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quinta-feira

BUSCA FRENÉTICA


BUSCA FRENÉTICA (Frantic, 1988, Warner Bros, 120min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, Gérard Brach. Fotografia: Witold Sobocinski. Montagem: Sam O'Steen. Música: Ennio Morricone. Figurino: Anthony Powell. Direção de arte/cenários: Pierre Guffroy. Produção: Tim Hampton, Thom Mount. Elenco: Harrison Ford, Emmanuelle Seigner, Betty Buckley, John Mahoney, Gérard Klein. Estreia: 19/02/88

Nada como, depois de um fracasso de proporções homéricas, voltar às origens para recuperar, se não o caminho das bilheteria, ao menos boa parte do prestígio acumulado em décadas de sucesso. Dois anos depois do fiasco irrecuperável de "Piratas" (1986) - que custou cerca de 40 milhões de dólares e rendeu menos de dois ao redor do mundo -, a carreira de Roman Polanski precisava urgentemente de um filme que resgatasse o respeito da crítica e relembrasse ao público o cineasta por trás de obras impecáveis como "O bebê de Rosemary" (1968) e "Chinatown" (1974). Nada mais natural, então, do que recorrer ao gênero que fez dele um dos mais importantes realizadores europeus de sua geração: de volta à Paris onde filmou seu clássico "O inquilino" (1976) e munido de intenções hitchcockianas, Polanski atingiu parte de seus objetivos. Apesar de não ter se tornado o grande êxito comercial esperado pela Warner Bros, sua primeira colaboração com a futura mulher Emmanuelle Seigner (com quem se casaria em agosto de 1989) o reconciliou com a maioria da crítica e mostrou que abandonar a grandiosidade e abraçar o minimalismo foi sua melhor opção.

Não é preciso ser graduado em Cinema para perceber que a inspiração de "Busca frenética"" - em termos temáticos e visuais - é o mestre do suspense Alfred Hitchcock. Com uma trama que remete diretamente a "A dama oculta" (1938), sequências que homenageiam obras como "Janela indiscreta" (1953) e a indefectível loura misteriosa que foi marca registrada de boa parte de sua filmografia , o filme de Polanski recorre até mesmo a um dos truques preferidos do cineasta britânico: o infame mcguffin - aqui representado por um artefato capaz de detonar armas nucleares (!!). Tal artifício até chega a incomodar de tão pueril, mas é fato que, até que se descubra os motivos por trás do desaparecimento da esposa do protagonista (interpretado por um apático Harrison Ford, provavelmente responsável por boa parte da repercussão popular do filme), a produção envolve e intriga na medida certa, aproveitando as ruas escuras de uma Paris bem menos acolhedora do que nos cartões postais mas charmosa o bastante para desfilar com beleza pelas lentes da fotografia do veterano polonês Witold Sobocinski - colaborador de nomes como Andrzej Wajda e Krysztof Zanussi. Percorrendo becos inferninhos, a câmera nervosa de Sobocinski mergulha o público em uma trama onde tudo parece perigoso e todos parecem suspeitos de algum crime inconfessável.

 

A trama começa com a chegada de Richard Walker (Harrison Ford) à Paris. Acompanhado da mulher, Sondra (Betty Buckley), ele está na capital francesa para uma conferência profissional, mas o casal tem também a intenção de reviver os bons momentos que passaram na cidade em sua lua-de-mel. Seus planos começam a dar errado quando Sondra simplesmente desaparece do quarto de hotel enquanto o marido está no chuveiro. Completamente perdido - não sabe falar francês e não tem a menor ideia do que pode ter acontecido com a esposa -, Walker tampouco recebe ajuda das autoridades locais, pouco interessadas em sua história. Depois de tentativas quase infrutíferas de investigar por conta própria, o médico descobre que o sumiço de Sondra está ligado a uma troca de malas ocorrida ainda no aeroporto - e tal descoberta o leva até Michelle (Emmanuelle Seigner), uma bela jovem que pode estar de posse do objeto procurado pelos sequestradores, que tem ligações com um grupo com intenções de controlar armas nucleares. Juntos, Walker e Michelle partem em busca de uma forma de resgatar Sondra e evitar uma tragédia maior, já que a polícia aparenta estar mais preocupada em desbaratar a quadrilha do que manter a mulher do médico viva.

A trama rocambolesca e com ares de aventura obsoleta de James Bond é o calcanhar de Aquiles de "Busca frenética". Roman Polanski é um diretor com o dom de buscar sempre ângulos desconfortáveis e criativos para enfatizar suas ideias frequentemente claustrofóbicas, mas acaba tropeçando em um roteiro - coescrito com o parceiro Gérard Brach - frequentemente confuso e sem foco bem definido. A presença de Emmanuelle Seigner soa gratuita a maior parte do tempo e a atuação de Harrison Ford, morna e indiferente, prejudica a empatia com seu personagem - que foi cogitado para cair nas mãos de Nick Nolte, William Hurt e Kevin Costner. Salva-se a primeira metade, intrigante, algumas sequências interessantes e até mesmo a presença magnética de Seigner. No mais, é um Polanski mais palatável ao gosto médio (ou seja sem maior personalidade) e menos marcante. Um supercine de luxo!!

A PELE DE VÊNUS

A PELE DE VÊNUS (La Vénus à la fourrure, 2013, R.P. Productions, 96min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, David Ives, romance de Leopold von Sacher-Masoch, peça teatral de David Ives. Fotografia: Pawel Edelman. Montagem: Hervé de Luze, Margot Meynier. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Dinah Collin. Direção de arte/cenários: Bruno Via/Philippe Cord'homme. Produção: Robert Benmussa, Alain Sarde. Elenco: Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner. Estreia: 25/5/13 (Festival de Cannes)

Quando trabalhou junto com a atriz Emmanuelle Seigner pela primeira vez, no thriller "Busca frenética" (1988), o diretor Roman Polanski encontrou na bela francesa uma esposa e uma musa. Desde então dirigiu-a em "Lua de fel" (1992) e "O último portal" (1999), mas nunca teve a oportunidade de mostrar à plateia a evolução de seu talento como atriz, adquirida com a experiência e a maturidade. Trabalhando com o marido pela primeira vez em seu idioma natural - o francês - a bela Seigner finalmente teve a chance de deixar de ser coadjuvante para ser a estrela em "A pele de Vênus", que estreou no Festival de Cannes 2013 com efusivos elogios e rendeu ao veterano Polanski um César (o Oscar francês) de melhor diretor. Com um roteiro inspirado na peça de teatro de David Ives - por sua vez baseado no romance homônimo de Leopold von Sacher-Masoch - o filme volta a brincar com a obsessão do cineasta por ambientes claustrofóbicos, e envolve a plateia em um jogo de sedução e dominação inteligente e perspicaz, que tem especial ressonância àqueles apaixonados por teatro. Com uma invejável química entre Seigner e Mathieu Amalric - que substituiu Louis Garrell pouco antes do começo das filmagens - e um ritmo que se mantém em constante ebulição, "A pele de Vênus" é mais um filme que confirma Roman Polanski como um inquieto criador de obras perturbadoras e densas.

Uma clara homenagem ao teatro - forma de arte de que o próprio Polanski já se utilizou em filmes como "A morte e a donzela" (2004) e "O deus da carnificina" (2013) - e à arte da atuação, "A pele de Vênus" é, também, uma sofisticada obra de arte, recheada de referências culturais e psicológicas, que, ao contrário do que poderia acontecer, jamais soa pedante ou inalcançável. É, sem dúvida, muito acima da média do cinema popular (em que o cérebro do espectador raramente é acionado), mas dificilmente pode ser acusado de intelectualizado em excesso. Ao abraçar uma estrutura puramente teatral - sem respiros artificiais ou tramas paralelas desnecessárias - o roteiro, coescrito pelo diretor e pelo autor da peça original, exige da plateia uma atenção e uma disposição absolutas, mas lhe dá em troca um espetáculo do mais alto nível. É contra-indicado àqueles que reclamam da verborragia do teatro filmado, mas suas qualidades cinematográficas - a edição precisa, a trilha sonora impecável de Alexandre Desplat, a direção segura de Polanski - conseguem facilmente conquistar a admiração até do mais exigente espectador que se deixar envolver pela complexa relação estabelecida entre seus dois protagonistas.


Thomas (Mathieu Amalric) é um dramaturgo que está em vias de estrear como diretor, adaptando um clássico e polêmico romance escrito no século XVIII. Depois de testar dezenas de candidatas ao principal papel feminino e quase desistindo de sua busca, ele se vê surpreendido pela bela e determinada Vanda (Emmanuelle Seigner), que chega ao teatro onde os ensaios devem tomar forma com o firme objetivo de mostrar a ele que é a atriz ideal para viver a personagem, que, coincidentemente, tem o mesmo nome que ela. A princípio recusando-se a testar Vanda por ela ter chegado atrasada e parecer pouco apropriada fisicamente ao papel, aos poucos Thomas vai percebendo que, por trás de sua aparência vulgar e pouco inteligente, ela é uma mulher não apenas completamente dedicada à sua profissão como também apaixonada pelo texto - do qual ele tem indisfarçável orgulho. Não demora para que ele se deixe seduzir pelo talento da moça, que transforma uma simples audição em um sagaz jogo de dominação - que é, afinal, o tema da peça de Thomas. Cada vez mais certo de que Vanda (por coincidência ou não, o mesmo nome da protagonista de sua trama) é a melhor escolha para a peça, ele aceita sua proposta de fazer uma espécie de ensaio informal ali mesmo, diante de uma plateia vazia: surge, então, uma bizarra relação entre os dois.

E é esse relacionamento sui generis que conduz "A pele de Vênus" durante seus 96 minutos. Valorizando cada trecho de diálogos - bem escritos, inteligentes, irônicos e questionadores a respeito de temas como fetichismo e a complexidade das relações homem/mulher - mas jamais esquecendo as ferramentas do cinema (edição, fotografia), Polanski brinda o espectador com um brilhante exercício artístico, que sublinha o melhor de cada linguagem e as reapresenta em forma de um novo e excitante tabuleiro, onde cada nova cena ilumina um novo lado da personalidade - do texto, da direção e dos personagens, que se multiplicam conforme a narrativa vai se tornando mais e mais sinuosa. Para sua sorte, conta com dois atores excepcionais nas reviravoltas dramáticas e que seguram com extrema habilidade cada nuance proposta pelo roteiro. Elegante, fascinante e inteligente, "A pele de Vênus" é o melhor que um teatro filmado pode ser.

terça-feira

O INQUILINO

O INQUILINO (The tenant, 1976, Paramount Pictures, 126min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, Gérard Brach, romance de Roland Topor. Fotografia: Sven Kykvist. Montagem: Françoise Bonnot. Música: Philippe Sarde. Figurino: Jacques Schmidt. Direção de arte/cenários: Pierre Guffroy. Produção executiva: Hercules Bellville. Produção: Andrew Braunsberg. Elenco: Roman Polanski, Isabelle Adjani, Shelley Winters, Melvyn Douglas, Jo Van Fleet, Bernard Fresson, Lila Kedrova. Estreia: 24/5/76 (Festival de Cannes)

Último capítulo da famosa "trilogia do apartamento" de Roman Polanski, "O inquilino" antecede, em pelo menos uma década, o tom onírico e delirante das obras de David Lynch. Inspirado em um romance de Roland Topor que estava em vias de ser filmado por Jack Clayton ("Os inocentes" e "Todas as noites às nove") e lançado dois anos após a consagração do cineasta polonês com "Chinatown", que havia lhe dado uma indicação ao Oscar de melhor diretor, o suspense estrelado pelo próprio Polanski e pela musa francesa Isabelle Adjani na flor de seus 20 anos de idade, "O inquilino" é, ainda hoje, perturbador a ponto de dar um nó na cabeça do espectador, acostumado com as tramas mastigadinhas proporcionadas por Hollywood - é uma surpresa, aliás, saber que foi produzido por um estúdio americano e que tenha chegado às telas sem sua interferência. Sinal de que o prestígio do diretor por seu noir estrelado por Jack Nicholson e Faye Dunaway ainda estava em alta - o que só seria abalado por sua acusação de estupro de uma menor de idade e sua proibição de voltar a trabalhar nos EUA, o que lhe obrigou a manter uma carreira internacional, ainda que premiada e quase sempre louvada pela crítica.

Tema constante na filmografia de Polanski, a perda da sanidade mental é o mote central de "O inquilino", em que o diretor volta a trabalhar como ator. Ele é quem vive o protagonista, Trelkovski, um funcionário público simples e discreto que vê seu equilíbrio posto à prova depois de alugar o apartamento de uma jovem estudante que acaba de cometer suicídio. Constantemente assediado por seus estranhos vizinhos, que reclamam de barulhos que ele não faz e falam de outros moradores que ele sequer consegue ver, aos poucos o tímido burocrata passa também a ter visões estranhas e comportar-se de forma errática, como se assumisse a personalidade da antiga moradora do apartamento, uma egiptologista a quem visitou no hospital pouco antes de sua morte. Sem saber o que fazer para impedir que seu fim seja semelhante ao dela - cujos hábitos de consumo ele também começa a manter - Trelkovski pede ajuda a uma amiga da morta, Stella (Isabelle Adjani). Não demora muito, porém, para que ele veja nela uma outra ameaça à sua vida. Sem saber o que fazer, ele mergulha em uma espiral de loucura e obsessão.


O mais radical dos trabalhos de Roman Polanski - por sua profusão de simbolismos, seu tom delirante e por seu final em aberto que não explica nada e deixa tudo nas mãos da plateia - "O inquilino" estreou mundialmente no Festival de Cannes de 1976, de onde saiu sem nenhum prêmio mas com fartos elogios da crítica. Não é para menos: com um estilo econômico de narrativa, sem excessos ou artifícios que façam dele um suspense vulgar ou tipicamente comercial, seu filme é um soco no estômago de quem procura um thriller convencional. Não há sustos a cada dez minutos ou um desfecho trivial. O roteiro - co-escrito pelo diretor e seu colaborador habitual Gérard Brach - tem seu ritmo próprio, com uma pegada europeia que exige do espectador uma atenção que o gênero normalmente dispensa em seus exemplares mais banais. Até mesmo quando a trama ameaça escorregar com um grau bastante elevado de situações bizarras o controle de Polanski no comando da ação a impede de cair no ridículo. Poucas vezes investindo na carreira de ator, ele também consegue destacar-se com uma interpretação contida e adequada, trabalhando ao lado de vencedores do Oscar, como Melvyn Douglas, Shelley Winters, Lila Kedrova e Jo Van Fleet - todos perfeitamente inseridos na atmosfera de pesadelo criada por sua direção inspirada.

Que não se espere de "O inquilino" um suspense banal. Apostando fortemente no teor psicológico da trama e amparado em uma direção de arte que enfatiza cada ângulo distorcido e cada nota da bela trilha sonora de Philippe Sarde, o filme de Polanski conduz o espectador por um labirinto de emoções perversas e tensão, com um sentimento de incômodo de que somente os grandes cineastas conseguem imprimir em seus trabalhos. O final pode não agradar a todos, mas é inegável que poucos filmes são capazes de despertar tanto desconforto sem apelar para a sanguinolência explícita ou efeitos visuais de última geração. Polanski é sempre Polanski, para o bem e para o mal. Vale experimentar!

domingo

A DANÇA DOS VAMPIROS

A DANÇA DOS VAMPIROS (Dance with the vampires, 1967, FilmWay Pictures, 108min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, Gérard Brach. Fotografia: Douglas Slocombe. Montagem: Alastair McIntyre. Música: Christopher Komeda. Figurino: Sophie Devine. Direção de arte/cenários: Wilfrid Shingleton. Produção executiva: Martin Ransohoff. Produção: Roman Polanski. Elenco: Jack McGowran, Roman Polanski, Alfie Bass, Jessie Robbins, Sharon Tate. Estreia: 13/11/67

Depois de fazer um primeiro filme em inglês que conquistou a crítica com um suspense psicológico milimetricamente calculado - "Repulsa ao sexo" (65) - e uma obra mais pessoal, repleta de um humor negro perturbador - "Armadilha do destino" (66) - o cineasta polonês Roman Polanski mais uma vez pegou todo mundo de surpresa com seu filme seguinte. Uma subversão ao mito dos vampiros, recheado de humor nonsense e realizado com um visual camp dos mais deliciosos, "A dança dos vampiros" foi uma lufada de ar fresco dentro da filmografia de Polanski, até então carregada de paranoia, tensão extrema e angústia. Apelando para o humor puro e simples, o diretor e seu corroteirista Gérard Brach, da forma mais iconoclasta e debochada possível, resolveram brincar com os paradigmas do cinema de horror britânico - em especial os filmes dos estúdios Hammer, especialista no gênero - e construíram um cult de nascença, tornado ainda mais macabramente famoso depois da violenta morte de uma de suas estrelas, a atriz Sharon Tate, assassinada aos oito meses de gravidez, em agosto de 1969, menos de dois anos depois de sua estreia.

Casada com Polanski, Sharon Tate morreu nas mãos de um grupo de jovens comandados de forma cega por Charles Manson - que se achava a reencarnação de Cristo e pregava uma supremacia branca que o levaria ao poder - e viu sua fama, ainda tímida, catapultada aos céus graças à morbidez da imprensa. Seu trabalho em "A dança dos vampiros" - como a bela e pouco recatada Sarah, objeto de desejo do personagem do próprio diretor - foi um dos primeiros a conquistar atenção da crítica e do público, e revelava nela uma presença de cena bastante forte e hipnótica que se confirmaria em um de seus filmes seguintes, a adaptação cinematográfica do best-seller "O vale das bonecas", de Jacqueline Susan - filmado por Mark Robson e lançado pouco mais de um mês depois. Substituindo a escolha inicial de Polanski para o papel, Tate aparece relativamente pouco em cena, mas é, sem dúvida, um dos maiores atrativos do filme, com sua beleza serena e uma docilidade que contrasta com o tom satírico do roteiro e das imagens criativas do cineasta, que fogem do humor óbvio ao apostar no riso discreto mas constante.


A trama se passa, como não poderia deixar de ser, na Transilvânia, mais precisamente em um remoto vilarejo onde chegam o Professor Abronsius (Jack MacGowran), especialista em morcegos, e seu tímido e atrapalhado assistente, Alfred (Roman Polanski, com bom timing para comédia). O veterano mestre procura provar a existência de vampiros e, seguindo pistas e estudos de colegas, se hospeda na pensão do misterioso Shagall (Alfie Bass), decorada com enorme quantidade de dentes de alho e frequentada por alguns habitantes locais bastante misteriosos. Abronsius passa a ter certeza acerca das criaturas que procura quando a bela filha do dono da pensão, Sarah (Sharon Tate), é sequestrada pelo assustador Conde Von Krolock (Ferdy Mayne), que a leva para sua tétrica mansão, localizada no alto de uma montanha coberta de neve. Movido pelo desejo de exterminar o vampiro, o veterano estudioso parte rumo ao castelo, acompanhado do apaixonado Alfred, que quer salvar o objeto de seu afeto de um trágico destino. Chegando no lar do monstruoso Krolock, os dois se descobrem presos e em vias de tornarem-se, eles próprios, as próximas vítimas do sanguessuga - e o que é pior, em um baile que reunirá dezenas de outros vampiros.

Transformado em espetáculo musical lançado em 1997 na Áustria em uma montagem dirigida pelo mesmo Roman Polanski do filme original, "A dança dos vampiros" é uma comédia atípica, que usa e abusa do humor visual e do deboche às regras estabelecidas dos filmes de terror. Sem poupar nada e nem ninguém, o roteiro apresenta seus heróis como dois inaptos atrapalhados, capazes de ficarem entalados em janelas ou incapazes de cravar estacas em seus algozes - além de criar um vampiro gay hilariante que não hesita em dar em cima do despreparado Alfred enquanto seu líder prepara o baile de gala que justifica o título em português. Contando ainda com uma trilha sonora discreta de Christopher Komeda - que depois criaria a tétrica música de "O bebê de Rosemary" (68) - e um ritmo que destoa substancialmente das comédias realizadas em Hollywood, que privilegiam o riso fácil, "A dança dos vampiros" não é exatamente um filme para todas as plateias, mas é capaz de divertir a quem procura subversões e criatividade. E ainda tem Sharon Tate, linda e carismática.

sexta-feira

REPULSA AO SEXO

REPULSA AO SEXO (Repulsion, 1965, Compton Films, 105min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, Gerard Brach, adaptação de David Stone. Fotografia: Gilbert Taylor. Montagem: Alastair McIntyre. Música: Chico Hamilton. Direção de arte: Seamus Flannery. Produção: Gene Gutowski. Elenco: Catherine Deneuve, Ian Hendry, John Fraser, Yvonne Furneaux, Patrick Wymark. Estreia: 19/5/65 (Festival de Cannes)

A intenção do cineasta Roman Polanski e do roteirista Gerard Brach era simples e clara: eles queriam realizar um filme bem-sucedido comercialmente que lhes desse financiamento para aquele que consideravam um projeto mais pessoal e ambicioso, o suspense "Armadilha do destino". Para isso, aceitaram a encomenda de uma produtora de filmes pornô - a Compton Films - para que criassem um filme de terror que mudasse um pouco sua imagem diante do público. Com um orçamento ínfimo de 270 mil dólares, uma atriz francesa ainda iniciante chamada Catherine Deneuve liderando o elenco e uma trama que se utilizava da auto-repressão sexual como ponto de partida, "Repulsa ao sexo" saiu do Festival de Berlim de 1965 com o Prêmio Especial do Júri e representou o início de uma relação de admiração e prestígio da crítica em relação ao diretor. Em seu primeiro filme em língua inglesa, Polanski já deixava claro seu interesse quase obsessivo pelo lado escuro da vida, uma marca inconfundível de sua filmografia futura - e demonstrava que, como poucos cineastas de sua geração, sabia como manipular o suspense sem apelar para o susto fácil.

A trama de "Repulsa ao sexo" se passa em Londres, mas uma Londres em preto-e-branco bem distinta da capital inglesa da geração flower power ou do amor livre. É por ruas sem glamour ou alegria que passa todos os dias a caminho do seu trabalho em uma clínica de estética a tímida e discreta Carol Ledoux (vivida com graça e competência por uma Catherine Deneuve no auge da beleza). Avessa a qualquer tipo de aproximação masculina - inclusive do eterno pretendente, Colin (John Fraser) - e a todo tipo de menção a fatos relacionados a sexo e relacionamentos, Carol sente-se desconfortável com a constante presença do amante de sua irmã, Helen (Yvonne Furneaux), no apartamento alugado que dividem. Para ela, não é apenas o fato de Michael (Ian Hendry) ser casado que a incomoda, e sim sua proximidade e sua ostensiva felicidade sexual, que a afrontam e deixam aflorar, pouco a pouco, um desequilíbrio só perceptível em detalhes como a apatia e a tensão intermitente. Quando Helen e Michael viajam juntos e a deixam sozinha em casa, Carol começa a escorregar definitivamente para a loucura: sofrendo de alucinações de todo tipo (como braços que saem das paredes para agarrá-la) e o medo cada vez mais patológico de qualquer contato com homens (sejam eles amigáveis como Colin ou desprezíveis como o senhorio que vai cobrar o aluguel e a assedia sexualmente), a jovem perde de vez o vínculo com a sanidade mental.


Sem apostar em psicologismos baratos para explicar as razões de sua protagonista - as conclusões podem ser tiradas de acordo com a bagagem do espectador - Roman Polanski prefere conduzir sua narrativa de forma a mergulhar o espectador na aterrorizante jornada de Carol sem buscar subterfúgios que não os visuais. E para isso, ele conta com a brilhante fotografia de Gilbert Taylor - que investe em lentes grandes angulares para distorcer tanto o ponto de vista da personagem quanto a maneira com que o mundo à sua volta vai se tornando gradualmente mais expressionista e claustrofóbico - e a direção de arte inteligente, que cria um cenário aparentemente banal (um apartamento barato) para transformá-lo, no decorrer da história, no palco de uma tragédia quase anunciada, com direito a sangue, a carne de um coelho que vai apodrecendo lentamente e um clima de tensão absoluta, pontuado pela trilha sonora discreta de Chico Hamilton, que evita invadir desnecessariamente as cenas, explodindo apenas quando torna-se essencial.

É especialmente interessante a maneira com que Polanski espalha, pelo filme, referências fálicas que enfatizam ainda mais o estado de espírito doentio de sua protagonista. São escovas de dente dentro de copos, cigarros em cinzeiros e edifícios que atormentam Carol em seu dia-a-dia, preenchidos ainda com as reclamações de suas colegas de trabalho a respeito dos homens, trabalhadores de obras que não hesitam em passar-lhe cantadas e uma rotina profissional tediosa que não a impede de afundar sem proteção em seu desatino. É brilhante a metáfora das paredes rachadas no apartamento - que refletem com exatidão a fragmentação da personalidade de Carol e a inevitabilidade de seu desmoronamento. O roteiro de Polanski e Brach não poupa nem a personagem nem o público, sufocando-os com um manto de angústia e solidão que encontra amparo na atuação perfeita de Catherine Deneuve, que consegue o feito de conquistar a plateia com sua aflição e fazê-la inclusive perdoar seus atos de violência. Primeiro filme da "trilogia do apartamento" de Roman Polanski - que se completa com "O bebê de Rosemary" (68) e "O inquilino" (76), estrelado pelo próprio diretor - "Repulsa ao sexo" é um suspense psicológico exemplar, tanto do ponto de vista formal e estético quanto de narrativa. Para ver e rever.

domingo

DEUS DA CARNIFICINA

DEUS DA CARNIFICINA (Carnage, 2011, SBS Productions/Constantin Film Produktion, 80min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, Yasmina Reza, peça teatral de Yasmina Reza. Fotografia: Pawel Edelman. Montagem: Herve de Luze. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Frankie Diago. Produção executiva: Javier Méndez. Produção: Said Ben Said. Elenco: Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz, John C. Reilly. Estreia: 01/9/11 (Festival de Veneza)

Roman Polanski dirigindo uma comédia? Baseada em texto teatral? Estrelado por Jodie Foster e Kate Winslet? Antes que o estranhamento que tais questões possam suscitar, é bom lembrar que nada disso é exatamente novo. Polanski assinou, no final dos anos 60, o escrachado “A dança dos vampiros”, um quase clássico camp que tinha no elenco, além dele mesmo, aquela que seria sua esposa e morreria assassinada a mando de Charles Manson em agosto de 1969 – e que prova sem contestação que ele sabe ser engraçado. Também assinou a direção de “A morte e a donzela”, peça escrita pelo chileno Ariel Dorfman – o que não faz dele um estreante em transpor teatro para as telas. E Jodie Foster e Kate Winslet não são novatas em fazer rir – Jodie fez um hilariante par com Mel Gibson em “Maverick” (94) e Winslet demonstrou bom timing cômico em “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” (04), que não era comédia mas tinha lá seus momentos de graça. Sendo assim, “O deus da carnificina”, adaptado com extrema fidelidade da peça da francesa Yasmina Reza não deve ser visto como um terreno novo a ser desbravado pelo cineasta polonês – mesmo porque a quase claustrofobia do filme remete a algumas das mais célebres obras de sua carreira, como “O inquilino”, “Repulsa ao sexo” e “O bebê de Rosemary” (68), não à toa parte da chamada “trilogia do apartamento” – na qual o texto de Reza poderia tranquilamente ser inserida, não fosse o tom bem menos sóbrio e mais leve. Uma comédia muito mais afeita a sorrisos do que gargalhadas, “O deus da carnificina” também é coerente com a forma quase pessimista de Polanski enxergar o mundo e o ser humano. Não é à toa que seus personagens vão demonstrando, com o passar das horas, lados pouco louváveis de suas personalidades anteriormente tão polidas pelo verniz da sociedade.
O estopim da trama é simples e eficiente: um menino de onze anos, depois de uma discussão, agride com violência um colega da mesma idade. Cientes de sua superioridade enquanto adultos e civilizados, os pais de ambos se reúnem em uma tarde para conversar e tomar as devidas providências. No apartamento classe média de Michael e Penelope Longstreet (John C. Reilly e Jodie Foster) – os pais da vítima – os quatro aparentemente chegam rápido à conclusão de que as crianças devem se encontrar e que o agressor deve pedir desculpas ao agredido. Tudo perfeito, simples e ágil como convém. Porém, o que parecia já resolvido começa a dar sinais de problema quando outros assuntos, aparentemente não-relacionados à principal questão, vêm à tona. A princípio com ironias e gradualmente se tornando cada vez mais beligerante e agressiva, a conversa se transforma em um ringue, onde os dois casais partem para a briga – uns contra os outros e, conforme outros questionamentos surgem, com alianças inesperadas. Nesse meio-tempo, Alan e Nancy Cowan (Christoph Waltz e Kate Winslet) descem do seu pedestal de superioridade e encaram a face mais atávica e competitiva da humanidade.
A ousadia de Polanski em restringir sua narrativa em apenas um pequeno apartamento nova-iorquino (com uma ou outra cena de transição no corredor diante de sua porta) é a maior qualidade da versão cinematográfica de “O deus da carnificina”. Enquanto outros cineastas tentariam disfarçar as origens de seu material com subterfúgios artificiais e ineficientes, ele assume sem medo o tom verborrágico da trama, mas consegue, graças a seu talento e a seus anos de estrada, transformar em trunfo o que poderia ser um problema: frequentemente usando distorções nas lentes da câmera (cortesia de seu habitual colaborador Pawel Edelman) como forma de enfatizar o quase pesadelo surreal que se torna o que deveria ser uma simples tarde entre adultos, Polanski sublinha o tema principal da história, desnudando sem dó nem piedade os reais sentimentos e pensamentos da classe média, protegida por sua capa de respeitabilidade até que as coisas fujam de seu controle. Ao escalar para seus protagonistas um time de atores com imagens absolutamente respeitáveis e sérias, o diretor também critica, através de uma brilhante metáfora interna, a grande diferença entre o “parecer” e o “ser”. Ninguém fica impune ao deus da carnificina citado por Alan em um momento do texto e que é representado pela força bruta ao invés da inteligência – nem mesmo as belas tulipas com que Penelope enfeita sua mesa de centro para receber suas visitas.


Como em qualquer bom texto teatral, os personagens de “O deus da carnificina” vão se revelando aos poucos, dando a seus intérpretes (todos atores excepcionais) a chance de mostrar diversas facetas de seus talentos. O Michael de John C. Reilly (único dentre os atores a ainda não ter ganho um Oscar) é, aparentemente, um homem de boa paz, um vendedor de utensílios domésticos que tenta resolver tudo na base da conversa e da sociabilidade extrema – mas que não hesita em abandonar o hamster da filha pequena no esgoto da cidade ou vangloriar-se de ter sido líder de uma gangue quando criança. Sua esposa, Penelope (Jodie Foster em uma atuação que vai crescendo diante do espectador até explodir na reta final) é uma escritora especializada em Arte e História da África a quem a civilidade é primordial nos relacionamentos interpessoais – ao menos até que seu modo de lidar com a família e o casamento sejam postos em xeque. Alan (Christoph Waltz finalmente deixando um pouco de lado os trejeitos que repete constantemente) é o típico homem que dedica seus dias na luta por mais e mais dinheiro – é advogado de uma empresa farmacêutica em vias de enfrentar uma ação penal – e vê o valor das pessoas baseado em suas contas bancárias e seu sucesso profissional. E Nancy (Kate Winslet, a melhor em cena) é uma corretora de investimentos chique, discreta e delicada que perde as estribeiras quando deixa que o álcool lhe tire todos os filtros de polidez e escrúpulos morais e éticos.
A dinâmica de “O deus da carnificina” é a desculpa perfeita para Roman Polanski exercitar seu cinema simples e direto. Em menos de uma hora e meia de projeção, ele destrói o muro de convenções sociais que possibilita a convivência entre os seres humanos, usando para isso não um grupo de homens pré-históricos ou soldados em plena batalha. A maior ironia (e o maior acerto) de Yasmina Reza em seu trabalho é deixar que pessoas bem-nascidas, bem-resolvidas e bem-educadas sejam o objeto de sua tese (pessimista? realista? exagerada?) de que sem o verniz de uma organização social e comunitária os homens que se gabam de utilizar-se da mais alta tecnologia, de conhecer a fundo obras de arte e de saber frequentar as mais altas rodas da sociedade não passam, no fundo, de homens das cavernas, predispostos a, em qualquer momento, apelar para a violência e a agressão como forma de fazer prevalecer seu ponto de vista. E Polanski, em um toque de gênio, acrescenta à peça de Reza um epílogo silencioso e quase imperceptível que mostra que, ao mesmo tempo em que a civilização como a conhecemos tem a fragilidade de uma flor, ainda existe esperança onde menos se espera – e da forma mais simples possível. Mais do que mostrar-se otimista, o vencedor do Oscar por “O pianista” mostra-se de uma ironia sofisticada e contundente. O inferno são os outros.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...