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domingo

A CASA DO FIM DO MUNDO

A CASA DO FIM DO MUNDO (A home at the end of the world, 2004, Warner Independent Pictures, 97min) Direção: Michael Mayer. Roteiro: Michael Cunningham, romance de sua autoria. Fotografia: Enrique Chediak. Montagem: Andrew Marcus, Lee Percy. Música: Duncan Sheik. Figurino: Beth Pasternak. Direção de arte/cenários: Michael Shaw/Mark Steel. Produção executiva: Michael Hogan, John Sloss. Produção: John N. Hart Jr., Tom Hulce, Pamela Koffler, Katie Roumel, Jeffrey Sharp, Christine Vachon, John Wells. Elenco: Colin Farrell, Dallas Roberts, Robin Wright Penn, Sissy Spacek, Erik Smith, Harris Allan. Estreia: 09/6/94

Michael Cunningham é um excelente escritor. Vencedor do Pulitzer por "As horas" - que deu origem ao filme vencedor do Oscar de melhor atriz (Nicole Kidman) - e autor devidamente reconhecido pela qualidade consistente de seus personagens, ele achou que poderia, também, virar roteirista de cinema. Porém, uma coisa é escrever um romance, com espaço para divagações e aprofundamentos psicológicos e outra bem diferente é colocar em imagens as situações e personagens imaginadas - especialmente quando não se tem muito tempo para isso. É por isso que "A casa do fim do mundo", baseado em um livro escrito por ele mesmo, não funciona como poderia em sua transição para as telas. Enquanto "As horas" foi adaptado pelo dramaturgo David Hare, acostumado com a linguagem dramática e experiente em dotar de ritmo até mesmo um enredo truncado por uma estrutura que comportava três tempos diferentes, a versão para as telas de "Uma casa no fim do mundo" (título bem mais apropriado, apesar da pequena diferença) não chega nem aos pés do material original, esvaziando seus personagens e a trama central e banalizando sua discussão a respeito de amizade, amor e definições de família.

Prejudicado pela inexperiência de seu diretor, Michael Mayer, estreando em longas-metragem, e pelo roteiro superficial (uma decepção, haja visto que Cunningham é um escritor comprovadamente capaz), "A casa do fim do mundo" não atinge nem de longe todo o seu potencial. Começando pelas caracterizações um tanto óbvias e preguiçosas, passando por um desenvolvimento sonolento e culminando com um final anticlimático, o filme desperdiça bons atores em uma produção que nem ao menos tenta ser ousada ou corajosa. Os personagens, riquíssimos nas páginas do romance, parecem apenas estereótipos na tela, clichês ambulantes que não conseguem cativar o espectador ou sequer interessá-lo em uma trama que corre aos tropeções, sem nenhuma sutileza ou emoção. Some-se a isso a falta de carisma de Dallas Roberts - um dos protagonistas - e a falta de química entre Colin Farrell e Robin Wright (então ainda assinando com o sobrenome de Sean Penn) e o resultado é desastroso. Só não é pior porque, apesar da direção sem inspiração, Farrell e Wright são sensacionais e compensam (quase) todos os deslizes.


Assim como no livro, a estória começa mostrando o início da amizade entre Bobby e Jonathan, dois adolescentes que, em 1974, estão prestes a se aventurar no mundo das drogas e do sexo. Bobby é traumatizado pela morte trágica do irmão mais velho, e vive com o pai alcóolatra desde que perdeu a mãe - o que o faz aproximar-se ainda mais de Alice (Sissy Spacek), a mãe de Jonathan. O relacionamento dos rapazes vai ficando cada vez mais íntimo (em todos os quesitos) e eles se separam apenas quando Jonathan abandona Cleveland para estudar em Nova York. Alguns anos mais tarde, Bobby (já na pele de Colin Farrell, um tanto deslocado no papel) resolve procurar o velho amigo e tentar a vida longe da zona de conforto. É então que chega ao apartamento onde Jonathan (interpretado pelo novato Dallas Roberts) vive com Clare (Robin Wright Penn), uma mulher um pouco mais velha com quem ele mantém um relacionamento pouco tradicional. Logo Bobby e Clare se envolvem - a despeito dela ser apaixonada por Jonathan - e os três passam a viver juntos, como uma atípica família. As coisas avançam quando Clare fica grávida e todos eles resolvem se mudar para uma propriedade afastada, perto de Woodstock.

Os lances dramáticos da trama, costurados com delicadeza no romance, são jogados ao espectador sem muita parcimônia, na adaptação feita por Cunningham. Todas as nuances que envolvem o triângulo amoroso central - Bobby ama Clare, que ama Jonathan, que ama Bobby - são desenvolvidos quase com medo, sem aprofundamento algum. Temas como a homossexualidade de Jonathan, seu relacionamento com Bobby e a doença que os aproxima ainda mais, são tratados sem a delicadeza esperada - assim como a relação entre Clare e Bobby, que soa abrupta e inverossímil. O próprio Bobby é dono de uma inocência tão grande que é difícil de acreditar, principalmente porque Colin Farrell - um ótimo ator, fato já demonstrado diversas vezes - soa desconfortável em boa parte do filme. Além disso, tudo parece muito fácil para os protagonistas: não há conflitos, não há grandes problemas (ao menos na forma como tudo é tratado pelo roteiro) e até o final é completamente incoerente. Uma pena que um livro tão formidável tenha sido adaptado com tão pouco cuidado justamente por seu autor. Poderia ser mais uma obra-prima, mas é apenas um filme muito aquém de suas possibilidades.

terça-feira

O DESTINO MUDOU SUA VIDA

O DESTINO MUDOU SUA VIDA (Coal miner's daughter, 1980, Universal Pictures, 124min) Direção: Michael Apted. Roteiro: Tom Rickman, livro de Loretta Lynn, George Vecsey. Fotografia: Ralf D. Bode. Montagem: Arthur Schmidt. Figurino: Joe I. Tompkins. Direção de arte/cenários: John W. Corso/John M. Dwyer. Produção executiva: Bob Larson. Produção: Bernard Schwartz. Elenco: Sissy Spacek, Tommy Lee Jones, Beverly D'Angelo, Levon Helm, Phyllis Boyens. Estreia: 07/3/80

07 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Sissy Spacek), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Sissy Spacek)
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia/Musical), Atriz Comédia/Musical (Sissy Spacek) 

Para muita gente (especialmente no Brasil), o nome Loretta Lynn não significa muita coisa. Nos EUA, porém, a história é bem diferente: uma das cantoras mais reconhecidas e famosas do país, Lynn tem inúmeros prêmios nas prateleiras (incluindo o Grammy) e é, desde a década de 60, uma referência em música country e gospel. O tamanho de sua importância é tanto que em 1980 ela recebeu uma das maiores homenagens que podem ser feitas a um artista vivo: um filme contando sua vida, produzido por um grande estúdio (a Universal Pictures) e com visibilidade e prestígio o bastante para chegar até a temporada de premiações e sair dela com alguns troféus muito ambicionados. Indicado ao Oscar de melhor filme, "O destino mudou sua vida" deu à Sissy Spacek a estatueta dourada de melhor atriz - além de todos os outros prêmios do ano, das associações de críticos ao Golden Globe. A chuva de aplausos reconhece justamente o melhor do filme, baseado em uma autobiografia da cantora, escrita em parceria com George Vecsey: convencional e sem muito brilho narrativo, "O destino mudou sua vida" deve seu sucesso à Spacek, convincente em todas as fases da personagem e mostrando um surpreendente talento vocal.

Escolhida pessoalmente pela própria Loretta Lynn para interpretá-la nas telas, e batendo até mesmo Meryl Streep na disputa pelo papel, Sissy Spacek mostra, em "O destino mudou sua vida", uma outra faceta de seu talento. Indicada ao Grammy de melhor vocal feminina em música country, ela não hesita em soltar a voz nas apresentações de Lynn, assim como sua parceira de cena Beverly D'Angelo, que interpreta a cantora Patsy Cline, grande inspiração da protagonista e que se torna sua amiga íntima durante sua trajetória rumo ao sucesso. Em sua preparação para o papel, Spacek acompanhou Lynn em uma de suas turnês, e, mantendo-se no personagem mesmo quando não estava diante das câmeras, ela impressiona com uma caracterização impecável, em expressão corporal, sotaque e, mais importante que tudo, compreensão dos variados estados de espírito de sua personagem. De adolescente insegura e apaixonada à artista consagrada, a Loretta Lynn criada pela atriz conquista pela força e pela honestidade de sua arte - surgida de suas experiências pessoais e totalmente autodidata.


O acontecimento mais importante da vida de Loretta - antes da fama e do sucesso - foi o encontro com aquele que seria seu futuro marido, Oliver 'Moon' Lynn (Tommy Lee Jones). O ano era 1947 e, com apenas 13 anos de idade, a filha mais velha de um mineiro do Kentucky, se apaixona à primeira vista, apesar da objeção dos pais. O casamento quase imediato sofre com a inexperiência da garota e a falta de jeito do marido, mas uma gravidez logo os une definitivamente e eles se mudam para Washington. Alguns mais mais tarde e já mãe de quatro filhos, Loretta é uma competente dona-de-casa e tem sua vida transformada com um presente aparentemente inútil que ganha do marido: um violão. Apaixonada por música, ela aprende sozinha a tocar e, com o apoio de Moon, começa a apresentar-se em festas locais de música country. Entusiasmada, passa a compor as próprias canções e, ao lado do marido, vai em busca do sucesso, procurando gravadoras e shows para demonstrar seu trabalho. Começa aí uma trajetória de êxito e respeito que a levará a se tornar uma das mais conhecidas cantoras country de sua geração.

Sem grandes acontecimentos dramáticos além da vida pessoal da protagonista, sacrificada em prol da carreira - e uma morte que o filme trata sem dar muita importância -, "O destino mudou sua vida" é uma produção correta, sem grandes escorregões mas igualmente sem muito brilho. Sissy Spacek realmente carrega o filme nas costas, com uma interpretação irretocável, mas a direção de Michael Apted (que depois levaria Sigourney Weaver e Jodie Foster à disputa pelo Oscar em "Nas montanhas dos gorilas", de 1988, e "Nell", de 1994, respectivamente) não consegue fazer milagres com um roteiro que, ao seguir a linha cronológica dos acontecimentos, serve apenas para retratar, sem muita inventividade, uma carreira linear e quase desinteressante - à parte o trabalho de Spacek, a história de Loretta não chega a entusiasmar àqueles que não conhecem sua música, e a edição tampouco ajuda (alguns minutos a menos não faria mal nenhum à trama). No final das contas, um filme honesto e bem realizado, mas que não justifica as sete indicações ao Oscar (incluindo melhor filme e roteiro adaptado). Vale por Sissy, uma grande atriz no papel de sua vida!

DESAPARECIDO: UM GRANDE MISTÉRIO

DESAPARECIDO: UM GRANDE MISTÉRIO (Missing, 1982, Universal Pictures, 122min) Direção: Costa-Gavras. Roteiro: Costa-Gavras, Donald Stewart, livro de Thomas Hauser. Fotografia: Ricardo Aronovich. Montagem: Françoise Bonnott. Música: Vangelis. Figurino: Joe I. Tompkins. Direção de arte/cenários: Peter Jamison/Linda Spheeris. Produção executiva: Peter Guber, Jon Peters. Produção: Edward Lewis, Mildred Lewis. Elenco: Jack Lemmon, Sissy Spacek, Melanie Mayron, John Shea, Jerry Hardin. Estreia: 12/02/82

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Jack Lemmon), Atriz (Sissy Spacek), Roteiro Adaptado
Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado
Palma de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Filme, Melhor Ator (Jack Lemmon) 

Se há uma qualidade que jamais poderá ser negada ao cineasta grego Costa-Gavras é coragem! Em 1969, ele sacudiu o mundo com seu polêmico "Z" - e ganhou um Oscar de melhor filme estrangeiro por isso; em 1972, voltou a mexer no vespeiro político com "Estado de sítio". E em 1982, com o apoio de um grande estúdio de Hollywood (a Paramount) e com dois grandes atores americanos à frente de seu elenco (Jack Lemmon e Sissy Spacek), teve a suprema ousadia de apontar o dedo para a colaboração da CIA no golpe de estado ocorrido no Chile em 1973. Mesmo não citando nominalmente o país governado por Salvador Allende até sua deposição - para proteger inocentes e o filme em si, conforme os créditos de abertura -, o filme "Desaparecido: um grande mistério", baseado no livro de Thomas Hauser tampouco esconde sua origem (a ponto de mostrar um caixão com o nome da capital do país, Santiago, em uma de suas cenas mais cruciais) e toca sem medo em um assunto que tanto o governo norte-americano quanto os espectadores certamente prefeririam esquecer (ou sequer conhecer). Premiado com a Palma de Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes (que também deu a Jack Lemmon sua láurea de melhor ator) e indicado a quatro Oscar (incluindo melhor filme mas não de melhor diretor), o longa de Costa-Gavras é a confirmação de seu talento em buscar temas controversos - e transformá-los em grandes e relevantes produções cinematográficas.

O golpe de mestre de "Desaparecidos" talvez seja aproximar o público médio de um tema difícil através de personagens menos distantes de sua realidade. O casal norte-americano que vive no Chile e é pego de surpresa com um golpe militar que transforma radicalmente sua rotina está muito longe de ser uma dupla de heróis - ele, Charles Horman (John Shea) é um jornalista e tradutor, e ela, Beth (Sissy Spacek, indicada ao Oscar de melhor atriz), dona de casa. Sua escolha em viver no país tem a ver apenas com seus pontos de vista menos conservadores, que batem de frente, por exemplo, com aqueles do pai de Charles, Ed (Jack Lemmon), um homem religioso que vê a aventura do filho e da nora com olhos pouco simpáticos. Quando Charles desaparece e Beth ouve dos vizinhos que ele foi levado por soldados, começa uma busca desesperada por seu paradeiro - um caminho repleto de meias-verdades, opressão e ameaças veladas, que a faz aceitar sem reservas a ajuda do sogro, que chega de Nova York com o objetivo claro de localizar o filho. A princípio contando com o apoio da embaixada norte-americana, aos poucos a dupla começa a compreender o horror da ditadura - e descobrem que o sumiço de Charles pode ter a ver com o fato de ele saber mais do que deveria a respeito da participação dos EUA no golpe.


Narrado em ritmo de thriller - um gênero no qual o cineasta exercita todo o seu poder de persuasão - e explorando com perfeição a trilha sonora de Vangelis e a edição caprichada de Françoise Bonnot, "Desaparecido" envolve o público gradualmente, construindo seu suspense com maestria e sensibilidade. A partir do desaparecimento de Charles e do começo da procura incansável de Beth e Ed, o filme mergulha o espectador em um labirinto de mentiras e decepções, enquanto aproxima lentamente sogro e nora antes incompatíveis. Essa artimanha, ao contrário de enfraquecer a denúncia política, a torna universal, e se torna ainda mais potente graças às atuações na medida certa de Jack Lemmon e Sissy Spacek: conforme a barra vai ficando mais e mais pesada, seus desempenhos exemplares vão demonstrando uma série de nuances até então reprimidas. O roteiro vencedor do Oscar de Costa-Gavras e Donald Stewart também acerta ao ir revelando paulatinamente as pistas sobre o paradeiro de Charles - até chegar a um clímax incômodo e doloroso que abalou tanto o governo do Chile (que o proibiu durante a ditadura de Pinochet) quanto o norte-americano (que lançou uma declaração poucos dias antes da estreia do filme negando terminantemente as acusações feitas pela trama).

Elogiado unanimemente pela crítica - o National Board of Review o escolheu como um dos melhores filmes de 1982 - e a estreia de Costa-Gavras no cinema americano, "Desaparecido: um grande mistério" é um filme político que não exige do público um conhecimento prévio do assunto. Escrito com inteligência e dirigido com extremo senso de respeito pela história contada, é uma obra que conquista pela seriedade e pela sobriedade: mesmo diante de acontecimentos trágicos, seus personagens não apelam para o piegas, evitando ao máximo catarses emocionais exageradas: esplêndidos em seus papéis, Lemmon e Spacek comunicam ao máximo com o mínimo de recursos, sublinhando cada linha de diálogo (ou cada momento de silêncio devastador) com seu grande talento. Uma obra adulta, séria, relevante e infelizmente cada vez mais atual, "Desaparecidos" é um filme que precisa ser redescoberto e louvado como um dos mais importantes da década de 1980.

quinta-feira

HISTÓRIAS CRUZADAS

HISTÓRIAS CRUZADAS (The help, 2011, Dreamworks SKG/Reliance Entertainment, 146min) Direção: Tate Taylor. Roteiro: Tate Taylor, romance de Kathryn Stockett. Fotografia: Stephen Goldblatt. Montagem: Hughes Winborne. Música: Thomas Newman. Figurino: Sharen Davis. Direção de arte/cenários: Mark Ricker/Rena DeAngelo. Produção executiva: Mohamed Mubarak Al Mazrouei, Nate Berkus, Jennifer Blum, L. Dean Jones Jr., John Norris, Mark Radcliffe, Jeff Skoll, Tate Taylor. Produção: Michael Barnathan, Chris Columbus, Brunson Green. Elenco: Emma Stone, Viola Davis, Octavia Spencer, Bryce Dallas Howard, Jessica Chastain, Sissy Spacek, Allison Janney, Mary Steenburgen, Cicely Tyson. Estreia: 09/8/11

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Viola Davis), Atriz Coadjuvante (Jessica Chastain, Octavia Spencer)
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer) 

É preciso ser honesto: somente a quase histeria em relação ao politicamente correto pode justificar todo o oba-oba em torno do drama "Histórias Cruzadas", adaptado do romance de Kathryn Stockett (publicado no Brasil pela editora Bertrand com o título "A resposta"). Apesar de seu elenco impecável, de alguns momentos realmente emocionantes (sempre proporcionados pela arrasadora Viola Davis) e do assunto sempre relevante (independente de época e geografia), o filme de Tate Taylor não consegue escapar da impressão de ser mais um filme-fórmula, esbarrando em clichês e, pior ainda, apelando para uma desnecessária escatologia que disfarça como humor, para cativar seu público. Sua calorosa receptividade, tanto em termos comerciais - mais de 170 milhões de dólares arrecadados somente nos EUA - quanto críticos - cinco indicações ao Golden Globe e outras quatro para o Oscar, incluindo melhor filme - parece dizer muito mais sobre o sentimento de culpa da América sobre a forma com que os negros sempre foram tratados em sua história (e na do cinema em si) do que sobre suas qualidades cinematográficas. Mas então o filme é ruim? Não, claro que não. Mas também não é essa maravilha que tanto se alardeou por aí à época de seu lançamento.

A trama em si é, no mínimo, impactante: em plena efervescência na luta pelos direitos civis dos negros, nos anos 60, a recém-formada Skeeter (Emma Stone) retorna à sua cidade natal, Jackson, no Mississipi, com o objetivo de adquirir experiência como jornalista antes de aventurar-se pela imprensa nova-iorquina. Insatisfeita com a coluna de dicas domésticas no jornal local, ela percebe, esperta e revolucionária, que há, na atmosfera da cidade, a história que poderá alavancar sua carreira e ajudar na vida de dezenas de mulheres negras que, vítimas de uma segregação violenta e cruel, são obrigadas a manter-se caladas diante de injustiças diárias e de diversos tamanhos (desde a impossibilidade de usar o banheiro das casas onde trabalham e usar os mesmos talheres até o fato de criarem as mesmas crianças brancas que crescerão e lhes tratarão com o mesmo desrespeito). Com  a ajuda da sofrida Aibileen Clark (a sempre sensacional Viola Davis, indicada ao Oscar de melhor atriz) e de outras domésticas que vão se juntando à sua narrativa mesmo correndo o risco de cadeia - nas leis do Estado do Mississipi qualquer tentativa de ir contra a segregação era crime passível de prisão - a jovem faz um painel triste e doloroso da situação, perpetuada por jovens como a insensível e detestável Hilly Holbrook (Bryce Dallas Howard).


Na verdade, é fácil para o público médio gostar de "Histórias Cruzadas". Suas personagens são carismáticas (ainda que em nenhum momento consigam esconder um maniqueísmo barato e quase preguiçoso em seu desenho) e seu tom leve é um alívio, em especial quando a história poderia tranquilamente descambar para o melodrama pesado. Porém, ao tentar não ser tão exagerado no dramalhão, Taylor incorre em um pecado bastante grave, dando um espaço maior do que deveria a um humor quase infantil. Em alguns momentos, histórias como a vingança de Minny Jackson (vivida pela ótima Octavia Spencer, vencedora do Golden Globe e do Oscar de coadjuvante) desviam a atenção da plateia para tramas bem mais interessantes, como a relativa à morte do filho de Aibileen Clark (a sempre sensacional Viola Davis) e a luta de Skeeter (Emma Stone) por sua liberdade de expressão e pensamento. Some-se a isso o fato de o filme ser mais longo do que precisava (146 minutos são um exagero, o que é culpa de sua tentativa de estender abranger várias tramas ao mesmo tempo), contar histórias paralelas desinteressantes (como o namoro de Skeeter com um jovem que não aceita sua liberdade de pensamento e a rivalidade entre duas socialites) e fica difícil se apaixonar por ele como tanta gente fez - especialmente com a ideia um tanto incômoda de eleger uma branca como a salvadora da pátria em um filme com tantas personagens negras fortes e interessantes.

Logicamente "Histórias cruzadas" tem muitas qualidades, sendo o elenco a principal delas. Emma Stone é uma delícia de se ver, assim como Viola Davis e Octavia Spencer, e Bryce Dallas Howard, surpreendente como a jovem vilã Hilly Holbrook, mesmo que o roteiro lhe obrigue a ser uma personagem unidimensional. No entanto, a festejada Jessica Chastain, normalmente certeira, sai um pouco do tom com sua perua Celia Foote, talvez culpa da direção sem sutilezas de Taylor que aposta em um registro acima para proporcionar o tal "humor" que tanto mina as forças do filme como um todo - mesmo assim Chastain foi indicada ao Oscar de coadjuvante, provavelmente mais uma homenagem à sua versatilidade do que a seu trabalho específico aqui. E, justiça seja feita, a produção é delicada e eficaz, em especial a trilha sonora de Thomas Newman, que pontua cada cena com discrição, e a fotografia ensolarada de Stephen Goldblatt, que contrasta com a violência psicológica sofrida por suas protagonistas.

Resumindo, "Histórias cruzadas" é um bom filme, ideal para emocionar àqueles que gostam do gênero. Mas está a anos-luz da intensidade e da crueza de "A cor púrpura", por exemplo. Emociona, mas não marca.

terça-feira

TERRA FRIA

TERRA FRIA (North country, 2005, Warner Bros, 126min) Direção: Niki Caro. Roteiro: Michael Seitzman, livro "Class Action: The story of Lois Jensen and the landmark case that changed sexual harassment law", de Clara Bingham, Laura Leedy. Fotografia: Chris Menges. Montagem: David Coulson. Música: Gustavo Santaolalla. Figurino: Cindy Evans. Direção de arte/cenários: Richard Hoover/Peter Tosti Stephenson. Produção executiva: Helen Bartlett, Doug Claybourne, Nana Greenwald, Jeff Skoll. Produção: Nick Weschler. Elenco: Charlize Theron, Sean Bean, Frances McDormand, Jeremy Renner, Richard Jenkins, Sissy Spacek, Woody Harrelson, Michelle Monaghan. Estreia: 12/9/05 (Festival de Veneza)

2 indicações ao Oscar: Atriz (Charlize Theron), Atriz Coadjuvante (Frances McDormand)

Mesmo sem que seu nome não diga nada à vasta maioria da população mundial, Lois Jenson poder ser considerada, sem favor, uma das figuras mais importantes na luta pelos direitos femininos da história dos EUA: na tradição de Crystal Lee Sutton (retratada no filme "Norma Rae", de 1979) e Karen Silkwood (protagonista de "Silkwood, o retrato da coragem", de 1983), ela foi a responsável por um processo - ou vários deles, na verdade - que abriram o precedente para que fossem criadas as leis responsáveis por criminalizar o assédio sexual no ambiente de trabalho. Por incrível que possa parecer, no entanto, tais leis, sem as quais as relações profissionais entre homens e mulheres sempre sofreriam de uma tensão muitas vezes palpável, só chegaram aos tribunais americanos em 1989. Por causa de Jenson, uma mulher simples que só queria o direito de trabalhar em paz em um ambiente cercado de machismo - e do qual fazia parte seu próprio pai. Rebatizada como Josey Aimes e com o belo rosto de Charlize Theron, Jenson juntou-se Silkwood e Sutton no imaginário dos fãs de cinema quando foi a protagonista de "Terra fria", filme dirigido por Niki Caro - de "A encantadora de baleias" - que chegou à festa do Oscar 2006 indicado em duas categorias: melhor atriz (Theron, sempre excelente) e atriz coadjuvante (Frances McDormand).

Concentrando vários processos movidos pela real Lois Jenson em apenas um - para fins dramáticos e sem prejuízo para a verossimilhança do roteiro - "Terra fria" segue à risca a tradição dos filmes sobre mulheres valentes lutando contra o sistema, mas, graças à direção firme de Caro e à intensidade de Charlize Theron, tal característica não chega a impedir que o resultado final perca sua força e capacidade de indignar ao espectador. Evitando o sentimentalismo e enfatizando a solidão de sua protagonista em seu árduo caminho em direção à justiça, o filme peca apenas por ser excessivamente burocrático: não há ousadias na narrativa de Caro, e essa simplicidade quase documental acaba por impedí-la de atingir todas as suas possibilidades emocionais. Mesmo assim, a forma com que a fotografia acinzentada do veterano Chris Menges combina com o tom monocromático da vida dos personagens e a força das interpretações de Theron, McDormand e do sensacional Richard Jenkins - além da participação especial de Sissy Spacek, de presença sempre marcante - elevam "Terra fria" a um programa bastante acima da média.


Fugindo de um casamento abusivo e tentando recomeçar a vida ao lado dos dois filhos, a bela Josey Aimes (Charlize Theron) retorna à sua cidade natal, no interior de Minnesota, volta a morar com os pais e arruma emprego em um salão de beleza, que não lhe paga um salário suficiente para manter um nível de vida razoável. Incentivada por uma amiga que trabalha na mina de carvão local, a determinada Glory (Frances McDormand) ela resolve desafiar as convenções e tornar-se colega do pai, de um antigo namorado e de outras mulheres também necessitadas de um contracheque menos magro - caso da jovem Sherry (Michelle Monaghan), que precisa sustentar a mãe doente. Bonita e interessante, logo Josey chama a atenção dos colegas homens, que passam a assediá-la sexualmente, tanto com brincadeiras grosseiras quanto com ameaças reais de estupro. Sabendo que tal comportamento não se restringe apenas a ela, mas também a todas as suas colegas do sexo feminino, Josey resolve pedir ajuda à diretoria da mina, mas, sendo humilhada até mesmo por seus patrões - que questionam inclusive o fato de ela não saber quem é o pai de seu filho mais velho - não cabe a ela outra opção a não ser contratar os serviços de um advogado amigo, Bill White (Woody Harrelson), para levar a empresa aos tribunais. Falta apenas, no entanto, convencer suas colegas a testemunhar a seu favor.

Centrando suas forças no talento inegável de Charlize Theron - que mesmo desglamourizada continua linda e carismática - "Terra fria" conquista o público principalmente por fazer de sua protagonista uma heroína clássica, propensa a todos os sofrimentos reservados às grandes mártires do cinema. Sozinha contra o mundo, Josey vê sua vida tornar-se um inferno apenas por desejar justiça, o que acaba por desencadear uma volta ao passado que machuca todos à sua volta. Chegando bem perto do clichê em diversos momentos - em especial quando seu pai (vivido por Jenkins em atuação digna de um Oscar mas injustamente esquecido pela Academia) finalmente toma seu partido diante de todos os mineiros que a estão hostilizando abertamente - o filme de Caro se redime magnificamente sempre que Charlize toma as rédeas, em um trabalho comovente mas nunca piegas. A força de seu desempenho sustenta o filme como um todo - e é força suficiente para torná-lo imperdível.

sexta-feira

ENTRE QUATRO PAREDES

ENTRE QUATRO PAREDES (In the bedroom, 2001, Good Machine/Standard Film Company, 130min) Direção: Todd Field. Roteiro: Rob Festinger, Todd Field, estória "Killings", de Andre Dubus. Fotografia: Antonio Calvache. Montagem: Frank Reynolds. Música: Thomas Newman. Figurino: Melissa Economy. Direção de arte/cenários: Josh Outerbridge. Produção executiva: Ted Hope, John Pennotti. Produção: Todd Field, Ross Katz, Graham Leader. Elenco: Sissy Spacek, Tom Wilkinson, Marisa Tomei, Nick Stahl, William Mapother, Celia Weston, Karen Allen. Estreia: 19/01/01 (Festival de Sundance)

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Tom Wilkinson), Atriz (Sissy Spacek), Atriz Coadjuvante (Marisa Tomei), Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz /Drama (Marisa Tomei) 

Coadjuvante de filmes de grande bilheteria - "Twister" (96) - e de prestígio junto à crítica - "De olhos bem fechados" (99), de Stanley Kubrick - e experiente diretor de curtas-metragem (além de um episódio da telessérie "Once and again"), o ator Todd Field começou com o pé direito sua carreira como cineasta: ao adaptar para as telas um conto do escritor Andre Dubus sobre um casal de meia-idade abalado pela morte violenta do filho único, ele conseguiu a rara façanha de, logo em sua estreia, chegar à festa da Academia indicado em cinco importantes categorias, incluindo melhor filme, ator e atriz. Narrado em um tom minimalista que lembra o cinema europeu, "Entre quatro paredes" ainda deu à Sissy Spacek o Golden Globe de melhor atriz dramática - ela perdeu o Oscar para Hale Berry em "A última ceia", mas seu trabalho é um dos mais intensos de sua trajetória artística. Além dos elogios da crítica - e dos prêmios de melhor filme de estreia, melhor ator e melhor atriz na festa dos Independent Spirit Awards, o Oscar das produções independentes - a obra serviu também para dar uma nova chance à Marisa Tomei, que deixou de ser uma piada por sua estatueta de coadjuvante por "Meu primo Vinny" (92) para conquistar respeito como atriz dramática.

Em uma pequena cidade do Maine, o jovem estudante Frank Fowler (Nick Stahl) resolve dar um tempo na faculdade de arquitetura para manter o romance de verão que iniciou com a bela Natalia (Marisa Tomei, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), uma mulher mais velha, separada e pai de dois filhos pequenos. Sua decisão não tem o apoio de seus pais, o médico Matt (Tom Wilkinson) e a professora de música Ruth (Sissy Spacek), que, no entanto, não se intrometem na relação para evitar maiores conflitos. A situação aparentemente resolvida sofre uma violenta reviravolta, porém, quando Richard Strout (William Mapother), ex-marido de Natalie, mata o jovem durante uma discussão e, por ser de uma família influente no local, é solto para aguardar o julgamento em liberdade. Torturados pela tristeza e pela culpa, Matt e Ruth precisam ainda lidar com o fato de cruzarem frequentemente com o assassino de seu filho pelas ruas da cidade e com a possibilidade de uma injustiça.


Enfatizando mais a opressão cotidiana da cidade onde se passa a história e os sentimentos de desespero dos protagonistas do que um roteiro frequentemente carente de grandes acontecimentos - até mesmo o homicídio é mostrado com uma discrição que afasta o filme da maioria das produções hollywoodianas - "Entre quatro paredes" é quase um estranho no ninho dentro do cinema dramático americano. Todd Field entra no lar da família Fowler como uma testemunha invisível e silenciosa, lendo seu pensamento e justificando suas drásticas decisões sem sublinhar de forma óbvia as consequências dos atos de seus personagens. A trilha sonora do veterano Thomas Newman é sutil, quase tênue, refletindo a opção de Field em tratar sua obra com o máximo de economia. Tal decisão, ao mesmo tempo em que dá personalidade ao filme, impede uma identificação maior do público, que pode estranhar tamanha frieza no tratamento tão distante de uma história capaz de despertar tantas emoções e revolta. A sorte do cineasta é que, a despeito da aparente frieza do roteiro, seus atores estão absolutamente fantásticos.

Capaz de dizer muito com apenas um olhar, Sissy Spacek está brilhante na pele de Ruth Fowler, uma mulher pacata e discreta que vê sua vida desmoronar de uma hora para outra e não consegue lidar com os meandros frequentemente cruéis da justiça. Tom Wilkinson (indicado ao Oscar de melhor ator) interpreta seu Matt como um animal domesticado que percebe estar voltando a suas origens quando é desafiado a conviver com uma dor que não se ameniza com o passar dos dias. E Marisa Tomei não precisa de muitas cenas para convencer o público de toda a complexidade de sentimentos de sua Natalie, a catalisadora involuntária de um desastre sem precedentes que destroi tudo a seu redor. A cena em que sua personagem reencontra Ruth depois da morte de Frank é uma das mais fortes do filme, mesmo que abdique de gritos e lágrimas em exagero.

Uma história contada em tom menor, "Entre quatro paredes" pode emocionar aos mais sensíveis, mas sofre de um ritmo lento em demasia que prejudica o envolvimento de um público maior - além de um desfecho anti-climático que apenas reitera sua opção em fugir dos clichês melodramáticos do cinemão ianque.

quarta-feira

UMA HISTÓRIA REAL

UMA HISTÓRIA REAL (The Straight story, 1999, Asymmetrical Productions/Canal +/Channel Four Films, 112min ) Direção: David Lynch. Roteiro: John Roach, Mary Sweeney. Fotografia: Freddie Francis. Montagem: Mary Sweeney. Música: Angelo Badalamenti. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Jack Fisk/Barbara Haberecht. Produção executiva: Pierre Edelman, Michael Polaire. Produção: Neal Edelstein, Mary Sweeney. Elenco: Richard Farnsworth, Sissy Spacek, Jane Galloway Heitz, Joseph A. Carpenter, Donald Wiegert, Everet McGill, Harry Dean Stanton. Estreia: 21/5/99 (Festival de Cannes)

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Richard Farnsworth)

Antes de começar uma sessão de "Uma história real" é preciso esquecer que seu diretor, David Lynch, é o cérebro por trás de obras perturbadoras como "Veludo azul" e "Coração selvagem" - além da telessérie "Twin Peaks", que mudou de forma definitiva a maneira como a televisão era feita nos EUA em 1991. Pela primeira dirigindo um roteiro alheio (e baseado em uma história verídica), Lynch demonstrou um lado sensível, carinhoso e delicado que pegou de surpresa até mesmo a seus fãs mais fiéis, que viram nele uma faceta menos macabra e bizarra de seu realizador. Até mesmo a Academia de Hollywood se viu obrigada a reconhecer a excelência do resultado final, dando ao protagonista do filme, Richard Farnsworth, a indicação ao Oscar de melhor ator. Aos 79 anos na ocasião, Farnsworth tornou-se o mais velho indicado da categoria em todos os tempos, e infelizmente, meses depois da cerimônia que premiou Kevin Spacey - por "Beleza americana" - suicidou-se ao saber de um diagnóstico de câncer.

Em uma atuação que equilibra fragilidade física com extrema força emocional, Farnsworth transforma a odisseia de um homem em busca de reatar laços familiares perdidos em um um comovente tratado sobre a velhice, a solidão e a força da solidariedade entre desconhecidos. Comandando o espetáculo a bordo de uma máquina de cortar grama adaptada a um trator, o veterano ator conquista o público e os personagens que cruzam seu caminho sem muito esforço, graças também ao script fluente e à edição que, fugindo da pressa habitual do cinema americano da década de 90, contempla e retrata com suavidade a placidez a trajetória do seu protagonista rumo a seu objetivo principal. Traçado como uma linha reta e simples - mas jamais simploria ou rasa - o roteiro de Sweeney e John Roach cativa a audiência justamente pela ausência de artifícios ou reviravoltas: a história de Alvin Straight é formada apenas por sua férrea determinação e por sua inusitada viagem rumo à paz de espírito.


Alvin Straight, o protagonista do filme, é um senhor de 73 anos de idade, aposentado, que vive em uma zona rural do estado de Iowa ao lado de uma de suas filhas, Rose (Sissy Spacek) - uma mulher com problemas mentais que não se conforma com a perda da guarda dos filhos. Ao ficar sabendo que seu irmão mais velho, Lyle (com quem está sem falar há dez anos, desde que tiveram uma briga) sofreu um enfarte, ele resolve procurá-lo, com o objetivo de reatar a relação. Fisicamente prejudicado pela idade, ele é desencorajado por todos ao seu redor, mas, inabalável em sua decisão, ele transforma seu cortador de grama em um pequeno trator e inicia uma viagem até o Wisconsin, enfrentando chuva, sol e problemas mecânicos no caminho. Suas dificuldades, porém, são amenizadas graças às amizades que vai fazendo no trajeto - que o fazem refletir sobre sua vida, sua família e a transitoriedade dos problemas frente à grandeza do universo.

É surprendente como David Lynch consegue se reinventar como diretor em "Uma história real": abandonando totalmente as características que lhe deram fama e prestígio, ele apresenta ao espectador um drama desprovido de qualquer tipo de truque sentimental ou de narrativa. Limpa e sem excessos, sua direção apenas deixa nas mãos (e nos olhos) extremamente competentes de Richard Farnsworth o maior trabalho, e é impossível não se deixar envolver por ele. Recitando diálogos aparentemente simples mas repletos de significados poéticos e de uma profundidade dramática rara no cinema norte-americano, ele encarna um Alvin Straight dolorosamente real e comovente, que cruza com outros personagens igualmente impactantes, como uma jovem grávida incapaz de lidar com a própria família, um homem de idade atormentado pelos fantasmas da guerra e uma mulher desesperada com o fato de atropelar veados com uma frequência muito maior do que poderia suportar - uma cena, aliás, que poderia resvalar no mau-gosto mas que, sob a visão de Lynch, acaba se tornando uma metáfora perfeita sobre a brevidade da vida.

Uma pequena obra-prima de delicadeza e sensibilidade perdida em uma filmografia frequentemente assustadora e chocante, "Uma história real" é um dos melhores trabalhos de David Lynch, e um deslumbrante canto do cisne de Richard Farnsworth. Imperdível!

sexta-feira

CARRIE, A ESTRANHA

CARRIE, A ESTRANHA (Carrie, 1976, United Artists, 98min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: Lawrence D. Cohen, romance de Stephen King. Fotografia: Mario Tosi. Montagem: Paul Hirsch. Música: Pino Donaggio. Figurino: Rosanna Norton. Direção de arte/cenários: Jack Fisk, William Kenney/Robert Gould. Produção: Paul Monash. Elenco: Sissy Spacek, Piper Laurie, Amy Irving, Nancy Allen, John Travolta, William Katt, Betty Buckley. Estreia: 03/11/76

2 indicações ao Oscar: Atriz (Sissy Spacek), Atriz Coadjuvante (Piper Laurie)

Em 1976 ninguém conhecia Stephen King. Se hoje seu nome é amplamente reconhecido por todos os fãs de livros e filmes de terror - além de outras obras que fogem do gênero e também foram adaptadas com sucesso para o cinema, como "Conta comigo" (86) e "Um sonho de liberdade" (94) - a situação era bem diferente então. Seu primeiro romance, escrito enquanto trabalhava em uma lavanderia, chegou a ser recuperado da lata de lixo por sua esposa antes de ser publicado e chegar às telas de cinema no rastro de sucessos de bilheteria como "O bebê de Rosemary" (68) e "O exorcista" (73). Inspirado em duas colegas de escola que eram isoladas dos colegas graças ao fanatismo religioso de suas famílias e que morreram bastante jovens, ele criou Carrie White, a adolescente que tornou-se uma das personagens clássicas de sua literatura principalmente depois que conquistou os espectadores de cinema. Dirigido por Brian DePalma, "Carrie, a estranha", foi um enorme sucesso de bilheteria, cimentou o nome de King entre os apaixonados pelo gênero e, surpreendentemente para um filme de terror, indicou sua protagonista (a então estreante Sissy Spacek) ao Oscar de melhor atriz.

Spacek, que tinha 26 anos à época das filmagens, convence plenamente como a colegial Carrie, especialmente devido à sua franzina compleição física. Indicada ao cineasta por seu marido, o diretor de arte Jack Fisk, Spacek agarrou sua oportunidade com unhas e dentes, entregando uma atuação até hoje lembrada como uma das mais intensas de sua vitoriosa carreira - que inclui um Oscar por sua interpretação da cantora country Loretta Lynn em "O destino mudou sua vida" (80). Desde a primeira cena, em que a ingênua Carrie descobre (da pior maneira possível) o que acontece com as mulheres quando elas menstruam, até o apoteótico e pirotécnico final (copiado até mesmo na telenovela "Rainha da sucata", porém com menos violência), a atriz dá um show particular, transitando com firmeza entre a timidez e a insegurança de uma jovem estudante renegada pelas colegas e a fúria incontrolável que surge diante das humilhações sofridas, que despedaçam cruelmente seus momentos de maior felicidade. Seus embates com Piper Laurie, que interpreta sua mãe, uma religiosa cujo fanatismo beira a caricatura, são dignos de figurar entre os maiores momentos do cinema de terror, mesmo que o suspense esteja principalmente nas entrelinhas dos diálogos e no clima absorvente criado pela fotografia de Mario Tosi e pela trilha sonora impecável de Pino Donaggio.


Piper Laurie, aliás, que foi indicada ao Oscar de coadjuvante por seu desempenho, acreditava piamente que o filme de DePalma era um comédia de humor negro, uma sátira ao gênero, devido ao exagero das atitudes de sua personagem, capaz de trancar a filha adolescente em um armário como forma de castigá-la. Sumida das telas desde "Desafio à corrupção" (61), Laurie é um destaque absoluto do filme, com seu olhar apavorado, seus discursos louvatórios e sua figura assustadora. Nem mesmo Julianne Moore, com seu enorme talento, conseguiu resultado melhor na reinvenção do filme dirigida por Kimberly Peirce em 2013 - que, como fatalmente acontece, optou pelos efeitos visuais em detrimento do clima. O que há de mais interessante em "Carrie" são as dicotomias propostas pelo tema: bem/mal, amor/ódio, amizade/desprezo, religiosidade/paganismo. King consegue até mesmo criar uma teoria para o despertar da telecinese de sua protagonista, que tem início justamente quando ela torna-se mulher, menstruando pela primeira vez diante de um grupo de colegas maldosas e irresponsáveis: ela está pronta para o mundo, mas junto com o amor (de que ela tem apenas um vislumbre momentâneo) vem o ódio, a inveja e, consequentemente, as reações a isso.

Para quem não conhece a trama, é fácil resumir: Carrie White, uma jovem de 17 anos, filha de uma mãe fanaticamente religiosa que a mantém isolada de todos - à exceção de seus colegas de escola - descobre que tem o poder de mover objetos e até mesmo provocar incêndios apenas com a força do pensamento. Tal descoberta ocorre justamente depois que ela é humilhada no vestiário da escola, depois de desesperar-se quando menstrua pela primeira vez. A represália que suas colegas sofrem por tal "travessura" acaba por jogar Carrie em uma armadilha sádica que ocorre justamente em seu baile de formatura, quando ela é coroada a Rainha. Seus minutos de glória e felicidade são logo transformados em um pesadelo e ela acaba se vingando de todos os seus inimigos utilizando seus poderes recém-descobertos - até ser obrigada a encarar sua mãe, que não aceita o fato de sua filha estar despertando para o mundo.

Clássico absoluto, "Carrie, a estranha" consegue manter, mesmo em tempos onde a violência é moeda corrente no cinema mundial, seu status de referência do gênero. Além do mais, apresenta, em início de carreira, os jovens John Travolta e Amy Irving. Obrigatório!

quinta-feira

JFK, A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR

JFK, A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR (JFK, 1991, Warner Bros, 189min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, Zachary Sklar, livros "On the trail of assassins", de Jim Garrison e "Crossfire: the plot that killed Kennedy", de Jim Marrs. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Joe Hutsching, Pietro Scalia. Música: John Williams. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Victor Kempster/Crispian Sallis. Casting: Risa Bramon Garcia, Billy Hopkins, Heidi Levitt. Produção executiva: Arnon Milchan. Produção: A. Kitman Ho, Oliver Stone. Elenco: Kevin Costner, Sissy Spacek, Gary Oldman, Tommy Lee Jones, Joe Pesci, Jack Lemmon, Walter Matthau, Donald Sutherland, Kevin Bacon, Michael Rooker, John Candy, Sally Kirkland, Vincent D'Onofrio, Wayne Knight, Laurie Metcalf, Lolita Davidovich, Ron Rifkin. Estreia: 20/12/91

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Oliver Stone), Ator Coadjuvante (Tommy Lee Jones), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Som
Vencedor de 2 Oscar: Fotografia, Montagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Diretor (Oliver Stone) 

Em 22 de novembro de 1963, em uma viagem a Dallas, o presidente John Fitzgerald Kennedy foi alvejado fatalmente, para desespero de milhares de americanos que o idolatravam. Pouco tempo depois, a polícia apresentava o culpado, o jovem Lee Harvey Oswald. Antes de qualquer tipo de julgamento, o acusado foi assassinado, frente às câmeras de TV, por Jack Ruby, o dono de um bar de strippers, ligado à máfia. Uma comissão formada pelo governo para investigar o caso - a Comissão Warren - chegou à conclusão de que Oswald agiu por contra própria, por discordar das ideias de Kennedy a respeito de Cuba e Fidel Castro. A investigação teria tido um ponto final se Jim Garrison, o promotor público de Nova Orleans, não tivesse dado continuidade ao assunto. Com a ajuda de uma equipe dedicada e incorruptível, ele levou um empresário local ao banco de réus, acusando-o de conspiração. Segundo Garrison, a morte de Kennedy foi o ato final de uma conspiração gigantesca envolvendo o FBI, a CIA e até mesmo o próprio governo americano. E é justamente sua batalha atrás da verdade sobre o assassinato que mudou a história dos EUA que é retratada em "JFK, A pergunta que não quer calar", a obra-prima absoluta do polêmico cineasta Oliver Stone.

Utilizando dois livros como base para seu complexo e instingante roteiro - um escrito pelo próprio Jim Garrison e outro pelo jornalista Jim Marrs, nem sempre de teorias compatíveis - Oliver Stone construiu um dos thrillers políticos mais fascinantes da história do cinema. Ao eleger a investigação de Garrison como fio condutor para sua narrativa, Stone entrega ao público um trabalho detalhista e admiravelmente bem construído. O roteiro, repleto de camadas que escondem camadas que escondem camadas, é um primor de inteligência, que gruda o espectador na cadeira em seus primeiros minutos e não o deixa abandoná-la até seu final - na versão do diretor, mais de três horas depois.

 

Interpretado por um Kevin Costner discreto, que não se deixa engrandecer pela personagem - depois que Harrison Ford e Mel Gibson declinaram do papel - Jim Garrison é o mais próximo de um herói que a trama de "JFK" pode oferecer à plateia. Lembrando em certos momentos seu Elliot Ness de "Os intocáveis" - um homem honesto e quase obcecado em sua busca pela verdade - Garrison serve também como os olhos do público, incrédulos, chocados, absolutamente apavorados com a gama de mentiras que vão sendo desvendadas pouco a pouco. E a forma como as verdades - ou o mais perto possível delas - surgem diante dos olhos de Garrison e da audiência é nunca menos do que brilhante. Nas mãos de Oliver Stone, a morte de John Kennedy, um dos maiores traumas coletivos da história americana, transforma-se em um espetáculo dos mais empolgantes que o cinema pode proporcionar.

Além do roteiro impecável - tão cheio de informações que é desaconselhável até mesmo uma piscadela - Stone também cercou-se de uma equipe excepcional. A edição nunca aquém de espetacular levou um merecidíssimo Oscar, ao alternar vídeos reais com cenas incrivelmente reconstituídas, e a fotografia de Robert Richardson, também oscarizada, se equilibra entre a cor, o preto-e-branco e 8mm (com as recorrentes cenas do filme de Abraham Zapruder, que testemunhou a tragédia, sendo apresentadas quase como uma personagem). A trilha sonora de John Williams comenta a ação com sabedoria, destacando com força os momentos mais tensos - trabalhando longe de Steven Spielberg, Williams criou uma de suas mais sensacionais trilhas, que dá o tom exato das intenções de Oliver Stone em manter intacta a atenção do público mesmo diante da quantidade de nomes, fatos e contradições que se espalham na tela. E se as informações são em número quase assustador, o elenco formado pelo cineasta é de tirar o fôlego. Trabalhando com cachês bem abaixo de seu normal, os atores de "JFK" são um show à parte.

Naturalmente, Kevin Costner lidera o elenco como protagonista absoluto.Mas, a seu lado, desfila um elenco de causar inveja a Robert Altman - em personagens maiores ou menores, eles sustentam com garra e elegância uma estrutura complexa que dá espaço para que todos brilhem em seu devido momento. Somente Tommy Lee Jones chegou a ser indicado ao Oscar, por sua atuação como Clancy Shaw, o único a ser julgado pela morte do presidente, mas sua indicação pode ter sido uma forma de a Academia homenagear todas as feras dirigidas por Stone. Como Lee Harvey Oswald, o inglês Gary Oldman transforma-se absurdamente (como já o havia feito em "Sid & Nancy, o amor mata", onde viveu o roqueiro Sid Vicious). Como o misterioso X, que dá dicas preciosas a Garrison, Donald Sutherland é dono de uma das sequências mais arrepiantes do longa. E além deles, estão presentes Kevin Bacon, Joe Pesci (magnífico), Sissy Spacek e os indescritíveis Jack Lemmon e Walter Matthau. Pode-se pedir mais de um elenco?

"JFK" é eletrizante, inteligente, fascinante e dirigido com uma paixão evidente. Graças a ele, documentos a respeito das investigações da Comissão Warren foram a público muito antes do previsto e, mais importante do que tudo, Oliver Stone conseguiu abalar as estruturas americanas com um filme que nunca deixa de ser também entretenimento da mais alta qualidade. Suas teorias talvez não sejam tão realistas quanto ele afirma, mas só o fato de fazer um trabalho tão impecável do ponto de vista cinematográfico já é motivo o bastante para que seja louvado. Infelizmente bateu de frente com "O silêncio dos inocentes" na corrida pelo Oscar. Ganhou duas estatuetas. Merecia muito mais.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...