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sexta-feira

GAROTA EXEMPLAR

GAROTA EXEMPLAR (Gone girl, 2014, 20th Century Fox, 149min) Direção: David Fincher. Roteiro: Gillian Flynn, romance de sua autoria. Fotografia: Jeff Cronenweth. Montagem: Kirk Baxter. Música: Trent Reznor, Atticus Ross. Figurino: Trish Summerville. Direção de arte/cenários: Donald Graham Burt/Douglas A. Mowat. Produção executiva: Leslie Dixon, Bruna Papandrea. Produção: Ceán Chaffin, Joshua Donen, Arnon Milchan, Reese Witherspoon. Elenco: Ben Affleck, Rosamund Pike, Neil Patrick Harris, Tyler Perry, Kim Dickens, Patrick Fugit, Sela Ward. Estreia: 26/9/14 (Festival de Nova York)

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Rosamund Pike)

Poucos cineastas norte-americanos em atividade parecem ter tanto gosto pelos desvãos da mente humana quanto David Fincher. Desde que mergulhou Brad Pitt e Morgan Freeman na busca por um serial killer que matava de acordo com os sete pecados capitais no já antológico “Seven, os sete crimes capitais”, em 1995, o homem que começou sua carreira cinematográfica brigando com a indústria por discordar dos rumos de seu primeiro filme – a saber, o terceiro capítulo da série “Alien”, lançado em 1992 – consagrou-se como um brilhante artesão da violência (nunca totalmente explícita, sempre estilizada e frequentemente dotada de uma paradoxal beleza). Foi assim que ele narrou a caça a um dos mais infames criminosos da história dos EUA no subestimado “Zodíaco” (2007) e deu personalidade própria ao remake do sueco “Os homens que não amavam as mulheres” (que deu à atriz Rooney Mara uma indicação ao Oscar 2012) – filmes adultos e sérios que tinham, em seu DNA, a coragem de contar, sem subterfúgios, histórias que, em mãos menos talentosas, poderiam descambar para o sadismo e/ou a pasteurização mais banal do gênero. Nada mais apropriado, portanto, que o nome de Fincher estampe os créditos de “Garota exemplar”, bem-sucedida (artística e comercialmente) adaptação de um dos romances policiais mais populares dos últimos anos. Imprimindo seu bom-gosto e sua obsessão perfeccionista em cada minuto de projeção, o diretor conseguiu o que parece cada dia mais difícil no cinemão americano: unir popularidade à qualidade artística. “Garota exemplar” é um triunfo em ambos os quesitos.
           
O romance de Gillian Flynn – também autora do roteiro conciso e inteligente – vendeu mais de seis milhões de exemplares pelo mundo, e era questão de tempo até que seus direitos fossem adquiridos para uma adaptação para o cinema. Foi a atriz Reese Witherspoon quem primeiro viu as possibilidades da trama e, creditada como produtora, quase assumiu também o papel principal. Mudou de ideia quanto ao trabalho diante das câmeras, foi fazer “Livre”, com Jean-Marc Valée (filme que lhe rendeu uma indicação ao Oscar) e deixou o caminho livre para que Fincher optasse pela inglesa Rosamund Pike – uma ilustre quase desconhecida que agarrou com unhas e dentes sua maior oportunidade até então. Foi um gol de placa. Não apenas Pike angariou calorosos elogios da crítica como acabou disputando a estatueta dourada justamente com Witherspoon – única indicação do filme, o que de imediato o coloca como um dos injustiçados da cerimônia de 2015. Não importa que o Oscar de melhor atriz tenha ficado com Julianne Moore em “Para sempre Alice” – um belo desempenho de uma atriz extraordinária: a atuação de Pike como Amy Dunne, a protagonista feminina de “Garota exemplar” teve o impacto de uma epifania, um sopro de novidade dentro de uma indústria como Hollywood, pródiga em criar estrelas pouco brilhantes. Descrever o porquê de tantos aplausos ao trabalho de Pike sem estragar as boas surpresas da trama do filme é tarefa inglória, mas pode-se dizer, sem medo de atrapalhar a delícia que é desvendar a história criada por Flynn, que a jovem atriz constrói não apenas uma Amy Dunne, e sim várias, de acordo com os ângulos variados que vão sendo mostrados pela câmera sempre esperta e surpreendente de Fincher e seu diretor de fotografia preferido, Jeff Cronenweth.



O filme em si começa na manhã do dia 05 de julho de 2010, em uma pequena cidade do Missouri, onde mora o jovem e atraente casal Nick e Amy Dunne – vividos por Ben Affleck e Rosamund Pike. O que era para ser um dia mais ou menos comum em suas vidas (o mais ou menos refere-se ao fato de ser o dia de seu aniversário de casamento) aos poucos torna-se o pesadelo de Nick: procurado no bar que mantém ao lado da irmã gêmea Margo (Connie Cun), ele chega em sua confortável e espaçosa casa para descobrir que Amy desapareceu misteriosamente – e os móveis revirados na sala não são um bom motivo para otimismo. O desaparecimento de Amy logo torna-se notícia na cidade, no estado e aos poucos no país, já que a jovem – linda, loura, gentil e saudável – é uma espécie de ídolo nacional através de uma série de livros infantis escritos por sua mãe e inspirados em sua vida. Como sempre acontece nesses casos, Nick torna-se o suspeito número 1 da polícia – representada principalmente pelos detetives Rhonda Boney (Kim Dickens) e Jim Gilpin (Patrick Fugit) – e tenta desesperadamente ajudar nas buscas e nas investigações, que incluem seu pai doente mental, vagabundos drogados que resultaram da decadência financeira da cidade e até mesmo antigos admiradores de Amy, que, segundo consta, sempre atraiu homens perigosos para sua volta.
            
O grande lance de inteligência de “Garota exemplar” – o livro e o filme em iguais medidas – é deixar que o espectador se envolva com a trama policial seguindo o raciocínio lógico do gênero, com suas regras e paradigmas, para depois, exatamente em sua metade, virar a mesa e expor um outro lado da questão, revelando então tudo aquilo que estava escondido na manga. As viradas no rumo da história se sucedem com parcimônia e naturalidade, levando o público a questionar-se continuamente: Nick é inocente ou culpado? Amy está realmente morta? Se não foi Nick quem cometeu o crime, quem foi? Houve, afinal, um crime? E a mais importante das questões, levantada mais explicitamente no romance e mais sutilmente em sua versão para as telas: qual o papel da verdade em um casamento? O quanto precisamos fingir para que possamos manter um relacionamento?
            
Essa questão crucial exposta por Gillian Flynn percorre todo o filme de David Fincher, que se recusa a tratar Nick Dunne como um homem errado hitchcockiano – afinal, ele também tem esqueletos no armário, mesmo que talvez seja inocente do crime pelo qual está sendo acusado – ou como um marido frio e calculista capaz de tramar a morte da mulher que aparentemente ama – e cuja morte lhe traria benefícios financeiros e a liberdade que ele vem ansiando. Sutilmente, o diretor vai mostrando todas as faces de seu protagonista, revelando aos poucos as camadas que revestem seu matrimônio. Para isso, ele conta com um recurso desprezado por roteiristas em geral mas que aqui funciona à perfeição: o diário de Amy, onde ela conta (através de narração em off e flashbacks) toda a sua história de amor com o marido, desde o encantamento inicial até a crise iniciada com problemas de dinheiro e a mudança de Nova York para a pequena cidade onde tem início a trama policial. Com uma edição absurdamente precisa (a cargo do mesmo Kirk Baxter que levou o Oscar por “A rede social” e “Os homens que não amavam as mulheres”, ambos de Fincher), as memórias de Amy, as investigações da polícia e as tentativas de Nick em provar sua inocência mesmo quando tudo aponta para sua culpa se entrelaçam em uma narrativa coesa, forte e visualmente dinâmica, em que se destaca a fotografia requintada e a trilha sonora discreta, quase minimalista, que surge apenas nos momentos em que se torna imprescindível.
            
Conseguindo manter a plateia sem fôlego até o minuto final da projeção – até mesmo daqueles que conhecem a história através das páginas do livro – David Fincher mostra, mais uma vez, que é um mestre na arte narrativa audiovisual. Não apenas arrancou de Ben Affleck uma atuação competente – o rosto quase impassível do ator acaba servindo muito bem ao propósito de manter a dúvida a respeito da real personalidade de seu personagem – como foi feliz em subverter algumas das regras básicas do gênero policial, ousando fazer do espectador o cúmplice silencioso e surpreso de uma das mais criativas mentes criminosas da literatura (e do cinema) dos últimos anos. Mesmo com algumas pequenas ressalvas – Neil Patrick Harris não convence muito como um antigo amor de Amy, que tem importância fundamental no desfecho da história, por exemplo – “Garota exemplar” é um filme extraordinário (mais um) na carreira brilhante de seu diretor. Sem ele tudo poderia ter sido bem menos feliz – como outra adaptação de livro de Gillian Flynn, o fraquíssimo “Lugares escuros”, mostra sem espaço para discussões.

terça-feira

MILLENNIUM, OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES

MILLENNIUM - OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES (The girl with the dragon tattoo, 2011, Columbia Pictures/MGM Pictures, 158min) Direção: David Fincher. Roteiro: Steven Zaillian, romance de Stieg Larsson. Fotografia: Jeff Cronenweth. Montagem: Kirk Baxter, Angus Wall. Música: Atticus Ross, Trent Reznor. Figurino: Trish Summerville. Direção de arte/cenários: Donald Graham Burt/K.C. Fox, Erik Videgard. Produção executiva: Anni Faurbye Fernandez, Ryan Kavanaugh, Mikael Wallen, Steven Zaillian. Produção: Ceán Chaffin, Scott Rudin, Soren Staermose, Ole Sondberg. Elenco: Daniel Craig, Rooney Mara, Christopher Plummer, Stellan Skarsgard, Robin Wright, Joely Richardson, Goran Visjnic. Estreia: 12/12/11

5 indicações ao Oscar: Atriz (Rooney Mara), Fotografia, Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor do Oscar de Montagem

“Você irá investigar o mais detestável grupo de pessoas que poderia encontrar: minha família!” É assim, com palavras tão pouco lisonjeiras, que o milionário Henrik Vanger (Christopher Plummer) descreve ao jornalista Mikael Blomkvist quem são as pessoas que ele irá investigar caso aceite sua tentadora proposta de trabalho: descobrir o paradeiro (ou o trágico destino) de sua sobrinha, desaparecida há mais de quarenta anos, durante um final de semana festivo em sua imensa propriedade na Suécia. Em crise profissional devido a um processo movido contra um empresário corrupto denunciado em uma de suas reportagens, Blomkvist recebe a ideia com carinho, afinal, dinheiro, um lugar escondido dos colegas da imprensa e sossego não surgem com frequência à sua frente. Mas será que tudo será tão tranquilo como ele imagina?

Para quem não conhece – se é que alguém não conhece – Mikael Blomkvist é um dos dois protagonistas de um dos maiores fenômenos literários dos últimos anos, a trilogia “Millenium”, escrita pelo sueco Stieg Larsson. Com milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, adaptações para o cinema em seu país natal e personagens fascinantes, a série de romances policiais logo chamou a atenção dos produtores de Hollywood, mais especificamente Kathleen Kennedy. Uma das produtoras do sucesso “O curioso caso de Benjamin Button” (08) – além de vários filmes dirigidos por Steven Spielberg – Kennedy propôs a adaptação ao diretor do filme estrelado por Brad Pitt, o incensado David Fincher. Escolado por produções complicadas, Fincher sequer leu o primeiro dos três livros, mas é o nome dele que surge nos créditos da versão americana de “Os homens que não amavam as mulheres”, co-produção da Columbia Pictures e da MGM. Levando-se em consideração que em seu currículo constam filmes como “Seven, os sete crimes capitais” (95) e “Zodíaco” (07), Fincher era realmente o homem ideal para levar às telas – ao menos com sotaque ianque – a intrincada e fascinante trama criada por Larsson. Ao lado de sua equipe de confiança – o diretor de fotografia Jeff Cronenweth, os editores Kirk Baxter e Angus Wall, os músicos Trent Reznor e Atticus Ross – e de um roteiro que consegue condensar em duas horas e meia as mais de 500 páginas do romance original (cortesia do oscarizado Steven Zaillian, de “A lista de Schindler”), Fincher ofereceu ao público um filme que, contrariando as expectativas, supera a versão sueca em clima, tensão e fluência narrativa. Em suma, um filmaço de prender a atenção do primeiro ao último minuto.

Na pele de Blomkvist, surge em cena Daniel Craig, tornado astro desde sua escolha para viver o James Bond do filme “Casino Royale”. Deixando de lado sua faceta heroica, Craig mostra-se a opção perfeita para o papel, oferecendo um viés frágil e inseguro a um personagem que, embora inteligente e corajoso, encontra uma parceria ainda mais radical na segunda personagem fascinante criada por Larsson – que morreu aos 50 anos, antes da publicação e do sucesso de vendas de suas obras – e imortalizada nas telas de cinema: Lisbeth Salander, a hacker agressiva e brilhante que se junta a ele em sua missão de descobrir o paradeiro da jovem Vanger. Vivida originalmente por Noomi Rapace – que a partir dela encontrou espaço no cinema mainstream, em filmes como “Prometheus” (12) e “Sherlock Holmes” (10) – e disputada a tapa pelas jovens atrizes americanas, Salander é o tipo de personagem capaz de consagrar sua intérprete, com sua mistura de mistério, raiva e uma delicadeza física capaz de esconder uma grande fúria. A escolhida por Fincher – e talvez o grande achado do filme – comprovou essa teoria da melhor maneira possível: até então quase desconhecida, Rooney Mara abocanhou uma indicação ao Oscar por seu desempenho. O que era uma aposta arriscada de Fincher – que a havia dirigido em um papel pequeno em “A rede social” – tornou-se, então, uma felicíssima previsão.


Passando a perna em nomes bem mais conhecidos do público, como Scarlett Johansson (considerada sexy demais por Fincher), Carey Mulligan, Ellen Page, Kirsten Stewart, Keira Knightley, Mia Wasikowska, Anne Hathaway, Evan Rachel Wood e Eva Green – além de outras menos cotadas e uma Natalie Portman que recusou o papel alegando extremo cansaço das filmagens de “Cisne negro” – Mara calou a boca daqueles que duvidavam de sua capacidade de dar vida a uma personagem tão complexa e tão adorada pelos leitores espalhados pelo mundo. A princípio dona de uma hostilidade e uma quase antipatia que poderiam jogar contra si, aos poucos Salander vai sendo revelada ao público pelo roteiro esperto de Zaillian e pela direção atenciosa de Fincher, que não foge de apelar para cenas de uma violência surpreendente em tempos tão mornos. Antes mesmo de encontrar-se, depois de mais de uma hora de projeção, com Blomkvist – a quem investigou a pedido do próprio Vanger – Salander já não é mais uma desconhecida da audiência, que compartilha com ela a dor de uma situação extrema da qual ela se livra com uma inteligência e uma ousadia empolgantes. É uma dupla e tanto, responsável por um dos melhores filmes policiais do início do século, uma feliz conjunção de inúmeros fatores comandados por um cineasta genial, capaz de transformar uma história policial em uma produção inesquecível.


A trama de “Os homens que não amavam as mulheres”, na verdade, é dividida em várias, que se complementam com o desenrolar da narrativa. Primeiro, existe a tentativa de Blomkvist em provar sua inocência no caso de calúnia e difamação promovido contra suas reportagens para a revista Millennium, comandada por sua também amante (Robin Wright). Depois, há a sua investigação a respeito do desaparecimento (ou provável morte) da sobrinha de Henrik Vanger – cujas maiores pistas estão no testemunho de uma antiga amiga que estava presente à reunião familiar no fatídico dia de seu sumiço (interpretada por Joely Richardson) e em uma série de fotos encontradas pelo jornalista (e que servem como homenagem silenciosa ao cinema em si, graças à edição espetacular de Baxter e Wall). Por fim, existe o relacionamento entre o intrigado protagonista e a torturada e rebelde Lisbeth, que ele contrata para ajudá-lo em sua missão. O roteiro de Steven Zaillian costura todas as pontas com maestria, mergulhando a plateia em um suspense aterrador e claustrofóbico, sem pausas para piadinhas ou qualquer tipo de leveza – até mesmo o romance que se desenha entre Blomkvist e Salander é cercado de uma quase frieza que condiz com a bela paisagem da Suécia. Fincher conduz tudo como um maestro, sempre encontrando a melhor solução para cada cena, comprovando seu talento imenso em imprimir na tela uma visão realista do mundo que cerca os personagens – pode-se, inclusive, dizer que os gélidos cenários são um personagem a mais do filme, tamanha sua importância em enfatizar o clima soturno da história. Se o filme não é perfeito, a culpa é somente do clímax, que deixa de lado o tom mais cerebral imposto até então para apelar para o confronto físico entre mocinho e bandido – e mesmo assim, a direção de Fincher é tão poderosa que fica difícil se incomodar com o clichê.

Enorme sucesso de bilheteria, “Os homens que não amavam as mulheres” deveria ter sido o primeiro filme de uma trilogia, como aconteceu em forma de livro e produções suecas. Infelizmente, por inúmeras razões o projeto das continuações, que contariam com os mesmos protagonistas, acabou não saindo do papel, para tristeza dos fãs da história e de David Fincher – que seria imprescindível para a manutenção da qualidade do primeiro episódio. Mesmo assim, foi o pontapé inicial da carreira que promete ser bastante vitoriosa de Rooney Mara – que voltou a ser indicada ao Oscar, dessa vez como coadjuvante, por “Carol” (15) – e provou que Daniel Craig pode ir muito mais além de James Bond. Ficando com um papel para o qual foram considerados Johnny Depp, Viggo Mortensen, Brad Pitt e George Clooney, Craig saiu-se muito melhor que a encomenda, transformando Mikael Blomkvist em um de seus melhores e mais importantes trabalhos em Hollywood.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...