DUNKIRK (Dunkirk, 2017, Warner Bros, 106min) Direção e roteiro: Christopher Nolan. Fotografia: Hoyte Van Hoytema. Montagem: Lee Smith. Música: Hans Zimmer. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Nathan Crowley/Emmanuel Delis. Produção executiva: Jake Myers. Produção: Christopher Nolan, Emma Thomas. Elenco: Tom Hardy, Mark Rylance, Kenneth Branagh, Cillian Murphy, James D'Arcy, Barry Keoghan, Tom Glynn-Carney, Jack Lowden, Harry Stiles. Estreia: 13/7/17
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Christopher Nolan), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Edição de Som, Mixagem de Som, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Oscar: Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Quando chamou a atenção do público pela primeira vez, ele lançou "Amnésia" (2001), que se tornou um dos maiores sucessos do cinema independente da década. Quando quis fazer um filme de super-herói, assinou a trilogia "O Cavaleiro das Trevas", que rendeu milhares de dólares e elevou o patamar dos filmes baseados em quadrinhos. Quando brincou de ficção científica, arrasou com "A origem" (2010) e "Interestelar" (2014), dois filmes muito acima da média do cinema mainstream feito em Hollywood. Por isso, não foi surpresa para ninguém quando Christopher Nolan anunciou que faria um filme sobre um dos episódios mais famosos da II Guerra Mundial e chegou com "Dunkirk": realizado com estimados 100 milhões de dólares (um custo razoável para uma produção de grande porte) e sem nenhum astro de primeira grandeza para garantir o retorno do investimento, o filme de Nolan tornou-se mais um fenômeno em sua carreira, ultrapassando a marca dos 500 milhões de dólares em arrecadação mundial - e, de quebra, arrebatou oito indicações ao Oscar, incluindo melhor filme e direção. Foi a consagração definitiva de uma obra que dosa, com habilidade de mestre, arte e entretenimento, diversão e inteligência, emoção com técnica. Lançado em pleno verão americano - período em que o público notoriamente prefere produções menos sérias e mais populares -, "Dunkirk" mostrou que, às vezes, não subestimar o cérebro da plateia pode dar muito certo.
Fugindo do tradicional formato narrativo, que acompanha um protagonista através de uma trajetória na qual se identificam claramente princípio, meio e fim, o roteiro de Nolan abraça uma outra forma de contar sua história - e que exige muito mais de sua plateia do que simplesmente sentar diante da tela e seguir uma trama. Estruturando o filme em três frentes distintas - ar, mar e terra - e dividindo seu enredo em personagens e tempos diferentes, "Dunkirk" é uma viagem sem trégua, um mergulho radical na sensação mais absoluta de estar em uma guerra. Se em "O resgate do soldado Ryan" (1998) o diretor Steven Spielberg jogava o espectador no meio do desembarque na Normandia (o famoso Dia D) sem maiores preliminares, em seu filme Nolan parece querer expandir ainda mais a experiência, atingindo níveis brutais de realismo, sublinhado pelo formato 70mm (raramente utilizado desde o surgimento de câmeras digitais), pela forte trilha sonora de Hans Zimmer e pelo desenho de som, que intercala momentos milimetricamente concebidos para causar impacto com outros de um silêncio avassalador. Tecnicamente impecável - saiu vitorioso da festa do Oscar nas categorias de edição, edição de som e mixagem de som, estatuetas merecidíssimas - e apresentado sem apelos emocionais, "Dunkirk" é um filme de guerra à moda antiga, mas realizado com todos os recursos que um orçamento generoso e efeitos de última geração podem comprar.
Ainda que não seja mandatório, é bom que se saiba um mínimo de História - mais especificamente sobre a II Guerra Mundial - para melhor se deixar seduzir pela trama de Nolan. O roteiro trata da retirada estratégica (para uns considerada derrota, para outros uma vitória moral) dos exércitos britânico e francês da cidade de Dunkirk, como forma de escapar dos cada vez maiores e mais frequentes ataques alemães, em 1940. A única saída disponível para o soldados era pelo mar, e, em situação de total desvantagem, os ingleses apelaram até mesmo para embarcações civis que pudessem colaborar na evacuação de centenas de homens. É nesse ponto que a trama se concentra em Dawson (Mark Rylance), que, contrariando as ordens superiores, resolve ele mesmo comandar seu barco, ao lado do filho adolescente, Peter (Tom Glyne-Carney), e do amigo deste, George (Barry Keoghan). No trajeto em direção à praia, eles resgatam um misterioso e traumatizado soldado (Cillian Murphy) que entra em pânico ao descobrir que a embarcação está se dirigindo justamente de onde ele fugiu. E se no mar os problemas são uns, por terra eles também não são poucos. Tentando salvar-se de uma morte certa e juntar-se aos demais soldados que aguardam ajuda, o jovem Tommy (Fionn Whitehead) une-se a outros dois colegas, Gisbson (Aneurin Barnard) e Alex (Harry Stiles), e os três passam por uma série de dificuldades inesperadas, que surgem sempre que eles acreditam estar a salvo - e sob a proteção do Comandante Bolton (Kenneth Branagh).
E por fim, também no ar as coisas estão complicadas: depois de perder seu líder, abatido por aviões inimigos, os pilotos Farrier (Tom Hardy) e Collins (Jack Lowden) enfrentam sérios problemas em defender seus aliados - e desviar de um destino semelhante a seu superior. Quando o avião de Collins cai no mar, ele acaba se tornando parte ainda maior do problema - e o ponto de intersecção entre as três linhas narrativas criadas pelo cineasta. Confiando plenamente no material que tem em mãos, Christopher Nolan apresenta ao público um espetáculo de violência sem que, para isso, seja necessário explicitá-la com vísceras e sangue em excesso. É um filme de imersão, no qual a plateia simplesmente embarca, como em uma montanha-russa das mais emocionantes. Talvez seu único defeito seja justamente optar por um viés menos pessoal e mais amplo do evento - o que diminui o impacto humano que um filme de guerra normalmente abraça e sublinha o barulho, o visual (graças à bela fotografia de Hoyte Van Hoytema) e a falta de noção temporal que um conflito provoca. Nesse ponto, é uma obra-prima incontestável que confirma (mais uma vez) o talento absurdo de seu criador.
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domingo
quinta-feira
PONTE DOS ESPIÕES
PONTE DOS ESPIÕES (Bridge of spies, 2015, DreamWorks/Fox 2000 Pictures/Relliance Entertainnment, 142min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Matt Charman, Ethan Coen, Joel Coen. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Michel Kahn. Música: Thomas Newman. Figurino: Kasia Walicka Maimone. Direção de arte/cenários: Adam Stockhausen/Rena DeAngelo, Bernhard Heinrich. Produção executiva: Jonathan King, Daniel Lupi, Jeff Skoll, Adam Somner. Produção: Kristie Macosko Krieger, Marc Platt, Steven Spielberg. Elenco: Tom Hanks, Mark Rylance, Amy Ryan, Alan Alda, Austin Stowell, Jesse Plemmons. Estreia: 04/10/15 (Festival de Nova York)
6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Mark Rylance), Roteiro Original, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Mark Rylance)
Exatos dez anos separaram "Munique" e "Ponte dos espiões", e nesse meio-tempo, seu diretor Steven Spielberg retomou as rédeas de um de seus personagens mais famosos - em "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal" (2008) -, realizou o sonho de dirigir uma aventura baseada em um clássico dos quadrinhos - "As aventuras de Tintim" (2011) - e viu dois filmes seus indicados ao Oscar principal - "Cavalo de guerra" (2011) e "Lincoln" (2012). Nenhum desses filmes, porém, por mais qualidades que possam vir a ter, chegou perto de refletir o enorme talento do cineasta mais popular do mundo, um homem capaz de entreter as massas com produções descompromissadas e entregar às plateias mais exigentes obras de extrema competência técnica e narrativa. Foi assim com "Munique" - um de seus melhores trabalhos - e é assim também com "Ponte dos espiões". Daí a comparação: ambos são filmes que equilibram um senso de ritmo e tensão constante com personagens complexos e histórias reais. Não à toa, nenhum deles foi campeão de bilheteria nos EUA: mesmo com o nome do cineasta e o rosto de Tom Hanks no cartaz, "Ponte dos espiões" mal passou dos 70 milhões de dólares de arrecadação doméstica, o que de forma alguma traduz a excelência de sua realização. Sério - mas dotado de um sutil senso de humor - e impecavelmente produzido, é um dos melhores filmes da carreira de Spielberg e um ponto alto de sua colaboração com Hanks, que já contava com os sensacionais "O resgate do soldado Ryan" (1998) e "Prenda-me se for capaz" (2002) e o apenas razoável "O terminal" (2004).
Uma história real quase inacreditável, "Ponte dos espiões" surgiu quase por acaso: lendo uma biografia de JFK, o roteirista Matt Charman ficou intrigado com o fato do então presidente americano ter buscado a ajuda de um advogado tributarista, James Donovan, para negociar a libertação de mais de 1000 prisioneiros após o malfadado episódio da Baía de Porcos, em Cuba. Buscando saber mais a respeito de Donovan, Charman deparou-se com um episódio pouco conhecido - mas muito empolgante do ponto de vista narrativo - da história da Guerra Fria, que envolvia o advogado e uma troca de prisioneiros entre EUA, União Soviética e Alemanha Oriental. Empolgado com a possibilidade de contar tal história no cinema, apresentou um projeto na DreamWorks e teve mais sorte do que Peter Ustinov e Gregory Peck, que tentaram uma adaptação em 1965 pela MGM e fracassaram (em parte porque ainda era muito cedo para tratar do assunto): o projeto parou nas mãos de ninguém menos que Steven Spielberg, que não demorou em assumir o controle da situação. Com o roteiro de Charman pronto, o cineasta chamou os irmãos Joel e Ethan Coen - diretores premiados com o Oscar por "Onde os fracos não tem vez" (2007) - para dar mais consistência ao protagonista e inserir um pouco do senso de ironia característico da dupla. Com Janusz Kaminski na fotografia e Michael Kahn na edição, apenas sua colaboração com o veterano compositor John Williams não seria possível (por problemas de saúde do músico) se repetir: Thomas Newman foi chamado e tornou-se parte de uma equipe primorosa e homogênea, que criou um filme no mínimo fascinante!
A trama começa em 1957, com a prisão de Rudolf Abel (Mark Rylance) pelo FBI: acusado de ser um espião soviético, o discreto e introvertido pintor é capturado depois de uma longa caçada. Para que não possa ser acusado de imparcialidade, o governo americano chama o advogado James B. Donovan (Tom Hanks) - que trabalhou nos julgamentos de guerra em Nuremberg - para defendê-lo. A princípio hesitante em aceitar o caso (por saber o quão delicado seria defender um "inimigo do país"), Donovan acaba por aceitar a missão e, mais do que isso, dedicar-se com fervor a ela, para desgosto de seus empregadores - que não tem grande interesse em absolvê-lo. Mesmo contra todas as probabilidades, Abel escapa da pena de morte graças à intervenção de seu advogado, que, profeticamente, imagina um cenário em que os EUA poderiam precisar do espião para trocar por algum soldado americano. Suas palavras se tornam realidade quando o piloto Francis Gary Powers (Austin Stowell) tem seu avião abatido durante um voo em busca de informações fotográficas e ele se vê preso pelos russos - e, na Alemanha Ocidental, o estudante Fredric Pryor (Will Rogers) é detido mesmo depois de identificar-se como apenas um estudante. Escalado para servir como negociador de uma troca entre Abel e Powers, o idealista advogado decide que, uma vez que não está oficialmente representando o governo, só irá levar a situação adiante se puder levar embora os dois prisioneiros americanos.
Com uma medida exata de suspense, humor negro (a burocracia a qual Donovan é submetido é quase kafkiana) e drama, "Ponte dos espiões" acerta em todos os alvos - ainda que seu patriotismo fique um tanto deslocado no final, uma característica de que o cinema de Spielberg não consegue abrir mão. Tom Hanks mais uma vez prova que é um ator de muitas nuances e lidera o elenco com força e generosidade, e Mark Rylance brilha em cada cena - seu Oscar de ator coadjuvante, inesperado contra o favorito Sylvester Stallone, por "Creed: nascido para lutar", foi absolutamente merecido. A fotografia sóbria e elegante de Janusz Kaminski é absolutamente eficaz, acompanhando com belas imagens a transposição visual da trama, cuidadosamente retratada em uma reconstituição de época de encher os olhos. Spielberg ainda dá espaço para seu característico ufanismo - forçando uma comparação entre a rígida Alemanha e seu democrático país através do olhar patriota de James Donovan - mas seu respeito pela história e pelo público impede que o filme resvale para o piegas. Um dos cineastas mais conscientes do poder das imagens para uma narrativa, Spielberg dá uma aula em cada cena, entregando um resultado final ao qual se é impossível ficar incólume. Cinema com letra maiúscula, "Ponte dos espiões" é mais uma obra-prima de uma carreira repleta delas. Que não demore mais dez anos para surgir outra!
6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Mark Rylance), Roteiro Original, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Mark Rylance)
Exatos dez anos separaram "Munique" e "Ponte dos espiões", e nesse meio-tempo, seu diretor Steven Spielberg retomou as rédeas de um de seus personagens mais famosos - em "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal" (2008) -, realizou o sonho de dirigir uma aventura baseada em um clássico dos quadrinhos - "As aventuras de Tintim" (2011) - e viu dois filmes seus indicados ao Oscar principal - "Cavalo de guerra" (2011) e "Lincoln" (2012). Nenhum desses filmes, porém, por mais qualidades que possam vir a ter, chegou perto de refletir o enorme talento do cineasta mais popular do mundo, um homem capaz de entreter as massas com produções descompromissadas e entregar às plateias mais exigentes obras de extrema competência técnica e narrativa. Foi assim com "Munique" - um de seus melhores trabalhos - e é assim também com "Ponte dos espiões". Daí a comparação: ambos são filmes que equilibram um senso de ritmo e tensão constante com personagens complexos e histórias reais. Não à toa, nenhum deles foi campeão de bilheteria nos EUA: mesmo com o nome do cineasta e o rosto de Tom Hanks no cartaz, "Ponte dos espiões" mal passou dos 70 milhões de dólares de arrecadação doméstica, o que de forma alguma traduz a excelência de sua realização. Sério - mas dotado de um sutil senso de humor - e impecavelmente produzido, é um dos melhores filmes da carreira de Spielberg e um ponto alto de sua colaboração com Hanks, que já contava com os sensacionais "O resgate do soldado Ryan" (1998) e "Prenda-me se for capaz" (2002) e o apenas razoável "O terminal" (2004).
Uma história real quase inacreditável, "Ponte dos espiões" surgiu quase por acaso: lendo uma biografia de JFK, o roteirista Matt Charman ficou intrigado com o fato do então presidente americano ter buscado a ajuda de um advogado tributarista, James Donovan, para negociar a libertação de mais de 1000 prisioneiros após o malfadado episódio da Baía de Porcos, em Cuba. Buscando saber mais a respeito de Donovan, Charman deparou-se com um episódio pouco conhecido - mas muito empolgante do ponto de vista narrativo - da história da Guerra Fria, que envolvia o advogado e uma troca de prisioneiros entre EUA, União Soviética e Alemanha Oriental. Empolgado com a possibilidade de contar tal história no cinema, apresentou um projeto na DreamWorks e teve mais sorte do que Peter Ustinov e Gregory Peck, que tentaram uma adaptação em 1965 pela MGM e fracassaram (em parte porque ainda era muito cedo para tratar do assunto): o projeto parou nas mãos de ninguém menos que Steven Spielberg, que não demorou em assumir o controle da situação. Com o roteiro de Charman pronto, o cineasta chamou os irmãos Joel e Ethan Coen - diretores premiados com o Oscar por "Onde os fracos não tem vez" (2007) - para dar mais consistência ao protagonista e inserir um pouco do senso de ironia característico da dupla. Com Janusz Kaminski na fotografia e Michael Kahn na edição, apenas sua colaboração com o veterano compositor John Williams não seria possível (por problemas de saúde do músico) se repetir: Thomas Newman foi chamado e tornou-se parte de uma equipe primorosa e homogênea, que criou um filme no mínimo fascinante!
A trama começa em 1957, com a prisão de Rudolf Abel (Mark Rylance) pelo FBI: acusado de ser um espião soviético, o discreto e introvertido pintor é capturado depois de uma longa caçada. Para que não possa ser acusado de imparcialidade, o governo americano chama o advogado James B. Donovan (Tom Hanks) - que trabalhou nos julgamentos de guerra em Nuremberg - para defendê-lo. A princípio hesitante em aceitar o caso (por saber o quão delicado seria defender um "inimigo do país"), Donovan acaba por aceitar a missão e, mais do que isso, dedicar-se com fervor a ela, para desgosto de seus empregadores - que não tem grande interesse em absolvê-lo. Mesmo contra todas as probabilidades, Abel escapa da pena de morte graças à intervenção de seu advogado, que, profeticamente, imagina um cenário em que os EUA poderiam precisar do espião para trocar por algum soldado americano. Suas palavras se tornam realidade quando o piloto Francis Gary Powers (Austin Stowell) tem seu avião abatido durante um voo em busca de informações fotográficas e ele se vê preso pelos russos - e, na Alemanha Ocidental, o estudante Fredric Pryor (Will Rogers) é detido mesmo depois de identificar-se como apenas um estudante. Escalado para servir como negociador de uma troca entre Abel e Powers, o idealista advogado decide que, uma vez que não está oficialmente representando o governo, só irá levar a situação adiante se puder levar embora os dois prisioneiros americanos.
Com uma medida exata de suspense, humor negro (a burocracia a qual Donovan é submetido é quase kafkiana) e drama, "Ponte dos espiões" acerta em todos os alvos - ainda que seu patriotismo fique um tanto deslocado no final, uma característica de que o cinema de Spielberg não consegue abrir mão. Tom Hanks mais uma vez prova que é um ator de muitas nuances e lidera o elenco com força e generosidade, e Mark Rylance brilha em cada cena - seu Oscar de ator coadjuvante, inesperado contra o favorito Sylvester Stallone, por "Creed: nascido para lutar", foi absolutamente merecido. A fotografia sóbria e elegante de Janusz Kaminski é absolutamente eficaz, acompanhando com belas imagens a transposição visual da trama, cuidadosamente retratada em uma reconstituição de época de encher os olhos. Spielberg ainda dá espaço para seu característico ufanismo - forçando uma comparação entre a rígida Alemanha e seu democrático país através do olhar patriota de James Donovan - mas seu respeito pela história e pelo público impede que o filme resvale para o piegas. Um dos cineastas mais conscientes do poder das imagens para uma narrativa, Spielberg dá uma aula em cada cena, entregando um resultado final ao qual se é impossível ficar incólume. Cinema com letra maiúscula, "Ponte dos espiões" é mais uma obra-prima de uma carreira repleta delas. Que não demore mais dez anos para surgir outra!
quarta-feira
O FRANCO-ATIRADOR (2015)
O FRANCO-ATIRADOR (The gunman, 2015, StudioCanal/Silver Pictures, 115min) Direção: Pierre Morel. Roteiro: Don MacPherson, Pete Travis, Sean Penn, romance de Jean-Patrick Manchette. Fotografia: Flavio Martinez Labiano. Montagem: Frédéric Thoraval. Música: Marco Beltrami. Figurino: Jill Taylor. Direção de arte/cenários: Andrew Laws/Anneke Botha. Produção executiva: Aaron Auch, Olivier Courson, Adrian Guerra, Peter McAleese, Steve Richard. Produção: Ron Halpern, Sean Penn, Andrew Rona. Elenco: Sean Penn, Javier Bardem, Jasmine Trinca, Mark Rylance, Ray Winstone, Idris Elba. Estreia: 16/02/15
Lançado em 1978, o drama de guerra "O franco-atirador" tornou-se a primeira produção norte-americana a lidar de frente com o conflito do Vietnã e se dar bem nas bilheterias e junto à crítica, chegando a sagrar-se o grande vencedor do Oscar nas categorias mais importantes (filme e direção). O mesmo, porém, não pode ser dito de seu homônimo, comandado pelo francês Pierre Morel e adaptado do livro de Jean-Patrick Manchette: mesmo estrelado por nomes consagrados como Sean Penn (também produtor), Javier Bardem e o recém-oscarizado Mark Rylance (de "Ponte dos espiões"), o filme jamais consegue atingir o equilíbrio entre filme de ação e drama político que almeja, tornando-se um híbrido sem personalidade e, o que é ainda pior, confuso e com personagens pouco carismáticos ou interessantes. Não por acaso, fracassou comercialmente e foi ignorado pela crítica, apesar do elenco e do potencial da trama.
A história começa no Congo, país africano mergulhado em profunda convulsão social. É lá que o assassino de aluguel Terrier (Sean Penn, competente, mas um pouco além da idade para o personagem) assume a missão de matar o Ministro das Minas local, o que complica ainda mais a situação caótica da nação. Depois do crime, para autoproteção, ele se vê obrigado a abandonar qualquer ligação com seus companheiros de equipe e a própria namorada, Annie (Jasmine Trinca), cortando totalmente seus laços com todos eles. Algum tempo depois, no entanto, ele está de volta ao Congo, trabalhando em uma ONG e tentando, à sua maneira, reparar os danos de sua ação passada. Essa vida relativamente tranquila é virada do avesso quando ele é alvo de um violento atentado, do qual escapa graças a suas habilidades profissionais, e descobre que o fato tem ligações com a morte do ministro. Isso faz com que ele volte a procurar seus antigos amigos, Terrance Cox (Mark Rylance), agora um poderoso empresário, e Felix (Javier Bardem), que leva uma vida confortável casado justamente com Annie. Todos eles se descobrem ameaçados, mas Terrier desconfia de todos até que finalmente se vê diante de uma verdade pouco conveniente.
É difícil acreditar que o diretor de "O franco-atirador" seja Pierre Morel, um cineasta pouco brilhante, é verdade, mas com experiência em filmes de ação, como "Busca implacável" (2008) e "Dupla implacável "(2010), que não são exatamente obras-primas mas se sustentam como entretenimento descompromissado. Em seu novo filme, Morel tenta atingir níveis maiores de relevância à trama, lhe adicionando temas sociopolíticos, mas acaba derrapando em uma superficialidade constrangedora. O roteiro - com participação de Sean Penn - é confuso quando tenta ser surpreendente e todas as cenas dramáticas, a despeito do talento dos atores envolvidos, carecem de verossimilhança e sensibilidade. Penn faz o que pode com seu personagem, mas é atrapalhado por uma história pouco crível e tratada com quase desleixo. As cenas de ação até são competentes, especialmente no terço final da narrativa, mas é muito pouco para cativar o espectador que, até então, lutou para acompanhar as investigações do protagonista - e tentou entender o que, afinal, as cenas do início do filme tem a ver com seu desfecho. Também não ajuda a presença da italiana Jasmine Trinca, sem o carisma necessário para segurar o principal papel feminino do filme, especialmente diante de gigantes como Sean Penn e Javier Bardem - outro que se esforça em tirar algo de um personagem raso e sem grandes possibilidades.
No final das contas, "O franco-atirador" não passa de um filme de ação genérico, com um pouco mais (bem pouco) de substância do que seus congêneres e um elenco de primeira linha tentando disfarçar suas falhas de roteiro e sua incapacidade de se aprofundar em qualquer discussão política que porventura poderia surgir de sua situação inicial. Para os menos exigentes pode ser uma diversão descompromissada para uma madrugada insone, mas levando-se em consideração o quão bom poderia ser é uma tremenda decepção, um grande passo em falso nas carreiras de Sean Penn e Javier Bardem. Nem mesmo alguns momentos isolados de violência e ação são suficientes para evitar a sensação de tédio.
Lançado em 1978, o drama de guerra "O franco-atirador" tornou-se a primeira produção norte-americana a lidar de frente com o conflito do Vietnã e se dar bem nas bilheterias e junto à crítica, chegando a sagrar-se o grande vencedor do Oscar nas categorias mais importantes (filme e direção). O mesmo, porém, não pode ser dito de seu homônimo, comandado pelo francês Pierre Morel e adaptado do livro de Jean-Patrick Manchette: mesmo estrelado por nomes consagrados como Sean Penn (também produtor), Javier Bardem e o recém-oscarizado Mark Rylance (de "Ponte dos espiões"), o filme jamais consegue atingir o equilíbrio entre filme de ação e drama político que almeja, tornando-se um híbrido sem personalidade e, o que é ainda pior, confuso e com personagens pouco carismáticos ou interessantes. Não por acaso, fracassou comercialmente e foi ignorado pela crítica, apesar do elenco e do potencial da trama.
A história começa no Congo, país africano mergulhado em profunda convulsão social. É lá que o assassino de aluguel Terrier (Sean Penn, competente, mas um pouco além da idade para o personagem) assume a missão de matar o Ministro das Minas local, o que complica ainda mais a situação caótica da nação. Depois do crime, para autoproteção, ele se vê obrigado a abandonar qualquer ligação com seus companheiros de equipe e a própria namorada, Annie (Jasmine Trinca), cortando totalmente seus laços com todos eles. Algum tempo depois, no entanto, ele está de volta ao Congo, trabalhando em uma ONG e tentando, à sua maneira, reparar os danos de sua ação passada. Essa vida relativamente tranquila é virada do avesso quando ele é alvo de um violento atentado, do qual escapa graças a suas habilidades profissionais, e descobre que o fato tem ligações com a morte do ministro. Isso faz com que ele volte a procurar seus antigos amigos, Terrance Cox (Mark Rylance), agora um poderoso empresário, e Felix (Javier Bardem), que leva uma vida confortável casado justamente com Annie. Todos eles se descobrem ameaçados, mas Terrier desconfia de todos até que finalmente se vê diante de uma verdade pouco conveniente.
É difícil acreditar que o diretor de "O franco-atirador" seja Pierre Morel, um cineasta pouco brilhante, é verdade, mas com experiência em filmes de ação, como "Busca implacável" (2008) e "Dupla implacável "(2010), que não são exatamente obras-primas mas se sustentam como entretenimento descompromissado. Em seu novo filme, Morel tenta atingir níveis maiores de relevância à trama, lhe adicionando temas sociopolíticos, mas acaba derrapando em uma superficialidade constrangedora. O roteiro - com participação de Sean Penn - é confuso quando tenta ser surpreendente e todas as cenas dramáticas, a despeito do talento dos atores envolvidos, carecem de verossimilhança e sensibilidade. Penn faz o que pode com seu personagem, mas é atrapalhado por uma história pouco crível e tratada com quase desleixo. As cenas de ação até são competentes, especialmente no terço final da narrativa, mas é muito pouco para cativar o espectador que, até então, lutou para acompanhar as investigações do protagonista - e tentou entender o que, afinal, as cenas do início do filme tem a ver com seu desfecho. Também não ajuda a presença da italiana Jasmine Trinca, sem o carisma necessário para segurar o principal papel feminino do filme, especialmente diante de gigantes como Sean Penn e Javier Bardem - outro que se esforça em tirar algo de um personagem raso e sem grandes possibilidades.
No final das contas, "O franco-atirador" não passa de um filme de ação genérico, com um pouco mais (bem pouco) de substância do que seus congêneres e um elenco de primeira linha tentando disfarçar suas falhas de roteiro e sua incapacidade de se aprofundar em qualquer discussão política que porventura poderia surgir de sua situação inicial. Para os menos exigentes pode ser uma diversão descompromissada para uma madrugada insone, mas levando-se em consideração o quão bom poderia ser é uma tremenda decepção, um grande passo em falso nas carreiras de Sean Penn e Javier Bardem. Nem mesmo alguns momentos isolados de violência e ação são suficientes para evitar a sensação de tédio.
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