BEM-VINDO À CASA DE BONECAS (Welcome to the dollhouse, 1996, Sony Pictures Classics, 88min) Direção e roteiro: Todd Solondz. Fotografia: Randy Drummond. Montagem: Alan Oxman. Música: Jill Wisoff. Figurino: Melissa Toth. Direção de arte/cenários: Susan Block. Produção executiva: Donna Bascom. Produção: Todd Solondz. Elenco: Heather Matarazzo, Eric Mabius, Brendan Sexton III, Matthew Faber, Angela Pietropinto, Bill Buell, Victoria Davis, Daria Kalininia. Estreia: 10/9/95 (Festival de Toronto)
Antes que o termo bullying saísse dos corredores e banheiros escolares para entrar como um furacão nos lares americanos - e depois se espalhasse mundo afora, alertando pais e professores sobre um mal aparentemente silencioso mas potencialmente mortal - um cineasta independente de olhar feroz sobre a hipocrisia reinante do lado de dentro das cercas brancas das casas dos subúrbios americanos criou uma pequena pérola sobre o assunto. Porém, ao invés de utilizar-se de artifícios sentimentaloides para comover e chocar sua audiência, Todd Solondz - que anos depois voltaria a provocar o público com o polêmico "Felicidade" - resolveu tratar do assunto da forma menos previsível possível: como comédia. Mas, ao contrário do que se poderia esperar, "Bem-vindo à casa de bonecas" não é uma comédia histérica, que busca a cumplicidade incondicional da plateia ao mostrar as humilhações sofridas por sua protagonista. Construído sobre um humor mordaz e crítico, o filme desnuda uma sociedade que não apenas permite a crueldade contra aqueles a quem julga inferiores, como também compactua com ela mesmo sem ter a plena consciência disso.
Sucesso no Festival de Sundance de 1996, "Bem-vindo à casa de bonecas" apresentou ao público e à crítica o estilo preciso e seco de Solondz, que não hesita em destruir sistematicamente cada tijolo das instituições mais caras aos americanos, como a família e a educação, seus dois principais alvos nesse seu primoroso trabalho de estreia. Quase como um John Waters de sua geração, com seus cenários banhados no kitsch e seus personagens carregados nas tintas da caricatura - e ainda assim críveis e humanos - ele desenha um mundo particular facilmente reconhecível pelo espectador médio, mas o faz de maneira distorcida, sem enfeites, quase como um documentário, seco e sem firulas melodramáticas. Se existe a identificação, ela é justamente por causa de seu método quase brutal de apontar a câmera para cenas que, em produções mais comerciais, estariam envoltas em uma trilha sonora açucarada ou uma fotografia enfeitada com filtros poéticos e românticos. Sua crueza - que poderia ser facilmente confundida com insensibilidade - é, possivelmente, o maior dos méritos de seu filme.
A protagonista de "Bem-vindo à casa de bonecas", vivida com surpreendente naturalidade pela ótima Heather Matarazzo, é Dawn Wiener, uma menina de onze anos e meio que vive no subúrbio de uma pequena cidade do estado de Nova York. Filha do meio de um típico casal de classe média, ela não consegue destacar-se em casa, espremida entre seu irmão mais velho - líder de uma banda de garagem mas não exatamente talentoso - e uma caçula que é o sonho de quaisquer pais-clichê: loura, de olhos azuis, feminina e adoravelmente carinhosa. Na escola, é vítima de todos as humilhações possíveis e imagináveis, vinda tanto dos colegas - meninos ou meninas - quanto dos professores. Feia, mal-vestida, não particularmente inteligente e desajeitada até mesmo ao caminhar, ela só encontra paz quando se esconde no clubinho que construiu no pátio de casa, ao lado do único amigo que tem - também ele vítima de achincalhes diários. A vida de cão da garota - cujos pontos altos são os ataques do marginal oficial da escola, Brendon (Brendan Sexton III) - parece alcançar um objetivo, porém, quando ela se apaixona por Steven (Eric Mabius), que entra na banda de seu irmão: com vãs esperanças de conquistá-lo, Dawn vê seus dias encontrarem um significado quando está ao lado dele, que logicamente mal percebe sua existência.
Ao utilizar-se de uma certa crueldade para conseguir humor, Solondz chega no limite do politicamente correto, arrancando do espectador risos nervosos em situações extremas - Brendan ameaça estuprar Dawn, por exemplo, marcando lugar e hora para isso, e ela vai a seu encontro, pateticamente. Mas é inteligente o bastante para explicitar o quanto o bullying é, na verdade, um círculo vicioso e uma forma de autoproteção. Até mesmo Dawn, que sofre diariamente por não ser o exemplo estético esperado pelo mundo ocidental encontra formas de exorcizar suas frustrações, disparando impropérios a quem considera mais fraco - até que elas atingem um nível tal que somente uma atitude radical pode transformar alguma coisa (ou não). O roteiro simples e direto de Solondz, desprovido dos grandes acontecimentos que são essenciais no manual do cinemão comercial, faz apenas uma crônica sobre a vida de uma menina comum que percebe que jamais será especial. É doloroso. É triste. E é um gol de placa de Todd Solondz fazer com que isso não fique na mente do espectador como uma ferida. O humor de viés de seu filme faz refletir e pode até emocionar. Uma pérola do cinema independente americano.
Filmes, filmes e mais filmes. De todos os gêneros, países, épocas e níveis de qualidade.
Mostrando postagens com marcador TODD SOLONDZ. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador TODD SOLONDZ. Mostrar todas as postagens
domingo
quarta-feira
FELICIDADE
FELICIDADE (Happiness, 1998, Good Machine, 134min) Direção e roteiro: Todd Solondz. Fotografia: Maryse Alberti. Montagem: Alan Oxman. Música: Robbie Kondor. Figurino: Kathryn Nixon. Direção de arte/cenários: Thérèse DePrez/Nick Evans. Produção executiva: David Linde, James Schamus. Produção: Ted Hope, Christine Vachon. Elenco: Philip Seymour Hoffman, Lara Flynn Boyle, Jane Adams, Dylan Baker, Ben Gazzarra, Cynthia Stevenson, Camryn Manheim, Jon Lovitz, Molly Shannon. Estreia: 16/10/98
Um ano antes que Sam Mendes conquistasse o Oscar pelo excepcional "Beleza americana", um cineasta americano independente e corajoso havia ousado retratar os podres da tradicional família ianque em uma comédia de humor negro que abismou a crítica e chocou sua (pequena) audiência. Ao se enfronhar por debaixo da aparente normalidade dos subúrbios e da instituição familiar em "Felicidade", Todd Solondz foi ainda mais longe do que Mendes e o roteiro premiado de Alan Ball, narrando sem nenhuma espécie de julgamento um grupo de personagens cuja "amoralidade" tem apenas um objetivo: a luta pela felicidade do título. Mais do que um inventário de desvios sexuais, o filme de Solondz é um poderoso estudo sobre a solidão humana.
Solondz utiliza a estrutura em voga no final dos anos 90 (narrar várias histórias aparentemente independentes que se entrecruzam) para analisar a maneira com que pessoas de diferentes estilos de vida lidam com a falta de sentido e amor em suas existências. De certa forma, se existe uma protagonista, ela é a frágil e sensível Joy (nome cuja tradução é "alegria", em uma das várias ironias do roteiro). Vivida com delicadeza quase patética por Jane Adams, Joy é uma música frustrada, solteira e infeliz que é o principal centro de preocupações de sua família. Tímida, ela tenta encontrar um sentido para sua vida começando a trabalhar como professora de inglês para estrangeiros e se apaixona por um aluno russo não exatamente honesto. Sua irmã do meio, Helen (Lara Flynn Boyle) é uma escritora bem-sucedida que reclama do fato de não ter problemas sérios o bastante para inspirá-la em seus novos livros e, sem saber, desperta o intenso desejo do vizinho Allen (Phillip Seymour Hoffman), que vive de passar trotes de enfoque sexual para mulheres desconhecidas e se envolve em uma amizade triste com Kristina (Camryn Manheim), que mora em seu prédio e tem um segredo a respeito da morte do porteiro. E seus pais, Mona (Louise Lasser) e Lenny (Ben Gazzarra) estão passando por uma grave crise no casamento, o que acarreta um início de depressão em sua mãe, que não sabe como ter uma vida sem o marido e as filhas.

E a irmã mais velha de Joy é Trish (Cynthia Stevenson), bem-casada com o terapeuta Bill Maplewood (Dylan Baker) e mãe de uma família de comercial de margarina. No entanto, é na casa de Trish (em meio a uma decoração típica de classe média) que a trama de "Felicidade" enconde seu maior trunfo polêmico. Pai de família exemplar, Bill é um pedófilo que não hesita em violentar os amigos do filho mais velho, envolvendo a audiência em seu drama sem jamais parecer um tarado psicopata. É o trabalho excepcional de Baker, aliado ao roteiro cru mas nunca apelativo do diretor que afasta essa subtrama tão controversa de ser apenas mais uma tentativa de Hollywood em discutir o de maneira paternal ou permissiva. Logicamente Solondz não quer justificar as atitudes da personagem, mas tampouco o crucifica ou o trata de forma maniqueísta. Perigosamente, inclusive, a audiência chega a simpatizar com ele (mas sem, porém, torcer para que seus intentos sejam atingidos).
"Felicidade" é, também, um retrato delicado sobre as relações interpessoais tão frias e distantes em uma época tão afoita a tecnologias e tão indiferente aos problemas da casa ao lado. Suas personagens são tão bem construídas e soam tão verdadeiras que é difícil não simpatizar e/ou torcer pela resolução de seus problemas (com a possível exceção de Helen, cujos dramas não parecem tão interessantes em comparação com os demais). Jane Adams está perfeita como Joy, transmitindo com exatidão todas as nuances de sua personagem, assim como o fazem Philip Seymour Hoffman e Camryn Manheim, donos de uma das cenas mais tocantes do filme, quando dançam em um bar de quinta categoria e depois dormem ao lado um do outro sem nenhuma intenção sexual. Retrato mais acurado da solidão no fim do milênio é impossível.
Longe de tentar ser um filme edificante ou comovente - nem muito menos uma comédia rasgada ou histérica - "Felicidade" é um dos mais consistentes dramas humanos dos anos 90. Pode ser desagradável e chocante em alguns momentos, mas jamais apela para o mau-gosto (sua direção de arte propositalmente plástica é outro destaque) para atingir sua audiência. É um programa obrigatório para todos aqueles que se encantam com dramas psicológicos que desmascaram as alegrias de aparência. E ainda acaba com Michael Stipe (da banda REM) entoando a inédita canção "Happiness".... Excelente!
Um ano antes que Sam Mendes conquistasse o Oscar pelo excepcional "Beleza americana", um cineasta americano independente e corajoso havia ousado retratar os podres da tradicional família ianque em uma comédia de humor negro que abismou a crítica e chocou sua (pequena) audiência. Ao se enfronhar por debaixo da aparente normalidade dos subúrbios e da instituição familiar em "Felicidade", Todd Solondz foi ainda mais longe do que Mendes e o roteiro premiado de Alan Ball, narrando sem nenhuma espécie de julgamento um grupo de personagens cuja "amoralidade" tem apenas um objetivo: a luta pela felicidade do título. Mais do que um inventário de desvios sexuais, o filme de Solondz é um poderoso estudo sobre a solidão humana.
Solondz utiliza a estrutura em voga no final dos anos 90 (narrar várias histórias aparentemente independentes que se entrecruzam) para analisar a maneira com que pessoas de diferentes estilos de vida lidam com a falta de sentido e amor em suas existências. De certa forma, se existe uma protagonista, ela é a frágil e sensível Joy (nome cuja tradução é "alegria", em uma das várias ironias do roteiro). Vivida com delicadeza quase patética por Jane Adams, Joy é uma música frustrada, solteira e infeliz que é o principal centro de preocupações de sua família. Tímida, ela tenta encontrar um sentido para sua vida começando a trabalhar como professora de inglês para estrangeiros e se apaixona por um aluno russo não exatamente honesto. Sua irmã do meio, Helen (Lara Flynn Boyle) é uma escritora bem-sucedida que reclama do fato de não ter problemas sérios o bastante para inspirá-la em seus novos livros e, sem saber, desperta o intenso desejo do vizinho Allen (Phillip Seymour Hoffman), que vive de passar trotes de enfoque sexual para mulheres desconhecidas e se envolve em uma amizade triste com Kristina (Camryn Manheim), que mora em seu prédio e tem um segredo a respeito da morte do porteiro. E seus pais, Mona (Louise Lasser) e Lenny (Ben Gazzarra) estão passando por uma grave crise no casamento, o que acarreta um início de depressão em sua mãe, que não sabe como ter uma vida sem o marido e as filhas.

E a irmã mais velha de Joy é Trish (Cynthia Stevenson), bem-casada com o terapeuta Bill Maplewood (Dylan Baker) e mãe de uma família de comercial de margarina. No entanto, é na casa de Trish (em meio a uma decoração típica de classe média) que a trama de "Felicidade" enconde seu maior trunfo polêmico. Pai de família exemplar, Bill é um pedófilo que não hesita em violentar os amigos do filho mais velho, envolvendo a audiência em seu drama sem jamais parecer um tarado psicopata. É o trabalho excepcional de Baker, aliado ao roteiro cru mas nunca apelativo do diretor que afasta essa subtrama tão controversa de ser apenas mais uma tentativa de Hollywood em discutir o de maneira paternal ou permissiva. Logicamente Solondz não quer justificar as atitudes da personagem, mas tampouco o crucifica ou o trata de forma maniqueísta. Perigosamente, inclusive, a audiência chega a simpatizar com ele (mas sem, porém, torcer para que seus intentos sejam atingidos).
"Felicidade" é, também, um retrato delicado sobre as relações interpessoais tão frias e distantes em uma época tão afoita a tecnologias e tão indiferente aos problemas da casa ao lado. Suas personagens são tão bem construídas e soam tão verdadeiras que é difícil não simpatizar e/ou torcer pela resolução de seus problemas (com a possível exceção de Helen, cujos dramas não parecem tão interessantes em comparação com os demais). Jane Adams está perfeita como Joy, transmitindo com exatidão todas as nuances de sua personagem, assim como o fazem Philip Seymour Hoffman e Camryn Manheim, donos de uma das cenas mais tocantes do filme, quando dançam em um bar de quinta categoria e depois dormem ao lado um do outro sem nenhuma intenção sexual. Retrato mais acurado da solidão no fim do milênio é impossível.
Longe de tentar ser um filme edificante ou comovente - nem muito menos uma comédia rasgada ou histérica - "Felicidade" é um dos mais consistentes dramas humanos dos anos 90. Pode ser desagradável e chocante em alguns momentos, mas jamais apela para o mau-gosto (sua direção de arte propositalmente plástica é outro destaque) para atingir sua audiência. É um programa obrigatório para todos aqueles que se encantam com dramas psicológicos que desmascaram as alegrias de aparência. E ainda acaba com Michael Stipe (da banda REM) entoando a inédita canção "Happiness".... Excelente!
Assinar:
Postagens (Atom)
OS AGENTES DO DESTINO
OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...
-
SOMMERSBY, O RETORNO DE UM ESTRANHO (Sommersby, 1993, Warner Bros, 114min) Direção: Jon Amiel. Roteiro: Nicholas Meyer, Sarah Kernochan, h...
-
EVIL: RAÍZES DO MAL (Ondskan, 2003, Moviola Film, 113min) Direção: Mikael Hafstrom. Roteiro: Hans Gunnarsson, Mikael Hafstrom, Klas Osterg...
-
O SILÊNCIO DOS INOCENTES (The silence of the lambs, 1991, Orion Pictures, 118min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Ted Tally, romance de ...