ARMAS NA MESA (Miss Sloane, 2016, Transfilm/Archery Pictures/Canal + Distribution, 132min) Direção: John Madden. Roteiro: Jonathan Perera. Fotografia: Sebastian Blenkov. Montagem: Alexander Berner. Música: Max Richter. Figurino: Georgina Yarhi. Direção de arte/cenários: Matthew Davies/Peter P. Nicolakakos. Produção executiva: Patrick Chu, Claude Léger, Jonathan Vanger. Produção: Ben Browning, Khris Thykier, Ariel Zeitoun. Elenco: Jessica Chastain, Mark Strong, Alison Pill, John Litghow, Christine Baranski, Michael Stuhlbarg, Sam Waterston, Jake Lacy, Dylan Baker, Gugu Mbatha-Raw. Estreia: 11/11/16
Uma das mais poderosas e importantes dos EUA, a indústria bélica afeta diretamente a economia e a sociedade norte-americanas, uma das mais benevolentes em leis de porte e compra de armas - e cujas consequências frequentam o noticiário com assustadora regularidade, com atentados violentos e mortais contra civis. O tema chegou a ser tema do impressionante documentário "Tiros em Columbine", de Michael Moore, vencedor do Oscar da categoria em 2001, e volta e meia serve de assunto para discussões sérias e polêmicas que envolvem políticos, empresários e a sociedade em geral, mas Hollywood, sintomaticamente, poucas vezes entrou na controvertida questão. Por isso não deixa de ser uma surpresa que um filme como "Armas na mesa" tenha surgido - ainda que timidamente, uma vez que não foi bem nas bilheterias e foi injustamente ignorado pelo Oscar - e tocado nesse nervo tão dolorido do american way of life. Dirigido por John Madden, que já conheceu o gostinho do sucesso com "Shakespeare apaixonado" (98) e estrelado por uma avassaladora Jessica Chastain, merecidamente indicada ao Golden Globe de melhor atriz dramática, o filme não aprofunda a questão, mas a utiliza como pano de fundo para uma trama inteligente e envolvente, que surpreende até os minutos finais.
A fascinante e complexa protagonista é Elizabeth Sloane, uma lobista talentosa e afeita a métodos pouco ortodoxos para atingir seus objetivos profissionais - mas que, paradoxalmente, só aceita trabalhos que vão ao encontro de seus princípios pessoais. É por essa razão que ela recusa a oferta milionária de um grupo de empresários que a procuram para que ela batalhe contra uma emenda constitucional que propõe mais rigidez na liberação de licenças para porte de arma no país. Conforme o raciocínio das velhas raposas, o fato de Elizabeth ser mulher poderia lhe dar ainda mais confiabilidade junto ao público feminino - seu maior alvo. Sentindo-se pressionada até mesmo por seu chefe, George Dupont (Sam Waterston), ela surpreende a todos ao aliar-se com uma firma de advocacia concorrente, que tenta justamente o oposto no Congresso. Liderada por Rodolfo Schmidt (Mark Strong), a nova equipe da ousada lobista passa a ser formada por antigos colaboradores, que entram, então, em rota de colisão com os remanescentes de seu antigo grupo, como o ambicioso Pat Connors (Michael Stuhlbarg) e a jovem Jane Molloy (Alisson Pill). Disposta a qualquer coisa para manter seu currículo, Elizabeth Sloane não medirá esforços para conquistar a opinião pública - inclusive usar o trauma de uma colega, Esme Manucharian (Gugu Mbatha-Raw), cujo passado esconde um terrível acontecimento.
Com um roteiro que vai revelando aos poucos todos os seus desdobramentos e uma personagem central repleta de nuances, "Armas na mesa" é um filme feito para adultos, para uma plateia exigente que busca tramas consistentes e imprevisíveis. Sua protagonista é uma das mais impressionantes da temporada 2016, e a interpretação irretocável de Jessica Chastain (mais uma, na verdade) é, além de sua maior qualidade, seu ponto de sustentação. Ao dotar Elizabeth Sloane de uma série de defeitos e aproximá-la do espectador médio - com suas frustrações pessoais, sua solidão, sua inadequação à normalidade - o filme trabalha de maneira exemplar a intersecção entre a trama política e o drama pessoal, que o leva a um clímax poderoso e surpreendente. Chastain está brilhante e rouba todas as cenas em que aparece, seja humilhando opositores, discutindo com inimigos, conversando com o terapeuta ou ensaiando uma hesitante relação com o garoto de programa Forde (Jake Lacy), que lhe faz repensar algumas de suas atitudes. Seu desempenho é tão forte que eclipsa até mesmo gente talentosa como John Lithgow e Sam Waterston, que pouco tem a fazer senão pontuar seu show. Não foi à toa que John Madden pensou imediatamente nela quando leu o roteiro - ambos já tem outro trabalho em conjunto, o subestimado "A grande mentira" (2010), mas aqui atingem um outro nível de entendimento profissional, absolutamente mais sofisticado.
De ritmo mais lento que a maioria das produções hollywoodianas - que privilegiam uma edição histérica em detrimento do desenvolvimento de personagens e de sua história - "Armas na mesa" convida o público a não apenas refletir sobre um tema relevante, mas também a mergulhar em um universo poucas vezes retratados com fidelidade no cinema. Ao testemunhar as artimanhas de Elizabeth em sua trajetória rumo ao sucesso profissional, a plateia se vê diante de um mundo de negociações escusas, de mentiras, chantagens e jogos baixos que em muito reflete a realidade não só norte-americana, mas de todos os países democráticos do mundo. Sem forçar a mão nas discussões políticas e preferindo enfatizar a personalidade dúbia de sua protagonista, o roteiro de Jonathan Perera torna-se universal e brinda a audiência com diálogos acima da média e um desenvolvimento gradual, que conquista a cada cena, até seu final explosivo. Um filme que merece ser descoberto - e que injustamente não rendeu à sua atriz principal todos os aplausos que ela merece.
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O EXÓTICO HOTEL MARIGOLD
O EXÓTICO HOTEL MARIGOLD (The Best Exotic Marigold Hotel, 2011, Blueprint Pictures, 124min) Direção: John Madden. Roteiro: Oli Parker, romance "These foolish things", de Deborah Moggach. Fotografia: Ben Davis. Montagem: Chris Gill. Música: Thomas Newman. Figurino: Louise Stjernsward. Direção de arte/cenários: Alan MacDonald/Tina Roberts. Produção executiva: Jonathan King, Jeff Skoll, Ricky Strauss. Produção: Graham Broadbent, Peter Czernin. Elenco: Judi Dench, Bill Nighy, Tom Wilkinson, Maggie Smith, Dev Patel, Penelope Wilton, Celia Imrie. Estreia: 30/11/11 (Festival de Torrento)
Certas coisas nem os experientes analistas de mercado de Hollywood conseguem explicar, mesmo com tabelas, cálculos e equações. Um exemplo? Como um filme feito fora de um grande estúdio, com um custo estimado em 10 milhões de dólares e estrelado por atores com uma média de idade de 60 anos pode alcançar mais de 130 milhões de arrecadação pelo mundo afora, a ponto de gerar uma continuação? Levando-se em consideração ainda que "O exótico Hotel Marigold" não é baseado em quadrinhos, não tem cenas de ação nem tampouco tem em seu elenco nomes como Sylvester Stallone ou Bruce Willis - que apesar da idade ainda insistem em produções anabolizadas, como a série "Os mercenários" - seu resultado nas bilheterias é ainda mais impressionante. Esse choque, porém, é dissipado assim que se assiste aos primeiros minutos do filme de John Madden, comandante do oscarizado "Shakespeare apaixonado": divertida, leve e nunca aquém de extremamente agradável, a adaptação do romance "These foolish things", de Deborah Moggach, é daquelas de deixar qualquer um com um sorriso no rosto. Cortesia, também, do dream team de atores ingleses escalado por Madden.
O tal Exótico Hotel Marigold do título é uma quase espelunca localizada na Índia onde vai parar meia-dúzia de ingleses da terceira idade, atraídos pela propaganda enganosa de seu site, que promete luxo e conforto para idosos de todo o mundo. Na verdade, o hotel é gerenciado pelo jovem, ambicioso e desajeitado Sonny Kapoor (Dev Patel, de "Quem quer ser um milionário?"), que tem esperanças de realmente transformar as ruínas do prédio de propriedade de sua família em um estabelecimento respeitável, como forma de conquistar a admiração de sua rígida mãe e a aceitação dos familiares da mulher que ama, a bela Sunaina (Tena Desae). O estado quase calamitoso do hotel, porém, não impede que seus novos hóspedes aproveitem todas as possibilidades da nova rotina, especialmente porque todos tem seus motivos particulares para estarem ali. Evelyn Greensdale (Judi Dench) acaba de ficar viúva e sem economias, e viaja com a intenção de respirar novos ares .sem precisar gastar muito. O juiz de Direito Graham Dashwood (Tom Wilkinson) precisa reencontrar um amor do passado, com quem perdeu contato há quarenta anos. O casal Douglas e Jean Ainslie (Bill Nighy e Penelope Wilton) está em crise, sentindo-se no fim da vida e recusando-se a recolher-se a um conjunto habitacional para pessoas de sua idade. A preconceituosa Muriel Donnelly (Maggie Smith), ex-governanta, precisa fazer uma cirurgia no quadril, bem mais acessível na Índia. E Norman Cousins (Ronald Pickup) e Madge Hardcastle (Celia Imrie) buscam novas experiências amorosas: ele puramente sexuais, ela atrás de um casamento milionário.
Dividindo seu tempo de forma justa e imparcial com todos os fascinantes personagens criados por Moggach, o roteiro de Oli Parker consegue equilibrar com maestria momentos de puro humor inglês - em especial quando entra em cena a brilhante Maggie Smith e sua ranzinza Sra. Donnelly - e cenas de grande sensibilidade, como todas aquelas que envolvem a resolução da história de amor de Dashwood e o nascente romance entre Evelyn e Douglas - que vê nela o extremo oposto de sua egoísta e desagradável esposa. Mesmo quando o filme desvia seu foco dos novos moradores do hotel e se concentra na difícil relação de Sonny com sua mãe o ritmo não chega a ser comprometido. É uma surpresa perceber, aliás, como o roteiro consegue dar conta de tantos personagens - desenvolvendo de forma satisfatória suas complexidades e idiossincrasias - sem tornar-se superficial e sem estender-se desnecessariamente além das palatáveis duas horas de duração. Mérito também, é claro, da edição ágil mas jamais apressada e da direção fluida de Madden, que evita com sucesso ser maior do que seus atores ou de sua história. Sua discrição, ao contrário de demonstrar falta de personalidade, apenas o confirma como um cineasta afeito mais aos atores do que a pirotecnias ou estripulias visuais - vale lembrar que em seu currículo constam também os potentes mas pouco vistos "A prova" (06) e "No limite da mentira" (2010).
Tocando de leve em temas espinhosos como preconceito racial, abandono na terceira idade e homossexualidade - sempre com respeito, delicadeza e certa dose de bom humor - "O exótico Hotel Marigold" certamente conquistou seu enorme público por sua estrutura despretensiosa, sustentada por um bom roteiro, bom elenco e direção competente. Em tempos onde cada filme tenta ser maior e mais barulhento do que o outro, é um oásis de pureza e ar puro. Mereceu todo o sucesso que fez.
Certas coisas nem os experientes analistas de mercado de Hollywood conseguem explicar, mesmo com tabelas, cálculos e equações. Um exemplo? Como um filme feito fora de um grande estúdio, com um custo estimado em 10 milhões de dólares e estrelado por atores com uma média de idade de 60 anos pode alcançar mais de 130 milhões de arrecadação pelo mundo afora, a ponto de gerar uma continuação? Levando-se em consideração ainda que "O exótico Hotel Marigold" não é baseado em quadrinhos, não tem cenas de ação nem tampouco tem em seu elenco nomes como Sylvester Stallone ou Bruce Willis - que apesar da idade ainda insistem em produções anabolizadas, como a série "Os mercenários" - seu resultado nas bilheterias é ainda mais impressionante. Esse choque, porém, é dissipado assim que se assiste aos primeiros minutos do filme de John Madden, comandante do oscarizado "Shakespeare apaixonado": divertida, leve e nunca aquém de extremamente agradável, a adaptação do romance "These foolish things", de Deborah Moggach, é daquelas de deixar qualquer um com um sorriso no rosto. Cortesia, também, do dream team de atores ingleses escalado por Madden.
O tal Exótico Hotel Marigold do título é uma quase espelunca localizada na Índia onde vai parar meia-dúzia de ingleses da terceira idade, atraídos pela propaganda enganosa de seu site, que promete luxo e conforto para idosos de todo o mundo. Na verdade, o hotel é gerenciado pelo jovem, ambicioso e desajeitado Sonny Kapoor (Dev Patel, de "Quem quer ser um milionário?"), que tem esperanças de realmente transformar as ruínas do prédio de propriedade de sua família em um estabelecimento respeitável, como forma de conquistar a admiração de sua rígida mãe e a aceitação dos familiares da mulher que ama, a bela Sunaina (Tena Desae). O estado quase calamitoso do hotel, porém, não impede que seus novos hóspedes aproveitem todas as possibilidades da nova rotina, especialmente porque todos tem seus motivos particulares para estarem ali. Evelyn Greensdale (Judi Dench) acaba de ficar viúva e sem economias, e viaja com a intenção de respirar novos ares .sem precisar gastar muito. O juiz de Direito Graham Dashwood (Tom Wilkinson) precisa reencontrar um amor do passado, com quem perdeu contato há quarenta anos. O casal Douglas e Jean Ainslie (Bill Nighy e Penelope Wilton) está em crise, sentindo-se no fim da vida e recusando-se a recolher-se a um conjunto habitacional para pessoas de sua idade. A preconceituosa Muriel Donnelly (Maggie Smith), ex-governanta, precisa fazer uma cirurgia no quadril, bem mais acessível na Índia. E Norman Cousins (Ronald Pickup) e Madge Hardcastle (Celia Imrie) buscam novas experiências amorosas: ele puramente sexuais, ela atrás de um casamento milionário.
Dividindo seu tempo de forma justa e imparcial com todos os fascinantes personagens criados por Moggach, o roteiro de Oli Parker consegue equilibrar com maestria momentos de puro humor inglês - em especial quando entra em cena a brilhante Maggie Smith e sua ranzinza Sra. Donnelly - e cenas de grande sensibilidade, como todas aquelas que envolvem a resolução da história de amor de Dashwood e o nascente romance entre Evelyn e Douglas - que vê nela o extremo oposto de sua egoísta e desagradável esposa. Mesmo quando o filme desvia seu foco dos novos moradores do hotel e se concentra na difícil relação de Sonny com sua mãe o ritmo não chega a ser comprometido. É uma surpresa perceber, aliás, como o roteiro consegue dar conta de tantos personagens - desenvolvendo de forma satisfatória suas complexidades e idiossincrasias - sem tornar-se superficial e sem estender-se desnecessariamente além das palatáveis duas horas de duração. Mérito também, é claro, da edição ágil mas jamais apressada e da direção fluida de Madden, que evita com sucesso ser maior do que seus atores ou de sua história. Sua discrição, ao contrário de demonstrar falta de personalidade, apenas o confirma como um cineasta afeito mais aos atores do que a pirotecnias ou estripulias visuais - vale lembrar que em seu currículo constam também os potentes mas pouco vistos "A prova" (06) e "No limite da mentira" (2010).
Tocando de leve em temas espinhosos como preconceito racial, abandono na terceira idade e homossexualidade - sempre com respeito, delicadeza e certa dose de bom humor - "O exótico Hotel Marigold" certamente conquistou seu enorme público por sua estrutura despretensiosa, sustentada por um bom roteiro, bom elenco e direção competente. Em tempos onde cada filme tenta ser maior e mais barulhento do que o outro, é um oásis de pureza e ar puro. Mereceu todo o sucesso que fez.
sábado
A GRANDE MENTIRA
A GRANDE MENTIRA(The debt, 2010, Miramax, 113min ) Direção: John Madden. Roteiro: Matthew Vaughn, Jane Goldman, Peter Straughan, roteiro original de Assaf Bernstein, Ido Rosenblum. Fotografia: Ben Davis. Montagem: Alexander Berner. Música: Thomas Newman. Figurino: Natalie Ward. Direção de arte/cenários: Jim Clay/John Bush. Produção executiva: Tarquin Pack. Produção: Eitan Evan, Eduardo Rossoff, Kris Thykier, Matthew Vaughn. Elenco: Helen Mirren, Tom Wilkinson, Jessica Chastain, Sam Worthingtn, Ciáran Hinds, Marton Csokas, Jesper Christensen. Estreia: 04/9/10 (Festival de Deauville)
Em um primeiro e rápido olhar, o John Madden da comédia romântica "Shakespeare apaixonado" não tem rigorosamente nada do diretor do sombrio "A grande mentira", refilmagem de uma produção israelense de 1997. Porém, basta um pouquinho mais de atenção para perceber em ambos - assim como no inteligente "A prova", estrelado por Gwyneth Paltrow, Anthony Hopkins e Jake Gyllenhaal - o carinho e o cuidado que o cineasta dedica ao elenco de seus filmes. Tudo bem que contar com gente do calibre de Helen Mirren, Tom Wilkinson e Jessica Chastain ajuda muito, mas é sua sensibilidade e elegância que dão ao filme - um thriller político com toques dramáticos e românticos - a força que o mantém na memória do espectador um bom tempo após o final da projeção. Sem exagerar na violência ou carregar no sentimentalismo, Madden consegue equilibrar com sucesso todos os elementos do roteiro, tratando seu público com inteligência e respeito. Injustamente inédito nos cinemas brasileiros, onde foi lançado diretamente em DVD, "A grande mentira" é daquelas obras raras, que tratam de um tema político empolgante sem deixar de prestar atenção no lado humano da situação - e o faz com um elenco nunca menos que sensacional.
A trama começa em 1997, com o lançamento de um livro que conta a corajosa história real de três jovens agentes do Mossad que foram responsáveis pela prisão e morte de um criminoso de guerra conhecido como "Cirurgião de Birkenau ", trinta anos antes. Escrito pela filha da única mulher do grupo, a veterana Rachel Singer(Helen Mirren), o livro conta detalhes da missão que a transformou, junto com seu ex-marido, Stephan Gold (Tom Wilkinson), e com seu colega David Peretz (Ciarán Hinds), em heróis internacionais. O problema é que a versão oficial divulgada em 1966 não condiz com a verdade dos fatos e a situação torna-se insustentável quando David - que nunca recuperou-se totalmente das cicatrizes emocionais do caso - volta a procurar os antigos companheiros com a notícia de que eles estão a ponto de serem desmascarados. A doença de David e a impossibilidade física de Stephan (paraplégico depois de um atentado à bomba) obrigam Rachel a tomar para si a responsabilidade de resolver o problema - o que a leva a reviver os dias de tensão e paixão que vivenciou na segunda metade dos anos 60.
Em sua primeira missão como agente do Mossad, uma jovem e idealista Rachel (vivida pela sempre ótima Jessica Chastain) viaja para Berlim, para encontrar com seus dois colegas, o experiente Stephan (Marton Csokas) e o introvertido David (Sam Worthington, muito eficiente sem os efeitos visuais de "Avatar" e "Fúria de titãs"). Escalados para capturar um médico alemão responsável pela morte de milhares de judeus devido a suas experiências cruéis, os três não demoram a localizar sua presa, mas problemas de logística os obrigam a mantê-lo como refém no apartamento em que vivem, disfarçados como uma família normal. Não demora para que o médico, que assumiu o nome de Vogel (Jasper Christensen), descubra os pontos fracos de seus raptores e passe a utilizá-los a seu favor, o que leva a todos a um desfecho inesperado, violento e que não pode ser divulgado à mídia internacional.
Ainda que assuma de vez sua veia de thriller em seu ato final - quando Rachel assume a missão de encerrar de vez a história que começou trinta anos antes - "A grande mentira" caminha até então com elegância entre o suspense e o drama. Um de seus maiores méritos é inserir, dentro do contexto de tensão extrema do sequestro do criminoso nazista, um triângulo amoroso que, ao contrário de ser apenas uma distração romântica desnecessária, é ponto fundamental para o desenrolar da trama central. Inteligente em sua edição que vai e volta no tempo para mostrar atos e consequências e discreto em apelar para o sensacionalismo que normalmente vem acoplado a produções que versam sobre os horrores da II Guerra, é um filme que, a despeito da possível inverossimilhança de sua história, um trabalho envolvente e bem realizado, feito para quem gosta de filmes sérios sobre assuntos relevantes. Uma ótima - e ainda não descoberta - pedida.
Em um primeiro e rápido olhar, o John Madden da comédia romântica "Shakespeare apaixonado" não tem rigorosamente nada do diretor do sombrio "A grande mentira", refilmagem de uma produção israelense de 1997. Porém, basta um pouquinho mais de atenção para perceber em ambos - assim como no inteligente "A prova", estrelado por Gwyneth Paltrow, Anthony Hopkins e Jake Gyllenhaal - o carinho e o cuidado que o cineasta dedica ao elenco de seus filmes. Tudo bem que contar com gente do calibre de Helen Mirren, Tom Wilkinson e Jessica Chastain ajuda muito, mas é sua sensibilidade e elegância que dão ao filme - um thriller político com toques dramáticos e românticos - a força que o mantém na memória do espectador um bom tempo após o final da projeção. Sem exagerar na violência ou carregar no sentimentalismo, Madden consegue equilibrar com sucesso todos os elementos do roteiro, tratando seu público com inteligência e respeito. Injustamente inédito nos cinemas brasileiros, onde foi lançado diretamente em DVD, "A grande mentira" é daquelas obras raras, que tratam de um tema político empolgante sem deixar de prestar atenção no lado humano da situação - e o faz com um elenco nunca menos que sensacional.
A trama começa em 1997, com o lançamento de um livro que conta a corajosa história real de três jovens agentes do Mossad que foram responsáveis pela prisão e morte de um criminoso de guerra conhecido como "Cirurgião de Birkenau ", trinta anos antes. Escrito pela filha da única mulher do grupo, a veterana Rachel Singer(Helen Mirren), o livro conta detalhes da missão que a transformou, junto com seu ex-marido, Stephan Gold (Tom Wilkinson), e com seu colega David Peretz (Ciarán Hinds), em heróis internacionais. O problema é que a versão oficial divulgada em 1966 não condiz com a verdade dos fatos e a situação torna-se insustentável quando David - que nunca recuperou-se totalmente das cicatrizes emocionais do caso - volta a procurar os antigos companheiros com a notícia de que eles estão a ponto de serem desmascarados. A doença de David e a impossibilidade física de Stephan (paraplégico depois de um atentado à bomba) obrigam Rachel a tomar para si a responsabilidade de resolver o problema - o que a leva a reviver os dias de tensão e paixão que vivenciou na segunda metade dos anos 60.
Em sua primeira missão como agente do Mossad, uma jovem e idealista Rachel (vivida pela sempre ótima Jessica Chastain) viaja para Berlim, para encontrar com seus dois colegas, o experiente Stephan (Marton Csokas) e o introvertido David (Sam Worthington, muito eficiente sem os efeitos visuais de "Avatar" e "Fúria de titãs"). Escalados para capturar um médico alemão responsável pela morte de milhares de judeus devido a suas experiências cruéis, os três não demoram a localizar sua presa, mas problemas de logística os obrigam a mantê-lo como refém no apartamento em que vivem, disfarçados como uma família normal. Não demora para que o médico, que assumiu o nome de Vogel (Jasper Christensen), descubra os pontos fracos de seus raptores e passe a utilizá-los a seu favor, o que leva a todos a um desfecho inesperado, violento e que não pode ser divulgado à mídia internacional.
Ainda que assuma de vez sua veia de thriller em seu ato final - quando Rachel assume a missão de encerrar de vez a história que começou trinta anos antes - "A grande mentira" caminha até então com elegância entre o suspense e o drama. Um de seus maiores méritos é inserir, dentro do contexto de tensão extrema do sequestro do criminoso nazista, um triângulo amoroso que, ao contrário de ser apenas uma distração romântica desnecessária, é ponto fundamental para o desenrolar da trama central. Inteligente em sua edição que vai e volta no tempo para mostrar atos e consequências e discreto em apelar para o sensacionalismo que normalmente vem acoplado a produções que versam sobre os horrores da II Guerra, é um filme que, a despeito da possível inverossimilhança de sua história, um trabalho envolvente e bem realizado, feito para quem gosta de filmes sérios sobre assuntos relevantes. Uma ótima - e ainda não descoberta - pedida.
sexta-feira
A PROVA
A
PROVA (Proof, 2005, Miramax, 100min) Direção: John Madden. Roteiro:
David Auburn, Rebecca Miller, peça teatral homônima de David Auburn.
Fotografia: Alwin H. Kuchler. Montagem: Mick Audsley. Música: Stephen
Warbeck. Figurino: Jill Taylor. Direção de arte/cenários: Alice
Normington/Barbara Herman-Skelding. Produção executiva: Julie Goldstein,
James D. Stern, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Robert
Kessel, Alison Owen. Elenco: Gwyneth Paltrow, Anthony Hopkins, Jake
Gyllenhaal, Hope Davis. Estreia: 05/9/05 (Festival de Veneza)
Em 1998, o diretor John Madden e a atriz Gwyneth Paltrow estiveram à frente de um grande sucesso de bilheteria e Oscar (sete estatuetas, incluindo melhor filme) com a deliciosa comédia romântica "Shakespeare apaixonado", que especulava a respeito de uma história de amor proibido entre o dramaturgo de "Romeu e Julieta" e uma dama da sociedade inglesa comprometida com outro homem e que sonhava tornar-se estrela dos palcos. Sete anos mais tarde, eles voltaram a se encontrar para tentar reconquistar os membros da Academia, dessa vez em um tom mais sério, com a adaptação para as telas de uma peça teatral sobre assuntos não muito atraentes: matemática e loucura. Não deu certo, pelo menos em termos de reconhecimento e prestígio: mesmo com o apoio luxuoso de Anthony Hopkins no elenco, "A prova" - baseado no texto original de David Auburn que estreou nos palcos em 2000 - não chegou a entusiasmar nem o público nem a crítica. Não deixa de ser uma pena, já que é um filme interessante e correto, calcado em atuações intensas e uma trama mais inteligente que a média.
Ciência é o ponto de partida de "A prova": depois da morte do prestigiado e louvado Robert (Anthony Hopkins) - autor de vários teoremas matemáticos louvados por mestres e alunos - sua filha caçula, Catherine (Gwyneth Paltrow), que cuidou dele em seus últimos anos, entra em uma severa crise nervosa, temendo sofrer dos mesmos problemas mentais do pai. Aos vinte e sete anos e também estudiosa de matemática, ela demonstra grande talento e inteligência, mas deixa que sua aflição tenha mais influência sobre sua personalidade do que seu gênio. Seus problemas ficam ainda maiores quando sua irmã mais velha, Claire (Hope Davis), chega para o funeral e inicia o processo de levá-la com ela para um recomeço em Nova York - mesmo que isso não estivesse exatamente em seus planos, principalmente porque Catherine está iniciando um romance com Harold (Jake Gyllenhaal), aluno de seu pai que acredita que há a prova de um teorema complicadíssimo entre os escritos do desequilibrado matemático.
Intercalando passado e presente como forma de dar ao público a mesma sensação de desamparo e confusão com que Catherine se depara em sua angústia, o roteiro dos dramaturgos David Auburn (autor da peça original) e Rebecca Miller (filha de Arthur e esposa de Daniel Day-Lewis) consegue a proeza de tratar de assuntos pouco comerciais e até um tanto delicados com suavidade e leveza, nunca deixando que a trama descambe para o clichê e a intelectualidade excessiva. Apesar de ter a matemática como ponto de partida da história, o que se destaca é principalmente a relação de sua protagonista com os demais personagens e com seu medo de perder a sanidade. Essa estrutura dramática dá espaço mais do que o suficiente para seus atores brilharem, especialmente graças aos diálogos densos e à complexidade das relações interpessoais gerada pela trama. Gwyneth Paltrow se destaca, em uma interpretação delicada e contida que mostra dentro de uma atriz muito questionada por ter ganho um Oscar inesperado vive uma intérprete dedicada e capaz de transmitir os mais variados sentimentos. Com um olhar expressivo e que dá margem a inúmeras interpretações, ela consegue sobressair-se até mesmo ao veterano Anthony Hopkins.
Servindo apenas como base de uma trama centralizada nos conflitos entre Catherine e sua irmã - chique, bem resolvida e alienada em relação ao universo científico de sua família - Hopkins é a presença magnética de sempre, derramando seu fleuma elegante pela tela mesmo quando seu personagem está à beira da loucura. Seus embates com Paltrow - em particular a bela cena em que a filha percebe o estado mental do pai - são fascinantes, em parte graças ao texto forte, em parte à direção econômica de John Madden, mais uma vez comprovando seu talento em não deixar-se levar pela vaidade de chamar mais a atenção que a história ou os atores. Tratando o roteiro como o principal elemento de seu trabalho, ele faz de "A prova" um filme inteligente e direto, feito para quem gosta de assistir a bons atores defendendo um bom texto. Não é para todos, mas nem sempre bom cinema o é.
Em 1998, o diretor John Madden e a atriz Gwyneth Paltrow estiveram à frente de um grande sucesso de bilheteria e Oscar (sete estatuetas, incluindo melhor filme) com a deliciosa comédia romântica "Shakespeare apaixonado", que especulava a respeito de uma história de amor proibido entre o dramaturgo de "Romeu e Julieta" e uma dama da sociedade inglesa comprometida com outro homem e que sonhava tornar-se estrela dos palcos. Sete anos mais tarde, eles voltaram a se encontrar para tentar reconquistar os membros da Academia, dessa vez em um tom mais sério, com a adaptação para as telas de uma peça teatral sobre assuntos não muito atraentes: matemática e loucura. Não deu certo, pelo menos em termos de reconhecimento e prestígio: mesmo com o apoio luxuoso de Anthony Hopkins no elenco, "A prova" - baseado no texto original de David Auburn que estreou nos palcos em 2000 - não chegou a entusiasmar nem o público nem a crítica. Não deixa de ser uma pena, já que é um filme interessante e correto, calcado em atuações intensas e uma trama mais inteligente que a média.
Ciência é o ponto de partida de "A prova": depois da morte do prestigiado e louvado Robert (Anthony Hopkins) - autor de vários teoremas matemáticos louvados por mestres e alunos - sua filha caçula, Catherine (Gwyneth Paltrow), que cuidou dele em seus últimos anos, entra em uma severa crise nervosa, temendo sofrer dos mesmos problemas mentais do pai. Aos vinte e sete anos e também estudiosa de matemática, ela demonstra grande talento e inteligência, mas deixa que sua aflição tenha mais influência sobre sua personalidade do que seu gênio. Seus problemas ficam ainda maiores quando sua irmã mais velha, Claire (Hope Davis), chega para o funeral e inicia o processo de levá-la com ela para um recomeço em Nova York - mesmo que isso não estivesse exatamente em seus planos, principalmente porque Catherine está iniciando um romance com Harold (Jake Gyllenhaal), aluno de seu pai que acredita que há a prova de um teorema complicadíssimo entre os escritos do desequilibrado matemático.
Intercalando passado e presente como forma de dar ao público a mesma sensação de desamparo e confusão com que Catherine se depara em sua angústia, o roteiro dos dramaturgos David Auburn (autor da peça original) e Rebecca Miller (filha de Arthur e esposa de Daniel Day-Lewis) consegue a proeza de tratar de assuntos pouco comerciais e até um tanto delicados com suavidade e leveza, nunca deixando que a trama descambe para o clichê e a intelectualidade excessiva. Apesar de ter a matemática como ponto de partida da história, o que se destaca é principalmente a relação de sua protagonista com os demais personagens e com seu medo de perder a sanidade. Essa estrutura dramática dá espaço mais do que o suficiente para seus atores brilharem, especialmente graças aos diálogos densos e à complexidade das relações interpessoais gerada pela trama. Gwyneth Paltrow se destaca, em uma interpretação delicada e contida que mostra dentro de uma atriz muito questionada por ter ganho um Oscar inesperado vive uma intérprete dedicada e capaz de transmitir os mais variados sentimentos. Com um olhar expressivo e que dá margem a inúmeras interpretações, ela consegue sobressair-se até mesmo ao veterano Anthony Hopkins.
Servindo apenas como base de uma trama centralizada nos conflitos entre Catherine e sua irmã - chique, bem resolvida e alienada em relação ao universo científico de sua família - Hopkins é a presença magnética de sempre, derramando seu fleuma elegante pela tela mesmo quando seu personagem está à beira da loucura. Seus embates com Paltrow - em particular a bela cena em que a filha percebe o estado mental do pai - são fascinantes, em parte graças ao texto forte, em parte à direção econômica de John Madden, mais uma vez comprovando seu talento em não deixar-se levar pela vaidade de chamar mais a atenção que a história ou os atores. Tratando o roteiro como o principal elemento de seu trabalho, ele faz de "A prova" um filme inteligente e direto, feito para quem gosta de assistir a bons atores defendendo um bom texto. Não é para todos, mas nem sempre bom cinema o é.
quinta-feira
SHAKESPEARE APAIXONADO
SHAKESPEARE APAIXONADO (Shakespeare in love, 1998, Universal Pictures/Miramax Films, 123min) Direção: John Madden. Roteiro: Marc Norman, Tom Stoppard. Fotografia: Richard Greatrex. Montagem: David Gamble. Música: Stephen Warbeck. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: Martin Childs/Jill Quertier. Produção executiva: Julie Goldstein, Bob Weinstein. Produção: Donna Gigliotti, Marc Norman, David Parfitt, Harvey Weinstein, Edward Zwick. Elenco: Joseph Fiennes, Gwyneth Paltrow, Judi Dench, Colin Firth, Geoffrey Rush, Tom Wilkinson, Ben Affleck, Rupert Everett, Imelda Staunton, Simon Callow. Estreia: 11/12/98
13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (John Madden), Atriz (Gwyneth Paltrow), Ator Coadjuvante (Geoffrey Rush), Atriz Coadjuvante (Judi Dench), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Comédia ou Musical, Figurino, Direção de arte/cenários, Maquiagem, Som
Vencedor de 7 Oscar: Melhor Filme, Atriz (Gwyneth Paltrow), Atriz Coadjuvante (Judi Dench), Roteiro Original, Trilha Sonora Original/Comédia ou Musical, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Comédia ou Musical, Atriz/Comédia ou Musical (Gwyneth Paltrow), Roteiro
Em 1999, quando a comédia "Shakespeare apaixonado" levou o Oscar de Melhor Filme, os fãs de cinema que ainda não estavam acostumados com as idiossincrasias da Academia ficaram chocados e frustrados. Afinal de contas, perguntavam todos, como um filme tão leve e de interesse quase restrito - convenhamos que Shakespeare não é exatamente um nome que atraia audiências em massa para as salas de cinema - poderia ter sido eleito o melhor do ano, batendo obras tão fortes como "O resgate do soldado Ryan" e "Além da linha vermelha" (o supervalorizado filme de Terrence Malick com elenco grandioso e ritmo inexistente)? A maior surpresa, no entanto, advém de um simples fato: com exceção do prêmio de melhor atriz para Gwyneth Paltrow (que tem uma presença luminosa mas nunca espetacular), todas as 7 estatuetas que o filme de John Madden foram absolutamente merecidas. Sim, é uma comédia e é raro que o gênero seja reconhecido em cerimônias de premiação. Sim, seu diretor é correto mas nunca eficiente. E sim, talvez o drama de guerra de Steven Spielberg seja mais marcante. Mas a fictícia história de amor que envolve o maior dramaturgo da história com uma jovem prometida a outro homem é um romance engraçado e inteligente, capaz de estampar sorrisos no rosto do mais cético espectador.
Escrito por Marc Norman e Tom Stoppard, especialistas na obra do dramaturgo - o segundo inclusive é autor da peça teatral "Rosencrantz e Guildenrstern estão mortos" (cujos protagonistas são dois coadjuvantes de "Hamlet", e que virou filme estrelado por Gary Oldman e Tim Roth) - "Shakespeare apaixonado" está recheado de referências a trabalhos do bardo, de forma explícita ou nem tanto e aos costumes da época em que se passa, além de enxertar no texto personagens reais como o teatrólogo Christopher Marlowe (em uma rápida aparição do ótimo Rupert Everett). Apresentando também uma leve crítica à maneira machista como o teatro era tratado (mulheres eram proibidas de atuar, sendo os papéis femininos representados por adolescentes do sexo masculino), o filme brinca de maneira leve com os bastidores teatrais - talvez tenham vindo daí muitos dos votos, afinal boa parte da Academia é formada por atores - e especula a respeito da criação de um dos mais conhecidos textos de Shakespeare, "Romeu e Julieta".
A trama começa mostrando um jovem William Shakespeare (interpretado com graça e leveza por Joseph Fiennes) enfrentando um tremendo bloqueio criativo justamente quando é pressionado pelo aflito Philip Henslowe (Geoffrey Rush, indicado ao Oscar de coadjuvante), que precisa urgentemente de uma nova peça sob pena de sofrer nas mãos de seus credores. Sem saber que rumos dar à sua nova história, intitulada "Romeu e Ethel, a filha do pirata", o autor frequenta analistas, faz simpatias e busca dicas até mesmo de outros dramaturgos. A situação muda quando ele encontra uma musa inspiradora, a bela Viola de Lesseps (Gwyneth Paltrow), por quem se apaixona perdidamente sem saber que ela se disfarça de homem, sob o nome de Thomas Kent, para atuar em segredo em suas peças de teatro. Quando o engano é descoberto, eles iniciam um ardente romance, ameaçado pelo fato de a moça ser prometida ao nobre Lord Wessex (Colin Firth). Sua história de amor acaba influenciando sua obra, que passa de uma comédia ligeira - com um cão, como mandava o público - a uma intensa tragédia.

Inspirado na famosa dúvida sobre a musa para quem Shakespeare escreveu a maior parte de seus sonetos de amor, o filme de John Madden (que nunca chegou a manter o mesmo equilíbrio em seus trabalhos posteriores) se beneficia de um elenco impecável para atingir seu alto grau de entretenimento. Bastou oito minutos em cena para que Judi Dench tenha levado o Oscar de coadjuvante e Gwyneth Paltrow, se ofendeu os fãs de Meryl Streep, Fernanda Montenegro, Emily Watson e Cate Blanchett, não tem culpa nenhuma: seu trabalho é delicado, discreto e carismático, apesar de nunca ser brilhante ou inesquecível. Vale lembrar que, quando "Shakespeare apaixonado" começou a ser produzido, no início da década de 90, era Julia Roberts quem faria seu papel, ao lado de Daniel Day-Lewis. O ator preferiu ir fazer "Em nome do pai", o diretor Edward Zwick pulou fora do projeto e tudo ficou engavetado. Paltrow abocanhou o papel depois da recusa de Kate Winslet - e das prováveis candidatas Winona Ryder, Meg Ryan e Jodie Foster - e realizou um trabalho que lhe garantiu uma estatueta (mas não necessariamente um respeito unânime). Mas é bom também elogiar sua química com Joseph Fiennes, que, seguindo os passos do irmão mais velho, Ralph, esteve em dois filmes de grande visibilidade em 1998 - o outro foi "Elizabeth" - e conseguiu fazê-los de maneira convincente. Pena que o resto de sua carreira não manteve o mesmo nível.
Com uma trilha sonora deliciosa, uma edição extremamente eficaz e uma reconstituição de época impecável - além de um texto saboroso - "Shakespeare apaixonado" é uma pérola de criatividade e inteligência. Mereceu, sim, o Oscar de Melhor Filme.
13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (John Madden), Atriz (Gwyneth Paltrow), Ator Coadjuvante (Geoffrey Rush), Atriz Coadjuvante (Judi Dench), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Comédia ou Musical, Figurino, Direção de arte/cenários, Maquiagem, Som
Vencedor de 7 Oscar: Melhor Filme, Atriz (Gwyneth Paltrow), Atriz Coadjuvante (Judi Dench), Roteiro Original, Trilha Sonora Original/Comédia ou Musical, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Comédia ou Musical, Atriz/Comédia ou Musical (Gwyneth Paltrow), Roteiro
Em 1999, quando a comédia "Shakespeare apaixonado" levou o Oscar de Melhor Filme, os fãs de cinema que ainda não estavam acostumados com as idiossincrasias da Academia ficaram chocados e frustrados. Afinal de contas, perguntavam todos, como um filme tão leve e de interesse quase restrito - convenhamos que Shakespeare não é exatamente um nome que atraia audiências em massa para as salas de cinema - poderia ter sido eleito o melhor do ano, batendo obras tão fortes como "O resgate do soldado Ryan" e "Além da linha vermelha" (o supervalorizado filme de Terrence Malick com elenco grandioso e ritmo inexistente)? A maior surpresa, no entanto, advém de um simples fato: com exceção do prêmio de melhor atriz para Gwyneth Paltrow (que tem uma presença luminosa mas nunca espetacular), todas as 7 estatuetas que o filme de John Madden foram absolutamente merecidas. Sim, é uma comédia e é raro que o gênero seja reconhecido em cerimônias de premiação. Sim, seu diretor é correto mas nunca eficiente. E sim, talvez o drama de guerra de Steven Spielberg seja mais marcante. Mas a fictícia história de amor que envolve o maior dramaturgo da história com uma jovem prometida a outro homem é um romance engraçado e inteligente, capaz de estampar sorrisos no rosto do mais cético espectador.
Escrito por Marc Norman e Tom Stoppard, especialistas na obra do dramaturgo - o segundo inclusive é autor da peça teatral "Rosencrantz e Guildenrstern estão mortos" (cujos protagonistas são dois coadjuvantes de "Hamlet", e que virou filme estrelado por Gary Oldman e Tim Roth) - "Shakespeare apaixonado" está recheado de referências a trabalhos do bardo, de forma explícita ou nem tanto e aos costumes da época em que se passa, além de enxertar no texto personagens reais como o teatrólogo Christopher Marlowe (em uma rápida aparição do ótimo Rupert Everett). Apresentando também uma leve crítica à maneira machista como o teatro era tratado (mulheres eram proibidas de atuar, sendo os papéis femininos representados por adolescentes do sexo masculino), o filme brinca de maneira leve com os bastidores teatrais - talvez tenham vindo daí muitos dos votos, afinal boa parte da Academia é formada por atores - e especula a respeito da criação de um dos mais conhecidos textos de Shakespeare, "Romeu e Julieta".
A trama começa mostrando um jovem William Shakespeare (interpretado com graça e leveza por Joseph Fiennes) enfrentando um tremendo bloqueio criativo justamente quando é pressionado pelo aflito Philip Henslowe (Geoffrey Rush, indicado ao Oscar de coadjuvante), que precisa urgentemente de uma nova peça sob pena de sofrer nas mãos de seus credores. Sem saber que rumos dar à sua nova história, intitulada "Romeu e Ethel, a filha do pirata", o autor frequenta analistas, faz simpatias e busca dicas até mesmo de outros dramaturgos. A situação muda quando ele encontra uma musa inspiradora, a bela Viola de Lesseps (Gwyneth Paltrow), por quem se apaixona perdidamente sem saber que ela se disfarça de homem, sob o nome de Thomas Kent, para atuar em segredo em suas peças de teatro. Quando o engano é descoberto, eles iniciam um ardente romance, ameaçado pelo fato de a moça ser prometida ao nobre Lord Wessex (Colin Firth). Sua história de amor acaba influenciando sua obra, que passa de uma comédia ligeira - com um cão, como mandava o público - a uma intensa tragédia.

Inspirado na famosa dúvida sobre a musa para quem Shakespeare escreveu a maior parte de seus sonetos de amor, o filme de John Madden (que nunca chegou a manter o mesmo equilíbrio em seus trabalhos posteriores) se beneficia de um elenco impecável para atingir seu alto grau de entretenimento. Bastou oito minutos em cena para que Judi Dench tenha levado o Oscar de coadjuvante e Gwyneth Paltrow, se ofendeu os fãs de Meryl Streep, Fernanda Montenegro, Emily Watson e Cate Blanchett, não tem culpa nenhuma: seu trabalho é delicado, discreto e carismático, apesar de nunca ser brilhante ou inesquecível. Vale lembrar que, quando "Shakespeare apaixonado" começou a ser produzido, no início da década de 90, era Julia Roberts quem faria seu papel, ao lado de Daniel Day-Lewis. O ator preferiu ir fazer "Em nome do pai", o diretor Edward Zwick pulou fora do projeto e tudo ficou engavetado. Paltrow abocanhou o papel depois da recusa de Kate Winslet - e das prováveis candidatas Winona Ryder, Meg Ryan e Jodie Foster - e realizou um trabalho que lhe garantiu uma estatueta (mas não necessariamente um respeito unânime). Mas é bom também elogiar sua química com Joseph Fiennes, que, seguindo os passos do irmão mais velho, Ralph, esteve em dois filmes de grande visibilidade em 1998 - o outro foi "Elizabeth" - e conseguiu fazê-los de maneira convincente. Pena que o resto de sua carreira não manteve o mesmo nível.
Com uma trilha sonora deliciosa, uma edição extremamente eficaz e uma reconstituição de época impecável - além de um texto saboroso - "Shakespeare apaixonado" é uma pérola de criatividade e inteligência. Mereceu, sim, o Oscar de Melhor Filme.
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