FOME DE PODER (The founder, 2016, The Weinstein Company, 115min) Direção: John Lee Hancock. Roteiro: Robert Siegel. Fotografia: John Schwartzman. Montagem: Robert Frazen. Música: Carter Burwell. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Michael Corenblith/Susan Benjamin. Produção executiva: Glen Blasner, Holly Brown, Alison Cohen, David Glasser, David S. Greathouse, William D. Johnson, Christos V. Konstankapoulos, Karen Lunder, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Don Handfield, Jeremy Renner. Elenco: Michael Keaton, Laura Dern, John Carroll Lynch, Nick Offerman, Linda Cardellini, B.J. Novak, Patrick Wilson. Estreia: 24/11/16
Histórias de bastidores - como "A rede social", de David Fincher, sobre Mark Zuckerberg, criador do Facebook - sempre mostram que nem sempre a ética e a honestidade são os pilares para a construção de impérios. "Fome de poder", que narra a trajetória do homem que supostamente fundou a rede de fast food mais conhecida do mundo, o McDonald's, corrobora essa triste constatação. Dirigido pelo mesmo John Lee Hancock que contou histórias reais em "Um sonho possível" (2009), "Walt nos bastidores de 'Mary Poppins' (2014) e "Um homem entre gigantes" (2016), o filme, que tem o ator Jeremy Renner como um dos produtores, teve seus direitos de distribuição comprados pela Weinstein Company por sete milhões de dólares mas, mesmo lançado na temporada de possíveis indicados ao Oscar, passou em brancas nuvens pelos olhos tanto da Academia quanto do público, que não pareceu se interessar muito pelo assunto, apesar da presença de Michael Keaton no papel principal.
Continuando a boa fase inaugurada por sua performance indicada ao Oscar, no premiado "Birdman" (2014), Michael Keaton apresenta mais um trabalho bastante interessante - ainda que seu personagem não seja lá muito simpático - e, de certa forma, comanda o tom e o ritmo do filme de Hancock. Assumindo o papel que Tom Hanks (a primeira escolha dos produtores) recusou, o infame Beetlejuice parece estar se divertindo como nunca na pele do amoral Ray Kroc, um vendedor externo de equipamentos para lanchonetes que, cansado de fracassar em todas as suas tentativas de tornar-se independente financeiramente, descobre uma mina de ouro no restaurante de fast food de dois irmãos ambiciosos mas pouco dispostos a burlar seus ideais éticos. A trama começa em 1954, quando, durante uma viagem a negócios, Kroc conhece o McDonald's, de propriedade de Richard (Nick Offerman) e Maurice McDonald (John Carroll Lynch) e concebido pelos próprios irmãos, com diretrizes rígidas de qualidade - diferente de outras redes, o estabelecimento preza pela agilidade, bom atendimento e pela forma original de sua loja, localizada em San Bernardino, no estado da Califórnia. Intuindo que pode ganhar muito dinheiro explorando a franquia da marca, construindo lojas em outros estados do país, Kroc consegue convencer os McDonalds a lhe darem a autorização necessária para expandir o negócio. E é aí que as coisas saem do controle dos ingênuos empresários e mostram o verdadeiro caráter de seu novo sócio.
Pouco afeitos a dirigirem roteiros alheios, os irmãos Ethan e Joel Coen estiveram bem perto de assinar a direção de "Fome de poder", tamanho o seu entusiasmo pelo script de Robert Siegel, considerado um dos melhores inéditos de 2014. A dupla de diretores só não se manteve à frente do projeto porque já estavam trabalhando em "Ave, Cesar" - o que permitiu a John Lee Hancock ter em mãos um projeto que, segundo o próprio Siegel, era uma mistura entre "A rede social" (2010) e "Sangue negro"(2007) - elogiado drama de Paul Thomas Anderson sobre a ambição desmedida de um homem (vivido por um oscarizado Daniel Day-Lewis). Ao contrário de suas fontes de inspiração, porém, "Fome de poder" fica no meio termo entre a modernidade do primeiro (que deu um Oscar à Aaron Sorkin) e a densidade do segundo, baseado em um livro de Sinclair Lewis: consistente, mas sem maiores ousadias formais ou narrativas, a trama se desenvolve sem sobressaltos, mas deixa transparecer com facilidade sua carência em cativar o público por completo. Não há nada de errado no filme, mas ele tampouco consegue atingir todas as suas possibilidades - culpa talvez da direção burocrática de Hancock ou da personalidade francamente desagradável de seu protagonista.
Talvez a opção de colocar Tom Hanks no papel central fosse mais acertada do que a escolha de Michael Keaton: Hanks, com seu jeito de bom moço e carisma à toda prova tinha grandes chances de driblar as características menos simpáticas de Ray Kroc e torná-lo um personagem mais palatável ao gosto do público médio. Já Michael Keaton demonstra total intimidade com seu lado sombrio e pouco confiável - nem mesmo a esposa, vivida por Laura Dern, é poupada em sua trajetória. Do vendedor simpático e atencioso do começo do filme até o implacável empresário do final - quando finalmente mostra suas reais intenções de apossar-se da marca criada pelos irmãos McDonald - o trajeto de Kroc é ilustrado por Keaton com entusiasmo de principiante: apesar de não abrir mão de alguns de seus tiques mais conhecidos, o Batman de Tim Burton consegue se distanciar de seus personagens mais conhecidos e criar um anti-herói dos mais questionáveis, algo como o jornalista vivido por Kirk Douglas em "A montanha dos sete abutres" ou o polêmico editor da revista Hustler, interpretado por Woody Harrelson em "O povo contra Larry Flynt" (1996). São homens falhos em caráter, mas dotados de força de vontade e inteligência suficientes para encobrir seus defeitos mais óbvios. Mesmo sem ter conseguido empurrar "Fome de poder" aos tapetes vermelhos de sua temporada, Keaton é o grande destaque do filme e mantém o interesse do público até os minutos finais. Uma boa pedida para quem gosta de saber dos podres das grandes empresas.
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O CONTO
O CONTO (The tale, 2018, HBO Films, 114min) Direção e roteiro: Jennifer Fox. Fotografia: Denis Lenoir, Ivan Starsburg. Montagem: Anne Fabini, Alex Hall, Gary Levy. Música: Ariel Marx. Figurino: Tricia Gray. Direção de arte/cenários: Debbie DeVilla/Kelly D. Mills. Produção executiva: Julie Parker Benello, Dan Cogan, Abigail Disney, Geralyn White Dreyfos, Wendy Ettinger, Ali Jazayeri, Jayme Lemons, Ross Marosso, Ben McConley, Amy Rodrigue, David Van Eman, Jason Van Eman. Produção: Sol Bondy, Jennifer Fox, Lawrence Inglee, Mynette Louie, Oren Moverman, Simone Pero, Reka Posta, Laura Rister, Lynda Weiman. Elenco: Laura Dern, Ellen Burstyn, Frances Conroy, Common, Jason Ritter, Elizabeth Debicki, Laura Allen, John Heard. Estreia: 20/01/18 (Festival de Sundance)
É preciso muita coragem para transformar um trauma em uma obra de arte. Mais do que coragem, é preciso talento para não fazer de sua obra apenas uma sessão de análise maçante e egocêntrica. E mais do que talento, é preciso sensibilidade para fazer de seus fantasmas a matéria-prima de um produto forte, ousado e ao mesmo tempo poético e perturbador. E a documentarista Jennifer Fox demonstra, em seu primeiro longa de ficção, "O conto", ter todas essas qualidades indispensáveis a quem procura conquistar sua plateia sem abrir mão da inteligência. Inspirada em fatos pouco agradáveis da vida da própria diretora e roteirista, a produção da HBO, acabou sendo o filme certo na hora certa: ecoando o movimento #MeToo surgido em Hollywood depois de uma série de denúncias sobre assédio sexual, "O conto" serve como a ilustração perfeita de um momento crucial na indústria do entretenimento - mas nem por isso deixa de ser, acima de tudo, um filme excepcional, tanto em termos políticos quanto artísticos. Não à toa, foi uma das produções mais elogiadas de 2018, especialmente devido à atuação gigantesca de Laura Dern, em um dos melhores momentos de sua vitoriosa carreira.
"O conto" foge de uma narrativa convencional ao optar por fazer de sua protagonista, Jennifer, os olhos e a memória da trama que vai se desenrolando diante dos olhos do público. Da mesma forma que as recordações da personagem vão surgindo - e muitas vezes substituindo outras até então arraigadas em seu subconscientes -, a plateia vai descobrindo, junto com ela, a verdade sobre fatos escondidos sob a névoa de um romantismo manipulado. O roteiro e a direção, impecáveis, equilibram o realismo com o lúdico, intercalando passado, presente e a imaginação com delicadeza ímpar. É uma providência de extrema importância, uma vez que o tema do filme é indigesto e francamente triste - mas retratado com a sofisticação e a sensibilidade de quem sabe o que está falando. A coragem de Jennifer Fox em expor uma experiência tão dolorosa é de suprema importância social, mas seu maior mérito é indubitavelmente artístico: mesmo com origem no universo dos documentários, ela transita com desenvoltura na linguagem de ficção, evitando as armadilhas do melodrama e demonstrando grande senso de ritmo e fluência - além de uma habilidade rara de criar personagens complexos e verossímeis.
Assim como a Jennifer da vida real, a protagonista de "O conto", Jenny, é uma documentarista bem-sucedida. Vive um relacionamento estável com o fotógrafo Martin (Common), dá aulas em uma universidade e está trabalhando em um filme sobre abuso sexual em mulheres de países do terceiro mundo. Sua rotina é quebrada quando sua mãe, Nettie (Ellen Burstyn) lhe telefona, preocupada: ela acaba de descobrir, entre antigos pertences da filha, um trabalho escolar onde a então adolescente de 13 anos descrevia um relacionamento amoroso com um homem mais velho. Sem dar muita importância às angústias da mãe, Jennifer relê seu conto e começa a relembrar acontecimentos de sua infância, quando, ainda criança (e interpretada por Isabelle Nélisse ), foi envolvida em um jogo de sedução por sua professora de equitação, Sra. G (Elizabeth Debicki) e um instrutor de ginástica que trabalhava a seu lado, Bill Allen (Jason Ritter). Aos poucos suas memórias começam a ficar mais claras e ela percebe que, apesar de realmente ter considerado o fato como uma história de amor, sua inocência foi um fator determinante para uma série de abusos sexuais. Nesse caminho, ela reencontra personagens importantes de seu passado, inclusive outras mulheres que também podem ter sido vítimas da dupla.
Jennifer Fox conduz seu filme como um pesadelo à luz do dia. Sem apelar para clichês visuais, ela penetra no sofrimento de sua protagonista sem forçar o espectador a tirar suas conclusões de forma antecipada. Sua narrativa suave, que contrasta com a dureza das revelações que vão surgindo durante o trajeto de Jenny. Sem demonizar os abusadores ou carregar nas tintas de seus desvios de caráter, ela apresenta inclusive uma certa condescendência em relação a ambos, até o desfecho visceral e adequado como uma catarse. Filmando sempre de forma a manter a elegância e a sensibilidade (mesmo diante de situações desconfortáveis), Fox mostra que não é preciso ser panfletária ou radical para se tratar de assuntos delicados - seu filme é um grito de revolta, sim, mas orientado de forma correta e contundente. Se Jenny julgava ter saído incólume de suas experiências infantis, o filme de Jennifer demonstra que nem sempre as cicatrizes são visíveis ou óbvias - mas são indeléveis e, mesmo soterradas pelo tempo, jamais curam completamente. "O conto" é um filme obrigatório, não apenas pelo tema, mas também porque é dramaturgia de primeira qualidade, antenado com seu tempo e certamente destinado a tornar-se um pequeno clássico. Bravo!
É preciso muita coragem para transformar um trauma em uma obra de arte. Mais do que coragem, é preciso talento para não fazer de sua obra apenas uma sessão de análise maçante e egocêntrica. E mais do que talento, é preciso sensibilidade para fazer de seus fantasmas a matéria-prima de um produto forte, ousado e ao mesmo tempo poético e perturbador. E a documentarista Jennifer Fox demonstra, em seu primeiro longa de ficção, "O conto", ter todas essas qualidades indispensáveis a quem procura conquistar sua plateia sem abrir mão da inteligência. Inspirada em fatos pouco agradáveis da vida da própria diretora e roteirista, a produção da HBO, acabou sendo o filme certo na hora certa: ecoando o movimento #MeToo surgido em Hollywood depois de uma série de denúncias sobre assédio sexual, "O conto" serve como a ilustração perfeita de um momento crucial na indústria do entretenimento - mas nem por isso deixa de ser, acima de tudo, um filme excepcional, tanto em termos políticos quanto artísticos. Não à toa, foi uma das produções mais elogiadas de 2018, especialmente devido à atuação gigantesca de Laura Dern, em um dos melhores momentos de sua vitoriosa carreira.
"O conto" foge de uma narrativa convencional ao optar por fazer de sua protagonista, Jennifer, os olhos e a memória da trama que vai se desenrolando diante dos olhos do público. Da mesma forma que as recordações da personagem vão surgindo - e muitas vezes substituindo outras até então arraigadas em seu subconscientes -, a plateia vai descobrindo, junto com ela, a verdade sobre fatos escondidos sob a névoa de um romantismo manipulado. O roteiro e a direção, impecáveis, equilibram o realismo com o lúdico, intercalando passado, presente e a imaginação com delicadeza ímpar. É uma providência de extrema importância, uma vez que o tema do filme é indigesto e francamente triste - mas retratado com a sofisticação e a sensibilidade de quem sabe o que está falando. A coragem de Jennifer Fox em expor uma experiência tão dolorosa é de suprema importância social, mas seu maior mérito é indubitavelmente artístico: mesmo com origem no universo dos documentários, ela transita com desenvoltura na linguagem de ficção, evitando as armadilhas do melodrama e demonstrando grande senso de ritmo e fluência - além de uma habilidade rara de criar personagens complexos e verossímeis.
Assim como a Jennifer da vida real, a protagonista de "O conto", Jenny, é uma documentarista bem-sucedida. Vive um relacionamento estável com o fotógrafo Martin (Common), dá aulas em uma universidade e está trabalhando em um filme sobre abuso sexual em mulheres de países do terceiro mundo. Sua rotina é quebrada quando sua mãe, Nettie (Ellen Burstyn) lhe telefona, preocupada: ela acaba de descobrir, entre antigos pertences da filha, um trabalho escolar onde a então adolescente de 13 anos descrevia um relacionamento amoroso com um homem mais velho. Sem dar muita importância às angústias da mãe, Jennifer relê seu conto e começa a relembrar acontecimentos de sua infância, quando, ainda criança (e interpretada por Isabelle Nélisse ), foi envolvida em um jogo de sedução por sua professora de equitação, Sra. G (Elizabeth Debicki) e um instrutor de ginástica que trabalhava a seu lado, Bill Allen (Jason Ritter). Aos poucos suas memórias começam a ficar mais claras e ela percebe que, apesar de realmente ter considerado o fato como uma história de amor, sua inocência foi um fator determinante para uma série de abusos sexuais. Nesse caminho, ela reencontra personagens importantes de seu passado, inclusive outras mulheres que também podem ter sido vítimas da dupla.
Jennifer Fox conduz seu filme como um pesadelo à luz do dia. Sem apelar para clichês visuais, ela penetra no sofrimento de sua protagonista sem forçar o espectador a tirar suas conclusões de forma antecipada. Sua narrativa suave, que contrasta com a dureza das revelações que vão surgindo durante o trajeto de Jenny. Sem demonizar os abusadores ou carregar nas tintas de seus desvios de caráter, ela apresenta inclusive uma certa condescendência em relação a ambos, até o desfecho visceral e adequado como uma catarse. Filmando sempre de forma a manter a elegância e a sensibilidade (mesmo diante de situações desconfortáveis), Fox mostra que não é preciso ser panfletária ou radical para se tratar de assuntos delicados - seu filme é um grito de revolta, sim, mas orientado de forma correta e contundente. Se Jenny julgava ter saído incólume de suas experiências infantis, o filme de Jennifer demonstra que nem sempre as cicatrizes são visíveis ou óbvias - mas são indeléveis e, mesmo soterradas pelo tempo, jamais curam completamente. "O conto" é um filme obrigatório, não apenas pelo tema, mas também porque é dramaturgia de primeira qualidade, antenado com seu tempo e certamente destinado a tornar-se um pequeno clássico. Bravo!
terça-feira
O INÍCIO DO FIM
O INÍCIO DO FIM (Fat Man and Little Boy/Shadow makers, 1989, Paramount Pictures, 108min) Direção: Roland Joffé. Roteiro: Bruce Robinson, Roland Joffé, estória de Bruce Robinson. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Françoise Bonnott. Música: Ennio Morricone. Figurino: Nick Ede. Direção de arte/cenários: Gregg Fonseca/Dorree Cooper. Produção executiva: John Calley. Produção: Tony Garnett. Elenco: Paul Newman, Dwight Schultz, John Cusack, Laura Dern, Bonnie Bedelia, John G. McGinley, Natasha Richardson, James Eckhouse. Estreia: 20/10/89
Cineasta sempre preocupado com tramas de cunho político e/ou social, Roland Joffé ficou conhecido pelos fãs de cinema graças a produções premiadas e elogiadas pela crítica, como "Gritos do silêncio" (84) e "A missão" (86), pelos quais foi indicado ao Oscar de melhor diretor. Não foi surpresa, portanto, quando ele assumiu o comando de "O início do fim", o filme da Paramount que trataria sobre o Projeto Manhattan, que criou e construiu, em 1945, as bombas atômicas que atingiram Hiroshima e Nagasaki e deram fim à II Guerra Mundial. Catastrófico fracasso de bilheteria nos EUA (custou cerca de 30 milhões de dólares e rendeu cerca de dez menos menos em sua carreira nos cinemas), acabou lançado no resto do mundo com um título diferente e tentou conquistar - em vão - estatuetas na temporada de premiações de Hollywood. Não é difícil compreender os motivos que o levaram a tal fiasco comercial: mesmo com a direção cuidadosa de Joffé e o nome do veterano Paul Newman liderando o elenco, o filme não consegue escapar da sina comum às produções do gênero e, ao tentar equilibrar o didático/histórico ao dramático, não atinge plenamente seus objetivos em nenhum quesito. Essa indecisão custa caro ao resultado final, que mesmo perceptivelmente caprichado tecnicamente, não empolga nem emociona tanto quanto deveria.
Inicialmente chamado "Fat Man and Little Boy" (os apelidos dados às bombas), "O início do fim" teve seu nome modificado para "Shadow makers" logo depois que seu desempenho nas bilheterias domésticas assustou aos executivos do estúdio - que, logicamente, não esperavam uma renda tão pífia (pouco mais de um milhão de dólares arrecadados no fim de semana de estreia). Rebatizar o filme para lançamento em outros países, no entanto, não deu resultado nenhum: talvez por sua temática particularmente restrita, a obra de Joffé não despertou interesse nas massas que haviam lotado os cinemas para assistir ao "Batman" de Tim Burton, e saiu melancolicamente de cena, ocupando um lugar bastante coadjuvante nas carreiras de todos os envolvidos - seja do veterano Paul Newman ou dos novatos John Cusack e Laura Dern.
Apesar de ser o rosto de Newman que estampa o cartaz e ser seu nome que abre os créditos, o verdadeiro protagonista de "O início do fim" não é o seu General Leslie Groves - líder militar do projeto que concebeu a bomba atômica. O roteiro, escrito pelo cineasta e seu parceiro de longa data, Bruce Robinson, centra seu foco principalmente em Robert Oppenheimer (Dwight Schultz), o cientista chamado por Groves para comandar a experiência. A princípio entusiasmado com a possibilidade de mostrar sua competência e seu talento, ao poucos ele vai tomando consciência dos reais objetivos de Groves - e passa a questionar profundamente sua posição na estratégia. É somente quando sua vida pessoal - representada pela figura de sua amante, Jean Tatlock (Natasha Richardson), comunista vista com maus olhos pelo governo americano - é atingida que Oppenheimer percebe a dimensão do que está fazendo. Cercado de paranoia e segredos, ele testemunha o nascimento de um projeto científico gigantesco, que não poupa nem mesmo outros cientistas, como o jovem Michael Merriman (John Cusack).
Quando Bruce Robinson assumiu o roteiro de "O início do fim" seu maior interesse na trama era a história de amor e morte por trás do romance entre Oppenheimer e Jean Tatlock - um mistério ainda hoje envolto em teorias de conspiração. As alterações feitas no roteiro final, para dar mais ênfase ao relacionamento entre o cientista e o General Groves não apenas mudaram o tom da narrativa, mas também empurraram o filme para um nicho muito mais restrito de interesse - o que talvez tenha contribuído para seu fracasso. Soma-se a isso a inexperiência de Dwight Schultz, sem a força cênica necessária para imprimir consistência e nuances a um personagem tão repleto de possibilidades quanto o seu. O resultado é que o romance entre Merriman e a enfermeira Kathleen Robinson (Laura Dern) acaba por ser mais atraente ao espectador do que as crises de consciência de Oppenheimer - mesmo que tal subtrama seja inventada, como forma de iluminar o público das consequências da experiência realizada no Novo México. No fim das contas, "O ínicio do fim" é um filme com grandes atrações em seu cartaz (a música é de Ennio Morricone, a fotografia é do premiado Vilmos Zsigmond), mas que é frustrante na maior parte do tempo graças a problemas de foco e ritmo. Uma bela ideia que não atingiu todo o seu potencial.
Cineasta sempre preocupado com tramas de cunho político e/ou social, Roland Joffé ficou conhecido pelos fãs de cinema graças a produções premiadas e elogiadas pela crítica, como "Gritos do silêncio" (84) e "A missão" (86), pelos quais foi indicado ao Oscar de melhor diretor. Não foi surpresa, portanto, quando ele assumiu o comando de "O início do fim", o filme da Paramount que trataria sobre o Projeto Manhattan, que criou e construiu, em 1945, as bombas atômicas que atingiram Hiroshima e Nagasaki e deram fim à II Guerra Mundial. Catastrófico fracasso de bilheteria nos EUA (custou cerca de 30 milhões de dólares e rendeu cerca de dez menos menos em sua carreira nos cinemas), acabou lançado no resto do mundo com um título diferente e tentou conquistar - em vão - estatuetas na temporada de premiações de Hollywood. Não é difícil compreender os motivos que o levaram a tal fiasco comercial: mesmo com a direção cuidadosa de Joffé e o nome do veterano Paul Newman liderando o elenco, o filme não consegue escapar da sina comum às produções do gênero e, ao tentar equilibrar o didático/histórico ao dramático, não atinge plenamente seus objetivos em nenhum quesito. Essa indecisão custa caro ao resultado final, que mesmo perceptivelmente caprichado tecnicamente, não empolga nem emociona tanto quanto deveria.
Inicialmente chamado "Fat Man and Little Boy" (os apelidos dados às bombas), "O início do fim" teve seu nome modificado para "Shadow makers" logo depois que seu desempenho nas bilheterias domésticas assustou aos executivos do estúdio - que, logicamente, não esperavam uma renda tão pífia (pouco mais de um milhão de dólares arrecadados no fim de semana de estreia). Rebatizar o filme para lançamento em outros países, no entanto, não deu resultado nenhum: talvez por sua temática particularmente restrita, a obra de Joffé não despertou interesse nas massas que haviam lotado os cinemas para assistir ao "Batman" de Tim Burton, e saiu melancolicamente de cena, ocupando um lugar bastante coadjuvante nas carreiras de todos os envolvidos - seja do veterano Paul Newman ou dos novatos John Cusack e Laura Dern.
Apesar de ser o rosto de Newman que estampa o cartaz e ser seu nome que abre os créditos, o verdadeiro protagonista de "O início do fim" não é o seu General Leslie Groves - líder militar do projeto que concebeu a bomba atômica. O roteiro, escrito pelo cineasta e seu parceiro de longa data, Bruce Robinson, centra seu foco principalmente em Robert Oppenheimer (Dwight Schultz), o cientista chamado por Groves para comandar a experiência. A princípio entusiasmado com a possibilidade de mostrar sua competência e seu talento, ao poucos ele vai tomando consciência dos reais objetivos de Groves - e passa a questionar profundamente sua posição na estratégia. É somente quando sua vida pessoal - representada pela figura de sua amante, Jean Tatlock (Natasha Richardson), comunista vista com maus olhos pelo governo americano - é atingida que Oppenheimer percebe a dimensão do que está fazendo. Cercado de paranoia e segredos, ele testemunha o nascimento de um projeto científico gigantesco, que não poupa nem mesmo outros cientistas, como o jovem Michael Merriman (John Cusack).
Quando Bruce Robinson assumiu o roteiro de "O início do fim" seu maior interesse na trama era a história de amor e morte por trás do romance entre Oppenheimer e Jean Tatlock - um mistério ainda hoje envolto em teorias de conspiração. As alterações feitas no roteiro final, para dar mais ênfase ao relacionamento entre o cientista e o General Groves não apenas mudaram o tom da narrativa, mas também empurraram o filme para um nicho muito mais restrito de interesse - o que talvez tenha contribuído para seu fracasso. Soma-se a isso a inexperiência de Dwight Schultz, sem a força cênica necessária para imprimir consistência e nuances a um personagem tão repleto de possibilidades quanto o seu. O resultado é que o romance entre Merriman e a enfermeira Kathleen Robinson (Laura Dern) acaba por ser mais atraente ao espectador do que as crises de consciência de Oppenheimer - mesmo que tal subtrama seja inventada, como forma de iluminar o público das consequências da experiência realizada no Novo México. No fim das contas, "O ínicio do fim" é um filme com grandes atrações em seu cartaz (a música é de Ennio Morricone, a fotografia é do premiado Vilmos Zsigmond), mas que é frustrante na maior parte do tempo graças a problemas de foco e ritmo. Uma bela ideia que não atingiu todo o seu potencial.
sexta-feira
RUTH EM QUESTÃO
RUTH EM QUESTÃO (Citizen Ruth, 1996, Miramax, 106min) Direção: Alexander Payne. Roteiro: Alexander Payne, Jim Taylor. Fotografia: James Glennon. Montagem: Kevin Tent. Música: Rolfe Kent. Figurino: Tom McKinley. Direção de arte/cenários: Jane Ann Stewart/Lisa Denker. Produção: Cathy Conrad, Cary Woods. Elenco: Laura Dern, Swoosie Kurtz, Burt Reynolds, Tippi Hedren, Kurtwood Smith, Mary Kay Place, Kelly Preston. Estreia: Janeiro de 1996 (Festival de Sundance)
Um professor frustrado em luta contra uma estudante obcecada pela perfeição. Um viúvo tentando se reconectar com a família ao sentir o gostinho da solidão. Dois amigos praticamente desencantados com a vida buscando o prazer através do vinho. Um homem que descobre a traição da esposa quando ela está em coma. Um idoso já com problemas mentais que acredita ter ganho um prêmio na loteria. Quem conhece a obra de Alexander Payne sabe muito bem que o cineasta tem especial predileção pelos pobre-diabos, por aqueles que, por uma razão ou outra, estão em situações-limite de suas existências frequentemente medíocres. Por isso, não chega a ser surpresa que seu filme de estreia, "Ruth em questão", seja uma pequena amostra do que viria pela frente: cínica, cáustica e iconoclasta, sua comédia de humor negro, lançada no Festival de Sundance de 1996 e premiada no Festival de Montreal na categoria de melhor atriz (Laura Dern) é um tapa na cara no american way of life e um desafio ao politicamente correto. Escrito com extremo sarcasmo e dirigido sem medo de chocar aos mais sensíveis, "Ruth em questão" é um delicioso cartão de visitas de um diretor que já demonstrava, de cara, seu talento para encontrar qualidades até mesmo no pior dos seres humanos.
Inspirado na história real de Martina Greywind - uma mulher de 28 anos com muitas das características da protagonista do filme -, o roteiro, coescrito por Payne e aquele que se tornaria seu colaborador habitual, Jim Taylor, é um primor de humor negro e deboche. A personagem do título é Ruth Stoops (em uma genial atuação de Laura Dern), uma irresponsável e indigente usuária de drogas que se vê grávida pela quinta vez - depois de ter dado todos os outros bebês à adoção. Com sua nova gravidez descoberta na prisão, ela imediatamente se torna alvo de disputa desesperada entre dois lados opostos na questão do aborto. Enquanto Gail Stoney (Mary Kay Place) a chama para seu grupo de mulheres pró-vida, Ruth e sua história também são cobiçadas por Diane Siegler (Swoozie Kurtz), uma militante dos direitos da mulher à escolha. Não exatamente uma mulher brilhante intelectualmente, Ruth se torna um joguete nas mãos de ambos os grupos - cada um com táticas de persuasão pouco ortodoxas, que incluem até dinheiro e espaço na mídia. Mesmo pouco esperta, não demora à Ruth descobrir que ela é peça dispensável na situação - e resolve aproveitar ao máximo todas as vantagens que isso pode lhe oferecer.
Evitando o maniqueísmo e direcionando sua metralhadora de ironia para todos os lados, o roteiro esperto de Payne e Taylor brinca sem pena com os exageros politicamente corretos e o radicalismo que ronda o sempre polêmico tema do aborto. Sem tomar partido algum, o filme mostra, sem espaço para dúvidas, que até mesmo atitudes aparentemente altruístas podem estar recheadas de interesses pessoais e escusos. Praticamente se engalfinhando diante das câmeras de televisão, partidários de grupos rivais são ridicularizados em uma narrativa que utiliza o humor negro como forma de crítica social - e conta com veteranos como Burt Reynolds e Tippi Hedren oferecendo um ar sério e respeitável ao projeto. Realizado com um custo irrisório de estimados 3 milhões de dólares - valor que hoje em dia não paga nem o marketing de um filme relativamente barato - e lançado sem muito alarde, "Ruth em questão" fez de Alexander Payne um queridinho imediato junto ao público de cinema independente, graças a sua união perfeita entre roteiro, direção e elenco. Sua visão mordaz e impiedosa pode até soar incômoda a alguns espectadores, mas é inegável que sua ousadia é uma de suas maiores qualidades - a ponto de encerrar sua fábula sobre a hipocrisia com um desfecho irônico e coerente com o tom da trama.
Escorado em uma atuação brilhante de Laura Dern - equilibrando todos os tons e nuances de sua personagem sem escorregar na caricatura - e acertando em cheio no meio-termo entre o deboche e a seriedade, "Ruth em questão" é uma comédia esperta e relevante. Com personagens bem construídos e situações imprevisíveis, conquista o espectador por não tratá-lo com condescendência ou subestimar sua inteligência. Não é um filme para qualquer um - o cineasta se tornaria visualmente mais sofisticado com o passar dos anos e orçamentos mais generosos - mas se destaca principalmente por sua inventividade e coragem em bater de frente com a correção política e a hipocrisia típica da população norte-americana. Um filme a ser descoberto e discutido como um dos mais interessantes de sua temporada.
Um professor frustrado em luta contra uma estudante obcecada pela perfeição. Um viúvo tentando se reconectar com a família ao sentir o gostinho da solidão. Dois amigos praticamente desencantados com a vida buscando o prazer através do vinho. Um homem que descobre a traição da esposa quando ela está em coma. Um idoso já com problemas mentais que acredita ter ganho um prêmio na loteria. Quem conhece a obra de Alexander Payne sabe muito bem que o cineasta tem especial predileção pelos pobre-diabos, por aqueles que, por uma razão ou outra, estão em situações-limite de suas existências frequentemente medíocres. Por isso, não chega a ser surpresa que seu filme de estreia, "Ruth em questão", seja uma pequena amostra do que viria pela frente: cínica, cáustica e iconoclasta, sua comédia de humor negro, lançada no Festival de Sundance de 1996 e premiada no Festival de Montreal na categoria de melhor atriz (Laura Dern) é um tapa na cara no american way of life e um desafio ao politicamente correto. Escrito com extremo sarcasmo e dirigido sem medo de chocar aos mais sensíveis, "Ruth em questão" é um delicioso cartão de visitas de um diretor que já demonstrava, de cara, seu talento para encontrar qualidades até mesmo no pior dos seres humanos.
Inspirado na história real de Martina Greywind - uma mulher de 28 anos com muitas das características da protagonista do filme -, o roteiro, coescrito por Payne e aquele que se tornaria seu colaborador habitual, Jim Taylor, é um primor de humor negro e deboche. A personagem do título é Ruth Stoops (em uma genial atuação de Laura Dern), uma irresponsável e indigente usuária de drogas que se vê grávida pela quinta vez - depois de ter dado todos os outros bebês à adoção. Com sua nova gravidez descoberta na prisão, ela imediatamente se torna alvo de disputa desesperada entre dois lados opostos na questão do aborto. Enquanto Gail Stoney (Mary Kay Place) a chama para seu grupo de mulheres pró-vida, Ruth e sua história também são cobiçadas por Diane Siegler (Swoozie Kurtz), uma militante dos direitos da mulher à escolha. Não exatamente uma mulher brilhante intelectualmente, Ruth se torna um joguete nas mãos de ambos os grupos - cada um com táticas de persuasão pouco ortodoxas, que incluem até dinheiro e espaço na mídia. Mesmo pouco esperta, não demora à Ruth descobrir que ela é peça dispensável na situação - e resolve aproveitar ao máximo todas as vantagens que isso pode lhe oferecer.
Evitando o maniqueísmo e direcionando sua metralhadora de ironia para todos os lados, o roteiro esperto de Payne e Taylor brinca sem pena com os exageros politicamente corretos e o radicalismo que ronda o sempre polêmico tema do aborto. Sem tomar partido algum, o filme mostra, sem espaço para dúvidas, que até mesmo atitudes aparentemente altruístas podem estar recheadas de interesses pessoais e escusos. Praticamente se engalfinhando diante das câmeras de televisão, partidários de grupos rivais são ridicularizados em uma narrativa que utiliza o humor negro como forma de crítica social - e conta com veteranos como Burt Reynolds e Tippi Hedren oferecendo um ar sério e respeitável ao projeto. Realizado com um custo irrisório de estimados 3 milhões de dólares - valor que hoje em dia não paga nem o marketing de um filme relativamente barato - e lançado sem muito alarde, "Ruth em questão" fez de Alexander Payne um queridinho imediato junto ao público de cinema independente, graças a sua união perfeita entre roteiro, direção e elenco. Sua visão mordaz e impiedosa pode até soar incômoda a alguns espectadores, mas é inegável que sua ousadia é uma de suas maiores qualidades - a ponto de encerrar sua fábula sobre a hipocrisia com um desfecho irônico e coerente com o tom da trama.
Escorado em uma atuação brilhante de Laura Dern - equilibrando todos os tons e nuances de sua personagem sem escorregar na caricatura - e acertando em cheio no meio-termo entre o deboche e a seriedade, "Ruth em questão" é uma comédia esperta e relevante. Com personagens bem construídos e situações imprevisíveis, conquista o espectador por não tratá-lo com condescendência ou subestimar sua inteligência. Não é um filme para qualquer um - o cineasta se tornaria visualmente mais sofisticado com o passar dos anos e orçamentos mais generosos - mas se destaca principalmente por sua inventividade e coragem em bater de frente com a correção política e a hipocrisia típica da população norte-americana. Um filme a ser descoberto e discutido como um dos mais interessantes de sua temporada.
99 CASAS
99 CASAS (99 homes, 2014, Broad Green Pictures/Hyde Park Entertainment, 112min) Direção: Ramin Bahrani. Roteiro: Ramir Bahrani, Amir Naderi, estória de Ramir Bahrani, Bahareh Azimi. Fotografia: Bobby Bukowski. Montagem: Ramin Bahrani. Música: Antony Partos, Matteo Zingales. Figurino: Meghan Kasperlik. Direção de arte/cenários: Alex DiGerlando/Monique Champagne. Produção executiva: Mohammed Al Turki, Ron Curtis, Manu Gargi, Arcadiy Golubovich. Produção: Ashok Amritraj, Ramin Bahrani, Justin Nappi, Kevin Turen. Elenco: Andrew Garfield, Michael Shannon, Laura Dern, Clancy Brown. Estreia: 29/8/14 (Festival de Veneza)
Em 2003, o cineasta ucraniano Vadim Perelman conquistou a crítica - e indicações ao Oscar de melhor ator, atriz coadjuvante e trilha sonora original - com sua adaptação do romance "Casa de areia e névoa", escrito por Andre Dubus III, que fazia uma crítica contundente às leis dos EUA relacionadas ao mercado imobiliário (e de quebra retratava a árdua luta dos imigrantes por uma vida digna). Mais de uma década depois, outro cineasta de origem estrangeira - Ramin Bahrani, nascido na Carolina do Norte mas filho de imigrantes iranianos - põe o dedo na ferida da especulação e da corrupção que corrói as entranhas do sonho americano. Inspirado em uma história real mas sem prender-se a nenhum tipo de compromisso de fidelidade com os desdobramentos da ação, Bahrani criou um drama angustiante e dolorosamente realista, que, amparado por uma atuação inspiradíssima de Andrew Garfield, emociona e incomoda sem fazer concessões ao dramalhão fácil. "99 casas" é, facilmente, um dos pequenos grandes filmes da temporada 2014 - e, como é comum, praticamente ignorada pelas cerimônias de premiação: Michael Shannon chegou a ser eleito o melhor coadjuvante do ano pela Associação de Críticos de Los Angeles e indicado ao Golden Globe e ao Spirit Award, mas a produção passou praticamente em brancas nuvens pelo cinema.
É compreensível: não deve ser nada fácil ser americano e assistir ao que acontece em "99 casas" - aliás, basta ter um mínimo de sensibilidade para ser atingido pelo drama do protagonista, Dennis Nash (Andrew Garfield), um jovem trabalhador na construção civil que, em dificuldades de encontrar um trabalho que lhe pague o bastante para pagar a hipoteca da casa onde mora com a mãe, Lynn (Laura Dern), e o filho pequeno, Connor (Noah Lomax). Com uma dívida maior do que suas posses, ele acaba por ser despejado - em uma sequência angustiante e tensa. Sem encontrar luz no fim do túnel, Dennis acaba sendo seduzido pela possibilidade de recuperar sua propriedade quando aceita trabalhar com Rick Carver (Michael Shannon), o corretor que cuidou de sua situação - e que se utiliza de métodos pouco ortodoxos e bastante ilegais de fazer dinheiro através de transações quase criminosas. Deslumbrado com a chance não apenas de ter de volta o seu lar, mas também de oferecer uma vida mais confortável para a família, Dennis começa a participar das ações de despejo comandadas por Carver - e questionar seus próprios limites morais e éticos ao reviver, em cada situação, o sentimento de desespero e fracasso dos moradores.
Com uma narrativa ágil e surpreendente, que não permite ao espectador que antecipe cada movimento do roteiro, Bahrani se mostra um cineasta de extrema competência em cativar seu público sem subestimar sua inteligência ou sensibilidade. Aproximando sua câmera do rosto angustiado de Dennis - em atuação sublime de Andrew Garfield - e obrigando o espectador a compartilhar com ele de toda a vastidão de sentimentos que lhe tortura, o diretor faz uso eficaz de suas ferramentas visuais ao mesmo tempo em que, através de sequências dramáticas que evitam a pieguice, discute temas como ética e moral em um momento crucial da história americana. Ao fazer de seu protagonista um personagem de dimensões humanas - e portanto passível de monumentais erros e capaz de gestos de grandeza - o roteiro também traça um interessante contraponto entre ele e seu patrão/inimigo/aliado Rick Carver, em mais um trabalho excelente de Michael Shannon: fugindo do maniqueísmo óbvio, Carver não é apenas um homem ganancioso e cruel, mas uma pessoa com um passado doloroso e que aprendeu, da pior maneira possível, que nem sempre ser bom e generoso é o melhor caminho para o sucesso. Sim, o grande vilão de "99 casas" não é Carver, e sim o capitalismo selvagem e devastador, retratado na figura de bancos e instituições financeiras que, como não é surpresa para ninguém, tem no lucro seu maior objetivo, ignorando sem piedade tudo que possa atrapalhar suas metas.
Mas, apesar de sua crítica radical aos métodos pouco humanos dos ferozes capitalistas, "99 casas" não é um tratado sociológico aborrecido e panfletário. Com pleno domínio da narrativa dramática, Ramin Bahrani conta sua história com o máximo de simplicidade e clareza, aproveitando ao máximo o talento de seus intérpretes e o tom emocional de sua trama. Andrew Garfield está sensacional na pele de Dennis Nash, preenchendo sua atuação com nuances e sutilezas que o colocam como um dos mais promissores atores de sua geração - coisa que sua indicação ao Oscar por "Até o último homem" (2016) apenas confirmou. Ao lado de atores experientes como Michael Shannon e Laura Dern, o jovem Garfield consegue sobressair-se sem esforço, explorando cada mínima possibilidade do roteiro e da direção sensível de Bahrani. Seu olhar melancólico, assustado, frustrado e raivoso diz muito mais do que páginas e páginas de diálogo - e o clímax do filme mostra que ele tem muitos mais truques na manga do que sua pouca idade pode fazer supor. Com sua interpretação inteligente, Garfield consegue melhorar ainda mais o belo e corajoso trabalho de Bahrani, um cineasta que parece ainda ter muito a dizer no futuro.
Em 2003, o cineasta ucraniano Vadim Perelman conquistou a crítica - e indicações ao Oscar de melhor ator, atriz coadjuvante e trilha sonora original - com sua adaptação do romance "Casa de areia e névoa", escrito por Andre Dubus III, que fazia uma crítica contundente às leis dos EUA relacionadas ao mercado imobiliário (e de quebra retratava a árdua luta dos imigrantes por uma vida digna). Mais de uma década depois, outro cineasta de origem estrangeira - Ramin Bahrani, nascido na Carolina do Norte mas filho de imigrantes iranianos - põe o dedo na ferida da especulação e da corrupção que corrói as entranhas do sonho americano. Inspirado em uma história real mas sem prender-se a nenhum tipo de compromisso de fidelidade com os desdobramentos da ação, Bahrani criou um drama angustiante e dolorosamente realista, que, amparado por uma atuação inspiradíssima de Andrew Garfield, emociona e incomoda sem fazer concessões ao dramalhão fácil. "99 casas" é, facilmente, um dos pequenos grandes filmes da temporada 2014 - e, como é comum, praticamente ignorada pelas cerimônias de premiação: Michael Shannon chegou a ser eleito o melhor coadjuvante do ano pela Associação de Críticos de Los Angeles e indicado ao Golden Globe e ao Spirit Award, mas a produção passou praticamente em brancas nuvens pelo cinema.
É compreensível: não deve ser nada fácil ser americano e assistir ao que acontece em "99 casas" - aliás, basta ter um mínimo de sensibilidade para ser atingido pelo drama do protagonista, Dennis Nash (Andrew Garfield), um jovem trabalhador na construção civil que, em dificuldades de encontrar um trabalho que lhe pague o bastante para pagar a hipoteca da casa onde mora com a mãe, Lynn (Laura Dern), e o filho pequeno, Connor (Noah Lomax). Com uma dívida maior do que suas posses, ele acaba por ser despejado - em uma sequência angustiante e tensa. Sem encontrar luz no fim do túnel, Dennis acaba sendo seduzido pela possibilidade de recuperar sua propriedade quando aceita trabalhar com Rick Carver (Michael Shannon), o corretor que cuidou de sua situação - e que se utiliza de métodos pouco ortodoxos e bastante ilegais de fazer dinheiro através de transações quase criminosas. Deslumbrado com a chance não apenas de ter de volta o seu lar, mas também de oferecer uma vida mais confortável para a família, Dennis começa a participar das ações de despejo comandadas por Carver - e questionar seus próprios limites morais e éticos ao reviver, em cada situação, o sentimento de desespero e fracasso dos moradores.
Com uma narrativa ágil e surpreendente, que não permite ao espectador que antecipe cada movimento do roteiro, Bahrani se mostra um cineasta de extrema competência em cativar seu público sem subestimar sua inteligência ou sensibilidade. Aproximando sua câmera do rosto angustiado de Dennis - em atuação sublime de Andrew Garfield - e obrigando o espectador a compartilhar com ele de toda a vastidão de sentimentos que lhe tortura, o diretor faz uso eficaz de suas ferramentas visuais ao mesmo tempo em que, através de sequências dramáticas que evitam a pieguice, discute temas como ética e moral em um momento crucial da história americana. Ao fazer de seu protagonista um personagem de dimensões humanas - e portanto passível de monumentais erros e capaz de gestos de grandeza - o roteiro também traça um interessante contraponto entre ele e seu patrão/inimigo/aliado Rick Carver, em mais um trabalho excelente de Michael Shannon: fugindo do maniqueísmo óbvio, Carver não é apenas um homem ganancioso e cruel, mas uma pessoa com um passado doloroso e que aprendeu, da pior maneira possível, que nem sempre ser bom e generoso é o melhor caminho para o sucesso. Sim, o grande vilão de "99 casas" não é Carver, e sim o capitalismo selvagem e devastador, retratado na figura de bancos e instituições financeiras que, como não é surpresa para ninguém, tem no lucro seu maior objetivo, ignorando sem piedade tudo que possa atrapalhar suas metas.
Mas, apesar de sua crítica radical aos métodos pouco humanos dos ferozes capitalistas, "99 casas" não é um tratado sociológico aborrecido e panfletário. Com pleno domínio da narrativa dramática, Ramin Bahrani conta sua história com o máximo de simplicidade e clareza, aproveitando ao máximo o talento de seus intérpretes e o tom emocional de sua trama. Andrew Garfield está sensacional na pele de Dennis Nash, preenchendo sua atuação com nuances e sutilezas que o colocam como um dos mais promissores atores de sua geração - coisa que sua indicação ao Oscar por "Até o último homem" (2016) apenas confirmou. Ao lado de atores experientes como Michael Shannon e Laura Dern, o jovem Garfield consegue sobressair-se sem esforço, explorando cada mínima possibilidade do roteiro e da direção sensível de Bahrani. Seu olhar melancólico, assustado, frustrado e raivoso diz muito mais do que páginas e páginas de diálogo - e o clímax do filme mostra que ele tem muitos mais truques na manga do que sua pouca idade pode fazer supor. Com sua interpretação inteligente, Garfield consegue melhorar ainda mais o belo e corajoso trabalho de Bahrani, um cineasta que parece ainda ter muito a dizer no futuro.
terça-feira
LIVRE
2 indicações ao Oscar: Melhor Atriz (Reese Witherspoon), Atriz Coadjuvante (Laura Dern)
O que “Livre” – que concorreu a dois
Oscar na cerimônia de 2015 – tem em comum com o fotogênico cartão-postal
“Comer, rezar, amar”, estrelado por Julia Roberts em 2010 e o emocionante “Na
natureza selvagem”, que Sean Penn dirigiu em 2007? Quem apostar em “são todos
adaptados de livros baseados em histórias reais” não estará errado. Quem optar
por “todos são protagonizados por personagens que resolvem promover o
reencontro consigo mesmos através de viagens” igualmente estará certo. Mas a
resposta mais completa certamente é “são filmes que, mesmo involuntariamente,
acabam por completar-se, em uma espécie de trilogia informal sobre as angústias
modernas sendo curadas pelo contato com a natureza e com a paz de espírito”.
Parece um resgate temporão de valores da década de 60, mas o fato é que os três
filmes, cada um com sua identidade própria, apontam para uma saudável forma de
reaproximação do público com histórias menos centradas em efeitos visuais
idiotizantes e mais preocupadas com personagens de carne-e-osso. Se “Comer,
rezar, amar” era o mais leve e despretensioso – apesar do orçamento generoso e
do nome de Julia Roberts no elenco – e “Na natureza selvagem” mergulhava sem
medo na poesia visual e na beleza dolorosa da história de Christopher
McCandless (narrada por Jon Krakauer no livro homônimo), “Livre”, baseado na
obra de Cheryl Strayed é uma espécie de meio-termo entre os dois filmes. Do
primeiro herda a ideia de um recomeço emocional longe das armadilhas do
dia-a-dia; do segundo, uma personagem central ousada e destemida, que enfrenta
seus fantasmas pessoais com uma mochila nas costas e a coragem de encarar a
solidão de uma longa caminhada através de quilômetros de estradas dos EUA.
O desempenho de Reese Witherspoon como Cheryl Strayed, a protagonista de “Livre”, é um passo à frente em sua carreira, superior em qualidade até mesmo à sua interpretação como June Carter em “Johnny & June”, que lhe deu o Oscar em 2006. Na pele de Strayed, Whiterspoon – que assina o filme também como produtora – abandona a vaidade e o sorriso radiante que tanto lhe ajudaram em sua trajetória rumo ao estrelato (em filmes como “Legalmente loira” e “Doce lar”) para apresentar um trabalho maduro, sóbrio e corajoso que sobrepuja até mesmo o roteiro pouco inspirado e a direção burocrática de Vallé – ainda que, justiça seja feita, o cineasta também tenha evoluído em relação a seu premiado “Clube de compras Dallas”. Mesmo que abuse dos flashbacks – que explicam as razões da protagonista mas diluem os momentos mais emocionais – Vallé consegue impor um ritmo menos irregular do que em seu filme anterior, aproximando o público de sua protagonista apesar de ela não ser exatamente uma personagem das mais “gostáveis”.
Revoltada com a morte de sua mãe (Laura Dern, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), Cheryl, até então uma jovem ajustada e feliz em seu casamento, entra em uma espiral de autodestruição, se afundando no vício em drogas e sexo promíscuo. Seu desespero, disfarçado também em agressividade contra todos que a tentam ajudar, acaba por empurrá-la em direção a uma solução um tanto inesperada: com o apoio do ex-marido, ela inicia uma travessia longa, complexa e perigosa pelas estradas americanas, munida apenas de uma mochila (a princípio pesadíssima e repleta de supérfluos que vão ficando pelo caminho) e o desejo irredutível de purificar a mente e redescobrir suas qualidades. No trajeto – que faz absolutamente sozinha, salvo alguns contatos fugazes com outros andarilhos – ela faz as pazes consigo mesma, com a vida e dá início ao processo de aceitação da perda da mãe. Uma trama um tanto recheada de clichês, sem dúvida, mas valorizada pela interpretação honesta de Witherspoon, que evita as armadilhas do roteiro e foge da tentação de ser maior do que a história ou a personagem. Discreta na maior parte do tempo, ela transmite uma vasta gama de emoções – tristeza, revolta, medo, angústia, paz – sem precisar recorrer ao repertório comum de gritos e lágrimas que é moeda corrente no cinema comercial americano. Sim, ela tem uma “grande cena dramática” que justifica sua indicação ao Oscar, mas na maior parte do tempo sua atuação é sutil e inteligente – uma prova disso é o fato de o filme não ter feito muito barulho nas bilheterias nem mesmo com suas duas indicações à estatueta.
Contado fora de ordem cronológica –
ao menos quando se trata dos flashbacks que mostram a vida de Strayed antes de
sua caminhada – “Livre” reitera suas semelhanças com “Na natureza selvagem”,
mas ressente-se da profundidade do filme estrelado por Emile Hirsch. Uma
surpresa, já que o roteiro é assinado pelo escritor Nick Hornby, autor de
livros também transformados em filmes – como “Alta fidelidade” (99) e “Um
grande garoto” (02) – e indicado ao Oscar pela adaptação das memórias de Lynn
Barber, no festejado “Educação” (09). Mesmo com seu invejável currículo, o
autor britânico não foi completamente feliz em narrar as aventuras de Cheryl:
em alguns momentos a superficialidade é maior do que deveria, dificultando um
maior envolvimento do público com a protagonista e, consequentemente,
diminuindo o impacto emocional da história. Ainda assim,
com sua sensibilidade e talento, ele consegue desviar do óbvio, com um final
inspirador bem aproveitado por Jean-Marc Vallé e valorizado pela atuação de
Witherspoon. No cômputo final, “Livre” acaba por ser um filme acima da média –
mais profundo que “Comer, rezar, amar”, mas bem menos impactante que “Na
natureza selvagem”.
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