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terça-feira

NOITES DE CABÍRIA


NOITES DE CABÍRIA (Le notti di Cabiria, 1957, De Laurentiis/Marceau, 110min) Direção: Federico Fellini. Roteir: Federico Fellini, Ennio Flaiano, Tullio Pinelli. Fotografia: Aldo Tonti. Montagem: Leo Catozzo. Música: Nino Rota. Figurino: Piero Gherardi. Direção de arte: Piero Gherardi. Produção: Dino De Laurentiis. Elenco: Giulietta Masina, François Perier, Franca Marzi, Dorian Gray. Estreia: 11/5/57 (Festival de Cannes)

Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Atriz (Giulietta Masina)

É impossível não se apaixonar por Cabíria. Alegre, resiliente e sempre otimista apesar de o mundo tentar nocauteá-la, ela trabalha nas ruas de Roma e se ergue constantemente das ruínas a que é transformada a cada (e frequente) decepção. E assim como é impossível não se apaixonar por Cabíria, é igualmente desafiador não se encantar por Giuletta Masina. Não apenas é ela é quem dá vida, corpo e alma à mais famosa prostituta do cinema europeu, como também é a responsável por fazer o espectador se envolver incondicionalmente com seus dramas e amores desde os primeiros minutos do filme, premiado com o Oscar de melhor produção estrangeira de 1957. Expressiva e carismática, não levou à toa a Palma de Ouro no Festival de Cannes do mesmo ano: em cada momento, em cada cena, em cada linha de diálogo ou em cada close em seus olhos molhados de lágrima (de alegria ou tristeza), Masina transmite um mundo de emoções de que somente as grandes atrizes são capazes. Seu encontro com Cabíria é, sem favor, um dos casamentos mais perfeitos, na história do cinema, entre atriz e personagem. Tudo sob o olhar luminoso e quase poético de Federico Fellini - ele mesmo um eterno apaixonado (e correspondido) por sua musa.

Cabíria não tem sorte na vida. Nem no amor. Logo nas primeiras cenas do filme ela quase morre afogada, empurrada em um rio por aquele a quem considerava o homem perfeito. De volta às ruas, continua sua rotina regada a rivalidades, amizades (profundas ou nem tanto) e pela busca pela felicidade. Dentre clientes encrenqueiros, noites solitárias e rituais católicos que remetem a crenças religiosas que conflitam com sua profissão, Cabíria se vê às voltas, ocasionalmente, com a esperança de preencher seu coração carente. É assim com Alberto Lazzari (Amedeo Nazzari, em personagem batizado e criado em sua própria homenagem), um astro de cinema que lhe dá o vislumbre de um mundo de sofisticação e glamour, antes de tratá-la como alguém inferior. E é assim, principalmente, com Oscar (François Périer), um homem que surge como a resposta a suas preces mais sentidas: completamente apaixonada, a doce e romântica prostituta se deixa seduzir pela chance de casar, formar uma família e abandonar a vida fácil. Mas, como já dizem por aí, para ver Deus rir, basta contar seus planos a Ele.

 

Embalado pela delicada trilha sonora de Nino Rota, "Noites de Cabíria" encontra beleza até mesmo na dureza do cotidiano de sua protagonista, graças a um roteiro que, ao contrário de algumas das mais famosas obras de Fellini, aposta na linearidade e no realismo (ainda que envernizado pelo tom poético da fotografia em preto-e-branco de Aldo Tonti). As prostitutas que cercam Cabíria - e até ela mesma - não são aquelas mostradas por Hollywood, e sofrem na carne uma vida repleta de privações. Cabíria mora em uma casa própria, mas nada em sua moradia lembra luxo ou comodidade. Cabíria não é deslumbrante nem exibe um corpo escultural. Não é particularmente inteligente e sua aparente vulnerabilidade só desaparece diante das (muitas) adversidades. E justamente por sua falta de grandeza, conquista a simpatia e a identificação com o público, que se vê nas telas com todas as suas fraquezas e - por que não? - encantos. Uma força da natureza em forma de atriz, Giulietta Masina é a mais completa tradução do cinema italiano dos anos 1950 - e a intérprete que melhor representou a veia artística de Federico Fellini em seus mais puro delírios artísticos.

Longe das elocubrações existenciais de "A doce vida" (1960), da metalinguagem autoparódica de "Oito e meio" (1963) e da nostalgia lúdica de "Amarcord" (1973), a direção de Fellini em "Noites de Cabíria"  se dedica à delicadeza, ao onírico, ao romantismo melancólico e ao humor por vezes involuntário que surge das desventuras tragicômicas de sua protagonista. O registro amoroso do cineasta fascina e  emociona no mais íntimo do espectador. Ao falar diretamente ao coração, ele acerta em cheio e assina (mais uma vez) sua entrada no rol do inesquecível.

 

sexta-feira

O SÉTIMO SELO

O SÉTIMO SELO (Det sjunde inseglet, 1957, Svensk Filmindustri, 96min) Direção: Ingmar Bergman. Roteiro: Ingmar Bergman, baseado em sua peça teatral "Pintura sobre madeira". Fotografia: Gunnar Fischer. Montagem: Lennart Wallen. Música: Erik Nordgren. Figurino: Manne Lindholm. Produção: Allan Ekelund. Elenco: Max Von Sydow, Gunnar Bjornstrand, Bengt Ekerot, Nils Poppe, Bibi Andersson. Estreia: 16/02/57

Impactantes imagens em preto-e-branco, reflexões angustiadas e existenciais acerca de Deus e da morte e um clima que equilibra a morbidez da Peste Negra com a vida despreocupada e feliz de um grupo de artistas mambembes cuja maior preocupação é sobreviver a cada dia em contato com a simplicidade da natureza. São esses os elementos que fazem de "O sétimo selo" um dos mais icônicos trabalhos do diretor sueco Ingmar Bergman. Antes mesmo de consagrar-se como um dos cineastas mais influentes da Europa ao tratar de temas complexos e intimistas - normalmente em filmes estrelados por sua esposa Liv Ullman - Bergman fascinou crítica e público com uma trama repleta de simbolismos que reflete algumas de suas obsessões mais caras, como religião, metafísica e altas doses de existencialismo. Não à toa, entrou indelevelmente na lista dos mais importantes realizadores do cinema mundial, iniciando uma jornada frequentemente densa e pessoal - e paradoxalmente, universal.

Dono de uma temática pouco comercial e a princípio um tanto mórbida, "O sétimo selo" só saiu do papel graças ao sucesso de crítica do filme anterior de Bergman, "Sorrisos de uma noite de amor" (55), uma comédia romântica, vejam só, que incentivou os financiadores suecos a apostarem no talento do cineasta então relativamente jovem (tinha menos de 40 anos de idade) e com ideias bem particulares a respeito do mundo que o cercava. Baseado em uma peça de sua autoria chamada "Pintura sobre madeira", transmitida pelo rádio em 1954, Bergman recheou seu filme com imagens buscadas na memória afetiva - seu pai era um rígido pastor luterano e pregava em uma igreja cujos murais inspiraram o futuro cineasta - e em suas próprias questões espiritualistas, que abarcavam não somente a religião, mas a humanidade em si (e o que faz do homem o que ele realmente é). Complexo e belo na exata medida, a obra acabou saindo do Festival de Cannes com o prêmio especial do júri e iniciou uma carreira vitoriosa que faz dela um dos mais adorados, imitados e citados filmes da história do cinema, tendo inspirado desde Woody Allen até Schwarzenegger (em "O último grande herói", de 1993). Nem mesmo o mundo do rock ficou impune à obra, como bem pode confirmar Van Halen, que batizou uma de suas canções em homenagem ao filme.


Aproveitando o filme para lidar com seu medo quase patológico da morte, Bergman utiliza sua trama para fazer desfilar, diante do público, uma série de sequências antológicas, valorizadas pela fotografia expressionista de Gunnar Fischer e pelas atuações inesquecíveis de Max Von Sydow (em seu primeiro trabalho com o diretor, com a exceção de uma ponta em "Morangos silvestres") e Bengt Ekerot (no papel icônico da Morte). Von Sydow vive Antonius Blok, um cavaleiro que, depois de passar anos lutando nas Cruzadas, retorna a seu país e o encontra assolado pela Peste Negra. Testemunhando cenas brutais de execuções à mulheres consideradas bruxas e fiéis de autoflagelando em nome de Deus, Blok vê surgir à sua frente a Morte em pessoa. Sabendo que ela sempre esteve à sua volta, ele aproveita a oportunidade para questioná-la a respeito de suas dúvidas existenciais, propondo que eles joguem uma partida de xadrez enquanto isso. Nesse meio-tempo, ele conhece uma família de artistas mambembes que o faz ver um outro lado da vida, menos sombrio e repleto de esperanças no futuro.

Sem medo de apostar na inteligência e na sensibilidade do público, levantando questões sem a intenção de respondê-las explicitamente, Ingmar Bergman leva seu estilo poético e lúdico até as últimas consequências. Inserindo momentos leves e dotados de um insuspeito senso de humor em meio a divagações existenciais das mais densas, o cineasta mergulha a plateia em uma viagem sensorial e mística que, felizmente, jamais descamba para a religiosidade rala ou piegas. "O sétimo selo" é um filme inteligente e brilhante em seus questionamentos metafísicos e existenciais, além de deslumbrar também por seu visual extraordinário. Um Bergman dos melhores - e por incrível que possa parecer, um dos mais acessíveis.

sábado

MORANGOS SILVESTRES

MORANGOS SILVESTRES (Smultronstallet, 1957, Svensk Filmindustri, 91min) Direção e roteiro: Ingmar Bergman. Fotografia: Gunnar Fischer. Montagem: Oscar Rosander. Música: Erik Nordgren. Figurino: Millie Strom. Direção de arte: Gittan Gustaffson. Produção: Allan Ekelund. Elenco: Victor Sjostrom, Bibi Andersson, Ingrid Thulin,Gunnar Bjornstrand, Max Von Sydow. Estreia: 26/12/57

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro

Um dia, enquanto estava viajando de carro pelas estradas da Suécia, o cineasta Ingmar Bergman parou na pequena cidade de Uppsala, onde nasceu e, passando em frente à casa de sua avó, ficou imaginando como seria se ele pudesse entrar na propriedade e vê-la exatamente como era na sua infância. Indo mais além, pensou em fazer um filme sobre essa possibilidade de visitar várias fases de uma mesma existência. O que poderia ser apenas uma ideia estéril, para sorte dos cinéfilos do mundo inteiro transformou-se em uma de suas maiores obras-primas, o melancólico "Morangos silvestres".

Lançado após o fundamental "O sétimo selo", "Morangos silvestres" confirmou Bergman como um dos mais importantes cineastas da história da Suécia, ao lançar uma nova luz sobre uma de suas temáticas preferidas: o sentido da vida. O existencialismo sempre presente na obra do diretor encontra na figura de seu protagonista, o velho professor Isak Borg, um ícone absoluto, que representa, em sua trajetória rumo ao maior entendimento possível de todas as consequências de seus atos, toda a busca presente na filmografia do cineasta sueco. Interpretado por Victor Sjostrom - ele mesmo um antigo diretor que teve larga influência na obra de Bergman - Isak Borg prescinde do carisma de um protagonista clichê para aparecer diante da plateia como um ser humano repleto de falhas que vê, diante de seus olhos, todos os caminhos que o levaram a ser o homem que é: frio e distante, como seu nome sugere.


Borg é um professor octogenário que será homenageado em sua cidade natal pela carreira dedicada à profissão. Decidido a fazer a viagem de carro, ele é acompanhado pela nora, Marianne (Ingrid Thulin), que está em vias de separar-se do marido devido a suas diferenças irreconciliáveis. Durante o caminho, acontecimentos fortuitos o levam a reviver momentos cruciais de sua vida, desde a infância até o fim de seu casamento (que de certa forma reflete também a crise no matrimônio de seu filho). A carona que ele e Marianne dão a um trio de jovens falantes e a um casal em constante agressão revela a Borg facetas de sua própria personalidade que o fazem encarar a dura solidão de sua vida atual.

Iniciando com um pesadelo surreal - fotografado com precisão por Gunnar Fischer - e utilizando-se de artifícios inteligentes de alternância entre presente, passado e alucinações, "Morangos silvestres" proporciona a seu público um espetáculo de sensibilidade, sem apelar para sentimentalismo. A câmera de Bergman não permite, em momento algum, a lágrima fácil ou a emoção barata, preferindo sempre atingir seus objetivos através do cérebro e do visual caprichado. Não é à toa que seu filme inspirou o genial Woody Allen em duas ocasiões distintas: em "Crimes e pecados" (89), quando o personagem de Martin Landau visita sua casa de infância e tem reminiscências sobre o passado e em "Desconstruindo Harry" (97), em que o protagonista também empreende uma viagem de carro a fim de ser homenageado por sua carreira e questiona sua vida. Bergman, com sua personalidade discreta, fez escola.

segunda-feira

A CALDEIRA DO DIABO


A CALDEIRA DO DIABO (Peyton Place, 1957, 20th Century Fox, 157min) Direção: Mark Robson. Roteiro: John Michael Hayes, baseado no romance de Grace Metalious. Fotografia: William Mellor. Montagem: David Bretherton. Música: Franz Waxman. Produção: Jerry Wald. Elenco: Lana Turner, Lee Philips, Arthur Kennedy, Lloyd Nolan, Russ Tamblyn, Hope Lange, Diane Varsi, David Nelson. Estreia: 13/12/57

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mark Robson), Atriz (Lana Turner), Ator Coadjuvante (Russ Tamblyn, Arthur Kennedy), Atriz Coadjuvante (Hope Lange, Diane Varsi), Fotografia, Roteiro Adaptado

O destino pode realmente ser muito irônico. Uma prova disso? Em "A caldeira do diabo", adaptado do romance de Grace Metalious, a atriz Lana Turner interpreta Constance McKenzie, uma viúva correta que vive em uma pequena cidade do interior dos EUA no início dos anos 40. Dona de uma pequena loja de roupas, ela tem uma relação conflituosa com a filha única, Allison (Diane Varsi), com quem acaba rompendo depois de uma discussão mais séria, causada por revelações sobre seu passado. O reencontro das duas acontece quando a jovem volta à cidadezinha para acompanhar o julgamento de sua melhor amiga, que assassinou o padrasto que a havia violentado. O que há de irônico nisso? Acontece que, pouco depos da cerimônia do Oscar de 1958, Turner (que perdeu o Oscar de melhor atriz para Joanne Woodward) envolveu-se em um escândalo de grandes proporções, envolvendo sua filha, assédio sexual e um assassinato. A vida imita a arte?

Na década de 50, Turner vivia um tórrido caso amoroso com o gângster Johnny Stompanato, a quem sustentava. Na noite de 4 de abril de 1958, alegando estar protegendo sua mãe da violência do amante, sua filha de apenas 14 anos, Cheryl Crane, o assassinou com uma faca de cozinha. Julgada, ela foi inocentada, mas o caso ganhou as manchetes dos tabloides mundiais (sensacionalistas ou não) e dizem que iria virar filme nas mãos de Adrian Lyne (com Keanu Reeves e Catherine Zeta-Jones nos papéis principais). Mas o que é apenas uma história dos bastidores de Hollywood não deixa de ser uma espécie de eco da trama de "A caldeira do diabo".

Peyton Place - o nome do romance que deu origem ao filme - é também o nome da pacata cidade que é seu cenário. A trama começa no final do ano letivo de 1941, quando o confiante Michael Rossi (Lee Philips) assume o posto de diretor da escola secundarista, para desgosto de seus alunos, que esperavam que o trabalho fosse parar nas mãos de uma professora mais antiga e mais querida. Mesmo sendo persona non grata junto aos alunos, Rossi se encanta com Constance McKenzie (Turner), a mãe de uma das estudantes em vias de formar-se, a sensível Allison, cujo sonho é tornar-se escritora e não entende a forma rígida de sua mãe de ver o progresso e a liberdade sexual. Allison é a melhor amiga de Selena Cross (Hope Lange), a filha de sua empregada, uma moça tímida e romântica que tem sua vida transformada quando é estuprada pelo padrasto, Lucas (Arthur Kennedy), um homem bêbado e violento. Para defender-se de um novo ataque, ela o mata e vai parar no banco dos réus. Só quem pode salvá-la é o médico da cidade, Dr. Swain (Lloyd Nolan), que conhece a verdade sobre a saúde da garota.

"A caldeira do diabo" tem ressonâncias de filmes como "Juventude transviada" na sua tentativa bem intencionada de questionar as relações entre pais e filhos, bem como em sua busca de dar luz aos ares de uma liberalidade sexual que chegaria com força à América nos anos 60. Nesse ponto também tem semelhanças com "Clamor do sexo", que Elia Kazan lançaria em 1961, e com os filmes de Douglas Sirk, ao destruir com precisão cirúrgica a aparência de normalidade de uma sociedade baseada em aparências. É o sexo escondido, temido e malvisto que desencadeia todos os dramas no filme de Mark Robson, enredando suas personagens - na maioria jovens desorientados e frustrados em suas descobertas amorosas - em uma avalanche de tristeza, revolta e violência. Não é à toa que Allison deseja fugir de Peyton Place, de sua mãe e das obrigações de uma vida que exige regras que ela não tenciona cumprir. É Allison, em seu desejo por viver da maneira que anseia que, de certa forma, põe sentido na história criada por Grace Metalious - e age como a narradora do drama.

"A Caldeira do diabo" está longe de ser uma obra-prima. Visto hoje, é de um visual datado, com um roteiro por vezes esquemático (escrito surpreendentemente pelo parceiro habitual de Hitchcock, John Michael Hayes) e um elenco nada excepcional (ainda que 5 atores tenham recebido indicações ao Oscar, um recorde na época). Além do mais, tem uma tendência ao melodrama que pode incomodar aos mais exigentes (não é de admirar que alguns anos depois tenha dado origem a uma longeva série de TV com cara de telenovela). Mas suas intenções são admiráveis e ele tem a cara de sua época, com tudo que isso tem de bom e de mau.

TESTEMUNHA DA ACUSAÇÃO


TESTEMUNHA DA ACUSAÇÃO (Witness for the prosecution, 1957, United Artists, 116min) Direção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder, Harry Kurnitz, baseado na peça teatral de Agatha Christie. Fotografia: Russell Harlan. Montagem: Daniel Mandell. Música: Matty Malneck. Figurino: Edith Head, Joseph King. Produção: Arthur Hornblow Jr. Elenco: Charles Laughton, Tyrone Power, Marlene Dietrich, Elsa Lanchester, John Willams. Estreia: Dezembro/57

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Billy Wilder), Ator (Charles Laughton), Atriz Coadjuvante (Elsa Lanchester), Montagem, Som
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Elsa Lanchester)

Considerada a Rainha do Crime da literatura policial, a inglesa Agatha Christie teve pouca sorte com as adaptações de seus romances para o cinema. Nem mesmo "Assassinato no Orient Express", com um elenco estelar e um Oscar de atriz coadjuvante para Ingrid Bergman chegou perto do brilhantismo. Felizmente exceções existem para cada regra e a exceção aqui tem a assinatura de Billy Wilder, o cineasta austríaco acostumado a legar obras-primas ao mundo. Dirigido e co-escrito por Wilder (ao lado de Harry Kurnitz), "Testemunha da acusação", baseado na peça teatral homônima de Christie é, sem espaço para qualquer tipo de dúvida, a melhor transposição de uma obra da escritora para o cinema. Para quem não acredita, basta apenas assistir a uma única vez para nunca mais esquecer.

Ao contrário da peça original, que já começa no julgamento do protagonista, o roteiro de Wilder e Kurnitz aumenta a importância do advogado Wilfrid Robbarts, vivido com uma verve irresistível pelo britânico Charles Laughton (indicado ao Oscar por sua atuação). Recém-saído do hospital devido a um ataque do coração, ele é procurado pelo jovem Leonard Vole (Tyrone Power em seu último filme completo antes de sua morte por enfarte) para que o defenda em um caso de homicídio. Vole é acusado de assassinar uma senhora de idade com quem vinha se encontrando (e que, segundo as más línguas, incentivando seu interesse romântico) e, conhecendo a fama de Robbarts pede sua ajuda para ser absolvido. O veterano advogado aceita a causa, mas tem uma grande surpresa quando, durante o julgamento, fica sabendo que a principal testemunha da acusação é justamente a pessoa que eles menos poderiam esperar: Christine Helm (Marlene Dietrich), a esposa de Vole, disposta a destruir as chances de absolvição de seu marido.

Contar muito sobre o desenrolar da trama de "Testemunha da acusação" é um crime inafiançável. As reviravoltas são absolutamente surpreendentes (na primeira vez em que assiste ao filme, logicamente) e por mais que pareçam um tanto forçadas soam críveis graças à atmosfera criada pela direção de Wilder e pela atuação de seu elenco. Ao contrário de seus filmes imediatamente anteriores - com personagens americanos até a raiz dos cabelos e portanto com comportamentos bem diferentes dos mostrados aqui - Wilder criou um ambiente classicamente britânico, em que até mesmo o estilo de interpretação dos atores diverge bastante de sua obra - o que levou muita gente a pensar que o filme tivesse sido dirigido por Alfred Hitchcock. Charles Laughton (um dos maiores atores britânicos de todos os tempos) deita e rola na pele do teimoso e brilhante Wilfrid Robbarts, mal dando espaço para os demais colegas de elenco (com exceção da excelente Elsa Lanchester, sua esposa na vida real, que rouba a cena a cada momento em que aparece e levou um Globo de Ouro e uma indicação ao Oscar por isso). Tyrone Power, por exemplo, faz o que pode no papel do réu Leonard Vole, mas sucumbe perante a força de Laughton (e seu papel foi oferecido a nomes tão díspares quanto William Holden, Gene Kelly, Kirk Douglas, Glenn Ford, Jack Lemmon e Roger Moore (!!)). Só quem chama a atenção independentemente do brilho do veterano ator inglês é, pasmem, Marlene Dietrich.

Mais uma personalidade e um símbolo sexual do que exatamente uma atriz respeitada por seus dotes histriônicos, Dietrich ficou com um papel ingrato e extremamente difícil que foi oferecido primeiramente a Ava Gardner e Rita Hayworth. Como Christine Vole (ou Helm), no entanto, Marlene demonstra que, além de sua marcante voz grave, suas belas pernas (uma cena foi criada apenas para que uma delas fosse mostrada) e seu sotaque sedutor, ela tinha sim, muito talento. Houve até cochichos que garantiam uma indicação ao Oscar (ela entusiasmou-se com a possibilidade, que acabou não se provando acurada). Basta Marlene entrar em cena que é impossível desviar os olhos de seu belo e expressivo rosto e é inegável que sua presença colabora muito com o resultado final do filme.

E se não bastasse a trama surpreendente (no final do filme há um pedido dos produtores para que o público não comentasse seu desfecho com ninguém), a direção impecável de Wilder e o elenco espetacular, "Testemunha da acusação" ainda tem um senso de humor delicioso, principalmente nos embates entre o velho advogado e sua enfermeira dedicada. Juntos, Laughton e Lanchester brindam a plateia com interpretações repletas de nuances verbais e físicas, que resgatam a obra do lugar-comum em filmes sobre julgamentos. Se não fosse detalhes meticulosamente oferecidos por Billy Wilder no decorrer da narrativa, não haveria interesse em se assistir ao filme depois da primeira vez - afinal, não há mais surpresas. Mas um homem que criou pérolas como "Crepúsculo dos deuses" e "Sabrina" e ainda haveria de lançar "Quanto mais quente melhor" e "Se meu apartamento falasse" jamais deixaria de encantar seu público. Obrigado, Billy Wilder, por mais uma obra-prima!

sábado

DOZE HOMENS E UMA SENTENÇA


DOZE HOMENS E UMA SENTENÇA (Twelve angry men, 1957, United Artists, 96min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Reginald Rose. Fotografia: Boris Kaufman. Montagem: Carl Lerner. Música: Kenyon Hopkins. Produção: Reginald Rose, Henry Fonda. Elenco: Henry Fonda, Lee J. Cobb, Jack Warden, Ed Begley, Martin Balsam, John Fiedler, E.G. Marshall, Edward Binns, Joseph Sweeney, George Voskovec, Robert Webber, Jack Klugman. Estreia: 13/4/57

3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sidney Lumet), Roteiro Adaptado

Um rapaz de origem latina é acusado de assassinar o próprio pai com um golpe de canivete. Sem um álibi concreto e tendo duas testemunhas do crime (um vizinho idoso do andar de baixo e uma mulher de meia-idade que assistiu ao homicídio pela sua janela), sua sorte parece não ser das melhores. Com o julgamento encerrado, basta apenas as deliberações do júri para que a justiça seja feita (ou não). Então, uma dúzia de cidadãos de idades, classes sociais e situações financeiras distintas são fechados em uma sala para dar o veredicto. Fim da história, sim? Não, absolutamente não. É justamente nesse ponto onde a maioria esmagadora dos filmes de tribunal acaba é que começa "Doze homens e uma sentença", de Sidney Lumet.

Escrito por Reginald Rose (co-produtor do filme, ao lado do ator Henry Fonda), "Doze homens" não foi um sucesso de público, apesar dos rasgados elogios da crítica e das três importantes indicações ao Oscar que conquistou: filme, diretor e roteiro. Não é difícil entender, uma vez que não é exatamente o tipo de produto que plateias ávidas por ação e astros de primeira grandeza costumam consumir. É um filme com uma inteligência bem acima da média, um elenco escolhido pelo talento e não pelo poder de fogo nas bilheterias, um ritmo teatral (mas nunca enfadonho como podem pensar os avessos ao estilo) e principalmente um filme que dá importância aos diálogos mais do que a movimentos de câmera e afins. É uma prova inconteste da força de uma boa escalação de elenco para elevar um filme à categoria de uma obra-prima.

Quando "Doze homens e uma sentença" começa, o julgamento em si já acabou. O público não tem acesso a quase nenhuma imagem do tribunal (exceção feita à bancada dos jurados e ao rosto angustiado do réu). É apenas quando os doze homens do título sentam à volta de uma mesa para discutir o caso é que o roteiro de Rose agarra a plateia pelo cérebro e não larga mais. O caso, aparentemente fácil de ser julgado passa a ser um desafio aos membros do júri quando, na primeira votação, o jurado de número 8 (Henry Fonda) afirma não ter certeza absoluta da culpa do réu. Contestado pelos outros colegas, ele explica, então, suas dúvidas em relação ao caso. Aos poucos sua retórica passa a contaminar outros parceiros de missão, que, mesmo a princípio certos da culpabilidade do rapaz acusado do crime, começam a questionar suas certezas, para desespero do jurado número 3 (Lee J. Cobb), que não entende como eles podem ter mudado de ideia a respeito de algo que, para ele, é tão cristalino.


O grande diferencial de "Doze homens e uma sentença" são seus diálogos. Fortes, contundentes e realistas, as falas criadas por Reginald Rose são mais do que suficientes para apresentar à audiência tudo que é necessário, sem buscar subterfúgios que o cinema tranquilamente poderia proporcionar. O grau de competência dos diálogos é tão alto que em nenhum momento o público assiste ao julgamento, mas ao final dos 96 minutos de projeção, a impressão que se tem é que ele foi visto com detalhes. E o que é mais importante: apenas o que é importante é mencionado. Em um corriqueiro filme de tribunal, isso ficaria a cargo do editor. Aqui, Carl Lerner tem pouco (mas importante) trabalho.

A importância do trabalho do editor Carl Lerner em "Doze homens e uma sentença" pode parecer pequena, uma vez que aparentemente não é preciso esforço para montar um filme sem maiores cortes. No entanto, é justamente ele quem, ao lado do diretor Sidney Lumet (que viria ainda a comandar pelo menos outro grande filme, "Um dia de cão", em 1975), dá ao filme a cara de cinema que ele tem. Inteligentemente, Lumet e Lerner optaram por uma edição tranquila, suave, delicada, que dá a cada detalhe do roteiro a importância que ele tem. Em teatro é difícil, por exemplo, concentrar-se em um único ator sem perder todo o restante do quadro. Aqui, o diretor e seu editor resolvem esse problema com facilidade e parcimônia, dando a cada ator seu momento certo de brilhar.

E que brilho! Há de se louvar o responsável pelo casting de "Doze homens..." Mesmo que de certa forma Henry Fonda seja uma espécie de protagonista (afinal, é ele quem dá o pontapé inicial no conflito retratado), seus colegas de elenco não ficam para trás em termos de desempenho. Lee J. Cobb como o truculento e quase irascível jurado número 3 (o que tem mais dificuldade em se deixar convencer pelas dúvidas dos colegas) rouba a cena sem nenhuma vergonha e a outra dezena de atores é de tirar o chapéu. Generoso, o texto de Reginald Rose (refilmado para a TV americana em 1997, com Jack Lemmon no lugar de Fonda) dá espaço para todos demonstrarem seu talento, mesmo que - e isso é outra jogada de mestre - suas vidas, ao menos para o espectador, possa ser resumida apenas às horas em que eles estão na sala de jurados. Durante a duração do filme - e da discussão entre as personagens - o mundo fora do tribunal é vislumbrado apenas pelo calor, pela chuva e pelo jogo de baseball que uma das personagens anseia em assistir. Eles estão ali para definir a vida ou a morte de um rapaz e apesar de nem todos terem a mesma consciência da importãncia do fato, o que acontece no mundo exterior não tem mais a mesma urgência. O fato de seus nomes não serem sequer mencionados (com exceção de dois deles, na cena final) apenas reitera sua condição de anônimos.

"Doze homens e uma sentença" é obrigatório. Para fãs de cinema, para estudantes de Direito, para todos que sentem prazer em assistir a uma boa história, contada por gente que entende do riscado. Imperdível!

CINDERELA EM PARIS


CINDERELA EM PARIS (Funny face, 1957, Paramount Pictures, 103min) Direção: Stanley Donen. Roteiro: Leonard Gershe. Fotografia: Ray June. Montagem: Frank Bracht. Figurino: Edith Head, Givenchy. Produção: Roger Edens. Elenco: Audrey Hepburn, Fred Astaire, Kay Thompson. Estreia: 13/02/57

4 indicações ao Oscar: Fotografia, História e Roteiro Originais, Figurino, Direção de Arte

Em 1952, Stanley Donen co-dirigiu "Cantando na chuva", que, estrelado por Gene Kelly, legou ao mundo alguns dos mais encantadores momentos da história dos musicais no cinema. Cinco anos depois, foi a vez de comandar outro ícone absoluto da dança, Fred Astaire. Enquanto "Cantando" homenageava com humor e sarcasmo os bastidores do cinema, "Cinderela em Paris" alfinetava - de leve como convinha - o mundo da moda. Ao contrário do primeiro filme, no entanto, que intercalava cenas hilariantes com números de dança excitantes, a colaboração de Donen e Astaire não empolga tanto quanto deveria. E isso que, além de Astaire, o filme tem como protagonista a fulgurante Audrey Hepburn.

A ideia de juntar Hepburn - então no auge do sucesso - e Astaire - um símbolo da velha guarda dos musicais - não é nada má. Audrey já tinha ganho um Oscar por "A princesa e o plebeu" e fascinado as plateias com "Sabrina" e o bom e velho Fred ainda era adorado pela audiência. Mas na verdade a parceria quase não aconteceu. O primeiro nome cotado para viver a protagonista foi a da habitual parceira de Astaire, Cyd Charisse. No entanto, logo depois de ler o roteiro, a própria Audrey se interessou pelo projeto, mesmo contra seu agente da época. Para convencer os astros a assinarem os contratos, os produtores então utilizaram uma velha tática: asseguraram a atriz que Astaire já havia assinado com o filme e fizeram o mesmo com ele. Contratos assinados, era correr pro abraço. E não deu outra: o filme fez um grande sucesso, mesmo que não resista tão bem ao tempo quanto "Cantando na chuva".

A comparação de "Cinderela" com "Cantando" não é arbitrária. Além do diretor e do gênero, os dois filmes dividem a mesma intenção: contar uma história de amor tendo como pano de fundo um universo de glamour e sofisticação. E sofisticação é o que não falta quando o assunto é Audrey Hepburn. Aqui, ela vive Josephine Stockton, uma simples vendedora de livros, fascinada por filosofia e absolutamente desinteressada por tudo que se relaciona à moda e beleza. Um belo dia, durante o trabalho, acaba despertando o interesse do fotógrafo Dick Avery (Astaire), que vê nela tudo que é necessário para torná-la o rosto da mais nova campanha da revista onde trabalha ao lado da poderosa Maggie Prescott(Kay Thompson): personalidade, inteligência e charme. Para convencê-la a aceitar o trabalho, ele a convida para ir com a equipe para a capital francesa - onde ela pretende conhecer o líder de um movimento filosófico chamado "enfaticalismo" (uma sacada bastante engraçada). Lá, sob um cenário deslumbrante, entre visitas à Torre Eiffel e ao Arco do Triunfo, os dois, como era de se esperar, acabam se apaixonando.


"Cinderela em Paris" é adorável quando foca sua atenção no rosto absurdamente belo de Audrey Hepburn (vestida mais uma vez pelo estilista Givenchy), mas torna-se um tanto aborrecido em diversos momentos, quando abandona a engraçada crítica à moda e ao existencialismo francês (em voga na época) para apresentar intermináveis números musicais. É preciso ser fã das coreografias elaboradíssimas de Astaire para envolver-se completamente com o filme, uma vez que boa parte de sua duração é preenchida com seus passos de dança (sozinho, com Hepburn, com Thompson). Ainda que seja uma delícia de vê-lo desafiando as leis da gravidade em cenários bonitos por natureza, não deixa também de ser um pouco cansativo, uma vez que, ao invés de ajudar a contar a história, tais cenas apenas servem para demonstrar os dotes do ator e dançarino.

Fosse um pouco mais curto e um pouco mais parcimonioso em seus excessivos números musicais, "Cinderela em Paris" poderia ser tão delicioso quanto "Cantando na chuva". Mas, mesmo com seus pequenos defeitos (principalmente para aqueles que não são entusiastas do gênero), é inesquecível graças ao carisma de seus atores principais. Afinal, quem resiste ao rosto choroso de Audrey Hepburn vestida de noivo em um belo cenário campestre em Paris?

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...