assim como no ótimo "O grande herói" (2014) e no apenas mediano "Horizonte profundo" (2016) - as colaborações anteriores do cineasta com Wahlberg - o roteiro de "O dia do atentado" tem como objetivo realçar os momentos mais valorosos de seus protagonistas, mas nem sempre o equilíbrio funciona nesse terceiro capítulo. À vontade quando dirige sequências mais tensas e tecnicamente complexas, Berg parece não ter a mesma desenvoltura em comandar momentos de maior emoção - o que acaba por fazer com que seu filme, por mais que tente fugir do rótulo, seja mais um exemplar de um gênero que tem fãs incondicionais ao redor do mundo: "O dia do atentado" até se esforça em ser mais do que um filme policial de ação, mas sua vocação para entretenimento rápido (mais do que um drama edificante e memorável) fica evidente sempre que suas câmeras passam do sofrimento nos hospitais para a adrenalina das ruas. Com uma edição competente e um desenho de som inteligente, a corrida atrás dos responsáveis por um dos mais graves atentados à bomba em território americano da história é muito mais empolgante e interessante do que os cuidados médicos a suas vítimas. Coincidência ou não, o filme "O que te faz mais forte", estrelado por Jake Gyllenhaal (e que conta a trajetória de um dos sobreviventes) foca mais no drama pessoal do protagonista - e acaba sendo um complemento à obra de Berg.


Ao contrário da maioria dos filmes norte-americanos que recriam as tragédias ocorridas em seu solo como produções de heroísmo pessoal (vide "Torres gêmeas", de Oliver Stone e o próprio "Horizonte profundo", do mesmo Peter Berg), "O dia do atentado" demora a estabelecer-se como um filme de ação, preferindo gastar seus preciosos minutos iniciais apresentando alguns dos personagens que irão conviver com o público pelas duas horas seguintes. É assim que surge o Sargento Tommy Saunders (Mark Wahlberg sem muito o que fazer e sem a importância que alguns cartazes fazem entender): casado com a bela Carol (Michelle Monaghan), ele se destaca no trabalho pelas ruas de Boston, cidade a que conhece como a palma da mão. É ele quem irá ser a peça crucial na caçada aos irmãos Tsarnaev - os culpados pela explosão de uma bomba junto aos espectadores da tradicional maratona da cidade. Antes que a caçada comece, no entanto, o roteiro faz questão de introduzir à audiência outros nomes fundamentais da história, como o casal Patrick Downes (Christopher O'Shea) e Jessica Kinsky (Rachel Brosnahan), a jovem cientista Li (Lana Condor), o estudante Dun Meng (Jimmy O. Yang) e Steve Woolfenden (Dustin Tucker) e seu filho pequeno: todos serão vítimas, em maior ou menor grau, do violento incidente, e Berg cuida para não exagerar na sacarose, tratando seus personagens com respeito e cuidado - mesmo que posteriormente os acabe deixando em segundo plano).

Depois de explosão - antecedida com sequências que mostram sua preparação pelos irmãos Tamerlan (Themo Melikidze) e Dzokhar (Alex Wolff) - a trama de "O dia do atentado" finalmente se bifurca, convidando a plateia para testemunhar a agonia das vítimas da explosão (nada de muito sofisticado emocionalmente ou tampouco inédito) e a corrida dos policiais do FBI, liderados pelo agente especial Rick Deslauriers (Kevin Bacon), atrás dos responsáveis. As longas sequências pelas ruas da cidade, em uma noite particularmente tensa e violenta, são preciosas, mostrando o cuidado do diretor em ser ao mesmo tempo realista e capaz de envolver o público com as ferramentas básicas do suspense. São momentos em que o filme cresce e atinge todo o seu potencial - algo que o mesmo diretor fez em "O grande herói", uma produção de guerra que explora todos os elementos do gênero de forma inteligente e honesta. A opção do roteiro em não fazer de Tommy Saunders um herói individual é corajosa, uma vez que o público espera algo assim de um filme de ação, mas acaba, paradoxalmente, enfraquecendo um pouco seu clímax - apesar de ele ser, ainda assim, potente o bastante para grudar a plateia na poltrona. No fim das contas, "O dia do atentado" é um bom filme de ação, com algumas doses de drama e um domínio técnico invejável de sua equipe. Não é inesquecível, mas está um patamar acima da média das produções do gênero simplesmente por não subestimar a inteligência do espectador.

sábado

ECOS DO ALÉM

ECOS DO ALÉM (Stir of echoes, 1999, Artisan Entertainment, 99min) Direção: David Koepp. Roteiro: David Koepp, romance de Richard Matheson. Fotografia: Fred Murphy. Montagem: Jill Savitt. Música: James Newton Howard. Figurino: Leesa Evans. Direção de arte/cenários: Nelson Coates/David Krummel. Produção executiva: Michele Weisler. Produção: Judy Hofflund, Gavin Polone. Elenco: Kevin Bacon, Illeana Douglas, Kathryn Erbe, Zachary David Cope, Kevin Dunn. Estreia: 28/7/99

Em 1999, um filme estrelado por um astro dos anos 80 voltando a chamar a atenção da crítica e um menino com o poder de ver e falar com fantasmas chegou às telas de cinema para assustar às plateias e deixá-la grudada na poltrona. Não, não estamos falando de "O sexto sentido", que, com Bruce Willis à frente dos créditos e um roteiro pra lá de bem amarrado seduziu o público do mundo todo, transformando-se em um dos maiores sucessos de bilheteria da história, e sim de "Ecos do além", que, com trazendo alguns elementos semelhantes, teve o azar de estrear poucos meses depois, quando todos ainda estavam encantados e/ou assombrados pela trama de M. Night Shyamalan e mal perceberam suas qualidades. Baseado em um livro de Richard Matheson, autor de clássicos sobrenaturais com o romântico "Em algum lugar do passado", o filme de David Koepp - cuja estreia como diretor foi o subestimado "Efeito dominó", de 1996, não fez feio nas bilheterias, mas foi eclipsado sem pena pela obra do cineasta indiano. Merece, depois de mais de uma década, ser descoberto pela audiência.

Kevin Bacon - um ator de extrema competência, que sai-se bem tanto como herois quanto como vilões - interpreta o personagem principal, Tom Witzky, um músico frustrado que vive do emprego na companhia telefônica para manter a família, a esposa Maggie (Kathryn Erbe) e o filho pequeno, Jake (Zachary David Cope). Na mesma noite em que fica sabendo que será pai pela segunda vez - fato que o afunda ainda mais na mediocridade de um cotidiano que não o faz feliz - ele aceita ser hipnotizado pela cunhada, Lisa (Illeana Douglas), em uma festa da vizinhança. Sem lembranças do que aconteceu durante o período em que esteve desacordado, ele tenta seguir sua vida normal, mas começa a ser assombrado por visões de uma jovem fantasmagórica e flashes incompreensíveis de um crime cujos detalhes ele não consegue discernir. Ao mesmo tempo, seu filho também mantém contato com a garota, que ele descobre chamar-se Samantha Kozac (Jennifer Morrison) e ter desaparecido há algum tempo, antes mesmo de sua mudança para o bairro. Aos poucos, Tom vai perdendo o equilíbrio emocional, envolvendo toda a família em sua loucura.


Com um tom bastante diferente daquele mostrado em "O sexto sentido" - que equilibrava o suspense com toques emocionais sofisticados e sutis - "Ecos do além" mescla os sustos de um filme de fantasmas com uma trama policial consistente e verossímil, apesar de resvalar em um clímax desnecessariamente barulhento e lugar-comum, que substitui a tensão construída com cuidado até então por um desfecho quase preguiçoso. Sustentada por uma trilha sonora adequada de James Newton Howard - coincidentemente ou não também o autor da música do filme de Shyamalan - e um clima de angústia crescente proposto pela fotografia de Fred Murphy, que utiliza com precisão a luz noturna para sublinhar a escuridão cada vez mais profunda em que Tom vai penetrando, a trama de Matheson ganha contornos bem reais quando se percebe que, por trás de ectoplasmas misteriosos e hipnoses profundas, é a maldade humana quem está por trás de todo o drama. Esse pé fincado na realidade é a maior qualidade do filme, valorizado pela presença forte e contundente de Kevin Bacon.

Não fosse a presença de Bacon em seu papel central, "Ecos do além" estaria fadado a ser confundido com apenas mais um suspense feijão-com-arroz, daqueles que abarrotam as prateleiras das videolocadoras. Sua presença, porém, confere autenticidade e credibilidade ao filme, transformando-o em uma produção bem acima da média do gênero. Pode não ser um "O sexto sentido", mas quantos filmes o são??

quarta-feira

X-MEN: PRIMEIRA CLASSE

X-MEN: PRIMEIRA CLASSE (X-Men: First Class, 2011, 20th Century Fox/Marvel Entertainment, 132min) Direção: Matthew Vaughn. Roteiro: Ashley Edward Miller, Zack Stentz, Jane Goldman, Matthew Vaughn, estória de Sheldon Turner, Bryan Singer. Fotografia: John Mathieson. Montagem: Eddie Hamilton, Lee Smith. Música: Henry Jackman. Figurino: Sammy Sheldon. Direção de arte/cenários: Chris Seagers/Erin Boyd, Sonja Klaus. Produção executiva: Stan Lee, Josh McLaglen, Tarquin Pack. Produção: Gregory Goodman, Simon Kinberg, Lauren Shuller Donner, Bryan Singer. Elenco: Michael Fassbender, James McAvoy, Kevin Bacon, Jennifer Lawrence, Rose Byrne, Nicholas Hoult, January Jones, Oliver Platt, Zoe Kravitz, Jason Flemyng, Lucas Till, James Remar, Matt Craven, Ray Wise. Estreia: 25/5/11

Não é preciso ser fã de HQ para se divertir assistindo a "X-Men: Primeira Classe", que traz de volta aos cinemas a trupe de mutantes da Marvel que devolveu qualidade e bilheteria às adaptações  de comic books à sétima arte. Desde que Bryan Singer lançou o primeiro "X-Men", em 2000, personagens como Homem-aranha, Homem-de-ferro e afins lotaram salas de cinema e redimiram muitas transposições que anteriormente se equivocaram e quase sepultaram o que se tornaria um dos mais importantes gêneros cinematográficos do século XXI. Quando se trata de X-Men, porém, nem é necessário gostar do estilo para curtir as duas horas do filme de Matthew Vaughn. Basta pegar refrigerante e pipoca e se deixar ser levado por uma trama que, a despeito de versar sobre heróis mutantes, fala também, sutilmente (ou nem tanto, às vezes), sobre a tolerância às diferenças.

Para quem não sabe, esse primeiro filme do que promete ser uma nova série não é uma continuação da primeira trilogia - cujo segundo capítulo é tudo aquilo que se pode esperar de um filme de ação e um pouco mais: seguindo uma tendência cada vez maior, o que se mostra aqui é a gênese de toda a história contada antes, ou seja, não se pode esperar Ciclope, ou Jean Gray, ou Tempestade, ou Wolverine (ops, será que não??). A trama dessa nova investida da Marvel nas telas apresenta o início da relação de amizade/admiração/rivalidade entre duas das personagens mais interessantes do universo dos quadrinhos: Charles Xavier e Erik Lehnsherr, também conhecido como Magneto.

Vividos pelo inglês James McAvoy e pelo alemão Michael Fassbender, Xavier e Erik são a base de um roteiro que é valorizado pela seriedade (ainda que nunca deixe de lado o senso de humor). A inteligência da audiência jamais é desrespeitada, principalmente pela coragem dos produtores em situar toda a trama na famigerada crise dos mísseis de Cuba, momento crucial do governo Kennedy e que quase jogou o mundo em uma terceira guerra. É nesse momento, essencial para a história mundial, que a raça dos mutantes tem sua primeira cisão: de um lado, aqueles que acreditam em uma política de tolerância, liderados por Xavier. De outro, o grupo que vislumbra na guerra absoluta a solução para os problemas de discriminação e preconceito. Tem como não gostar de um filme que trata de assuntos tão sérios de forma tão comercial e popular?


"X-Men: Primeira Classe" começa em um campo de concentração polonês em 1944 (assim como o primeiro filme), quando Erik começa a perceber seus poderes de manipular metais. No mesmo ano, o jovem Charles Xavier também tem ciência de seus grandes poderes e assume a jovem Raven (também uma mutante) como sua irmã de criação. Em 1962, os caminhos dos dois jovens irão se cruzar na busca de Erik pela vingança contra Sebastian Shaw (Kevin Bacon), que matou sua mãe e na tentativa da CIA (na figura de Moira MacTaggert, vivida pela australiana Rose Byrne) em impedir a III Guerra Mundial, que está prestes a acontecer devido ao embargo americano ao país de Fidel Castro. Juntos, Xavier e Erik iniciam o recrutamento de jovens mutantes.

Resumir um filme de "X-Men" não é tarefa das mais fáceis, uma vez que sempre acontece tanta coisa - e de forma tão orgânica e natural - que é mais fácil realmente apertar o botão de relaxar e curtir cada cena, cada momento, cada diálogo. Sim, em toda a série - talvez com a possível exceção do fraco "Wolverine: Origens" - há o cuidado com a relação entre as personagens e a maneira com que os acontecimentos se conectam. E aqui, o público é brindado com duas aparições-relâmpago muito divertidas e com algumas cenas que explicam muito do que está por vir (ou já veio, depende de como se vê as coisas). E é por isso que a escolha do elenco, mais uma vez, mostrou-se extremamente acertada. James McAvoy é um dos melhores jovens atores do momento, e Jennifer Lawrence (já então indicada ao Oscar por "Inverno da alma" e no caminho para vencer a estatueta por "O lado bom da vida") se sai muito bem como a adolescente Mística. Nicholas Hoult (o ator de "Um grande garoto", irreconhecível) e Kevin Bacon também não deixam a peteca cair (Bacon, aliás, parece se divertir muito no papel de vilão). Mas é inegável que o maior destaque é Michael Fassbender. Na ausência de Wolverine, é ele quem tem as melhores cenas, é por ele que o público torce mais fervorosamente e é ele que é o responsável por empolgar a audiência (até mesmo na esperada sequência que explica o motivo de Xavier estar preso em uma cadeira de rodas nas continuações). E honra o papel, vivido majestosamente por Ian McKellen nas primeiras partes.

Em suma, "X-Men: Primeira Classe" não decepciona os fãs dos primeiros filmes - ao menos àqueles que nunca leram uma linha sequer dos quadrinhos - e nem de longe é tão decepcionante quanto "Wolverine: Origens". É um exemplo a ser seguido por quem preza unir qualidade e sucesso financeiro. Vida longa aos mutantes!

FROST/NIXON

FROST/NIXON (Frost/Nixon, 2008, Universal Pictures/Imagine Entertainment, 122min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Peter Morgan, peça teatral homônima do mesmo autor. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill, Robert Komatsu. Música: Hans Zimmer. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Michael Corenblith/Susan Benjamin. Produção executiva: David Bernardi, Matthew Byan Shaw, Liza Chasin, Todd Hallowell, Debra Hayward, Karen Kehela Sherwood, Peter Morgan. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Brian Grazer, Ron Howard. Elenco: Frank Langella, Michal Sheen, Kevin Bacon, Sam Rockwell, Matthew Macfadyen, Toby Jones, Andy Milder. Estreia: 15/10/08 (Festival de Londres)

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Ron Howard), Ator (Frank Langella), Roteiro Adaptado, Montagem

Talvez o mais polêmico dentre todos os presidentes norte-americanos, Richard Nixon acabou por tornar-se também um dos personagens mais fascinantes da política mundial, com sua personalidade ambígua e sua história repleta de lances melodramáticos e controversos - mesmo quando não aparece em cena, ele é o centro das atenções, como é o caso de "Todos os homens do presidente" (76), que Alan J. Pakula dirigiu baseado no livro dos jornalistas Carl Bernstein e Bob Woodward, que investigaram o famigerado caso Watergate, que o empurrou à renúncia. Protagonista do ambicioso "Nixon" (95), de Oliver Stone - no qual foi interpretado por um brilhante Anthony Hopkins, indicado ao Oscar por seu desempenho - o homem que comandou os EUA em um dos períodos mais críticos de sua história serviu de inspiração também para o dramaturgo Peter Morgan, que em 2007 estreou na Broadway a elogiadíssima "Frost/Nixon", a recriação dramática de uma série de entrevistas concedidas pelo ex-presidente ao repórter britânico David Frost em 1977 - e que se tornaram momentos clássicos da televisão mundial. O sucesso do espetáculo teatral logo chamou a atenção da indústria cinematográfica e inúmeros diretores relevantes - Martin Scorsese, Sam Mendes, Mike Nichols, George Clooney - se dispuseram a comandar sua adaptação para as telas, até que Ron Howard ganhou a disputa, com a garantia de ter nos papéis centrais os dois atores que davam vida aos protagonistas nos palcos, Frank Langella e Michael Sheen. Se o resultado nas bilheterias não foi dos mais empolgantes - culpa talvez da natural aversão da plateia a temas políticos - o mesmo não pode ser dito da receptividade da crítica, unânime em apontar o filme como um dos melhores da temporada 2008, opinião compartilhada pelos membros da Academia de Hollywood, que o colocaram no páreo para cinco importantes Oscar, inclusive melhor filme, direção e ator (Langella).

Com a adaptação escrita pelo próprio Morgan, que também foi indicado à estatueta dourada, "Frost/Nixon" pode até ser de interesse um tanto limitado - é difícil imaginar o mesmo público que lota os cinemas para ver coisas como "Transformers" pagando ingresso para assistir a um duelo verbal sobre política - mas é absolutamente fascinante, tanto em termos narrativos quanto históricos. Dotado de um ritmo ágil e de diálogos saborosos que dão a seus atores a chance de explorar as diversas nuances de seus personagens - além de um inusitado senso de humor que o afasta do tom shakespereano do filme de Stone, por exemplo - o roteiro de Morgan acerta principalmente ao deixar claro ao espectador as motivações egoístas de cada um dos lados da questão antes de colocá-los frente a frente: dessa forma, nem Frost é um heroi da mídia disposto a apresentar a verdade ao povo americano (ele tem interesses financeiros no projeto, ainda que sofra com a angústia de não conseguir financiamento para ele) nem Nixon é um injustiçado pelos opositores políticos ou ingênuo (o que fica claro na última das sessões de entrevistas, em um momento genial de texto, direção e interpretação). Ao negar a seu texto qualquer traço maniqueísta, Morgan transforma o que poderia ser em um exercício aborrecido, verborrágico e parcial em um interessantíssimo estudo de personagens - mesmo que um deles tenha sido o homem mais poderoso do mundo por um determinado período de tempo.


Quando o filme começa, Richard Nixon já está fora da esfera do poder, em um silêncio ensurdecedor que priva os eleitores americanos da verdade a respeito do caso Watergate - quando políticos republicanos foram desmascarados ao espionar a sede do partido democrata no prédio que dá nome à situação. Sabendo que uma declaração sua pode lhe trazer o prestígio e o respeito que sua carreira como repórter de celebridades não lhe dá, o jornalista inglês David Frost (Michael Sheen, sensacional) tem a ideia de propor-lhe uma série de entrevistas exclusivas para serem transmitidas na televisão americana. A chance de reconquistar a admiração de seus eleitores - e um generoso pagamento de 600 mil dólares - convence o político a aceitar a proposta, mesmo que com uma série de exigências. Pondo em risco seu patrimônio pessoal correndo sério risco com o investimento, Frost insiste na ideia e marca os encontros para o início de 1977. O que ele pensava ser uma missão fácil se mostra, porém, um desafio jamais experimentado em sua carreira até então repleta de futilidade e superficialidade.

"Frost/Nixon" é um filme de muitas qualidades. Além do roteiro conciso de Peter Morgan e da direção segura de Ron Howard, o elenco está em dias inspirados, tanto os atores centrais quanto os coadjuvantes - uma lista que inclui Kevin Bacon, Rebecca Hall, Sam Rockwell e Oliver Platt. Hipnotizante, inteligente e realizado com seriedade rara, é uma pequena pérola que, mesmo tendo quase sido esquecida com o passar dos anos, merece ser redescoberto.

VERDADE NUA

VERDADE NUA (Where the truth lies, 2005, Serendipty Point Films/First Choice Films, 107min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Atom Egoyan, romance de Rupert Holmes. Fotografia: Paul Sarossy. Montagem: Susan Shipton. Música: Mychael Danna. Figurino: Beth Pasternak. Direção de arte/cenários: Philip Barker/Trisha Edwards, Cal Loucks. Produção executiva: Atom Egoyan, Colin Leventhal, Donald A. Starr, Daniel J.B. Taylor. Produção: Robert Lantos. Elenco: Colin Firth, Kevin Bacon, Alison Lohman, David Hayman. Estreia: 13/5/05 (Festival de Cannes)

Quando "Verdade nua" estreou, no Festival de Cannes de 2005, o comentário geral - e que chamava mais a atenção do que o filme em si - era de que a história, baseada em um romance de Rupert Holmes, especulava a respeito da relação entre os atores Jerry Lewis e Dean Martin e dos motivos que levaram ao fim de uma das duplas mais queridas do público americano na década de 50. Realidade ou não, o fato é que tal publicidade deu à obra do canadense Atom Egoyan uma sobrevida entre os cinéfilos que, de outro modo, provavelmente não teria: mesmo com algumas ousadas cenas de sexo (amenizadas em sua versão para o mercado norte-americano) e uma história que mantém um certo suspense até seus minutos finais, fica a sensação, em seu término, de que o desejo de criar polêmica acabou sobrepujando a profundidade que Egoyam havia demonstrado, por exemplo, em seu melhor filme, o genial "O doce amanhã", que lhe indicou aos Oscar de direção e roteiro em 1998. Repleto de reviravoltas - algumas convincentes, outras nem tanto - e com um excesso de narração em off, "Verdade nua" é acima da média, mas jamais chega a ser tão bom quanto poderia.

Sem assumir a inspiração na dupla Lewis/Martin - que romperam a bem-sucedida sociedade artística sem maiores explicações no auge do sucesso, o que deu margem a inúmeras especulações - o filme de Egoyan (assim como o romance de Holmes) tem como protagonistas dois grandes astros da Hollywood dos anos 50, ídolos das telas e dos palcos e admirados incondicionalmente pelo público que então não tinha acesso a todas as sujeiras que os glamourosos tapetes dos hotéis cinco estrelas escondiam: Lanny Morris e Vince Collins tem uma relação profissional acima de qualquer suspeita, ganham milhões e levam uma vida de luxo e conforto, escondendo de seus fãs suas verdadeiras personalidades. Consumidores habituais de drogas e entusiastas de orgias com prostitutas e quem mais se dispuser a elas - além de ter relações estreitas com a Máfia - os dois sofrem um duro golpe na carreira quando, depois de um especial de televisão beneficente, o corpo de uma camareira do hotel onde estão hospedados é encontrado no quarto de Morris. A morte da jovem - chamada Maureen O'Flaherty - é divulgada como tendo sido causada por overdose, e o escândalo acaba por desfazer a dupla.


Quinze anos mais tarde, Collins (Colin Firth antes da consagração por "O discurso do rei"), se vendo em dificuldades financeiras, aceita a proposta de escrever sua biografia. Para isso, a editora manda até ele a jovem Karen O'Connor (Alison Lohman), uma jornalista ambiciosa e determinada que tem seus próprios motivos para aceitar a missão, já que, fascinada pelos atores desde criança, ela pretende descobrir a verdade sobre a morte de Maureen e assim revelar aos leitores (e à mãe da vítima) o que aconteceu entre as quatro paredes do hotel naquela noite de 1957. Seu caminho rumo à solução do caso esbarra, porém, em um acidente do destino: em uma viagem de avião antes de encontrar-se com Collins, ela conhece Morris (Kevin Bacon, extremamente à vontade em um papel difícil e diferente em sua carreira) e acaba se deixando seduzir por ele, mentindo a respeito de sua identidade. Quando é desmascarada, porém, ela se vê diante de uma intriga de proporções maiores do que imaginava e descortina uma série de versões contraditórias sobre os fatos que somente os próprios envolvidos poderão esclarecer.

A narrativa construída em cima de idas e vindas, que poderia ser um dos maiores trunfos de "Verdade nua", acaba por prejudicando seu resultado final. Um tanto confuso em alguns momentos, o roteiro do próprio diretor demora a estabelecer as reais motivações de seus personagens, impedindo a plateia de se deixar envolver desde o início pela trama policial ao estilo Agatha Christie que, no final das contas, acaba sendo mais interessante do que as fofocas de bastidores - apesar dos esforços de Egoyam em extrapolar os limites do cinema comercial convencional, com cenas de sexo relativamente ousadas que incluem orgias, lesbianismo e uso de drogas. Seu pecado maior - enfatizar tais sequências em detrimento da história que pretende contar - acaba sendo ainda mais patente quando, nos minutos finais, a identidade do verdadeiro assassino acaba por ser revelada, em uma cena anti-climática e morna que contrasta com a atmosfera densa que vinha sendo mantida pela direção elegante do cineasta. Ainda assim, a coerência interna da solução do caso é louvável, assim como a atuação de Bacon, que se sobressai à quase apatia de Alisson Lohman e à eterna frieza de Firth.

Quem procura em "Verdade nua" um retrato dos podres de Hollywood não irá se decepcionar. Quem gosta de um filme com uma trama razoavelmente inteligente também. Mas quem espera encontrar um Atom Egoyan de primeira qualidade é melhor rever "O doce amanhã", que é mais consistente e menos ambicioso comercialmente.

domingo

O LENHADOR

O LENHADOR (The woodsman, 2004, Lee Daniels Productions/Dash Films, 87min) Direção: Nicole Kassel. Roteiro: Nicole Kassel, Steven Fechter, peça teatral de Steven Fechter. Fotografia: Xavier Pérez Grobet. Montagem: Lisa Fruchtman, Brian A. Kates. Música: Nathan Larson. Figurino: Frank Fleming. Direção de arte/cenários: Stephen Beatrice/Christine Wick. Produção executiva: Kevin Bacon, Damon Dash, Brook, Dawn Lenfest. Produção: Lee Daniels. Elenco: Kevin Bacon, Kyra Sedgwick, Benjamin Bratt, Michael Shannon, Mos Def, Eve. Estreia: 19/01/04 (Festival de Sundance)

Primeiro há que se louvar a coragem de um filme de ter como protagonista um pedófilo sem retratá-lo como um vilão desalmado e cruel e sim como uma pessoa dotada de sentimentos ao mesmo tempo em que luta contra sua natureza monstruosa. Depois, deve-se aplaudir a delicadeza que Kevin Bacon, um ator ainda não devidamente valorizado pela indústria hollywoodiana, empresta a esse mesmo protagonista, jamais carregando nas tintas melodramáticas de um personagem cercado de armadilhas e convites ao overacting. Só então pode-se degustar "O lenhador" como o filme que ele realmente é: um drama denso e intrigante que, ao invés de mergulhar o espectador em um espetáculo de violência e tensão, o convida a testemunhar silenciosamente o pesadelo de um homem assombrado por seus fantasmas pessoais enquanto tenta retornar ao convívio da sociedade - e livrá-la de outra ameaça similar a ele.

Baseado em uma peça teatral de Steven Fechter - também um dos autores da adaptação para as telas - "O lenhador" tem entre seus produtores o futuro cineasta Lee Daniels, o que fica claro em sua abordagem seca e direta do tema, sem espaços para pieguice ou lágrimas desnecessárias. Assim como Daniels faria em seu maior sucesso, "Preciosa" (09), a diretora Nicole Kassel prefere uma abordagem menos sensacionalista de sua trama, buscando não a compaixão da plateia, e sim sua percepção em relação à vasta gama de sentimentos e circunstâncias que cercam o protagonista, Walter, que, depois de 12 anos de prisão, tem sua liberdade retomada junto com a carga de ter sido condenado por abuso sexual infantil. Vigiado de perto pelo rígido Sargento Lucas (Mos Def), Walter se vê morando diante de uma escola de ensino fundamental - o que testa diariamente sua decisão em manter-se na linha - e arruma emprego em uma madeireira, onde seu silêncio acaba por despertar a curiosidade dos colegas, em especial da pouco simpática Mary-Kay (Eve), que não demora em descobrir seu segredo e espalhar pelo local. Antes que isso aconteça, no entanto, ele inicia um hesitante romance com uma colega, Vicki (Kyra Sedgwick, esposa de Bacon na vida real) e passa desconfiar das intenções de um misterioso motorista que diariamente estaciona seu carro diante da escola em frente a seu apartamento.


Utilizando-se da história da Chapeuzinho Vermelho como metáfora para uma de suas subtramas - que envolve uma menina com quem Walter inicia uma temerária relação - e empurrando seu roteiro para longe do previsível, o filme de Kassel explora, em pouco menos de uma hora e meia, uma série de questionamentos relevantes e instigantes. Ao inserir Walter - com toda a sua bagagem de culpa - em uma série de ambientes que testam sua força de vontade de ir contra seus instintos mais básicos, a trama analisa o preconceito, o conceito de culpa e crime, questiona as possibilidades de redenção de um homem eternamente marcado por seus delitos e, mais estimulante ainda, o contrapõe a um outro possível criminoso, o que pode torná-lo um heroi, a despeito de seu passado. Sua história de amor com Vicki, também dona de um background depressivo e seus próprios demônios, não é daquelas sentimentais que Hollywood costuma apresentar, o que também é um ponto positivo em sua tentativa de fugir de qualquer tipo de excessos dramáticos, e até mesmo sua relação lacônica com o policial que o vigia apresenta matizes inteligentes e verossímeis. Não bastasse, a cena em que Walter consegue com que sua nova amiguinha desabafe em relação à sua vida familiar é de partir o coração - sem que, para isso, seja necessário mais do que um bom texto, bons atores e uma direção sensível.

Quem procura um filme de suspense que explore com sadismo as entranhas da mente de um pedófilo deve passar ao largo de "O lenhador". Apesar de ter como protagonista um homem condenado por tal crime e nunca deixar que o público se esqueça disso, o filme de Nicole Kassel vai muito mais além do simplismo de seu tema central, alcançando notas superiores e oferecendo bem mais do que a ilustração de um desvio sexual. É um belo trabalho, delicado e inteligente que se escora na interpretação econômica e sensacional de Kevin Bacon, brilhante em um de seus trabalhos mais corajosos e viscerais.

segunda-feira

O HOMEM SEM SOMBRA

O HOMEM SEM SOMBRA (Hollow man, 2000, Columbia Pictures, 112min ) Direção: Paul Verhoeven. Roteiro: Andrew W. Marlowe, estória de Gary Scott Thompson, Andrew W. Marlowe. Fotografia: Jost Vacano. Montagem: Mark Goldblatt. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Allan Cameron/John M. Dwyer. Produção executiva: Marion Rosenberg. Produção: Alan Marshall, Douglas Wick. Elenco: Kevin Bacon, Elisabeth Shue, Josh Brolin, Kim Dickens, Greg Gunberg, Joey Slotnick, Mary Randle, William Devane. Estreia: 02/8/00

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais

A fascinação do homem - e do cinema - por histórias de cientistas malucos e as consequências desastrosas de suas ambições encontrou na revolução dos efeitos visuais criados a partir de computação gráfica uma aliada das mais generosas. Graças a tais efeitos milagrosos, histórias já contadas diversas vezes ganharam um molho especial, oferecendo a cineastas a chance de chocar a plateia com uma profusão de sangue, explosões e vísceras antes apenas imaginada. Quem muito se beneficiou com tal elevação no nível dos efeitos especiais foi o cineasta holandês Paul Verhoeven, tornado um diretor respeitado em Hollywood graças a "Robocop" (87) e "O vingador do futuro" (90), tramas de ficção científica largamente amparadas na tecnologia - não por acaso, ambos os filmes mereceram refilmagens recentes, onde puderam explorar ainda mais sua tendência à modernidade computadorizada. Saindo de dois fracassos monumentais - o patético e massacrado "Showgirls" e
"Tropas estelares", uma divertida brincadeira com os clichês do gênero que custou uma fortuna e não rendeu quase nada no mercado americano- o diretor se provou a escolha mais acertada para conduzir uma versão aditivada da velha história do cientista que se torna invisível para provar suas teorias: "O homem sem sombra", produzido pela Columbia Pictures a um custo estimado de 95 milhões de dólares, chegou aos cinemas americanos repleto de sangue, violência e sexo - ingredientes essenciais à sua filmografia anterior.


Apesar da trama não acrescentar muito mais à velha história do homem invisível - além dos elementos já citados - "O homem sem sombra" é um entretenimento de primeira qualidade, utilizando a seu favor todas as vantagens de um orçamento milionário e das possibilidades dos efeitos digitais que, apesar dos nomes famosos no elenco, são a verdadeira estrela da festa a ponto de terem sido indicados ao Oscar da categoria (perderam para "Gladiador", uma vitória injusta mas compreensível haja visto o sucesso de bilheteria do filme de Ridley Scott). Sutis em determinados momentos e explicitamente brilhantes em outros, os efeitos são o ápice do filme, dando base a um roteiro que não tem medo de mostrar frequentemente sua alma trash e adolescente. Pouco dado a sutilezas visuais, Verhoeven deita e rola, mostrando sem pudor algum transformações físicas assustadoras e dando a Kevin Bacon a chance de criar um dos vilões mais sensacionais do gênero, o brilhante e desequilibrado Sebastian Caine.


Lìder de um grupo de cientistas que, com o apoio do Pentágono, tenta descobrir a fórmula da invisibilidade, Caine resolve testar em si mesmo o passo final da experiência: um líquido que reverte o processo. As coisas não saem exatamente como o esperado e ele acaba permanecendo invisível por mais tempo do que deveria. Enquanto fica escondido no laboratório, à espera de uma solução para seu problema, ele acaba descobrindo as vantagens de sua situação, o que inclui abusar de sua colega Sarah (Kim Dickens) e estuprar uma vizinha por quem sente atração há tempos. Conforme o tempo vai passando e as coisas continuam na mesma, Caine passa a demonstrar um desequilíbrio cada vez maior, que explode de vez quando ele descobre que sua ex-namorada, Linda McKay (Elisabeth Shue, primeiro nome dos créditos, consequência de sua indicação ao Oscar por "Despedida em Las Vegas") está apaixonada por outro cientista do grupo, Matthew Kesington (Josh Brolin): violento e imprevisível, ele passa a perseguir os amantes.

Mesmo que apele para uma sucessão de clichês em seu terço final - quando Caine se transforma em uma espécie de Jason, assassino e incapturável - "O homem sem sombra" é uma das melhores ficções científicas dos anos 90, com sua mistura exata entre uma boa história, paranoia, bons atores e efeitos visuais de primeira linha. Construído com precisão cirúrgica com o objetivo de ganhar o espectador com violência e ação, o filme não chegou a ser um enorme êxito comercial, mas oferece à plateia muito mais do que a média do gênero. Verhoeven sabe o que faz.

quarta-feira

O RIO SELVAGEM

O RIO SELVAGEM (The river wild, 1994, Universal Pictures, 108min ) Direção: Curtis Hanson. Roteiro: Denis O'Neill. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: David Brenner, Joe Hutsching. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Bill Kenney/Rick T. Gentz. Produção executiva: Ray Hartwick, Ilona Herzberg. Produção: David Foster, Lawrence Turman. Elenco: Meryl Streep, Kevin Bacon, David Straithairn, John C. Reilly, Joseph Mazzello, Benjamin Bratt. Estreia: 30/9/94

Em 1994 Meryl Streep já tinha dois Oscar em casa, já era considerada a melhor atriz de sua geração e servia de modelo para toda e qualquer jovem intérprete que surgia no cinema americano. Mas, em sua vitoriosa carreira, repleta de dramas dilacerantes e até comédias de humor negro, faltava um gênero que poucos conseguiam relacionar a ela: o filme de ação. Talvez para riscar esse item da lista, talvez porque quisesse divertir-se um pouco ou talvez porque realmente tenha gostado do roteiro, o fato é que "O rio selvagem" tornou-se conhecido como o filme em que a grande dama do cinema americano deixou as lágrimas de lado e partiu para a ignorância. O resultado não foi dos melhores: a crítica praticamente ignorou e o público não se demonstrou mais entusiasmado com a ideia de vê-la distante dos papéis que lhe deram fama e prestígio.

A culpa, no entanto, não é nem do público, nem da crítica e tampouco de Meryl, que está boa como sempre, exercitando seu conhecido perfeccionismo ao realizar quase todas as cenas perigosas solicitadas. O problema de "O rio selvagem" é sua demora em engrenar, seu ritmo claudicante. O roteiro de Denis O'Neil leva mais de uma hora para expor a situação central - e que irá deflagrar a ação - e depois parece não se esforçar em surpreender ou cativar o espectador, recheando sua história com clichês. Não seria problema se a intenção do filme fosse analisar a crise de um casamento ampliada por uma situação extrema ou simplesmente levar o público a uma montanha-russa ao estilo "Risco total", protagonizado por Sylvester Stallone em 1992. Acontece que a primeira opção não é verdadeira e não parece que a segunda também o seja: o drama familiar da personagem de Streep é quase oco (um desperdício de atores, já que seu marido é vivido pelo ótimo David Straithairn) e a adrenalina que poderia equilibrar a balança a favor do filme é rala, apesar de contar com cenas de grande competência técnica e de contar com um vilão convincente interpretado pelo sempre assustador Kevin Bacon.


Bacon e Streep, aliás, foram indicados ao Golden Globe por seus desempenhos - uma prova a mais do prestígio da atriz junto à critica, já que, além de mostrar-se capaz de atuar até mesmo em produções com nítidas intenções comerciais puras e simples, ela não chega a estar brilhante como normalmente está. No filme, ela interpreta Gail Hartman, uma dona-de-casa que abandonou a profissão de guia turística especializada nas correntezas do Rio Colorado para viver ao lado da família. Saudosa da antiga rotina, ela volta e meia retorna a águas perigosas, que conhece como ninguém. Para comemorar o aniversário do filho mais velho, Roarke (Joseph Mazzello, o menino do filme "Jurassic Park, parque dos dinossauros", de 1993), ela resolve acampar com ele e o marido, Tom (David Straithairn), com quem está em crise. A aventura torna-se extremamente perigosa, porém, quando eles esbarram em Wade (Kevin Bacon), um simpático turista que se revela, logo depois, o líder de um grupo de bandidos que precisa de ajuda para atravessar a fronteira do Canadá. Para isso, ele conta com o conhecimento de Gail.

"O rio selvagem" está longe de ser um filme ruim: tem muita gente boa envolvida para chegar a isso. Mas é apenas mais um filme de ação comum, sem maiores qualidades que o destaquem dos demais (a não ser, claro, a presença nada óbvia de Meryl Streep em seu elenco). Seu diretor, Curtis Hanson, faz um trabalho correto, assim com o fez em "A mão que balança o berço" (93), seu filme anterior, mas nada que fizesse antever o milagre realizado em 1997, quando lançou o sublime "Los Angeles, cidade proibida", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar. Aqui, amarrado a um roteiro sem maiores novidades ou possibilidades, ele está burocrático e apático, assinando uma produção que pode até divertir, mas não deixa marcas no espectador.

sábado

AMOR À TODA PROVA

AMOR À TODA PROVA (Crazy, stupid, love., 2011, Carousel Productions, 118min) Direção: Glenn Ficarra, John Requa. Roteiro: Dan Fogelman. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Lex Haxall. Música: Christophe Beck, Nick Urata. Figurino: Dayna Pink. Direção de arte/cenários: William Arnold/David Smith. Produção executiva: Vance DeGeneres, Charlie Hartsock, David A. Siegel. Produção: Steve Carrell, Denise Di Novi. Elenco: Steve Carrell, Ryan Gosling, Julianne Moore, Emma Stone, Marisa Tomei, Kevin Bacon, Analeigh Tipton, Jonah Bobo, John Carrol Lynch. Estreia: 29/7/11

Depois de vários filmes densos e exaustivos psicologicamente – dentre os quais o suspense “A passagem” (05) e o drama romântico “Diário de uma paixão” (04) – o ator Ryan Gosling queixou-se a seu psicanalista de um quase esgotamento. A receita do médico foi a mais heterodoxa possível: entrar com urgência no elenco de uma comédia. Foi assim que um dos melhores atores de sua geração chegou até “Amor a toda prova”, um delicioso misto de comédia, drama e romance conduzido pela dupla Glenn Ficarra e John Requa. Diretores do subestimado “O golpista do ano” – estrelado por Jim Carrey e Ewan McGregor e prejudicado por uma estratégia de lançamento equivocada e expectativas errôneas por parte do público – Ficarra e Requa se baseiam no roteiro bem-amarrado de Dan Fogelman para construir uma ciranda de amores complicados e mal-entendidos fotografada com sofisticação e dotada de um senso de humor irônico e inteligente que raramente frequenta as produções do gênero. Também, é claro, não atrapalha em nada o fato de o elenco contar também com os fabulosos Julianne Moore, Marisa Tomei, Emma Stone e Steve Carrell – um dos produtores executivos do filme e seu protagonista.

Carrell, equilibrando genialmente o humor físico que lhe é característico com uma dose certeira de melancolia que lhe cai com perfeição, interpreta Cal Weaver, um quarentão que logo na primeira cena do filme é surpreendido pelo pedido de divórcio feito pela mulher, Emily (Julianne Moore) – que completa o quadro dramático assumindo que dormiu com um colega de trabalho. Prostrado em uma depressão que o faz chorar pelos cantos do escritório onde trabalha – “Graças a Deus é só um divórcio, poderia ser câncer!”, brada um colega, à guisa de consolo – Cal acaba indo parar em um luxuoso bar para solteiros (visualmente deslumbrante, como um paralelo óbvio à miséria interior do personagem), onde sua figura triste (calças folgadas, tênis, um corte de cabelo ultrapassado) acaba por chamar a atenção de Jacob Palmer (Ryan Gosling), um inveterado e conhecido don juan que, comovido por sua trágica situação, resolve bancar um moderno pigmalião e moldá-lo em um novo e mais autossuficiente modelo masculino. Em pouco tempo – e à custa de muitos dólares e muita humilhação – Cal vira outra pessoa, colecionando amantes ocasionais, para surpresa de sua ex-mulher – ainda hesitante em assumir um relacionamento com o pivô de sua separação, o confiante David Lindhagen (Kevin Bacon) – e da adolescente Jessica, filha de seu melhor amigo (John Carroll Lynch) e que nutre por ele um amor platônico mesmo sabendo que é o nada obscuro objeto de desejo de, filho de Cal e Emily.



Essa quadrilha de amores incompreendidos e/ou secretos se completa com o próprio Jacob, um rapaz bonito, sedutor e rico que, por trás de uma aparente autoconfiança esconde um romantismo enrustido que vem à tona quando conhece a jovem Hannah (Emma Stone), estudante de Direito que rejeita suas frequentes investidas como forma de manter-se fiel ao namorado desatento – até que, na mesma noite chuvosa em que Cal e Emily chegam a um impasse aparentemente insolúvel em sua relação, os dois finalmente se aproximam e deixam desabrochar uma história de amor cujo desfecho, como nas boas comédias de costumes dos anos 40 e 50, se dará em um clímax onde todas as tramas paralelas irão se encontrar de forma a provocar boas risadas – e surpreender o espectador com uma inesperada revelação.

Com um ritmo admirável que disfarça o fato de ser mais longo do que a maioria dos filmes de seu gênero, “Amor a toda prova” é uma comédia romântica muito bem-sucedida. Funciona em todos os níveis: convence como drama, faz rir em vários momentos, dosa com precisão o romantismo e amarra todas as pontas de seu roteiro com inteligência e clareza. Chega perto do sentimentalismo em suas sequências finais, mas o faz com tanta sinceridade que é difícil não se deixar envolver. E além de tudo, faz desfilar diante do público um elenco escalado a dedo. Steve Carrell brilha mais uma vez, apresentando uma química mais do que perfeita com todos os seus colegas de cena – seja com Ryan Gosling, mostrando um timing cômico inesperado, com Julianne Moore ou com Marisa Tomei (dona de uma cena antológica, onde reencontra o amante em uma situação pouco apropriada e não hesita em deixar bem clara a sua opinião sobre o pouco caso dele). Gosling e Emma Stone também soltam faíscas em cena – a longa sequência em que seus personagens passam a noite conversando é fascinante graças ao carisma de ambos, que não por acaso, repetiram a dupla romântica no menos leve “Caça aos gângsters”, de 2011.

Extremamente agradável e plenamente satisfatório, “Amor a toda prova” é um passo à frente na carreira de seus diretores, que demonstram um controle maior sobre o ritmo e a cadência de seu filme anterior e um notável talento em aproveitar o melhor de cada ator de seu brilhante elenco. Para os fãs do gênero, imperdível. Para quem procura uma diversão descompromissada sem abdicar de inteligência, altamente recomendável. Para Ryan Gosling, um remédio certeiro para os males da alma – e para mais um ponto mais do que positivo em uma carreira que tem tudo para ser longa e extremamente bem-sucedida.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...