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terça-feira

EU, EU MESMO E IRENE


EU, EU MESMO E IRENE (Me, myself & Irene, 2000, 20thCentury Fox, 116min) Direção: Bobby Farrelly, Peter Farrelly. Roteiro: Bobby Farrelly, Peter Farrelly, Mike Cerrone. Fotografia: Mark Irwin. Montagem: Christopher Greenbury. Música: Lee Scott, Pete Yorn. Figurino: Pamela Withers.Direção de arte/cenários: Sidney J. Bartholomew Jr./Scott Jacobson. Produção executiva: Tom Schulman, Charles B. Wessler. Produção: Bobby Farrelly, Peter Farrelly, Bradley Thomas. Elenco: Jim Carrey, Renée Zellweger, Chris Cooper, Robert Forster, Richard Jenkins. Estreia: 15/6/2000

Sutileza nunca foi o forte de Bobby e Peter Farrely. Desde que apareceram no radar de Hollywood com "Débi & Lóide: dois idiotas em apuros" (1994), os irmãos não pararam de apelar para a vulgaridade como forma de fazer as plateias gargalharem sem que fosse preciso acionar o cérebro. Atingiram o auge do sucesso com "Quem vai ficar com Mary?" (1998), em que aproveitaram a popularidade e o carisma de Cameron Diaz para um desfile de piadas infames com o verniz de credibilidade oferecido por um grande estúdio (a 20th Century Fox) e se tornaram nomes quentes na indústria. Porém, até mesmo aqueles que fingiam não ver o excesso de grosserias visuais e verbais de seus primeiros filmes não deixaram de ficar chocados com a absoluta falta de noção apresentada em "Eu, eu mesmo e Irene". Estrelado pelo mesmo Jim Carrey de "Débi & Lóide" e valorizado pela presença da sempre ótima Renée Zellweger, o terceiro longa dos Farrelly não poupa o espectador de piadas constrangedoras que atingem todo e qualquer tipo de minoria - racial, étnica ou médica -, mas esbarra perigosamente em sua falta de limites. Mesmo com uma bilheteria polpuda de quase 150 milhões de dólares, a comédia quase romântica dos Farrelly encontrou severa resistência em sua estreia, e foi criticado justamente por aquilo que parecia ser o ponto forte dos cineastas: o humor politicamente incorreto.

Quem primeiro chiou a respeito do filme foram as associações de familiares de portadores de esquizofrenia, que não gostaram nem um pouco de ver a doença tratada como piada - principalmente da forma avassaladoramente histriônica apresentada por Jim Carrey no auge de seu sucesso no gênero. Depois disso, vieram reclamações sobre como o filme debochava de anões, negros e albinos - se quisesse, qualquer um poderia encontrar motivos justos para queixas. A grande questão, porém,  descontado o absoluto desprezo da dupla de realizadores por um mísero traço de sofisticação, é o fato de que, apesar de seguir quase à risca a fórmula dos primeiros filmes dos cineastas, "Eu, eu mesmo e Irene" não é nem de longe tão engraçado quanto eles. Primeiro por forçar piadas que soam deslocadas e nem sempre funcionam. E principalmente porque, ao contrário de seus trabalhos anteriores, elas estão diluídas em uma trama que exige mais do espectador do que simplesmente risadas - por vezes, a história (fraca) que envolve os personagens fica tão confusa que sobra pouco tempo para rir.

 

O personagem central do filme é Charlie Baileygates, um pacato policial de Rhode Island, cumpridor das leis, afável a ponto de ser tratado como capacho por quase todo mundo e um pai dedicado de trigêmeos que são a prova do adultério da ex-esposa. Continuamente abusado em sua boa-fé, ingenuidade e bondade, um dia Charlie deixa escapar uma nova personalidade: bruto, desbocado, vulgar e sem filtros, Hank assusta os moradores da pequena cidade e principalmente seus colegas de trabalho. Ciente dessa nova condição psíquica de Charlie - administrável quando devidamente medicada -, seu superior, Coronel Partington (Robert Forster) lhe dá uma missão simples: acompanhar com segurança, até o estado de Nova York, a forasteira Irene Walker (Renée Zellweger), presa por dívidas com a polícia rodoviária. No caminho, porém, Charlie descobre que Irene está na mira de policiais corruptos e um ex-namorado tóxico, que farão de tudo para eliminá-la. Intercalando momentos bons com outros dominados por Hank, ele se apaixona pela bela fugitiva e passa a disputá-la com seu grosseiro alterego.

Assumindo o papel central depois que Jack Black pulou fora do projeto, Jim Carrey deita e rola em sua mais absoluta zona de conforto. Seu talento para o humor físico serve como uma luva para as insanidades do roteiro - terminado por Mike Cerrone em 1991 e posteriormente adequado ao estilo dos irmãos Farrelly pelos próprios diretores - e é difícil imaginar outro ator com a coragem suficiente de participar, em uma fase já de grande prestígio na carreira, de algumas sequências francamente duvidosas (sem spoilers, basta citar um momento com uma mãe amamentando um bebê e outro com uma vaca atropelada no meio da estrada). Renée Zellweger está encantadora como Irene Walker, mas tem pouco a fazer diante das atrocidades comandadas por Carrey (com quem namorou durante as filmagens), e o elenco coadjuvante conta com nomes consagrados por indicações ou vitórias no Oscar (Chris Cooper, Richard Jenkins, Robert Forster). Nada disso impede, no entanto, que "Eu, eu mesmo e Irene" fique na história mais como um filme que talvez tenha ido longe demais em seu conceito de humor a qualquer preço do que por suas qualidades artísticas e/ou cômicas. Não à toa, os próprios Farrelly o consideram seu pior filme - e isso que depois eles ainda virariam sua metralhadora giratória para obesos ("O amor é cego", de 2000) e gêmeos siameses ("Ligado em você", de 2003), até Peter deixar de lado seu pendor para o politicamente incorreto, e cometer "Green Book: O Guia", que levou o Oscar de melhor filme de 2018 ao falar sobre racismo (mesmo que sob um ponto de vista branco e pouco profundo).

sábado

CULPADO POR SUSPEITA


CULPADO POR SUSPEITA (Guilty for suspicion, 1991, Warner Bros, 105min) Direção e roteiro: Irwin Winkler. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Priscilla Nedd. Música: James Newton Howard. Figurino: Richard Bruno. Direção de arte/cenários: Leslie Dilley/Nancy Haigh. Produção executiva: Steven Reuther. Produção: Arnon Milchan. Elenco: Robert DeNiro, Annette Bening, George Wendt, Chris Cooper, Patricia Wettig, Sam Wanamaker, Luke Edwards, Ben Piazza, Martin Scorsese, Tom Sizemore. Estreia: 15/3/91

Levando-se em consideração que o cinema foi um dos ramos mais atingidos pela  famigerada caça às bruxas promovida pelo Senador republicano norte-americano Joseph McCarthy na década de 1950 - que, sob o pretexto de salvar os EUA do comunismo, ceifou carreiras e reputações, arruinando vidas e famílias inteiras - até que demorou para que Hollywood tratasse do assunto com a seriedade merecida. Talvez por medo de tocar em uma ferida ainda dolorida mesmo depois de quarenta anos, os executivos  evitaram, por décadas, ressuscitar um fantasma que havia posto colegas contra colegas e deixado a indústria em tensão constante por um longo e tenebroso período. Foi somente em 1991 que a Warner Bros finalmente rompeu a barreira de silêncio e lançou "Culpado por suspeita" - uma produção classuda, estrelada por um astro de primeira grandeza (Robert DeNiro) e que marcava a estreia na direção de um produtor consagrado - Irwin Winkler, o nome por trás de clássicos contemporâneos, como "Touro indomável" (1980), "Os eleitos" (1983) e "Os bons companheiros" (1990). Tais créditos, no entanto, não impediram que o filme fracassasse nas bilheterias - o que era, de certa forma, esperado, devido à seriedade do tema, pouco atrativo ao público médio - e falhasse na tentativa de arrebatar estatuetas do Oscar - não apenas por ter estreado longe do período mais propício à atenção da Academia mas por sua falta de brilho e personalidade.

 


Morno e quase apático - a despeito do tema explosivo -, "Culpado por suspeita" provavelmente perdeu sua chance de ser a obra definitiva sobre o macartismo (ou ao menos uma produção memorável e relevante artisticamente) logo em sua gênese. Ao assumir o projeto, uma das primeiras coisas que Winkler fez foi trabalhar em alterações no roteiro original de Abraham Polonsky e transformar David Merill, seu personagem principal, de comunista assumido em um menos "perigoso" liberal. Polonsky - ele mesmo uma vítima da lista negra promovida pelas investigações de McCarthy - sentiu-se pessoalmente ofendido com a mudança e não fez a menor questão de esconder a insatisfação com a novidade. Segundo ele - e com razão, a história não era sobre alguém falsamente acusado e sim sobre alguém que tinha plena consciência de suas visões políticas e se recusava a abrir mão de seus ideais. Polonsky se identificava com o protagonista e sua integridade a tal ponto que simplesmente obrigou a retirada de seu nome dos créditos também na função de produtor executivo (o que poderia lhe render dividendos, caso o filme se tornasse um hit). A opção de Winkler em tornar Merrill um liberal teve suas razões comerciais - um filme sobre um cineasta comunista certamente incomodaria muita gente - mas acabou por mostrar-se quase tão covarde quanto àqueles que tenciona criticar em sua trama. Isso e o excesso de didatismo acabaram diminuindo o impacto que o filme poderia ter.

O roteiro de Winkler - depois das alterações feitas para desgosto de Polonsky - tenta ser acessível até mesmo ao público que desconhece detalhes das investigações promovidas pelo Comitê de Atividades Antiamericanas, mas esbarra em uma profusão de cenas redundantes, que fazem com que o filme, apesar de suas intenções quase louváveis, pareça andar em círculos. Os personagens constantemente repetem o que a plateia já cansou de ouvir - todas as cenas em que Merrill tenta ser convencido a testemunhar diante do comitê, por exemplo, soam incomodamente semelhantes, e nem mesmo o talento superlativo de Robert DeNiro é capaz de disfarçar tamanha falta de criatividade. Aliás, se há algo em que "Culpado por suspeita" se escora com sucesso é em seu elenco: além de DeNiro (que mesmo sem estar em um momento particularmente memorável da carreira ainda é um ator fenomenal), Winkler conta com a estrela (então) em ascensão Annette Bening (no mesmo ano em que estaria no elenco do aclamado "Bugsy", ao lado do marido Warren Beatty), o ainda pouco conhecido Chris Cooper, a ótima Patricia Wettig (que anos mais tarde estaria no elenco da série "Brothers and sisters") e até mesmo Martin Scorsese em um de seus raros trabalhos como ator (na pele de um cineasta perseguido que prefere abandonar os EUA a delatar amigos, uma história que espelha a do veterano Joseph Losey). Com atores tão bons em mãos (além do veterano Sam Wanamaker, que esteve, assim como o roteirista original, Abraham Polonsky, na lista de profissionais impedidos de trabalhar), Winkler tropeça ao apresentar um filme burocrático que somente em seu terço final consegue empolgar - e mesmo assim o faz ao colocar na boca de seu protagonista um discurso real ouvido no Comitê: o do advogado Joseph N. Welch.

A trama de "Culpado por suspeita" acompanha o consagrado cineasta David Merrill (DeNiro), que retorna da Europa aos EUA, no começo dos anos 1950, e encontra Hollywood em polvorosa com a caça aos comunistas promovida pelo Senador Joseph McCarthy. Merrill - citado como provável membro do partido por ter participado de reuniões anos antes - passa a ser pressionado pelo comitê e até mesmo por colegas para testemunhar e, obviamente, listar nomes que possam ser punidos por suas atividades. Impedido de trabalhar até que concorde em fazer parte da lista de delatores, Merril vê sua vida ruir em questão de semanas. Sem emprego, dinheiro ou oportunidades, ele recorre à família como porto seguro: a ex-mulher, Ruth (Annette Bening), e o filho pequeno. Enquanto mantém firme sua integridade, porém, o cineasta fica atônito ao perceber que nem todo mundo tem a mesma força de caráter. Tal constatação o leva a questionar a força devastadora da mentira e do medo - uma reflexão contada de forma muito mais ousada e memorável em "Boa noite, e boa sorte" (2005), filme de George Clooney que retratava o mesmo período histórico mas dentro do universo televisivo, assim como a comédia "Testa-de-ferro por acaso", estrelada por Woody Allen em 1977. Importante apenas por ser o primeiro filme a resgatar o assunto dentro do mundo do cinema, "Culpado por suspeita" é uma produção agradável e interessante - mas jamais ultrapassa os limites que impôs a si mesma. Uma pena.

quinta-feira

A LEI DA NOITE

A LEI DA NOITE (Live by night, 2016, Warner Bros, 129min) Direção: Ben Affleck. Roteiro: Ben Affleck, romance de Dennis Lehane. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: William Goldenberg. Música: Harry Gregson-Williams. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: Chris Brigham, Chay Carter, Dennis Lehane. Produção: Ben Affleck, Jennifer Davisson, Leonardo DiCaprio, Jennifer Todd. Elenco: Ben Affleck, Elle Fanning, Brendan Gleeson, Sienna Miller, Chris Messina, Robert Glenister, Remo Girone, Zoe Saldana, Chris Cooper. Estreia: 13/12/16

Não é a primeira vez que os caminhos de Ben Affleck e do escritor Dennis Lehane se cruzam: a estreia de Affleck como diretor, em 2007 foi com a adaptação do romance "Gone baby, gone", batizada no Brasil como "Medo da verdade" e que deu à Amy Ryan uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante. De lá pra cá, Affleck colecionou elogios e prêmios com novas incursões à carreira de diretor - como a estatueta de melhor filme, por "Argo", em 2013 - e Lehane viu outro livro seu ganhar as telas ("Ilha do medo", de Martin Scorsese, de 2010) e chegou a roteirizar um conto seu em "A entrega", dirigido por Michael R. Roskam em 2014. O reencontro entre os dois, porém, não foi dos mais felizes: apático e desinteressante, "A lei da noite" decepcionou nas bilheterias e foi desprezado pela crítica e pelas cerimônias de premiação, tornando-se, até agora, o elo mais fraco de uma filmografia que vinha se mostrando bastante consistente e empolgante. Mesmo contando com algumas louváveis qualidades, o quarto trabalho de Affleck como diretor não empolga nem cativa o espectador - e só não é ainda pior porque, inteligente e já experiente, ele soube cercar-se de uma equipe acima de qualquer suspeita, que disfarça suas eventuais falhas.

Abandonando sua temática urbana contemporânea, Lehane buscou, para "A lei da noite", raízes no cinema noir e em sua iconografia facilmente reconhecível pelos cinéfilos: estão presentes no filme a narração em off, mulheres fatais, regras de moral bastante elásticas, violência e o visual deslumbrante oferecido pelo premiado Robert Richardson - vencedor do Oscar por "JFK" (91). Porém, apesar de todos os elementos estarem no lugar, há algo que falta ao resultado final: alma. Apesar da reconstituição de época caprichada, do excelente trabalho do elenco (exceção ao próprio Affleck, mau ator como em seus piores dias) e da ambientação sofisticada, não existe empatia em relação ao protagonista e até mesmo as tramas secundárias são apresentadas de forma confusa, em um roteiro que não se aprofunda em nenhuma delas e ainda deixa o público sem ter por quem torcer. Tivesse deixado o ego um pouco de lado e escalado um ator melhor para viver o personagem principal (como Leonardo DiCaprio, que foi considerado mas permaneceu apenas como um dos produtores) talvez parte do problema resolvido, mas sua falta de expressão acaba por ser o tiro de misericórdia em uma produção morna e lenta que em nenhum momento empolga a plateia. A falta de personalidade de "A lei da noite" pode até ser creditada às diferenças criativas entre o diretor e a Warner Bros - que exigiu um filme com mais ação em detrimento de diálogos e uma trama mais psicológica que era a intenção de Affleck e deixou o resultado final capenga - mas é inegável que o domínio narrativo apresentado nos trabalhos anteriores do diretor/ator/roteirista faz uma enorme falta quando se assiste a um filme com mais de duas horas de duração que parecem o dobro de tempo quando a sessão acaba.


Assim como todo policial noir, "A lei da noite" acompanha a trajetória de um anti-herói. Joe Coughlin (Ben Affleck) é o filho caçula de um respeitado policial de Boston (Brendan Gleeson), mas isso não o impede de flertar abertamente com o mundo do crime, assaltando bancos e roubando até mesmo dos perigosos mafiosos que lucram com a Lei Seca. Um desses golpes o aproxima de Emma Gould (Sienna Miller, irreconhecível), que também é amante de um poderoso chefão local. Tal romance acaba por colocá-lo em maus lençóis: condenado à prisão e sabendo da morte da bela namorada, ele sai da cadeia disposto a vingar-se e aceita trabalhar com um dos rivais de seu novo inimigo. Enquanto sobe na carreira, se envolve com a cubana Graciela (Zoe Saldana), um relacionamento que irá despertar a fúria da Ku Klux Klan e deixá-lo em rota de colisão com rivais que também buscam enriquecer com o contrabando de bebidas - e posteriormente com o jogo. Para proteger-se, Coughlin se aproxima do xerife local, Figgis (Chris Cooper) e de sua ambiciosa filha, Loretta (Elle Fanning).

Com tantos personagens e tramas paralelas jogadas na tela, "A lei da noite" sofre de um sério problema de foco. Ben Affleck desperdiça alguns ótimos personagens como coadjuvantes de uma trama central clichê e sem novidades, deixando de lado atuações milagrosas de Chris Cooper e Elle Fanning e concentrando-se na relação entre seu protagonista e Graciela e em sua trajetória como criminoso: nenhuma das duas histórias é forte o bastante para manter o espectador interessado, e ambas são desenvolvidas superficialmente, quase com preguiça, o que é um pecado mortal para um filme que se pretende um thriller policial. Não deixa de ser lamentável que uma produção tão cuidadosa e com tantos talentos envolvidos tenha ficado tão aquém de seu potencial. Dessa vez Ben Affleck errou feio. "A lei da noite" não é um filme insuportável, mas está longe de ser bom como poderia ser - e mais longe ainda do que se esperava dele.

terça-feira

ÁLBUM DE FAMÍLIA

ÁLBUM DE FAMÍLIA (August: Osage County, 2013, The Weinstein Company, 121min) Direção: John Wells. Roteiro: Tracy Letts, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Adriano Goldman. Montagem: Stephen Mirrione. Música: Gustavo Santaolalla. Figurino: Cindy Evans. Direção de arte/cenários: David Gropman/Nancy Haigh. Produção executiva: Ron Burkle, Celia Costas, Jerry Frankel, Claire Rudnick Polstein, Jeffrey Richards, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: George Clooney, Jean Doumanian, Grant Heslov, Steve Traxler. Elenco: Meryl Streep, Julia Roberts, Ewan McGregor, Sam Shepard, Chris Cooper, Benedict Cumberbatch, Juliette Lewis, Abigail Breslin, Margo Martindale, Julianne Nicholson, Dermot Mulroney. Estreia: 09/9/13 (Festival de Toronto)

2 indicações ao Oscar: Atriz (Meryl Streep), Atriz Coadjuvante (Julia Roberts)

O dramaturgo Tracy Letts foi apresentado ao público cinéfilo com o ultra-violento e cínico “Killer Joe, matador de aluguel”, que chegou às telas sob a direção do veterano William Friedkin e apresentava uma família cuja desfuncionalidade chegava às raias do assassinato. Os personagens de “Álbum de família”, também baseado em um de seus textos teatrais, não alcançam tal extremo, mas dificilmente podem ser considerados exemplos de equilíbrio e respeito por laços de sangue. Interpretados por alguns dos maiores nomes do cinema atual, os membros da família Weston fazem desfilar pela tela, em cerca de duas horas de duração, um festival de rancores, humilhações, ciúmes, inveja e agressão capaz de causar inveja à Tenessee Williams e Edward Albee. Infelizmente, nem mesmo a experiência do elenco excepcional consegue disfarçar a inseguirança do diretor John Wells, que, confiando plenamente em seus atores e no texto pulsante de Letts, parece ter medo de fugir da armadilha do teatro filmado.

Ok, Wells até foge dos limites do cenário único – no caso, a velha casa da família Weston, localizada na pequena cidade de August, condado de Osage (daí o título original) – mas não é o bastante para esconder as origens teatrais da história. Para sua sorte, o texto de Letts é ágil o bastante para prender a atenção do público até suas cenas finais, principalmente porque os dramas do clã retratado pelo dramaturgo são os mais variados possíveis, indo de romances ilícitos até a segredos mantidos por décadas. No centro de todo o furacão emocional está a matriarca Violet (Meryl Streep no papel que lhe rendeu sua 18ª indicação ao Oscar), que depois do desaparecimento do marido, Beverly (Sam Shepard), recebe em sua propriedade toda a sua família - e, junto com ela, uma série de problemas que resolvem vir à tona encorajados pela falta de tato da anfitriã, que sofre de câncer na língua e vê seus medicamentos falarem mais alto que a delicadeza. É assim que ela enfrenta, amarga e cruel, a filha mais velha, Barbara (Julia Roberts), que passa por uma grave crise no casamento com Bill (Ewan McGregor) – cujo relacionamento extraconjugal com uma mulher mais jovem não consegue ser esquecida por ela – e na criação da única filha, a adolescente Jean (Abigail Breslin em papel para o qual foi testada a também excelente Chloe Grace Moretz). Barbara era a filha preferida de Beverly, e quando ele finalmente é encontrado morto, seu funeral aprofunda ainda mais as diferenças da família.



A única que ficou em casa cuidando da mãe durante sua doença, Ivy (Julianne Nicholson) é tratada com desprezo por Violet, que não vê nela a capacidade de casar ou viver uma história de amor – em segredo, porém, ela está apaixonada e é correspondida pelo primo, Charlie (Benedict Cumberbatch), que, assim como ela, é menosprezado pela mãe, Mattie Fae (a ótima Margo Martindale substituindo Kathy Bates, sondada pela produção), mas protegido pelo pai, Charles (Chris Cooper). Fechando o barulhento grupo está a caçula do trio de filhas de Violet, a inconsequente Karen (Juliette Lewis), que chega acompanhada do novo namorado, Steve (Dermot Mulroney) – que acaba por se engraçar com a adolescente Jean, para desespero de Barbara e Bill. Testemunhando toda a confusão, há a empregada doméstica Johnna (Misty         Uphaim), de origem indígena e alvo de constantes ataques de racismo por parte de Violet. É essa família que irá passar um fim-de-semana inteiro lavando a roupa suja acumulada por anos e anos de segredos e meias-verdades.

“Álbum de família” é um show de atores. John Wells nem tem muito trabalho em comandar seu elenco, completamente à vontade em papéis repletos de possibilidades – todas elas exploradas à perfeição. Os embates mais verbalmente violentos – entre Meryl Streep e Julia Roberts, ambas indicadas pela Academia – são uma delícia de assistir, principalmente porque Streep deita e rola com uma personagem francamente desagradável e hostil e Roberts deixa de lado sua persona de estrela para entregar uma atuação forte e visceral. Wells não se preocupa em criar um visual marcante, preferindo dedicar-se a aproveitar a carpintaria dramática do texto de Letts – com reviravoltas dignas de uma boa telenovela – como base para seu filme. Experiente em programas de televisão (dirigiu vários episódios da série “Plantão médico”) mas com apenas um outro filme no currículo, o pouco visto “A grande virada”, de 2001, Wells não consegue escapar de uma direção pouco inventiva e ousada. Mesmo que a produção caminhe sem trancos até o final (diferente do desfecho da peça) fica a nítida impressão de um filme que não atingiu todo o seu potencial. Ainda assim, é um prazer enorme ser testemunha de tantos shows de interpretação concentrados em pouco mais de duas horas.

quarta-feira

O CÉU DE OUTUBRO

O CÉU DE OUTUBRO (October sky, 1999, Universal Pictures, 108min) Direção: Joe Johnston. Roteiro: Lewis Colick, livro de Homer H. Hickman Jr.. Fotografia: Fred Murphy. Montagem: Robert Dalva. Música: Mark Isham. Figurino: Betsy Cox. Direção de arte/cenários: Barry Robinson/Chris Spellman. Produção executiva: Peter Cramer, Marc Sternberg. Produção: Larry Franco, Charles Gordon. Elenco: Jake Gyllenhaal, Laura Dern, Chris Cooper, Chris Owen, William Lee Scott, Chad Lindberg, Natalie Carneday, Scott Miles. Estreia: 19/02/99

Desde que Hollywood é Hollywood, histórias verdadeiras e de superação envolvem e emocionam o espectador, a despeito dos fatos estarem perto de sua realidade ou não. Como o estoque de personalidades famosas é finito, porém, os estúdios volta e meia se voltam a acontecimentos mais simples, mais domésticos, mas nem por isso menos fascinantes e inspiradores. É o caso da história de Homer Hickam, estudante de uma pequena cidade mineira do interior americano que, no final da década de 50, em plena guerra espacial entre EUA e Rússia, lutou contra todas as possibilidades em contrário para construir um foguete caseiro e, com isso, fugir da vida triste e limitada a que estava destinado desde o nascimento. Estrelado por um jovem e iniciante Jake Gyllenhaal e dirigido com delicadeza por Joe Johnston - de "Jumanji" e "Jurassic Park III" - "O céu de outubro" é um belo drama juvenil que, mesmo esbarrando nos clichês, funciona à perfeição em seu objetivo de envolver e emocionar.

Vivendo em uma pequena cidade chamada Coalwood, que sobrevive graças à exploração das minas de carvão, o adolescente Homer Hickam Jr. sabe que não terá muitas escolhas em relação a seu futuro profissional, uma vez que seu pai (o sempre excelente Chris Cooper) é o líder dos mineiros e vê nele uma espécie de sucessor: seu irmão mais velho, Jim (Scott Miles), é um jogador de futebol talentoso e tem chances de ir para a faculdade, ao contrário dele, um aluno sem maiores méritos físicos ou intelectuais. É por isso que ninguém leva muito a sério quando ele resolve construir um foguete nas aulas de Ciências, inspirado pelo lançamento do russo Sputnik - é outubro de 1957, e o mundo está de olho na corrida pela conquista do espaço. Com a ajuda de um grupo de colegas - que inclui o nerd Quentin (Chris Owen) - ele começa a fazer experimentos cada vez mais bem-sucedidos, apesar do deboche de vários colegas e do descaso do próprio pai. Só quem acredita em seus sonhos é sua professora, Miss Riley (Laura Dern), que fará tudo que puder para incentivá-lo, mesmo quando as coisas parecem sem nenhuma esperança.


Narrado com simplicidade e carinho por Johnston - um cineasta sem personalidade, mas correto o suficiente para valorizar os aspectos mais humanos da trama, em detrimento de detalhes técnicos que poderiam aborrecer o espectador médio - "O céu de outubro" equilibra com rara destreza um drama familiar um tanto previsível (mas ainda assim comovente) e uma aventura juvenil com ecos de "Conta comigo" - obra-prima de Rob Reiner inspirada em conto de Stephen King. Ingênuo na medida certa, o filme buscou no livro do próprio Hickman a base para uma história pura e idealista que combina com a filmografia "família" de seu diretor e conquista a plateia justamente por soar como uma produção à moda antiga, nos moldes dos tradicionais produtos Disney, onde a ingenuidade, o caráter e a integridade eram peças fundamentais para o final feliz. Aqui, Johnston apresenta um conto moral sem excessos de açúcar, amparado na produção bem cuidada e no elenco acima da média, que dá credibilidade a um roteiro eficiente, ainda que burocrático ao extremo.

Ainda dando seus primeiros passos na carreira, Jake Gyllenhaal está ótimo no papel central, transmitindo com precisão todos os sentimentos de seu Homer, um adolescente sonhador mas bastante dedicado a romper a tradição operária de sua linhagem familiar através dos estudos e da ciência. Seus embates com o pai, vivido por um Chris Cooper também ainda não devidamente reconhecido com o Oscar e com os elogios que sempre mereceu, são verossímeis, emocionantes, quase cruéis, e sua química com Laura Dern - como a doce mestra que lhe serve de apoio e inspiração - é doce e suave, quebrando o tom quase sufocante das relações familiares do rapaz. Esse contraste entre os dois mundos de Homer (o lar que lhe desanima e o convívio amigável e fraterno com os colegas e a professora, que lhe dão o ânimo necessário) é outro acerto da direção, que os apresenta gradualmente até as sequências finais, quando eles finalmente se encontram.

Mesmo que não surpreenda e seja menos ousado narrativamente do que poderia, "O céu de outubro" cumpre o que promete com louvor. É bonito, é emocionante, é inspirador e é leve como deveria. Um pequeno grande filme que serviu  também para apresentar à plateia um ator que ainda daria muito o que falar, o jovem e talentoso Gyllenhaal.

domingo

O ENCANTADOR DE CAVALOS

O ENCANTADOR DE CAVALOS (The horse whisperer, 1998, Touchstone Pictures, 172min) Direção: Robert Redford. Roteiro: Eric Roth, Richard LaGravenese, romance de Nick Evans. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Hank Corwin, Freeman Davies, Tom Rolf. Música: Thomas Newman, Gwil Owen. Figurino: Judy L. Ruskin. Direção de arte/cenários: Jon Hutman/Gretchen Rau, Hilton Rosemarin. Produção executiva: Rachel Pfeffer. Produção: Patrick Markey, Robert Redford. Elenco: Robert Redford, Kristin Scott Thomas, Sam Neil, Dianne Wiest, Chris Cooper, Scarlett Johanssen, Cherry Jones, Kate Bosworth. Estreia: 15/5/98

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("A soft place to fall")

Quem conhece a filmografia de Robert Redford como cineasta sabe muito bem que o galã transformado em diretor oscarizado - pelo belo "Gente como a gente", de 1980 - tem um ritmo todo particular de contar as histórias que escolhe apresentar à plateia. Foi assim, por exemplo, com "Nada é para sempre" (92), que ilustrava uma trama familiar e fraternal com o ritmo suave da pesca, e com "Quiz show, a verdade dos bastidores" (94), que escancarava a corrupção da televisão americana em plenos anos 50 como um cerebral filme de detetives da década de 70. Não houve surpresa nenhuma, portanto, quando ele lançou "O encantador de cavalos", seu filme seguinte: baseado em um romance de Nick Evans que teve seus direitos comprados por Redford antes mesmo de ser publicado, o filme se desenvolve lentamente diante dos olhos do espectador, oferecendo a ele a oportunidade de envolver-se gradualmente com a trama, os personagens e as belas imagens captadas pela câmera do veterano Robert Richardson - Oscar por "JFK", de Oliver Stone. A quem está acostumado com a edição quase alucinante da maioria do filmes pós-anos 80, pode parecer chato e enfadonho - o estilo convencional do cineasta muitas vezes é assim considerado - mas aqueles que aceitarem experimentar podem se surpreender com uma bela e emocionante história de amor e reparações sentimentais.

Logo nos primeiros minutos de projeção Redford já mostra que não está disposto a brincadeiras, com uma impressionante sequência que mostra um trágico acidente envolvendo um caminhão e dois cavalos em um estrada coberta de uma neve escorregadia e traiçoeira. O resultado do desastre - dirigido com sensibilidade e delicadeza que equilibram suas consequências funestas - é a morte da adolescente que cavalgava um dos animais (que também acaba se tornando uma vítima fatal) e a amputação de parte da perna da outra menina, a tímida Grace (Scarlett Johansson em início de carreira). Seu cavalo, Pilgrim, sobrevive, mas fica extremamente ferido a ponto de tornar-se sério candidato à eutanásia. Quem impede tal desfecho é Annie (Kristin Scott Thomas), editora-chefe de uma revista nova-iorquina que acredita que matar o animal seria o golpe de misericórdia no sofrimento de sua filha, Grace. Disposta a curar o cavalo - e consequentemente ajudar na recuperação da garota, com quem vive um relacionamento difícil - ela viaja até Montana com o objetivo de convencer o famoso "encantador de cavalos" Tom Booker (Redford em pessoa, pela primeira vez sendo dirigido por ele mesmo) a aceitar o trabalho de recuperar a saúde de Pilgrim.


Não é preciso ser especialista para adivinhar que Booker não apenas irá tratar do cavalo, mas também irá consertar a relação entre mãe e filha, colaborar na autoaceitação de Grace em sua nova condição, questionar o modo de vida urbano e estressante de Annie e, lógico, envolver-se romanticamente com ela, que passa por um período conturbado no casamento com Robert (Sam Neill). Nadando contra a corrente do cinema comercial americano, porém, Redford trata dessa sessão de terapia conjunta e atípica sem pressa, de forma quase contemplativa e onírica, que valoriza cada fotograma, cada expressão de seus atores - e entre os coadjuvantes estão os ótimos Dianne Wiest e Chris Cooper - e cada deslumbrante cenário de Montana. É óbvio que essa decisão em levar a história a seu próprio tempo estica a duração do filme a quase três horas de duração, o que pode incomodar aos mais inquietos, mas é louvável a coragem de Redford em desafiar as normas ao assinar uma produção que ainda por cima tem a ousadia de contar uma história de amor pudica e discreta, ao contrário dos amores histéricos que frequentam as salas de exibição. Tudo bem, sua química com Kristin Scott Thomas - uma das maiores atrizes de sua geração - não é das melhores, mas o fato de seu relacionamento sustentar-se basicamente em olhares e intenções faz dele um dos mais maduros e interessantes da década, apesar do fracasso do filme nas bilheterias (talvez justamente por romper os padrões comerciais do gênero).

E é interessante também como Redford encontra um generoso espaço em seu drama romântico para mostrar o tratamento que seu personagem oferece ao cavalo de Grace - e que, afinal, dá título ao filme. As cenas em que Tom Booker e Pilgrim interagem - e posteriormente incluem a menina em sua relação - são emocionantes na medida certa, evitando o sentimentalismo fácil ao mesmo tempo em que conquistam o público com sua delicadeza ímpar, enfatizada pela bela fotografia e pela trilha sonora de Thomas Newman. "O encantador de cavalos" é um filme para plateias adultas, que estão cansadas das fórmulas desgastadas expostas com ritmo de videoclipe. É suave, maduro e muito bonito.

sexta-feira

LONE STAR, A ESTRELA SOLITÁRIA

LONE STAR, A ESTRELA SOLITÁRIA (Lone star, 1996, Columbia Pictures Corporation/Castle Rock Entertainment, 135min) Direção, roteiro e montagem: John Sayles. Fotografia: Stuart Dryburgh. Música: Mason Daring. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Dan Bishop/Dianna Freas. Produção executiva: John Sloss. Produção: R. Paul Miller, Maggie Renzi. Elenco: Chris Cooper, Elizabeth Peña, Kris Kristofferson, Matthew McConaughey, LaTanya Richardson, Clifton James, Frances McDormand. Estreia: 21/6/96

Indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original

O poder do passado em relação ao presente sempre foi um tema caro às tragédias gregas, e não seria exagero descrever "Lone star, a estrela solitária", do cineasta independente norte-americano John Sayles como um exemplar moderno da mais antiga forma de arte dramática do mundo. Ok, o cenário é rusticamente diferente - a fronteira entre o estado do Texas e o México - e o protagonista está longe de ser um rei ou algo do tipo - ainda que um xerife não esteja tão longe assim de alguém superior aos demais habitantes em uma cidadezinha tão pequena quanto Rio County. Mas a trama criada por Sayles, um quebra-cabeças formado por peças aparentemente desconexas que se revela, em seu final, um rico e dramático panorama sócio-cultural repleto de nuances raciais e familiares, remete facilmente ao berço do teatro - mesmo que sua opção por um final menos devastador o afaste dos previsíveis clichês da tragédia. Unanimemente elogiado pela crítica, o filme de Sayles recebeu uma justa indicação ao Oscar de roteiro original - que perdeu para "Fargo", dos irmãos Coen, coincidentemente outra visão do interior dos EUA e também com Frances McDormand no elenco - e é, talvez, o melhor representante de seu estilo de cinema,

A espinha dorsal de "Lone star" é a descoberta, no deserto próximo à pequena cidade de Rio County, de uma ossada enterrada há cerca de quarenta anos - e perto dela, de uma estrela de xerife quase apagada pelo efeito do tempo. Investigações de balística revelam que o esqueleto pertence a Charlie Wade (Kris Kristofferson), antigo xerife local conhecido por sua fama de corrupto e assassino e que foi tido como desaparecido logo depois de embolsar dez mil dólares que tiveram origem nas extorsões que praticava com a minoria mexicana da cidade. A estrela do xerife indica que seu assassinato foi cometido por Buddy Deeds (Matthew McConaughey), seu assistente, que, pouco depois, tornou-se xerife em seu lugar, até morrer também. O problema é que não apenas Buddy passou a ser considerado um herói por seu trabalho no combate à corrupção da localidade como está em vias de ser homenageado pela prefeitura, através de um busto comemorativo - e ser taxado de assassino, mesmo que de um criminoso como Wade, não irá ajudar em nada nas festividades. Não bastasse isso, o atual xerife de Rio County é Sam Deeds (Chris Cooper), filho de Buddy que não mantinha com ele a melhor das relações e não tenciona relaxar as investigações: acreditando que tem mais sujeira por trás do homicídio ocorrido há quatro décadas, ele não mede esforços para descobrir os motivos que levaram ao crime.


Juntamente com a investigação de Sam - que tem como testemunhas-chave o assistente de Wade à época dos acontecimentos, Hollis (Jeff Monahan no passado, Clifton James no presente), e Otis (Gabriel Casseus no passado, Ron Canada no presente), o dono de um bar que presenciou o início de todo o processo que levou à tragédia - o filme de Sayles acompanha outros dramas familiares que se desenrolam na comunidade. Otis tenta conquistar a confiança do filho, que foi criado pela mãe e tornou-se coronel do exército - e que por sua vez também tem problemas com seu próprio rebento, além de ter de lidar com uma jovem rebelde que não consegue deixar de envolver-se em problemas fora do quartel. A professora Pilar (Elizabeth Peña) luta em sua escola por manter um currículo imparcial, que dê aos jovens mexicanos uma visão menos americanizada de sua história - enquanto tenta esconder sua paixão reprimida por Sam, de quem foi afastada na juventude por Buddy e por sua mãe, Mercedes (Miriam Colon), que mantém uma relação ambígua e repressora com os funcionários de seu restaurante.

A teia de personagens criada por Sayles - que parece aleatória até que se revela um único quadro - é um dos maiores méritos de "Lone star". Mais ou menos como Orson Welles fez em "Cidadão Kane" e Akira Kurosawa em "Rashomon" - guardadas as devidas proporções - o diretor/roteirista mostra a verdade sobre Buddy Deeds sob vários ângulos, sempre acrescentando a cada um uma nova perspectiva a respeito de sua personalidade e seu caráter (muito mais complexo do que se poderia imaginar a princípio). Além disso, em sua trajetória atrás da alma de seu pai, Sam cruza com questões raciais e políticas que dão à obra um nível extra de profundidade que o afastam do rótulo simplório de "filme policial". O romance proibido entre Sam e Pilar, por exemplo, é tão crucial para o desenvolvimento da trama quanto as relações dúbias da mãe da professora com seu passado - também intimamente ligado ao surpreendente final da história, que é um retrato sóbrio e inequívoco de uma realidade social da fronteira mexicana.

E, logicamente, John Sayles tem a sorte de contar com o extraordinário Chris Cooper na liderança de seu elenco. Anos antes de ganhar o Oscar por "Adaptação", Cooper já demonstrava uma qualidade ímpar que o consagraria como um dos mais importantes atores americanos de sua geração. É ele quem conduz a trama e, mesmo sem ser então um nome conhecido do grande público, transmite a segurança de um astro em um papel difícil e que passa, através do silêncio, o turbilhão de dúvidas de um homem preso a um passado assombrado. São especialmente brilhantes a cena em que conversa com a ex-mulher emocionalmente desequilibrada - único e impressionante momento de Frances McDormand - e o momento em que finalmente descobre a ordem de eventos que levaram à morte do temido Charlie Wade. Seu trabalho é tão exemplar que ofusca a presença de um então desconhecido Matthew McConaughey em vias de tornar-se astro graças a "Tempo de matar", de Joel Schumacher e a interpretação sincera e emocional de Elizabeth Peña. Juntos, eles dão o tom passional exato à aridez do deserto texano e fazem do filme uma pequena pérola a ser descoberta.

segunda-feira

ATRAÇÃO PERIGOSA

ATRAÇÃO PERIGOSA (The town, 2010, Warner Bros, 125min) Direção: Ben Affleck. Roteiro: Ben Affleck, Peter Craig, Aaron Stockard, romance "Prince of thieves", de Chuck Hogan. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Dylan Tichenor. Música: David Buckley, Harry Gregson-Williams. Figurino: Susan Matheson. Direção de arte/cenários: Sharon Seymour/Maggie Martin. Produção executiva: David Crockett, William Fay, Jon Jashni, Thomas Tull. Produção: Basil Iwanyk, Graham King. Elenco: Ben Affleck, Rebecca Hall, Jeremy Renner, Pete Postletwhaite, John Hamm, Blake Lively, Chris Cooper. Estreia: 08/9/10 (Festival de Veneza)

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Jeremy Renner)


De promessa de astro no final da década de 90, quando ganhou o Oscar de roteiro original ao lado do amigo de infância Matt Damon, pelo filme “Gênio indomável”, nos anos seguintes o ator Ben Affleck parecia ter entrado em um inferno astral. Sucessos de bilheteria não faltavam – “Armaggedon” à frente – mas seus talentos dramáticos frequentemente eram postos à prova (quando não severamente criticados e motivo de piadas por parte da indústria e até do público). Filmes como “Pearl Harbor” (01), “Demolidor” (03) e principalmente “Contrato de risco, que fez ao lado da então noiva Jennifer Lopez, o colocaram em uma encruzilhada artística de que poucos conseguiriam sair ilesos. Foi então que o destino voltou a lhe sorrir. Iniciou uma nova carreira com o drama policial “Medo da verdade”, baseado em livro de Dennis Lehane (autor também de “Sobre meninos e lobos”) e, com elogios unânimes e uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante para Amy Ryan, mostrou-se um cineasta promissor. Dois anos mais tarde, ao assumir para a Warner um projeto que o cineasta Adrian Lyne abandonou a meio caminho, mostrou que o sucesso do filme anterior não havia sido apenas sorte de principiante.

O mais interessante em “Atração perigosa” – um título nacional derivativo que esconde as grandes qualidades do filme – é a segurança com que Affleck comanda a narrativa, equilibrando com extrema eficiência sequências de ação impecáveis e um drama romântico que foge do clichê e do melodrama barato. Evitando erros comuns a diretores ainda inexperientes – que sempre querem colocar em sua primeira experiência todas as ideias que lhe vem à mente – Affleck opta por uma direção discreta, deixando que a história fale mais do que suas ambições estilísticas. Desse modo, o público acaba mergulhando sem reservas em uma trama repleta de violência (moderada mas ainda assim convincente) e romance (realista e envolvente). Com base no livro “Prince of thieves”, de Chuck Hogan, o roteiro (também com participação do ator/diretor) acompanha personagens que, mais do que simplesmente obrigados a lidar com a criminalidade que os cerca, são parte viva de um ambiente onde ela brota a cada esquina – e, pior ainda, atravessa gerações.



O protagonista é Doug MacRay, interpretado por Ben Affleck em registro sutil e surpreendentemente suave. MacRay trabalha como operário em Boston, mas não consegue renegar o sangue e, a exemplo do pai, Stephen (Chris Cooper), volta e meia acaba se envolvendo em assaltos a bancos, uma atividade rotineira na região onde mora, uma das mais violentas da cidade. É durante um desses ataques que ele conhece a bela Claire Keesey (Rebecca Hall), vítima involuntária do ímpeto de um de seus comparsas, James Coughlin (Jeremy Renner). Com medo que Claire possa reconhecer um deles depois de ter sido feita refém – apesar das máscaras que eles usam em todas as atividades ilegais de que participam – MacRay se aproxima dela e os dois acabam se apaixonando. Logicamente, ele precisa esconder seus sentimentos de todos à sua volta, especialmente de James, seu amigo de infância e irmão de uma ex-namorada, a vulgar Krista (Blake Lively) e do detetive do FBI Adam Frawley (John Hamm, da série “Mad men”), que se dedica ferozmente a capturá-lo. Não bastasse esse problema múltiplo – e o medo de que Claire o reconheça – o rapaz ainda precisa lidar com Fergus Colm (Pete Postlethwaite), o chefão local que o chantageia para que se mantenha no crime.

Há muito o que elogiar em “Atração perigosa”. Além das cenas de ação – inspiradas em filmes como “Fogo contra fogo” (95) e “Os infiltrados” (06) e dotadas de energia e segurança ímpares – o ator tornado diretor consegue a façanha de equilibrá-las com momentos de grande impacto dramático, amparado principalmente por um elenco esplêndido. Jeremy Renner substituiu Mark Whalberg – ocupado com as filmagens de “O vencedor” – na última hora, recomendado pelo irmão do diretor, Casey Affleck, e abocanhou uma justa indicação ao Oscar de coadjuvante. Mas são duas participações pequenas que aumentam o valor do filme: como o pai criminoso de MacRay, o veterano Chris Cooper não precisa de muitos minutos em cena para roubar a atenção, e Pete Postletwhaite mostra porque era considerado um dos melhores atores do mundo ao fazer de seu Fergus um dos vilões mais assustadores do ano. Mostrando que é capaz de dirigir tanto cenas carregadas de adrenalina quanto momentos mais intimistas, Affleck pavimentou o caminho para que, três anos mais tarde, seu “Argo” conquistasse o merecido Oscar de melhor filme. Sem contra-indicações, “Atração perigosa” é um filme policial dos melhores.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...