Mostrando postagens com marcador COLIN FIRTH. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador COLIN FIRTH. Mostrar todas as postagens

quarta-feira

MAMMA MIA! LÁ VAMOS NÓS DE NOVO


MAMMA MIA! LÁ VAMOS NÓS DE NOVO (Mamma Mia: Here we go again, 2018, Universal Pictures, 114min) Direção: Ol Parker. Roteiro: Ol Parker, estória de Richard Curtis, Ol Parker, Catherine Johnson, personagens de Catherine Johnson. Fotografia: Robert D. Yeoman. Montagem: Peter Lambert. Música: Benny Andersson, Anne Dudley, Bjorn Ulvaeus. Figurino: Michele Clapton. Direção de arte/cenários: Alan MacDonald/Anita Dujic. Produção executiva: Benny Andersson, Nicky Kentish Barnes, Richard Curtis, Tom Hanks, Phyllida Lloyd, Bjorn Ulvaeus, Rita Wilson. Produção: Claudia Balboa, Judy Craymer, Raphael Benoliel, Gary Goetzman, Anna Sofia Morck. Elenco: Amanda Seyfried, Pierce Brosnan, Lilly James, Stellan Skarsgaard, Colin Firth, Dominic Cooper, Meryl Streep, Julie Walters, Christine Baranski, Andy Garcia, Cher, Jeremy Irvine, Alexa Davies, Jessica Keenan Wynn, Hugh Skinner, Josh Dylan, Celia Imrie. Estreia: 20/7/2018

Quando surgiu a ideia - aparentemente estapafúrdia - de uma continuação do musical "Mamma Mia!",  pouca gente levava fé no projeto. Não apenas porque todo mundo sabia que seria quase impossível repetir o impressionante êxito do primeiro filme - que arrecadou assombrosos 700 milhões de dólares em sua carreira nos cinemas -, mas porque havia a dificuldade extra de encontrar-se um roteiro coerente com o desfecho do original e, mais ainda, de encaixar nele canções do ABBA não utilizadas no primeiro capítulo. Porém, nenhum desafio é grande o bastante para um estúdio em busca de um sucesso de bilheteria, e poucos repertórios são tão fortes quanto o do grupo sueco - em que até mesmo as músicas menos conhecidas são capazes de empolgar. Com isso, "Mamma Mia: lá vamos nós de novo" não chegou a surpreender quando, dez anos depois da estreia do primeiro filme, encerrou sua carreira nas salas de exibição com uma respeitável renda de 365 milhões - nada mal para uma produção sem efeitos visuais dispendiosos, super-heróis devidamente testados e aprovados e uma campanha de marketing maciça. Mesmo com a ousadia de abdicar da presença marcante de Meryl Streep - aqui apenas em uma rápida participação especial -, o filme do britânico Ol Parker é divertido o bastante para não fazer feio diante da memória afetiva das plateias. 

De certa forma aprisionados pelo final redondinho do primeiro filme - cujo desfecho não abria espaço para novos desdobramentos -, os roteiristas de "Mamma Mia: lá vamos nós de novo" (dentre os quais está o experiente Richard Curtis) encontraram uma solução interessante ao intercalar presente e passado: Sophie (Amanda Seyfried) está passando por dias conturbados, já que a reinauguração do hotel de sua mãe, Donna (Meryl Streep), morta há um ano, está ameaçado por questões naturais (uma tempestade que pode atrapalhar as festividades) e por situações mais prosaicas, como uma possível crise em seu relacionamento com Sky (Dominic Cooper) e a ausência de dois de seus pais afetivos, envolvidos em projetos profissionais. Enquanto lida com tais atribulações, nunca deixa de lembrar da encorajadora história de Donna, que em 1979 (e vivida por Lilly James), saiu de sua zona de conforto para realizar seu sonho de viajar pelo mundo - e de quebra, viveu uma surpreendente história de amor/desejo/paixão/liberdade com o romântico Harry (Hugh Skinner), o sexy Bill (Josh Dylan) e o misterioso Sam (Jeremy Irvine). Contando com a ajuda de Rosie (Julie Walters) e Tanya (Christine Baranski) - fiéis escudeiras de sua mãe - e com o apoio do novo gerente do hotel, o charmoso Fernando Cienfuegos (Andy Garcia), Sophie descobre que o legado de Donna é maior do que simplesmente a bela propriedade na Grécia... e até mesmo sua excêntrica avó reaparece, para sua surpresa.

 

Com uma direção mais ágil e segura do que a do primeiro filme - e apresentando coreografias mais elaboradas que tornam as canções ainda mais energéticas - "Mamma Mia: lá vamos nós de novo" faz uso inteligente de flashbacks, que disfarçam o fiapo de história e a falta de conflitos relevantes. Cientes de que o mais importante do projeto eram as músicas e as personagens amadas pelo público, os roteiristas se dedicaram a criar uma nova trama de acordo com a trilha sonora - e acertaram em cheio ao dar prioridade à juventude de Donna em detrimento aos pouco interessantes problemas sentimentais e profissionais de Sophie: mesmo que Amanda Seyfried seja talentosa o suficiente para sustentar uma produção (como já fez em outras ocasiões), sua personagem quase desaparece diante da energia de Lilly James - mesmo que elas não dividam nenhuma cena, por razões óbvias. Centro do filme, James tira de letra o desafio de dividir um papel com Meryl Streep - e sua química com o elenco jovem aponta o talento do diretor Ol Parker, em sua primeira grande produção, depois dos pouco ambiciosos "Imagine eu e você" (2005) e "Agora e para sempre" (2012): sem o objetivo de aprofundar um estilo ou aparecer mais do que a história que deseja contar, Parker oferece ao público duas horas de diversão escapista, leve e alto-astral, que em nada mancha o legado do filme original - cujos maiores atrativos eram, a rigor, a trilha sonora e a presença ensolarada e rara (em um musical) de Streep. Se há algo a reclamar é apenas o pouco tempo em cena dos veteranos do "Mamma Mia!" original - em especial as excelentes Julie Walters e Christine Baranski. Mas, em compensação, há a surpresa da presença da sempre luminosa Cher, aqui no papel da apoteótica (como não poderia deixar de ser) Ruby, a bissexta avó de Sophie.

"Mamma Mia: lá vamos nós de novo" cumpre o que promete. É divertido, é despretensioso e é, acima de tudo, uma ode à alegria, ao amor e à amizade. Não tem o frescor do primeiro filme - e nem o carisma de Meryl Streeep a não ser em poucos minutos, no final -, mas não deixa a peteca cair em termos de energia e honestidade. Para o seu público-alvo é uma festa: dançante, contagiante e sem contra-indicações. Não é uma obra-prima e nem mudou a história do cinema, mas é um filme conforto dos mais agradáveis - exceto para quem busca produções cabeça ou repletas de testosterona pura e simples.

 

domingo

TERRAS PERDIDAS

TERRAS PERDIDAS (A thousand acres, 1997, Touchstone Pictures, 104min) Direção: Jocelyn Moorhouse. Roteiro: Laura Jones, romance de Jane Smiley. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Maryann Brandon. Música: Richard Hartley. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Dan Davis/Andrea Fenton. Produção executiva: Armyan Bernstein, Thomas A. Bliss. Produção: Marc Abraham, Lynn Arost, Steve Golin, Kate Guinzburg, Sigurjon Sighvatsson. Elenco: Jessica Lange, Michelle Pfeiffer, Jennifer Jason Leigh, Jason Robards, Colin Firth, Keith Carradine, Kevin Anderson, Pat Hingle, John Carroll Lynch, Michelle Williams, Elizabeth Moss, Beth Grant, Bob Gunton. Estreia: 19/9/97

Um rei idoso e poderoso, sentido a morte se aproximar, resolve dividir seu reino entre as três filhas, deflagrando assim um confronto épico de decepções e traições. Escrita por William Shakespeare por volta de 1605, a peça "Rei Lear" serviu de inspiração, desde então, para inúmeros autores dispostos a examinar as raízes da ambição e dos conflitos familiares advindos dela. Um dos livros inspirados na tragédia shakespeareana foi "A thousand acres", escrito por Jane Smiley e vencedor do prestigiado Pulitzer de literatura. Com os direitos vendidos para Hollywood, era apenas questão de tempo para que sua trama chegasse às telas e conquistasse o público - afinal, não tinha como dar errado. Mas deu. Com uma produção problemática que se estendeu por cinco anos, constantes reedições, a rejeição do produto final por sua diretora e um fracasso de crítica e bilheteria, "Terras perdidas" tornou-se mais um na vasta lista de filmes que poderiam ter sido um grande sucesso mas que não passaram de promessa. Uma pena, já que seus ingredientes são excepcionais.

A diretora de "Terras perdidas" é a australiana Jocelyn Moorhouse, cujo filme anterior, "Colcha de retalhos" (95), também tinha uma apurada visão feminina da vida. Suas estrelas, Michelle Pfeiffer e Jessica Lange, são ótimas atrizes, populares e velhas conhecidas da Academia. O elenco coadjuvante conta com Jason Robards, Jennifer Jason Leigh e um então iniciante Colin Firth - sem contar as adolescentes Michelle Williams e Elizabeth Moss, que mal aparecem em cena, como as filhas de Pfeiffer. A trama - como já dito, inspirada em Shakespeare - inclui na receita traumas do passado, doenças incuráveis e um leve viés feminista, mas o roteiro, escrito por Laura Jones, mal consegue alinhavar todos os conflitos propostos pela história original: não fosse a força das atuações de Lange e Pfeiffer - tirando leite de pedra -, o filme de Moorhouse seria um desastre completo (e isso que a própria cineasta pediu para seu nome ser retirado dos créditos depois de assistir à sua primeira versão).


Transferindo a ação de Lear para o interior do Iowa, com suas belas fazendas e cenários de tirar o fôlego, "Terras perdidas" começa justamente quando o fazendeiro Larry Cook (Jason Robards em papel recusado por Paul Newman), viúvo há muitos anos, resolve, como o protagonista shakespereano, dividir as terras de sua fazenda entre suas três filhas. A mais velha, Ginny (Jessica Lange), é quem cuida da rotina do pai, e divide seu tempo entre ele e o marido, Ty (Keith Carradine). A filha do meio, Rose (Michelle Pfeiffer), se recupera de um câncer no seio e leva uma vida doméstica aparentemente tranquila com Peter (Kevin Anderson) e as duas filhas adolescentes. A caçula, Caroline (Jennifer Jason Leigh) é a única que não compartilha do dia-a-dia agrícola da família: estudando para ser advogada e morando longe, é ela quem questiona a decisão do pai - e é ela também que desencadeia o processo de conflito familiar, ao recusar a proposta paterna. A briga entre os dois passa a ser o pano de fundo para uma sucessão de dramas que afloram no seio dos Cook, o que inclui a chegada de um antigo conhecido, Jess Taylor (Colin Firth), que desequilibra a união entre Ginny e Rose.

Michelle Pfeiffer - que lutou para levar o livro de Smiley às telas - está fascinante como Rose, uma mulher amargurada por traumas do passado e que tenta, através da compensação financeira, recompor uma vida de sofrimento. Jessica Lange tem mais trabalho como Ginny, que se transforma de uma mulher frustrada pela falta de filhos no para-raios de uma família altamente disfuncional - e que encontra forças para viver a própria vida justamente quando já se encontrava acomodada em um casamento morno. São as duas que movimentam a trama do filme - a ótima Jennifer Jason Leigh é subaproveitada como Caroline, e Jason Robards, apesar de sempre excelente como déspota, sofre com um personagem maniqueísta, sem nuances ou qualidades redentoras. O resultado é uma obra morna, que desperdiça uma história forte e bons atores em uma trama de telenovela, rasa e desprovida de maior emoção. Para os fãs das atrizes é um show à parte, mas como cinema é, infelizmente, bem medíocre.

sexta-feira

KINGSMAN: SERVIÇO SECRETO

KINGSMAN: SERVIÇO SECRETO (Kingsman: The Secret Service, 2014, 20th Century Fox, 129min) Direção: Matthew Vaughn. Roteiro: Jane Goldman, Matthw Vaughn, comic book de Mark Millar, Dave Gibbons. Fotografia: George Richmond. Montagem: Eddie Hamilton, Jon Harris. Música: Henry Jackman, Matthew Margeson. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Paul Kirby/David Morison, Jennifer Williams. Produção executiva: Dave Gibbons, Pierre Lagrange, Stephen Marks, Mark Millar, Claudia Vaughn. Produção: Adam Bohling, David Reid, Matthew Vaughn. Elenco: Colin Firth, Taron Egerton, Samuel L. Jackson, Mark Strong, Michael Caine, Mark Hamill, Jack Davenport. Estreia: 13/12/14 

Em uma determinada cena de "Kingsman: Serviço Secreto", o agente Harry Hart (Colin Firth), em um diálogo com o vilão, Valentine (Samuel L. Jackson), lhe responde à pergunta sobre gostar de filmes de espionagem: "Hoje em dia eles estão um pouco sérios demais para o meu gosto. Mas os antigos... eram maravilhosos!" E completa: "Eu sempre senti que os filmes antigos de James Bond eram tão bons quanto seus vilões. Enquanto criança eu sempre preferi me ver, no futuro, como um grande megalomaníaco!". Esse tom de homenagem/reverência/ironia do filme, mais do que simplesmente parte do estilo do diretor (inglês, é claro) Matthew Vaughn, é fator fundamental para que o filme, baseado em um comic book lançado em 2012 (dois anos antes da estreia do filme, o que não deixa de ser um feito e tanto em uma indústria que às vezes leva décadas desenvolvendo seus projetos) tenha sido tão bem-sucedido, tanto em termos de crítica quanto de bilheteria. Com uma renda de mais de 400 milhões de dólares arrecadados pelo mundo, a comédia de ação de Vaughn - produtor dos primeiros filmes de Guy Ritchie e diretor do igualmente divertido "Kick-ass: quebrando tudo" (2010) - é tudo que um filme do gênero precisa ser: engraçado, movimentado, absurdo e muito, muito bem dirigido.

Indo ainda mais longe em sua criatividade em criar sequências de ação alucinantes que jamais perdem o bom-humor, Vaughn não decepciona em "Kingsman": da primeira cena (com a participação especial de Mark Hamill, o Luke Skywalker em pessoa) até o final explosivo - passando por no mínimo duas cenas geniais, em um pub e em uma igreja lotada - o cineasta parece não ter medo de coisas mundanas, como classificação etária ou a gravidade. Em uma época em que poucas coisas realmente chamam a atenção pela novidade, ele alcança um nível de frescor admirável, principalmente por inserir em suas lutas um ator respeitado por seus dotes dramáticos e vencedor de um Oscar, o britânico Colin Firth. Perceptivelmente se divertindo como nunca na carreira, Firth protagoniza momentos de puro nonsense sem nunca perder a classe, se reinventando e mostrando ser capaz de pular de papéis sérios para deliciosas bobagens sem deixar de lado sua tradicional fleuma. Com uma química impecável com o jovem Taron Egerton, ele surge como o mais improvável herói de filmes de ação - e tira de letra o desafio.


Criado como forma de homenagear as histórias de espionagem que encantavam Vaughn e Mark Millar - um dos autores do comic book que deu origem ao filme - e surgido durante as filmagens de "Kick-ass", o enredo de "Kingsman" explora todos os clichês do gênero, sempre lhe oferecendo altas doses extras de sarcasmo e modernidade. É assim que, sem desrespeitar os cânones já consagrados, conquista também uma audiência mais acostumada a efeitos visuais do que sutilezas - e, ignorando as diferenças de faixa etária, agrada tanto ao público mais adulto quanto àqueles que buscam apenas um entretenimento descompromissado para passar o tempo. Boa parte desse sucesso vem da escalação mais do que certeira do jovem Taron Egerton, que ganhou o papel depois da recusa de Aaron Taylor-Johnson e de ter concorrido com cerca de sessenta atores - incluindo o promissor Jack O'Connell. Carismático, talentoso e dotado de um senso de humor que é imprescindível ao projeto como um todo, Egerton - que depois voltaria a roubar a cena em "Voando alto", ao lado de Hugh Jackman - tem uma química impecável com Colin Firth e não parece incomodado de atuar com gente como Michael Caine e Samuel L. Jackson. Jackson, por sua vez, igualmente parece extremamente à vontade como o grande vilão do filme, Richmond Valentine - que foi oferecido a Tom Cruise, Leonardo DiCaprio e Idris Elba antes de cair em seu colo.

Seguindo a coerência de sua ideia em criar um vilão tão megalomaníaco que beira a caricatura, o roteiro de "Kingsman" apresenta Valentine como um gênio da tecnologia, cujos planos de salvar a Terra do aquecimento global envolve sacrificar parte da população e contar com líderes de todo o mundo. É ele a quem uma organização secreta inglesa chamada Kingsman precisa deter antes que seja tarde demais - e quem lidera a missão é Harry Hart, mais conhecido como Galahad (Colin Firth), que recruta para fazer do grupo o jovem delinquente Gary Enwim, ou simplesmente "Egsy" (Taron Egerton). Filho de um agente morto em ação há alguns anos, Egsy aceita concorrer a uma vaga no disputado time - e o treinamento árduo o revela como um talentoso e audacioso cavalheiro, que irá lutar em pé de igualdade contra o mal representado por Valentine. O treinamento de Egsy, sua transformação gradual de adolescente problemático em um homem de honra, sua relação filial com Harry... tudo está presente no roteiro, de forma orgânica e surpreendentemente moderna e agradável. Mas nada se compara à maneira com que Matthew Vaughn comanda as cenas de luta em seu filme: é impossível ficar impassível diante da adrenalina impressa em cada ângulo, em cada movimento de câmera, que simplesmente joga o espectador no meio de coreografias elaboradas para criar a sensação do mais absoluto (porém organizado) caos. São cenas brilhantes, editadas com maestria e corajosamente violentas, ainda que sua violência seja embalada por um visual colorido e quase irreal - uma prova da excelência do conjunto de fotografia, edição e trilha sonora. Uma conquista em todos os aspectos, "Kingsman: Serviço Secreto" é uma pequena obra-prima do gênero, um filme que, assim como "Kick-ass" subverte as regras para reapresentá-las de forma atraente e irresistível. Vaugh, que desistiu de assinar "X-Men: dias de um futuro esquecido" para comandar essa releitura dos filmes de espionagem, mais uma vez acertou em cheio. Imperdível!

sábado

O MESTRE DOS GÊNIOS

O MESTRE DOS GÊNIOS (Genius, 2016, Desert Wolf Productions/Riverstone Pictures, 104min) Direção: Michael Grandage. Roteiro: John Logan, livro de A. Scott Berg. Fotografia: Ben Davis. Montagem: Chris Dickens. Música: Adam Cork. Figurino: Jane Petrie. Direção de arte/cenários: Mark Digby/Michelle Day. Produção executiva: James J. Bagley, A. Scott Berg, Tim Bevan, Nik Bower, Tim Christian, Ivan Dunleavy, Arielle Tepper Madover, Deepak Nayar. Produção: James Bierman, Michael Grandage, John Logan. Elenco: Colin Firth, Jude Law, Nicole Kidman, Guy Pearce, Laura Linney, Dominic West, Vanessa Kirby. Estreia:16/02/16 (Festival de Berlim) 

Foi em 1983 que John Logan leu o livro "Max Perkins: editor of genius", de A. Scott Berg, que foi o vencedor National Book Award de 1978. De lá até 2016, quando finalmente viu sua adaptação ganhar as telas de cinema, Logan tornou-se um dos roteiristas mais conceituados de Hollywood, com três indicações ao Oscar no currículo ("Gladiador", "O aviador" e "A invenção de Hugo Cabret") e crédito em duas aventuras de James Bond ("007 - Operação Skyfall" e "007 contra Spectre"). Seu prestígio, no entanto, não ajudou muito a alavancar "O mestre dos gênios", que, mesmo contando com um elenco de vencedores e indicados ao Oscar e falando de alguns dos maiores escritores americanos do século XX, naufragou fragorosamente nas bilheterias e sequer foi lembrado pelas cerimônias de premiação - o mais perto que chegou disso foi concorrer ao Urso de Ouro no Festival de Berlim. Tal resultado não deixa de ser um reflexo da qualidade do filme de estreia do ator Michael Grandage como diretor: a biografia de Max Perkins, editor de nomes consagrados da literatura, como Thomas Wolfe, Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald, é apenas correta, passando bem longe de ser uma experiência memorável.

Na pele de um Colin Firth contido e sem cacoetes, Max Perkins surge como um visionário editor da celebrada Scribners, capaz de enxergar nas caudalosas páginas do novato Thomas Wolfe (Jude Law substituindo Michael Fassbender e saindo-se bastante bem) um provável sucesso de crítica. Wolfe, por sua vez, é um gênio excêntrico e dotado de todas as características típicas de pessoas como ele: quase arrogante, inteligente e capaz de escrever milhares de páginas apenas para descrever um objeto. Casado com Aline Bernstein (Nicole Kidman), uma mulher que o apoia mas se ressente de ser frequentemente deixada em segundo plano em relação à sua arte, o autor de obras elogiadas mas difíceis como "Olhe para casa, anjo" e "Do tempo e do rio" (ambos inéditos no Brasil) encontra em Law um retrato não exatamente fiel fisicamente, mas energético e fascinante a ponto de eclipsar seus colegas de cena. A relação entre ele e Perkins, um homem de família discreto e dedicado à sua profissão, é mostrada com delicadeza por Grandage - especialmente quando o filme lança luz a seus maiores desafios: cortar os excessos do romancista, tornando palatáveis suas obras escandalosamente prolixas. De certa forma, Perkins era quase um coautor dos livros de Wolfe, o que lhes alterava a relação puramente comercial em algo muito mais emocional e fraterno. Assim, o escritor frequentava a casa do editor, convivia com sua esposa, Louise (Laura Linney) e os filhos e o levava para suas farras noturnas.


Mas nem só da amizade entre Wolfe e Perkins trata o roteiro de "O mestre dos gênios". De forma ligeira e quase superficial, entram em cena, para deleite dos fãs de literatura, outros nomes de suma importância para o mundo das letras do século XX. Guy Pearce vive um decadente e sofrido F. Scott Fitzgerald, já na época em que sua esposa, Zelda (Vanessa Kirby), passava por graves crises depressivas e ele mesmo sentia-se incapaz de escrever qualquer obra que lembrasse vagamente seus melhores trabalhos. Ernest Hemingway também surge, interpretado com precisão por Dominic West, que empresta ao escritor ares de sujeito mundano, mais interessado em pescarias do que em máquinas de escrever. Tais respiros, mais do que simplesmente tirar um pouco o foco da amizade entre os protagonistas, serve também para localizar o espectador em um período específico do século e desmistificar alguns dos maiores autores da história, oferecendo a eles uma aura mais humana e menos inalcançável. O artifício funciona: Guy Pearce está particularmente bem como um Fitzgerald cansado e desiludido e Dominic West, mesmo em uma única cena, dá um belo vislumbre da personalidade de Hemingway, assim como Corey Stoll fez com maestria em "Meia-noite em Paris", de Woody Allen. São esses momentos, fora do arco narrativo principal de "O mestre dos gênios" que, paradoxalmente, fazem dele um filme interessante e o salvam do lugar-comum.

Não deixa de ser surpreendente, no entanto, que, mesmo com um profissional experiente como John Logan, seja justamente o roteiro um dos principais problemas do filme de Grandage. Sem conseguir imprimir em seus protagonistas o grau de empatia suficiente para conquistar o espectador, a história acaba por tentar impor-se mesmo sem ter força para isso. Escorando-se basicamente em um relacionamento profissional/fraternal sem maiores lances dramáticos, a trama acaba por arrastar-se por longos 104 minutos, tentando encontrar atrativos além do elenco excepcional para cativar a atenção da plateia. É uma produção caprichada, com uma reconstituição de época cuidadosa e personagens lendários vividos por atores de primeira linha, mas esbarra em uma falta absoluta do que contar em seu terço final. É um desperdício, mas mesmo com seus pecados, ainda é um filme que pode agradar a quem procura conhecer um pouco mais de seus autores favoritos. Uma pena que até mesmo nesse ponto é superficial demais para acrescentar algo a mais na carreira dos envolvidos.

sexta-feira

SEM EVIDÊNCIAS

SEM EVIDÊNCIAS (Devil's knot, 2013, Worldview Entertainment, 114min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Paul Harris Boardman, Scott Derrickson, livro "Devil's knot: the true story of the West Memphis Three", de Mara Leveritt. Fotografia: Paul Sarossy. Montagem: Susan Shipton. Música: Mychael Danna. Figurino: Kari Perkins. Direção de arte/cenários: Philip Barker/Melinda Sanders. Produção executiva: David Alper, Jason Baldwin, Holly Ballard, Maria Cestone, Molly Conners, Scott Derrickson, Michael Flynn, Sarah E. Johnson, Mara Leveritt, Jessie Miskelley Jr., Hoyt David Morgan, Jacob Pechenik. Produção: Paul Harris Boardman, Elizabeth Fowler, Clark Peterson, Richard Saperstein, Christopher Woodrow. Elenco: Reese Witherspoon, Colin Firth, Alessandro Nivola, James Hamrick, Seth Meriwether, Kristopher Higgins, Amy Ryan, Bruce Greenwood, Matt Letscher, Martin Henderson, Elias Koteas, Dane DeHaan. Estreia: 08/9/13 (Festival de Toronto)

Nem mesmo o prestígio do cineasta canadense Atom Egoyan e o elenco liderado por dois vencedores do Oscar - Reese Witherspoon e Colin Firth - foram atrativos o bastante para que o drama de tribunal "Sem evidências" encontrasse seu público ou agradasse à crítica. Baseado em uma história real ocorrida em 1993, o filme estreou no Festival de Toronto de 2013 e, ao contrário do que se poderia esperar de uma produção com nomes tão fortes, foi praticamente ignorado tanto nas bilheterias quanto nas cerimônias de premiação. Principalmente por ter sido lançado depois da trilogia de documentários "Paradise lost" - que tratava do mesmo assunto de forma bem mais profunda e detalhada - o primeiro filme americano de Egoyan encontrou resistência por parte da imprensa e passou quase em brancas nuvens pelos cinemas americanos. Seria apenas mais um caso dentre tantos se não fosse um detalhe: apesar de não ser uma obra-prima (nem tampouco o melhor filme do cineasta que assinou o belo "O doce amanhã"), "Sem evidências" é bastante interessante e não mereceu tamanha indiferença.

A trama é instigante e chocante: em uma pequena cidade do Arkansas, três meninos desaparecem misteriosamente e tem seus corpos encontrados alguns dias depois, nus, amarrados e com sinais de tortura. A pressão popular faz com que a polícia - que ignorou solenemente fatos estranhos ocorridos logo após o sumiço das crianças, como o aparecimento de um homem sangrando em um restaurante - chegue rapidamente à solução do caso, prendendo três adolescentes locais, acusados pelo testemunho de uma outra criança que diz ter assistido aos homicídios. De certa forma aliviados pela resolução rápida do caso, os habitantes da cidade sequer questionam os métodos da investigação e aceitam como fato consumado que tudo não passou de um sacrifício humano para rituais de magia negra - afinal, os jovens se vestem de preto, são tatuados, estranhos e falam a quem estiver disposto a ouvir sobre suas relações com o ocultismo. Quem não compra a teoria da polícia, no entanto, é Ron Lax (Colin Firth), investigador particular que se une à equipe de defesa dos rapazes para tentar descobrir a verdade sobre os crimes. Julgando que os réus estão pagando por algo que não cometeram, ele acaba por despertar a antipatia dos pais das vítimas, em especial Pam Hobbs (Reese Witherspoon), uma mulher religiosa que não se conforma com a morte do filho.


Evitando o excesso de flashbacks comum ao gênero, a narrativa clássica e direta de "Sem evidências" procura ater-se basicamente aos fatos relativos aos crimes e ao julgamento, ainda que sua opção em privilegiar o ponto de vista de Lax deixe bem clara sua posição em relação ao veredicto. Imparcial e buscando apenas a justiça pura e simples, o personagem vivido com sutileza por Colin Firth contrasta violentamente com as figuras de autoridade, que não hesitam em criar depoimentos falsos, forjar provas e ignorar pistas em sua sede de solucionar seu caso. Ao mostrar sem filtros a forma como toda uma cidade se volta contra jovens que fogem do padrão de comportamento tido como normal - e que acaba sendo a maior evidência contra eles - o filme de Egoyan também levanta discussões importantes acerca de preconceito e hipocrisia, especialmente quando se sabe que, após o julgamento, outros suspeitos bem menos apropriados ao gosto dos cidadãos de bem foram considerados e devidamente deixados de lado. Sem tentar dar respostas definitivas - mesmo porque elas ainda não existem - o roteiro de "Sem evidências" mostra os fatos de forma clara e objetiva e deixa que a plateia tire as próprias conclusões (por mais óbvias que elas possam ser). E se tanto Witherspoon quanto Firth estão contidos em suas atuações, é mérito do diretor fazer com que sua história fale mais do que seus astros.

Com sua história sendo contada em três frentes que jamais se atropelam (mérito do roteiro e da edição discreta), "Sem evidências" acompanha o julgamento dos acusados, as investigações de Lax e as tentativas de Pam em retornar à vida normal com delicadeza ímpar. Fiel a seu estilo emocionalmente econômico, Atom Egoyan só permite raramente que a dor de Pam se sobressaia ao enfoque policial da narrativa, mas quando o faz toca o coração da plateia sem apelar para o piegas. Talvez essa opção do cineasta em privilegiar o tom sóbrio e a discrição tenha sido um dos motivos da rejeição do filme pelo público e até pela crítica - que provavelmente esperava algo mais potente de um diretor de seu porte. Mas é inegável sua qualidade dramática, seu respeito pela história e pelos personagens e, mais importante ainda, seu sucesso em evitar o sensacionalismo. Não é espetacular, mas é um belo filme, apesar do injusto fracasso afirmar o contrário.

O ESPIÃO QUE SABIA DEMAIS

O ESPIÃO QUE SABIA DEMAIS (Tinker tailor soldier spy, 2011, StudioCanal, 127min) Direção: Tomas Alfredson. Roteiro: Peter Straughan, Bridget O'Connor, romance de John Le Carré. Direção: Hoyte Van Hoytema. Montagem: Dino Jonsater. Música: Alberto Iglesias. Figurino: Jacqueline Durran. Direção de arte/cenários: Maria Djurkovic/Tatiana MacDonald, Zsuzsa Mihalek. Produção executiva: Liza Chasin, Olivier Courson, Ron Halpern, Debra Hayward, John Le Carré, Peter Morgan, Douglas Urbanski. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Robyn Slovo. Elenco: Gary Oldman, John Hurt, Colin Firth, Toby Jones, Tom Hardy, Benedict Cumberbatch, Kahty Burke, Ciarán Hinds, David Dencik. Estreia: 05/9/11 (Festival de Veneza)

3 indicações ao Oscar: Ator (Gary Oldman), Montagem, Trilha Sonora Original 

Para se assistir a "O espião que sabia demais" duas coisas são imprescindíveis: paciência e atenção. Paciência porque o filme, baseado em um romance de John LeCarré - que já rendeu uma minissérie de TV - tem um ritmo próprio, mais lento do que as habituais produções hollywoodianas centradas em espionagem que mal dão tempo ao espectador para respirar (como a excepcional trilogia Bourne, estrelada por Matt Damon). E atenção porque, apesar de nunca atropelar as informações, o roteiro de Peter Straughan e Bridget O'Connor(que morreu antes do lançamento do filme e a quem ele é dedicado) é tão recheado de pequenos detalhes e silêncios reveladores que, se o espectador der uma piscadela corre o risco de perder o fio da meada e se confundir irremediavelmente.

Em uma época em que tudo chega ao público da maneira mais mastigadinha possível, um filme como "O espião que sabia demais" é um estranho no ninho. Dirigida com uma elegância e uma quase frieza que trai as origens nórdicas de seu diretor Tomas Alfredson (cujo cartão de visitas é a ótima versão original do terror "Deixe ela entrar"), a trama - complexa e um tanto anacrônica nos dias de hoje, em que a Guerra Fria é apenas um fantasma longínquo - quase serve mais como um show de atores do que exatamente um thriller convencional de espionagem. Na pele do protagonista George Smiley, finalmente Gary Oldman tem o reconhecimento que merece há décadas, em uma atuação construída em cima de sutilezas e movimentos delicados que foi recompensada com uma indicação ao Oscar. Mesmo cercado de atores de talento comprovado - Colin Firth, Toby Jones, Ciarán Hinds, Kathy Burke, Tom Hardy - o inglês que deu intensidade ímpar ao protagonista de "Drácula de Bram Stoker" cria um personagem de personalidade ambígua, mantendo o interesse do público desde as primeiras cenas até o final coerente e inteligente.


Ah, sim, a história... Passado nos anos primeiros anos da década de 70, "O espião que sabia demais" começa quando Control (o ótimo John Hurt), chefe do Serviço de Inteligência Britânico é obrigado a se demitir depois de uma missão tragicamente equivocada na Hungria. Junto com ele, sai do serviço seu braço-direito, George Smiley (Oldman, econômico em gestos e palavras), que, algum tempo depois, é procurado pelo governo para investigar a acusação do jovem agente Ricki Tarr (Tom Hardy em papel herdado de Michael Fassbender e demonstrando um talento que frequentemente se esconde debaixo dos músculos), que, ecoando uma suspeita de seu antigo chefe, afirma que existe um agente duplo entre os agentes do grupo. Smiley, de fora da agência, tenta descobrir a partir daí, quem é o real culpado (e se ele realmente existe), uma tarefa nada fácil, uma vez que todos os seus ex-colegas - Percy Alleline (Toby Jones), Toby Esterhase (David Dencik), Roy Bland (Ciarán Hinds) e Bill Haydon (Colin Firth) - parecem ter algo a esconder.

O filme de Alfredson é construído a partir de detalhes, de pequenas coisas, de mentiras e meias-verdades que só serão esclarecidas em seus minutos finais. O ritmo lento talvez afugente o público acostumado a ação desenfreada, mas, fotografado com discrição e apresentando uma reconstituição de época impecável, é um filme sério, feito para adultos que prezam o cérebro e os olhos. A estupenda e precisa edição - que a princípio parece confundir mas aos poucos vai iluminando cada um de seus personagens a partir de sutilezas de que só os grandes cineastas são capazes - contribui para o clima de confusão que se estabelece tanto ao público como a seu protagonista, permitindo uma imersão total na trama criada pelo escritor John Le Carré, que tem aqui a melhor adaptação de uma obra sua, ao lado de "O jardineiro fiel", dirigida pelo brasileiro Fernando Meirelles em 2005 mas dotada de um calor que os contrapõem totalmente. É uma prova da personalidade marcante de seu cineasta, capaz de acrescentar - e muito - ao cinema hollywoodiano.

quarta-feira

VERDADE NUA

VERDADE NUA (Where the truth lies, 2005, Serendipty Point Films/First Choice Films, 107min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Atom Egoyan, romance de Rupert Holmes. Fotografia: Paul Sarossy. Montagem: Susan Shipton. Música: Mychael Danna. Figurino: Beth Pasternak. Direção de arte/cenários: Philip Barker/Trisha Edwards, Cal Loucks. Produção executiva: Atom Egoyan, Colin Leventhal, Donald A. Starr, Daniel J.B. Taylor. Produção: Robert Lantos. Elenco: Colin Firth, Kevin Bacon, Alison Lohman, David Hayman. Estreia: 13/5/05 (Festival de Cannes)

Quando "Verdade nua" estreou, no Festival de Cannes de 2005, o comentário geral - e que chamava mais a atenção do que o filme em si - era de que a história, baseada em um romance de Rupert Holmes, especulava a respeito da relação entre os atores Jerry Lewis e Dean Martin e dos motivos que levaram ao fim de uma das duplas mais queridas do público americano na década de 50. Realidade ou não, o fato é que tal publicidade deu à obra do canadense Atom Egoyan uma sobrevida entre os cinéfilos que, de outro modo, provavelmente não teria: mesmo com algumas ousadas cenas de sexo (amenizadas em sua versão para o mercado norte-americano) e uma história que mantém um certo suspense até seus minutos finais, fica a sensação, em seu término, de que o desejo de criar polêmica acabou sobrepujando a profundidade que Egoyam havia demonstrado, por exemplo, em seu melhor filme, o genial "O doce amanhã", que lhe indicou aos Oscar de direção e roteiro em 1998. Repleto de reviravoltas - algumas convincentes, outras nem tanto - e com um excesso de narração em off, "Verdade nua" é acima da média, mas jamais chega a ser tão bom quanto poderia.

Sem assumir a inspiração na dupla Lewis/Martin - que romperam a bem-sucedida sociedade artística sem maiores explicações no auge do sucesso, o que deu margem a inúmeras especulações - o filme de Egoyan (assim como o romance de Holmes) tem como protagonistas dois grandes astros da Hollywood dos anos 50, ídolos das telas e dos palcos e admirados incondicionalmente pelo público que então não tinha acesso a todas as sujeiras que os glamourosos tapetes dos hotéis cinco estrelas escondiam: Lanny Morris e Vince Collins tem uma relação profissional acima de qualquer suspeita, ganham milhões e levam uma vida de luxo e conforto, escondendo de seus fãs suas verdadeiras personalidades. Consumidores habituais de drogas e entusiastas de orgias com prostitutas e quem mais se dispuser a elas - além de ter relações estreitas com a Máfia - os dois sofrem um duro golpe na carreira quando, depois de um especial de televisão beneficente, o corpo de uma camareira do hotel onde estão hospedados é encontrado no quarto de Morris. A morte da jovem - chamada Maureen O'Flaherty - é divulgada como tendo sido causada por overdose, e o escândalo acaba por desfazer a dupla.


Quinze anos mais tarde, Collins (Colin Firth antes da consagração por "O discurso do rei"), se vendo em dificuldades financeiras, aceita a proposta de escrever sua biografia. Para isso, a editora manda até ele a jovem Karen O'Connor (Alison Lohman), uma jornalista ambiciosa e determinada que tem seus próprios motivos para aceitar a missão, já que, fascinada pelos atores desde criança, ela pretende descobrir a verdade sobre a morte de Maureen e assim revelar aos leitores (e à mãe da vítima) o que aconteceu entre as quatro paredes do hotel naquela noite de 1957. Seu caminho rumo à solução do caso esbarra, porém, em um acidente do destino: em uma viagem de avião antes de encontrar-se com Collins, ela conhece Morris (Kevin Bacon, extremamente à vontade em um papel difícil e diferente em sua carreira) e acaba se deixando seduzir por ele, mentindo a respeito de sua identidade. Quando é desmascarada, porém, ela se vê diante de uma intriga de proporções maiores do que imaginava e descortina uma série de versões contraditórias sobre os fatos que somente os próprios envolvidos poderão esclarecer.

A narrativa construída em cima de idas e vindas, que poderia ser um dos maiores trunfos de "Verdade nua", acaba por prejudicando seu resultado final. Um tanto confuso em alguns momentos, o roteiro do próprio diretor demora a estabelecer as reais motivações de seus personagens, impedindo a plateia de se deixar envolver desde o início pela trama policial ao estilo Agatha Christie que, no final das contas, acaba sendo mais interessante do que as fofocas de bastidores - apesar dos esforços de Egoyam em extrapolar os limites do cinema comercial convencional, com cenas de sexo relativamente ousadas que incluem orgias, lesbianismo e uso de drogas. Seu pecado maior - enfatizar tais sequências em detrimento da história que pretende contar - acaba sendo ainda mais patente quando, nos minutos finais, a identidade do verdadeiro assassino acaba por ser revelada, em uma cena anti-climática e morna que contrasta com a atmosfera densa que vinha sendo mantida pela direção elegante do cineasta. Ainda assim, a coerência interna da solução do caso é louvável, assim como a atuação de Bacon, que se sobressai à quase apatia de Alisson Lohman e à eterna frieza de Firth.

Quem procura em "Verdade nua" um retrato dos podres de Hollywood não irá se decepcionar. Quem gosta de um filme com uma trama razoavelmente inteligente também. Mas quem espera encontrar um Atom Egoyan de primeira qualidade é melhor rever "O doce amanhã", que é mais consistente e menos ambicioso comercialmente.

MAMMA MIA!

MAMMA MIA! (Mamma Mia!, 2008, Universal Pictures, 108min) Direção: Phyllida Lloyd. Roteiro: Catherine Johnson, peça musical de Catherine Johnson. Fotografia: Haris Zambarloukos. Montagem: Lesley Walker. Música: Benny Andersson, Bjorn Ulvaeus. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Maria Djurkovic/Barbara Herman-Skelding. Produção executiva: Benny Andersson, Tom Hanks, Mark Huffam, Bjorn Ulvaeus, Rita Wilson. Produção: Judy Craymer, Gary Goetzman. Elenco: Meryl Streep, Pierce Brosnan, Colin Firth, Stelan Skarsgard, Amanda Seyfried, Dominic Cooper, Christine Baranski, Julie Walters. Estreia: 30/6/08 (Londres)

Durante os anos 70, não havia no mundo quem não conhecesse ao menos uma canção do grupo sueco ABBA. Depois de uma década restrita apenas a fãs mais ardorosos, os anos 90 ressuscitaram seus sucessos nos filmes australianos "O casamento de Muriel" e "Priscilla, a rainha do deserto" e, quase na virada do século, hinos como "The winner takes it all" e "Dancing queen" chegaram aos palcos ingleses em uma peça musical escrita por Catherine Johnson: "Mamma Mia!" - que se utilizava do repertório da banda em uma comédia romântica - bateu recordes de bilheteria, foi transferido para a Broadway em 2001 e, para surpresa de ninguém, acabou parando no cinema. Seguindo o êxito de musicais com "Moulin Rouge" e "Chicago", a diretora Phillyda Lloyd (que também assinou o comando da versão americana) não decepcionou os produtores Tom Hanks e Rita Wilson, com uma bilheteria de mais de 140 milhões de dólares, prova da perenidade do conjunto formado do qual faziam parte Benny Anderson e Bjorn Ulvaeus, que inclusive aparecem rapidamente em cena e assinam a produção executiva do filme.

Ao contrário de "Across the universe", onde a diretora Julie Taymor, servia-se das canções dos Beatles para contar uma história de amor e liberdade nos EUA sacudidos pela Guerra do Vietnã, "Mamma Mia!" tem um registro muito mais alto-astral e leve, deixando de lado qualquer elocubração mais pesada ou densidade psicológica. Refletindo a beleza límpida e ensolarada da Grécia - onde se passa a história - o roteiro da própria autora da peça explode em colorido, alegria e bom-humor, sem espaço para nada além de uma fotografia deslumbrante, atores se divertindo nitidamente, uma trama que exige do espectador apenas um mínimo de atenção e, claro, uma trilha sonora vibrante e adequada. Aliás, não poderia deixar de ser diferente, já que são as canções que conduzem a história de Donna (uma iluminada Meryl Streep), a dona de um hotel rústico na Grécia que reencontra três ex-namorados justamente às vésperas do casamento da única filha.


Começando do começo: a jovem Sophie (Amanda Seyfried, em papel cobiçado por Mandy Moore, Rachel McAdams, Emmy Rossum e Amanda Bynes) tem um sonho (como diz "I have a dream", que abre o filme) de conhecer seu pai, uma vez que foi criada apenas pela mãe, Donna, em uma paradisíaca ilha grega. Mexendo nas coisas de sua progenitora, ela descobre um diário que lhe dá a conclusão de que ela só pode ser filha de um dos três ex-namorados da mãe, o ex-roqueiro Bill (Stelan Skarsgard), o certinho Harry (Colin Firth) e o bem-sucedido Sam (Pierce Brosnan). Em segredo, ela envia convites de seu iminente casamento para todos e, para sua surpresa, eles aparecem, mexendo com a vida tranquila de Donna, que precisará lidar com seu passado - e que, para isso, conta com a ajuda de suas duas melhores amigas, Rosie (Julie Walters) e Tanya (Christine Baranski), também presentes na ilha para o casamento.

O fiapo de história, porém, é o que menos importa. Phillida Lloyd não é uma cineasta capaz de grandes voos, o que fica evidente na sua total falta de ousadia visual ou segurança para compreender as diferenças de linguagem entre teatro e cinema. Como o grande público pouco se importa com essas questões técnicas, a diversão é garantida graças à explosão de alegria que o filme é. Meryl Streep brilha mais que todos, como sempre, criando uma Donna jovem, otimista e carinhosa - que passa da contagiante "Dancing queen" à dolorosa "The winner takes it all" com o talento de uma cantora nata - mas é inegável sua química com Amanda Seyfried, em especial na bela sequência em que a garota se prepara para o casamento. Julie Walters e Christine Baranski quase roubam o show como coadjuvantes e até mesmo o trio de ex-amores de Donna sai-se bem, ainda que nenhum deles possa ser considerado um grande cantor.

"Mamma Mia!" é um filme feito para divertir. Quem gosta de Meryl Streep é um prato cheio. Para quem gosta de comédias românticas com cenários deslumbrantes é um deleite. Mas é para os fãs do ABBA que o filme foi feito. E para eles é essencial!

terça-feira

DIREITO DE AMAR


DIREITO DE AMAR (A single man, 2009, Miramax Films, 99min) Direção: Tom Ford. Roteiro: Tom Ford, David Scearce, romance de Christopher Isherwood. Fotografia: Eduard Grau. Montagem: Joan Sobel. Música: Abel Korzeniowski. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Dan Bishop/Amy Wells. Produção: Tom Ford, Andrew Miano, Robert Salerno, Chris Weitz. Elenco: Colin Firth, Julianne Moore, Matthew Good, Nicholas Hoult, Ginnifer Goodwin, Lee Pace. Estreia: 11/9/09 (Festival de Veneza)

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Colin Firth)

Responsável pelo renascimento da marca Gautier na década de 90, o estilista Tom Ford é conhecido internacionalmente por seu rigor estético elegante e sobriedade. Não foi à toa, então, que seu primeiro filme como cineasta tenha seguido essa tendência à discrição: "Direito de amar", inspirado no livro de Christopher Isherwood, é uma melancólica história de amor, perda e solidão, tratada com uma delicadeza que só mesmo alguém com o bom gosto de Ford conseguiria. Narrado com um ritmo que destoa da maioria das produções histéricas ao gosto do público médio - ou seja, prefere a contemplação e o diálogo em detrimento de uma edição picotada e uma trama mastigadinha - o filme foi também o responsável por dar ao inglês Colin Firth sua primeira chance de sair do rol dos coadjuvantes ou de figurar em elencos de comédias românticas para mostrar seu potencial como ator. Sua merecida indicação ao Oscar é reflexo de uma interpretação contida, em que silêncios e olhares dizem muito mais do que horas e horas de discursos inflamados. Uma pena que sua estatueta só tenha vindo no ano seguinte pelo sofrível "O discurso do rei".

Em "Direito de amar" - mais um título nacional boboca para a lista interminável de equívocos das distribuidoras - Firth dá vida à George, um professor secundarista cuja vida está em estado de inércia desde a morte de seu amante, com quem mantinha um relacionamento de amor e carinho - apesar da família do jovem, que não aceitava o romance e o impediu inclusive de assistir ao funeral. Levando seus dias de forma mecânica e triste, ele resolve acabar com a própria vida. Depois de organizar tudo - escolhe as roupas para o enterro, deixa as contas em ordem e instruções detalhadas para a empregada - ele vai seguir sua rotina: tenta interessar seus alunos em literatura, bate-papo com os colegas e faz uma visita à sua melhor amiga, Charley (Julianne Moore, impressionante como quase sempre), apaixonada por ele. É somente no caminho de volta para casa, ao entrar em um bar, que seu objetivo começa a perder força: ele encontra Kenny (Nicholas Hoult, o menino desajustado de “Um grande garoto”, aqui crescido e demonstrando talento), um aluno inteligente e sensível que o fará questionar as razões que a vida tem – ou não tem.



Visualmente requintado – com uma fotografia deslumbrante e uma reconstituição de época (anos 60) caprichada – e poeticamente narrado, “Direito de amar” é quase um filme literário. Mesmo que em muitos momentos as imagens falem mais do que as palavras, os diálogos do roteiro de Ford e David Scearce são tocantes, delicados – e às vezes bastante cruéis em suas observações sobre o destino e a solidão, especialmente quando comparados com as esperançosas e felizes conversas entre George e Jim, mostradas em flashbacks em onírico preto-e-branco no decorrer da estória. Tom Ford acertou em cheio no tom escolhido para acompanhar a trajetória de seu protagonista: desfilando incólume por belas paisagens e tendo contato com homens e mulheres brilhantes, George já não vê mais graça na vida e se refugia nas lembranças – de Jim, de sua infância, de momentos felizes – e na opção pelo suicídio. Pesado? Sim. Mas também de uma delicadeza inesquecível.

“Direito de amar” não é para qualquer um. Não é um filme hermético, repleto de símbolos inescrutáveis, nem tampouco é uma obra direcionada ao público homossexual, como se poderia imaginar levando em conta a trama. Mas é lento, sofrido, melancólico. E é, acima de tudo, um filme de estreia de um diretor que ainda vai dar muito o que falar.

sexta-feira

SIMPLESMENTE AMOR

SIMPLESMENTE AMOR (Love actually, 2003, Universal Pictures, 135min) Direção e roteiro: Richard Curtis. Fotografia: Michael Coulter. Montagem: Nick Moore. Música: Craig Armstrong. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Jim Clay/Caroline Smith. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Duncan Kenworthy. Elenco: Hugh Grant, Emma Thompson, Liam Neeson, Colin Firth, Laura Linney, Alan Rickman, Bill Nighy, Lucia Moniz, Keira Knightley, Rodrigo Santoro, Martin Freeman, Andrew Lincoln, Chiwetel Ejiofor, Billy Bob Thornton, Heike Makatsch, Nina Sosanya. Estreia: 07/11/03

Definitivamente não dá pra não simpatizar com uma comédia romântica como “Simplesmente amor”. Ao contar diversas histórias de personagens das mais diversas classes sociais e culturais na Inglaterra – todas de amor, mas de inúmeros tipos de amor – o roteiro do diretor Richard Curtis atinge qualquer tipo de pessoa, seja essa pessoa fã de romance, comédia ou drama. E conta suas histórias com tanta simpatia e generosidade que o difícil é não querer ver e rever para emocionar-se a cada revisão com uma personagem diferente.

Trabalhando com um elenco predominantemente inglês, Curtis escolheu a dedo seus atores estrangeiros – e aí inclui-se o brasileiro Rodrigo Santoro, a americana Laura Linney, o irlandês Liam Neeson e a portuguesa Lucia Moniz – para traçar um painel de sentimentos e relações aparentemente ambicioso, mas que funciona como um relógio. Ao contrário dos dramas psicológicos intensos como os retratados em “Magnólia”, por exemplo, o objetivo do diretor é entreter e emocionar durante duas horas sem no entanto castigar a plateia com abuso sexual, alcoolismo, vício em drogas, etc.... A proposta de “Simplesmente amor” é encantar. E para isso não faltam trunfos.


       

“Simplesmente amor” começa poucas semanas antes do Natal e conta várias histórias. É perto do Natal que o novo Primeiro-Ministro (vivido por um divertido Hugh Grant) assume seu cargo e se apaixona por Natalie (Martine McCutcheon), a moça do cafezinho – um romance que o fará desafiar o todo-poderoso presidente americano (Billy Bob Thornton em participação especial). É pouco antes do Natal também que o astro decadente de rock Billy Mack (Bill Nighy roubando descaradamente a cena) começa a tentar sua volta às paradas de sucesso, regravando a clássica “Love is all around” com a letra modificada para acompanhar a data comemorativa. É também quando acontece o funeral da esposa de Daniel (Liam Neeson), que passa a ter que lidar com a viuvez e com o enteado, o pequeno Sam (Thomas Sangster), apaixonado por uma coleguinha de escola. Também é por essa época que o jovem Mark (Andrew Lincoln) entra em depressão por estar apaixonado pela bela Juliet (Keira Knightley), esposa do seu melhor amigo.
Se não fossem suficientes, a essas tramas outras se juntam aos poucos: é o caso do romance hesitante entre o escritor Jamie (Colin Firth) e sua empregada doméstica portuguesa Aurélia (Lucia Moniz); a crise no casamento de Karen (Emma Thompson) e Harry (Alan Rickman), causada pela secretária dele, Mia (Heike Makatasch); o início tímido do namoro entre a dedicada Sarah (Laura Linney) e seu colega de trabalho Karl (Rodrigo Santoro), atrapalhado pelas crises de saúde do irmão dela; a ilusão do jovem Colin (Kris Marshall) de que vai encontrar o amor nos EUA e o começo da relação entre dois dublês de filmes pornô.

Como já foi dito anteriormente, é difícil não se apaixonar por “Simplesmente amor”. Engraçado, terno, verdadeiro, sensível e de partir o coração, o roteiro de Richard Curtis encontra em seu elenco multi-estelar a encarnação perfeita de personagens carismáticos e extremamente humanos, capazes de atos enlouquecidos de amor, renúncia e até egoísmo. Somados a uma edição ágil e precisa e uma trilha sonora que é quase (mais) uma personagem à parte, o filme mais romântico de 2003 é também um dos mais românticos das últimas décadas. Irresistível!

quarta-feira

ARMADILHAS DO CORAÇÃO

ARMADILHAS DO CORAÇÃO (The importance of being Earnest, 2002, Miramax Films, 97min) Direção: Oliver Parker. Roteiro: Oliver Parker, peça teatral homônima de Oscar Wilde. Fotografia: Tony Pierce-Roberts. Montagem: Guy Bensley. Música: Charlie Mole. Figurino: Maurizio Millenotti. Direção de arte/cenários: Luciana Arrighi/Ian Whittaker. Produção executiva: Uri Fruchtmann. Produção: Barnaby Thompson. Elenco: Colin Firth, Rupert Everett, Reese Witherspoon, Frances O'Connor, Judi Dench, Tom Wilkinson. Estreia: 17/5/02

É triste perceber que um escritor do porte de Oscar Wilde nunca conseguiu ter uma obra sua adaptada decentemente para o cinema. Dono de um estilo próprio, em que mescla uma feroz crítica à Inglaterra de sua época a frases espirituosas e mordazes, o autor irlandês da obra-prima "O retrato de Dorian Gray" foi também um dramaturgo repleto de recursos, assinando comédias hilariantes (dentro do conceito inteligente de hilariante) como "O marido ideal", que foi levado às telas em 2000 pelo inglês Oliver Parker sem fazer muito alarde (apesar de contar com um elenco estelar que incluía Cate Blanchett, Julianne Moore e Rupert Everett). O mesmo Parker tentou de novo, em 2002, adaptando "The importance of being Earnest", que no Brasil levou o estúpido título de "Armadilhas do coração" e nem chegou a ser exibido comercialmente, saindo direto em DVD. O fracasso comercial do filme é injusto, comparado com o número sem fim de comédias sem graça que faturam centenas de milhares de dólares, mas Wilde merecia coisa melhor.

O maior problema de "Armadilhas do coração" é exatamente o que acomete a vasta maioria das "traduções" teatrais para o cinema. Apesar de explorar com segurança os vastos exteriores ingleses, Parker não consegue fugir da impressão de estar realizado teatro filmado - em parte porque os diálogos são muito mais importantes do que a ação, em parte porque em certos momentos tudo soa muito artificial. Ainda que esse exagero no artificial talvez seja proposital (afinal, trata-se de uma farsa), o que funciona em um palco normalmente perde o impacto em uma tela de cinema e é isso que acontece nessa comédia de erros que, apesar do elenco brilhante e de alguns bons momentos de humor, é bem menos engraçada do que poderia ser.


Os dois protagonistas do filme são o milionário Jack Worthing (Colin Firth) e o mimado Algernon Moncrieff (Rupert Everett), amigos inseparáveis que frequentam as mesmas festas calorosas da Londres dos anos 1890. Para sair de sua propriedade no interior sem despertar fofocas, Jack inventa um irmão fictício chamado Ernest, que precisa de suas visitas constantes, e em uma dessas visitas à cidade se apaixona por Gwendolen (Frances O'Connor), prima de Algernon que é criada rigidamente pela mãe, Augusta Bracknell (Judi Dench). Bracknell, uma dama da alta sociedade, exige que Jack (que por engano todos pensam chamar-se Earnest) descubra suas origens antes de ceder a mão da filha a um homem sem pai nem mãe, e o rapaz passa a investigar seu passado. Enquanto isso, Algernon o visita em sua fazenda, assumindo a identidade de Earnest, o irmão problemático, e se encanta por Cecily (Reese Witherspoon), de quem Jack é tutor. O encontro dos dois amigos - em um fim-de-semana em que também estão presentes Gwendolen e sua mãe - se transforma, então, em uma tentativa de esconder suas inúmeras mentiras e mal-entendidos.

Logicamente "Armadilhas do coração" funciona maravilhosamente em um teatro - sua carpintaria dramatúrgica é perceptível até ao mais desatento espectador. Cinema, porém, exige mais do que isso, e Oliver Parker parece não ter aprendido quase nada desde sua estreia como cineasta, adaptando "Otelo", de Shakespeare (que, a despeito de ser a primeira versão com um ator negro no papel central, era fraquinho de doer): não existe, em seu filme, nada que o eleve acima de um entretenimento meramente agradável estrelado por nomes de grande talento. Não há movimentos de câmera, não há nada de novo na edição e até mesmo a trilha sonora parece um tanto deslocada. Se há alguma qualidade redentora ela vem do original de Wilde: suas personagens revolucionárias (as mulheres fumam e são bem mais ativas do que normalmente acontecia em sua época), suas reviravoltas melodramáticas tratadas com deboche e os diálogos irônicos. E enquanto Judi Dench passeia com tranquilidade em sua praia, Reese Witherspoon parece perdida com sua Cecily (bem mais jovem do que a intérprete). Felizmente a química entre Colin Firth e Rupert Everett é excelente e dá bons motivos para arriscar uma conferida.

Oliver Parker voltou a adaptar Oscar Wilde em "O retrato de Dorian Gray", onde se mostrou um tanto mais feliz em algumas escolhas acertadas. Infelizmente o roteiro criou situações que não existiam e que esvaziaram a trama poderosa. Definitivamente, Wilde ainda não encontrou uma adaptação à sua altura. Porém, apesar dos pesares, "Armadilhas do coração" é, no minimo, agradável.

terça-feira

O DIÁRIO DE BRIDGET JONES

O DIÁRIO DE BRIDGET JONES (Bridget Jones's diary, 2001, Working Title Films, 97min) Direção: Sharon Maguire. Roteiro: Helen Fielding, Richard Curtis, Andrew Davies, romance de Helen Fielding. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Martin Walsh. Música: Patrick Doyle. Figurino: Rachael Fleming. Direção de arte/cenários: Gemma Jackson/Shirley Lixenberg. Produção executiva: Helen Fielding. Produção: Tim Bevan, Jonathan Cavendish, Eric Fellner. Elenco: Renée Zelwegger, Hugh Grant, Colin Firth, Gemma Jones, Tim Broadbent. Estreia: 13/4/01

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Renée Zelwegger)

Não há como negar: toda mulher tem uma parte Bridget Jones. A personagem criada pela escritora Helen Fielding e protagonista de dois romances atingiu em cheio o que era esperado por milhares de leitoras ávidas por personagens com as quais pudessem identificar-se. Fumante inveterada, com alguns quilos a mais, amiga de um bom porre, infeliz com o emprego e irremediavelmente frustrada com seus casos de amor, a inglesa criada por Fielding chegou aos cinemas na pele da texana Renée Zellweger e em um caso raro na história do cinema não criou polêmica por causa disso. Em uma interpretação impecável que chegou a ser indicada ao Oscar de melhor atriz, Zellwegger toma a personagem para si e não deixa dúvidas de que foi a escolha acertada para viver a personagem.

Bridget Jones é uma mulher comum. Apaixonada pelo chefe cafajeste Daniel Clever (Hugh Grant, divertindo-se a valer no papel), ela começa, no primeiro dia do ano, a escrever um diário, onde narra suas escapadas amorosas com ele, sua luta contra a balança, seus problemas familiares – sua mãe acaba de abandonar seu pai, trocando-o por um apresentador de televisão – e sua implicância com um partido arrumado por sua mãe, o almofadinha Mark Darcy (Colin Firth). Repleto de piadas tipicamente inglesas com um tempero feminino anos 90, o roteiro – que tem a colaboração da própria Helen Fielding – segue fielmente o livro, brincando com as neuroses femininas de forma saudável e romântica. A trilha sonora também ajuda, misturando contemporaneidades (Geri Haliwell, Robbie Williams) com clássicos (a cena em que Bridget dubla “All by myself”, logo nos créditos de abertura conquista qualquer um com um mínimo de senso de humor).



Quanto aos homens da vida de Mrs. Jones, nada a reclamar. Enquanto Hugh Grant dá início a sua especialização em papéis de canalhas adoráveis - sempre com atuações renovadas e simpáticas - o normalmente relegado a segundo plano Colin Firth é quem rouba a cena e os corações femininos da plateia (isso bem antes de ter seu talento reconhecido e ser premiado com o Oscar pelo soporífero "O discurso do rei"). Seu Mark Darcy, arrogante em um primeiro olhar e romântico e sentimental quando analisado mais profundamente, encontra em Firth o intérprete ideal (isso sem mencionar que no livro que deu origem ao filme a protagonista é fissurada pelo próprio ator Colin Firth, em uma jogada feliz dos produtores). O triângulo amoroso formado por Grant-Zelwegger-Firth só acrescenta ainda mais simpatia ao filme, seguramente uma das mais bem-sucedidas adaptações literárias de sua época.

Dono de um bom-humor contagiante e um romantismo longe de ser babaca (além de contar com a participação especialíssima do escritor Salman Rushdie), "O diário de Bridget Jones" é um perfeito passatempo que pode agradar até a ala masculina do público. Pena que sua continuação não foi tão feliz...

quinta-feira

SHAKESPEARE APAIXONADO

SHAKESPEARE APAIXONADO (Shakespeare in love, 1998, Universal Pictures/Miramax Films, 123min) Direção: John Madden. Roteiro: Marc Norman, Tom Stoppard. Fotografia: Richard Greatrex. Montagem: David Gamble. Música: Stephen Warbeck. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Martin Childs/Jill Quertier. Produção executiva: Julie Goldstein, Bob Weinstein. Produção: Donna Gigliotti, Marc Norman, David Parfitt, Harvey Weinstein, Edward Zwick. Elenco: Joseph Fiennes, Gwyneth Paltrow, Judi Dench, Colin Firth, Geoffrey Rush, Tom Wilkinson, Ben Affleck, Rupert Everett, Imelda Staunton, Simon Callow. Estreia: 11/12/98

13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (John Madden), Atriz (Gwyneth Paltrow), Ator Coadjuvante (Geoffrey Rush), Atriz Coadjuvante (Judi Dench), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Comédia ou Musical, Figurino, Direção de arte/cenários, Maquiagem, Som
Vencedor de 7 Oscar: Melhor Filme, Atriz (Gwyneth Paltrow), Atriz Coadjuvante (Judi Dench), Roteiro Original, Trilha Sonora Original/Comédia ou Musical, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Comédia ou Musical, Atriz/Comédia ou Musical (Gwyneth Paltrow), Roteiro

Em 1999, quando a comédia "Shakespeare apaixonado" levou o Oscar de Melhor Filme, os fãs de cinema que ainda não estavam acostumados com as idiossincrasias da Academia ficaram chocados e frustrados. Afinal de contas, perguntavam todos, como um filme tão leve e de interesse quase restrito - convenhamos que Shakespeare não é exatamente um nome que atraia audiências em massa para as salas de cinema - poderia ter sido eleito o melhor do ano, batendo obras tão fortes como "O resgate do soldado Ryan" e "Além da linha vermelha" (o supervalorizado filme de Terrence Malick com elenco grandioso e ritmo inexistente)? A maior surpresa, no entanto, advém de um simples fato: com exceção do prêmio de melhor atriz para Gwyneth Paltrow (que tem uma presença luminosa mas nunca espetacular), todas as 7 estatuetas que o filme de John Madden foram absolutamente merecidas. Sim, é uma comédia e é raro que o gênero seja reconhecido em cerimônias de premiação. Sim, seu diretor é correto mas nunca eficiente. E sim, talvez o drama de guerra de Steven Spielberg seja mais marcante. Mas a fictícia história de amor que envolve o maior dramaturgo da história com uma jovem prometida a outro homem é um romance engraçado e inteligente, capaz de estampar sorrisos no rosto do mais cético espectador.

Escrito por Marc Norman e Tom Stoppard, especialistas na obra do dramaturgo - o segundo inclusive é autor da peça teatral "Rosencrantz e Guildenrstern estão mortos" (cujos protagonistas são dois coadjuvantes de "Hamlet", e que virou filme estrelado por Gary Oldman e Tim Roth) - "Shakespeare apaixonado" está recheado de referências a trabalhos do bardo, de forma explícita ou nem tanto e aos costumes da época em que se passa, além de enxertar no texto personagens reais como o teatrólogo Christopher Marlowe (em uma rápida aparição do ótimo Rupert Everett). Apresentando também uma leve crítica à maneira machista como o teatro era tratado (mulheres eram proibidas de atuar, sendo os papéis femininos representados por adolescentes do sexo masculino), o filme brinca de maneira leve com os bastidores teatrais - talvez tenham vindo daí muitos dos votos, afinal boa parte da Academia é formada por atores - e especula a respeito da criação de um dos mais conhecidos textos de Shakespeare, "Romeu e Julieta".

A trama começa mostrando um jovem William Shakespeare (interpretado com graça e leveza por Joseph Fiennes) enfrentando um tremendo bloqueio criativo justamente quando é pressionado pelo aflito Philip Henslowe (Geoffrey Rush, indicado ao Oscar de coadjuvante), que precisa urgentemente de uma nova peça sob pena de sofrer nas mãos de seus credores. Sem saber que rumos dar à sua nova história, intitulada "Romeu e Ethel, a filha do pirata", o autor frequenta analistas, faz simpatias e busca dicas até mesmo de outros dramaturgos. A situação muda quando ele encontra uma musa inspiradora, a bela Viola de Lesseps (Gwyneth Paltrow), por quem se apaixona perdidamente sem saber que ela se disfarça de homem, sob o nome de Thomas Kent, para atuar em segredo em suas peças de teatro. Quando o engano é descoberto, eles iniciam um ardente romance, ameaçado pelo fato de a moça ser prometida ao nobre Lord Wessex (Colin Firth). Sua história de amor acaba influenciando sua obra, que passa de uma comédia ligeira - com um cão, como mandava o público - a uma intensa tragédia.


Inspirado na famosa dúvida sobre a musa para quem Shakespeare escreveu a maior parte de seus sonetos de amor, o filme de John Madden (que nunca chegou a manter o mesmo equilíbrio em seus trabalhos posteriores) se beneficia de um elenco impecável para atingir seu alto grau de entretenimento. Bastou oito minutos em cena para que Judi Dench tenha levado o Oscar de coadjuvante e Gwyneth Paltrow, se ofendeu os fãs de Meryl Streep, Fernanda Montenegro, Emily Watson e Cate Blanchett, não tem culpa nenhuma: seu trabalho é delicado, discreto e carismático, apesar de nunca ser brilhante ou inesquecível. Vale lembrar que, quando "Shakespeare apaixonado" começou a ser produzido, no início da década de 90, era Julia Roberts quem faria seu papel, ao lado de Daniel Day-Lewis. O ator preferiu ir fazer "Em nome do pai", o diretor Edward Zwick pulou fora do projeto e tudo ficou engavetado. Paltrow abocanhou o papel depois da recusa de Kate Winslet - e das prováveis candidatas Winona Ryder, Meg Ryan e Jodie Foster - e realizou um trabalho que lhe garantiu uma estatueta (mas não necessariamente um respeito unânime). Mas é bom também elogiar sua química com Joseph Fiennes, que, seguindo os passos do irmão mais velho, Ralph, esteve em dois filmes de grande visibilidade em 1998 - o outro foi "Elizabeth" - e conseguiu fazê-los de maneira convincente. Pena que o resto de sua carreira não manteve o mesmo nível.

Com uma trilha sonora deliciosa, uma edição extremamente eficaz e uma reconstituição de época impecável - além de um texto saboroso - "Shakespeare apaixonado" é uma pérola de criatividade e inteligência. Mereceu, sim, o Oscar de Melhor Filme.

O PACIENTE INGLÊS

O PACIENTE INGLÊS (The English patient, 1996, Miramax Films, 162min) Direção: Anthony Minghella. Roteiro: Anthony Minghella, romance de Michael Ondaatje. Fotografia: John Seale. Montagem: Walter Murch. Música: Gabriel Yared. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Aurelio Crugnola, Stephenie McMillan. Produção executiva: Scott Greenstein, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Saul Zaentz. Elenco: Ralph Fiennes, Kristin Scott-Thomas, Juliette Binoche, Willem Dafoe, Colin Firth, Naveen Andrews, Jurgen Prochnow. Estreia: 06/11/96

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Anthony Minghella), Ator (Ralph Fiennes), Atriz (Kristin Scott-Thomas), Atriz Coadjuvante (Juliette Binoche), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Figurino, Direção de arte/cenários, Som
Vencedor de 9 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Anthony Minghella), Atriz Coadjuvante (Juliette Binoche), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Figurino, Direção de arte/cenários
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Trilha Sonora Original
Festival de Berlim: Melhor Atriz (Juliette Binoche)

Em 1962, o inglês David Lean viu seu épico histórico "Lawrence da Arábia" sair da cerimônia de entrega do Oscar com sete estatuetas, incluindo as principais - Melhor Filme e Direção. Trinta e quatro anos depois, outro cineasta da terra da rainha promoveu um arrastão na festa da Academia, acumulando nove prêmios (e mais uma vez, entre eles, os de filme e direção). Ao contrário da obra-prima de Lean, no entanto, que narrava a trajetória de um dos mais controversos líderes militares britânicos, o filme de Anthony Minghella concentra-se em uma devastadora história de amor que utiliza a II Guerra Mundial como mero pano de fundo. "O paciente inglês", baseado em um livro considerado infilmável de Michael Ondaatje, é um poderoso drama romântico que não deixou chance para os demais indicados de 1996. E, apesar de muita gente torcer o nariz para suas pretensões épicas - e sua receita para ganhar Oscar - é um filme que mereceu todo o auê que causou.

De produção complicada - inicialmente financiado pelos estúdios Fox e depois encampado pela Miramax e pelo produtor Saul Zaentz - "O paciente inglês" é um filme que foge dos tradicionais romances hollywoodianos ao exigir de seu público um pouco mais de atenção e dedicação do que o normal. Não apenas é mais longo do que o corriqueiro (tem mais de duas horas e meia de duração) mas também tem um ritmo próprio e delicado, além de ser narrado de forma não-linear, o que muitas vezes afugenta à plateia cuja única intenção é ocupar-se em duas horas de entretenimento fácil. No fim das contas, porém, é um romance tipicamente hollywoodiano com um verniz europeu, o que provavelmente ajudou a encantar os eleitores da Academia - e todo o público que fez com que fechasse suas contas no mercado americano com quase 80 milhões de dólares de arrecadação, um sucesso inquestionável, principalmente se levarmos em conta que não tem, em seu elenco, nenhum grande nome da época - a Fox, por exemplo, insistia em Demi Moore no principal papel feminino, desejo esse que, para sorte de todos os envolvidos, nunca foi levado a sério por ninguém.

O filme começa em 1944, na Itália, quando a jovem enfermeira canadense Hana (Juliette Binoche), depois da morte do namorado soldado e de uma de suas colegas de profissão, resolve isolar-se em um castelo abandonado ao lado de seu paciente, um homem desfigurado por queimaduras e que não tem lembrança de seus dias passados. Tido como de nacionalidade inglesa desde que foi resgatado dos destroços de um avião, ele na verdade é um conde húingaro e se chama Almasy (Ralph Fiennes). Enquanto cuida de seu desmemoriado paciente, Hana lida com seus sentimentos em relação a Kip (Naveen Andrews, que anos depois faria sucesso com a série "Lost"), um indiano cuja função é desarmar bombas deixadas pelos inimigos. Se auto-considerando destinada a perder a todos que ama, Hana ainda aceita hospedar em sua villa o misterioso Caravaggio (Willem Dafoe), que tem as respostas sobre a vida pregressa do "paciente inglês". Almasy, na verdade, tem uma trágica história de amor no passado: apaixonado perdidamente por Katharine Clifton (Kristin-Scott Thomas), uma mulher casada, ele envolveu-se, por causa dela, em um jogo de intrigas e mal-entendidos que culminou com sua desoladora morte.

 

Contado em forma de flashbacks que em seu final, monta todo um quebra-cabeças melancólico e desesperado, "O paciente inglês" tem a seu favor o talento de seu diretor Anthony Minghella em criar sequências de invulgar beleza: em vários momentos sua câmera deixa a plateia com a respiração suspensa, tamanha sua sensibilidade. É assim com a cena em que Kip mostra os desenhos de uma igreja abandonada à Hana ou na belíssima sequência inicial em que o deserto do Saara parece ter as formas de um corpo feminino graças ao ângulo com que o diretor de fotografia John Seale posiciona a câmera. É notável o carinho com que Minghella trata seus atores, entregando a eles cenas fortes e diálogos memoráveis (não foi à toa que seus três protagonistas foram indicados ao Oscar, e Juliette Binoche, excepcional, levou a estatueta pra casa, ainda que de coadjuvante ela não tenha nada...)

O tempo fez bem a "O paciente inglês". Na época de seu lançamento, foi considerado por alguns críticos como um filme "frio" e "sem alma". Hoje, à luz do tempo, pode-se perceber melhor suas qualidades: a bela trilha sonora de Gabriel Yared, a fotografia deslumbrante de John Seale, o roteiro complexo mas repleto de sinceridade, e as atuações extremamente emocionais de seu elenco. Ralph Fiennes abandona o ar psicótico de seu nazista de "A lista de Schindler" para assumir de vez seu papel de herói romântico; Juliette Binoche rouba todas as cenas em que aparece, com uma expressividade arrasadora; e Kristin Scott-Thomas mostra que, por debaixo da frieza britânica mostrada em "Lua de fel" e "Quatro casamentos e um funeral", há um vulcão de sensualidade e passionalidade. Também não atrapalha em nada ter em seu elenco coadjuvante nomes como os de Colin Firth e Willem Dafoe, que dão o tom exato em suas interpretações.

"O paciente inglês" não tinha, em seu ano, nenhum concorrente digno de estragar seus planos de vitória: disputou o prêmio com o simpático "Jerry Maguire", o irônico "Fargo", o chatíssimo "Segredos e mentiras" e o super-apreciado "Shine". Mas o fato de não ter reais rivais em seu caminho não tira sua glória: é um filme que mereceu os prêmios que ganhou e que vai permanecer na memória do público como um dos mais belos romances da história do cinema.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...