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sexta-feira

SHINE: BRILHANTE

SHINE: BRILHANTE (Shine, 1996, Fine Line Pictures, 104min) Direção: Scott Hicks. Roteiro: Scott Hicks, estória de Jan Sardi. Fotografia: Geoffrey Simpson. Montagem: Pip Karmel. Música: David Hirschfelder. Figurino: Louise Wakefield. Direção de arte/cenários: Vicki Niehus/Tony Cronin. Produção: Jane Scott. Elenco: Geoffrey Rush, Noah Taylor, Armin Mueller-Stahl, Lynn Redgrave, John Gielgud, Alex Rafalowicz, Marta Kaczmarek, Googie Withers. Estreia: 21/01/96 (Festival de Sundance)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Scott Hicks), Ator (Geoffrey Rush), Ator Coadjuvante (Armin Mueller-Stahl), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Geoffrey Rush)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Geoffrey Rush) 

Se é justo afirmar que todo gênio tem uma alma torturada, ninguém serve como maior exemplo disso do que o australiano David Helfgott: pressionado desde a infância a superar seu próprio brilhantismo ao piano, ele lutou bravamente para encontrar seu próprio caminho - a despeito dos desejos dúbios de seu pai superprotetor - e, mesmo depois de uma devastadora crise nervosa que o afastou dos palcos por décadas, nunca abandonou sua paixão pela música. A história de Helfgott - redescoberta depois de seu retorno aos holofotes - é inspiradora e emocionante, e como não poderia deixar de ser, interessou aos produtores de cinema. Para sorte de todos, porém, não foi Hollywood e sua tendência em exagerar na sacarose quem levou sua trajetória às telas. Produzido na Austrália e dirigido por um até então desconhecido cineasta e documentarista, "Shine: brilhante" estreou no Festival de Sundance em janeiro de 1996 e, desde então, passou a colecionar prêmios, principalmente devido à sua maior contribuição à sétima arte: a revelação do ator Geoffrey Rush às plateias.

Já na casa dos quarenta anos quando estrelou o filme de Scott Hicks - que nunca mais acertou a mão no cinema -, Rush era conhecido na Austrália por sua vitoriosa carreira nos palcos, mas foi sua interpretação como David Helfgott em sua fase madura que lhe abriu as portas de Hollywood. Seu desempenho não apenas o tornou um nome bem considerado pelos produtores como lhe rendeu todos os prêmios da temporada. Além da vitória junto aos críticos de Boston, Los Angeles e Nova York, ele ainda conquistou uma raríssima unanimidade junto às cerimônias de premiação mais populares: levou pra casa um Oscar, um Golden Globe, um BAFTA, uma estatueta do Critic's Choice Awards e a aprovação dos colegas com um Screen Actor Guild Award. Haja prateleira para tantos prêmios, mas é impossível negar que o desempenho de Rush é um dos pontos fortes de "Shine". Mesmo que ele mal apareça em cena até depois da metade da história (antes disso ele surge apenas no prólogo, que mostra ao público sua inusitada "redescoberta"), é ele quem fica na memória do espectador depois dos créditos finais, graças à excentricidade visceral de sua performance.


Antes que Rush surja na tela e domine o espetáculo, no entanto, outro ator - igualmente impecável em sua atuação - já prepara o terreno. Como o jovem Helfgott, o britânico Noah Taylor encara o desafio de dar vida ao pianista nos momentos mais críticos de sua jornada - seus embates com o pai, sua decolagem artística e a crise psiquiátrica que interrompeu sua carreira. Com segurança ímpar, Taylor percorre terrenos perigosos sem jamais cair em armadilhas ou clichês (mérito também da direção de Scott Hicks) e conquista a audiência com sua mistura de inocência e autoconfiança - um conjunto de qualidades que o empurra em direção ao abismo e à manipulação paterna. Armin Mueller-Stahl - indicado ao Oscar de ator coadjuvante - brilha no papel do patriarca Peter, um homem atormentado pelo passado em campos de concentração e que, apesar de acreditar no talento do filho (e incentivá-lo a ultrapassar seus limites), não concebe a possibilidade de separar a família, e com isso antecipa a tragédia que vem a seguir. Mais do que simplesmente abraçar o caminho mais fácil e fazer de seu personagem um vilão unidimensional, Mueller-Stahl concede a ele o dom de uma profundidade maior, em que cabe o medo, o amor e uma rigidez que nem sempre disfarça o orgulho do filho.

Interpretado ainda por Alex Rafalowicz em sua versão infantil, David Helfgott é um personagem quase inacreditável - e que chamou a atenção até mesmo do veterano Dustin Hoffman, que se interessou em interpretá-lo. Dono de uma personalidade peculiar, com trejeitos próprios e uma linguagem corporal pouco comum, o músico era um convite tentador ao exagero, mas "Shine" consegue o feito raro de contar sua história sem apelar para o sentimentalismo. Não à toa, conquistou a Academia de Hollywood e chegou à festa do Oscar com sete indicações, inclusive melhor filme, diretor e roteiro original - além das lembranças a Rush e Mueller-Stahl. A edição (que também concorreu à estatueta, mas perdeu para o grande vencedor do ano, "O paciente inglês") valoriza a estrutura da trama (que explora com inteligência o uso de flashbacks), e a trilha sonora, que conta com obras de Rachmanioff (das mais difíceis de se executar, segundo especialistas) como pano de fundo, são outros elementos cruciais para o sucesso do filme - que emociona, surpreende e encanta sem apelar para lágrimas fáceis. Um belo trabalho!

quinta-feira

HOLDING THE MAN

HOLDING THE MAN (Holding the man, 2015, Screen Australia/Goalpost Pictures, 127min) Direção: Neil Armfield. Roteiro: Tommy Murphy, livro de Timothy Conigrave. Fotografia: Germain McMicking. Montagem: Dany Cooper. Música: Alan John. Figurino: Alice Babidge. Direção de arte/cenários: Jo Ford/Rolland Pike. Produção executiva: Rosemary Blight, Ben Grant, Cameron Huang, Andrew Mackie, Richard Payten, Tristan Whaley. Produção: Kylie Du Fresne. Elenco: Ryan Corr, Craig Stott, Sarah Snook, Guy Pearce, Kerry Fox, Anthony LaPaglia, Camilla Ah Kin, Geoffrey Rush. Estreia: 14/6/15 (Festival de Sydney)

Em 1976, o aspirante a ator e escritor Tim se apaixonou perdidamente por John, seu colega de classe e capitão do time de futebol americano da escola. Durante 15 anos, seu relacionamento transformou-se de paixão colegial para um amor profundo e um companheirismo à toda prova - que desafiou preconceitos, brigas familiares e crises existenciais e sexuais. A única coisa que realmente impôs uma barreira intransponível entre eles foi a AIDS, ainda uma doença cuja cura ou tratamento eram apenas utopias médicas. Essa é a trama central de "Holding the man", filme australiano que conquistou seis indicações da Academia Australiana de Cinema em 2016 (incluindo melhor filme, diretor, ator e roteiro adaptado) e deu a Ryan Corr o prêmio de Melhor Ator do ano pela Associação de Críticos de Cinema do país. Mas, haja visto que nem o assunto nem seu enfoque são exatamente originais ou inovadores, o que faz da produção dirigida por Neil Armfield algo diferente de dezenas de outros filmes com temática LGBT lançados a cada ano? A resposta é simples: poucos desses filmes tratam sobre tais questões com tanta honestidade e sinceridade quanto este. Adaptado do livro escrito pelo próprio Timothy Conigrave, inspirado em sua própria história de amor, "Holding the man" pode não surpreender ou acrescentar muito à pauta homossexual no cinema, mas é emocionante o suficiente para merecer aplausos e respeito.

Lançado no Festival de Cinema de Sydney, "Holding the man" é uma feliz reunião de jovens talentos (Ryan Corr e Craig Stott como os dois rapazes apaixonados) com nomes já consagrados por Hollywood (Guy Pearce, Anthony LaPaglia e uma participação pequena mas especialíssima de Geoffrey Rush como um professor de teatro). Comandado pelo mesmo cineasta que deu a Heath Ledger um de seus papéis mais desafiadores - no drama "Candy", de 2006 - e narrado fora de ordem cronológica como forma de manter um tom confessional e emotivo, o romance entre Tim Conigrave  John Caleo atravessa mais de uma década acompanhando mudanças comportamentais e o começo da epidemia da AIDS - que os atinge impiedosamente. Tal característica permite ao diretor realizar uma crônica agridoce a respeito de um período crucial na luta pelos direitos gays, atacados violentamente pelo recrudescimento do preconceito, encorajado pela desinformação generalizada a respeito da doença. A ameaça - que começa sob a forma de entrevistas feitas por Tim com homens doentes, para a realização de uma peça de teatro - assume formas assustadoras quando inesperadamente toca o casal e, ao contrário do que se poderia esperar, o aproxima ainda mais. A partir daí, o roteiro vai e volta no tempo, iluminando a trajetória de seu casal protagonista enquanto enfrenta o desejo de aventurar-se em novas relações pessoais e profissionais. Não bastasse isso, o conservadorismo das famílias (em maior ou menor grau) também se impõe como barreira para sua felicidade completa.


A trama, que se estende de 1976 a 1991, é retratada por Neil Armfield com delicadeza e a dose certa de sensualidade - nada do puritanismo do cinema norte-americano nem tampouco os excessos de alguns autores europeus. O romance entre Tim e John, pela visão de Armfield, soa natural e verdadeiro, com o perfeito equilíbrio entre companheirismo e tesão, lealdade e paixão. Principalmente em seu terço final, quando o romance dá lugar ao drama, é impossível não acreditar na sinceridade do amor entre os dois - especialmente porque Ryan Corr alcança o tom ideal de seu personagem, dotando Tim de uma complexidade extremamente verossímil: vulnerável em certos momentos, impulsivo em outros e apaixonado em quase todos, o jovem ator convence em todas as fases da história, desde a adolescência até atingir a vida adulta, quando abandona a leveza do romance idílico para mergulhar no drama da doença e da angústia da perda iminente. Amparado por uma edição ágil e uma trilha sonora que não assume a protagonização apesar de ter sido escolhida a dedo, "Holding the man" cativa, mais do que tudo, pela honestidade que emana de cada cena, de cada diálogo, de cada questão levantada pelo roteiro (mérito também do livro que lhe deu origem, inédito no Brasil).

Mesmo que "Holding the man" não seja completamente inovador, é inegável que existe, dentro dele, uma história poderosa sobre amor, respeito e amizade. Segue as regras do cinema comercial, sim, mas faz isso sem medo de ser sentimental e sem tentar oferecer mais do que promete. Equilibrando os problemas românticos do casal central com as dificuldades familiares e sociais que os cercam, é um filme capaz de emocionar aos mais sensíveis e causar empatia em um mundo cada vez mais carente dessa qualidade tão importante. Não é um filme para mudar a história do cinema, mas é de suma importância e de uma delicadeza impar.

ELIZABETH: A ERA DE OURO


ELIZABETH, A ERA DE OURO (Elizabeth: The Golden Age, 2007, Universal Pictures, 114min) Direção: Shekar Kapur. Roteiro: William Nicholson, Michael Hirst. Fotografia: Remi Adefarasin. Montagem: Jill Bilcock. Música: Craig Armstrong, A.R. Rahman. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Guy Hendrix Dyas/Richard Roberts. Produção executiva: Liza Chasin, Debra Hayward, Michael Hirst. Produção: Tim Bevan, Jonathan Cavendish, Eric Fellner. Elenco: Cate Blanchett, Geoffrey Rush, Clive Owen, Samantha Morton, Abbie Cornish. Estreia: 12/10/07

2 indicações ao Oscar: Atriz (Cate Blanchett), Figurino
Vencedor do Oscar de Figurino

Se existe uma prova de que em Hollywood um raio dificilmente cai duas vezes no mesmo lugar - ao menos quando não se trata de franquias milionárias - essa prova é "Elizabeth, a era de ouro". Dando seguimento ao eletrizante primeiro capítulo sobre a filha de Henrique VIII e Ana Bolena que o indiano Shekar Kapur dirigiu em 1998 - e que concorreu a Oscars importantes como melhor filme e atriz - essa continuação não teve a mesma sorte. Massacrada pela crítica e rechaçada pelo público, essa segunda parte não conseguiu ser salva nem mesmo pelo trabalho mais uma vez esplêndido de Cate Blanchett no papel central. Arrastado, confuso e com uma história bem menos interessante, serve, no entanto, para provar que em certas coisas não é bom mexer.

Ao contrário do primeiro filme, que equilibrava com maestria os dramas pessoais de Elizabeth - sua paixão proibida pelo homem errado, a polêmica em torno de seu nome para assumir o trono - com as intrigas palacianas que tentavam derrubá-la do poder, o segundo volume da vida da monarca esbarra em uma falta de foco quase constrangedora. Enquanto narra de forma preguiçosa as batalhas engendradas pela Espanha católica com o intuito de acabar com o reinado da herege Elizabeth - com algumas cenas de ação bem fraquinhas e de gosto estético duvidoso - o roteiro também conta mais uma história de amor equivocada da rainha, que se apaixona perdidamente pelo misterioso e pouco confiável Walter Raleigh (Clive Owen tentando arrancar leite de pedra), que, por sua vez, encanta-se com uma protegida da corte.


Quando direciona sua trama para as guerras marítimas e para a história política da Inglaterra, o filme de Kapur derrapa em cenas sonolentas e pouco ágeis - que chegam inclusive a ser confusas. Quando vira seu foco para o romance hesitante entre Elizabeth e Raleigh, porém, o filme cresce. Não por obra e graça do roteiro - que soa como uma pálida cópia do primeiro exemplar - mas devido ao talento imenso de Cate Blanchett. Repetindo o papel que quase lhe deu o Oscar (que perdeu de forma absolutamente injusta para Gwyneth Paltrow), a irlandesa demonstra que é capaz de transformar um filme que poderia ser uma comédia de erros em um produto memorável. É quando Blanchett está em cena que tudo faz sentido, que tudo se ilumina, que tudo é engolido. Novamente indicada à estatueta por seu trabalho (no mesmo ano em que concorreu como coadjuvante na pele de Bob Dylan em "Não estou lá") e novamente derrotada (dessa vez de forma justa, para Marion Cottilard em "Piaf, um hino ao amor"), ela é o corpo e a alma do filme de Kapur.

Mas, no final das contas, Cate Blanchett consegue salvar o filme da desgraça total? Sim e não. Sim, porque ela é extraordinariamente capaz. Mas não é a única qualidade do filme, afinal de contas. O Oscar de figurino foi justo, a trilha sonora ainda é impactante, a direção de arte é impecável e o elenco coadjuvante também não faz feio (e Geoffrey Rush reprisa seu papel de Sir Francis Walsingham). Se não tivesse um original tão bom com o qual ser comparado até não seria tão ruim assim. Mas é, sem dúvida, o patinho feio da família.

quarta-feira

MUNIQUE


MUNIQUE (Munich, 2005, DreamWorks SKG/Universal Pictures/Amblin Entertainment, 164min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Tony Kushner, Eric Roth, livro "Vengeance: the true story of an israeli counter-terrorist team", de George Jonas. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Rick Carter/John Bush. Produção: Kathleen Kennedy, Barry Mendel, Steven Spielberg, Colin Wilson. Elenco: Eric Bana, Geoffrey Rush, Daniel Craig, Matthieu Kassovitz, Ciaran Hinds, Lynn Cohen, Hanns Zischler, Michael Lonsdale, Mathieuu Almaric, Moritz Bleibetreu, Mathieu Amalric, Niels Arestrup. Estreia: 23/12/05

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Steven Spielberg), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original

Ninguém tem dúvidas de que quando quer Steven Spielberg sabe muito bem como falar sério. Foi assim que ele conquistou seus dois Oscar de melhor diretor, por "A lista de Schindler" (93) e "O resgate do soldado Ryan" (98). E, não fosse Ang Lee e seu belo "O segredo de Brokeback Mountain" talvez o diretor mais bem-sucedido da história tivesse embolsado uma terceira estatueta por aquele que é seu filme  mais polêmico e provavelmente o mais desprovido de sentimentalismos: "Munique", a recriação de uma das vinganças mais chocantes da história política contemporânea. Ao recriar o triste episódio que foi consequência do famigerado "setembro negro", Spielberg deixou de lado a parcialidade e entregou um suspense aterrador, capaz de deixar a plateia roendo as unhas de tensão. E o melhor ainda: conseguiu equilibrar tudo com um roteiro coeso e espaço para discussões e dramas pessoais do protagonista, vivido com garra e emoção pelo ótimo Eric Bana.

Bana - coadjuvante que roubou a cena em "Tróia" e "Falcão negro em perigo" - foi a escolha perfeita de Spielberg para ser o protagonista de "Munique". Na pele de Avner, o jovem recrutado pela primeira-ministra Golda Meir (Lynn Cohen, a Magda da série de TV "Sex and the city" em caracterização excepcional), o ator transmite em igual intensidade medo, raiva, angústia, solidão e desespero, jamais permitindo que sua personagem caia na superficialidade. Ao focar sua trama não apenas nos violentos atos de vingança do governo israelense contra os responsáveis pelo massacre dos atletas judeus nas Olimpíadas de Munique em 1972 mas também nos conflitos éticos e religiosos de seu protagonista, o diretor atinge um ponto alto em sua carreira - que infelizmente não encontrou seu público.



Realizado em tempo recorde e sem maiores alardes, "Munique" se apresenta como um estupendo thriller político, magistralmente fotografado e editado e dono de um roteiro espetacular, baseado no livro do jornalista George Jonas. Ao contrário do que fez em "A lista de Schindler" - onde revestiu a violência com a poética fotografia em preto-e-branco de Janusz Kaminski - e em "O resgate do soldado Ryan" - onde a fotografia granulada jogava o espectador no meio da guerra - Spielberg não teve medo de explicitar a violência em "Munique". Mesmo que sejam visualmente deslumbrantes, as cenas de assassinato do filme são de uma crueza e de uma força jamais vista na obra do cineasta, que não hesita em mostrar a violêmcia como ela é, em especial nas sequências que descrevem as mortes dos atletas - espalhadas pelo filme como uma lembrança do ponto de partida da trama.

Mas se a chacina das Olimpíadas é o empurrão para a trama - afinal é ela que precisa ser vingada por Avner e seus companheiros de missão - não o é para os conflitos que são discutidos veemente durante a projeção. Em um ato de coragem e inteligência, Spielberg não toma partido - como nas ocasiões anteriores - e deixa que suas personagens e seus atos falem por si. É exemplar, por exemplo, a cena em que inimigos se encontram em uma casa abandonada e discutem sobre a situação política e religiosa de seus países: ninguém está certo, ninguém está errado, e o diretor conduz a sequência com uma neutralidade impressionante para quem assinou clássicos da manipulação sentimental como "A cor púrpura" e "Império do sol" (grandes filmes, sem dúvida, mas desprovidos de imparcialidade emocional).

"Munique" é, talvez, o grande filme de Steven Spielberg. Forte, contundente, chocante e tecnicamente perfeito - além de possibilitar grandes voos de interpretação de seu protagonista e de coadjuvantes de peso como Geoffrey Rush, Daniel Craig e Mathieu Kassovitz - é também um de seus mais subestimados trabalhos. Azar de quem perdeu um dos grandes suspenses políticos de todos os tempos.

sexta-feira

O AMOR CUSTA CARO

O AMOR CUSTA CARO (Intolerable cruelty, 2003, Universal Pictures, 100min) Direção: Joel Coen. Roteiro: Joel Coen, Ethan Coen, Robert Ramsey, Matthew Stone, estória de Robert Ramsey, Matthew Stone, John Romano. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Roderick Jaynes (Joel e Ethan Coen). Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Leslie McDonald/Nancy Haigh. Produção executiva: Sean Daniel, James Jacks. Produção: Ethan Coen, Brian Grazer. Elenco: George Clooney, Catherine Zeta-Jones, Billy Bob Thornton, Geoffrey Rush, Cedric the Entertainer, Richard Jenkins. Estreia: 30/9/03

O advogado Miles Massey (George Clooney) é famoso por nunca ter perdido um único caso em sua especialidade: divórcios. Criador do mais popular pacto pré-nupcial conhecido, Massey consegue o impossível sem maiores esforços, e contando com sua defesa, os homens podem ficar tranqüilos em relação a seus bens, mesmo em ruidosas separações. A vida boa e pacata de Massey começa a dar pra trás, no entanto, quando ele tem que enfrentar no tribunal a bela Marilyn Rexroth (Catherine Zeta-Jones), que busca uma compensação financeira coerente com a humilhação de ter sido traída por seu marido. Assim que os dois se vêem, saltam fagulhas, mas Massey ainda é um profissional e ganha a causa. Sentindo-se traída, a estonteante e ambiciosa Marilyn promete vingança e usar o fascínio que ela desperta no advogado não parece estar fora de seus planos

É difícil acreditar que este filme, tão linear, simples e sem maiores arroubos de criatividade visual e de edição é um produto dos irmãos Coen. Quase nada do que fez a fama dos diretores de “Fargo” e “Arizona nunca mais” está aqui. Mas veja bem, quase nada. Ainda dá pra entrever seus delírios em detalhes, como a extraordinária seqüência em que o personagem de Clooney (claramente se divertindo em seu papel de arrogante e presunçoso advogado sedutor) impede um assassinato – uma cena, aliás, com um final irônico típico dos seus criadores. Outro detalhe nitidamente do estilo Coen de cinema: o personagem do advogado mentor de Clooney, que vive sem intestino (!!).

         

Mas o fato é que desta vez os diretores, especializados em tipos bizarros e em demolir tradicionais gêneros hollywoodianos, pegaram leve e acertadamente preferiram contar a divertida história de amor e ódio entre Miles e Marilyn sem maiores arroubos de criatividade, que poderiam desviar a atenção da vingança urdida pela vítima (uma vingança de deixar qualquer um com um baita sorriso no rosto). Outro acerto da dupla foi na escolha dos protagonistas: Clooney nunca esteve tão à vontade em cena, brincando com sua própria imagem de galã e Zeta-Jones, recém saída do Oscar de coadjuvante por “Chicago” cala a boca de qualquer detrator com uma atuação cínica, debochada e mais do que tudo, extremamente sensual. A química entre os dois é excepcional, e amparados por um roteiro engraçado e surpreendente, eles fazem de “O amor custa caro” um exemplar muitos níveis acima de seus congêneres. Bravo!

segunda-feira

CONTOS PROIBIDOS DO MARQUÊS DE SADE

CONTOS PROIBIDOS DO MARQUÊS DE SADE (Quills, 2000, Fox Searchlight Pictures, 124min) Direção: Phillip Kaufman. Roteiro: Doug Wright, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Rogier Stoffers. Montagem: Peter Boyle. Música: Stephen Warbeck. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Martin Childs/Jill Quertier. Produção executiva: Des McAnuff, Sandra Schulberg, Rudolf Wiesmeier. Produção: Julia Chasman, Peter Kaufman, Nick Wechsler. Elenco: Geoffrey Rush, Kate Winslet, Joaquin Phoenix, Michael Caine, Stephen Moyer, Amelia Warner, Stephen Marcus. Estreia: 22/11/00

3 indicações ao Oscar: Ator (Geoffrey Rush), Figurino, Direção de Arte/Cenários

Para T.

Donatien Alphonse François de Sade, mais conhecido como Marquês de Sade foi um dos mais brilhantes escritores que a França conheceu. Aristocrata de nascimento,  Sade tinha no Napoleão Bonaparte um de seus inimigos mais ferrenhos, tendo sido aprisionado diversas vezes não apenas durante o regime do imperador, mas também pelos revolucionários de 1789 – que aparentemente tinham de rebeldes apenas o nome. Quem já teve a oportunidade de ler alguma de suas famigeradas obras – como “Os 120 dias de Sodoma”, “Justine” e “Contos libertinos” – comprovou, sem a menor sombra de dúvida, que mesmo nos dias devassos de hoje, o seu texto, extremamente detalhado e gráfico em suas descrições sexuais, é bastante forte e ainda chocante. Dá pra imaginar, então, o impacto que seus escritos tinham em sua época. E dá também para entender os motivos que levaram o escritor a ser internado em um sanatório e proibido de publicar seus textos. E é precisamente nesse período de sua biografia que se concentra o filme “Contos proibidos do Marquês de Sade”, dirigido com a elegância habitual de Philip Kaufman – que, a exemplo de um seus filmes mais célebres, “Henry & June”, usa o erotismo como aditivo a uma trama já explosiva o bastante.

Baseado em uma peça teatral homônima escrita pelo próprio roteirista Doug Wright, o filme de Kaufman mostra o Marquês (vivido com exuberância pelo ótimo Geoffrey Rush, indicado ao Oscar por seu magnífico trabalho) prisioneiro no asilo Chareton e impedido de publicar seus trabalhos. A proibição, porém, não surte maiores efeitos, pois o escritor consegue contrabandear suas histórias através da bela camareira Madeleine (a sempre excelente Kate Winslet), que, incentivada pela leitura do Marquês, encontra forças para declarar seu amor ao Abade Coulmier (Joaquin Phoenix), responsável pelo sanatório. A repressão ao trabalho do famoso hóspede recrudesce quando chega ao local o radical alienista Royer-Collard (Michael Caine, impecável), enviado pelo próprio Napoleão para calar de vez o escritor.


Amparados por diálogos inteligentes (herança de sua origem teatral) e por uma reconstituição de época competente, Kaufman dirige um elenco de sonhos. O trabalho sensacional de Rush encontra eco na sensível atuação de Kate Winslet, na performance irônica de Michael Caine e um elenco de coadjuvantes sem elos fracos. Até mesmo a edição de Peter Boyle consegue extrair um ritmo cinematográfico de um roteiro que tem nas palavras a base de sua qualidade. São as palavras do Marquês, em busca incessante de exercer seu direito à liberdade de expressão que envolvem as personagem em um ciclo de desejo, inveja e traição que nem mesmo a leveza de seu humor (nigérrimo, obviamente) consegue impedir de chegar a uma tragédia anunciada. São as palavras do autor – sempre verdadeiras, ainda que muitas vezes vulgares e até mesmo excitantes – que criam a atmosfera perfeita para uma desgraça em grande escala que vitima até mesmo as mais inocentes criaturas.

“Contos proibidos do Marquês de Sade” é, sem dúvida, um dos filmes mais impactantes da carreira de Philip Kaufman – e sendo ele o diretor de “A insustentável leveza do ser” isso não é pouca coisa. É um trabalho que consegue ser erótico, sedutor, engraçado e triste sem nunca deixar de ser o que promete desde suas primeiras cenas: um espetáculo ousado e inteligente.

quinta-feira

SHAKESPEARE APAIXONADO

SHAKESPEARE APAIXONADO (Shakespeare in love, 1998, Universal Pictures/Miramax Films, 123min) Direção: John Madden. Roteiro: Marc Norman, Tom Stoppard. Fotografia: Richard Greatrex. Montagem: David Gamble. Música: Stephen Warbeck. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Martin Childs/Jill Quertier. Produção executiva: Julie Goldstein, Bob Weinstein. Produção: Donna Gigliotti, Marc Norman, David Parfitt, Harvey Weinstein, Edward Zwick. Elenco: Joseph Fiennes, Gwyneth Paltrow, Judi Dench, Colin Firth, Geoffrey Rush, Tom Wilkinson, Ben Affleck, Rupert Everett, Imelda Staunton, Simon Callow. Estreia: 11/12/98

13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (John Madden), Atriz (Gwyneth Paltrow), Ator Coadjuvante (Geoffrey Rush), Atriz Coadjuvante (Judi Dench), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Comédia ou Musical, Figurino, Direção de arte/cenários, Maquiagem, Som
Vencedor de 7 Oscar: Melhor Filme, Atriz (Gwyneth Paltrow), Atriz Coadjuvante (Judi Dench), Roteiro Original, Trilha Sonora Original/Comédia ou Musical, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Comédia ou Musical, Atriz/Comédia ou Musical (Gwyneth Paltrow), Roteiro

Em 1999, quando a comédia "Shakespeare apaixonado" levou o Oscar de Melhor Filme, os fãs de cinema que ainda não estavam acostumados com as idiossincrasias da Academia ficaram chocados e frustrados. Afinal de contas, perguntavam todos, como um filme tão leve e de interesse quase restrito - convenhamos que Shakespeare não é exatamente um nome que atraia audiências em massa para as salas de cinema - poderia ter sido eleito o melhor do ano, batendo obras tão fortes como "O resgate do soldado Ryan" e "Além da linha vermelha" (o supervalorizado filme de Terrence Malick com elenco grandioso e ritmo inexistente)? A maior surpresa, no entanto, advém de um simples fato: com exceção do prêmio de melhor atriz para Gwyneth Paltrow (que tem uma presença luminosa mas nunca espetacular), todas as 7 estatuetas que o filme de John Madden foram absolutamente merecidas. Sim, é uma comédia e é raro que o gênero seja reconhecido em cerimônias de premiação. Sim, seu diretor é correto mas nunca eficiente. E sim, talvez o drama de guerra de Steven Spielberg seja mais marcante. Mas a fictícia história de amor que envolve o maior dramaturgo da história com uma jovem prometida a outro homem é um romance engraçado e inteligente, capaz de estampar sorrisos no rosto do mais cético espectador.

Escrito por Marc Norman e Tom Stoppard, especialistas na obra do dramaturgo - o segundo inclusive é autor da peça teatral "Rosencrantz e Guildenrstern estão mortos" (cujos protagonistas são dois coadjuvantes de "Hamlet", e que virou filme estrelado por Gary Oldman e Tim Roth) - "Shakespeare apaixonado" está recheado de referências a trabalhos do bardo, de forma explícita ou nem tanto e aos costumes da época em que se passa, além de enxertar no texto personagens reais como o teatrólogo Christopher Marlowe (em uma rápida aparição do ótimo Rupert Everett). Apresentando também uma leve crítica à maneira machista como o teatro era tratado (mulheres eram proibidas de atuar, sendo os papéis femininos representados por adolescentes do sexo masculino), o filme brinca de maneira leve com os bastidores teatrais - talvez tenham vindo daí muitos dos votos, afinal boa parte da Academia é formada por atores - e especula a respeito da criação de um dos mais conhecidos textos de Shakespeare, "Romeu e Julieta".

A trama começa mostrando um jovem William Shakespeare (interpretado com graça e leveza por Joseph Fiennes) enfrentando um tremendo bloqueio criativo justamente quando é pressionado pelo aflito Philip Henslowe (Geoffrey Rush, indicado ao Oscar de coadjuvante), que precisa urgentemente de uma nova peça sob pena de sofrer nas mãos de seus credores. Sem saber que rumos dar à sua nova história, intitulada "Romeu e Ethel, a filha do pirata", o autor frequenta analistas, faz simpatias e busca dicas até mesmo de outros dramaturgos. A situação muda quando ele encontra uma musa inspiradora, a bela Viola de Lesseps (Gwyneth Paltrow), por quem se apaixona perdidamente sem saber que ela se disfarça de homem, sob o nome de Thomas Kent, para atuar em segredo em suas peças de teatro. Quando o engano é descoberto, eles iniciam um ardente romance, ameaçado pelo fato de a moça ser prometida ao nobre Lord Wessex (Colin Firth). Sua história de amor acaba influenciando sua obra, que passa de uma comédia ligeira - com um cão, como mandava o público - a uma intensa tragédia.


Inspirado na famosa dúvida sobre a musa para quem Shakespeare escreveu a maior parte de seus sonetos de amor, o filme de John Madden (que nunca chegou a manter o mesmo equilíbrio em seus trabalhos posteriores) se beneficia de um elenco impecável para atingir seu alto grau de entretenimento. Bastou oito minutos em cena para que Judi Dench tenha levado o Oscar de coadjuvante e Gwyneth Paltrow, se ofendeu os fãs de Meryl Streep, Fernanda Montenegro, Emily Watson e Cate Blanchett, não tem culpa nenhuma: seu trabalho é delicado, discreto e carismático, apesar de nunca ser brilhante ou inesquecível. Vale lembrar que, quando "Shakespeare apaixonado" começou a ser produzido, no início da década de 90, era Julia Roberts quem faria seu papel, ao lado de Daniel Day-Lewis. O ator preferiu ir fazer "Em nome do pai", o diretor Edward Zwick pulou fora do projeto e tudo ficou engavetado. Paltrow abocanhou o papel depois da recusa de Kate Winslet - e das prováveis candidatas Winona Ryder, Meg Ryan e Jodie Foster - e realizou um trabalho que lhe garantiu uma estatueta (mas não necessariamente um respeito unânime). Mas é bom também elogiar sua química com Joseph Fiennes, que, seguindo os passos do irmão mais velho, Ralph, esteve em dois filmes de grande visibilidade em 1998 - o outro foi "Elizabeth" - e conseguiu fazê-los de maneira convincente. Pena que o resto de sua carreira não manteve o mesmo nível.

Com uma trilha sonora deliciosa, uma edição extremamente eficaz e uma reconstituição de época impecável - além de um texto saboroso - "Shakespeare apaixonado" é uma pérola de criatividade e inteligência. Mereceu, sim, o Oscar de Melhor Filme.

terça-feira

ELIZABETH

ELIZABETH (Elizabeth, the Virgin Queen, 1998, Polygram Filmed Entertainment/Working Title Productions, 124min) Direção: Shekar Kapur. Roteiro: Michael Hirst. Fotografia: Remi Adefarasian. Montagem: Jill Bilcock. Música: David Hirschfelder. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: John Myhre/Peter Howitt. Produção: Tim Beavan, Eric Fellner, Alison Owen. Elenco: Cate Blanchett, Geoffrey Rush, Joseph Fiennes, Christopher Eccleston, Richard Attenborough, Fanny Ardant, Vincent Cassell, Daniel Craig, Kelly MacDonald, Emily Mortimer, Eric Cantona, Kathy Burke. Estreia: 13/10/98

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Cate Blanchett), Fotografia, Trilha Sonora Original/Drama, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Maquiagem
Vencedor do Oscar de Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Cate Blanchett)

É impressionante a capacidade que Hollywood tem de surpreender os fãs de cinema e apresentar astros e estrelas (ou ainda melhor, atores e atrizes de verdade) que surgem aparentemente do nada e se revelam a partir de então indispensáveis. Em 1999 isso aconteceu com uma irlandesa de nome Cate Blanchett. Protagonista de filmes pouco vistos pelo grande público - como "Oscar & Lucinda", com Ralph Fiennes - ela assombrou as plateias com sua impecável atuação em "Elizabeth", dirigido pelo indiano Shekhar Kapur. Na pele de uma das mais conhecidas monarcas do mundo, ela arrebatou um Golden Globe de melhor atriz dramática e deve estar até hoje se perguntando como é que foi perder o Oscar para Gwyneth Paltrow em "Shakespeare apaixonado". Dona de uma beleza não particularmente óbvia, Blanchett é o corpo e a alma do trabalho de Kapur, que, com um roteiro ágil de Michael Hirst, injeta adrenalina e sensualidade em um gênero que sofre grande preconceito da plateia mais jovem: os filmes de época.

Em 1558, a Inglaterra está em um período de grave crise econômica e religiosa, com a divisão violenta entre católicos e protestante. Quando a rainha Mary (Kathy Burke), católica, morre, ela deixa o trono nas mãos de sua irmã bastarda, Elizabeth (Cate Blanchett), filha de Henrique VIII e Ana Bolena. Protestante e portanto considerada herege, a jovem monarca passa a sofrer pressões para casar-se e ter filhos, para afirmar-se como líder de país em vias de entrar em conflito armado. Contando com o apoio do misterioso Sir Francis Walsingham (Geoffrey Rush) e a inimizade declarada do cruel Duque de Norfolk (Christopher Eccleston), ela desdenha da ideia de tornar-se esposa de qualquer homem que não seja aquele por quem é apaixonada, Robert Dudley (Joseph Fiennes).


O roteiro de Hirst acerta em concentrar seu foco nas intrigas palacianas mais do que nos problemas políticos da Inglaterra do período, o que poderia tornar tudo muito enfadonho para quem não tem domínio do assunto. Enquanto Norfolk trama sangrentas campanhas para destituir Elizabeth do trono, ela se deixa fragilizar pelo amor que sente por Dudley, um amor que será fundamental para que ela consiga perceber a importância da lealdade e da fidelidade. A transformação de Elizabeth - de jovem quase ingênua a uma das mulheres mais poderosas do mundo - é o grande trunfo do filme, e essa transição é interpretada com uma segurança ímpar por Blanchett, que lidera um elenco espetacular com desenvoltura e paixão. Ao lado de um discreto Geoffrey Rush (cuja personagem se mantém interessantemente dúbia por boa parte da projeção), de um sedutor Joseph Fiennes e de um assustador Christopher Eccleston, ela comanda um show de história e boa dramaturgia.

A caprichada reconstituição de época de "Elizabeth" é outro destaque do filme. O figurino impecável de Alexandra Byrne e a direção de arte de John Myhre (ambos indicados ao Oscar) não chamam a atenção para si mesmos, o que sempre é bastante elogiável, uma vez que filmes de época em muitas ocasiões dão mais atenção ao visual do que à trama. O castelo da rainha, os calabouços e todos os demais cenários são brilhantes exatamente porque parecem reais e não apenas construções artificiais. E a força da música original de David Hirschfelder dá o tom perfeito para a força da história desde as cenas iniciais que mostram os efeitos da Inquisição até seu desenlace, quando acontece definitivamente o nascimento da Rainha Elizabeth que liderou a Inglaterra até seu áureo período, chamado de "A era de ouro" - e que deu origem a uma sequência, realizada em 2007 sem a mesma qualidade do primeiro capítulo.

"Elizabeth" é um filme adulto, que trata a plateia com respeito e inteligência, sem romancear excessivamente o lado romântico da história e, ao mesmo tempo, buscando a aprovação de um público mais exigente. E é também um dos mais interessantes retratos de uma época fascinante em termos históricos e sociais. Contando ainda com uma avassaladora atuação da grandiosa Cate Blanchett, é programa obrigatório para os fãs do bom cinema histórico.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...