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sábado

EXPERIMENTOS

EXPERIMENTOS (Experimenter, 2015, BB Films Production, 98min) Direção e roteiro: Michael Almereyda. Fotografia: Ryan Samul. Montagem: Kathryn J. Schubert. Música: Bryan Senti. Figurino: Kama K. Royz. Direção de arte/cenários: Deana Sidney/Nadya Gurevich. Produção executiva: Lee Broda, Christa Campbell, Trevor Crafts, Rogerio Ferezin, Lati Grobman, Mark Myers, Jeff Rice, Cláudio Szajman. Produção: Danny A. Abeckaser, Michael Almereyda, Fabio Golombek, Isen Robbins, Aimee Schoof, Uri Singer. Elenco: Peter Sarsgaard, Winona Ryder, Anthony Edwards, John Leguizamo, Anton Yelchin, Lori Singer, Dennis Haysbert, Jim Gaffigan, John Palladino. Estreia: 25/01/15 (Festival de Sundance)

O nome do psicólogo Stanley Milgram pode não dizer muito à maioria das pessoas, mas em 1961, mesmo propenso a sofrer todo tipo de crítica de colegas e da população em geral, ele conduziu uma série de experiências a respeito do conformismo e do respeito incondicional dos seres humanos em relação a vozes de autoridade - como forma de entender, ainda que vagamente, o que levou gente aparentemente pacífica a condescender com o holocausto alemão na II Guerra Mundial. Sua série de testes - que foi expandida para outros tipos de questionamento conforme o tempo passava - é a base do roteiro de "Experimentos", filme escrito e dirigido por Michael Almereyda e que estreou no Festival de Sundance de 2015 - para depois fazer o circuito de festivais de cinema e só chegar a um lançamento oficial em outubro do mesmo ano. Estrelado pelo sempre competente Peter Sarsgaard e pela sumida Winona Ryder, "Experimentos" é uma produção inteligente e criativa, mas que peca por não aprofundar a personalidade de seu protagonista e focar-se muito mais em seus polêmicos trabalhos.

Sarsgaard, que já havia interpretado um pesquisador no ótimo "Kinsey: vamos falar de sexo?" (2004), nem precisa se esforçar muito para convencer na pele de Milgram, que, tentando encontrar uma relação de paz com sua origem judaica, se torna um dos psicólogos mais controversos de sua época. Logo de cara o público já descobre os motivos de tanta discussão: escondido em um anexo à uma sala comercial, Milgram analisa suas cobaias humanas, que nem de longe desconfiam estar sendo observados. Homens e mulheres, de idades e classes sociais diferentes, aceitam dar choques elétricos em uma pessoa desconhecida toda vez que ela errar a resposta para um teste simples de múltipla escolha - mesmo que, atrás da parede, a vítima peça para que a tortura pare. Na verdade, não existem choques, mas o interesse do psicólogo é confirmar como a maioria esmagadora da população não consegue rebelar-se contra ordens superiores ainda que isso cause dor e sofrimento aos outros. Taxado de sádico e desprezado por seus colegas, ele insiste em tentar provar seus pontos de vista com outras experiências - algumas bem menos radicais, mas igualmente provocativas e surpreendentes.


Com uma narrativa que foge do convencional quando quebra a barreira da quarta parede e faz com que Milgram converse com o espectador, explicando suas teorias e contando sua história de amor com a esposa, Sasha (Winona Ryder, pouco explorada), "Experimentos" é um filme de fácil diálogo com a plateia, mas que não deixa de causar certo estranhamento justamente por sua criatividade estilística. Por mesclar o discurso em primeira pessoa do protagonista com momentos narrativos tradicionais, o roteiro de Almereyda parece perder o foco em determinadas situações - o que acarreta problemas de ritmo que somente o talento do elenco consegue disfarçar. Além de Sarsgaard e Winona, rostos conhecidos do público fazem participações especiais - caso de John Leguizamo, Anthony Edwards, Anton Yelchin e Dennis Haysbert (na pele do ator Ossie Davis, que estrelou, ao lado de William Shatner, um filme baseado no livro mais famoso de Milgram) - e, apesar do interesse pela trama sofrer um baque no terço final (quando Sarsgaard apela para uma barba pouco convincente e seus experimentos deixam de ter o mesmo impacto), o filme é um passatempo bastante inteligente e sensível.

Premiado no Festival de Cinema de Los Angeles, "Experimentos" é uma produção que foge radicalmente dos orçamentos gigantescos para contar uma história importante e que vale a pena ser conhecida. Peter Sarsgaard está extremamente à vontade em cena, e sua parceria com Winona Ryder - já uma atriz madura, discreta e minimalista - é um acerto, ainda que pouco seja explorada. Conhecido por "Nadja" (94), um filme de vampiros que tornou-se cult na década de 90, Michael Almereyda assina um filme despretensioso, barato e eficaz. Não é marcante ou impactante como poderia, mas é um trabalho honesto e mais uma grande atuação de Sarsgaard - um ator subestimado e ainda pouco aproveitado em Hollywood.

sexta-feira

CHEF

CHEF (Chef, 2014, Aldamisa Entertainment/Kilburn Media, 114min) Direção e roteiro: Jon Favreau. Fotografia: Kramer Morgenthau. Montagem: Robert Leighton. Figurino: Laura Jean Shannon. Direção de arte/cenários: Denise Pizzini/Bryan John Venegas. Produção executiva: Molly Allen, Marina Bespalov, James D. Brubaker, Craig Chapman, Philip Elway, Gleb Fetisov, Jerry Fruchtman, Peter Fruchtman, Karen Gilchrist, Jere Hausfater, Mark C. Manuel, Ted O'Neal, Jason Rose, Dylan Russell, Anne Sheehan, Tim Smith, Scott Steindorff, Boris Teterev, Oleg Teterin. Produção: Sergei Bespalov, Jon Favreau. Elenco: Jon Favreau, John Leguizamo, Bobby Cannavale, Emjay Anhony, Sofía Vergara, Dustin Hoffman, Scarlett Johansson, Oliver Platt, Amy Sedaris, Robert Downey Jr.. Estreia: 07/3/14 (South by Southwest Film Festival)

É impossível não traçar um paralelo entre o diretor e roteirista Jon Favreau e o protagonista de sua comédia dramática "Chef", o chefe de cozinha Carl Casper: cineasta criado no universo do cinema independente - no qual estrelou e coproduziu o cultuado "Swingers, curtindo a noite" em 1996 - ele aos poucos foi se introduzindo no miolo da indústria, acabando por assinar o ambicioso (e bem-sucedido) "Homem de ferro", lançado em 2008 com todo o aparato de uma super-produção. Em 2010 dirigiu a sequência das aventuras do super-herói com ainda mais êxito e em 2011 arriscou-se no ousado "Cowboys & Aliens", que decepcionou a crítica e não fez metade do barulho que se esperava. Acuado pelo sucesso e pela ambição de seus filmes mais populares, Favreau resolveu então voltar às origens e lançar um filme pequeno e despretensioso que mostrasse suas qualidades de criador sem o apoio de efeitos visuais. Em "Chef" - o filme escolhido para tal retorno - o protagonista passa por situação semelhante: de promessa ele passa ao sucesso. Do sucesso ele cai em desgraça. Da desgraça nasce um homem ainda mais talentoso e feliz.

Sim, a trama parece clichê - e até é, de certa forma. Mas "Chef" é dotado de uma leveza, de uma despretensão e de uma empatia tão grande que é difícil não embarcar sem reservas na história (cortesia também de um elenco muito bem escalado) e de uma edição ágil que transporta a audiência a uma viagem bem-humorada de redescobrimento pessoal e reunião familiar. Quem promove tal viagem é o personagem interpretado pelo próprio Jon Favreau, que dá vida à Carl Casper, o chef de cozinha de um respeitado restaurante bem frequentado de Los Angeles. Sentindo-se preso a menus sem a criatividade ou a ousadia que lhe marcaram o início da carreira, ele não consegue convencer seu patrão, Riva (Dustin Hoffman) a variar as ofertas da casa e acaba entrando em rota de colisão com o crítico mais influente da Internet, Ramsey Michel (Oliver Platt), que percebe sua estagnação profissional e faz uma resenha destruidora em seu site. Furioso, Carl faz uma cena histérica em pleno restaurante - fato que vai parar na rede e causa sua demissão - e, sem enxergar uma saída para a crise que se instala em sua vida, aceita viajar com a ex-mulher, Inez (Sofía Vergara) e o filho pequeno, Percy (Emjay Anthony) para Miami. É lá que ele finalmente aceita a ideia de Inez de recomeçar do zero e passa a ser o orgulhoso dono de um food-truck. Com a ajuda do amigo Martin (John Leguizamo) e do filho pequeno - com quem passa a ter uma relação mais profunda e de admiração - Carl redescobre o prazer de cozinhar, especialmente quando seu negócio se transforma em sucesso absoluto graças ao poder das redes sociais.


Utilizando de forma inteligente a forma com que a Internet interfere na vida das pessoas mesmo que elas não percebam - fazendo ao mesmo tempo um elogio e uma crítica às redes sociais - "Chef" busca (e consegue) a cumplicidade da plateia contando apenas com seu roteiro dinâmico e moderno e com a química entre seus atores. Fugindo da tentação de acrescentar um toque de romance à trama - a atração entre o protagonista e a recepcionista do restaurante, Molly (Scarlett Johansson) não vai além de umas poucas cenas - e mergulhando o público no universo dos bastidores da culinária (uma febre que o sucesso dos reality shows do gênero apenas comprova), o filme ainda aproveita do tempero latino da presença de John Leguizamo e Sofía Vergara (linda como sempre) no elenco para rechear suas cenas com uma trilha sonora contagiante e uma fotografia exuberante e colorida, que toma conta da história a partir do momento em que a vida de Casper sai do escuro da depressão para a vitalidade de uma nova vida. Sem forçar a mão no drama nem exagerar na comédia, Favreau equilibra sua narrativa com maestria, e o resultado é deliciosamente agradável.

Com um elenco repleto de rostos conhecidos do grande público - até o Homem de Ferro em pessoa, Robert Downey Jr., dá as caras em uma participação especial como um rival do protagonista - "Chef" é uma lufada de ar fresco na carreira de Jon Favreau como diretor, mostrando seu talento em retratar pessoas simples em situações corriqueiras. Não muda a vida de ninguém, mas é simpático e solar, otimista e radiante. Em um mundo às vezes tão sombrio e pesado, um filme assim soa como um oásis no deserto.

sábado

O VERÃO DE SAM

O VERÃO DE SAM (The summer of Sam, 1999, 40 Acres & A Mule Filmworks/Touchstone Pictures, 142min) Direção: Spike Lee. Roteiro: Spike Lee, Victor Colicchio, Michael Imperioli. Fotografia: Ellen Kuras. Montagem: Barry Alexander Brown. Música: Terence Blanchard. Figurino: Ruth E. Carter. Direção de arte/cenários: Thérèse DePrez/Diane Lederman. Produção executiva: Jerri Carroll-Colicchio, Michael Imperioli. Produção: Jon Kilik, Spike Lee. Elenco: John Leguizamo, Mira Sorvino, Adrien Brody, Jennifer Esposito, Michael Rispoli, Bebe Neuwirth, Patti Lupone, Anthony LaPaglia, Ben Gazzarra, John Savage, Spike Lee. Estreia: 20/5/99 (Festival de Cannes)

A ideia inicial de Spike Lee era contar em forma de filme, uma das histórias mais apavorantes vivenciadas pelos moradores de Nova York na década de 70, quando um serial killer auto-intitulado "O Filho de Sam" usou de um revólver calibre 44 para matar seis pessoas e ferir outras sete, sempre à noite, entre agosto de 1976 e julho de 1977 - um dos mais quentes da história da cidade. A contrariedade dos familiares das vítimas, que não gostaram nem um pouco de ver o algoz de seus entes queridos transformado em possível heroi mudou a perspectiva do polêmico cineasta: a trama central então, mudou de foco, e apesar dos assassinatos terem importância fundamental em "O verão de Sam", são apenas o pano de fundo para um conto sobre preconceito, intolerância e medo. Candente e dotado de um ritmo ágil e angustiante, o filme é um dos melhores da carreira do diretor de "Faça a coisa certa" e "Malcolm X", valorizado pelo cuidado com a reconstituição de época e com um elenco de atores certos nos papéis corretos.

O protagonista de "O verão de Sam" é Vinny (o ótimo John Leguizamo, que improvisou boa parte de seus diálogos, com o incentivo do diretor), um cabeleireiro mulherengo que gasta suas noites dançando nas discotecas do Bronx ao lado da esposa, Dionna (Mira Sorvino) - e frequentemente transando com qualquer rabo-de-saia que passe à sua frente, não importa se é a sua chefe, Gloria (Bebe Neuwirth) ou a prima de sua mulher. Em uma dessas puladas de cerca, ele escapa de ser assassinado pelo Filho de Sam, um serial killer que vem apavorando a cidade de Nova York. Acreditando que sua sorte é um sinal de Deus para que mude de vida, ele resolve tentar ser o melhor marido possível, ao mesmo tempo em que Dionna, para mantê-lo a seu lado, passa a buscar formas diferentes de satisfazê-lo sexualmente. Nesse meio tempo, um dos policiais encarregados do caso, Lou Petrocelli (Anthony LaPaglia), criado no Bronx, pede ajuda ao mafioso local, Luigi (Ben Gazzarra), para que colabore nas investigações com seu vasto conhecimento do submundo do crime. Tal pedido acaba por envolver na história um grupo de moradores do bairro, que, preconceituosos e ignorantes, passam a perseguir a todos aqueles que julgam possíveis suspeitos. Um deles, o jovem Richie (Adrien Brody), acaba por se tornar o principal acusado, somente por vestir-se como punk, tocar rock em bares pouco recomendáveis e, vez ou outra, prostituir-se.


Costurando suas histórias com um ritmo cadenciado que jamais permite tempos mortos em sua narrativa, Spike Lee constrói um potente estudo sobre a culpa e o preconceito, jogando na mesma mistura uma sexualidade explosiva e marginal - com direito a cenas de orgias e diálogos repletos de palavrões - e uma violência tanto física quanto moral exasperantes. Enquanto o criminoso Filho de Sam se vê torturado pelas vozes em sua cabeça (que o impelem a matar), Richie é vítima de todos os tipos de preconceito, que surgem dentro de sua própria casa e se estendem pelas ruas de seu bairro. A forma como o roteiro trata Richie - um homem inocente destruído por suspeitas aleatórias - lembra os clássicos de Hitchcock, mas aquecidos a uma temperatura quase insuportável, refletida na fotografia quase em tom documental de Ellen Kuras e no desenho de som, que transforma a narrativa em um pesadelo kafkiano. Uma pena, porém, que Lee não tenha mantido a ousadia até o final, refreando a crueldade que poderia dar à mensagem do filme uma ênfase ainda mais contundente.

Afora esse pequeno senão, "O verão de Sam" tem de tudo para agradar a todos os paladares: é um filme policial competente - ainda que o roteiro não se detenha nas investigações em si -, é um drama romântico sensual, tem sequências musicais bem dirigidas (calma, nada de cantorias, apenas coreografias bem elaboradas ao som de música disco), um elenco bem dirigido e uma trilha sonora deliciosa com sucessos da década de 70 - ABBA, The Who, Thelma Huston. Nem mesmo sua longa duração - duas horas e meia - chega a ser um defeito, uma vez que a edição tem um invejável senso de ritmo e a história nunca deixa de ser interessante o bastante para manter a atenção da plateia. Um grande filme, que se apropria de uma das mais assustadoras lendas da crônica policial norte-americana para falar de pessoas comuns, vítimas da ignorância e do preconceito. Vale a pena assistir ou revisitar.

quarta-feira

FIM DOS TEMPOS

FIM DOS TEMPOS (The happening, 2008, 20th Century Fox, 91min) Direção e roteiro: M. Night Shyamalan. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Conrad Buff. Música: James Newton Howard. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Jay Hart. Produção executiva: Gary Barber, Roger Birnbaum, Ronnie Screwvala, Zarina Screwvala. Produção: Barry Mendel, Sam Mercer, M. Night Shyamalan. Elenco: Mark Wahlberg, Zooey Deschanel, John Leguizamo. Estreia: 13/6/08

Em 1963, o mestre do suspense, Alfred Hitchcock, lançou um de seus mais célebres filmes, "Os pássaros", que contava a revolta sem explicação de milhares de aves de rapina em uma cidade litorânea dos EUA. A julgar pela recepção histérica da crítica e do público americanos a "Fim dos tempos" - thriller dirigido por M. Night Shyamalan que investiga uma catástrofe natural de proporções nacionais - é de se imaginar a quantidade de pedras que seriam jogadas ao velho Hitch caso seu filme estreasse quarenta anos depois de seu lançamento original. Massacrado sem dó nem piedade, "Fim dos tempos" seguiu-se às péssimas críticas que o cineasta havia colecionado com seu "A dama na água", e serviu para, no mínimo, confirmar a extrema má-vontade geral contra os trabalhos do diretor que transformou-se em fenômeno graças a "O sexto sentido". Mesmo longe de ser uma obra-prima - e com alguns defeitos claramente perceptíveis até ao mais distraido espectador - o filme estrelado por Mark Wahlberg é um suspense acima da média, que comprova o talento de um dos poucos cineastas ainda donos de um estilo próprio.

A primeira sequência já é arrepiante e dá uma mostra da capacidade de Shyamalan de sugerir o horror contando apenas com a música (mais uma vez a cargo de James Newton Howard) e a edição de som: em uma bela e tranquila manhã de sol no Central Park nova-iorquino, dezenas de pessoas começam a agir estranhamente. Primeiro, perdem a noção de direção. Depois, falam coisas sem sentido. Por fim, cometem suicídio sem razão aparente. Em pouco tempo, operários de uma construção agem da mesma forma. Não demora para que o acontecimento chegue à imprensa, que de cara pensa tratar-se de um atentado terrorista em forma de arma química. Pouco depois, na Filadélfia, o professor de química Elliot Moore (Mark Wahlberg, um tanto deslocado no papel) descobre que sua cidade também está na rota do misterioso fenômeno e resolve, assim como centenas de conterrâneos, fugir para um local mais seguro. Acompanhado da esposa Alma (Zooey Deschanel) - cujo relacionamento está em crise - e da filha pequena de um amigo que foi procurar a mulher, o rapaz se vê diante de uma catástrofe sem explicações fáceis, que está dizimando a população pelas próprias mãos.


Uma das maiores críticas feitas a "Fim dos tempos" refere-se à explicação dada pelo roteiro ao trágico acontecimento - e que tem nuances ecológicas e de defesa ao meio-ambiente. As reclamações sobre tal opção de Shyamalan apenas mostram o quão engessado está o público de cinema, que provavelmente aceitariam com mais bom grado resoluções fáceis e clichês como conspirações governamentais e alienígenas malvados com sede de destruição. Ao contrariar o esperado, o cineasta apostou na inteligência da plateia e na possibilidade de um pacto com a audiência. Sua aposta não deu certo principalmente porque ele exigiu da audiência uma liberdade maior de imaginação, e contar com isso junto a um público acostumado a soluções mastigadinhas é suicídio comercial. Por outro lado, quem embarcou de verdade no filme ganhou muito mais: cenas dirigidas com extremo cuidado, tensão constante e ao menos uma personagem marcante, capaz de assombrar aos reais fãs de cinema de suspense.

Vivida pela veterana Betty Buckley - que estreou no cinema como uma das professoras de "Carrie, a estranha" (76) - a apavorante Mrs. Jones é, talvez, a melhor personagem de "Fim dos tempos". Misteriosa e paranoica, é ela quem hospeda - meio a contragosto - os protagonistas, no ato final do filme e sua entrada comprova a teoria de Shyamalan de que as pessoas mostram quem elas realmente são justamente nos momentos mais críticos. O desempenho impecável de Buckley de certa forma anula a atuação mecânica tanto de Mark Wahlberg quanto de Zooey Deschanel - que não faz mais do que desfilar caras e bocas, a despeito de seu talento. E são exatamente Wahlberg e Deschanel o calcanhar de Aquiles do filme. Com personagens centrais tão apáticos, não é de admirar que a maior qualidade do trabalho do cineasta seja a direção caprichada e a coragem de ir até o fim com suas ideias.

Primeiro filme de Shyamalan a receber a classificação R-17 (menores de 17 anos somente entram nas salas acompanhados de pais ou responsáveis), "Fim dos tempos" intercala a sugestão com o explícito, com cenas de uma violência até então não vistas na filmografia do diretor. A boa notícia é que a possibilidade de mostrar sangue e cadáveres não tirou do cineasta seu enorme talento em provocar o público. Bem mais inteligente e eficaz do que muitos fizeram crer, é um filme que terá seu valor reconhecido com o passar do tempo.

MOULIN ROUGE, O AMOR EM VERMELHO

MOULIN ROUGE, O AMOR EM VERMELHO (Moulin Rouge, 2001, 20th Century Fox, 127min) Direção: Baz Luhrmann. Roteiro: Baz Luhrmann, Craig Pearce. Fotografia: Donald McAlpine. Montagem: Jill Bilcock. Música: Craig Armstrong. Figurino: Catherine Martin, Angus Strathie. Direção de arte/cenários: Catherine Martin/Brigitte Broch. Produção: Fred Baron, Martin Brown, Baz Luhrmann. Elenco: Nicole Kidman, Ewan McGregor, John Leguizamo, Jim Broadbent, Richard Roxburgh, Kyle Minogue. Estreia: 09/5/01 (Festival de Cannes)

Indicado a 8 Oscar: Melhor Filme, Atriz (Nicole Kidman), Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som, Maquiagem
Vencedor de 2 Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Atriz Comédia/Musical (Nicole Kidman), Trilha Sonora Original

É bom estar preparado! Poucas vezes aconteceu, na história do cinema, um musical como "Moulin Rouge", uma ousadia do diretor australiano Baz Luhrmann, que já transformou "Romeu e Julieta", de Shakesperare, em um filme de ação ruidoso e violento. Cafona, exagerado e quase esquizofrênico como o amor em si, "Moulin Rouge" é, sem dúvida, mais do que um simples filme: é uma experiência sensorial rara e empolgante.

Diferentemente dos musicais produzidos por Hollywood - e raríssimos até então desde sua glória nos anos 40 e 50 - "Moulin Rouge" joga canções pop contemporâneas em uma trágica história de amor passada no final do século XIX em Paris. Assim sendo, cortesãs cantam Queen e Madonna, escritores românticos entoam Elton John e prostitutas dançarinas seduzem os clientes que se divertem cantando Nirvana. Parece um samba do crioulo doido e no fundo o é. Sem medo de parecer brega, Luhrmann - também autor de "Vem dançar comigo", uma pérola do cinema kistch - costura sua excêntrica trilha sonora em um filme que também mistura romance, comédia, vaudeville e suspense. Em meio a cores quentes e uma reconstituição de época cuidadosa mas principalmente criativa e livre de amarras convencionais, o jovem escritor Christian (Ewan McGregor, saindo-se muito bem em seu primeiro papel de galã romântico) chega à Paris de 1899 disposto a criar sua obra-prima mesmo contra a vontade de seu pai, que teme que ele "desperdice sua vida com uma dançarina de can-can". Logo que chega à cidade, o rapaz une-se à troupe do pintor Toulouse-Lautrec (um John Leguizamo tornado anão graças à computação gráfica) e assume o posto de autor do espetáculo teatral que dará voz ao movimento boêmio liderado pelo artista plástico. Em busca de patrocínio para seu projeto, o grupo vai à mais famosa boate da cidade, o Moulin Rouge, lar de dançarinase cortesãs, propriedade de Harold Zidler (Jim Broadbent). A ideia é convencer a estrela do local, a bela Satine (Nicole Kidman no auge do glamour, da beleza e do talento) a fazer parte da turma e assim conseguir dinheiro para a montagem. No entanto, assim que vê Satine, Christian se apaixona por ela. Seu idílico romance, porém, é ameaçado pelo Duque (Richard Roxburg), que, também encantado por ela, tem o destino da boate em suas mãos e pode por tudo a perder.


Na verdade, o roteiro de Luhrmann e Craig Pearce é apenas uma desculpa para o seu show visual e auditivo. A fotografia de Donald McAlpine aproveita cada ângulo de cada cena para surpreender e entontecer a platéia, deixando-a sem fôlego em números musicais quase inacreditáveis, editados por um insano Jill Bilcock – não à toa tanto a fotografia quanto a montagem foram indicados ao Oscar. O uso quase exaustivo de cores berrantes pode até mesmo ferir uma retina mais sensível, mas a coragem do diretor em abdicar de sutilezas em nome da diversão e do inesperado vale cada minuto. E a direção de arte – de uma criatividade ímpar e premiada com o Oscar, assim como o figurino caprichado – cumpre seu papel com louvor, nunca deixando o público esquecer que está defronte de uma das maiores manifestações de tudo que o cinema de entretenimento pode oferecer - ainda que seja "over" em inúmeros momentos.

E entretenimento parece ser a palavra de ordem em “Moulin Rouge”. Assim como em “Vem dançar comigo” nada é para ser levado exatamente a sério em “Moulin Rouge”. Absurdos são jogados à tela a cada sequência, sem objetivos maiores do que atingir o objetivo de divertir e emocionar a platéia por duas horas. Emocionar, sim. Apesar das brincadeiras visuais, do uso de “Like a virgin”, de Madonna em uma cena enlouquecida e do clima de comédia de erros de seu começo, “Moulin Rouge” é acima de tudo uma história de amor trágica e desesperada, vivida com perfeição por um casal com uma química irretocável. Quando estão em cena juntos, Nicole Kidman e Ewan McGregor soltam faíscas, comovendo aqueles que acreditam na verdade, na beleza e principalmente no amor acima de tudo. Cantando, eles surpreendem por seus dotes vocais e é preciso muita má-vontade para não ficar com um sorriso no rosto depois do dueto em cima de um elefante, onde Christian tenta convencer Satine a entregar seu amor a ele entoando trechos de uma dúzia de canções pop, de U2 a Paul McCartney.

Repleto de sequências eletrizantes e contando com um fascinante casal central, "Moulin Rouge" é paixão em estado puro, um exagero em forma de película que conquistou até mesmo a sisuda Academia de Hollywood, que o indicou a 8 estatuetas, incluindo Melhor Filme. Quem levou o prêmio foi o sensível mas quadradinho "Uma mente brilhante". Os vestutos velhindos da Academia ainda não estavam prontos para o turbilhão que é a obra-prima de Baz Luhrmann.

domingo

ROMEU + JULIETA

ROMEU + JULIETA (William Shakespeare's Romeo and Juliet, 1996, 20th Century Fox, 120min) Direção: Baz Luhrmann. Roteiro: Baz Luhrmann, Craig Pearce, peça teatral de William Shakespeare. Fotografia: Donald McAlpine. Montagem: Jill Bilcock. Música: Nellee Hooper. Figurino: Kym Barrett. Direção de arte/cenários: Catherine Martin/Brigitte Broch. Produção: Baz Luhrmann, Gabriella Martinelli. Elenco: Leonardo DiCaprio, Claire Danes, John Leguizamo, Paul Rudd, Pete Postletwhaite, Paul Sorvino, Brian Dennehy, Diane Venora, Christina Pickles, Harold Perrineau Jr., Vondie Curtis-Hall, Miriam Margoyles, Jamie Kennedy, Jesse Bradford. Estreia: 01/11/96

Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários
Festival de Berlim - Melhor Diretor (Baz Luhrmann), Melhor Ator (Leonardo DiCaprio) 

A primeira cena já dá uma pista sobre o que vem pela frente: em vez de empolados arautos em roupas de época, uma apresentadora de telejornal anuncia o que a plateia verá nas próximas duas horas. Com uma montagem frenética e ruidosa, Baz Luhrmann desconstrói o preconceito contra a tradição e entrega sua versão lisérgica, sexy e violenta de uma das mais famosas histórias de amor da história do teatro. "Romeu + Julieta" é mais do que uma refilmagem da mais clássica obra de Shakespeare: é a reinvenção em formato MTV de uma trama universal que vem emocionando gerações há muitos séculos. E como não poderia deixar de ser, a ousadia do cineasta australiano encontrou tanto admiradores apaixonados quanto detratores ferrenhos.

Não é de admirar que os puristas tenham se chocado com a coragem de Luhrmann (diretor do divertidamente brega "Vem dançar comigo"): apesar de manter o texto de Shakespeare intacto, ele substituiu espadas por armas de grosso calibre, transformou Mercúcio em uma drag-queen negra, apresenta um padre Lourenço tatuado e, no primeiro encontro do casal de protagonistas, o herói (vivido por um Leonardo DiCaprio em vias de tornar-se coqueluche mundial graças à "Titanic") está sob o efeito de ecstasy. Somadas a uma edição alucinante, um desenho de som que atinge os mais altos decibéis e uma direção de arte que eleva o kitsch a um status de arte (algo que Luhrmann já havia feito antes, e atingiria seu ápice em "Moulin Rouge" cinco anos depois), essas "transgressões" do cineasta australiano fizeram de "Romeu + Julieta" um dos filmes mais comentados do início da segunda metade da década de 90.

Para quem não sabe do que se trata - ou seja, quem não esteve no planeta Terra nos últimos quatrocentos anos - "Romeu + Julieta" (assim mesmo, com um sinal de adição ao invés do tradicional '&') conta a trágica história de amor proibida entre Romeu Montéquio (Leonardo DiCaprio) e Julieta Capuleto (a ótima Claire Danes). Herdeiros únicos de duas famílias cuja inimizade já vem de longa data - e que se transmite aos agredados dos clãs - eles se conhecem e se apaixonam durante uma festa à fantasia na Mansão Capuleto. Cientes dos problemas que seu romance irá enfrentar, o jovem casal conta com a ajuda do Frei Lourenço (Pete Postletwhaite), que acredita que o nascente amor poderá finalmente trazer paz à cidade de Verona (aqui transposta da Itália para uma praia ao estilo Miami). Mas as coisas saem do controle quando um primo de Julieta, Teobaldo (John Leguizamo) mata Mercúcio (Harold Perrineau Jr., da série "Lost"), melhor amigo de Romeu, o que precipitará uma tragédia de grandes proporções.


Quem espera ver na versão de Baz Luhrmann a delicadeza lírica da idealizada por Franco Zefirelli em 1968 certamente levará um susto. Na concepção anos 90 da história do bardo não há espaço para tempos mortos e até mesmo os belíssimos diálogos românticos entre os protagonistas são declamados de uma forma que soa nova, moderna e jamais vista. A famosa cena do balcão, por exemplo, tem lugar na piscina da casa de Julieta, filmada com precisão por Lurhmann e seu diretor de fotografia Donald McAlpine, aqui realizando um trabalho excepcional que explora a luz natural com sensibilidade ímpar: o auge do amor entre Romeu e Julieta é colorido, romântico, com belos crepúsculos, mas quando a desgraça se aproxima é a chuva agressiva e a noite mais negra que tomam seu lugar. E na dolorosa cena final é impressionante a soma perfeita entre o cenário ultra-colorido, a fotografia sóbria, a trilha sonora delicada de Neellee Hooper e as interpretações perfeitas do casal central. A química entre DiCaprio e Claire Danes (saindo da série de TV "Minha vida de cão") é tão sensacional que dá pra perdoar facilmente os momentos iniciais do filme, tão rápidos e barulhentos que talvez incomodem o público mais tradicional - e vale lembrar que Natalie Portman quase ficou com o papel de Julieta, só sendo substituída por Danes porque é baixinha demais perto de seu galã, o que, segundo a produção, poderia soar como pedofilia...

Mesmo com seus pequenos defeitos - mais culpa do estilo exagerado de seu diretor do que por falta de talento ou ambição - "Romeu + Julieta" cumpre tudo o que promete: é comovente, é moderno, tem uma trilha sonora espetacular - o filme se encerra com a magnífica "Exit music (for a film), do grupo inglês Radiohead - e preparou Leonardo DiCaprio para o megaestrelato que viria muito a seguir. Um drama romântico indispensável"

quarta-feira

O PAGAMENTO FINAL

O PAGAMENTO FINAL (Carlito's way, 1993, Universal Pictures, 144min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: David Koepp, romances "Carlito's way" e "After Hours", de Edwin Torres. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Kristina Boden, Bill Pankow. Música: Patrick Doyle. Figurino: Aude Bronson-Howard. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/Leslie A. Pope. Casting: Bonnie Timmermann. Produção executiva: Ortwin Freyermuth, Louis A. Stroller. Produção: Willi Baer, Martin Bregman, Michael S. Bregman. Elenco: Al Pacino, Penelope Ann Miller, Sean Penn, John Leguizamo, Viggo Mortensen, Luis Guzman, James Rebhorn. Estreia: 10/11/93

2 indicações ao Golden Globe: Ator Coadjuvante (Sean Penn), Atriz Coadjuvante (Penelope Ann Miller)

Dez anos separam "Scarface" de "O pagamento final". Nesse meio-tempo, Brian DePalma conheceu a frieza da crítica com os fracassados "A fogueira das vaidades" e "Síndrome de Caim", enquanto Al Pacino se afastava do cinema e retornava em grande estilo, chegando a ganhar seu merecido Oscar, por "Perfume de mulher". O reencontro de diretor e ator não poderia ter chegado em melhor hora. E não poderia ter sido mais bem-sucedido. Ainda que a bilheteria não tenha correspondido à altura, "O pagamento final" é um dos melhores policiais dos anos 90. Novamente reunidos pelo produtor Martin Bregman, DePalma e Pacino demonstram uma maturidade muito bem-vinda ao contar uma trágica história sobre a força do ambiente sobre os indivíduos.

Baseado em dois romances do Juiz Edwin Torres - que os escreveu inspirado em suas lembranças do Brooklyn nova-iorquino - "O pagamento final" começa em 1975, quando o porto-riquenho Carlito Brigante (Al Pacino, excelente) é libertado da cadeia depois de manobras de seu ambicioso advogado David Kleinfeld (um irreconhecível e estupendo Sean Penn). Poupado de permanecer 15 anos preso, Brigante deve sua liberdade ao jovem e um tanto corrupto advogado, mas ao voltar às ruas onde cresceu, decide afastar-se da vida do crime. Assumindo a sociedade de uma boate, ele resiste bravamente a todas as ofertas de negócios escusos, dedicando-se a guardar dinheiro suficiente para ir embora para um paraíso tropical ao lado da mulher que ama, a dançarina Gail (Penelope Ann Miller). Porém, quando, por dívida moral, ele aceita ajudar Kleinfeld em uma manobra perigosa para tirar um assassino da cadeia, ele vê todo seu esforço em seguir uma vida honesta correr sérios riscos. Traído por todos em quem confia, só resta a ele mais uma vez apelar para a violência.

O Carlito Brigante criado por Al Pacino tem ecos gritantes com seu Michael Corleone. Ambos sofrem de paranoia justificada - assim como Tony Montana, de "Scarface" - e ambos tentam infrutiveramente escapar de um destino trágico e sangrento. Mas enquanto Corleone jamais suja suas mãos, Brigante vai à luta por si mesmo, empunhando armas e literalmente correndo para sobreviver. Enquanto Corleone tem poderes que se estendem ao Vaticano e a Wall Street, Brigante esconde seu suado dinheiro em um cofre da boate que comanda. Enquanto Corleone é incapaz de amar verdadeiramente uma mulher, Brigante é apaixonado por Gail acima de tudo. E mais importante: enquanto Michael Corleone sabe muito bem com quem está lidando, Brigante tem - apesar de sua malandragem de calçada - uma certa ingenuidade e um rígido padrão ético, apesar disso não o impedir de vingar-se quando estritamente necessário.

Menos propenso a movimentos mirabolantes de câmera - que fizeram sua fama no início da carreira - DePalma orquestra, em "O pagamento final" uma de suas mais afinadas sinfonias. Inteligentemente, o cineasta proporciona pequenas doses de suspense no decorrer do filme - o primeiro tiroteio é um exemplo bem acabado dessa afirmação - enquanto acompanha sem pressa o caminho do protagonista a seu destino. Nesse caminho, Carlito Brigante trava contato com antigos comparsas (um deles vivido por Viggo Mortensen em início de carreira), pequenos contraventores e ambiciosos criminosos (entre eles, o sinistro "Benny Blanco, from the Bronx", interpretado magistralmente por John Leguizamo). Nenhum deles, no entanto, mais perigoso do que seu advogado de confiança.



Personificado com maestria por um Sean Penn começando uma caminhada rumo ao respeito absoluto da crítica e do público, David Kleinfeld é uma das personagens mais fascinantes do filme - repleto de bons papéis. Viciado em cocaína, corrupto, covarde e sem o menor senso de ética ou moral, ele não é exatamente um retrato agradável da profissão de advogado, mas na pele de Penn é impossível não ter compaixão em seus momentos de puro desespero. Fisicamente irreconhecível, o ator - injustamente esquecido pelo Oscar de coadjuvante - tem a personagem que move o filme, empurrando todo mundo em direção ao clímax espetacular imaginado pelo roteiro de David Koepp e filmado com precisão cirúrgica por De Palma.

Assim como "Os intocáveis" tem no tiroteio na estação de trens sua sequência mais lembrada e comemorada - aliás, chupada do clássico "Encouraçado Potenkim", de Sergei Eisenstein - os vinte minutos finais de "O pagamento final" são de figurar em qualquer antologia de cinema. Fugindo dos mafiosos que querem sua cabeça - por motivos que não convém contar para não estragar o prazer de quem ainda (imperdoavelmente) não assistiu ao filme - Brigante foge em direção à estação central de NY para embarcar com Gail em uma viagem sem volta. Sua fuga - tensa, angustiante e magnificamente editada - mantém o espectador grudado na poltrona até seus últimos momentos, quando tudo faz um sentido avassalador.

"O pagamento final" é um filme que merece ser redescoberto. Maltratado pela crítica à época de sua estreia, se mantém com um frescor e uma força até os dias de hoje, além de contar com um Al Pacino no auge de sua forma como ator e personalidade. E, por mais intenso que "Scarface" seja, ele consegue ser ainda melhor.

PECADOS DE GUERRA

PECADOS DE GUERRA (Casualties of war, 1989, Columbia Pictures, 121min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: David Rabe, livro de Daniel Lang. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Bill Pankow. Música: Ennio Morricone. Figurino: Richard Bruno. Direção de arte/cenários: Wolf Kroeger/Peter Hancock, Hugh Scaife. Casting: Lynn Stalmaster. Produção: Art Linson. Elenco: Michael J. Fox, Sean Penn, John C. Reilly, John Leguizamo, Don Harvey, Thuy Thu Le. Estreia: 18/8/89

Depois da chuva de Oscar e do sucesso de crítica e bilheteria de "Platoon", Hollywood abriu de vez as portas a filmes versando sobre o Vietnã, um tema até então tabu entre os estúdios - ainda que "O franco-atirador" e "Apocalypse now" tenham tido seu quinhão de prestígio. No mesmo ano em que o mesmo Oliver Stone de "Platoon" mostrou outro ângulo do conflito no contundente "Nascido em 4 de julho", outro cineasta de primeiro time embarcou na tendência. Ainda no embalo do merecido sucesso de "Os intocáveis", Brian DePalma comandou "Pecados de guerra", uma história real de crueldade e violência que, apesar de não fazer o devido barulho junto às cerimônias de premiação - nem tampouco nas caixas registradoras - é forte o bastante para ser considerada um dos pontos altos de sua carreira irregular.

No ar nos EUA como um dos protagonistas da série "Caras e caretas" e marcado como o adolescente Marty McFly dos filmes "De volta para o futuro", Michael J. Fox, tentou, em "Pecados de guerra" provar que não era um ator tão limitado quanto seus detratores alegavam (e Sean Penn, seu colega de elenco, utilizava dessas críticas nos bastidores, para provocar reações mais intensas na sua relação no filme, incentivado pelo diretor). Fox vive o jovem soldado Eriksson, mais um entre os milhares de americanos que foram lutar por seu país na guerra do Vietnã. Ético, pacífico e honrado, ele testemunha horrorizado as atrocidades que o conflito desperta na humanidade, tentando compreender o que acontece à sua volta. Sua indignação chega a extremos, no entanto, quando, liderados por um colega de pelotão, o sádico Meserve (Sean Penn), um grupo de soldados sequestra, estupra e mata uma jovem camponesa. Chocado, ele resolve levar a questão a instâncias superiores, mas esbarra na indiferença que norteia os crimes cometidos em nome da paz.



Deixando de lado os movimentos estonteantes de câmera que caracterizaram seus primeiros trabalhos, DePalma atinge, em "Pecados de guerra" um outro nível em sua obra. Confiando na força da história, das personagens e da mensagem pacifista como um todo, o homem que legou ao gênero suspense filmes como "Carrie, a estranha" e "Doublé de corpo" concentra-se mais em criar o clima de desesperança e angústia dos soldados envolvidos no incidente do que em uma edição picotada ou uma violência exarcebada. Apesar de tratar-se de um filme de guerra, o sangue que corre na história de Eriksson não é o sangue de soldados em batalha e sim de civis, de gente inocente vitimizada por um horror sem fim. Sintomaticamente, a cena mais sanguinolenta do filme é a morte estúpida da jovem raptada por Meserve e cia - que tem lugar justamente fora do front propriamente dito.

E em mais um reflexo de sua intenção primordial de escorar sua obra em pessoas reais e não em efeitos de fotografia, DePalma escolheu um elenco não apenas adequado, e sim extremamente inteligente. Se Michael J. Fox sai-se muito bem na pele do atarantado Eriksson, fugindo com competência da persona adolescente forjada por seus papéis mais famosos, seu elenco coadjuvante não fica atrás. John C. Reilly - estreando no cinema - e John Leguizamo - alguns anos antes de seu assustador "Benny Blanco from the Bronx", do filme "O pagamento final", também de DePalma - seguram bem a barra de servir de escada para o duelo entre o protagonista e o "vilão", interpretado por um já sensacional Sean Penn.

Ainda no início de sua carreira - e já dono de uma personalidade forte como intérprete - Penn assusta e fascina como o insensível Meserve, um rapaz transformado em quase-animal que vê na possibilidade de cometer atrocidades e ser perdoado por elas uma forma de legitimar sua falta de humanidade - ele é uma espécie de retrato de uma juventude inconsequente e cruel, vista com complacência por uma sociedade deturpada por valores morais e éticos equivocados.

Ao questionar não apenas a guerra em si mas também as engrenagens que levam humanos a tornarem-se armas beligerantes e amorais diante de situações extremas, "Pecados de guerra" merece ser louvado e admirado.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...