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terça-feira

MÃES EM LUTA

MÃES EM LUTA (Some mother's son, 1996, Warner Bros, 112min) Direção: Terry George. Roteiro: Terry George, Jim Sheridan. Fotografia: Geoffrey Simpson. Montagem: Craig McKay. Figurino: Joan Bergin. Direção de arte/cenários: David Wilson/Carolyn Scott. Produção: Edward Burke, Arthur Lappin, Jim Sheridan. Elenco: Helen Mirren, Fionnula Flanagan, Ciáran Hinds, Aidan Gillen, David O'Hara, John Lynch, Tom Hollander. Estreia: 09/9/96 (Festival de Toronto)

Coincidência ou não, no mesmo ano em que Neil Jordan virou seus olhos para a criação do IRA - Exército Republicano Irlandês - em seu "Michael Collins, o preço da coragem", outro filme de temática similar chegou às telas de cinema, deixando claro à plateia o interesse dos cineastas do país em retratar de forma mais realista e dramática possível a realidade politica de uma nação eternamente mergulhada em conflitos violentos pela liberdade. Co-escrito e produzido por Jim Sheridan - que já havia assinado o polêmico "Em nome do pai", de 1993 - o potente "Mães em luta", dirigido por seu parceiro artístico Terry George, porém, segue caminho oposto em seus objetivos: diferente da ambição histórica da biografia estrelada por Liam Neeson, seu filme se aproxima da audiência de forma mais intimista, ao narrar a história real de duas mulheres unidas na defesa da vida de seus filhos, prisioneiros políticos que lutavam pelo direito de serem tratados como tal.

Inteligentemente enfatizando os dramas pessoais em detrimento de maquinações políticas ainda que elas inevitavelmente façam parte da história, "Mães em luta" comove por não ser um "filme explicitamente político": mesmo que seu pano de fundo assim o rotule, é impossível não se deixar envolver com a via-crúcis de suas duas protagonistas, interpretadas com garra e carisma por atrizes de primeira grandeza que ainda não eram conhecidas do grande público, Helen Mirren e Fionnula Flanagan. A primeira só ganharia reconhecimento mundial - e um Oscar de melhor atriz - em 2007, ironicamente interpretando a Elizabeth II no drama "A rainha", de Stephen Frears, e a segunda conheceria o gostinho da fama ao viver a misteriosa governanta da mansão mal-assombrada de Nicole Kidman em "Os outros", de 2001. Juntas, elas dão ao filme de Terry George o teor humano e de identificação que não havia na obra de Neil Jordan. Elas não são terroristas nem políticas: são duas mulheres comuns, pacatas e cientes de suas obrigações como cidadãs que, de repente, se veem no meio de um furacão para defender o que mais amam.


Começando ironicamente com uma declaração de Margaret Tatcher citando um texto de São Francisco de Assis que prega a paz, "Mães em luta" não demora a mergulhar o público no drama que irá lhe emocionar pelas próximas duas horas. O ano é 1981, e dois jovens irlandeses são presos acusados de atos terroristas assumidos pelo IRA. Gerard Quigkley (Aiden Gillen) é o filho mais velho de Kathleen (Helen Mirren), uma viúva que paga suas contas dando aulas em uma escola católica, e Frank Higgins (David O'Hara) é filho de Annie (Fionnula Flanagan), que também é viúva e, sem estudos, sustenta a família trabalhando duro e incansavelmente. Vendo seus filhos presos em plena noite de Natal, elas acabam se aproximando, mesmo que tenham visões radicalmente diferentes a respeito da violência que cerca o país onde vivem. Kathleen, por exemplo, é contrária à intervenção de Danny Boyle (Ciáran Hinds) - líder político ligado ao IRA - no caso dos jovens, que são condenados como criminosos comuns em um julgamento sem júri popular. As duas, no entanto, acabam se tornando ainda mais próximas quando os mais de 100 prisioneiros políticos resolvem lutar por seus direitos na prisão: eles exigem um tratamento diferenciado dos presos comuns e sua batalha atinge o ápice quando seu líder, Bobby Sands (John Lynch) inicia uma greve de fome que em pouco tempo se espalha entre todos.

Intercalando sua narrativa entre o drama das duas mães tentando de todas as maneiras comover a opinião pública a favor de seus filhos e companheiros, os bastidores vis das negociações com o governo e o sofrimento dos presos em seu dia-a-dia cercado de angústia, incertezas e violência moral, "Mães em luta" é um dos filmes mais subestimados dos anos 90, um petardo emocional realizado com paixão, inteligência e sensibilidade raras. Seu ato final, principalmente, quando a greve de fome começa a chegar a níveis desesperadores, é brilhantemente realizado, com destaque à edição forte de Craig McKay, que enfatiza o suspense sem jamais deixar de destacar a potência das interpretações - tanto das atrizes centrais quanto dos atores que vivem seus filhos. Repleta de cenas que tocam fundo, a trajetória dessas mães em luta deve ser conhecida e aplaudida, mesmo que tardiamente. Vale muito a pena descobrir essa pequena obra-prima.

Vale lembrar também que em 2008, o cineasta Steve McQueen contou a história do prisioneiro Bobby Sands e sua greve de fome no contundente "Hunger", estrelado por Michael Fassbender em uma atuação monstruosa. Também é recompensador buscar essa preciosidade.

segunda-feira

TRANSAMÉRICA

TRANSAMÉRICA (Transamerica, 2005, Belladonna Productions, 103min) Direção e roteiro: Duncan Tucker. Fotografia: Stephen Kazmierski. Montagem: Pam Wise. Música: David Mansfield. Figurino: Danny Glicker. Direção de arte/cenários: Mark White/Lisa Crivelli Scoppa. Produção executiva: William H. Macy. Produção: René Bastian, Sebastian Dungan, Linda Moran. Elenco: Felicity Huffman, Kevin Zegers, Fionnula Flanagan, Graham Greene, Burt Young, Elizabeth Peña, Carrie Preston. Estreia: 24/4/05 (Tribeca Film Festival)

2 indicações ao Oscar: Atriz (Felicity Huffman), Canção Original ("Travellin' thru")
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Felicity Huffman)

Certo dia o roteirista e cineasta Duncan Tucker estava conversando com a atriz Katherine Connella, com quem havia dividido um apartamento por quatro meses, e ficou absolutamente chocado com a revelação de que ela na verdade havia nascido e sido criada como homem. Atordoado com o fato, ele manteve a ideia na cabeça e eis que, tempos depois, em seu primeiro longa-metragem, "Transamérica", a personagem central era justamente um transexual às vésperas de sua cirurgia que finalmente lhe daria o corpo que sua alma sempre buscou. Aclamado pela crítica e estrelado por uma avassaladora Felicity Huffman, o filme de Tucker equilibra com precisão um drama contundente com um senso de humor afiado que lembra bastante o estilo do espanhol Pedro Almodovar.

Em uma atuação consagradora - que perdeu injustamente o Oscar para Reese Witherspoon - Huffman (mais conhecida pela série de TV "Desperate housewives") interpreta uma das personagens mais interessantes e complexas da temporada 2005 de forma magistral. Bree Osbourne é um transexual que está a apenas um passo de realizar seu sonho de passar por uma cirurgia que finalmente a fará a mulher que sempre foi em seu íntimo. Às vésperas da cirurgia, porém, o destino arma das suas e ela descobre que, como resultado de um relacionamento fugaz nos tempos em que tentava se enquadrar na heterossexualidade, tem um filho adolescente. O rapaz, Toby (Kevin Zegers, ótimo), é um garoto de programa viciado em drogas e rebelde, que, em sua mente fantasiosa, imagina seu pai como um orgulhoso descendente indígena. Ao encontrar o jovem - porém sem revelar sua identidade real - Bree fica tocada com seu modo de vida e, pressionada também pela chantagem de sua psicóloga (Elizabeth Peña) - que se recusa a assinar o documento autorizando a cirurgia antes que a situação entre eles se resolva - resolve se aproximar dele e tentar encaminhá-lo decentemente.



O roteiro de Tucker é um primor de ritmo e de cenas destinadas a antológicas - em especial por contar com a excelente química entre seus atores centrais. Intercalando cenas de um humor insuspeito com momentos de forte carga dramática (ainda que longe de piegas), a trama acompanha a evolução do relacionamento entre Bree e seu filho através de um recurso batido - road movie - que funciona à perfeição. Os diálogos entre os dois (bastante improvisados com incentivo do diretor) fluem naturalmente e conduzem a ação a sequências fabulosas - é especialmente inteligente a maneira com que Tucker apresenta Toby ao universo de Bree quando eles param em uma festa particular frequentada quase unicamente por transexuais. E é emocionante também o encontro de Bree com o caminhoneiro Calvin (Graham Greene), em que ela demonstra seu lado feminino com mais propriedade - em cenas que lembram Fernanda Montenegro e Othon Bastos em "Central do Brasil".

E se não fosse o bastante o banho de interpretação de Felicity Huffman - perfeita em cada entonação, em cada movimento físico - "Transamérica" ainda deixa para seu ato final a participação mais do que especial da grande Fionula Flanagan, que quase rouba a cena no papel da mãe de Bree, que não aceita o novo "estilo de vida" da filha/filho e é responsável por alguns dos momentos mais tensos do filme - momentos ainda assim dono de um estilo único de humor negro que alivia até mesmo a densidade que se anuncia perto de seu final. Defendidas por um elenco impecável, as personagens criadas pelo roteirista/diretor chegam a extremos que somente atores do porte de Huffman e Flanagan conseguem tornar críveis e dignas de empatia. Aplausos a Tucker por permitir que eles brilhem intensamente, tornando a experiência de se assistir a seu filme inesquecível.

"Transamérica" é mais do que um filme direcionado ao público GLBT. É um drama com toques cômicos que fala de gente, de famílias, de amor incondicional e da busca pela felicidade. E é absolutamente imperdível!

OS OUTROS

OS OUTROS (The others, 2001, Cruise/Wagner Productions, 101min) Direção e roteiro: Alejandro Amenabar. Fotografia: Javier Aguirresarobe. Montagem: Nacho Ruiz Capillas. Música: Alejandro Amenabar. Figurino: Sonia Grande. Direção de arte/cenários: Benjamin Fernandez/Emilio Ardura, Eli Griff. Produção executiva: Tom Cruise, Rick Scwartz, Paula Wagner, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Fernando Bovaira, José Luis Cuerda, Sunmin Park. Elenco: Nicole Kidman, Christopher Eccleston, Fionnula Flanagan, Alakina Mann, James Bentley, Eric Sykes, Elaine Cassidy. Estreia: 02/8/01

Depois do megasucesso de "O sexto sentido", os filmes de terror começaram a atingir altos patamares de qualidade e bilheteria (logicamente com as devidas exceções). Alguns esbarraram na mesmice e na incompetência de seus realizadores, mais preocupados em assustar e ganhar dinheiro do que contar boas histórias. Para sorte dos fãs do gênero e de cinema em geral, porém, alguns realmente alcançaram seus objetivos, hipnotizando as plateias graças a tramas bem urdidas e narradas com sutileza, elegância e principalmente talento. É o caso de "Os outros", escrito e dirigido pelo chileno Alejandro Amenabar, que, não satisfeito com suas duas cruciais funções nos bastidores, ainda foi capaz de compor a assombrosa trilha sonora de seu filme.

Nicole Kidman, em seu segundo filme de destaque em 2001 (antes ela foi a cortesã Satine do exuberante "Moulin Rouge", que lhe deu a primeira indicação ao Oscar) interpreta Grace, uma mulher extremamente católica que vive com os dois filhos pequenos em uma mansão isolada em uma ilha inglesa no final da II Guerra. Enquanto aguarda a volta do marido - que lutou no conflito - ela tenta levar a vida da melhor maneira possível, lidando com a doença dos filhos, que sofrem de uma rara doença associada à fotossensibilidade, ou seja, não são capazes de resistir à exposição à luz, vivendo eternamente em ambientes escuros e iluminados tenuamente por velas. No entanto, a rotina da casa é transformada com a chegada de três misteriosos empregados liderados pela rígida Bertha Mills (Fionnula Flanagan) e com a insistência da filha mais velha, Anne (a ótima Alakina Mann) de que tem constantes visões de um menino fantasma.



Contar o desenrolar da arrepiante história narrada com maestria por Amenabar - inspirado livremente em "A volta do parafuso", de Henry James - é tirar o prazer de, mais uma vez (assim como aconteceu em "O sexto sentido") sentir-se chocado com um dos finais mais assustadores, melancólicos e coerentes do moderno cinema de horror. Sem apelar para ectoplasmas mal-feitos em CGI, o jovem cineasta prova - assim como o fez M. Night Shyamalan - que uma trama forte com personagens críveis e uma direção segura são capazes de operar milagres em um público cada vez mais acostumado a produções sensaboronas. Unindo o clima tétrico da direção de arte e da fotografia claustrofóbica de Javier Aguirresarobe a um elenco irretocável, Amenabar fez milagres.
 
Enquanto Nicole Kidman - em um papel que ela quase recusou, mas acabou aceitando porque o produtor executivo do filme era seu então marido Tom Cruise - demonstra um lado menos festivo de seu talento, com uma atuação angustiante e minimalista que merecia mais uma indicação ao Oscar do que seu trabalho em "Moulin Rouge", seus coadjuvantes não fazem por menos. As crianças Alakina Mann e James Bentley fazem o contraponto perfeito ao desespero de sua atuação e a veterana Fionnula Flanagan é capaz de arrepiar com um simples olhar, em uma das interpretações mais apavorantes da história do gênero.

Feito com economia de recursos mas jamais de talento e inteligência, "Os outros" marca com sutileza seu lugar no panteão das melhores histórias de fantasmas já contadas no cinema.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...