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domingo

O OUTRO LADO DA NOBREZA


O OUTRO LADO DA NOBREZA (Restoration, 1995, Miramax Films, 117min) Direção: Michael Hoffman. Roteiro: Rupert Walters, romance de Rose Tremain. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Garth Craven. Música: James Newton Howard. Figurino: James Acheson. Direção de arte/cenários: Eugenio Zanetti. Produção executiva: Kip Hagopian. Produção: Sarah Black, Cary Brokaw, Andy Paterson. Elenco: Robert Downey Jr., Sam Neill, Meg Ryan, David Thewlis, Ian McKellen, Polly Walker, Hugh Grant. Estreia: 29/12/95

Vencedor de 2 Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários

De todas as performances cinematográficas de Robert Downey Jr. - de Charles Chaplin ao Homem de Ferro, passando por comédias românticas, filmes de ação e a sensacional performance cômica indicada ao Oscar de coadjuvante em "Trovão tropical" (2008) - nenhuma é mais exuberante que Robert Merivel, o protagonista de "O outro lado da nobreza". Lançada em 1995, um dos anos mais produtivos da carreira do ator, e praticamente esquecido entre sua filmografia, a adaptação do romance de Rose Tremain chegou a ganhar dois Oscar (figurino e direção de arte) e contava com um elenco de nomes conhecidos do grande público - Hugh Grant, Meg Ryan, Sam Neill. Porém, com uma direção burocrática de Michael Hoffman e um roteiro que não consegue escapar da superficialidade, passou quase em branco pelo público e tampouco entusiasmou a crítica. E em comparação com seus trabalhos mais aplaudidos, o desempenho de Downey Jr. parece um tanto perdido, tentando encontrar o foco em um filme que tenta abraçar vários temas sem aprofundar-se a contento em nenhum deles.

Michael Hoffman não é um cineasta dos mais geniais, sempre apresentando produções no máximo simpáticas - como se pode afirmar depois de filmes como "Segredos de uma novela" (1991), "Um dia especial" (1996) e sua adaptação de "Sonho de uma noite de verão" (1999). Em "O outro lado da nobreza" não é diferente. Apesar do capricho na ambientação e da nítida ambição de criar uma obra relevante, Hoffman não consegue imprimir o tom de seriedade necessário para dar à trama, que retrata um dos períodos mais nefastos da História como forma de purgação e amadurecimento para o protagonista. O arco dramático soa bastante artificial e apressado, a despeito de atravessar anos e precipitar acontecimentos catalisadores que, da forma como apresentados, jamais transmitem o grau de importância que terão no desfecho da história. O roteiro de Rupert Walters tenta, em pouco menos de duas horas, estabelecer relações cruciais - mas esbarra em uma pressa que prejudica o envolvimento do espectador. Some-se a isso a personalidade hesitante de Robert Merivel - um bon vivant irresponsável que parece nunca estar completamente dedicado aos acontecimentos a seu redor - e o filme falha em sua principal pretensão: emocionar. 

 

A trama começa quando, em 1663, o estudante de Medicina Robert Merivel é chamado à corte do Rei Charles II (Sam Neill) para tratar de um de seus cachorrinhos preferidos. O jovem aspirante a médico salva a vida do animalzinho e cai nas graças do monarca, tornando-se parte de sua corte e deslumbrando-se com as vantagens de sua nova posição. As coisas começam a mudar quando o rei ordena que Merivel se case com a sensual Celia (Polly Walker), sua amante, para agradar outra de suas conquistas amorosas. As advertências de Charles para que o médico não se apaixone por sua esposa de mentirinha caem no vácuo, e, descoberto em seus sentimentos, Merivel se vê diante da vida que abandonara e, sem saber saber que rumo tomar, ele retoma a amizade com Pearce (David Thewliss) - um colega de faculdade que sempre pautou sua vida pela ética profissional. Nesse momento, a Peste Negra começa a espalhar-se pela Europa - e Merivel volta a ter seu caminho cruzado com o Rei e Celia depois de ter experimentado uma nova paixão com Katharine (Meg Ryan), uma jovem tratada como mentalmente insana e que lhe fez redescobrir as coisas boas da vida.

A trajetória de Merivel é plenamente compreensível, e seu amadurecimento é, apesar dos problemas de roteiro e direção, soam verossímeis. O problema é que "O outro lado da nobreza" parece tão deslumbrado por sua impecável reconstituição de época que esquece de dar atenção a elementos cruciais em uma narrativa. Atores como Hugh Grant e Ian McKellen são deixados de lado com personagens mal desenvolvidos, e a química inexistente entre Robert Downey Jr. e Meg Ryan também não ajuda a deixar as coisas menos complicadas. O filme de Michael Hoffman não é um filme ruim, mas tampouco é memorável a ponto de fazer diferença nas carreiras dos envolvidos. Pode agradar aos menos exigentes - mas dificilmente se tornará um favorito.

quarta-feira

O AGENTE DA U.N.C.L.E.

O AGENTE DA U.N.C.L.E. (The man from U.N.C.L.E., 2015, Warner Bros, 116min) Direção: Guy Ritchie. Roteiro: Guy Ritchie, Lionel Wigram, estória de Jeff Kleeman, David Campbell Scott, Guy Ritchie, Lionel Wigram, série de televisão de Sam Rolfe. Fotografia: John Mathieson. Montagem: James Herbert. Música: Daniel Pemberton. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Oliver Scholl/Eli Griff. Produção executiva: David Dobkin, Steven Mnuchin. Produção: Steve Clark-Hall, John Davis, Guy Ritchie, Lionel Wigram. Elenco: Armie Hammer, Henry Cavill, Alicia Vikander, Hugh Grant, Elizabeth Debicki, Sylvester Groth, Jared Harris. Estreia: 02/8/15 (Barcelona)

Quando finalmente a versão para o cinema da série televisiva "O agente da U.N.C.L.E." estreou nos EUA, no verão de 2015, já fazia mais de uma década que seu estúdio, a Warner, vinha tentando aprovar o projeto. Mesmo quando um nome quente como o de Steven Soderbergh esteve vinculado à produção, parecia que tudo colaborava para que o filme não saísse. A desistência de George Clooney, por exemplo (e sua quase substituição pelo bem mais jovem Channing Tatum), foi um dos fatores que afastaram o oscarizado diretor de assinar o contrato - assim como problemas relacionados ao orçamento (de cerca de 75 milhões de dólares) e à escalação de um elenco que funcionasse tanto comercial quanto artisticamente. A entrada de Guy Ritchie no time - um cineasta de personalidade, mas com facilidade em adaptar-se às circunstâncias exigidas pelo mercado - finalmente fez com que as coisas saíssem do lugar. Com o filme pronto (e com a assinatura visual de Ritchie em cada sequência), fica difícil imaginar como seria a visão de Soderbergh da trama - certamente mais cerebral e mais perto de "Onze homens e um segredo" -, mas é fato que, como ficou, "O agente da U.N.C.L.E." é uma divertidíssima e elegante comédia de ação, infelizmente não tão bem-sucedida quanto deveria.

Longe de ter sido um fiasco nas bilheterias, "O agente da U.N.C.L.E." tampouco chegou a ser o estouro que a Warner esperava - rendeu pouco mais de 100 milhões de dólares pelo mundo, decepcionando os executivos que sonhavam com uma nova franquia milionária. O erro, no entanto, está menos no filme - um perfeito exercício de entretenimento descompromissado - do que no fato de que a série, lançada em 1964, é bem menos popular, por exemplo, do que "Missão: impossível" (cujo "Nação secreta" também estreou em 2015, com mais sucesso), e no erro de cálculo de colocar o filme nos cinemas justamente em uma temporada recheada de outras produções que lidavam com espionagem e temas afins. Entre personagens já comprovadamente aceitos pelas plateias - "007 contra Spectre" - e filmes com ambições mais sérias - "O jogo da imitação" e "Sicário" -, o trabalho de Ritchie acabou comprimido entre tantas opções consideradas mais relevantes. Azar de quem perdeu: esteticamente caprichado (da fotografia de John Mathieson até a reconstituição de época criativa e não necessariamente realista), dotado de um ritmo e um senso de humor inteligente e com um elenco perfeitamente escalado, "O agente da U.N.C.L.E." é um produto que consegue aliar a personalidade marcante de seu diretor com as regras estabelecidas pelo cinemão comercial hollywoodiano. Casando com perfeição suas tendências iconoclastas com os clichês dos filmes de ação, Guy Ritchie consegue ser mais bem-sucedido até mesmo do que em seus maiores êxitos financeiros até então - os dois filmes "Sherlock Holmes", estrelados por Robert Downey Jr. e Jude Law.


A ideia de Ritchie de contar a história do começo da U.N.C.L.E. (United Network Command for Law and Enforcement), nunca retratada na série de televisão, é o primeiro acerto do roteiro. No programa da década de 60, agentes da CIA e da KGB já uniam esforços mesmo em plena Guerra Fria, mas nunca foi explicado como essa aliança tão inusitada se formou. A partir daí, Ritchie juntou-se ao coprodutor Lionel Wigram e, assumindo a responsabilidade de dar vida a uma trama que mesclasse a mitologia da série (afinal os fãs seriam parte do público-alvo) e momentos de ação e comédia, explorando o estilo do cineasta e a receita de boa parte dos filmes com ambição ao sucesso. Surgia, então, um intrincado enredo que colocava no mesmo balaio um agente norte-americano, um espião soviético, um cientista capaz de criar uma bomba atômica e sua bela e voluntariosa filha mecânica - claro que uma pitada de romance não poderia faltar, especialmente quando se tenta também atingir um público feminino que há muito não aceita mais ser representado na tela por donzelas desprotegidas. O agente americano, Napoleon Solo (Henry Cavill, o Superman de Zack Snyder em pessoa) é um ex-criminoso cooptado pela CIA para usar seus talentos para o bem da sociedade: ele é enviado à Alemanha Ocidental para encontrar Gaby Teller (Alicia Vikander, antes do Oscar por "A garota dinamarquesa" e em papel oferecido à Emily Blunt), a filha de um cientista com conhecimento suficiente para dar início à confecção de uma bomba nuclear. Segundo a agência, somente Gaby pode levá-los até seu pai, desaparecido mas provavelmente em contato com seu irmão, que vive na Itália. Para colaborar na operação, a KGB oferece os serviços de Illya Kuryakin (Armie Hammer), cuja personalidade volátil e imprevisível contrasta com os modos suaves de Solo. Juntos, os três irão deixar de lado suas diferenças e tentar impedir que o pior aconteça - e empresários ambiciosos consigam financiar uma guerra nuclear.

Com cenas de ação milimetricamente calculadas, piadas engraçadíssimas a respeito das diferenças culturais entre americanos e russos e um visual arrebatador, "O agente da U.N.C.L.E." é uma diversão das mais admiráveis. Mesmo que a trama por vezes escorregue em uma complexidade desnecessária (o que, aliás, deve ser proposital, como forma de homenagear os filmes de James Bond), é impossível desgostar do resultado final. A química entre Cavill e Hammer é irretocável, e Alicia Vikander oferece o charme e a sutileza que o filme precisa. Por ironia, Cavill fez teste para viver Kuryakin, mas dificilmente outro ator estaria mais à vontade como Napoleon Solo do que ele - e olha que muita gente foi considerada para o papel, desde Joseph Gordon-Levitt, Ryan Gosling e Chris Pine até os mais experientes Matt Damon, Michael Fassbender e Ewan McGregor. Já Armie Hammer, aplaudido pela crítica graças a trabalhos mais sérios, como "A rede social" (2010) e "J. Edgar" (2012), demonstra um precioso timing cômico, que abre ainda mais possibilidades em sua carreira abalada pelo tenebroso "O Cavaleiro Solitário" (2013). Juntos, os dois atores formam um par carismático e sedutor, algo como Butch Cassidy e Sundance Kid da Guerra Fria. Quanto à direção de Guy Ritchie, nada a reclamar. Tudo que ele tem de melhor está em cena - o humor, a edição ágil, o ritmo, o talento para direção de atores - e revestido com uma sofisticação nunca vista até então. Uma pena que nem todo mundo valorizou o produto final, que ainda há de ser descoberto como uma pequena pérola de sua época.

quinta-feira

FLORENCE: QUEM É ESSA MULHER?

FLORENCE: QUEM É ESSA MULHER? (Florence Foster Jenkins, 2016, Qwerthy Films/Pathé Pictures International/BBC Films, 111min) Direção: Stephen Frears. Roteiro: Nicholas Martin. Fotografia: Danny Cohen. Montagem: Valerio Bonelli. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Consolata Boyle. Direção de arte/cenários: Alan MacDonald/Caroline Smith. Produção executiva: Christine Langan, Cameron McCracken, Malcolm Ritchie. Produção: Michael Kuhn, Tracey Seaward. Elenco: Meryl Streep, Hugh Grant, Simon Helberg, Rebecca Ferguson, Nina Arianda, Stanley Townsend. Estreia: 23/4/16 (Festival de Belfast)

2 indicações ao Oscar: Atriz (Meryl Streep), Figurino

Em 1994, o cineasta Tim Burton retratou, em seu sublime "Ed Wood", a história de um diretor de cinema cuja paixão pela arte era tamanha que o impedia de perceber a absoluta falta de qualidade de seus filmes - e que, após a sua morte, passou a ser considerado unanimemente como "o pior diretor da história do cinema". A história de Florence Foster Jenkins - socialite nova-iorquina que virou tema de uma produção do inglês Stephen Frears - pode não ser exatamente igual, por questões econômicas, sociais e pela diferença no objeto da paixão, mas tem suas similaridades. Incapaz de perceber a si mesma como uma péssima cantora lírica (sendo que péssima, no caso, é eufemismo), Jenkins usava seu dinheiro para financiar compositores e saraus em uma Nova York ainda sofrendo com a II Guerra Mundial - e, de quebra, se autopromovia em pequenas apresentações e até mesmo em disco. Objeto de adoração por amigos e de deboche quase explícito por quem a conhecia somente através de seu suposto dom, ela chegou a lotar o Carnegie Hall, em um show para o qual distribuiu mil convites para soldados americanos. A música era seu grande amor - assim como o marido mais jovem, St. Clair Bayfield - e essa relação íntima e feliz é o tema de "Florence: quem é essa mulher?", comédia dramática que rendeu à Meryl Streep a vigésima indicação ao Oscar de sua carreira, uma marca impressionante que não comprova apenas seu imenso talento mas também o prestígio gigantesco dentro da indústria hollywoodiana.

Exercitando sua veia cômica ao mesmo tempo em que encontra o tom dramático certo para os momentos mais emocionantes de sua personagem, Streep faz uso também de seu vasto carisma para compor uma Florence que transita sem descanso entre o naturalismo e a quase caricatura. Esse equilíbrio - que já vem no roteiro fluido de Nicholas Martin - esbarra apenas na direção um tanto pesada de Stephen Frears. Veterano com duas indicações ao Oscar no currículo - por "Os imorais" (1990) e "A rainha" (2006) - e eclético por natureza, a ponto de adaptar escritores tão díspares quanto Chorderlos de Laclos (em "Ligações perigosas", de 1988) e Nick Hornby (em "Alta fidelidade", de 2000), Frears parece não saber exatamente se prefere imprimir um tom de pastiche à trajetória da protagonista ou concentrar-se em seus dramas particulares (como a sífilis adquirida no primeiro casamento e a relação aberta com o segundo marido). Essa dubiedade - talvez proposital - acaba por dificultar uma entrega completa do público, que gargalha facilmente com o timing cômico perfeito de Streep mas estranha quando a trama escorrega, sem aviso prévio, para o dramalhão. Sorte que Frears sabe escolher seus colaboradores como ninguém, e "Florence: quem é essa mulher?" é exemplar em cada um de seus quesitos.


A reconstituição de época - dos cenários sofisticados ao figurino de Consolata Boyle, copiado das extravagantes roupas da personagem-título, também indicado ao Oscar - é primorosa: a Nova York dos anos 40 é retratada com riqueza de detalhes e um requinte que poderia tranquilamente uma outra nomeação à estatueta dourada. A trilha sonora de Alexandre Desplat faz-se notar apenas quando necessário, deixando que as óperas amadas por Florence ilustrem com mais frequência sua trajetória. E a fotografia acinzentada sublinha a opressão dos anos de guerra, situando a narrativa em um período histórico bastante específico, em que nem mesmo a beleza da música e da arte eram suficientes para fazer esquecer o sangrento conflito na Europa. A atmosfera de festa da alta sociedade em que circula Florence e seus amigos contrasta com a dureza do front - que só chega até eles pelo rádio e pela presença constante de soldados (objetos de admiração e caridade por parte da socialite, que nem por isso deixava de ser alvo de seus comentários debochados). O clímax do filme - o concerto de Florence no Carnegie Hall - é representativo: estão na plateia a alta sociedade nova-iorquina, celebridades (a atriz Tallulah Bankhead, o compositor Cole Porter) e o povo (representado pelos soldados), e no palco, a diva de meia-idade sem noção de sua falta de talento e seu fiel escudeiro, o desajeitado porém competente Cosmé McMoon (Simon Helberg, da série "The Big Bang Theory", e indicado ao Golden Globe de ator coadjuvante). É um encontro e tanto, resumido na declaração da vulgar e emergente Agnes Stark (Nina Arianda): "Não riam! Ela está cantando com o coração!".

Essa grande mensagem do filme - a de que a paixão e o amor podem ser mais importantes que o talento e a afinação - é que faz de "Florence" uma obra tão simpática e calorosa (apesar de estar longe de ser um dos melhores trabalhos de seu diretor). É difícil não se deixar conquistar pela personagem principal, por sua química com o marido adúltero porém carinhoso (que marcou a volta de Hugh Grant ao cinema e lhe rendeu uma indicação ao Golden Globe) e sua relação com o novato Cosmé, a princípio abismado com o fato de ninguém falar a verdade à sua nova patroa mas logo envolvido por seu sentimento de absoluta devoção à música. A interrelação entre os três personagens centrais é o que há de melhor no filme de Stephen Frears - uma conexão impecável que o torna agradável e encantador a ponto de ter seus pecadilhos deixados de lado. Um belo e descompromissado entretenimento!

A VIAGEM

A VIAGEM (Cloud Atlas, 2012, Cloud Atlas Productions/X-Filme Creative Pool, 172min) Direção: Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski. Roteiro: Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski, romance de David Mitchell. Fotografia: Frank Grieber, John Toll. Montagem: Alexander Berner. Música: Reinhold Heil, Johnny Klimek, Tom Tykwer. Figurino: Kym Barrett, Pierre-Yves Gayraud. Direção de arte/cenários: Hugh Bateup, Uli Hanisch/Rebecca Alleway, Peter Walpole. Produção executiva: John Chong, Caroline Kwauk, Philip Lee, Wilson Qiu, Uwe Schott, Pearry Reginald Teo, Ricky Tse. Produção: Stefan Arndt, Alex Boden, Grant Hill, Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski. Elenco: Tom Hanks, Susan Sarandon, Halle Berry, Hugh Grant, Jim Broadbent, Jim Sturgess, Hugo Weaving, Ben Winshaw, Doona Bae, James D'Arcy, Xun Zhou. Estreia: 08/9/12 (Festival de Toronto)

Se um filme é rejeitado enfaticamente por um pretenso crítico como Rubens Ewald Filho - uma das maiores fraudes do jornalismo cultural já forjadas na imprensa nacional - isso provavelmente quer dizer que a obra é, no mínimo, interessante e digna de atenção. Sendo assim, é obrigatório que se deixe o preconceito e qualquer tipo de expectativa de lado para conferir "A viagem" - título nacional inapropriado para o intraduzível "Cloud Atlas" - mais um passo dos irmãos Wachowski em sua missão de sacudir a mesmice do cinema internacional, como fizeram com "Matrix" em 1999. Dessa vez contando com a co-direção do alemão Tom Tykwer (do criativo "Corra Lola, corra"), eles adaptaram o difícil romance de David Mitchell em um filme tecnicamente perfeito que, se não chega a ser emocionalmente brilhante devido à sua natureza episódica, é um dos mais ousados produtos cinematográficos dos últimos anos, voltando a tocar (de forma poética e sensível) em temas caros aos cineastas, como filosofia, destino e livre-arbítrio - que eles voltaram a usar como tema na série de TV "Sense8", lançada em 2015 com grande sucesso.

O complexo roteiro - escrito pelos irmãos e por Tykwer - conta seis histórias simultaneamente, ainda que elas aconteçam em períodos de tempo e espaço díspares. A espetacular edição - a cargo de Alexander Berner, cujo melhor filme do currículo é a adaptação para as telas do bestseller "O perfume" - costura as tramas de forma envolvente, sublinhando as semelhanças e coincidências entre elas para explicitar ao espectador que todas elas, no fundo, formam um grande e abrangente panorama humano e social. Segundo a teoria do filme - que de certa forma evoca muitos ensinamentos da doutrina espírita - tudo que se faz em uma vida ecoa para a eternidade, afetando mesmo que indiretamente outras pessoas (e também fica claro que as mesmas pessoas, em sexos, classes sociais e épocas distintas convivem entre si, muitas vezes repetindo de forma inconsciente o que já fizeram em vidas passadas). É assim que um jovem advogado (vivido por Jim Sturgess) ajuda um escravo foragido no ano de 1849 e em 2144 um revolucionário japonês (também interpretado por Sturgess, dessa vez sob forte maquiagem) colabora com a fuga de uma ciborgue (Doona Bae) que será uma líder contra a opressão (alguém aí lembrou de "Matrix"?). E é seguindo essa linha de raciocínio que outras personagens e histórias são apresentadas ao público, utilizando o mesmo elenco em todas elas, muitas vezes de forma irreconhecível: Tom Hanks, Halle Berry, Hugh Grant, Susan Sarandon, Jim Broadbent, Hugo Weaving e Ben Winshaw surgem diante da plateia com os mais variados visuais e papeis, escondidos frequentemente por trás de uma maquiagem nunca menos que brilhante (e injustamente esquecida pelo Oscar). O elo entre as personagens às vezes é óbvio, em outras nem tanto - e uma marca na pele, em forma de estrela cadente, os une inexoravelmente.



Ambicioso e por vezes quase megalomaníaco, "A viagem" tem a seu favor a coragem de enfrentar de igual pra igual produções anabolizadas em forma e orçamento que sofrem com uma irreparável falta de conteúdo - e mesmo assim levam multidões às salas de cinema. Forçando o público a sair de sua passividade intelectual, logicamente se arriscou a pregar no deserto - e foi o que aconteceu, com uma bilheteria muito aquém da esperada e merecida. Enquanto filmes de super-heróis quebravam recorde em cima de recorde, o filme de Tykwer e dos Wachowski minguava, chegando a dividir as opiniões até mesmo daqueles que se arriscaram a uma sessão. Realmente não é um filme de fácil assimilação, e isso acaba por ser mais uma qualidade do que um defeito. Mesmo os detratores, porém, são obrigados a reconhecer que, apesar de alguns equívocos, a obra tem qualidades redentoras, como a espetacular trilha sonora e toda a técnica envolvida em criar mundos tão díspares e uní-los em uma única trama. Mesmo que o roteiro tente não complicar demais as coisas e dê pistas às vezes óbvias das ligações entre os personagens, os autores não subestimam a inteligência do público e é aí que seu maior mérito fica evidente: "A viagem" é um filme para adultos que gostam de pensar e ser tocados por uma história. Seus efeitos visuais, sua maquiagem, seus artifícios são apenas a ponte para um objetivo maior, que mesmo não sendo atingido em sua plenitude, sacode a inércia da audiência.

Pecando apenas por não dar ao público a chance de realmente conhecer a fundo as personagens e se importar de verdade com seus problemas - o que não impede que algumas histórias se sobressaiam dramaticamente a outras - "A viagem" requer paciência e a liberdade de embarcar rumo a uma experiência inebriante e rica. Não é um filme que agrada a todo mundo (em especial a resenhistas que julgam atores por seu visual e cultuam alucinadamente divas de uma Hollywood que não mais existe). Mas é corajoso e tem muito a dizer. Poucos filmes recentes podem se gabar disso.

sexta-feira

VESTÍGIOS DO DIA

VESTÍGIOS DO DIA (The remains of the day, 1993, Merchant Ivory Productions/Columbia Pictures Corporation, 134min) Direção: James Ivory. Roteiro: Ruth Prawer Jhabvala, romance de Kazuo Ishiguro. Fotografia: Tony Pierce-Roberts. Montagem: Andrew Marcus. Música: Richard Robbins Figurino: Jenny Beavan, John Bright. Direção de arte/cenários: Luciana Arrighi/Ian Whittaker. Produção executiva: Paul Bradley. Produção: John Calley, Ismail Merchant, Mike Nichols. Elenco: Anthony Hopkins, Emma Thompson, Christopher Reeve, James Fox, Ben Chaplin, Hugh Grant. Estreia: 05/11/93

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (James Ivory), Ator (Anthony Hopkins), Atriz (Emma Thompson), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Em 1992, o diretor James Ivory e os atores Anthony Hopkins e Emma Thompson trabalharam juntos em "Retorno a Howard's End", adaptação do romance de E.M. Forster que, a despeito dos elogios entusiasmados da crítica, dos inúmeros prêmios e do Oscar de melhor atriz, beirava a chatice extrema (uma verdade que os fãs do cineasta jamais irão reconhecer). Quando eles anunciaram que iriam se reencontrar nas telas em uma versão do livro "Vestígios do dia", de Kazuo Ishiguro, todo mundo ficou esperando mais do mesmo: um longo e entediante drama sobre a Inglaterra do passado feito para encantar a Academia mas capaz de causar irreparável sono na plateia. Ledo engano. Um avassalador estudo sobre paixões reprimidas, a dedicação obsessiva a um ofício, as transformações políticas de um mundo pré-guerra e um delicado romance platônico, o filme não só arrebatou oito merecidas indicações ao Oscar - saiu de mãos vazias da cerimônia porque bateu de frente com Steven Spielberg e seu "A lista de Schindler" - como derreteu o coração dos espectadores com sua maturidade e sutileza.

Tendo silêncios eloquentes, lágrimas contidas e suspiros abafados como coadjuvantes de uma história de amor reprimido, "Vestígios do dia" acompanha com delicadeza o nunca consumado amor entre dois leais e dedicados serviçais de um aristocrata britânico em um país em vias de embarcar na II Guerra Mundial. Mesclando com rara inteligência comentários políticos que indicam claramente as inclinações nazistas que levaram Lord Darlington (James Fox, ótimo) à decadência moral pós-conflito e o romance devastador entre os protagonistas, o roteiro de Ruth Prawer Jhabvala - colaboradora habitual do diretor - oferece material de sobra para o show de Hopkins e Thompson, em atuações cujo minimalismo é a principal qualidade. Não é preciso muito para que, juntos em cena, os dois atores transmitam uma imensidade de sentimentos apenas com o olhar. Ao público, resta se emocionar e aplaudir, se envolvendo sem reservas com dois personagens tão distantes e ao mesmo tempo tão próximos.


Narrado em flashback, "Vestígios do dia" começa na década de 50, décadas depois do auge da mansão Darlington Hall, de propriedade de um aristocrata inglês que viu nascer, em sua propriedade, a aliança europeia que apoiaria o social-nacionalismo alemão. Trabalhando para um milionário americano (Christopher Reeve), o copeiro Mr. Stevens (Anthony Hopkins) recebe uma carta escrita por uma antiga colega, Mrs. Kenton (Emma Thompson), que trabalhava como governanta e abandonou o emprego para casar-se. No caminho para reencontrar-se com ela, o dedicado empregado relembra sua trajetória profissional e sua dedicação cega a seu patrão - uma lealdade e uma seriedade auto-imposta que o impediu até mesmo de chorar devidamente a morte de seu pai, com quem compartilhava a seriedade. Extremamente rígido em relação a seus deveres, Stevens presencia as mudanças políticas de seu país com a mesma atenção que dispensa à limpeza da prataria e à disposição correta dos talheres à mesa. Tal comportamento o impede de declarar o amor que sente por Kenton, também apaixonada, mas presa às convenções sociais. O amor platônico entre os dois é responsável por cenas de apertar o coração, como a famosa sequência em que a governanta descobre, através de um livro de poesias, que existe um coração por trás da séria fachada do mordomo.

Centrado basicamente nas emoções contidas de seus dois protagonistas - e tendo o período político anterior à II Guerra como um poderoso e apropriado pano de fundo - o melhor filme de James Ivory também se beneficia de uma produção caprichada, que emoldura com perfeição os dolorosos momentos por que passam os personagens. A reconstituição de época - tanto a direção de arte quanto o figurino também concorrem à estatueta dourada - e a trilha sonora adequada são elementos utilizados com extrema sobriedade pelo cineasta, ilustrando a passagem de tempo e as dores de um amor não consumado como poucas produções de sua época. "Retorno a Howard's End" continua sendo uma chatice. Mas "Vestígios do dia" compensa - e muito - todos os pecados anteriores de seu criador.

quarta-feira

LETRA E MÚSICA

LETRA E MÚSICA (Music and lyrics, 2007, Warner Bros, 106min) Direção e roteiro: Marc Lawrence. Fotografia: Xavier Perez Grobet. Montagem: Susan E. Morse. Música: Adam Schlesinger. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Jane Musky/Ellen Christiansen. Produção executiva: Bruce Berman, Hal Gaba, Nancy Juvonen. Produção: Liz Glotzer, Martin Shafer. Elenco: Hugh Grant, Drew Barrymore, Campbell Scott, Brad Garrett, Kristen Johnson, Haley Bennett, Matthew Morrison. Estreia: 14/02/07

Em 1998, Drew Barrymore estrelou, ao lado de Adam Sandler, a comédia romântica "Afinado no amor", que contava a história do romance entre um cantor de casamentos e uma garçonete nos cafoníssimos anos 80. Essa mesma década - que tornou-se novamente popular na entrada do século XXI - é o espírito de "Letra e música", mais um exemplar do gênero cinematográfico que fez a glória da ex-menininha de "ET". Apresentando uma química perfeita com Hugh Grant - divertidíssimo brincando com sua imagem de galã - ela acerta em cheio mais uma vez.

Dirigido por Marc Lawrence - que já havia dirigido Grant em "Amor à segunda vista" e ainda faria o tenebroso "Cadê os Morgan?" com o ator - "Letra e música" conquista simplesmente porque não oferece ao espectador mais do que pode. Lawrence escreveu uma história simples, romântica e engraçada, capaz de deixar o público com um sorriso doce no rosto. E o que os anos 80 tem a ver com isso? Basta dizer que logo de cara todo mundo já percebe: na pele de Alex Fletcher, o ator britânico surge dançando e cantando como um dos integrantes da previamente famosa banda de rock chamada Pop! - em um videoclipe sensacional que lembra nitidamente os trabalhos de grupos como Duran Duran. Quando o filme começa, Fletcher já não é mais tão popular e vive de shows em feiras e eventos, já que seu álbum solo foi um fiasco. Sua chance de escapar da decadência absoluta - na figura de um programa de auditório onde ele teria que lutar contra outras ex-celebridades - surge quando a jovem estrela da música adolescente Cora Corman (Haley Bennett incorporando Britney Spears em sua atuação) lhe pede uma canção que tenha como título "Way back into home". Paralisado pelo medo de não conseguir cumprir o contrato - quem fazia as letras de suas músicas era seu ex-parceiro e atual desafeto - ele acaba encontrando parceria em um lugar inesperado. A jovem Sophie Fisher (Drew Barrymore), hipocondríaca que cuida de suas plantas, se revela uma ótima letrista e os dois começam a trabalhar juntos. Não é preciso ser gênio para adivinhar o final da história.

Brincando sem medo com as referências culturais dos anos 80, Marc Lawrence criou uma comédia romântica que funciona às mil maravilhas. Mesmo que não tenha sido exatamente um estouro de bilheteria - rendeu pouco mais de 50 milhões de dólares - "Letra e música" consegue ser mais interessante do que seus congêneres por utilizar os clichês a seu favor. Ninguém tem dúvida de qual será o destino de seus protagonistas desde a visualização do cartaz, mas o roteiro expõe a relação entre eles de maneira tão natural e leve que fica difícil não gostar. Fazendo uma ligação orgânica entre o universo da música pop oitentista com a atual, o filme ainda tem um senso de humor impecável e inteligente, que não apela em momento algum para o escrachado ou o escatológico. Quando surge uma certa sensualidade - graças à Cora Corman - é apenas mais um meio de satirizar o estado das coisas na música americana atual.

Com uma trilha sonora deliciosa - cujas canções são realmente interpretadas por um Hugh Grant no cúmulo da canastrice proposital - e um elenco coadjuvante que apenas soma ao resultado final, "Letra e música" é uma sessão da tarde das mais inspiradas. Os anos 80 fazem bem à Drew Barrymore.

sexta-feira

SIMPLESMENTE AMOR

SIMPLESMENTE AMOR (Love actually, 2003, Universal Pictures, 135min) Direção e roteiro: Richard Curtis. Fotografia: Michael Coulter. Montagem: Nick Moore. Música: Craig Armstrong. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Jim Clay/Caroline Smith. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Duncan Kenworthy. Elenco: Hugh Grant, Emma Thompson, Liam Neeson, Colin Firth, Laura Linney, Alan Rickman, Bill Nighy, Lucia Moniz, Keira Knightley, Rodrigo Santoro, Martin Freeman, Andrew Lincoln, Chiwetel Ejiofor, Billy Bob Thornton, Heike Makatsch, Nina Sosanya. Estreia: 07/11/03

Definitivamente não dá pra não simpatizar com uma comédia romântica como “Simplesmente amor”. Ao contar diversas histórias de personagens das mais diversas classes sociais e culturais na Inglaterra – todas de amor, mas de inúmeros tipos de amor – o roteiro do diretor Richard Curtis atinge qualquer tipo de pessoa, seja essa pessoa fã de romance, comédia ou drama. E conta suas histórias com tanta simpatia e generosidade que o difícil é não querer ver e rever para emocionar-se a cada revisão com uma personagem diferente.

Trabalhando com um elenco predominantemente inglês, Curtis escolheu a dedo seus atores estrangeiros – e aí inclui-se o brasileiro Rodrigo Santoro, a americana Laura Linney, o irlandês Liam Neeson e a portuguesa Lucia Moniz – para traçar um painel de sentimentos e relações aparentemente ambicioso, mas que funciona como um relógio. Ao contrário dos dramas psicológicos intensos como os retratados em “Magnólia”, por exemplo, o objetivo do diretor é entreter e emocionar durante duas horas sem no entanto castigar a plateia com abuso sexual, alcoolismo, vício em drogas, etc.... A proposta de “Simplesmente amor” é encantar. E para isso não faltam trunfos.


       

“Simplesmente amor” começa poucas semanas antes do Natal e conta várias histórias. É perto do Natal que o novo Primeiro-Ministro (vivido por um divertido Hugh Grant) assume seu cargo e se apaixona por Natalie (Martine McCutcheon), a moça do cafezinho – um romance que o fará desafiar o todo-poderoso presidente americano (Billy Bob Thornton em participação especial). É pouco antes do Natal também que o astro decadente de rock Billy Mack (Bill Nighy roubando descaradamente a cena) começa a tentar sua volta às paradas de sucesso, regravando a clássica “Love is all around” com a letra modificada para acompanhar a data comemorativa. É também quando acontece o funeral da esposa de Daniel (Liam Neeson), que passa a ter que lidar com a viuvez e com o enteado, o pequeno Sam (Thomas Sangster), apaixonado por uma coleguinha de escola. Também é por essa época que o jovem Mark (Andrew Lincoln) entra em depressão por estar apaixonado pela bela Juliet (Keira Knightley), esposa do seu melhor amigo.
Se não fossem suficientes, a essas tramas outras se juntam aos poucos: é o caso do romance hesitante entre o escritor Jamie (Colin Firth) e sua empregada doméstica portuguesa Aurélia (Lucia Moniz); a crise no casamento de Karen (Emma Thompson) e Harry (Alan Rickman), causada pela secretária dele, Mia (Heike Makatasch); o início tímido do namoro entre a dedicada Sarah (Laura Linney) e seu colega de trabalho Karl (Rodrigo Santoro), atrapalhado pelas crises de saúde do irmão dela; a ilusão do jovem Colin (Kris Marshall) de que vai encontrar o amor nos EUA e o começo da relação entre dois dublês de filmes pornô.

Como já foi dito anteriormente, é difícil não se apaixonar por “Simplesmente amor”. Engraçado, terno, verdadeiro, sensível e de partir o coração, o roteiro de Richard Curtis encontra em seu elenco multi-estelar a encarnação perfeita de personagens carismáticos e extremamente humanos, capazes de atos enlouquecidos de amor, renúncia e até egoísmo. Somados a uma edição ágil e precisa e uma trilha sonora que é quase (mais) uma personagem à parte, o filme mais romântico de 2003 é também um dos mais românticos das últimas décadas. Irresistível!

quinta-feira

UM GRANDE GAROTO

UM GRANDE GAROTO (About a boy, 2002, Universal Pictures, 101min) Direção: Chris Weitz, Paul Weitz. Roteiro: Peter Hedges, Chris Weitz, Paul Weitz, romance de Nick Hornby. Fotografia: Remi Adefarasin. Montagem: Nick Moore. Música: Badly Drawn Boy. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Jim Clay/John Bush. Produção executiva: Lynn Harris, Nick Hornby. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Robert De Niro, Brad Epstein,Jane Rosenthal. Elenco: Hugh Grant, Toni Colette, Nicholas Hoult, Rachel Weisz, Natalia Tena. Estreia: 08/5/02

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado

"Todo homem é uma ilha. Eu sou Ibiza!" Assim se descreve Will Freeman, protagonista de "Um grande garoto", mais uma obra de Nick Hornby adaptada para o cinema, depois do pouco visto "Febre de bola" e do (merecidamente) cultuado "Alta fidelidade". Levado para as telas pelas mãos dos irmãos Chris e Paul Weitz - cujo passado inclui o infame mas imensamente popular "American pie" - o romance que fala da amizade inesperada entre Freeman - um solteirão convicto, rico e superficial - e o pré-adolescente Marcus Brewer- deslocado, solitário e desajustado - transformou-se em um filme legitimamente engraçado, surpreendentemente delicado e melhor ainda, palatável a todos os tipos de plateia.

Will Freeman é um bon-vivant que passa seus dias dedicando-se à pessoa que mais ama no mundo: ele mesmo. Vivendo dos direitos autorais de uma canção natalina composta por seu falecido pai, Freeman é também um mulherengo incorrigível, incapaz de envolver-se em um relacionamento sério (mais por opção do que por qualquer outro motivo). Quando o filme começa, ele tem a brilhante ideia de frequentar clubes de mães solteiras (ou abandonadas), com o objetivo de encontrar sexo fácil. O que poderia ser divertido, porém, torna-se mais complicado quando, durante um passeio dominical, ele trava conhecimento com Marcus (Nicholas Hoult), o filho da amiga de uma paquera. A mãe de Marcus, Fiona (Toni Colette, sempre competente), é depressiva com tendências suicidas e o jovem vê em Freeman a figura paterna que nunca teve. Chantageando-o após descobrir suas mentiras para conquistar as mulheres do clube, Marcus passa a frequentar o apartamento descolado de Will, que aos poucos inicia um processo de amadurecimento e conexão com o menino e sua mãe. Quando se apaixona por Rachel (Rachel Weisz), o eterno solitário percebe de vez que "ilhas fazem parte de arquipélagos".



É surpreendente que "Um grande garoto" tenha sido dirigido pelos irmãos Weitz: sua sutileza e elegância estão a anos-luz do humor vulgar e escatológico de "American pie", que a despeito de seu sucesso comercial não passa de uma chanchada adolescente. Nessa adaptação do livro de Hornby os cineastas demonstram uma mão leve ao tratar de assuntos espinhosos - depressão, suicídio, bulliyng - e um sofisticado timing cômico (o que deve ser muito legado ao trabalho extraordinário do escritor inglês ao tratar de relações humanas de maneira pop). Nada em "Um grande garoto" é exagerado ou de mau-gosto e, se as piadas podem não ser engraçadíssimas de um ponto de vista mais raso, elas são esplendidamente adequadas à trama e às personagens, tratadas com especial carinho pelo roteiro bastante fiel à sua origem literária, um dos melhores livros do homem que viria a escrever o excelente roteiro de "Educação", em 2009. Poucos escritores são tão simples e sarcásticos quanto Hornby quando se trata de pessoas de verdade, e isso fica lógico quando se lê seus trabalhos ou até quando se assiste a suas adaptações, mesmo quando alguns pontos cruciais são modificados.

Em "Um grande garoto" acontece uma dessas mudanças que, feitas de maneira leviana, poderia ser o tiro de misericórdia ao trabalho. Felizmente os roteiristas conseguiram evitar a tragédia de maneira criativa e, se não ficou tão bom quanto poderia, ao menos salvaram-se todos no final. Explica-se: o clímax do livro de Hornby acontece com o suicídio de Kurt Cobain, vocalista da banda Nirvana que era o ídolo de Ellie (Nat Gastian Tena), colega de escola por quem Marcus é apaixonado. A trama se encaminha para o final a partir daí (e o título original do livro é uma homenagem a uma canção do grupo, "About a girl"). Provavelmente devido a problemas de direitos autorais (Courteney Love, por exemplo) toda e qualquer menção a Cobain e sua banda foram devidamente limadas, e a menina virou fã de rap. Certamente a mudança enfraqueceu o universo do romance original, mas é preciso que se dê a mão à palmatória: o filme continua sendo muito bom.

E, logicamente seria injusto não louvar a atuação de Hugh Grant, perfeito no papel central - que chegou a ser oferecido a Brad Pitt. Will Freeman parece ter sido escrito especialmente para Grant, que se sai muito melhor que a encomenda com uma interpretação confortável e muito, mas muito engraçada. Sua parceria com o ótimo Nicholas Hoult é encantadora, assim como suas cenas com Rachel Weisz e Toni Colette, mais uma vez ameaçando roubar todas as sequências em que aparece. A trilha sonora moderna comenta a estória de forma suave e é difícil não se emocionar com o desfecho de toda a aventura romântico-pessoal de Will Freeman. A história é "sobre um garoto". Mas talvez este garoto não seja o adolescente Marcus e sim o eterno meninão Freeman, que se apaixona pela vida ao perceber como ela pode ser melhor quando dividida. Um belo filme, para ver e rever!

terça-feira

O DIÁRIO DE BRIDGET JONES

O DIÁRIO DE BRIDGET JONES (Bridget Jones's diary, 2001, Working Title Films, 97min) Direção: Sharon Maguire. Roteiro: Helen Fielding, Richard Curtis, Andrew Davies, romance de Helen Fielding. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Martin Walsh. Música: Patrick Doyle. Figurino: Rachael Fleming. Direção de arte/cenários: Gemma Jackson/Shirley Lixenberg. Produção executiva: Helen Fielding. Produção: Tim Bevan, Jonathan Cavendish, Eric Fellner. Elenco: Renée Zelwegger, Hugh Grant, Colin Firth, Gemma Jones, Tim Broadbent. Estreia: 13/4/01

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Renée Zelwegger)

Não há como negar: toda mulher tem uma parte Bridget Jones. A personagem criada pela escritora Helen Fielding e protagonista de dois romances atingiu em cheio o que era esperado por milhares de leitoras ávidas por personagens com as quais pudessem identificar-se. Fumante inveterada, com alguns quilos a mais, amiga de um bom porre, infeliz com o emprego e irremediavelmente frustrada com seus casos de amor, a inglesa criada por Fielding chegou aos cinemas na pele da texana Renée Zellweger e em um caso raro na história do cinema não criou polêmica por causa disso. Em uma interpretação impecável que chegou a ser indicada ao Oscar de melhor atriz, Zellwegger toma a personagem para si e não deixa dúvidas de que foi a escolha acertada para viver a personagem.

Bridget Jones é uma mulher comum. Apaixonada pelo chefe cafajeste Daniel Clever (Hugh Grant, divertindo-se a valer no papel), ela começa, no primeiro dia do ano, a escrever um diário, onde narra suas escapadas amorosas com ele, sua luta contra a balança, seus problemas familiares – sua mãe acaba de abandonar seu pai, trocando-o por um apresentador de televisão – e sua implicância com um partido arrumado por sua mãe, o almofadinha Mark Darcy (Colin Firth). Repleto de piadas tipicamente inglesas com um tempero feminino anos 90, o roteiro – que tem a colaboração da própria Helen Fielding – segue fielmente o livro, brincando com as neuroses femininas de forma saudável e romântica. A trilha sonora também ajuda, misturando contemporaneidades (Geri Haliwell, Robbie Williams) com clássicos (a cena em que Bridget dubla “All by myself”, logo nos créditos de abertura conquista qualquer um com um mínimo de senso de humor).



Quanto aos homens da vida de Mrs. Jones, nada a reclamar. Enquanto Hugh Grant dá início a sua especialização em papéis de canalhas adoráveis - sempre com atuações renovadas e simpáticas - o normalmente relegado a segundo plano Colin Firth é quem rouba a cena e os corações femininos da plateia (isso bem antes de ter seu talento reconhecido e ser premiado com o Oscar pelo soporífero "O discurso do rei"). Seu Mark Darcy, arrogante em um primeiro olhar e romântico e sentimental quando analisado mais profundamente, encontra em Firth o intérprete ideal (isso sem mencionar que no livro que deu origem ao filme a protagonista é fissurada pelo próprio ator Colin Firth, em uma jogada feliz dos produtores). O triângulo amoroso formado por Grant-Zelwegger-Firth só acrescenta ainda mais simpatia ao filme, seguramente uma das mais bem-sucedidas adaptações literárias de sua época.

Dono de um bom-humor contagiante e um romantismo longe de ser babaca (além de contar com a participação especialíssima do escritor Salman Rushdie), "O diário de Bridget Jones" é um perfeito passatempo que pode agradar até a ala masculina do público. Pena que sua continuação não foi tão feliz...

sexta-feira

TRAPACEIROS

TRAPACEIROS (Small time crooks, 2000, Dreamworks SKG, 94min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Zhao Fei. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Suzanne McCabe. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Jessica Lanier. Produção executiva: J. E. Beaucaire. Produção: Jean Doumanian. Elenco: Woody Allen, Tracey Ulman, Hugh Grant, Elaine May,  Michael Rapaport, Jon Lovitz. Estreia: 19/5/00

Woody Allen não é um cineasta de polpudas bilheterias, e a comemoração em torno dos 50 milhões de arrecadação de seu recente "Meia-noite em Paris" como seu maior sucesso comercial apenas reitera essa afirmação. Levando-se em conta sua carreira brilhante e sua espetacular média de pelo menos um filme por ano sem nunca cair na mediocridade (até mesmo suas obras menores são dignas de nota) não deixa de ser surpreendente que um de seus maiores êxitos populares tenha sido justamente "Trapaceiros", seu primeiro filme distribuído pela Dreamworks de Steven Spielberg. Talvez tenha sido influência do nome do Midas do cinema, mas o fato é que "Trapaceiros" fez mais sucesso do que se esperava, mesmo que esteja longe de ser um dos melhores trabalhos de Allen.




“Trapaceiros”, na verdade, conta várias histórias em seu desenrolar. Começa como um filme de assalto, ao estilo “Um dia de cão”. Ray Winkler (o mesmo Woody Allen de sempre) é um escroque sem maiores talentos que tem a idéia de roubar um banco através de um túnel subterrâneo. Para isso, ele conta com a ajuda da esposa Frenchy (a ótima Tracey Ullman) para que ela sirva de fachada em uma loja de biscoitos. O que ele não poderia imaginar é que a confeitaria pudesse fazer sucesso, o que os torna milionários em questão de poucos meses. Começa aí a segunda história: cheia da grana mas sem a menor classe, Frenchy contrata os serviços do galante David (Hugh Grant, divertindo-se claramente no papel) para ensiná-la a ser uma dama. Apaixonada por ele, ela não percebe que ele está querendo é seu dinheiro. A terceira trama advém da crise no casamento de Ray e Frenchy: sentindo-se abandonado, ele convence a prima de sua mulher, a desligada May (a cineasta Elaine May roubando a cena) a participar do roubo de um colar caríssimo.

É preciso ser fã da obra de Woody Allen para se gostar de "Trapaceiros", uma vez que as maiores características de suas comédias estão presentes em todo o desenrolar da trama. Calcada basicamente em situações inusitadas e em diálogos inteligentes e sofisticados (ainda que a personagem de Tracey Ullman frequentemente esbarre em um humor mais popular), o filme carece de uma estrutura mais sólida (algumas vezes não se sabe exatamente qual é o foco da história) mas compensa lindamente esse pequeno pecado com as atuações hilárias de Ullman e Elaine May. Apesar de seu ritmo irregular, é um produto típico de seu criador. Para os convertidos é mais um filme acima da média. Para os neófitos, apenas uma comédia com alguns dos diálogos mais engraçados e saborosos de sua época.

UM LUGAR CHAMADO NOTTING HILL


UM LUGAR CHAMADO NOTTING HILL (Notting Hill, 1999, Polygram Filmed Entertainment/Working Title Films, 124min) Direção: Roger Michell. Roteiro: Richard Curtis. Fotografia: Michael Coulter. Montagem: Nick Moore. Música: Trevor Jones. Figurino: Shuna Harwood. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Stephenie McMillan. Produção executiva: Tim Bevan, Richard Curtis, Eric Fellner. Produção: Duncan Kenworthy. Elenco: Julia Roberts, Hugh Grant, Rhys Ifans, Richard McCabe, Hugh Bonneville, Alec Baldwin. Estreia: 13/5/99

Nada como uma equipe inglesa para que o público relembre como comédias românticas não precisam necessariamente caprichar na glicose para garantir bilheteria e sucesso de crítica. E nada como uma estrela do porte de Julia Roberts (novamente alçada à maior estrela da América graças ao sucesso de “O casamento do meu melhor amigo”) para conferir glamour a uma história tão fantasiosa e ao mesmo tempo tão real quanto “Um lugar chamado Notting Hill”.

Fantasiosa porque conta a história de amor entre um homem comum – no caso o proprietário de uma pequena livraria de guias de viagem em um bairro tranquilo de Londres – e uma das mulheres mais famosas do mundo – uma atriz hollywoodiana, o que mais poderia ser?. Real porque, ao invés de tratar a história como um romance água-com-açúcar, repleto de glamour e estereótipos, trata seus personagens com carinho e inteligência, entregando a eles diálogos espertos o bastante para trair sua origem britânica e personalidades fascinantes mas verossímeis.



Na pele de Will, o jovem inglês abandonado pela esposa – que o trocou por um homem com a cara de Harrison Ford, segundo suas próprias palavras – que vive cercado pelos amigos fiéis, está Hugh Grant, voltando às boas da crítica e do público que o elevou ao estrelato com “Quatro casamentos e um funeral” em 1994 – sintomaticamente outra comédia romântica escrita pelo mesmo Richard Curtis de “Notting Hill”. Sem carregar nas costas o peso de uma expectativa exagerada que o havia vitimado pós-escândalo com a prostituta Divine Brown, Grant mostra que ainda tem o mesmo talento e carisma de antes, acrescido de uma maturidade bem-vinda. Sua atuação como homem apaixonado por uma diva de cinema e sem certeza de ser correspondido é de uma delicadeza ímpar, que encontra um par perfeito no sorriso inconfundível de Julia Roberts, com a carreira novamente nos trilhos do sucesso.

Também mais madura do que em seus tempos de “Uma linda mulher” – o filme que a lançou como estrela e lhe deu uma indicação ao Oscar – Roberts brilha em uma personagem perigosamente parecida com ela mesma, mas da qual ela inteligentemente extrai detalhes que a transformam, por incrível que pareça, não na Anna Scott atriz bem-sucedida e milionária mas sim na Anna, uma mulher como as outras – e como ela mesma diz em uma frase brilhante, “sou apenas uma garota em frente a um homem, pedindo a ele que a ame.”

Contando ainda com um elenco de coadjuvantes afiadíssimos - em especial o celebrado Rhys Ifans como Spike, o melhor amigo de Will - e com diálogos engraçados e humanos, que brincam com a cultura pop e com suas idiossincrasias – a cena em que Grant participa das entrevistas de lançamento de um filme de Roberts é genial – o filme do desconhecido Roger Mitchell é também vitorioso por fazer crer, em suas duas horas de duração, que uma das mais belas e famosas mulheres do mundo pode tranquilamente se apaixonar por um homem comum. E não é de fantasias que supostamente o cinema é feito?

RAZÃO E SENSIBILIDADE

RAZÃO E SENSIBILIDADE (Sense and sensibility, 1995, Columbia Pictures, 136min) Direção: Ang Lee. Roteiro: Emma Thompson, romance de Jane Austen. Fotografia: Michael Coulter. Montagem: Tim Squyres. Música: Patrick Doyle. Figurino: Jenny Beavan, John Bright. Direção de arte/cenários: Luciana Arrighi/Ian Whittaker. Produção executiva. Sydney Pollack. Produção: Lindsay Doran. Elenco: Emma Thompson, Hugh Grant, Kate Winslet, Alan Rickman, Greg Wise, Gemma Jones, Tom Wilkinson, Emilie François, Imelda Staunton, Hugh Laurie, Imogen Stubbs. Estreia: 13/12/95

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Emma Thompson), Atriz Coadjuvante (Kate Winslet), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original/Drama, Figurino
Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Roteiro


Exatos 184 anos separam a data da publicação do romance "Razão e sensibilidade", da inglesa Jane Austen, da estreia de sua bem-sucedida adaptação cinematográfica, lançada em 1995 e dirigida por um (pasmem!) taiuanês. Nesse meio tempo, a história de duas irmãs de personalidades opostas que buscavam a felicidade do amor teve uma versão para a televisão britância, mas somente com o filme dirigido pelo talentoso Ang Lee a trama tornou-se popular em todo o mundo, dando o pontapé inicial em uma série de vários filmes e minisséries adaptadas da obra da autora - que já havia sido lembrada por Amy Heckerling em "As patricinhas de Beverly Hills", uma mal-disfarçada adaptação de "Emma".

Escrito no longo período de quatro anos e meio, o roteiro de Thompson mantém intactos o romantismo e a ironia da obra de Austen, dando extremo valor à fidelidade ao original literário. Sarcástica como o texto que adaptou, Emma Thompson imprime leveza e modernidade a uma trama que poderia soar anacrônica ou poeirenta a uma plateia acostumada a invasões alienígenas e dinossauros em CGI. Ainda que não tenha chegado nem perto de ser um estrondoso sucesso de bilheteria - rendeu pouco menos de 43 milhões nos EUA - "Razão e sensibilidade" encontrou um lugar cativo junto aos fãs de boas histórias contadas com inteligência e delicadeza. Agradou também a crítica e os membros da Academia, que lhe deram 7 indicações ao Oscar, incluindo melhor filme. Por razões que até hoje soam absolutamente idiossincráticas - e que vitimaram Christopher Nolan em 2011 - Ang Lee ficou de fora da briga pela estatueta de Melhor Diretor. Injustiça pura, pois é Lee, com seu olhar estrangeiro, que dá ainda mais consistência ao resultado final de um filme que, utilizando elementos do mais puro folhetim, faz uma crítica ao modo de vida de uma parcela considerável de ingleses vitorianos.

A história criada por Jane Austen - escritora que foi descoberta pelo cinema no final dos anos 90 - começa quando a Sra. Dashwood (Gemma Jones) fica viúva e vê, de uma hora pra outra, seu status social sofrer uma considerável queda. Obrigada a abandonar a propriedade onde morava com as três filhas, ela vai morar em um chalé no interior, sentindo-se humilhada principalmente por Fanny (Harriet Walter), a antipática esposa de seu enteado. Quem mais sofre com essa repentina mudança de classe social são suas filhas, que vêem suas possibilidades de arrumar um bom casamento seriamente ameaçadas. A mais velha, Elinor (Emma Thompson) é uma mulher racional, de bom-senso e discreta, que se apaixona, ao seu estilo calado, por Edward Ferrars (Hugh Grant), irmão de Fanny, sem saber que ele mantém um noivado secreto há alguns anos. A filha do meio, Marianne (Kate Winslet) é o oposto da irmã: passional e calorosa, ela não esconde de ninguém o amor avassalador que sente pelo jovem Wilhougby (Greg Wise), um rapaz de ética duvidosa, e não percebe que desperta sentimentos profundos no sério Coronel Brandon (Alan Rickman).
 
Ainda que a Taiwan do século XX e a Inglaterra do século XIX sejam tão semelhantes quanto água e vinho, Ang Lee - diretor do espetacular "O banquete de casamento", indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro - conseguiu um feito e tanto. É quase impossível acreditar que por trás de "Razão e sensibilidade" não esteja um inglês rigoroso, ao estilo James Ivory, tamanho o grau de verdade e conhecimento de causa impresso em cada cena do filme. Mergulhando sem medo na cultura inglesa da época de Austen, Ang Lee demonstra um absurdo senso de observação e crítica, ainda que carinhoso, das tradições e idiossincrasias de uma sociedade muito distante de sua realidade. E o faz contando com a ajuda de uma equipe de sonhos. A bela fotografia de Michael Coulter deslumbra a plateia mostrando uma Inglaterra bucólica e romântica, com vastos campos verdejantes servindo de cenário aos espirituosos diálogos. A trilha sonora discreta de Patrick Doyle comenta a ação sem roubar a atenção da trama e a reconstituição de época é primorosa - é de chamar a atenção a forma com que Ang Lee comenta, visualmente, a diferença entre as classes sociais do período em um baile de gala. É sutil, mas brilhante, assim como o elenco, escalado com perfeição.


Ainda que não esteja excepcional como costuma estar, Emma Thompson foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz por sua atuação como Elinor, a sensata irmã mais velha - saiu premiada da cerimônia, mas devido a seu roteiro impecável. Hugh Grant e Alan Rickman estão no tom exato de suas personagens, ainda que os homens nas histórias de Austen sejam apenas coadjuvantes de luxo (ou troféus disputados sofregamente). E até mesmo atores que mais tarde se tornariam importantes peças dentro de Hollywood - Hugh Laurie, Tom Wilkinson e Imelda Staunton - dão o ar da graça, em intervenções que vão do dramático ao cômico sem nunca soar exagerado. Mas é Kate Winslet quem se sobressai, dando vida a uma Marianne passional, apaixonada pela vida e incapaz de manter em fogo brando seus sentimentos, mesmo que isso ameaçe seu bem-estar e a maneira com que é vista pela preconceituosa sociedade que a rodeia. Merecidamente indicada à estatueta de atriz coadjuvante - que perdeu para Mira Sorvino, em "Poderosa Afrodite" - Winslet já demonstrava, aos 21 anos, todo o talento que viria a transformar-lhe em uma das mais respeitadas atrizes de sua geração.

"Razão e sensibilidade" é um filme de classe, realizado com capricho e delicadeza. É provavelmente a melhor adaptação de um romance de Jane Austen feita em Hollywood até hoje.

segunda-feira

QUATRO CASAMENTOS E UM FUNERAL

QUATRO CASAMENTOS E UM FUNERAL (Four weddings and a funeral, 1994, Polygram Filmed Entertainment/Channel Four Films/Working Title Films, 117min) Direção: Mike Newell. Roteiro: Richard Curtis. Fotografia: Michael Coulter. Montagem: Jon Gregory. Música: Richard Rodney-Bennett. Figurino: Lindy Hemming. Direção de arte/cenários: Maggie Gray/Anna Pinnock. Produção executiva: Tim Bevan, Eric Fellner. Produção: Duncan Kenworthy. Elenco: Hugh Grant, Andie McDowell, Kristin Scott-Thomas, John Hannah, Simon Callow, Rowan Atkinson. Estreia: 04/3/94

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Comédia/Musical (Hugh Grant)

 Para renovar seu elenco de astros e galãs, volta e meia Hollywood vai buscar em outras paragens rostos novos e talentosos. Em 1994 foi a vez de Hugh Grant, um inglês então com 32 anos que tornou-se a sensação do momento graças a uma comédia romântica das mais engraçadas lançadas na década, "Quatro casamentos e um funeral". Dono de uma carreira da qual já faziam parte filmes de prestígio como "Maurice", de James Ivory e "Lua de fel", de Roman Polanski, Grant virou febre nos EUA e no mundo, com sua mistura de galã desajeitado e estilo rapaz da casa ao lado. Antes que um escândalo sexual prejudicasse sua imagem - ele foi flagrado recebendo sexo oral de uma prostituta, em 1995 - Grant era o genro que toda mãe de família sonhava. E "Quatro casamentos" foi o estopim para esse sucesso todo.

Escrito com verve pelo ótimo Richard Curtis - especialista no gênero que mais tarde tornaria-se cineasta com o simpático "Simplesmente amor", de 2003 - "Quatro casamentos" não só foi um dos filmes britânicos de maior bilheteria nos EUA como concorreu a 2 Oscar - melhor filme e roteiro original. Infelizmente bateu de frente com "Forrest Gump" e "Pulp fiction", o que arruinou suas chances. No entanto, seus fãs provavelmente não dão a menor importância a isso, preferindo ver e rever a delicada e hilária história de amor vivida nas telas por Grant e a americana Andie McDowell do que preocupar-se com cerimônias de premiação.
Grant (vencedor do Golden Globe por sua atuação) vive Charles, um mulherengo e solteirão convicto que ignora solenemente todas as investidas femininas em relação a um compromisso mais sério. Durante a festa de casamento de um amigo ele conhece a americana Carrie (McDowell em papel recusado - para sorte de todos - por Melanie Griffith e Brooke Shields), uma mulher atraente, liberada e, melhor que tudo, estrangeira. Depois de passar a noite com ela e despedir-se, no entanto, Charles fica surpreso ao perceber que gostou mais dela do que esperava. Apaixonado pela primeira vez na vida, ele ainda irá demorar mais três cerimônias de casamento e o funeral de um querido amigo para finalmente convencê-la de seu amor.



A grande sacada do roteiro de Curtis foi justamente situar a vasta maioria das cenas do filme nos eventos do título. Meio como que contando crônicas do dia-a-dia festivo de Charles e seus amigos, o roteirista aproveita para criar cenas curtas e bem escritas, que conquistam pelo humor ácido mas nunca vulgar ou agressivo. Com essa estrutura, todas as personagens do filme apresentam ao público somente parte de suas personalidades, mas o texto de Curtis é tão bom que não é preciso muito para que logo todo o grupo de amigos pareçam velhos conhecidos. E eles são de aplaudir de pé, desde Fiona (Kristin Scott-Thomas), a ex-namorada recalcada até o casal gay Gareth (Simon Callow) e Matthew (John Hannah) - responsáveis pela cena mais bonita do filme, onde um poema de W.H. Auden é declamado para a emoção de todo mundo (personagens e audiência).

E se até Auden é citado no filme, o que dizer então de sua trilha sonora? Além da bela "Love is all around" (que virou hit e a cara do filme, interpretada por Wet Wet Wet), somos brindados com Elton John cantando "But not for me" e "Chapel of love" - esta última nos divertidíssimos créditos finais, que brincam até mesmo com o Príncipe Charles - e nem mesmo a Princesa Diana é poupada: na encantadora cena em que Charles e Carrie conversam sobre suas experiências sexuais, ela é citada como exemplo oposto à Madonna. Aliás, a mesma cena comprova a excelente química entre o casal: mesmo apenas sentados em uma mesa e dialogando, Hugh Grant e Andie McDowell fascinam a plateia, que torce por seu esperado final feliz.

Contando até mesmo com Rowan Atkinson - o Mr. Bean em pessoa - como um padre extremamente atrapalhado, "Quatro casamentos e um funeral" é um antídoto perfeito para uma tarde tediosa e uma crise de descrédito no amor. É sensível, é engraçado e é inglês. Melhor é impossível!

domingo

LUA DE FEL

LUA DE FEL (Lunes de fiel, 1992, Columbia Pictures/Canal +, 139min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, Gerard Brach, John Brownjohn, romance de Pascal Bruckner. Fotografia: Tonino Delli Colli. Montagem: Herve de Luze. Música: Vangelis. Figurino: Jackie Burdin. Direção de arte/cenários: Willy Holt, Gerard Viard. Produção executiva: Robert Bernmussa. Produção: Roman Polanski. Elenco: Hugh Grant, Peter Coyote, Kristin Scott-Thomas, Emmanuelle Seigner, Stockard Channing. Estreia: 11/3/94

Talvez tenha a ver com o fato de ele ter passado por alguns horrores quase inacreditáveis - perdeu os pais em um campo de concentração e a esposa grávida de oito meses em um assassinato chocante - mas Roman Polanski não parece ser o mais feliz dos cineastas, nem tampouco acreditar muito na inerente bondade humana. Realizador de obras sufocantes e quase sempre desprovidas do mais simples otimismo, como "Repulsa ao sexo" e "O bebê de Rosemary", Polanski exercita mais uma vez sua peculiar visão de mundo em "Lua de fel", um de seus filmes mais polêmicos, no qual ele concentra sua ironia e seu ceticismo em uma história de amor. Ou quase isso.

Em vias de tornar-se o britânico queridinho de Hollywood, Hugh Grant vive Nigel, um inglês certinho e tenso que tenta salvar seu casamento em crise fazendo um romântico cruzeiro com a esposa, Fiona (Kristin Scott-Thomas). Durante a viagem - que não parece estar ajudando a relação do casal - ele conhece o excêntrico escritor americano Oscar (Peter Coyote), paraplégico, falastrão e sempre com muitas doses de álcool no organismo. Percebendo a atração de Nigel por sua esposa, a silenciosa Mimi (Emmanuele Seigner), Oscar lhe conta, em encontros regados a muito whisky, seu relacionamento com ela - movido principalmente por desejo e entrega absoluta. De seu primeiro encontro em Paris até a tragédia que os uniu inexoravelmente ao mesmo destino, a história de amor/sexo/obsessão entre Oscar e Mimi supreende Nigel, cada vez mais excitado com a possibilidade de consumar sua atração pela dançarina.



Um tanto vulgar e frequentemente à beira do mau-gosto, "Lua de fel" é uma investigação sem maiores rodeios de um relacionamento doentio e obsessivo. Presos a uma fatalidade, Oscar e Mimi são uma espécie de espelho ao contrário de Nigel e Fiona, que não conseguem romper o marasmo e o tédio de um casamento obviamente morno. Polanski não tem medo de ser desagradável e foge da estética convencional das cenas de sexo, aqui bastante cruas e filmadas sem melindres. Ao som de uma trilha sonora que mistura George Michael, o brasileiro Fausto Fawcett e uma música bastante brega composta por Vangelis para o filme, Peter Coyote e Emanuelle Seigner se lambuzam de leite, se vestem de animais e se entregam a um roteiro que, por sua crueza e cinismo, encanta alguns e repugna vários.

Basicamente, "Lua de fel" fala de sexo, pura e simplesmente - do desejo, da repulsa e da obsessão decorrentes dele. Lançado nos EUA dois anos depois de sua estreia mundial, é um filme que, apesar de suas qualidades - um roteiro interessante e um tema forte são as maiores - não alcançou nem perto da quase unanimidade dos trabalhos anteriores de Roman Polanski. E de certa forma não é muito difícil entender certa resistência, tanto da crítica quanto do público, acostumados a obras menos herméticas e corajosas. No entanto, qualquer crítica feita ao desempenho de Seigner (esposa do diretor na vida real) é plenamente compreensível não particularmente bela ou sexy, ela é uma atriz limitadíssima, sem capacidade de interpretar uma personagem tão complexa como Mimi. Por causa dela, muitas sequências perdem sua força, o que logicamente diminui o potencial do filme como um todo.

"Lua de fel" não é um filme para todo tipo de público. Fãs de romances ou filmes de suspense convencionais devem passar-lhe longe. Mas para quem gosta de ser surpreendido com uma história que foge dos padrões - visuais ou morais - é um prato cheio.

OS AGENTES DO DESTINO

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