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quinta-feira

O BEIJO DA MULHER-ARANHA


O BEIJO DA MULHER-ARANHA (Kiss of the Spider Woman, 1985, HB Filmes/FilmDallas Pictures, 120min) Direção: Hector Babenco. Roteiro: Leonard Schrader, romance de Manuel Puig. Fotografia: Rodolfo Sanchez. Montagem: Mauro Alice. Música: John Neschling, Nando Carneiro. Figurino: Patrício Bisso. Direção de arte/cenários: Clovis Bueno. Produção executiva: Francisco Ramalho Jr.. Produção: David Weisman. Elenco: William Hurt, Raul Julia, Sonia Braga, José Lewgoy, Milton Gonçalves, Miriam Pires, Herson Capri, Nuno Leal Maia, Denise Dummont, Antonio Petrin, Wilson Grey, Miguel Falabella, Patrício Bisso. Estreia: 13/5/85 (Festival de Cannes)

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Hector Babenco), Ator (William Hurt), Roteiro Adaptado

Vencedor do Oscar de Melhor Ator (William Hurt)

Melhor Ator (William Hurt) no Festival de Cannes

Levando-se em consideração a profusão de problemas em sua produção, não deixa de ser admirável o grande sucesso de crítica alcançado por "O beijo da mulher-aranha", até hoje o único filme brasileiro a ser indicado ao Oscar de melhor filme. Adaptado do célebre romance do argentino Manuel Puig - que também foi adaptado para os palcos como peça de teatro e posteriormente como musical - e dirigido por Hector Babenco (nascido na Argentina e naturalizado brasileiro), o filme tornou-se também a primeira produção independente a concorrer ao prêmio máximo da Academia - e deu a William Hurt sua merecida estatueta de melhor ator (que foi parar em sua prateleira ao lado das láureas do Festival de Cannes, do BAFTA, do David de Donatello - o Oscar italiano -, e dos críticos de Los Angeles e Londres). Filmado em São Paulo entre outubro de 1983 e março de 1984 - contrariando o cronograma previsto em mais de um mês - e preso a problemas de pós-produção que atrasaram seu lançamento em mais de um ano (o Festival de Nova York chegou a recusá-lo, assim como várias distribuidoras, antes que Cannes finalmente o aceitasse), o filme de Babenco foi, também, responsável pelo estabelecimento de Sônia Braga como estrela internacional - ela foi indicada ao Golden Globe de melhor atriz coadjuvante e foi uma das apresentadoras do Oscar 1986.

Mesmo falando inglês foneticamente - ainda não dominava o idioma à época das filmagens -, Sonia é uma das maiores qualidades do filme de Babenco: linda, sexy e dotada de um ar misterioso que sublinha o tom onírico do roteiro, ela transita pela história criada por Puig (e adaptada por Leonard Schrader, irmão do cineasta Paul) na pele de três personagens distintas, e serve como unidade dramática a uma trama que se utiliza da fantasia como forma de sobreviver à dureza da realidade. Com fortes tons políticos - bem-vindos em um período em que o Brasil saía de uma ditadura militar, que também corroeu vários países da América do Sul, como a própria Argentina - e a coragem de ter como protagonistas um homossexual assumido e um preso político, "O beijo da mulher-aranha" é um marco inquestionável do cinema nacional, mesmo com seus defeitos (perdoáveis quando postos em perspectiva).

Com um orçamento restrito a ponto de William Hurt e Raul Julia concordarem em trabalhar pelas passagens aéreas e hospedagem em São Paulo, a produção de "O beijo da mulher-aranha" se viu sem dinheiro para a pós-produção, tão logo as filmagens (atrasadas) acabaram. Em nada ajudava o fato de Babenco e o produtor David Weisman brigarem constantemente durante a fase de edição - a ponto de obrigar o roteirista, Leonard Schrader, a viajar ao Brasil para impedir maiores estragos. A maior dificuldade enfrentada pelo editor, Mauro Alice, era conectar a história principal com as sequências que materializavam os filmes narrados por um dos protagonistas - um problema que explodiu logo depois do término do processo, quando tanto Hurt quanto Julia desgostaram profundamente do resultado. Hurt - não exatamente um ator de personalidade fácil - chegou a cogitar a ideia de comprar os negativos para queimá-los e impedir seu lançamento. Para sorte de todos, porém, as coisas se acalmaram com o tempo, e a estreia, no Festival de Cannes, começou a mostrar que o filme estava no caminho certo: Hurt levou seu primeiro prêmio e pavimentou sua trajetória rumo ao Oscar. Nada mal para um intérprete que não era exatamente a escolha ideal do diretor.

Hector Babenco não considerava Hurt a opção ideal para viver Luis Molina, um homossexual condenado por corrupção de menores e que divide a cela com Valentin Aguerri (Raul Julia), um preso político com quem tem uma relação a princípio distante e posteriormente de admiração, respeito e amor. Burt Lancaster, a escolha original, porém, já não tinha mais idade para o papel, e Hurt, já devidamente considerado um grande ator, soava norte-americano e saudável demais para ser convincente. Na primeira leitura, no entanto, o cineasta mudou de ideia - e, apesar do sucesso de sua escolha, teve bons motivos para quase arrepender-se da decisão: em determinado ponto das filmagens, ator e astro não se falavam diretamente, com seus gênios fortes impedindo a tranquilidade da relação. Além disso, constantes mudanças no roteiro incomodavam o ator - que, no entanto, era considerado um exemplo de dedicação ao trabalho, ao lado de seu colega de cena. Tanto empenho fica claro quando se assiste ao produto final: apesar do ótimo trabalho de Raul Julia, é Hurt quem rouba a cena e engole tudo à sua volta, em uma interpretação antológica e inesquecível. Molina é um personagem complexo, difícil e, em mãos erradas, bastante propensa à caricatura e ao exagero: com extrema sensibilidade, Hurt entrega uma performance jamais previsível.

É difícil não perceber alguns problemas sérios em "O beijo da mulher-aranha", uma produção nitidamente modesta, tanto em termos visuais quanto técnicos. Porém, a inteligência do roteiro - que dá pistas sobre a relação entre os dois protagonistas através das histórias contadas pelo romântico Molina, lindamente fotografadas por Rodolfo Sanchez - e o talento superlativo de seus intérpretes principais (Sonia Braga incluída) fazem dele um capítulo indispensável na história do cinema brasileiro, que, a despeito de seu crescimento artístico, ainda não voltou a figurar entre os escolhidos da Academia na disputa por seu prêmio máximo.

MULHER NOTA MIL


MULHER NOTA 1000 (Weird science, 1985, Universal Pictures, 94min) Direção e roteiro: John Hughes. Fotografia: Matthew F. Leonetti. Montagem: Chris Lebenzon, Scott Wallace, Mark Warner. Música: Ira Newborn. Figurino: Marilyn Vance. Direção de arte/cenários: John W. Corso/Jennifer Polito. Produção: Joel Silver. Elenco: Anthony Michael Hall, Kelly LeBrock, Ilan Mitchel-Smith, Bill Paxton, Robert Downey Jr., Suzanne Snyder, Judie Aronson, Robert Rusler. Estreia: 02/8/85

Não houve adolescente dos anos 1980 que não tenha sido afetado por John Hughes. Diretor de filmes seminais como "Gatinhas e gatões (1984) e "Curtindo a vida adoidado" (1986), ele não apenas virou referência obrigatória a qualquer cineasta com pretensões de adentrar o terreno das comédias românticas teen como revelou nomes que atravessaram a década extremamente populares - como Molly Ringwald e Matthew Broderick. Nenhum filme com sua assinatura, porém, foi tão bem-sucedido em retratar as dúvidas, dores e amores juvenis quanto "Clube dos cinco" (1985), hoje considerado um clássico do gênero. O que pouca gente sabe, no entanto, é que, se não fosse uma de suas comédias menos ambiciosas, sua obra-prima poderia nem existir. Explica-se: "Clube dos cinco" só foi aprovado pelos executivos da Universal Pictures mediante a promessa de Hughes dirigir, antes, um filme de apelo mais fácil junto às plateias. Surgia assim, "Mulher nota mil", uma comédia que pode ser descrita como uma mistura de "Frankenstein" com "Porky's" - por mais que essa cruza possa soar estapafúrdia.

Os dois protagonistas de "Mulher nota mil" são Gary (Anthony Michael Hall) e Wyatt (Ilan Mitchel-Smith), estudantes do ensino médio, nerds de carteirinha e, como não poderia ser diferente, totalmente sem jeito quando se trata de relações amorosas. Frustrados em suas tentativas de serem percebidos pelo sexo oposto como algo mais que alvos dos valentões da escola, os dois adolescentes aproveitam um fim de semana sem os pais na casa de Wyatt para fazer uma experiência no computador do rapaz. Inspirados por uma sessão antiga de "Frankenstein", eles alimentam o aparelho com imagens do que consideram a mulher dos seus sonhos. O que parecia não estar funcionando, porém, se converte em realidade depois de uma tempestade elétrica que faz nascer a estonteante Lisa (Kelly LeBrock, a dama de vermelho em carne e osso): a encarnação dos sonhos lúbricos dos garotos, a bela e pouco recatada nova hóspede acaba por servir como mestre de cerimônias de um mundo completamente desconhecido por eles, repleto de festas, bebidas e uma autoconfiança com a qual eles apenas sonham.

 

Com o roteiro escrito em apenas dois dias, "Mulher nota mil" é, logicamente, nada mais do que uma diversão rápida e despretensiosa. O que faz dele especial é justamente o toque de mestre de Hughes em fazer de seus personagens tipos adoráveis e de fácil identificação com o público. Anthony Michael Hall, que colaborou com o diretor em "Gatinhas e gatões" e "Clube dos cinco", antes de fazer uma série de escolhas erradas que o levaram ao ostracismo, é a perfeita imagem do nerd adolescente desesperado, enquanto Ilan Michael-Smith (que abandonou a carreira nos anos 1990 para assumir como professor de Inglês em uma universidade do Texas) representa um lado mais doce e gentil. A química dos dois jovens atores com Kelly Le Brock é precisa - LeBrok, que ganhou o papel para o qual também foram testadas Demi Moore e Robin Wright, não precisa fazer muito mais do que ser linda e atraente, o que ela faz sem esforço. No elenco jovem não deixa de ser curioso perceber Bill Paxton e Robert Downey Jr. em papéis secundários - o primeiro como o irmão mais velho de Wyatt, e o segundo como um dos algozes da dupla de protagonistas.

"Mulher nota mil" é uma sessão da tarde à moda antiga. Seu visual oitentista, sua trilha sonora de rock e a presença de atores que eram a cara da época são deliciosamente cafonas, e a trama, que descamba para o escatológico e o surreal na segunda metade, impede que ele se leva a sério demais. Uma série de TV inspirada no filme e estrelada por Vanessa Angel, estreou em 1994 e durou cinco temporadas, apesar de não ser muito lembrada pelo público. Talvez porque sua essência pertença definitivamente aos anos 1980 e porque a mágica de John Hughes não funcione tão bem sem que ele esteja no comando criativo do projeto. Considerado um filme menor na carreira do cineasta, é um antídoto perfeito para qualquer filme que exija mais do cérebro do espectador.

domingo

A TRAIÇÃO DO FALCÃO

A TRAIÇÃO DO FALCÃO (The falcon and the snowman, 1985, Hemdale, 131min) Direção: John Schlesinger. Roteiro: Steven Zaillian, livro de Robert Lindsey. Fotografia: Allen Daviau. Montagem: Richard Marden. Música: Lyle Mays, Pat Metheny. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: James D. Bissell/Linda De Scenna. Produção executiva: John Daly. Produção: Gabriel Katzka, John Schlesinger. Elenco: Timothy Hutton, Sean Penn, Pat Hingle, Joyce Van Patten, Jerry Hardin, Lori Singer, Michael Ironside. Estreia: 19/01/85 (Festival de Sundance)

Um dos atores mais respeitados e premiados de sua geração, Sean Penn ganhou seu primeiro Oscar apenas em 2004, pelo filme "Sobre meninos e lobos", de Clint Eastwood. Seu talento, porém, já existia desde muito antes, ainda que escondido sob uma persona problemática e em constante conflito com a imprensa e a indústria - e com todos que o rodeavam, como bem sabem Madonna, sua ex-mulher, constante vítima de seus ataques de fúria, e paparazzi, que, agredidos, o levaram a passar uma temporada na cadeia. Seu temperamento volátil, no entanto, apenas não deixava transparecer as qualidades dramáticas que ele mais tarde viria a explorar com mais maturidade. Um exemplo disso é "A traição do falcão": quando foi lançado, em janeiro de 1985, Penn tinha apenas 24 anos de idade e já demonstrava uma dedicação rara em construir um personagem. Para viver o jovem Andrew Daulton Lee - acusado de espionagem contra o governo dos EUA e um dos protagonistas de um livro publicado em 1979 -, o ator não apenas fez um complicado laboratório invadindo a embaixada dos EUA no México (como forma de compreender seu personagem) como sofreu uma transformação física que incluiu ganho de peso, uso de lentes de contato e prótese dentária e uma maquiagem especial para modificar seu nariz. Além disso, entregou uma performance energética que já deixava bem claro aos mais atentos que estava em vias de se transformar em um dos grandes atores americanos de sua geração.

Na verdade, Penn é apenas um dos dois protagonistas de "A traição de falcão", história real levada às telas pelo cineasta John Schlesinger depois de um longo (quatro anos) processo de desenvolvimento, iniciado com o lançamento do livro "The falcon and the snowman: a true story of friendship and espionage", escrito por Robert Lindsey. Primeiro roteiro de Steven Zaillian - oscarizado por "A lista de Schindler" (93) - a ser produzido, o filme de Schlesinger centra sua trama em dois personagens fascinantes e defendidos com igual garra por Penn e Timothy Hutton, que ganhou do Oscar de coadjuvante por "Gente como a gente" (80) com apenas vinte anos. Hutton vive Christopher Boyce, um ex-coroinha que, ao abandonar o seminário, volta para a casa dos pais e arruma emprego em uma empresa responsável por comunicações secretas para várias instituições do país, incluindo a CIA. Inteligente e idealista, Boyce não demora a perceber em tais comunicações a interferência dos EUA na política de vários outros países, como Austrália e Chile (que acaba por sofrer um golpe de estado). Desiludido com o que descobre, ele procura o amigo de infância Andrew Lee (Sean Penn), que, apesar de jovem, já tem uma vasta ficha criminal, por porte e tráfico de drogas. Juntos, eles formam um time que vende informações confidenciais para a União Soviética (o ano é 1974) - enquanto Boyce tem objetivos idealistas, Lee deseja apenas se beneficiar do dinheiro que pode conseguir. Mas as coisas, obviamente, se complicam e lhes coloca diretamente no caminho das leis americanas de espionagem.


Imprimindo em seu filme um ritmo de thriller político, valorizado pela entrega de seus dois atores centrais, Schlesinger constrói aos poucos um senso de paranoia, que vai se acentuando conforme o cerco se fecha ao redor de seus protagonistas. Ao público, mesmo ciente de que está diante de dois anti-herois, cabe grudar os olhos em uma narrativa elegante e sóbria, com ecos do cinema policial dos anos 70 - em especial aqueles dirigidos por Sidney Lumet e estrelados por Al Pacino: com economia de recursos estilísticos, o cineasta se ampara em uma edição inteligente para estabelecer os contrastes nas vidas e trajetórias de cada um de seus personagens centrais, que na vida real acabaram por realizar uma interessante mudança de rumos após o desfecho da trama mostrada no filme: Boyce participou de um assalto e Lee, o mais propenso à vida criminal, nunca mais se envolveu com a lei e chegou a trabalhar como assistente de Sean Penn. O roteiro de Zaillian até demora um pouco a engrenar, ao detalhar a rotina de Boyce e os problemas de Lee, mas apresenta um ato final poderoso e tão instigante que é difícil não se deixar envolver - em boa parte, mais uma vez é bom dizer, graças às interpretações impecáveis de Timothy Hutton e Sean Penn.

Ilustrado com a bela "This is not America", na voz de David Bowie, "A traição do falcão" é uma produção típica de sua época, em que a Guerra Fria estava no auge e a União Soviética parecia a maior das ameaças ao american way of life. Como uma espécie de crônica de uma juventude desiludida e perdida, o filme de Schlesinger é preciso em sua forma de mostrar como o governo Nixon e seu escândalo Watergate fez desmoronar, para muitos americanos, a ideia de um país democrático e justo. O tom político da trama - na verdade apenas um pano de fundo para uma história empolgante de espionagem - é um tempero a mais em uma produção que traduz, como poucas outras, o fim do sonho americano e sua metamorfose no cinismo e no individualismo que se tornariam marcas registradas dos anos 80 e do mandato de Ronald Reagan. Um filme não apenas competente como cinema, mas também como documento de um período crucial na história política dos EUA.

quinta-feira

O FIO DA SUSPEITA

O FIO DA SUSPEITA (Jagged edge, 1985, Columbia Pictures, 108min) Direção: Richard Marquand. Roteiro: Joe Eszterhas. Fotografia: Matthew F. Leonetti. Montagem: Sean Barton, Conrad Buff. Música: John Barry. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Gene Callahan/Peter J. Smith. Produção: Martin Ransohoff. Elenco: Glenn Close, Jeff Bridges, Peter Coyote, Robert Loggia, Lance Henriksen, James Karen, Marshall Colt. Estreia: 05/9/85 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Robert Loggia)

A cena é típica: em uma mansão à beira-mar de São Francisco, uma mulher é surpreendida durante o sono por um homem vestido com uma máscara que lhe esconde o rosto. Violentamente, o invasor a mata a facadas, mutilando-a e utilizando seu sangue como tinta, para escrever na parede uma ofensa final. Assim começa o filme "O fio da suspeita", do mesmo Richard Marquand que também dirigiu o ultra bem-sucedido "O retorno de Jedi" (83), e se a sequência parece familiar é porque seu criador é o mesmo Joe Eszterhas de "Instinto selvagem", realizado em 1992. Usando os mesmos elementos que usaria para escrever o maior sucesso de sua carreira - uma boa história, personagens interessantes e reviravoltas até os últimos minutos - Eszterhas conquistou o público, graças à elegância da direção de Marquand (em seu penúltimo filme) e ao elenco impecável, que dá credibilidade e legitimidade a uma trama policial que, mesmo sem maiores novidades, prende o espectador de seu instigante começo até o desfecho climático - que, ao contrário do que foi dito à época de seu lançamento, não foi alterado e sim tornado mais claro depois das primeiras exibições.

No filme, a vítima da primeira cena é a milionária Page Forrester, que morre e deixa toda a sua fortuna para o marido, Jake (Jeff Bridges), que, logicamente, passa a ser o principal suspeito do crime. Quando uma faca similar à arma do crime é encontrada em seu armário no clube, Jake é imediatamente indiciado e somente uma boa defesa pode impedí-lo de uma condenação pelo júri popular. Entra em cena então a competente Teddy Barnes (Glenn Close), que abandonou o Direito Penal depois de uma decepção profissional, mas que acaba seduzida pelo charme irresistível do réu. Enquanto trabalha na defesa do jovem milionário, Teddy entra em confronto com o venal promotor Thomas Krasny (Peter Coyote) - com intenções de ascender politicamente graças ao caso - e se vê envolvida sentimentalmente pelo cliente, que jura inocência. Para deixar tudo ainda mais confuso, Teddy começa a receber bilhetes anônimos, escritos à máquina e que afirmam a inocência do acusado.


Confiante em seu elenco e na história que tinha em mãos, Richard Marquand acertou em cheio em não tentar inventar a roda, preferindo apostar em uma narrativa linear e simples, pontuada aqui e ali com algumas surpresas para manter o interesse do público e o ritmo da trama. Equilibrando com maestria tanto o lado romântico do enredo quanto seu ângulo policial, o cineasta explora com inteligência o talento de seus dois protagonistas, ambos com atuações sutis e que deixam espaço para o brilho de seus colegas de cena - que o diga Robert Loggia, indicado ao Oscar de ator coadjuvante por seu desempenho como Sam Ransom, investigador que auxilia Teddy em sua busca pela verdade. Também optando por uma interpretação sem excessos, Loggia quase rouba a cena, com um personagem à margem de todo o jogo de poder e sedução que se desenrola à sua volta. O mesmo pode ser dito de Peter Coyote, que mesmo com um personagem um tanto clichê em mãos, o transforma em uma pessoa de carne e osso. Glenn Close - em papel oferecido a Jane Fonda e Kathleen Turner e que quase foi rejeitada pelo produtor Martin Ransohoff por ser considerada feia - está elegante e sóbria, transmitindo todas as nuances de sua personagem antes de encarar as duas vilãs que marcariam sua carreira (e lhe dariam indicações ao Oscar), em "Atração fatal" (87) e "Ligações perigosas" (88). E Jeff Bridges, no personagem mais sedutor de sua carreira, segura com unhas e dentes o personagem dúbio herdado de Michael Douglas - coincidentemente ou não, o protagonista de "Instinto selvagem".

Inteligente, elegante e dotado de todos os ingredientes que fazem a festa dos fãs de filmes policiais passados em tribunais, "O fio da suspeita" agrada a qualquer espectador que se disponha a acompanhar uma história bem contada, com atores competentes e um final coerente e lógico. Sem apelar para as estripulias eróticas de "Instinto selvagem" e "Jade" (95), seus filmes mais famosos, Eszterhas brinda a plateia com um roteiro coeso e fluente, que jamais perde o foco e de quebra mantém o suspense mesmo quando tudo parece se encaminhar para o óbvio. Seu final - que pode ou não agradar aos mais exigentes - pode não ser brilhante, mas pelo menos não ofende a inteligência do público como muitos suspenses que se pretendem surpreendentes e acabam por cair no inverossímil. Um belo filme policial dos anos 80 que sobrevive muito bem ainda hoje.

quarta-feira

O FEITIÇO DE ÁQUILA

O FEITIÇO DE ÁQUILA (Ladyhawke, 1985, 20th Century Fox, 121min) Direção: Richard Donner. Roteiro: Edward Khmara, Michael Thomas, Tom Mankiewicz, estória de Edward Khmara. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Stuart Baird. Música: Andrew Powell. Figurino: Nanà Cecchi. Direção de arte/cenários: Wolf Kroeger. Produção executiva: Harvey Bernhard. Produção: Richard Donner, Lauren Schuller. Elenco: Rutger Hauer, Michelle Pfeiffer, Matthew Broderick, Leo McKern, John Wood, Alfred Molina. Estreia: 12/4/85

2 indicações ao Oscar: Som, Efeitos Sonoros

Quando Richard Donner resolveu assumir a batuta de "O feitiço de Áquila", fábula medieval com toques de romance, aventura e humor, ele já era um diretor conhecido e com no mínimo dois enormes sucessos comerciais no currículo, "A profecia" (76) e "Superman, o filme" (78). Cineasta competente, capaz de transitar com tranquilidade por vários gêneros - em 1987 começou a série "Máquina mortífera", que catapultou a carreira de Mel Gibson - Donner não viu nenhuma espécie de problema em comandar uma trama que pudesse exigir do espectador uma dose extra de boa-vontade, por fugir do tradicional esquema dos grandes estúdios e apostar na fantasia como principal ingrediente. Talvez devesse ter pensado melhor: seu filme acabou ignorado pelo público e desprezado pela crítica, arrecadando pouco mais de 18 milhões de dólares e lhe deixando em uma situação nada invejável, já que seu trabalho anterior, a comédia "O brinquedo" (82) - feito para capitalizar em cima da popularidade do ator Richard Pryor - também não havia sido exatamente um êxito financeiro. Foi somente com o tempo - esse fator tantas vezes cruel com a arte - que o público foi descobrindo as qualidades de seu filme, que tornou-se cult depois de seu lançamento em vídeo e de diversas apresentações na televisão. Hoje, "O feitiço de Áquila" é, sem dúvida, um dos filmes mais famosos de Donner - e um clássico dos anos 80.

Passada na Itália do século XIV, a trama de "O feitiço de Áquila" gira em torno do amor proibido e da maldição que envolve o Capitão Etienne Navarre (Rutger Hauer) e a bela Isabeau (Michelle Pfeiffer, deslumbrante e antes de virar estrela de primeira grandeza em Hollywood): por artes do invejoso e vil Bispo de Áquila (John Wood, em papel pensado para o roqueiro Mick Jagger), o par de amantes está condenado a jamais consumar seu romance de forma plena. Em um ato de vingança contra a rejeição de Isabeau, o Bispo fez um pacto com as trevas que transforma a jovem em um falcão durante o dia e o soldado em lobo durante a noite. Sempre juntos mas nunca em forma humana ao mesmo tempo, os dois tentam encontrar uma maneira de reverter a maldição: enquanto Navarre acredita que somente matando o Bispo com a espada de sua família isso pode acontecer, porém, um velho monge chamado Imperius (Leo McKern) - responsável por parte da tragédia - surge com uma alternativa, que só pode acontecer em uma data específica, quando um eclipse solar impedirá o sol de transformar Isabeau e pássaro. Para chegarem ao castelo, no entanto, eles irão precisar da ajuda de Phllipe Gaston, o Rato (Matthew Broderick), ladrão de galinhas que foi o único a conseguir escapar da masmorra do palácio.





Realizado antes que os efeitos digitais tomassem conta da indústria de cinema - o que fica bastante claro nas sequências em que os protagonistas sofrem suas metamorfoses - e com uma trilha sonora bastante inadequada de Andrew Powell, "O feitiço de Áquila" encontra redenção na verdade com que os atores se entregam à trama, oferecendo um tom de realismo a uma história cujo tom de fantasia é o principal elemento. Matthew Broderick é quem sai-se melhor, na pele do esperto Rato - uma espécie de ensaio para seu inesquecível Ferris Bueller de "Curtindo a vida adoidado" (86) - e é difícil imaginar que nomes tão díspares quanto Sean Penn e Dustin Hoffman tenham sito cotados para o papel. Aliás, o elenco parece tão coeso que soa estranho imaginar como seria se os atores inicialmente imaginados por Donner realmente tivessem assinado seus contratos: além de Penn e Hoffman, outros absurdos foram cogitados, como escalar Sean Connery para interpretar o galã - que, antes da decisão do diretor de escalar Hauer (ator holandês mais conhecido então por "Blade Runner, o caçador de androides" (82), estava nas mãos de Kurt Russell, que desistiu do filme poucos dias antes do começo das filmagens na Itália - em três castelos de propriedade da família do cineasta Luchino Visconti.


Para quem é fã de produções fantásticas, com histórias que equilibram romance e aventura, "O feitiço de Áquila", com todos os seus "defeitos" especiais, é uma pequena obra-prima. A fotografia do veterano Vittorio Storaro é deslumbrante e capta com perfeição o visual exuberante exigido pelo roteiro, que usa e abusa de todos os clichês do gênero sem soar reverente ou debochado. O respeito de Donner pelo material e a seriedade com que ele se dedica a criar um universo plausível mesmo diante de um enredo fantasioso é um dos grandes méritos do filme, que é valorizado também pelos atores e pelo ar de nostalgia que permite ao espectador deixar passar seus pecados nem tão imperceptíveis assim. Enfim, é uma sessão da tarde clássica, com tudo que isso tem de bom e de ruim.

quinta-feira

A FORTALEZA

A FORTALEZA (Fortress, 1985, HBO Films, 85min) Direção: Arch Nicholson. Roteiro: Everett De Roche, romance de Gabrielle Lord. Fotografia: David Connell. Montagem: Ralph Strasser. Música: Danny Beckerman. Direção de arte: Philip Warner. Produção executiva: Hector Crawford, Ian Crawford, Terry Stapleton. Produção: Raymond Menmuir. Elenco: Rachel Ward, Sean Garlick, Elaine Cusick, Laurie Moran, Marc Gray, Rebecca Rigg, Richard Terrill. Estreia: 24/11/85

Hoje em dia é comum que produções televisivas alcancem níveis de qualidade compatíveis com aqueles realizados para o cinema, graças especialmente a emissoras como a HBO. Algumas décadas atrás, no entanto, filmes feitos especificamente para a TV não tinham o mesmo status, sendo frequentemente ligados a atores e diretores cujas carreiras não tinham o mesmo prestígio de antes. "A fortaleza", rodado na Austrália e estrelado por Rachel Ward - que havia arrancado suspiros da ala masculina com sua atuação em "Paixões violentas" (84) - faz parte dessa época, mas é impressionante como, mesmo com as limitações impostas pelo veículo, consegue prender a atenção e proporcionar à audiência um espetáculo que, se não chega a ser brilhante, ao menos é competente e eficiente a ponto de contar bem uma história envolvente e imprevisível.


Ward, em seu primeiro papel pós-"Paixões violentas" está convincente como Sally Jones, a professora não muito satisfeita de uma pequena cidade rural da Austrália que mora com os pais de um aluno e não vê a hora de acabar o ano letivo para buscar novos objetivos profissionais. Sua tranquila e tediosa rotina se vê drasticamente modificada, no entanto, em um dia que começa aparentemente igual a todos os outros: um grupo de quatro homens mascarados invade a escola e a sequestra, juntamente com seus oito alunos (cujas idades variam dos seis aos quatorze anos). Com a intenção de pedir um resgate por suas vidas, os criminosos os escondem em uma caverna, mas nenhum dos reféns - a começar pela professora e pelo rebelde Sid (Sean Garlick) - pretendem resignar-se à sua condição e começam a engendrar um plano de fuga que os colocará em rota de colisão com a violência e a truculência de seus sequestradores.


Dirigido por Arch Nicholson, um veterano em produções televisivas, que assinou episódios de séries como "Missão impossível" (a versão anos 80) e que morreu em 1990 aos 49 anos de idade, "A fortaleza" tem a seu favor um roteiro conciso e interessante, baseado em uma história real acontecida em 1972, quando quatro homens sequestraram uma professora e sua classe e descobriram, tarde demais, que o grupo havia conseguido fugir apesar da densa floresta que os cercava. O filme, por sua vez, expande a história original, dando à relação entre Sally e seus alunos um viés mais familiar, com um arco dramático mais rico do que aconteceu na vida real: não apenas a professora passa a sentir-se mais próxima dos alunos com quem mantinha um certo distanciamento emocional como as próprias crianças descobrem dentro de si uma coragem desconhecida - além de uma tendência para a violência e a crueldade que só explode nas sequências finais.

Fosse direcionado para o cinema e tivesse no comando um diretor mais ousado e criativo, certamente "A fortaleza" teria um impacto muito maior em seu resultado final. Apesar disso - e das restrições inerentes ao veículo, especialmente nos anos 80, quando o limite entre o que podia ou não ser mostrado na televisão ainda era muito mais apertado - o filme de Nicholson consegue sobressair-se de seus congêneres graças ao trabalho de Rachel Ward e do roteiro, que flui com bom ritmo e senso de clímax. É um divertimento correto, levando-se em consideração as circunstâncias de sua realização, e pode tranquilamente servir como um entretenimento ligeiro.

terça-feira

A HONRA DO PODEROSO PRIZZI

A HONRA DO PODEROSO PRIZZI (Prizzi's honor, 1985, ABC Motion Pictures, 130min) Direção: John Huston. Roteiro: Richard Condon, Janet Roach, romance de Richard Condon. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem: Kaja Fehr, Rudi Fehr. Música: Alex North. Figurino: Donfeld. Direção de arte/cenários: Dennis Washington/Bruce Weintraub. Produção: John Foreman. Elenco: Jack Nicholson, Kathleen Turner, Robert Loggia, John Randolph, William Hickey, Anjelica Huston, Lawrence Tierney, Lee Richardson. Estreia: 13/6/85

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (John Huston), Ator (Jack Nicholson), Ator Coadjuvante (William Hickey), Atriz Coadjuvante (Anjelica Huston), Roteiro Adaptado, Montagem, Figurino
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Anjelica Huston)
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Comédia/Musical, Diretor (John Huston), Ator Comédia/Musical (Jack Nicholson), Atriz Comédia/Musical (Kathleen Turner) 

Penúltimo filme da carreira de John Huston - o derradeiro seria "Os vivos e os mortos" (88), adaptado de conto de James Joyce - e último realizado nos EUA, "A honra do poderoso Prizzi" surpreende pela energia imposta pelo então quase octogenário cineasta a uma trama que mistura no mesmo caldeirão um filme de máfia, uma comédia de humor negro e uma crítica à hipocrisia da sociedade patriarcal e machista da América. Adaptado de um romance de Richard Condon, o filme foi lançado às pressas nos EUA porque o estúdio considerava que o material não tinha estofo comercial, mas acabou sendo contrariado pelas críticas mais do que positivas, pelo sucesso de público e, melhor ainda, pelas generosas oito indicações ao Oscar - e pela estatueta mais do que justa abocanhada por Anjelica Huston, que ficou com o papel oferecido a atrizes tão díspares quanto Mia Farrow, Demi Moore e Michelle Pfeiffer e provou que era mais do que simplesmente a filha do diretor e namorada de Jack Nicholson.

Nicholson, aliás, está em um de seus desempenhos mais discretos, sem o arsenal de caras e bocas que marcaram sua carreira - e também recebeu uma justa indicação ao Oscar. Ele vive Charley Partanna, o afilhado do poderoso Don Corrado Prizzi (William Hickey), chefe de um das mais poderosas famílias mafiosas dos EUA. Trabalhando para a família como matador, ele também tem relações com o passado da neta de Corrado, a ousada Maerose (Anjelica Huston), com quem mantinha um relacionamento que acabou com uma tumultuada separação e a expulsão dela do rígido clã. Em uma festa de casamento, Partanna cai de amores pela bela Irene Walker (Kathleen Turner), que está em Nova York a negócios. Os dois iniciam um tórrido romance que acaba em casamento, mas logo as coisas se mostram bem mais complicadas do que pareciam a princípio, já que ambos tem a mesma profissão e não demora para que sejam contratados para matar um ao outro.


Com um roteiro brilhante co-escrito pelo autor do romance que lhe deu origem, "A honra do poderoso Prizzi" brinca com os clichês dos filmes de máfia sem nunca deixar de prestar-lhe os devidos tributos de cânones essenciais da cultura cinematográfica americana. Evitando a violência explícita - mesmo as cenas de morte tem um pé no surreal, o que as deixa no mínimo bizarras - e utilizando um senso de humor mordaz que encontra em seus atores os intérpretes ideais, Huston conduz as reviravoltas de seu filme com a segurança de um cineasta que sabe melhor do que ninguém - a julgar por sua cinematografia cínica e quase cruel - como funciona a alma daqueles cidadãos cujas regras são ditadas por seus próprios interesses e ambições. Um dos últimos diretores da velha guarda de Hollywood, ele não deixa de lado a elegância nem mesmo quando seus personagens agem de forma egoísta ou violenta. Pode-se até dizer que "Prizzi" é um filme de gângster sem sangue algum - até mesmo em seu clímax existe uma discrição à moda antiga, como se seguisse a máxima de Hitchcock, que dizia que um assassinato

"A honra do poderoso Prizzi" chegou ao Oscar enfrentando a concorrência quase injusta de "Entre dois amores", de Sydney Pollack, que com suas características de épico romântico deixou todos os indicados do ano comendo poeira, incluindo o belíssimo "A cor púrpura", de Steven Spielberg. Mesmo tendo o aval do Golden Globe, onde teve sorte bem melhor, o filme de Huston ficou apenas com a estatueta de Anjelica, o que nem de longe reflete suas inúmeras qualidades. Um retrato bem-humorado do mundo da máfia mas que jamais abandona seu jeitão de filme de gângster, é uma pequena obra-prima de um dos mais importantes cineastas da história do cinema ianque e, de quebra, apresenta uma química de ouro entre Jack Nicholson, Anjelica Huston e Kathleen Turner. Um filme para quem gosta de cinemão.

sábado

O PRIMEIRO ANO DO RESTO DE NOSSAS VIDAS

O PRIMEIRO ANO DO RESTO DE NOSSAS VIDAS (St. Elmo's fire, 1985, Columbia Pictures, 110min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Joel Schumacher, Carl Kurlander. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Richard Marks. Música: David Foster. Figurino: Susan Becker. Direção de arte/cenários: William Sandell/Robert Gould, Charles M. Graffeo. Produção executiva: Bernard Schwartz, Ned Tanen. Produção: Lauren Shuler. Elenco: Emilio Estevez, Rob Lowe, Andrew McCarthy, Demi Moore, Judd Nelson, Ally Sheedy, Mare Winningham, Martin Balsam, Andie MacDowell. Estreia: 28/6/85

Billy Hicks (Rob Lowe) é um jovem irresponsável, casado precocemente e que sonha em viver da música, além de ser o objeto de desejo de sua colega de faculdade, Wendy (Mare Winningham), uma judia rica que trabalha em um centro de assistência social e sonha entregar a ele sua virgindade, apesar dos esforços de sua família para que se case com um rapaz com suas mesmas condições financeiras e religiosas. Jules (Demi Moore) é uma patricinha que não tem uma relação das melhores com o pai e a madrasta e procura refúgio nas drogas e no álcool, além de ter um caso amoroso com seu chefe casado. Alec Newbarry (Judd Nelson) é um assistente político em vias de mudar de ideologia graças ao poder do dinheiro - e assim poder casar-se com a namorada, Leslie Hunter (Ally Sheedy), que busca reconhecimento profissional e desconhece tanto as escapadelas sexuais do namorado quanto a paixão que desperta em outro colega, Kevin Dolenz (Andrew McCarthy), que todos desconfiam ser gay. E Kirby Keler (Emilio Estevez) trabalha como garçom no St. Elmo's, o bar onde todos confraternizam frequentemente e reafirmam suas relações de amizade - enquanto tenta conquistar o amor de Dale Biberman (Andie MacDowell), uma médica que ele conhece e ama desde os tempos da faculdade.

Esses são os sete protagonistas de "O primeiro ano do resto de nossas vidas", primeiro sucesso de Joel Schumacher como diretor - depois de anos como figurinista e diretor de arte e de dois trabalhos pouco vistos. Seguindo um nicho um bocado mais maduro do que aquele que se dedicava a adolescentes atormentados por dúvidas existenciais e românticas, o roteiro explora (sem maiores profundidades mas de forma simpática e fotogênica) um grupo mais velho de personagens, recém-saídos da universidade mais ainda perdidos em relação a seu espaço no mundo - não deixa de ser irônico que no mesmo ano de seu lançamento, três de seus atores (Emilio Estevez, Ally Sheedy e Judd Nelson) também estivessem no sucesso "Clube dos cinco", de John Hughes, onde interpretavam colegiais. Também é uma ironia inconsciente que, apesar de todos os personagens estarem na casa dos vinte e poucos anos, seus problemas serem bem pouco diferentes daqueles enfrentados por Molly Ringwald e companhia nos filmes de Hughes, sendo substituídos apenas por questões relativas à elevação da faixa etária: saem as dúvidas sobre as faculdades a serem cursadas e entram as dificuldades de se colocar no mercado de trabalho; ficam pra trás as tentativas de se encaixar em um mundo hostil às diferenças e entra em cena a luta para manter a individualidade; acaba o desespero para encontrar o amor e inicia a batalha para manter um relacionamento adulto e longe das tentações físicas que surgem a cada esquina. Mesmo que não seja um cineasta espetacular, Schumacher tem o mérito de conseguir interpretações corretas de seu elenco de astros juvenis mesmo com os problemas pessoais de Demi Moore (que na vida real vivia problema semelhante à de sua personagem ficctícia, envolvida com drogas) e a inexperiência de muitos deles.


Lançado em uma época do cinema hollywoodiano onde um novo grupo de jovens atores começava a dar as cartas - mesmo que muitos deles não tenha conseguido fazer a transição de promessa a ator respeitado - "O primeiro ano do resto de nossas vidas" faz uso de todas as qualidades e defeitos da rapaziada. Fica evidente, por exemplo, o quanto Emilio Estevez se sobressai, mesmo com um personagem cujo maior drama é o de tentar seduzir uma antiga paixão, mais velha e com outras prioridades na vida. Mare Winningham se esforça como a virginal Wendy - mesmo estando grávida durante as filmagens - e seria indicada ao Oscar de coadjuvante em 1996 por "Georgia" e Ally Sheedy, mesmo sendo a mais talentosa do elenco, também seria prejudicada por complicações com as drogas, interrompendo o que poderia ter sido uma brilhante carreira. Demi Moore e Rob Lowe desfilam sua beleza pela tela, não sendo muito mais exigidos do que isso, ainda que nenhum deles seja exatamente um ator ruim. E Judd Nelson convence em um papel bastante diferente do valentão rebelde que interpretou em "Clube dos cinco" e que lhe deu fama junto ao público jovem. Na ponta de tudo, Andrew McCarthy também não se sai mal como o galã incompreendido apaixonado pela mulher de um amigo. Juntos, eles tem uma química que é, senão o principal elemento do filme, ao menos o combustível que o mantém em fogo constante até o final mezzo melancólico mezzo otimista.

Equilibrando um tom caloroso - resquícios do sempre inspirador "O reencontro" (83) - com momentos de um cinismo típico da geração yuppie dos anos 80, "O primeiro ano do resto de nossas vidas" tornou-se, de certa forma, o retrato de uma parcela da juventude norte-americana de sua época, ainda que não aprofunde a maioria de seus questionamentos e paire superficialmente sobre muitas questões que mereceriam maior atenção. No entanto, funciona como retrato de um cinema específico, de um momento também restrito e de exemplo de como um elenco bem escolhido pode fazer metade do serviço quando se fala de cinema. Imaginem só se Jodie Foster tivesse aceito viver Jules!!!

quinta-feira

DEPOIS DE HORAS

DEPOIS DE HORAS (After hours, 1985, Geffen Company, 97min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Joseph Minion. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Thelma Schoonmaker. Música: Howard Shore. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Jeffrey Townsend/Leslie Pope. Produção: Robert F. Colesberry, Griffin Dunne, Amy Robinson. Elenco: Griffin Dunne, Rosanna Arquette, Linda Fiorentino, John Heard, Catherine O'Hara, Teri Garr, Verna Bloom, Bronson Pichot, Will Patton. Elenco: 13/8/85

É quase impensável que um filme como "Depois de horas", uma das comédias de humor negro mais geniais da história do cinema americano da década de 80 - e quiçá de muito tempo antes e depois - seja considerado um "Scorsese menor". Inspirado nos filmes de Hitchcock e levado em tom de paródia, o filme produzido e estrelado pelo ator Griffin Dunne (que depois sentaria na cadeira de diretor em algumas ocasiões) é, nas palavras de seu cineasta, uma descida ao inferno. Mas tal descida é realizada com tal senso de humor bizarro e surrealismo que é difícil não embarcar na jornada de seu protagonista, arrastado sem maiores avisos para uma terra hostil e onde tudo pode acontecer - o SoHo nova-iorquino da época dos yuppies e artistas modernos. É lá que, em uma noite das mais longas já retratadas pelo cinema, o pacato Paul Hackett, em busca de momentos de amor (ou sexo ou qualquer coisa que o valha), encontra um país não das maravilhas, mas do sadomasoquismo, da solidão e de mal-entendidos que podem significar a morte e a violência.

Primeiro roteiro de Joseph Minion - que o escreveu como tese final de seu curso na Faculdade de Columbia - "Depois de horas" chegou às mãos de Scorsese depois que suas tentativas de realizar "A última tentação de Cristo" chegaram a um impasse e o liberaram para dirigir um projeto menor. Substituindo Tim Burton - o diretor escolhido como a segunda opção - o cineasta, que vinha de filmes considerados mais densos, como "Taxi driver" (76) e "Touro indomável" (80) e enfrentava o fracasso de seu mais recente trabalho, a incompreendida comédia dramática "O rei da comédia" (83), viu a oportunidade como a chance de ilustrar a sua ideia de que somos todos peões com cujas vidas os deuses - se eles existem - pouco se importam. Surgia, assim, uma das comédias mais assustadoramente angustiantes de sua carreira - e mais um de seus filmes injustamente relegados a segundo plano em uma brilhante carreira.


Griffin Dunne - visto anteriormente em "Um lobisomem americano em Londres" (81), de Joe Landis - está especialmente perfeito como o certinho e previsível Paul Hackett, o revisor de uma editora que leva uma entediante vida profissional e pessoal que vê seu mundo virar do avesso depois de um inocente flerte com a simpática Marcy (Patricia Arquette) em uma lanchonete. Lendo "Trópico de Câncer", de Henry Miller, ele inicia com ela uma conversa que acaba em uma troca de números de telefone e com sua decisão de visitá-la na casa de uma amiga que mora no SoHo, a artista plástica Kiki Bridges (Linda Fiorentino), que trabalha com papel-marchê e tem amigos no submundo sadomasoquista do bairro. Depois de saber um pouco mais a respeito da atribulada vida de Marcy, Paul - que perdeu sua única nota de vinte dólares no caminho para o encontro - acaba impedido de voltar pra casa e conhece uma galeria inusitada de personagens que, cada um à sua maneira particular e bizarra, fazem parte do mesmo círculo sinistro de relações. A noite - interminável, chuvosa e feérica - não demora a se transformar em um pesadelo kafkiano quando ele passa a ser perseguido, confundido com um ladrão que vem atacando a vizinhança.

Comédia que dispensa gargalhadas, "Depois de horas" mostra um senso de humor negro com que a obra de Scorsese até então havia apenas flertado discretamente. A câmera frequentemente nervosa do diretor - com a ajuda de seus habituais colaboradores Michael Ballhaus na fotografia e Thelma Schoonmaker na edição - acompanha os angustiados passos de seu protagonista como uma testemunha imparcial, brilhando apenas em pequenos detalhes, como o suspense que cria em situações corriqueiras, como o mero acender de uma lâmpada e as tentativas desesperadas de convencer o bilheteiro do metrô a deixar-lhe embarcar de volta para o aconchego de seu apartamento yuppie. Scorsese deita e rola com todas os entraves no caminho de Paul Hackett, envolvendo o espectador em um labirinto aparentemente sem saída que culmina com um desfecho absurdamente coerente com seu desenvolvimento atípico. É um filme irônico, repleto de sacadas inteligentes, que mistura Hitchcock, Henry Miller, Kafka e o submundo da arte moderna oitentista sem soar arrogante ou condescendente. É uma pequena obra-prima, e como tal deveria ser reconhecida, mesmo que tardiamente.

domingo

ENTRE DOIS AMORES


ENTRE DOIS AMORES (Out of Africa, 1985, Universal Pictures, 161min) Direção: Sydney Pollack. Roteiro: Kurt Luedtke, livros de Karen Blixen, Judith Thurman, Errol Trzebinski. Fotografia: David Watkin. Montagem: Pembroke Herring, Sheldon Kahn, Fredrick Steinkamp, William Steinkamp. Música: John Barry. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Stephen Grimes/Josie MacAvin. Casting: Mary Selway. Produção executiva: Kim Jorgensen. Produção: Sydney Pollack. Elenco: Meryl Streep, Robert Redford, Klaus Maria Brandauer, Michael Kitchen, Malick Bowens. Estreia: 18/12/85

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sydney Pollack), Atriz (Meryl Streep), Ator Coadjuvante (Klaus Maria Brandauer), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Figurino, Direção de arte/cenários, Som
Vencedor de 7 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sydney Pollack), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora, Direção de arte/cenários, Som
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Ator Coadjuvante (Klaus Maria Brandauer), Trilha Sonora


Filmes épicos sempre fizeram a cabeça dos membros da Academia, especialmente se são baseados em fatos reais. Por isso não deixava de ser previsível a vitória esmagadora de "Entre dois amores" no Oscar 85. Dirigido por Sydney Pollack, o filme levou 7 estatuetas pra casa, não deixando chance para seus competidores - entre eles o elogiado "A cor púrpura", de Steven Spielberg. Inspirado em fatos da vida da escritora dinamarquesa Karen Blixen, é um filme que conquista pela beleza de seu visual estonteante e pela atuação soberba - mais uma - de Meryl Streep.

Ficando com o papel que, em projetos anteriores foi cogitado para ser interpretado por Audrey Hepburn e Greta Garbo, Streep entrega um trabalho meticuloso e sensível, que lhe rendeu a sexta indicação ao Oscar. Ela vive Karen Blixen, que, no início do século XX, se casa com Bor (Klaus Maria Brandauer),um amigo, por puro interesse: ela quer o título de Baronesa que ele pode dar-lhe; ele deseja o dinheiro que ela tem e que pode dar início à sua criação de gado no Kenya colonizado pela Inglaterra. Logo depois do casamento as coisas começam a dar errado: ele resolve mudar os planos e plantar café, além de não abdicar de seus relacionamentos extra-conjugais. Frequentemente sozinha na enorme fazenda de sua propriedade, Karen - uma talentosa contadora de histórias - torna-se interessada pela cultura africana, além de tentar melhorar as diferenças sociais de sua região. Quando ela se apaixona pelo caçador Denys Finch-Hatton (Robert Redford), que preza sua liberdade acima de qualquer outra coisa, ela passa a experimentar também as agruras de um romance conturbado.

"Entre dois amores" é um épico romântico que exala grandiosidade a cada cena. A espetacular fotografia de David Watkin capta a beleza natural do continente africano com maestria, e a trilha sonora de John Barry corrobora o clima romântico/selvagem proposto pela história de Blixen (autora do conto que deu origem ao filme "A festa de Babette"). A reconstituição de época é caprichada e até mesmo o cuidado com os dados históricos é acurado. Mas falta ao filme de Pollack a opção por um foco específico de interesse. Dividido entre contar a luta da protagonista pelo bem-estar do povo africano, narrar sua batalha pela fazenda e mostrar sua atribulada história de amor, ele acaba por não se aprofundar o bastante em nenhuma das tramas, o que diminui consideravelmente seu impacto.


As três linhas de narrativa de "Entre dois amores" são bastante interessantes. Como paladina dos interesses dos nativos africanos, Karen assume o papel de uma mulher disposta a oferecer sua inteligência e boa-vontade a pessoas de cultura oposta à sua, mesmo batendo de frente com as lideranças locais, uma trama que, sozinha, já renderia um excelente filme. Como uma esposa solitária que luta para manter sua fazenda lucrativa e produtiva, a futura escritora se apresenta como uma espécie de Scarlett O'Hara menos voluntariosa e interesseira e, como "E o vento levou" continua provando, é uma história que manteria acesa a atenção da plateia. E como mulher apaixonada, a personagem de Meryl Streep dá à atriz a chance de mostrar porque é uma das mais destacadas profissionais do cinema. Mas justamente no foco que poderia ser o mais fascinante do filme, ela esbarra em um problema sério: a apatia de seu colega de cena.

Robert Redford - que trabalhou com Pollack em "Nosso amor de ontem" (1973) e "Havana" (1990) - é um dos mais importantes nomes do cinema americano, por causa de sua carreira como ator, diretor e produtor e devido a seu incentivo ao cinema independente, como comprova sua cria, o Festival de Sundance. Mas em "Entre dois amores" ele não faz o suficiente para justificar a paixão de Karen Blixen, não fazendo mais do que desfilar seu charme pela tela. Comparado com o furacão passional mostrado por Streep ele empalidece perigosamente e quase atrapalha o resultado final. Para sorte do espectador, no entanto, a história é tão bela e forte que é impossível não se deixar envolver por ela.

"Entre dois amores" é um belo épico romântico, conforme desejado por seu diretor Sydney Pollack. Emociona na medida certa, impressiona por sua beleza plástica e possibilita à Meryl Streep mais um show particular. De quantos filmes se pode falar isso?

sábado

A COR PÚRPURA



A COR PÚRPURA (The color purple, 1985, Warner Bros, 154min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Menno Meyjes, romance de Alice Walker. Fotografia: Allen Daviau. Montagem: Michael Kahn. Música: Quincy Jones. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: J. Michael Riva/Linda DeScenna. Produção executiva: Peter Guber, Jon Peters. Produção: Quincy Jones, Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Steven Spielberg. Elenco: Whoopi Goldberg, Danny Glover, Margaret Avery, Oprah Winfrey, Willard Pugh, Akosua Busia. Estreia: 16/12/85

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Whoopi Goldberg), Atriz Coadjuvante (Margaret Avery, Oprah Winfrey), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora, Canção ("Miss Celie's blues"), Figurino, Direção de arte/cenários, Maquiagem
Vencedor do Golden Globe: Melhor Atriz/Drama (Whoopi Goldberg)


No mesmo ano em que produziu duas pérolas do entretenimento escapista e comercial – “Os Goonies” e “De volta para o futuro” – Steven Spielberg iniciou também seu namoro com o cinema sério e adulto. Aclamado com 13 indicações ao Oscar, o belo “A cor púrpura” acabou decepcionando quando não levou nenhuma estatueta, dando início também a um esnobismo da Academia em relação ao cineasta, finalmente quebrado com “A lista de Schindler”, nove anos depois.

Baseado no romance homônimo de Alice Walker, premiado com o Pulitzer, o filme de Spielberg - que aqui deixa de lado sua parceria com o músico John Williams pela primeira e até agora única vez na carreira para ter a colaboração do experiente Quincy Jones, um dos produtores da obra – conta a dolorosa e sofrida trajetória de Celie, uma negra que, com apenas 14 anos de idade e mãe de dois filhos tidos com seu próprio pai, é praticamente vendida a um viúvo violento e cruel (vivido com maestria por Danny Glover). Separada dos filhos quando eles ainda estão no berço e de sua irmã, afastada por recusar-se a dividir a cama com o cunhado, Celie passa humilhações e sofrimentos durante mais de 30 anos, sendo obrigada a ver-se como uma mulher feia, burra e inútil. As únicas pessoas que lhe dão valor são justamente duas mulheres que também sofrem o preconceito da sociedade: a cantora Sugar (Margareth Avery, indicada ao Oscar de coadjuvante), amante de seu marido e tratada pela cidade como uma prostituta, e Sofia (Oprah Winfrey, antes da fama e do sucesso, também indicada ao Oscar como coadjuvante), casada com o atrapalhado Harpo, enteado de Celie. Sem papas na língua e com o pensamento libertário, Sofia acaba passando anos na cadeia por ousar manter seu lugar no mundo com honra e dignidade.


Visto à luz dos anos, “A cor púrpura”, ainda que um belo e comovente filme, mostra alguns defeitos que, se não chegam a estragá-lo talvez tenham atrapalhado seu caminho rumo ao Oscar (mesmo que seja melhor e mais marcante do que o vencedor do ano, “Entre dois amores”). A opção do roteirista e do diretor em elevar o espírito feminino é louvável, mesmo porque os sofrimentos que as personagens passam são palpáveis e genuínos. Daí a relegar os homens a papéis pequenos, cruéis e unidimensionais são outros quinhentos. Tirando o personagem de Danny Glover – espetacular, diga-se de passagem -, que de vez em quando deixa transparecer algum sentimento, em especial em relação a Sugar, todos os outros personagens masculinos são maus, manipulados ou indiferentes. Esse maniqueísmo pode ser proposital, mas acaba sendo quase um tiro no pé nas intenções de Spielberg em fazer um filme sério.

A duração excessiva da obra (mais de duas horas e meia) também não ajuda. Mais uma vez a impressão que é passada é a que o filme queria ter a duração de um épico. No entanto, para preencher o tempo, Spielberg coloca em cena situações que, em outros filmes até seriam engraçadas, se não fossem tão fora de propósito em um filme com possibilidades tão nobres e sérias. Uns bons vinte minutos a menos e o ritmo do filme não seria tão prejudicado (e vindo do sujeito que bolou as duas aventuras alucinantes de Indiana Jones isso não deixa de ser irônico).

No entanto, mesmo com seus pequenos defeitos e qualidades inegáveis, “A cor púrpura” tem do seu lado um fator que a maioria esmagadora dos cineastas sonha: uma protagonista repleta de carisma e talento. Ao escalar a estreante Whoopi Goldberg para o papel de Celie dos vinte e poucos aos quarenta e muitos anos, Spielberg tirou a sorte grande. Em nenhuma cena Goldberg está menos do que exemplar, em uma atuação que foi merecidamente indicada ao Oscar. Só a cena em que, depois de muitos anos a sofrida Celie finalmente vê seu sorriso refletido em um espelho já vale as quase três horas de duração. Por Whoopi, pelos méritos da produção e pela vontade de Spielberg de fazer um filme de conteúdo depois de inúmeros sucessos financeiros “A cor púrpura” merece ser assistido. E tente não se comover!

sexta-feira

DE VOLTA PARA O FUTURO


DE VOLTA PARA O FUTURO (Back to the future, 1985, Universal Pictures, 116min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Bob Gale, Robert Zemeckis. Fotografia: Dean Cundey. Montagem: Harry Keramidas, Arthur Schmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Deborah L. Scott. Direção de arte/cenários: Lawrence G. Paull/Hal Gausman. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Judy Taylor. Produção executiva: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Steven Spielberg. Produção: Neil Canton, Bob Gale. Elenco: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Lea Thompson, Crispin Glover, Thomas F. Wilson, Billy Zane. Estreia: 03/7/85

4 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Canção ("The power of love"), Som, Efeitos Sonoros
Vencedor do Oscar de Efeitos Sonoros


Comprovando de vez o toque de Midas de Steven Spielberg, capaz de transformar qualquer produto com seu nome em uma máquina de fabricar dinheiro, a comédia de ficção científica “De volta para o futuro” rendeu mais de 200 milhões de dólares nos EUA, tornando-se a maior bilheteria de 1985. E sabe o que é mais surpreendente? Mereceu cada centavo. Ao contrário de dezenas de produções menos inspiradas que aportam nas telas de cinema semanalmente, o filme de Robert Zemeckis – protegido de Spielberg e diretor do hilariante “Febre de juventude” – tem um rasgo de inteligência, bom humor e auto-ironia que o separa quilometricamente de seus congêneres.

Estrelado por Michael J. Fox (saído da série de TV “Caras e caretas” e que substituiu Eric Stoltz a meio caminho), “De volta para o futuro” é um filme de ação delirante, uma comédia engraçadíssima e, por que não?, uma ficção científica com fundo romântico e nostálgico que agrada pais e filhos. É pouco provável que alguém não vá se divertir assistindo a saga de Marty McFly (J. Fox) na sua missão de, em pleno 1955, juntar seus pais em um baile de formatura e assim impedir sua existência em 1985 de desaparecer como se nunca tivesse existido.

Ok, vamos às explicações: Marty é um adolescente de 17 anos que sonha em tornar-se guitarrista famoso e vive com uma família absolutamente sem-graça. Seus pais vivem discutindo, seus irmãos não têm ambição e sua vida é definitivamente comum. Tudo muda quando seu amigo, o cientista Doc Brown (Christopher Lloyd, em uma atuação siderada) lhe apresenta sua nova invenção: uma máquina do tempo construída em um DeLorean. Por problemas que envolvem terroristas líbios, combustível feito de plutônio e um relógio na torre de um prédio, Marty acaba sem querer indo parar em outubro de 1955, às vésperas do baile de formatura onde seus pais trocaram seu primeiro beijo. Por uma ironia do destino, no entanto, sua mãe, Lorraine (Lea Thompson), nem de longe tão certinha quanto sempre quis parecer ser diante dos filhos, se interessa por ele e Marty tem então que fazê-la apaixonar-se por aquele que virá a ser seu pai, George McFly (o ótimo Crispin Glover). O problema é que George é desengonçado, tímido, atrapalhado e fã de livros de ficção científica, além de ser eternamente humilhado pelo grandalhão Biff (Thomas F. Wilson). A missão do adolescente Marty acaba se tornando de vida ou morte. Se seus pais não se apaixonarem, nem ele nem seus irmãos existirão mais.


O alucinante do roteiro de Zemeckis e Bob Gale (indicado merecidamente ao Oscar) nunca deixa o ritmo cair. De piada em piada (desde o choque de gerações até piadas mais visuais) o filme vai construindo uma trama consistente apesar da premissa um tanto absurda, apesar de engraçada. Colabora para a atemporalidade do filme - que, ao contrário de muitos filmes realizados à mesma época - sua caprichada direção de arte e o cuidado com os detalhes, um padrão de qualidade da "marca" Spielberg. Mas, além do roteiro exemplar e da admirável parte técnica, é o carisma de Michael J. Fox e sua química com seus colegas de elenco que dão sustentação a todo o projeto.

Apesar de já não ser um adolescente durante as filmagens de "De volta para o futuro", Fox convence plenamente na pele de Marty McFly, assim como o fazem Crispin Glover e Lea Thompson como seus pais - Glover inclusive parece ter nascido para o papel, em uma atuação ao mesmo tempo hilariante e patética. E Christopher Lloyd, como o amalucado Doc Brown entrega um dos trabalhos mais populares de sua carreira no cinema, iniciada com o dramático "Um estranho no ninho".

Tudo em "De volta para o futuro" colabora para o clima exato de Sessão da Tarde com pipoca e guaraná pretendido pelo diretor Zemeckis e pelo produtor Spielberg. As aventuras de Marty e Lloyd rendeu duas continuações, nenhuma tão boa quanto a primeira, ainda que longe de serem ruins. É uma diversão inofensiva que resiste bravamente ao tempo, mantendo-se tão deliciosa hoje quanto há 25 anos.

quinta-feira

OS GOONIES


OS GOONIES (The goonies, 1985, Warner Bros, 114min) Direção: Richard Donner. Roteiro: Chris Columbus, história de Steven Spielberg. Fotografia: Nick McLean. Montagem: Michael Kahn. Música: Dave Grusin. Figurino: Richard LaMotte. Direção de arte/cenários: J. Michael Riva/Linda DeScenna. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton, Judy Taylor. Produção executiva: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Steven Spielberg. Produção: Harvey Bernhard, Richard Donner. Elenco: Sean Astin, Josh Brolin, Jeff Cohen, Corey Feldman, Kerri Green, Martha Plimpton, Ke Huy Quan, John Matuszak, Robert Davi, Joe Pantoliano, Anne Ramsey. Estreia: 07/6/85

Uma das maiores alegrias que o cinema pode proporcionar a uma pessoa é a possibilidade de uma viagem no tempo. Às vezes literalmente, em outras em espírito. E é justamente isso que faz esse “Os Goonies”, uma das mais divertidas brincadeiras criadas pelo mago Steven Spielberg, aqui atuando como autor da história desenvolvida pelo diretor Chris Columbus. Utilizando de sua nostalgia explícita, aqui o criador de ET dá vazão a suas memórias dos filmes de piratas, gênero praticamente inexistente no imaginário popular desde a morte de Errol Flynn - mas que ganhou novo fôlego com a série "Piratas do Caribe", quase vinte anos depois.

Os Goonies do título são um grupo de pré-adolescentes cujas famílias estão às vésperas de ser obrigadas a abandonar seus lares, despejados por tubarões da especulação imobiliária. Tristes e entedidados, eles acabam descobrindo um mapa segundo o qual encontrarão o tesouro de um pirata chamado Willy Caolho. Liderados pelo asmático Mickey (Sean Astin) e por seu irmão mais velho, Brand (Josh Brolin), eles fogem de casa e partem em busca da fortuna que os ajudaria a permanecer em suas casas. Além de armadilhas criadas por Willy, no entanto, eles terão que encarar os Frattelli, uma família de criminosos formada pela despótica Mama (Anne Ramsey) e por dois atrapalhados assaltantes (vividos por Joe Pantoliano e Robert Davi antecipando em alguns anos as piadas visuais que Columbus refinaria em "Esqueceram de mim").


A esperteza do roteiro de Columbus foi a de pôr em cena personagens que agradam em cheio seu público-alvo. Além da delicadeza de Mickey e do ar sedutor de Brand, estão em cena todos os tipos necessários: há o inventor Data (Ke Huy Quan, de “Indiana Jones e o templo da perdição”), o engraçadinho Mouth (Corey Feldman), as donzelas em perigo Andy (Kerri Green) e Stef (Martha Plimpton) e o assustado Chunk (Jeff Cohen, dono das cenas mais engraçadas), que faz amizade com aquele que acaba se tornando o personagem mais carismático e marcante do filme, o deformado Sloth, rejeitado pela família Frattelli devido a sua aparência, mas que se revela uma alma carinhosa e meiga, bem ao gosto do produtor Spielberg.

Dono de um ritmo alucinante, boas piadas e uma trilha sonora irresistível que conta inclusive com uma canção original de Cindy Lauper, “Os Goonies” é um programa para deixar o lado crítico descansando e encarar uma hora e meia de cinema escapista como pouco se faz hoje em dia. Bons tempos que cinema para a pré-adolescência não apelava para vampiros melancólicos...

quarta-feira

A ROSA PÚRPURA DO CAIRO


A ROSA PÚRPURA DO CAIRO (The purple rose of Cairo, 1985, Orion Pictures, 82min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Susan E. Morse. Música: Dick Hyman. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/Carol Joffe. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Mia Farrow, Jeff Daniels, Danny Aiello, Dianne Wiest. Estreia: 01/3/85

Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Roteiro


Uma das obras-primas de Woody Allen, o curtinho (pouco mais de uma hora e dez minutos de filme) “A rosa púrpura do Cairo” é também uma das mais belas declarações de amor de um cineasta à sua arte. O cinema é um dos personagens mais importantes de um trabalhos mais queridos do diretor (inclusive por ele mesmo). E os fãs da sétima arte só podem agradecer, comovidos.

O cenário dessa vez não é Nova York e sim Nova Jersey, onde segundo um dos personagens, “tudo pode acontecer”. E a trama agora não é contemporânea e sim passada nos tristes anos da Grande Depressão americana, depois da queda da bolsa de valores de 1929. Cecília, a protagonista, vivida por Mia Farrow em mais uma colaboração com o diretor e provavelmente na melhor atuação de sua carreira, é uma sofrida garçonete que vive explorada e espancada pelo marido brucutu Monk (Danny Aiello). Seus únicos momentos de diversão são suas idas quase diárias ao cinema, onde é conhecida desde pela bilheteira até pelos lanterninhas. Um dia, ao assistir pela quinta vez a aventura romântica épica “A Rosa Púrpura do Cairo”, Cecília é notada por um dos personagens da trama, o explorador arqueólogo Tom Baxter (Jeff Daniels), que, encantado por ela, sai da tela para viver seu romance. Obviamente a situação surreal desgosta os colegas de cena de Baxter, que não conseguem dar prosseguimento à ação do seu filme. A confusão chega até Hollywood e Gil Shepperd (novamente Jeff Daniels), preocupado com a má reputação que a notícia pode causar à sua promissora carreira chega a Nova Jersey decidido a resolver o problema. O que não poderia jamais supor é que, ao conhecer Cecília, ela ficaria dividida entre o personagem e o ator.


Brilhante em sua idéia original, nos diálogos geniais que estão sem dúvida entre os melhores da carreira de Woody Allen e nos engraçados e irônicos insights sobre a dualidade realidade/ficção, “A rosa púrpura do Cairo” é pura magia. Ao utilizar uma fantasia de qualquer fã de cinema – o romance com um personagem de filme – Allen chega no coração e na mente de seu público sem apelar para filosofias complicadas e dramas bergmanianos que vinha utilizando em seus trabalhos imediatamente anteriores. Ele conta uma história enxuta, sem cenas desnecessárias e com um elenco de aplaudir de pé. Jeff Daniels, dividido entre seus dois papéis mostra uma evolução fantástica desde “Laços de ternura” e Danny Aiello, na pele do truculento Monk pontua com correção o trabalho espetacular de Mia Farrow, que compõe uma Cecília frágil, romântica mas ao mesmo tempo capaz de sustentar sozinha uma casa e com a coragem de romper com a inércia de sua rotina modorrenta para viver seu grande amor.

A seqüência final, ao som de Fred Astaire cantando “Cheek to cheek” é de encher os olhos de lágrimas, o peito de emoção e o cérebro de alegria, diante da sutileza e da inteligência de Allen. O cinema agradece a bela homenagem.

terça-feira

CLUBE DOS CINCO


O CLUBE DOS CINCO (The breakfast club, 1985, Universal Pictures, 97min) Direção e roteiro: John Hughes. Fotografia: Thomas Del Ruth. Montagem: Dede Allen. Música: Keith Forsey. Figurino: Marilyn Vance. Direção de arte/cenários: John W. Corso/Jennifer Polito. Produção executiva: Gil Friesen, Andrew Meyer. Produção: John Hughes, Ned Tanen. Elenco: Judd Nelson, Molly Ringwald, Anthony Michael Hall, Emilio Estevez, Ally Sheedy, Paul Gleason, John Kapelos. Estreia: 15/02/85

Independente da época onde vivem e/ou como vivem, adolescentes formam um grupo sociológico importante e interessante. Que o diga John Hughes, que, na década de 80 tornou-se uma espécie de especialista em filmes sobre, com e para a faixa etária que vem depois da infância e precede a idade adulta. O mais representativo dessa categoria é “Clube dos cinco”, que, além de virar cult entre seu público alvo ainda criou uma atriz símbolo, a ruiva Molly Ringwald, que chegou a virar capa da revista Time antes de desaparecer com a chegada da idade.

A trama imaginada por Hughes não tem grandes ambições: cinco adolescentes de uma escola de ensino médio de Chicago são obrigados a passar um sábado na detenção, ou seja, presos durante um dia inteiro na biblioteca. Sua missão: pensar nos motivos que os levaram até ali e escrever um ensaio sobre suas verdadeiras personalidades. A princípio aborrecidos com a tarefa designada por seu diretor (o ótimo Michael Gleason), aos poucos o grupo passa a se conhecer melhor, seja por meio de agressões verbais ou físicas ou até mesmo por conversas verdadeiras e sinceras.


A história engendrada pelo cineasta é apenas uma desculpa para que ele ponha em cena alguns estereótipos do adolescente anos 80 – e por que não adolescente e ponto final?. Estão em cena a adorável Claire (vivida com simpatia por Ringwald), a garota mais popular da escola, o saudável Andrew (Emilio Estevez), conhecido por seus dons esportivos, o estudioso Brian (Anthony Michael Hall), que participa de todo e qualquer grupo de estudo possível, a estranha Allison (Ally Sheedy), que passa eternamente despercebida e o rebelde Bender (Judd Nelson), cujo futuro nada alvissareiro pode ser visto a quilômetros de distância por qualquer pessoa com um mínimo de inteligência.

O grande trunfo do roteiro de John Hughes e o que fez cair nas graças da juventude de sua época é o fato de nunca julgar seus personagens, que não são exatamente o que pareciam à primeira vista. Famílias desajustadas, cobranças exageradas e aparências exigidas são moeda corrente entre os adolescentes criados pelo autor. Ecos de “Juventude transviada”, filme-símbolo da rebeldia juvenil podem ser encontrados nos torturados personagens de “Clube dos cinco”. E Hughes nem tenta fugir da tentação de criar romances e cenas que beiram a pieguice. Longe de tentar fazer um filme de arte, ele quer – e consegue – atingir seus maiores objetivos sem fazer muita força.

“Clube dos cinco” contém grandes doses de ingenuidade e em muitos momentos esbarra com a maior cara-de-pau em todos os clichês dos filmes de seu gênero. Mas tem um roteiro inteligente, antenado e sensível, defendido por um elenco que nunca esteve melhor e mais à vontade. Não é um clássico no sentido mais formal da palavra, mas é difícil de não gostar.

segunda-feira

A TESTEMUNHA


A TESTEMUNHA (Witness, 1985, Paramount Pictures, 112min) Direção: Peter Weir. Roteiro: Earl W. Wallace, William Kelley, história de William Kelley, Pamela Wallace, Earl W. Wallace. Fotografia: John Seale. Montagem: Thom Noble. Música: Maurice Jarre. Direção de arte/cenários: Stan Jolley/John Anderson. Casting: Dianne Crittenden. Produção: Edward S. Feldman. Elenco: Harrison Ford, Kelly McGillis, Lukas Haas, Danny Glover, Josef Sommer, Viggo Mortensen, Patti LuPone. Estreia: 08/02/85

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Peter Weir), Ator (Harrison Ford), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Direção de arte
Vencedor de 2 Oscar: Roteiro Original, Montagem

Em 1985, Harrison Ford estava na crista da onda. Na pele de Han Solo e Indiana Jones, ele lotava cinemas mundo afora e arrancava suspiros da ala feminina do público. O que lhe faltava então, a aceitação da crítica e o respeito de seus pares, chegou até ele através de um policial honesto, sério e dedicado chamado John Book, que, como protagonista do filme "A testemunha", lhe proporcionou inclusive uma inédita - e até hoje única - indicação ao Oscar de melhor ator.

Dirigido pelo australiano Peter Weir, "A testemunha" é um drama policial com toques românticos que conquistou a plateia justamente pelo perfeito equilíbrio entre esses gêneros, além de acrescentar à receita um interesse extra: o modo de vida dos amish, um grupo religioso que vive em um mundo à parte, indiferente aos avanços da tecnologia. Ao contrário de aparecer em cena como coadjuvantes folclóricos e/ou exóticos, eles são parte essencial da narrativa, ao mesmo tempo empolgante e terna concebida pelos roteiristas premiados com o Oscar da categoria.

A história de "A testemunha" começa com um violento assassinato ocorrido no banheiro masculino de uma estação de trens. Dois homens cortam a garganta de um terceiro e o crime tem apenas uma testemunha: o pequeno Samuel (Lukas Haas) assiste ao homicídio escondido e assustado. Quem é escalado para interrogá-lo é justamente o John Book vivido por Harrison Ford, um policial solitário e esforçado que, de caçador passa ao status de caça quando descobre que os responsáveis pelo crime são dois colegas de delegacia corruptos. Para recuperar-se de um tiro e proteger sua pequena testemunha, Book esconde-se em uma comunidade hamish - totalmente isolada da "civilização", sem telefone, televisão ou mesmo luz elétrica - e acaba se envolvendo na rotina de seus moradores. Para complicar ainda mais as coisas, ele se apaixona por Rachel (Kelly McGillis), a bela mãe de Samuel, recentemente viúva.


É fascinante observar a maneira como o roteiro consegue entrelaçar a trama policial com a história de amor entre Book e Rachel, sem jamais deixar de lado o choque entre culturas, que é o que lhe dá o sabor especial. A primeira metade do filme se concentra em estabelecer os perigos que irão perseguir os protagonistas - e para isso conta com as atuações excelentes de Danny Glover e Brent Jennings. A segunda parte se dedica a mostrar as relações de John Book com uma cultura completamente oposta à sua, com a bela Rachel e com o encantador Samuel, que vê nele a figura paterna de que necessita depois da morte do pai. E apesar da história policial ser forte o bastante para justificar um filme inteiro, é o encontro entre o cosmpolita detetive com a comunidade hamish que fica na memória da plateia.

A química entre Harrison Ford e Kelly McGillis é responsável pelo sucesso da história de amor contada em "A testemunha". A tensão sexual existente entre os dois é palpável e jamais chega sequer perto da vulgaridade - apesar de McGillis mostrar os seios em uma bela cena, são os olhares repletos de desejo trocados entre o casal que falam mais forte do que o único beijo que os une, já na reta final da projeção. Também é de destacar-se a sequência em que eles dançam no celeiro, que transmite mais paixão e desejo do que horas e horas de closes de corpos suados e ofegantes.

Dono de um invejável equilíbrio entre todas as suas linhas narrativas e de um casal de protagonistas bonito e talentoso, "A testemunha" mereceu todo o sucesso conquistado - chegou mesmo a concorrer aos Oscar de filme e direção. Pode não ser o melhor filme de Harrison Ford, mas deu a ele a oportunidade de provar que é bem mais do que um arqueólogo galã.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...