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terça-feira

OS QUERIDINHOS DA AMÉRICA


OS QUERIDINHOS DA AMÉRICA (America's sweethearts, 2001, Columbia Pictures/Revolution Studios, 102min) Direção: Joe Roth. Roteiro: Billy Crystal, Peter Tolan. Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: Stephen A. Rotter. Música: James Newton Howard. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Garreth Stover/Larry Dias. Produção executiva: Charles Newirth, Peter Tolan. Produção: Susan Arnold, Billy Crystal, Donna Arkoff Roth. Elenco: Julia Roberts, John Cusack, Billy Crystal, Catherine Zeta-Jones, Stanley Tucci, Christopher Walken, Alan Arkin, Hank Azaria, Seth Green, Rainn Wilson. Estreia: 17/7/2001

Quando Billy Crystal escreveu o roteiro de "Os queridinhos da América" seus planos incluíam dirigir o filme e ficar com o principal papel masculino - além de desejar repetir a vitoriosa dupla com Meg Ryan depois do sucesso de "Harry & Sally: feitos um para o outro" (1989). As coisas nem sempre saem como imaginado, porém, principalmente em Hollywood: quando a produção finalmente começou Ryan passava por um período difícil (que envolvia o fim de seu casamento de anos com Dennis Quaid e o relacionamento escandaloso e breve com Russell Crowe) e Crystal percebeu que estava velho demais para viver o galã de uma comédia romântica. A ideia de manter o projeto, no entanto, era boa demais para ser deixada de lado e, com o veterano ator deixando a direção a cargo de Joe Roth e assumindo o segundo (e talvez mais interessante) papel masculino da história, o filme recebeu o reforço de Catherine Zeta-Jones e Julia Roberts (ainda fresquinha do Oscar de melhor atriz) e estreou em pleno verão norte-americano. Pode não ter sido um sucesso estrondoso de bilheteria - menos de 150 milhões de dólares arrecadados internacionalmente -, mas foi um respiro adulto em uma temporada cujos maiores êxitos comerciais foram direcionados ao público infantojuvenil, como "Harry Potter e a pedra filosofal", "Monstros S/A" e "Shrek". Simpático e inofensivo - mesmo com as alfinetadas na indústria de cinema norte-americano -, o filme segura bem uma sessão da tarde, mas está a anos-luz de distância dos melhores exemplares do gênero.

A trama gira em torno de Eddie Thomas (John Cusack) e Gwen Harrison (Catherine Zeta-Jones), dois astros de cinema que, como deixa claro o título, são os queridinhos das plateias, que lotam as salas de cinema para vê-los juntos. Casados também na vida real, eles acabam se separando quando Gwen trai Eddie com o galã latino Hector (Hank Azaria), fato que leva o ator a uma crise de nervos que o afasta da mídia. Acusada de ser a culpada pela separação, Gwen vê a chance de recuperar a simpatia do público quando Lee Phillips (Billy Crystal), responsável pelo setor de  relações públicas do estúdio, a procura com a proposta de embarcar em um concorrido esquema de promoção para seu novo filme - o último que ela estrelou com o ex-marido. Gwen demora a aceitar a ideia, mas é convencida pela irmã e assessora Kiki (Julia Roberts), que é apaixonada em segredo por Eddie - que, mesmo ainda revoltado com a ex-mulher, sai da clinica para tentar salvar a imagem da dupla. O que nenhum dois dois atores sabe, na verdade, é que os esforços de Lee tem outro motivo: disfarçar o fato de que o diretor do filme, o excêntrico Hal Weidmann (Christopher Walken), está com o material escondido e pretende mostrar a montagem final somente na hora da pré-estreia. Enquanto Lee precisa lidar com a fogueira das vaidades de atores, diretores e executivos do estúdio (temerosos de um fracasso monumental devido ao escândalo de seus astros), um romance inesperado surge entre o traumatizado Eddie e Kiki, antes um patinho feio que vivia à sombra da irmã, e agora uma bela e bem resolvida mulher.

 

Apesar de o romance entre Kiki e Eddie ter sido vendido como o principal ponto de interesse de "Os queridinhos da América", o que mais funciona no filme de Joe Roth - cineasta pouco inspirado e sem maiores sucessos no currículo - são as referências e piadas sobre Hollywood e sua indústria. Na pele do experiente Lee Phillips, o ator e roteirista Billy Crystal solta farpas sobre tudo e todos - desde a figura do recluso Hal Weidmann, claramente inspirado no veterano Hal Ashby, até as infames e repetitivas entrevistas a que atores são submetidos durante o período de lançamento de seus filmes. Crystal, com seu conhecido cinismo e sagacidade, é quem melhor se sai, bem mais à vontade em cena do que seus colegas de elenco. Subaproveitada, Julia Roberts tem pouco a fazer com uma personagem que não explora todo o seu carisma, e John Cusack (substituindo Robert Downey Jr., à época ainda um nome pouco confiável junto aos estúdios, por seus problemas com drogas) parece desconfortável em explorar um lado romântico pouco comum em sua carreira repleta de tipos pouco convencionais. E do quarteto central, a bela Catherine Zeta-Jones sobressai-se com seu dom para a fina ironia, que seria recompensado pouco depois com um Oscar de coadjuvante por "Chicago" (2002).

É inegável que "Os queridinhos da América" sofre de falta de um foco narrativo claro. Afinal, qual é a história principal que quer contar? Os bastidores da indústria de cinema hollywoodiano? A relação complicada entre dois astros populares que tem suas vidas devassadas pelo público e pela mídia? O romance inesperado entre dois cunhados? A constante necessidade de aprovação que surge junto com a fama? Essa indecisão, apesar de alguns diálogos preciosos e do talento de todos os envolvidos (Stanley Tucci como um executivo, Alan Arkin como um médico pouco confiável, Rainn Wilson como um repórter bisbilhoteiro, Seth Green como um estagiário que confunde Audrey e Katherine Hepburn), prejudica o resultado final e torna o filme uma produção esquecível, ainda que agradável. Não chega de ser um desperdício de tempo, mas quase uma decepção que tanta gente boa possa ter feito algo tão insosso.

quinta-feira

AGENTE 86

 


AGENTE 86 (Get Smart, 2008, Warner Bros/Village Roadshow Pictures, 110min) Direção: Peter Segal. Roteiro: Tom J. Astle, Matt Ember, personagens criados por Mel Brooks, Buck Henry. Fotografia: Dean Semler. Montagem: Richard Pearson. Música: Trevor Rabin. Figurino: Deborah L Scott. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Suzanne Cloutier, Paul Rotte, Leslie E. Rollins. Produção executiva: Bruce Berman, Steve Carell, Dana Goldberg, Jimmy Miller, Brent O'Connor, Peter Segal. Produção: Michael Ewing, Alex Gartner, Andrew Lazar, Charles Roven. Elenco: Steve Carell, Anne Hathaway, Dwayne Johnson, Alan Arkin, Terence Stamp, Terry Crews, David Koechner, Bill Murray, James Caan. Estreia: 20/6/2008

Em 1998, poucos nomes em Hollywood pareciam mais apropriados para uma versão cinematográfica da série de TV "Agente 86" do que o de Jim Carrey, Astro de comédias de sucesso que exploravam seu humor físico, o ator canadense soava como a escolha ideal para assumir o mais icônico papel do veterano Don Adams. Por uma série de razões, no entanto, o projeto acabou sendo deixado de lado até metade dos anos 2000 - mas, com a morte de Adams, em 2005, tornou-se quase obrigatória uma homenagem digna a um dos programas mais populares dos anos 1960. Para sorte de todos, foi também em 2005 que estreou, na NBC, a releitura da telessérie britânica "The office": seu protagonista, Steve Carell, mostrou-se, em poucos episódios, uma opção inequívoca para vestir a personalidade de Maxwell Smart, um agente secreto cujo brilhantismo intelectual contradizia sua total inabilidade para o trabalho de campo. Ciente de seu talento cômico - revelado e consagrado em "O virgem de 40 anos" (2005) - e da importância do trabalho, Carell entrou de corpo e alma em sua missão. Como produtor executivo e líder do elenco, ele transformou o que poderia ser apenas uma produção caça-níqueis em um sucesso quase inesperado: com 230 milhões de dólares arrecadados pelo mundo, "Agente 86" não apenas demonstrou respeitar o material original, mas também conquistou uma nova geração de fãs.

CONTROL, agência secreta norte-americana está em risco: boa parte de seus integrantes teve suas identidades reveladas por um grupo terrorista chamado KAOS - liderado pelo infame Siefgried (Terence Stamp) -, que ameaça praticar um atentado à bomba em local ainda desconhecido. Para impedir que tal hecatombe aconteça, o chefe no comando (Alan Arkin) resolve finalmente realizar o sonho de um seus mais dedicados agentes, Maxwell Smart (Steve Carell), e incumbí-lo de um trabalho de campo. Genial em suas missões intelectuais mas desastrado e desligado no dia-a-dia, Smart é rebatizado como Agente 86 e é designado a fazer dupla com a atraente Agente 99 (Anne Hathaway) - cujo rosto pós-cirurgia plástica é desconhecido pelos criminosos. A dupla pouco provável viaja então para a Rússia - e seus métodos opostos acabam por aproximá-los. A descoberta de um agente duplo, porém, põe em xeque seu incipiente relacionamento.

O roteiro - que contou com a colaboração não creditada de Carell e de seu colega de "The office", B.J. Novak - é apenas uma desculpa para uma série de piadas visuais e verbais, lançadas em um ritmo vertiginoso que realça o talento de sua dupla de protagonistas. Se Carell demonstra estar totalmente à vontade em cena, arrancando gargalhadas com sua simples presença, o trabalho de Anne Hathaway tampouco fica atrás: sexy e com um excelente tempo de comédia, a futura vencedora do Oscar não se deixa suplantar por seu parceiro (a sequência em que os dois dançam em uma festa, cada um com seu par, deixa qualquer um com um sorriso nos lábios). E se os protagonistas deitam e rolam, o elenco coadjuvante faz o mesmo, desde o veterano Alan Arkin até um surpreendente Dwayne Johnson, como o Agente 23, ídolo de Smart e seu exemplo dentro da agência. Até nomes pouco conhecidos, como Masi Oka e Nate Torrence conseguem fazer rir, graças à direção precisa de Peter Segal - cujo currículo inclui o terceiro capítulo da série "Corra que a polícia vem aí" e "Terapia de choque", estrelado por Jack Nicholson e Adam Sandler - que transforma todo pequeno momento em entretenimento puro.

O sucesso de "Agente 86" não foi suficiente, no entanto, para uma continuação. Apesar dos desejos da equipe, alguns fatores colaboraram para que o primeiro filme não rendesse uma sequência. A morte do produtor Alan Horn (que abandonou o projeto quando ele saiu das mãos da Disney) e do ator Alan Arkin e a agenda apertada de Anne Hathaway, além da dificuldade de encontrar um roteiro à altura acabaram por sepultar a possibilidade, para desgosto do público que esperava voltar a rir com as trapalhadas de Maxwell Smart. E se tudo funcionou como um relógio no primeiro capítulo não deixa de ser um alívio pensar que ninguém conseguiu estragar tudo com uma produção menos feliz em uma continuação equivocada.

sábado

O QUE É ISSO, COMPANHEIRO?


O QUE É ISSO, COMPANHEIRO? (O que é isso, companheiro?, 1997, Columbia Pictures/Luiz Carlos Barreto Produções, 110min) Direção: Bruno Barreto. Roteiro: Leopoldo Serran, livro de Fernando Gabeira. Fotografia: Félix Monti. Montagem: Isabelle Rathery. Música: Stewart Copeland. Figurino: Emilia Duncan. Direção de arte/cenários: Marcos Flaksman, Alexandre Meyer/Carlos Eduardo Mallet. Produção: Lucy Barreto, Luiz Carlos Barreto. Elenco: Alan Arkin, Pedro Cardoso, Fernanda Torres, Cláudia Abreu, Matheus Nachtergaele, Luiz Fernando Guimarães, Caio Junqueira, Selton Mello, Marco Ricca, Alessandra Negrini, Fernanda Montenegro, Lulu Santos, Luiz Armando Queiroz, Nelson Dantas, Maurício Gonçalves, Milton Gonçalves, Eduardo Moscovis, Othon Bastos. Estreia: 19/4/97

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

Publicado em 1979 e logo alçado ao posto de um clássico contemporâneo, "O que é isso, companheiro?" narrava, em primeira pessoa, as experiências de Fernando Gabeira na luta armada contra a ditadura militar brasileira, sua participação no sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, sua prisão e seu exílio na Europa. Com mais de 250 mil exemplares vendidos, o livro foi peça fundamental na consolidação da carreira política do autor e uma das obras seminais a respeito de um dos períodos mais sombrios da história do país. Cinco anos depois de servir como uma das bases da minissérie global "Anos rebeldes" - um sucesso estrondoso que voltou a colocar os anos de chumbo em evidência - e quase duas décadas depois de seu lançamento, as memórias de Gabeira voltaram à tona com sua adaptação para o cinema. Com produção de Lucy e Luiz Carlos Barreto, direção de Bruno Barreto - já com carreira internacional consolidada - e coprodução da Columbia Pictures, a versão para as telas do infame sequestro de Elbrick ganhou a simpatia do público, da crítica e da Academia de Hollywood, que lhe indicou ao Oscar de melhor filme estrangeiro: não chegou a sair como vencedor - teve os planos atrapalhados pelo holandês "Caráter" -, mas foi um passo adiante do cinema brasileiro em direção ao respeito mundial.

O roteiro do experiente Leopoldo Serran - responsável pela adaptação de "O quatrilho", outra produção dos Barreto a ter concorrido ao Oscar, em 1996 - não abarca todo o livro de Gabeira, concentrando-se exclusivamente em seu elemento mais cinematográfico: sua entrada para o temido Movimento Revolucionário 8 de outubro (ou MR-8) e sua participação naquele que se tornaria um dos momentos mais emblemáticos da luta armada do final dos anos 1960. O próprio autor admite que sua personificação no filme (na pele do ótimo Pedro Cardoso) tem mais importância do que ele teve na realidade, mas a licença poética é plenamente compreensível em termos dramáticos: como elemento narrativo, é muito mais interessante um personagem como Fernando - um jovem sem experiência na luta que se vê no olho de um furacão e assume papel fundamental em um episódio muito maior que ele - do que um espectador passivo, servindo apenas de testemunha da história. Fernando é um homem de letras, de propensões intelectuais, e não alguém cuja índole previa pegar em armas e participar de assaltos (ou expropriações) e sequestros. É assim, graças a tal personalidade pacífica, que Fernando se aproxima do público, que se identifica com sua (falta de) vocação para a guerrilha ao mesmo tempo em que sabe que ela é a (talvez) única solução imediata. Ajuda, é claro, o talento de Pedro Cardoso em transmitir a insegurança de seu personagem e seu tom quase cômico mesmo em situações perigosas - e o grande elenco, tão incrível que pode se dar ao luxo de contar com Fernanda Montenegro em uma participação mínima mas crucial.


 

Em uma tentativa bem-sucedida de aproximar seu filme do público consumidor de programas de televisão, Bruno Barreto escolheu seu elenco a dedo. Dos consagrados Fernanda Torres e Luiz Fernando Guimarães ao então novato Matheus Nachtergaele - passando por uma Cláudia Abreu no auge da popularidade e pelo norte-americano Alan Arkin -, a lista de créditos de "O que é isso, companheiro?" é admirável , com espaço até mesmo para pontas do cantor Lulu Santos como um militar. Se é questionável o fato de lotar o elenco de globais como forma de buscar o sucesso comercial - ainda que todos estejam excelentes em cena, independentemente de suas personas artísticas mais conhecidas -, o resultado foi bastante favorável. Além de dialogar com a audiência com mais facilidade, tal opção deu visibilidade o bastante ao filme em sua trajetória rumo a uma indicação ao Oscar - um objetivo para o qual contou também o nome de Bruno Barreto no exterior. Já bem instalado em Hollywood - principalmente graças ao êxito internacional de "Dona Flor e seus dois maridos" (1976) e produções de prestígio como "Assassinato sob duas bandeiras" (1990), estrelado por Amy Irving, com quem foi casado até 2005 -, Barreto nunca abandonou completamente suas raízes, e assim como seu irmão Fábio dois anos antes, chegou à corrida da estatueta com o apoio de nomes poderosos da indústria americana, como Steven Spielberg e a máquina de marketing da Columbia Pictures internacional. Não foi suficiente para arrebatar o prêmio - mas voltou a colocar o cinema brasileiro no mapa e jogar luz sobre um tema nunca desgastado.

Apesar de se passar durante a ditadura militar brasileira e contar uma de suas histórias mais emblemáticas, "O que é isso, companheiro?" dificilmente pode ser considerado um filme político. Longe dos questionamentos da filmografia de um Costa-Gavras, por exemplo - cujo "Z" (1969) é um cânone do gênero - e sem maior aprofundamentos do contexto histórico, o roteiro de Serran prefere focar-se na interrelação entre seus personagens, pressionados pela máquina governamental e diante da possibilidade de um fracasso que pode levá-los à morte. Boa parte da trama se passa durante o período do cativeiro do embaixador, interpretado com excelência por Alan Arkin - daí o título internacional, "Four days in September" - e são os vínculos entre os personagens que interessam a Serran e Barreto, mais do que os desdobramentos sociais e políticos de sua aventura. Tal escolha é válida, mas esbarra em alguns momentos um tanto quanto desconcertantes - como as crises de consciência do torturador a que Marco Ricca dá vida: Ricca é um ótimo ator e transmite verdade em suas cenas, mas é pouco crível que pessoas que ganham a vida com tal violência sejam tão suscetíveis a remorsos (em especial no calor do momento). Detalhes assim enfraquecem o filme como um todo - é uma tentativa não feliz em evitar o maniqueísmo - e o impedem de ter a potência que poderia. É uma produção caprichada - bem dirigida, com uma edição ágil e uma trilha sonora adequada - mas longe da obra-prima que se poderia esperar. Ainda assim, um belo produto do cinema nacional em sua fase de mesclar sucesso financeiro e prestígio internacional.

terça-feira

UM CLARÃO NAS TREVAS


UM CLARÃO NAS TREVAS (Wait until dark, 1967, Warner Bros, 108min) Direção: Terence Young. Roteiro: Robert Carrington, Jane Howard-Hammerstein, peça teatral de Frederick Knott. Fotografia: Charles Lang. Montagem: Gene Milford. Música: Henry Mancini. Direção de arte//cenários: George Jenkins/George James Hopkins. Produção: Mel Ferrer. Elenco: Audrey Hepburn, Alan Arkin, Richard Crenna, Efrem Zimbalist Jr., Jack Weston, Samantha Jones, Julie Herrod. Estreia: 26/10/67

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Audrey Hepburn)

Durante a II Guerra Mundial, a então adolescente Audrey Hepburn, de 16 anos de idade, servia como enfermeira voluntária em um hospital holandês. Quando vários soldados aliados chegaram em busca de cuidados depois da batalha de Arnhem, a futura bonequinha de luxo cuidou de um jovem paraquedista inglês chamado Terence Young - sem jamais poder imaginar que, mais de vinte anos depois, ele seria o diretor de seu primeiro e único filme de suspense, "Um clarão nas trevas". Último filme de Hepburn antes de um hiato autoimposto de quase uma década - ela só voltaria às telas em "Robin e Marian", de 1976 -, a adaptação da peça teatral de Frederick Knott foi um dos grandes êxitos de bilheteria de 1967, em parte graças à engenhosa campanha de marketing que remetia aos ensinamentos de Hitchock, e em parte devido à curiosidade do público em acompanhar uma de suas atrizes mais queridas rumo à escuridão de um gênero que, a despeito de seu sucesso comercial, nunca foi considerado dos mais nobres pela indústria de Hollywood. O fato de Hepburn ter arrebatado uma indicação ao Oscar por seu desempenho - ao lado de Anne Bancroft ("A primeira noite de um homem"), Faye Dunaway ("Bonnie& Clyde: uma rajada de balas") e Katharine Hepburn (a vencedora, por "Adivinhe quem vem para jantar") - diz mais sobre o prestígio da estrela do que pela boa vontade da Academia em homenagear uma produção cujo maior objetivo é assustar a plateia - ainda que ela faça isso com extrema destreza.

Young, cujos créditos incluem três filmes de James Bond dos anos 1960 - "O satânico Dr. No" (1962), "Moscou contra 007" (1963) e "007 contra a chantagem atômica" (1965) - se demonstra um artesão competente ao explorar todas as possibilidades visuais de roteiro que nem sempre consegue escapar de suas origens teatrais - no palco a peça de Knott contava com as presenças de Lee Remick e Robert Duvall. O excesso de diálogos (nem todos indispensáveis) é o maior problema, uma vez que outra característica típica de produções adaptadas do teatro (o cenário único) serve para ampliar o tom claustrofóbico da trama e encaminhar o filme para seu clímax - minutos onde a tensão atinge seu nível máximo especialmente quando assistidos no escuro (daí a campanha de marketing que insistia que todas as salas e exibição ficassem completamente às escuras para melhor resultado). Este último ato, que apresenta o confronto entre mocinha e vilão com inteligência e impecável senso narrativo, compensa o ritmo irregular da produção até então e oferece ao público o que de melhor o cinema de suspense pode oferecer.

 

"Um clarão nas trevas" começa com a única sequência fora do cenário principal do filme, quando o espectador é apresentado a uma boneca recheada de heroína que chega à Nova York, vinda do Canadá, pelas mãos de uma atraente jovem (Samantha Jones), que, por motivos não revelados, a entrega a um desconhecido. Este desconhecido é (Efrem Zimbalist Jr.), um fotógrafo casado com Susy (Audrey Hepburn), uma mulher ainda tentando acostumar-se com sua nova rotina como deficiente visual, consequência de um acidente de carro. O que o casal não sabe é que tal boneca é o objeto do desejo de uma gangue perigosa e violenta, liderada pelo cruel Harry Roat (Alan Arkin), que não hesita em matar quem quer que atravesse seu caminho. Com a ajuda de seus dois companheiros, o sedutor Mike (Richard Crenna em papel para o qual foi Robert Redford foi considerado) e o quase atrapalhado Galindo (Jack Weston), ele se introduz no universo de Susy disposto a recuperar o artefato - e encontra uma resistência completamente inesperada.

Realizado como uma tentativa de salvar o casamento de Audrey Hepburn e do produtor Mel Ferrer, "Um clarão nas trevas" não obteve sucesso neste ponto específico - o relacionamento acabou no ano seguinte - mas tornou-se um campeão de bilheteria e reafirmou o poder comercial da atriz. É bem provável que nem mesmo Julie Andrews (também cotada para o papel central), no auge de sua popularidade na década de 1960, fosse capaz de atrair o público da mesma forma que Hepburn. Não deixa de ser sintomático que, anos mais tarde, o ator Alan Arkin tenha revelado que só ficou com o papel porque nenhum ator queria ficar marcado por um personagem capaz de machucar a atriz (mesmo na ficção). Arkin chegou a declarar, em tom de brincadeira, que um dos motivos pelos quais não foi indicado ao Oscar de coadjuvante por sua atuação (segundo Stephen King, uma das melhores encarnações do mal no cinema) tem a ver com o fato de que "ninguém é indicado ao Oscar por ser mau com Audrey Hepburn!" Brincando ou não, Arkin até tem um pouco de razão. Seu personagem até pode causar arrepios no espectador, mas é Hepburn quem domina o filme e justifica seu sucesso de bilheteria. Sua única incursão no suspense é, também, um dos vários pontos fortes de sua carreira.

sábado

MATADOR EM CONFLITO

MATADOR EM CONFLITO (Grosse Pointe Blank, 1997, Hollywood Pictures/Caravan Pictures, 107min) Direção: George Armitage. Roteiro: Tom Jankiewicz, D.V. DeVincentis, Steve Pink, John Cusack, estória de Tom Jankiewicz. Fotografia: Jamie Anderson. Montagem: Brian Berdan. Figurino: Eugenie Bafaloukos. Direção de arte/cenários: Stephen Altman/Chris Spellman. Produção executiva: Jonathan Glickman, Lata Ryan. Produção: Susan Arnold, Roger Birnbaum, Donna Arkoff Roth. Elenco: John Cusack, Minnie Driver, Alan Arkin, Dan Aykroyd, Joan Cusack, Hank Azaria, Jeremy Piven. Estreia: 11/4/97

Em 1991, Tom Jankiewicz recebeu o convite de sua antiga turma de escola para uma reunião, comemorando os dez anos de formatura do ensino médio. Como bom aspirante a roteirista, logo surgiu em sua mente uma ideia mirabolante: e se um de seus colegas aparecesse na festa e, ao contrário dos antigos companheiros - então bancários, médicos, advogados e outras profissões mais tradicionais - se revelasse um bem-sucedido matador de aluguel? Essa foi a gênese de "Matador em conflito", um dos mais elogiados filmes da temporada 1997, que, a despeito de seu desempenho medíocre nas bilheterias, tornou-se cult instantâneo - em boa parte devido à presença do ator John Cusack, então um dos queridinhos do público fã de cinema alternativo de Hollywood. Dirigido por George Armitage - também cultuado, por seu "O anjo assassino" (90) - e recheado de humor negro e referências culturais pop, "Matador em conflito" é um antídoto perfeito para as fórmulas engessadas do cinemão americano, misturando gêneros e não se levando a sério nem mesmo diante de sequências surpreendentemente violentas.

Sua mistura de gêneros, aliás, quase foi um problema para sua realização: por volta de 1993, quando o conceito do filme já era cobiçado por vários produtores, Kiefer Sutherland mostrou-se realmente interessado em levá-lo às telas. O projeto esbarrou justamente na dificuldade que seria encontrar financiamento para um filme tão atípico, que fazia rir ao mesmo tempo em que mostrava pessoas sendo assassinadas, e que, de forma amoral, tinha como protagonista (e portanto, segundo as regras não escritas, o herói com quem o público deveria se identificar) um matador profissional - e o que é pior, um matador profissional simpático e carismático. Projeto cancelado, foi somente em 1996 que finalmente as coisas começaram a realmente andar, quando John Cusack entrou em cena e assumiu as rédeas da situação: juntamente com os amigos D.V. DeVincentis e Steve Pink (com quem também trabalharia na adaptação do livro "Alta fidelidade", de Nick Hornby), Cusack se aproximou de Jankiewicz e criou o roteiro daquele que seria um de seus trabalhos preferidos: uma absurda comédia de humor negro, violência e, por incrível que pareça, uma história de amor.


O próprio Cusack assumiu também o papel principal do filme, um assassino profissional que está passando por uma crise existencial. Descontente com sua rotina de violência, Martin Blank tenta acalmá-la com sessões de terapia com o dr. Oatman (Alan Arkin) - que só o atende por medo de também virar uma vítima sua. Recusando trabalhos e com pretensões de abandonar a vida criminosa, ele confia apenas em sua secretária, Marcella (Joan Cusack), para organizar sua confusa vida. Sua situação pouco invejável se torna ainda mais complicada quando ele aceita a missão de cometer um assassinato na pequena Grosse Point, nos subúrbios de Detroit: não apenas se trata de sua cidade natal como também o trabalho coincide com uma festa de reencontro com seus ex-colegas de classe, dez anos depois do baile de formatura em que ele deixou sozinha sua então namorada Debi (Minnie Driver). O reencontro com Debi e a ideia de ter de dar de cara com todos os seus amigos e desafetos do passado se combinam com a pressão de ter de cumprir seu objetivo profissional, escapar de dois agentes federais, um outro assassino que está em seu encalço, e, pior ainda, ter de livrar-se de Groce (Dan Aykroyd), que tenta convencê-lo a participar de um sindicato de matadores de aluguel.

O roteiro de "Matador em conflito" é um festival de citações pop: filmes de 007, Quentin Tarantino, games, música dos anos 80 (a trilha sonora é fantástica, com direito a Queen, Guns'n'Roses, Johnny Nash, The Clash, The Cure e A-ha, entre dezenas de outros) e até citações internas (Jenna Elffman faz sua estreia no cinema com uma homenagem à Joan Cusack no clássico "Gatinhas e gatões", de 1986) são facilmente detectáveis por toda a curiosa narrativa de Armitage. Sem espaço para a previsibilidade, o roteiro se transforma imperceptivelmente de cena para cena, pulando de uma comédia quase surreal para um romance nostálgico e então para um filme de ação com direito a tiroteios e explosões. John Cusack é o ator ideal para o papel principal, com sua aparência carente, e Minnie Driver demonstra um ótimo timing cômico, servindo também de equilíbrio entre todos os gêneros apresentados por Armitage e companhia, que não tem medo de ousar e fugir do lugar-comum. Desconcertante e surpreendente, "Matador em conflito" não é um filme para qualquer tipo de público - e tampouco escapa de um ritmo irregular em determinados momentos -, mas é uma refrescante opção para quem deseja fugir da mesmice hollywoodiana. Uma sessão da tarde apimentada e movimentada que é a cara de sua época.

terça-feira

MARLEY E EU

MARLEY E EU (Marley & Me, 2008, Fox 2000 Pictures, 115min) Direção: David Frankel. Roteiro: Scott Frank, Don Roos, livro de John Grogan. Fotografia: Florian Ballhaus. Montagem: Mark Livolsi. Música: Theodore Shapiro. Figurino: Cindy Evans. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/Hilton Rosemarin. Produção executiva: Joe Caracciolo Jr., Arnon Milchan, Ani Williams. Produção: Gil Netter, Karen Rosenfelt. Elenco: Owen Wilson, Jennifer Aniston, Eric Dane, Kathleen Turner, Alan Arkin, Nathan Gamble, Haley Bennett, Ann Dowd. Estreia: 25/12/08
 
Quando compraram os direitos de adaptação para o cinema do livro "Marley e eu", do jornalista John Grogan, os executivos da Fox 2000 Pictures sabiam que tinham em mão um potencial sucesso: com mais de 1 milhão de exemplares vendidos apenas nos EUA, a história da relação entre uma família e seu cão labrador por 13 anos já havia encharcado lenços de papel também pelo mundo, com uma prosa leve e emocional que atingia em cheio o coração de todos aqueles apaixonados por animais. Quando o filme finalmente estreou, no Natal de 2008, ninguém se surpreendeu com a bilheteria animadora de mais de 140 milhões de dólares no mercado doméstico (e outros 100 milhões no mercado externo). Não era pra menos: com uma história que fala direto aos sentimentos, uma mistura certeira de humor e drama, um diretor acostumado a agradar ao público médio (David Frankel, de "O diabo veste Prada") e um elenco liderado por nomes conhecidos como Owen Wilson e Jennifer Aniston, o êxito era, mais do que esperado, praticamente certo. Tudo bem que o filme não é uma obra-prima (é longo demais, por vezes soa repetitivo e chega no limite do piegas), mas merece ser aplaudido por suas qualidades: é simpático, agradável e - milagre dos milagres! - consegue conquistar todas as fatias de público sem precisar apelar para efeitos especiais milionários ou super-heróis invencíveis. Ao falar de gente como a gente - com sentimentos reais e vívidos - é um perfeito "filme-família", que faz sorrir e chorar na mesma medida (ou talvez chorar mais do que sorrir, em especial em seus últimos minutos).

Apesar de concentrar boa parte de sua narrativa na relação entre Marley, o labrador batizado em homenagem ao cantor jamaicano Bob Marley e adotado ainda pequeno, e seus donos, o roteiro de "Marley e eu" também detalha a história de amor entre seus pais humanos - o casal de jornalistas John (Owen Wilson) e Jenny (Jennifer Aniston) - a partir de seu casamento. John sonha em seguir uma carreira de repórter sério, assim como seu melhor amigo, Sebastian (Eric Dane), mas o máximo que consegue é uma coluna no jornal onde trabalha, em que acaba se tornando popular justamente pelo tom leve e descompromissado de suas crônicas - grande parte delas citando as aventuras e desventuras de seu cão de estimação, um companheiro leal mas pouco afeito a regras de convivência tais como não comer tudo que encontra pela frente (de livros a aparelhos eletrônicos) ou pular em cima de estranhos. Jenny não tem tantas ambições profissionais quanto domésticas, e resolve cuidar apenas da família quando começa a ter os filhos que sempre sonhou - e depois de um traumático aborto espontâneo. Conforme a família vai crescendo, Marley vai se tornando parte cada vez mais indissociável do clã - para o bem e para o mal, já que seus hábitos pouco comuns tanto encantam quanto enlouquecem a todos.


Por dois terços de narrativa, "Marley e eu" mantém seu tom ameno e divertido de crônica familiar, com algum espaço para as crises no casamento entre John e Jenny - todas resolvidas em poucos minutos, de forma a não aprofundar um tema apenas secundário da trama. Quando a família Grogan sai da ensolarada Miami para a distante Filadélfia, porém, o tom começa lentamente a ficar mais sombrio. É aos poucos que Marley começa a dar sinais de cansaço, velhice e dor, o que aponta para um final previsível mas nem por isso menos melancólico. Essa transição entre gêneros é conduzida com sutileza por Frankel, que se aproveita de um roteiro sensível e bem-humorado (cortesia da dupla de veteranos Scott Frank e Don Roos) e do ótimo timing de seu casal de atores principais, que se desvencilha com facilidade das armadilhas dramáticas mesmo quando não resta muito a fazer exceto entregar-se à catarse final - orquestrada milimetricamente para levar qualquer um às lágrimas, mas felizmente executada com elegância e respeito. Qualquer um da plateia que tenha - ou tenha tido - um animal de estimação é tocado pela emoção pungente e verdadeira que emana da história, talvez justamente por ela ser real e honesta.

Essa honestidade que percorre todo o filme é que faz de "Marley e eu" uma produção tão bem-sucedida. Não há reviravoltas gigantescas ou sequências de humor inspiradíssimas, de fazer o público gargalhar: há somente a descrição da vida de uma família apaixonada uns pelos outros e por seu cachorro de estimação, e de como essa relação, construída através de anos de paciência e amor incondicional, é capaz de substituir qualquer ambição profissional ou financeira sem prejuízos  à busca pela felicidade. Uma narrativa simples - quase simplória - mas que funciona às mil maravilhas e faz lembrar de como o menos às vezes é mais quando se quer tocar o coração da plateia. É um filme que cumpre exatamente o que promete - e é irresistível justamente por isso!

ARGO

ARGO (Argo, 2012, Warner Bros, 120min) Direção: Ben Affleck. Roteiro: Chris Terrio, livro "The master of disguise", de Antonio J. Mendez e artigo "The great escape", de Joshuah Bearman. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: William Goldenberg. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Sharon Seymour/Jan Pascale. Produção executiva: Chris Brigham, Chay Carter, Tim Headington, Graham King, David Klawans. Produção: Ben Affleck, George Clooney, Grant Heslov. Elenco: Ben Affleck, John Goodman, Alan Arkin, Bryan Cranston, Victor Garber, Chris Messina, Tate Donovan, Kyle Chandler, Zeljko Ivanek, Clea DuVall, Scott McNairy, Rory Cochrane, Christopher Denham, Kerry Bishé, Bob Gunton. Estreia: 31/8/12 (Festival de Telluride)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Alan Arkin), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 3 Oscar: Melhor Filme, Roteiro Adaptado, Montagem
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Melhor Diretor (Ben Affleck)

Desde que chegou pela primeira vez às telas, no Festival de Cinema de Telluride, em agosto de 2012, o terceiro longa-metragem do ator medíocre tornado diretor talentoso Ben Affleck começou as especulações a respeito de suas possíveis indicações ao Oscar. Nada mais justo. Enxuto, sóbrio e contando uma inacreditável história real ainda bastante relevante em uma época de constantes conflitos raciais e políticos, "Argo" conquistou a crítica e merecidos Golden Globes de melhor drama e diretor. Infelizmente a Academia não foi assim tão generosa, deixando o amigo de Matt Damon de fora do páreo e diminuindo as chances da vitória na categoria principal. Mesmo assim, indicado em 7 categorias, "Argo" deu a volta por cima e riu por último, convertendo 3 das mais importantes indicações em estatuetas douradas: melhor filme, roteiro adaptado e montagem - todos eles prêmios justos e bastante merecidos.

Tendo entre seus produtores o ator George Clooney - que tinha planos de dirigir e estrelar o filme desde 2007 - "Argo" encontrou em Ben Affleck um comandante dos melhores. Assumindo também o papel principal que quase ficou com Brad Pitt, ele consegue a proeza de deixar a vaidade de lado para focar-se totalmente na história, ocorrida em 1980 e que se manteve secreta até meados da década seguinte. Sem querer tornar-se maior do que os acontecimentos, ele dá também a oportunidade a seus atores brilharem sem fazer muito esforço - o que inclui o ótimo Bryan Cranston (consagrado pela série de TV "Breaking bad") e o veterano Alan Arkin, indicado ao Oscar de coadjuvante. Dono de um belo roteiro, que não obriga o espectador a ter prévio conhecimento dos fatos que retrata (ao menos em profundidade), explicando-os de forma clara mas nunca exageradamente didática, o filme apresenta a seu público uma história bem contada e discreta em suas ambições, mas que acaba sendo fascinante justamente por isso.


A história começa em 1979, quando um grupo de mais de 50 diplomatas americanos é mantido refém na embaixada dos EUA no Irã por um grupo de revolucionários que exigem o repatriamento de seu xá. No entanto, um grupo de seis colegas consegue escapar e encontra proteção na casa do embaixador canadense Ken Taylor (Victor Garber). Alguns meses depois, ao perceber que as coisas não parecem se encaminhar para um final feliz imediato, a CIA pede ajuda a Tony Mendez (interpretado com discrição pelo próprio Affleck), especialista em repatriamentos de emergência. Depois de pensar em várias possibilidades, o agente tem a ideia - a princípio tida como absurda, mas depois aceita com ressalvas por seus superiores - de disfarçar os reféns como uma equipe canadense de filmagens em busca de locações para um filme de ficção científica chamado "Argo". Contando com o apoio do produtor de cinema Lester Siegel (Alan Arkin) e do maquiador John Chambers (John Goodman), Mendez cria uma verdadeira operação de guerra que inclui campanha de marketing em jornais temáticos, passaportes falsos e biografias inventadas. Com tudo pronto, ele embarca para Teerã com o objetivo de trazer todos os seis conterrâneos sãos e salvos para casa.

O maior mérito do roteiro de Chris Terrio - baseado em um livro escrito pelo próprio Mendez, que foi um dos apresentadores do Golden Globe de 2013 - é manter o ritmo e o suspense durante todo o tempo de projeção, mesmo contando uma história cujo final hoje em dia é amplamente conhecido. Mesmo que exagere um bocadinho na sequência final, aumentando a tensão de forma a tornar o filme mais palatável como entretenimento hollywoodiano, o script de Terrio acerta em intercalar com maestria os preparativos para a fuga com as dúvidas dos reféns e a constante ameaça dos revolucionários, sem apelar para heroísmos baratos ou vilanias maniqueístas. Ainda que seja claro quem é quem - americanos do bem contra iranianos do mal - não existe, no resultado final, aquele ranço tão ufanista que estraga boa parte do cinema que se propõe político. A ideia de Affleck não é levantar bandeiras e sim contar uma bela história. E isso ele consegue com louvor, fazendo de "Argo" um dos grandes filmes de seu tempo.

quarta-feira

GATTACA - EXPERIÊNCIA GENÉTICA

GATTACA - EXPERIÊNCIA GENÉTICA (Gattaca, 1997, Columbia Pictures, 105min) Direção e roteiro: Andrew Niccol. Fotografia: Slawomir Idziak. Montagem: Lisa Zeno Churgin. Música: Michael Nyman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Jan Roelfs/Nancy Nye. Produção: Danny DeVito, Michael Shamberg, Stacey Sher. Elenco: Ethan Hawke, Uma Thurman, Alan Arkin, Jude Law, Gore Vidal, Loren Dean, Xander Berkeley, Elias Koteas, Blair Underwood, Ernest Borgnine, Tony Shalhoub. Estreia: 07/9/97 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Melhor Direção de Arte/Cenários

Em um futuro não muito distante, a imensa maioria dos bebês da Terra serão gerados através de inseminação artificial, possibilitando a seus pais que gerem filhos perfeitos, sem doenças ou qualquer tipo de desvio genético. Nesse mundo, aqueles que, por infelicidade, nascerem de forma natural, são relegados a um destino menos auspicioso, sendo tratados como seres inferiores e portanto impossibilitados de uma vida profissional e pessoal plena. Um desses "filhos da fé" é Vincent Freeman (Ethan Hawke), que, nascido fora dos padrões científicos de sua época, sofre com as chances de desenvolver uma doença cardíaca que pode matá-lo aos trinta anos de idade. Sonhando viajar para o espaço - mesmo sabendo que isso é impossível devido à sua condição genética - ele ainda se tortura ao perceber no irmão caçula (gerado conforme as regras) toda a pureza que sempre quis. Decidido a provar a todos que é capaz de vencer na vida mesmo com suas limitações, ele sai de casa em busca de romper com a inércia de seu dia-a-dia e arruma emprego na Gattaca - uma empresa aeroespacial que provê viagens para fora do planeta. É trabalhando lá que ele descobre uma maneira de burlar o sistema, se passando por outra pessoa para realizar o seu sonho.

Assim começa "Gattaca, experiência genética", brilhante ficção científica escrita e dirigida pelo mesmo Andrew Niccol que criou um dos contos mais contundentes dos anos 90, "O show de Truman, o show da vida" - pelo qual foi indicado ao Oscar de roteiro original. Ao inserir uma clássica história policial em um universo distópico (ou seria utópico?) tão asséptico que soa como um pesadelo orwelliano, Niccol misturou dois gêneros queridos pelo público e cimentou-os com uma saudável discussão sobre os limites da ciência e a obsessão pela perfeição, temas pulsantes e inteligentes que transformam o que poderia ser apenas um competente entretenimento em um dos filmes mais interessantes de seu tempo - ainda que, como a maior parte das obras realmente relevantes dos anos 90, tenha sido um fracasso de bilheteria. Visualmente impactante - com um cenário seco e opressivo que transmite com exatidão a neutralidade impessoal do enredo e concorreu merecidamente ao Oscar - "Gattaca" acaba sendo mais lembrado, porém, por uma história de bastidores do que por seus méritos cinematográficos: foi durante suas filmagens que Uma Thurman e Ethan Hawke se tornaram um casal, em um relacionamento que durou até 2003.


Quando "Gattaca" começa, Vincent já está em vias de ser mandado à sua primeira viagem espacial, depois de anos trabalhando na empresa - e sendo devidamente testado diariamente com exames de sangue e urina. Homem de confiança de um dos diretores da missão, Josef (o escritor Gore Vidal em participação mais do que especial), Vincent esconde de todos um segredo que pode acabar com sua trajetória vitoriosa: ele assumiu a identidade de Jerome Morrow (Jude Law), um atleta geneticamente perfeito que ficou paraplégico depois de um acidente e que cede a ele, diariamente, todos os elementos necessários para que ele não seja descoberto. Assim, com o nome de Jerome, o jovem Vincent leva uma vida sempre no limiar do perigo, sendo obrigado a livrar-se constantemente de todos os resquícios corporais de sua antiga vida. Às vésperas de sua viagem, porém, seu segredo passa a correr o grande risco de ser revelado: um dos diretores da empresa é violentamente assassinado e um cílio de Vincent, encontrado em uma das salas do prédio o aponta como principal suspeito. Sua corrida passa a ser então para esconder sua identidade, provar sua inocência e esconder tudo da mulher por quem está apaixonado, a colega de trabalho Irene (Uma Thurman), que também tem um segredo a esconder de todos.

Fotografado com precisão por Slawomir Idziak (de "A liberdade é azul") - que tira de cada cena o máximo em informações e poesia - e editado como um filme policial cerebral dos anos 70, "Gattaca" foge dos clichês da ficção científica em apostar em um híbrido de gêneros, sendo bem-sucedido em todos eles. A inteligência de sua premissa central encontra eco em um roteiro com ritmo cadenciado, um desenho de produção impecável (a escada da casa de Jerome é em formato de uma espiral de DNA), uma direção discreta e um elenco formidável, no qual se destaca Ethan Hawke no papel principal e Jude Law como seu duplo - um personagem semelhante ao que Law desempenharia pouco tempo depois, em "O talentoso Ripley", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante e um belo empurrão na carreira. Elegante, sóbrio e acima de tudo extremamente pertinente à época em que foi realizado, o filme de Niccol é um dos melhores filmes subestimados dos anos 90.

terça-feira

O SUSPEITO

O SUSPEITO (Rendition, 2007, New Line Cinema, 122min) Direção: Gavin Hood. Roteiro: Kelley Sane. Fotografia: Dion Beebe. Montagem: Megan Gill. Música: Paul Hepker, Mark Kilian. Figurino: Michael Wilkinson. Direção de arte/cenários: Barry Robison/Jille Azis. Produção executiva: Toby Emmerich, Keith Goldberg, David Kanter, Edward Milstein, Keith Redmon, Paul Schwake, Michael Sugar, Bill Todman Jr.. Produção: Steve Golin, Marcus Viscidi. Elenco: Reese Witherspoon, Meryl Streep, Jake Gyllenhaal, Peter Sarsgaard, Alan Arkin, J.K. Simmons, Omar Metwally, Igal Naor. Estreia: 07/9/07 (Festival de Toronto)

Tido como um dos prováveis candidatos ao Oscar 2008 desde que estreou no Festival de Toronto em setembro de 2007, o drama político "O suspeito" viu suas expectativas frustradas quando foi solenemente ignorado quando a lista de indicações foi divulgada, quatro meses mais tarde. Talvez devido a seu tema incendiário e polêmico - os métodos pouco ortodoxos da CIA de interrogar suspeitos de terrorismo mesmo sem evidências sólidas - o filme do sul-africano Gavin Hood tampouco encontrou seu público, passando batido nas bilheterias americanas (seu principal alvo) e sendo pouco comentado no resto do mundo. Seu relativo fracasso, porém, não deixa de ser injusto: na tradição dos thrillers políticos do grego Costa-Gavras, "O suspeito" é um filme forte, inteligente e bem realizado, com muito mais a dizer do que se poderia esperar de uma produção hollywoodiana - mesmo que envolto em um pacote comercialmente atraente.

Apesar de ter seu elenco liderado por Reese Witherspoon em seu primeiro papel pós-Oscar - e de ela ser basicamente uma atriz de filmes menos sérios - "O suspeito" não tem nada de leve ou fácil, ainda que provavelmente tenha retratado de forma bem atenuada muito da crueldade a qual são submetidas as pessoas que tem o azar de cair na suspeita dos paranoicos agentes da CIA pós-11 de setembro. Apesar das cenas de tortura serem dirigidas de maneira a não chocar o grande público, é difícil não se deixar envolver com a angústia transmitida pela direção segura de Hood - que também assinou "Infância roubada", vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2005 - tanto nas sequências fisicamente violentas quanto nas potentes cenas dramáticas, que extraem o melhor de seus atores, todos do mais alto gabarito (a ponto de Meryl Streep ter um papel relativamente pequeno, ainda que crucial à história contada pelo complexo roteiro de Kelley Sane.


Quando o filme começa, o egípcio Anwar El-Ibrahimi (Omar Metwally) está a caminho dos EUA para reencontrar a esposa, Isabella (Reese Witherspoon) -prestes a dar à luz - o filho pequeno e a mãe, depois de uma viagem de negócios à África. Assim que chega ao país, porém, ele é imediatamente sequestrado por um grupo de agentes da CIA, acusado de ligações com um terrorista suspeito de um atentado com vítimas americanas. Mantido sob custódia do governo em um local secreto - graças a ordens da senadora linha-dura Corrine Whitman (Meryl Streep) - Anwar passa a ser violentamente torturado por Abasi Fawal (Yigal Naor), apesar das tentativas do jovem analista político Douglas Freeman (Jake Gyllenhaal) de diminuir o estrago. Assumindo o cargo de liderar a operação depois da morte de um colega, Freeman busca o diálogo como forma de entendimento, mas não consegue impedir os absurdos da situação. Enquanto isso, Isabella, desesperada com a situação, procura um antigo colega de faculdade, Alan Smith (Peter Sarsgaard), que é assistente de um senador (Alan Arkin), buscando a localização do marido.

A teia de dramas criada por Sane também tem desdobramentos em outro nível que não o familiar e o político, o que lhe dá um sabor extra: no decorrer da busca de Isabella pelo paradeiro do marido - trama que remete imediatamente ao clássico "Missing", estrelado por Sissy Spacek e Jack Lemmon - o público é também testemunha da história de amor entre dois jovens, Fatima (Zineb Oukach), filha de Abasi, e Khalid (Moa Khouas), um rapaz muçulmano com um trágico passado de violência familiar que o faz odiar o pai da namorada. Essa trama paralela - que talvez confunda o espectador em um primeiro momento - se revela de suma importância no desfecho do filme, comprovando o talento de Hood em manipular a atenção de seu público em várias frentes. Sob seu comando, o que poderia parecer um desvio de foco acaba se tornando uma surpresa chocante.

Mesmo que não tenha sido o sucesso que deveria, "O suspeito" é um dos mais interessantes filmes americanos a discutir a política de segurança americana depois dos atentados às Torres Gêmeas. E é também um belo exemplo de como cineastas estrangeiros à Hollywood podem se adequar à indústria sem perder sua sensibilidade e identidade próprias.

sábado

PEQUENA MISS SUNSHINE


PEQUENA MISS SUNSHINE (Little Miss Sunshine, 2006, Fox Searchlight Pictures, 101min) Direção: Jonathan Dayton, Valerie Farris. Roteiro: Michael Arndt. Fotografia: Tim Suhrstedt. Montagem: Pamela Martin. Música: Mychael Danna, DeVochtka. Figurino: Nancy Steiner. Direção de arte/cenários: Kalina Ivanov/Melissa Levander. Produção executiva: Michael Beugg, Jeb Brody. Produção: Albert Berger, David T. Friendly, Peter Saraf, Marc Turtletaub, Ron Yerxa. Elenco: Toni Collette, Greg Kinnear, Steve Carrell, Alan Arkin, Paul Dano, Abigail Breslin. Estreia: 20/01/06 (Sundance Festival)

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Alan Arkin), Atriz Coadjuvante (Abigail Breslin), Roteiro Original
Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Alan Arkin), Roteiro Original

Não é preciso ser nenhum gênio para saber que os americanos tem uma obsessão quase doentia pelo sucesso. Não fazer parte da elite da sociedade - seja em termos financeiros, estéticos ou culturais - é, por si só, dentro da mentalidade ianque, um sinal insofismável de derrota. E é essa busca desesperada pelo sucesso a mola mestra de "Pequena Miss Sunshine", uma deliciosa comédia dramática que equilibra com perfeição diálogos e cenas impagáveis com momentos de um delicado drama familiar. Inesperado - mas muito merecido - sucesso de bilheteria e crítica, o filme do casal Valerie Farris e Jonathan Dayton foi lançado discretamente no Festival de Cannes de 2006 e meses depois peitava firmemente "Os infiltrados" e "Cartas de Iwo Jima", dos veteranos Martin Scorsese e Clint Eastwood na disputa pelo Oscar de melhor filme.

Realizado a um custo estimado de apenas oito milhões de dólares, "Pequena Miss Sunshine" conquista o público graças principalmente a um elemento muitas vezes subestimado pelos produtores dos blockbusters hollywoodianos: o roteiro. Esperto, ágil e se mantendo magistralmente realista mesmo em seus momentos mais absurdos, o script de Michael Arndt (que venceu o Oscar da categoria) é um estudo de personagens, humano e delicado, capaz de fazer e rir e chorar de emoção na mesma medida, principalmente porque encontrou em seu elenco suas encarnações perfeitas. Preferindo dedicar-se mais à direção de seus atores (todos impecáveis) do que a invenções estilísticas e visuais, Dayton e Ferris construiram um conto a respeito de amor familiar e respeito às diferenças que certamente vai ficar  carinhosamente na memória de seu público como um dos maiores pequenos filmes de seu tempo.



Centrando sua trama exclusivamente na road trip da família Hoover - um bando de pessoas problemáticas, neuroticas e tentando desesperadamente fugir da mediocridade das próprias vidas - "Pequena Miss Sunshine" brinda a audiência com diálogos inteligentes e personagens brilhantes. Os pais da família são Richard (Greg Kinnear) - que tenta entusiasticamente vender um projeto de livro de autoajuda - e Sheryl (Toni Collette), que dá total apoio às ambições do marido enquanto batalha para ser uma mãe presente a seus dois filhos: o mais velho, Dwayne (Paul Dano) está em greve de silêncio como forma de declarar sua admiração por Nietzsche e sua vontade de tornar-se piloto de avião e a caçula, Olive (a adorável Abigail Breslin) tem o sonho de ser eleita a rainha de um concurso de beleza que os levará todos a encarar uma viagem dentro de uma kombi caindo aos pedaços. Junto com eles estarão Edwin (Alan Arkin) - pai de Richard e expulso do asilo por ser viciado em drogas - e Frank Ginsberg (Steve Carrell), irmão de Sheryl, homossexual que tentou o suicídio após ser trocado pelo namorado.

Utilizando a velha kombi como um microcosmo de um núcleo familiar abrangente, o roteiro de Arndt usa e abusa das possibilidades que o road movie - tradicional subgênero do cinema hollywoodiano - lhe oferece. É durante essa viagem que a família Hoover vai ser obrigada a confrontar-se com seus pequenos dramas domésticos e lidar com seus demônios, sempre de forma leve e carinhosa, não pesando a mão nem mesmo quando o destino chega sem avisar e lhes prega uma peça atrás da outra. Composto de silêncios contundentes e diálogos mordazes, o filme tem na figura de Olive - desajeitada, gordinha e dotada de uma inocência apaixonante - seu elemento de catarse. É ela, em sua esperança de tornar-se a Pequena Miss Sunshine do título que serve de porto seguro e elo de união entre seus parentes. É comovente a maneira com que os diretores constroem a relação da menina com aqueles à sua volta, em especial com seu avô - a cena em que ela chora desesperadamente por ter medo de perder o concurso e consequentemente o amor do pai resume com perfeição a ideia de vitória que os americanos cultuam com devoção.

"Pequena Miss Sunshine" é, sem medo de parecer exagero, uma obra-prima de grandes proporções, a despeito do tamanho de sua produção. Engraçado, emocionante, despretensioso e que fica melhor a cada revisão. Para assistir e guardar no coração.

domingo

EDWARD MÃOS DE TESOURA

EDWARD MÃOS DE TESOURA (Edward Scissorhands, 1990, 20th Century Fox, 105min) Direção: Tim Burton. Roteiro: Caroline Thompson, história de Tim Burton e Caroline Thompson. Fotografia: Stefan Czapsky. Montagem: Richard Halsey. Música: Danny Elfman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Bo Welch/Cheryl Carasik. Casting: Victoria Thomas. Produção executiva: Richard Hashimoto. Produção: Tim Burton, Denise Di Novi. Elenco: Johnny Depp, Winona Ryder, Dianne Wiest, Anthony Michael Hall, Alan Arkin, Kathy Baker, Vincent Price. Estreia: 14/12/90

Indicado ao Oscar de Maquiagem

O que David Lynch e Tim Burton tem em comum? Aparentemente nada, diriam os mais apressados. Mas basta um olhar mais atento em "Edward Mãos de Tesoura" para perceber que ambos os cineastas tem visões críticas e irônicas em relação à sociedade em que vivem. Mas enquanto Lynch brinca de forma ácida e cruel em relação a isso, Burton prefere um viés mais romântico e delicado, ainda que bastante contundente. Em tom de fábula, "Edward" é o melhor filme do diretor, um trabalho que agrada tanto pelo impressionante visual quanto por sua história, ingênua e delicada como raramente se vê em tempos de efeitos visuais utilizados para mostrar apenas violência e destruição.


A história criada por Burton e sua roteirista Caroline Thompson é simples e eficiente: no fim de um exaustivo dia de trabalho como revendedora de cosméticos, a dona-de-casa Peggy Boggs (Dianne Wiset) chega a um castelo aparentemente abandonado. Lá dentro, encontra o tímido Edward (Johnny Depp), que vive sozinho e isolado desde a morte de seu criador (o veterano Vincent Price em seu último trabalho), um cientista que criou-o com todas as características humanas mas que morreu antes de dar-lhe mãos, substituídas por tesouras. Penalizada com a situação do rapaz, ela o leva para casa, no subúrbio de uma cidadezinha americana. Lá, Edward toma contato com as vizinhas de Peggy - tornando-se atração da região -, sua família e principalmente com sua filha adolescente, Kim (Winona Ryder), por quem se apaixona. No entanto, nem tudo são flores, e o fascínio que ele inicialmente causava transforma-se em preconceito, especialmente quando ele se envolve em um assalto imaginado pelo namorado marginal de Kim (Anthony Michael Hall).




A primeira parceria entre Burton e Johnny Depp (que fala menos de 200 palavras o filme inteiro) é uma fábula deslumbrantemente concebida, tanto em termos visuais quanto emocionais. Narrada em tom de conto de fadas, a história de Edward - variação do bom selvagem - e sua paixão por Kim, é comovente, engraçada e graças principalmente à trilha sonora inspirada de Danny Elfman, tem ares de eterna. Tem cenas hilariantes, momentos de uma ternura palpável e um visual estarrecedor, cortesia principalmente da fotografia de Stefan Czapsky. A direção de arte de Bo Welch também colabora para criar a atmosfera de fantasia imaginada pelo diretor, um artista criativo e que aproveitou o sucesso absoluto de seu "Batman" para legar à plateia uma história de amor e pureza. 

Johnny Depp começou aqui sua fama como ator de personagens excêntricos, em sua mais marcante e memorável caracterização (ajudado pela ótima maquiagem de Stan Winston, indicado ao Oscar da categoria). Winona Ryder - que apaixonou-se por ele durante as filmagens - está bela e etérea, um contraponto perfeito a seu trabalho, em uma atuação delicada e sensível. E além de tudo, "Edward Mãos de Tesoura" faz pensar e seu roteiro é uma pouco disfarçada metáfora sobre os males que a sociedade é capaz de fazer à inocência.

Simbolismos e metáforas de lado, "Edward Mãos de Tesoura" é um belo filme, um oásis de inteligência em meio a um deserto de boas ideias. Emocionante e delicado, é a obra-prima de Tim Burton, capaz de conquistar o mais empedernido dos corações.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...