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terça-feira

A FORMA DA ÁGUA


A FORMA DA ÁGUA (The shape of water, 2017, Fox Searchlights, 123min) Direção: Guillermo Del Toro. Roteiro: Guillermo Del Toro, Vanessa Taylor. Fotografia: Dan Laustsen. Montagem: Sidney Wolinsky. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Luis Sequeira. Direção de arte/cenários: Paul D. Austerberry/Jeffrey A. Melvin, Shane Vieau. Produção: J. Miles Dale, Guillermo Del Toro. Elenco: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins, Octavia Spencer, Michael Stuhlbarg, Doug Jones. Estreia: 31/8/2017 (Festival de Veneza)

13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Guillermo Del Toro), Atriz (Sally Hawkins), Ator Coadjuvante (Richard Jenkins), Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Mixagem de Som, Edição de Som

Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Guillermo Del Toro), Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários

Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Trilha Sonora Original

Quando tinha apenas seis anos de idade, o cineasta Guillermo Del Toro assistiu ao clássico "O monstro da lagoa negra" (1954) e não se conformou com o fato da mocinha do filme, interpretada por Julie Adams, não ter tido um final feliz com a criatura do título. Mais de quarenta anos depois, já consagrado como o diretor de filmes mundialmente aclamados -  "A espinha do diabo" (2001) e "O labirinto do fauno" (2006) - Del Toro pode finalmente contar a história a seu modo. Disfarçadamente, é claro - mas nem tanto - e com um toque de fantasia que dialoga diretamente com suas obras mais admiradas., "A forma da água" transformou-se, em pouco tempo, do projeto dos sonhos do realizador (e um de seus filmes mais pessoais) em um grande êxito de bilheteria e crítica. Vencedora do Leão de Ouro do Festival de Veneza e de quatro Oscar (incluindo melhor filme e diretor), a romântica história da relação entre uma tímida e sonhadora faxineira e uma criatura anfíbia tida como prisioneira em um laboratório do governo norte-americano durante a Guerra Fria, subverte as convenções de heroísmo, beleza e amor e entrega à plateia uma das mais deslumbrantes produções de seu tempo - calcada no capricho visual característico de Del Toro, em um roteiro que funciona como um passe de mágica e, principalmente, em um elenco escolhido a dedo, no qual se destaca a impecável Sally Hawking.

Primeira e única escolha do diretor para viver a delicada Elisa Esposito - "Eu queria que Elisa fosse bonita a seu próprio modo, não do modo de um comercial de perfume. Que você acreditasse que essa personagem, essa mulher poderia estar sentada a seu lado no ônibus. Mas que ao mesmo tempo tivesse uma luminosidade, uma beleza quase mágica, etérea...-, Sally Hawking entrega uma atuação fascinante, em que mescla inocência, inteligência e uma inusitada sensualidade. Indicada ao Oscar de melhor atriz, perdeu a estatueta para Frances McDormand em "Três anúncios para um crime", mas alcança, em seu trabalho, notas de uma sutileza ímpar. Interpretando uma personagem muda sem que se utilize dessa característica para forçar a simpatia do público, ela faz cada espectador acreditar não apenas na força que demonstra quando é obrigada a isso, mas também - e aí o mérito é dela e da direção delicada de Del Toro - de que seu amor redentor por um ser aparentemente inalcançável é passível de um final feliz. Tal ousadia do roteiro - a de eleger como herói romântico alguém que em outros tempos não seria mais do que o principal antagonista (ou até mesmo um vilão cujo destino esperado e desejado era a morte mais trágica possível) - faz de "A forma da água" uma história de amor e fantasia que embaralha as cartas dos gêneros para criar uma realidade alternativa doce e comovente.


Enquanto nos filmes clássicos de horror dos anos 1950 - época em que a Universal Pictures reinou absoluta com seus vampiros, lobisomens e cientistas lunáticos - a fórmula mandava que o monstro jamais fosse capaz de conquistar o amor da mocinha por quem se apaixonava perdidamente ("King Kong", "A bela e a fera") e preferencialmente encontrasse um desfecho que comprovasse a superioridade dos humanos em relação às bestas, no mundo invertido de Del Toro os pretensamente seres racionais é que sofrem de desvios graves de caráter (especialmente o detestável Richard Strickland interpretado com gosto por Michael Shannon) e são as minorias que não só demonstram uma humanidade à toda prova como são capazes de alterar destinos tidos como definitivos (o homossexual enrustido vivido pelo excelente Richard Jenkins, a faxineira negra criada por Octavia Spencer e a protagonista quase invisível de Hawking). O universo de Del Toro é um mundo à parte, desenhado com precisão - a vitória da equipe de direção de arte no Oscar não foi à toa: perdidos em um período da década de 1960, os cenários retratam uma visão particular e afetiva do diretor, um espaço no tempo em que o passado conservador estava em vias de se encontrar com um futuro que apontava a Lua e o espaço sideral. A paleta de cores - em que tons mais vivos vão surgindo conforme Elisa descobre a capacidade do amor em transformar a forma como ela vê o mundo até então cinzento - serve como comentário visual às ideias românticas da trama e deslumbra pela força com que envolve a audiência em sua espiral de fantasia e emoção.

E seria injusto não citar o trabalho de Doug Jones como um dos pontos fundamentais do sucesso de "A forma da água": na pele da criatura anfíbia que desperta a curiosidade, o carinho e posteriormente o amor de Elisa - e no caminho conquista seus amigos e mostra que a devoção que despertava "nos selvagens da América do Sul, que o idolatravam como a um deus" não era algo desproporcional -, Jones oferece um desempenho poucas vezes visto no cinema. Debaixo das claustrofóbicas roupas do ser anfíbio - um processo que lhe custava horas -, o ator impressiona com uma interpretação silenciosa mas extremamente expressiva. São comoventes todas as sequências em que ele e Elisa descobrem um ao outro sem trocar uma única palavra - cenas sublinhadas pela genialidade de Del Toro em utilizar-se do cinema como pano de fundo para o despertar do amor. Com um ritmo invejável - são duas horas que passam voando - e um dos finais mais poéticos que o cinema já proporcionou (ao menos nas últimas décadas), "A forma da água" é uma obra-prima indelével, o tipo de filme que já nasceu clássico e que provavelmente irá resistir bravamente à prova do tempo. É um filme para sonhadores - de todos os tipos, raças e espécies.

domingo

THE POST: A GUERRA SECRETA


THE POST: A GUERRA SECRETA (The Post, 2017, 20th Century Fox/Dreamworks Pictures/Reliance Entertainment, 116min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Liz Hannah, Josh Singer. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Sarah Broshar, Michael Kahn. Música: John Williams. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Rick Carter/Rena DeAngelo. Produção executiva: Tom Karnoswski, Josh Singer, Adam Somner, Tim White, Trevor White. Produção: Kristie Macosko Krieger, Amy Pascal, Steven Spielberg. Elenco: Meryl Streep, Tom Hanks, Sarah Paulson, Bob Odenkirk, Tracy Letts, Bradley Whitford, Bruce Greenwood, Matthew Rhys, Alison Brie, Carrie Coon, Jesse Plemons, Michael Stuhlbarg. Estreia: 14/12/2017

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Meryl Streep

Até "A lista de Schindler" (1993) sair da cerimônia do Oscar 1994 com sete estatuetas - incluindo melhor filme e direção -, havia uma certa resistência da Academia em relação à filmografia de Steven Spielberg, um dos mais bem-sucedidos cineastas da história de Hollywood. Problemas deixados de lado, o diretor voltou a ser premiado, em 1999, graças ao comando do impecável "O resgate do soldado Ryan" - que chegou perto de também levar o troféu principal e acabou perdendo para "Shakespeare apaixonado", em uma das decisões mais polêmicas do prêmio - e tornou-se, desde então, um eterno indicado em potencial. Cada filme seu, independente do sucesso junto ao público, tem boas chances de estar na seleta lista dos melhores de cada temporada. Às vezes com justiça - caso dos ótimos "Munique"" (2005) e "Ponte dos espiões" (2015). Em outras ocasiões como resultado de uma quase alucinação coletiva - como o soporífero "Lincoln" (2012), que deu o terceiro Oscar de melhor ator a Daniel Day-Lewis. "The Post: A Guerra Secreta", lançado no final de 2017 com pretensões de seduzir a Academia, fica no meio do caminho: não chega nem perto de ser um dos destaques da sua celebrada filmografia, mas tampouco é tão difícil como seus trabalhos mais lentos.

Baseado em uma história real - e realizado com um impressionante grau de realismo -, "The Post" é um caso raro dentro da indústria: entre o começo de suas filmagens, em maio de 2017, e seu lançamento limitado, em dezembro do mesmo ano, passaram-se apenas sete meses. A pressa de Spielberg era justificada pelo clima político dos EUA, assolado (como em outros países) por ondas criminosas de fake news. Como forma de demonstrar um posicionamento a favor de imprensa livre e séria, o cineasta foi buscar no roteiro de Liz Hannah (coescrito por Josh Singer, que já havia lidado com o tema em "O quinto poder", de 2013, e "Spotlight: segredos revelados", que lhe rendeu um Oscar em 2015) o material ideal. Escrito com base em livros de memórias de seus dois protagonistas - e um terceiro, escrito por uma fonte crucial para a ação -, "The Post" é um thriller político com ecos nítidos de "Todos os homens do presidente" (1976) e, como tal, se esforça em ser o mais fiel possível na reconstituição dos fatos que levaram a um dos mais sérios dilemas éticos do jornalismo norte-americano do século XX. Por coincidência (ou não), no olho do furacão estava o mesmo Washington Post que, poucos anos depois, seria o responsável pelas reportagens que levaram à renúncia do então presidente Richard Nixon. Ao contrário do filme dirigido por Alan J. Pakula, no entanto, "The Post" centra seu foco menos nos repórteres e mais nos editores - mais nas dúvidas a respeito da publicação do que na busca pelas informações.


 Coadjuvante em "Todos os homens do presidente" - tanto que seu intérprete no filme, Jason Robards, levou o Oscar da categoria -, o editor-chefe Ben Bradlee assume, em "The Post", a co-protagonização, ao lado da diretora do jornal, Kay Adams, interpretada por Meryl Streep. Na pele de Tom Hanks (em sua quinta colaboração com Steven Spielberg), Bradlee é o que mais se aproxima de herói, no filme: ético, responsável, pai de família respeitável e bom amigo, ele é, também, a voz da consciência que permeia a narrativa, que inclui, de forma oportuna e inteligente, uma discussão muito bem-vinda sobre machismo. Ao herdar a direção do jornal depois do suicídio do marido, Kay precisa passar por cima de todo o preconceito em relação a seu gênero - o que inclui embates com financiadores e banqueiros pouco confiantes em seus talentos como administradora. "The Post" é, então, um filme com duas frentes dramáticas que se encontram na segunda (e superior) metade: se publicar os documentos secretos que confirmam um sistemático encobertamento do governo dos EUA em relação à guerra do Vietnã - um processo que envolveu vários presidentes -, o jornal pode sofrer consequências jurídicas que podem levá-lo à falência, mas sua posição em relação à liberdade de imprensa fatalmente será comprometida junto aos leitores. Essa questão - cada vez mais pertinente e atual - é o cerne do filme de Spielberg, mas demora a estabelecer-se, e essa morosidade quase estraga o resultado final.

Apesar da premissa ser eletrizante e apontar para um desenvolvimento ágil como se espera de um thriller, "The Post: a guerra secreta" sofre de um sério problema de ritmo em sua primeira metade. Não que sem sua segunda parte o filme abandone suas longas sequências de reuniões de escritório e bastidores burocráticos do jornalismo, mas é perceptível que a coisa só engrena de verdade quando o Washington Post assume as rédeas da narrativa, tomando para si a responsabilidade de desafiar o governo Nixon. Não é tão empolgante quanto seu irmão mais velho - novamente é preciso relembrar "Todos os homens do presidente" - e nem tão ágil quanto "Spotlight" (no qual o ator John Slattery interpreta o filho de Ben Bradlee, personagem de Hanks), mas consegue, de certa forma, explicar os motivos pelos quais encantou parte da crítica. Eleito o melhor filme de 2017 pelo National Board of Review e indicado a dois Oscar - incluindo a 21ª indicação de Streep, um recorde absoluto -, "The Post" pode não ser um dos melhores trabalhos de Spielberg, mas, como sempre, sua excelência técnica (fotografia, música, edição, elenco) o destaca positivamente dentre os filmes de sua geração. É uma bela homenagem à força feminina e à liberdade de imprensa - e seus defeitos de ritmo podem ser perdoados diante de tal importância histórica.

sábado

ME CHAME PELO SEU NOME


ME CHAME PELO SEU NOME (Call me by your name, 2017, Frenesy Film Company/RT Features, 12min) Direção: Luca Guadagnino. Roteiro: James Ivory, romance de André Aciman. Fotografia: Sayombhu Mukdeeprom. Montagem: Walter Fasano. Figurino: Giulia Piersanti. Direção de arte/cenários: Samuel Deshors/Sandro Piccarozzi. Produção executiva: Naima Abed, Margharete Baillou, Tom Dolby, Nicholas Kaiser, Sophie Mas, Francesco Melzi d'Eril, Lourenço Sant'Anna, Derek Simonds. Produção: Emilie Georges, Luca Guadagnino, James Ivory, Marco Morabito, Howard Rosenman, Peter Spears, Rodrigo Teixeira. Elenco: Timothée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel. Estreia: 22/01/2017 (Festival de Sundance)

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Timothée Chalamet), Roteiro Adaptado, Canção Original ("Mystery of love")

Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado

A Itália, com suas belas paisagens naturais, é cenário frequente para histórias de amor made in Hollywood. Desde clássicos absolutos, como "A princesa e o plebeu" (1954) e "Quando floresce o coração" até produções contemporâneas, como "Beleza roubada" (1996) e "Sob o sol da Toscana" (2003), o cinema sempre buscou o clima sensual da região para servir como um personagem a mais, capaz de, com seu ar romântico, ser o catalisador de paixões avassaladoras. "Me chame pelo seu nome" é um dos exemplos mais recentes dessa tendência já consagrada. Baseado em um livro de André Aciman publicado em 2007, o filme do italiano Luca Guadagnino conta um história arrebatadora, que ultrapassa o estigma de romance gay para se tornar uma das produções mais elogiadas e premiadas de sua temporada: de sua estreia no Festival de Sundance, em janeiro de 2017, até a cerimônia do Oscar, em fevereiro do ano seguinte - e passando pelo New York Film Festival, de onde saiu ovacionado pelo público -, "Me chame pelo seu nome" passou por diversos festivais de cinema, sempre aplaudido pela crítica e querido pelo público. Adaptado para as telas por James Ivory, o filme - que tem o brasileiro Rodrigo Teixeira entre seus produtores - deu ao veterano cineasta sua primeira estatueta da Academia, e foi generosamente indicado em outras três categorias, incluindo melhor filme e ator (o jovem Timothée Chalamet).

O caminho do livro de Aciman até sua estreia em Sundance - de onde foi comprado pela Sony Pictures antes mesmo de sua primeira exibição pública - não chegou a ser problemática como se poderia esperar de uma história de amor homossexual, não exatamente um chamariz de bilheteria (o próprio Armie Hammer, que vive um dos protagonistas sabe muito bem sobre o assunto, depois do fracasso financeiro de "J. Edgar", de 2011, no qual vivia o amante do protagonista, interpretado por Leonardo DiCaprio). Em setembro de 2015, James Ivory, um diretor respeitado e de bastante prestígio junto à crítica, anunciou que estava em vias de dirigir uma adaptação do romance - e chegou a dizer que Shia LaBeouf e Greta Scacchi estariam no elenco da produção. Oito meses depois, no entanto, as coisas tinham mudado: Ivory continuava a bordo, mas como produtor e roteirista; Luca Guadagnino assumiu o posto de diretor e LaBeouf foi substituído pelo novato Chalamet - a quem já conhecia há alguns anos e que lhe parecia a escolha certa para o papel. Hammer entrou no projeto também pelas mãos do diretor, impressionado com seu desempenho em "A rede social" (2010). Filmado praticamente em ordem cronológica em pouco mais de um mês na pequena cidade italiana de Crema, "Me chame pelo seu nome" emana, em suas imagens e clima, a sensação perfeita de um verão inesquecível - um clima que, segundo o elenco, refletia a tranquilidade das filmagens e a intimidade entre a equipe. 

 

A trama de "Me chame pelo seu nome" se passa no verão europeu de 1983, em uma pequena vila italiana, onde a família de Elio (Timothée Chalamet) passa a temporada. Seu pai (Michael Stuhlbarg) é um renomado professor de cultura greco-romana, e sua mãe, Annella (Amira Casar), uma tradutora. Elio é rodeado de pessoas cultas, inteligentes e sensíveis, mas nem mesmo ele poderia imaginar que ficaria tão impressionado com Oliver (Armie Hammer), um estudante que chega para ajudar o veterano professor em suas tarefas universitárias. Charmoso e educado, Oliver imediatamente desperta sentimentos até então desconhecidos para o adolescente - que tenta escondê-los iniciando um romance passageiro com uma amiga de sua idade. Elio, apesar de toda a sofisticação intelectual à sua volta, ainda é um adolescente inexperiente em matérias do coração, e se deixa seduzir pelo brilhantismo de Oliver, com quem não simpatiza em seus primeiros dias. Igualmente atraído por Elio, que desperta nele sentimentos contraditórios, Oliver se deixa levar pela sensualidade do cenário que o cerca, e surge um violento romance entre os dois. Um romance que, logicamente, tem data certa para acabar, já que Oliver deve ir embora em poucas semanas.

O que mais chama atenção em "Me chame pelo seu nome", além da adaptação bastante fiel de James Ivory - que, aos 89 anos, tornou-se a pessoa de mais idade a ganhar um Oscar competitivo -, é a direção fluida de Luca Guadagnino. Com filmes bastante elegantes no curriculo - como "Um sonho de amor" (2009) e "Um mergulho no passado" (2015) -, Guadagnino conduz a trama sem pressa, concentrando-se em detalhes, em sutilezas, em pequenos gestos que se tornam gigantescos no contexto em que são apresentados. A química entre Chalamet e Hammer é preciosa, especialmente quando sublinhada pelas belas canções de Surfjan Stevens - uma delas, "Mysteries of love", também chegou a ser indicada ao Oscar - e suas cenas mais quentes são dirigidas com bom gosto e delicadeza, utilizando o sexo mais como forma de comunhão entre os personagens do que como um meio de chamar a atenção do público. E se não bastasse toda a elegância promovida por Guadagnino, seus momentos finais são simplesmente devastadores: um pequeno monólogo do pai de Elio (que oferece uma atuação brilhante de Michael Sthulbarg) sobre entregar-se ao amor e a bela cena em que o adolescente relembra seu primeiro amor (sem diálogos, apenas com o talento de Chalamet em se fazer compreender sem precisar de palavras) fazem com que "Me chame pelo seu nome" fique marcado no coração do espectador. É uma pequena obra-prima, antológica desde seu nascimento.

quarta-feira

UM HOMEM SÉRIO

UM HOMEM SÉRIO (A serious man, 2009, Focus Features, 106min)  Direção e roteiro: Ethan Coen, Joel Coen. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Roderick Jaynes. Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: Tim Bevan, Eric Fellner, Robert Graf. Produção: Ethan Coen, Joel Coen. Elenco: Michael Stuhlbarg, Richard Kind, Fred Melamed, Sari Lennick, Aaron Wolff, Jessica McManus, David Kang, Amy Landecker, Simon Helberg. Estreia: 12/9/09 (Festival de Toronto)


2 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original

A princípio, "Um homem sério" pode parecer o mais simples dentre os filmes dos irmãos Coen: é barato (custou cerca de míseros sete milhões de dólares), não tem grandes astros em seu elenco (ao contrário de seu antecessor, "Queime depois de ler", de 2008, e seu filme seguinte, "Bravura indômita", de 2010), e sua temática é explicitamente restrita: como nunca antes em sua brilhante filmografia, Joel e Ethan assumem sem medo sua origem judaica e mergulham seu protagonista em um pesadelo kafkiano que flerta com filosofia, religião e um humor intelectual dos mais inspirados.A aparente simplicidade do filme, porém, esconde um trabalho de inteligência acima da média - e se o público não comprou sua ideia, a crítica foi bastante generosa, e até a Academia rendeu-se à sua ousadia, lhe indicando a duas importantes categorias do Oscar: melhor filme e roteiro original. Perdeu ambas as estatuetas para "Guerra ao terror" - mas demonstrou que, de vez em quando, há espaço para a criatividade no tedioso universo dos filmes "oscarizáveis".

A trama de "Um homem sério" se passa em 1967, em um subúrbio de Minneapolis, e tem como protagonista Larry Gopnick, um professor de física judeu e ciente de suas obrigações e deveres morais e éticos. Sua vida em família é razoavelmente comum, dividida entre as brigas com a filha, Sarah (Jessica McManus), adolescente que sonha em fazer uma cirurgia plástica no nariz, a relação distante com Danny (Aaron Wolff), o filho prestes a realizar seu bar-mitzvah e que passa os dias chapado de maconha e os cuidados com o irmão, Arthur (Richard Kind), mentalmente perturbado depois de um acidente que o fez perder a memória. Sua rotina começa a virar do avesso quando sua esposa, Judith (Sari Lennick), anuncia que está apaixonada por outro homem - e pede a ele que saia de casa para que eles possam se divorciar dentro dos ritos judaicos. A partir daí, Larry entra em um turbilhão de problemas, que vão desde uma chantagem feita pelo pai de um aluno em vias de ser reprovado, cartas anônimas escritas para a diretoria de sua escola lhe difamando, conflitos com o vizinho a respeito dos limites de suas propriedades e a crise financeira oriunda da separação. Desesperado e sem alternativas óbvias, Larry passa a questionar sua fé e busca ajuda com rabinos e estudiosos - que, ele acredita, irão fazê-lo compreender a amplitude de sua situação.


Criado a partir de uma ideia isolada - Danny chapado em seu bar-mitzvah e sua conversa com um rabino logo em seguida - e desenvolvido de forma a preencher as lacunas que poderiam cercá-la, "Um homem sério" é brilhante em diversas camadas. Como comédia religiosa é um achado - especialmente junto ao público judeu, normalmente restrito aos filmes de Woody Allen, cada vez menos dedicado ao tema. Como comédia em geral, é hilariante - o protagonista, interpretado com brilhantismo por Michael Stuhlbarg, é uma vítima involuntária de um destino (Deus/acaso) nitidamente sádico e o tom surreal do mundo que o rodeia só encontra paralelos em outros filmes dos irmãos Coen - como "O grande Lebowski" (2000) ou "Arizona nunca mais" (87). Como discussão filosófica, é surpreendentemente acessível à plateia - ainda que muitas referências possam passar incólumes ao espectador médio, levanta questões interessantes (e o que é melhor, evita dar respostas). Como cinema, é genial. Desde a fotografia de Roger Deakins até a reconstituição de época (um meio-termo entre o realismo e a fantasia criativa que é marca dos cineastas), tudo funciona como um relógio, seja no panorama geral seja nos detalhes - e a opção dos Coen em buscar um elenco de atores desconhecidos apenas reafirma sua intenção de dar mais importância à trama do que a qualquer marketing milionário (uma diferença crucial em tempos onde a criatividade normalmente sucumbe a números e cifras): é impossível pensar em outro protagonista que não Stuhlbarg, por exemplo - seu Larry Gopnick é um dos melhores personagens já inventados pelos roteiristas, e seu desempenho nunca está abaixo de exemplar.

Como uma espécie de Jó - personagem bíblico testado por Deus através de uma série de desgraças financeiras e familiares -, Larry Gopnick tenta manter a sanidade mental diante de uma avassaladora sucessão de acontecimentos que se equilibram entre o bizarro e o dramático. A resiliência do protagonista frente à implosão da família, às incertezas profissionais e às dúvidas teológicas é retratada com delicadeza e inteligência - impõe um distanciamento da plateia em relação à trama, mas ao mesmo tempo a convida a um olhar de empatia e compaixão com o personagem. Da primeira sequência - que dá uma pequena mostra do que espera o público nas horas seguintes, ao contar uma história sem solução aparente - até a cena final - a ameaça da natureza frente ao drama pessoal que se desenrola até então -, tudo em "Um homem sério" funciona à perfeição. Com o tempo, será devidamente reconhecido como um dos melhores filmes dos irmãos Coen - uma referência nada desprezível diante da filmografia frequentemente genial dos realizadores. Uma pérola que poucos descobriram - mas que devem descobrir e se deleitar.

terça-feira

A CHEGADA

A CHEGADA (Arrival, 2016, Sony Entertainment,  116min) Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Eric Heisserer, conto "Story of your life", de Ted Chiang. Fotografia: Bradford Young. Montagem: Joe Walker. Música: Jóhan Jóhansson. Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: Patrice Vermette/Marie-Soleil Dénomné, Paul Hotte, André Valade. Produção executiva: Dan Cohen, Eric Heisserer, Karen Lunder, Tory Metzger, Milan Popelka, Stan Wlodkowski. Produção: Dan Levine, Shawn Levy, David Linde, Aaron Ryder. Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg, Mark O'Brien. Estreia: 01/9/16 (Festival de Veneza)

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Dennis Villeneuve), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor do Oscar de Edição de Som 

Quando um filme - seja de ficção científica, seja do gênero que for - permanece na memória e no coração do espectador muito depois de seus créditos finais, certamente ele é muito mais do que um simples filme. Produções que ultrapassam os limites da arte e suscitam reflexões acerca de temas como destino, finitude e livre arbítrio tendem a tornar-se clássicas já em seu nascimento - haja visto obras como "2001: uma odisseia no espaço" (68), de Stanley Kubrick, e "Blade Runner: o caçador de androides" (82), de Ridley Scott, que se mantém no imaginário popular há décadas justamente por inserir, em um gênero específico, um vasto material intelectual e sensorial que vai além do que é exposto na tela, exercitando tanto o coração quanto o cérebro da plateia. Não chega a ser uma surpresa, portanto, que "A chegada" possa facilmente entrar na seleta lista dos grandes filmes de ficção científica da história do cinema - e que certamente irá resistir à passagem dos anos: inteligente, sensível e tecnicamente impecável, a primeira incursão do canadense Denis Villeneuve no gênero é simplesmente uma obra-prima que confirma o cineasta como uma das vozes mais originais e criativas a surgirem nos últimos anos.

Desde que seu "Incêndios" (2010) encantou o mundo e concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Villeneuve passou a demonstrar, em sua filmografia, uma preocupação constante com a alma e a psicologia de seus personagens. Fossem eles baseados em livros consagrados ("O homem duplicado", baseado em José Saramago) ou dentro dos limites de filmes de gênero (o suspense "Os suspeitos" ou o policial "Sicário: terra de ninguém"), seus protagonistas viviam sempre no fio da navalha, torturados por questões pessoais que os empurravam à frente e mexiam com as engrenagens das tramas. Em "A chegada" não é diferente: com base no conto "Story of your life", de Ted Chiang, o roteiro de Eric Heisserer, apesar de se utilizar fartamente dos elementos da ficção científica, é escorado totalmente nas emoções muito humanas de sua personagem central, a linguista Louise Banks, interpretada com brilhantismo por Amy Adams. Por mais que os efeitos visuais originais e criativos imaginados pela equipe de Martine Bertrand e Patrice Vermette sejam empolgantes e fujam do lugar-comum, é o coração de Louise que sustenta a ação do filme, que preenche aos poucos os vácuos que o roteiro vai propositalmente deixando pelo caminho até o final avassalador e comovente. Genialmente concebido como uma espécie de quebra-cabeças cujas peças só vão fazer sentido quando a imagem estiver totalmente formada, o roteiro de "A chegada" é uma aula de narrativa - em que cada cena, cada linha de diálogo e cada silêncio é parte indispensável para o resultado final.


Quando começa, "A chegada" parece mais uma ficção científica convencional: doze naves espaciais de formato ovalado chegam à Terra, provocando pânico e desconfiança na população e nas lideranças mundiais. Em busca de comunicação com os visitantes, um coronel norte-americano, Weber (Forest Whitaker) recruta a linguista Louise Banks (Amy Adams), que já havia trabalhado para o governo em circunstâncias anteriores (e bem menos inusitadas). Louise se junta a um time de cientistas que inclui o matemático Ian Donnelly (Jeremy Renner) e centenas de pesquisadores espalhados pelo mundo. Conforme vai avançando em seus contatos com uma dupla de alienígenas - a quem eles batizam de Abbott e Costello - e aprendendo sua forma de comunicação, Louise passa a ter visões de sua vida e começa a questionar seu senso de realidade e até que ponto ela será capaz de controlar os limites de sua interação com os desconhecidos viajantes.

Contar qualquer detalhe a mais de "A chegada" é estragar a bela experiência que ele é. Descobrir as razões que trazem os alienígenas ao nosso planeta e de que forma seu contato com os humanos irá alterar o destino de Louise é uma das melhores e mais emocionantes surpresas de um filme que, apesar de ter em seu desfecho um de seus grandes trunfos, cresce a cada revisão. Cuidadosamente realizado - da fotografia suja de Bradford Young à música impactante de Jóhan Jóhansson - e dotado de uma inteligência rara em blockbusters (rendeu mais de 200 milhões de dólares nas bilheterias contra um orçamento relativamente baixo de 47 milhões), o filme de Villeneuve é uma viagem sensorial das mais empolgantes, que trata o espectador com respeito e jamais subestima sua capacidade intelectual. O que é injustificável é a ausência de Amy Adams entre as oito indicações ao Oscar recebidas pela produção - que incluíram melhor filme, diretor e roteiro adaptado: com uma atuação extraordinária que demonstra toda a extensão de seu talento dramático, Adams simplesmente carrega a plateia por uma trajetória emocional das mais enriquecedoras, capaz de prender a atenção do primeiro ao último minuto sem jamais cair no óbvio ou no previsível. Conduzido com elegância e segurança por um cineasta nitidamente apaixonado por sua história, "A chegada" é uma pequena obra-prima moderna - e que fez de Villeneuve o cineasta ideal para assinar a esperada continuação de "Blade Runner". Imperdível e inesquecível!

segunda-feira

ARMAS NA MESA

ARMAS NA MESA (Miss Sloane, 2016, Transfilm/Archery Pictures/Canal + Distribution, 132min) Direção: John Madden. Roteiro: Jonathan Perera. Fotografia: Sebastian Blenkov. Montagem: Alexander Berner. Música: Max Richter. Figurino: Georgina Yarhi. Direção de arte/cenários: Matthew Davies/Peter P. Nicolakakos. Produção executiva: Patrick Chu, Claude Léger, Jonathan Vanger. Produção: Ben Browning, Khris Thykier, Ariel Zeitoun. Elenco: Jessica Chastain, Mark Strong, Alison Pill, John Litghow, Christine Baranski, Michael Stuhlbarg, Sam Waterston, Jake Lacy, Dylan Baker, Gugu Mbatha-Raw. Estreia: 11/11/16

Uma das mais poderosas e importantes dos EUA, a indústria bélica afeta diretamente a economia e a sociedade norte-americanas, uma das mais benevolentes em leis de porte e compra de armas - e cujas consequências frequentam o noticiário com assustadora regularidade, com atentados violentos e mortais contra civis. O tema chegou a ser tema do impressionante documentário "Tiros em Columbine", de Michael Moore, vencedor do Oscar da categoria em 2001, e volta e meia serve de assunto para discussões sérias e polêmicas que envolvem políticos, empresários e a sociedade em geral, mas Hollywood, sintomaticamente, poucas vezes entrou na controvertida questão. Por isso não deixa de ser uma surpresa que um filme como "Armas na mesa" tenha surgido - ainda que timidamente, uma vez que não foi bem nas bilheterias e foi injustamente ignorado pelo Oscar - e tocado nesse nervo tão dolorido do american way of life. Dirigido por John Madden, que já conheceu o gostinho do sucesso com "Shakespeare apaixonado" (98) e estrelado por uma avassaladora Jessica Chastain, merecidamente indicada ao Golden Globe de melhor atriz dramática, o filme não aprofunda a questão, mas a utiliza como pano de fundo para uma trama inteligente e envolvente, que surpreende até os minutos finais.

A fascinante e complexa protagonista é Elizabeth Sloane, uma lobista talentosa e afeita a métodos pouco ortodoxos para atingir seus objetivos profissionais - mas que, paradoxalmente, só aceita trabalhos que vão ao encontro de seus princípios pessoais. É por essa razão que ela recusa a oferta milionária de um grupo de empresários que a procuram para que ela batalhe contra uma emenda constitucional que propõe mais rigidez na liberação de licenças para porte de arma no país. Conforme o raciocínio das velhas raposas, o fato de Elizabeth ser mulher poderia lhe dar ainda mais confiabilidade junto ao público feminino - seu maior alvo. Sentindo-se pressionada até mesmo por seu chefe, George Dupont (Sam Waterston), ela surpreende a todos ao aliar-se com uma firma de advocacia concorrente, que tenta justamente o oposto no Congresso. Liderada por Rodolfo Schmidt (Mark Strong), a nova equipe da ousada lobista passa a ser formada por antigos colaboradores, que entram, então, em rota de colisão com os remanescentes de seu antigo grupo, como o ambicioso Pat Connors (Michael Stuhlbarg) e a jovem Jane Molloy (Alisson Pill). Disposta a qualquer coisa para manter seu currículo, Elizabeth Sloane não medirá esforços para conquistar a opinião pública - inclusive usar o trauma de uma colega, Esme Manucharian (Gugu Mbatha-Raw), cujo passado esconde um terrível acontecimento.


Com um roteiro que vai revelando aos poucos todos os seus desdobramentos e uma personagem central repleta de nuances, "Armas na mesa" é um filme feito para adultos, para uma plateia exigente que busca tramas consistentes e imprevisíveis. Sua protagonista é uma das mais impressionantes da temporada 2016, e a interpretação irretocável de Jessica Chastain (mais uma, na verdade) é, além de sua maior qualidade, seu ponto de sustentação. Ao dotar Elizabeth Sloane de uma série de defeitos e aproximá-la do espectador médio - com suas frustrações pessoais, sua solidão, sua inadequação à normalidade - o filme trabalha de maneira exemplar a intersecção entre a trama política e o drama pessoal, que o leva a um clímax poderoso e surpreendente. Chastain está brilhante e rouba todas as cenas em que aparece, seja humilhando opositores, discutindo com inimigos, conversando com o terapeuta ou ensaiando uma hesitante relação com o garoto de programa Forde (Jake Lacy), que lhe faz repensar algumas de suas atitudes. Seu desempenho é tão forte que eclipsa até mesmo gente talentosa como John Lithgow e Sam Waterston, que pouco tem a fazer senão pontuar seu show. Não foi à toa que John Madden pensou imediatamente nela quando leu o roteiro - ambos já tem outro trabalho em conjunto, o subestimado "A grande mentira" (2010), mas aqui atingem um outro nível de entendimento profissional, absolutamente mais sofisticado.

De ritmo mais lento que a maioria das produções hollywoodianas - que privilegiam uma edição histérica em detrimento do desenvolvimento de personagens e de sua história - "Armas na mesa" convida o público a não apenas refletir sobre um tema relevante, mas também a mergulhar em um universo poucas vezes retratados com fidelidade no cinema. Ao testemunhar as artimanhas de Elizabeth em sua trajetória rumo ao sucesso profissional, a plateia se vê diante de um mundo de negociações escusas, de mentiras, chantagens e jogos baixos que em muito reflete a realidade não só norte-americana, mas de todos os países democráticos do mundo. Sem forçar a mão nas discussões políticas e preferindo enfatizar a personalidade dúbia de sua protagonista, o roteiro de Jonathan Perera torna-se universal e brinda a audiência com diálogos acima da média e um desenvolvimento gradual, que conquista a cada cena, até seu final explosivo. Um filme que merece ser descoberto - e que injustamente não rendeu à sua atriz principal todos os aplausos que ela merece.

sexta-feira

O DONO DO JOGO

O DONO DO JOGO (Pawn sacrifice, 2014, Universal Pictures, 115min) Direção: Edward Zwick. Roteiro: Steven Knight, estória de Steven Knight, Stephen J. Rivele, Christopher Wilkinson. Fotografia: Bradford Young. Montagem: Steven Rosenblum. Música: James Newton Howard. Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: Isabelle Guay/Fred Berthiaume. Produção executiva: Kevin Frakes, Árni Bjorn Helgason, Mike Ilitch Jr., Dale Armin Johnson, Julie B. May, Glenn P. Murray, Josette Perrotta, Stephen J. Rivele, Raj Singh, Christopher Wilkinson. Produção: Gail Katz, Tobey Maguire, Edward Zwick. Elenco: Tobey Maguire, Liev Schreiber, Michael Stuhlbarg, Peter Sarsgaard, Lily Rabe. Estreia: 11/9/14 (Festival de Toronto)

Mais conhecido por produções grandiosas que retratam períodos históricos abalados por conflitos bélicos, como "Tempo de glória" (89), "Lendas da paixão" (94) e "O último samurai" (2003), o cineasta Edward Zwick deu um tempo no sangue e mudou um pouco a imagem com o romântico "Amor e outras drogas", estrelado por Jake Gyllenhaal e Anne Hathaway em 2010. Mesmo assim não deixa de ser uma surpresa que seja ele o nome por trás de "O dono do jogo", um filme que contrasta bastante com sua filmografia mais conhecida ao apostar no minimalismo como principal elemento. Ao contar a história real da maior disputa já travada no universo do xadrez, Zwick aposta em um viés político-social inusitado, que mistura drama psicológico, suspense e muitos elementos biográficos em uma trama que só não é mais interessante devido a um ritmo claudicante e sua indecisão em escolher seu principal foco narrativo. No mais, é um trabalho inteligente que demonstra a capacidade do diretor em transitar por diferentes gêneros cinematográficos.

O protagonista do filme é o mundialmente conhecido e celebrado jogador de xadrez Bobby Fischer, até hoje a maior lenda do esporte e um dos nomes mais admirados por especialistas e pelo público que, em 1972, no auge da Guerra Fria, tornou-se o maior símbolo da luta dos EUA contra o comunismo russo sem disparar um único tiro ou fazer sequer uma ameaça de ataques nucleares: como gênio enxadrista, Fischer desafiou o campeão mundial Boris Spassky e, em um campeonato repleto de lances dramáticos e torcidas fanáticas, estampou capas de revistas, frequentou noticiários virou ídolo nacional - tudo isso enquanto lidava com sérios problemas mentais que logo o fariam buscar o isolamento social e o auto-exílio. Interpretado por Tobey Maguire, que embarcou no projeto também como produtor logo que se apaixonou pela história, Fischer surge em cena como uma celebridade de personalidade instável e difícil, capaz de enervar tanto seu empresário, Paul Marshall (Michael Stuhlbargh), quanto seu mentor espiritual, o Padre Phil Lombardy (Peter Sarsgaard), que o acompanham em sua trajetória rumo à vitória. Dado a frequentes ataques de paranoia e agressividade que remetem à uma infância de convivência constante com a perseguição política aos comunistas, o rapaz que cresceu desafiando jogadores mais velhos e experientes tem a chance de sua vida ao bater de frente com o regime soviético, representado pela figura de seu maior campeão. Vivido com excelência pelo cada vez melhor Liev Schreiber, o herói russo é o contraponto total de Fischer: centrado, calmo e pouco afeito a estrelismos. Sua rivalidade não é apenas no xadrez: o que está em jogo em suas disputas é a imagem que o mundo terá de seus países a partir de um simples campeonato de xadrez.


É difícil imprimir emoção e suspense em jogos de xadrez, mas Edward Zwick consegue quase o impossível ao fazer com que o público consiga sentir, pelo menos em parte, a atmosfera de tensão e expectativa que cercava cada partida. Com o apoio da edição criativa de Steven Rosenblum (seu parceiro habitual), o diretor mergulha a plateia em um período muito especial da história norte-americana - já castigada pela Guerra do Vietnã - para fazê-la compreender toda a extensão do conflito entre Fischer e Spassky. Experiente condutor de atores - por suas mãos Denzel Washington ganhou seu primeiro Oscar, como coadjuvante por "Tempo de glória" - Zwick não hesita em arrancar o melhor de seus intérpretes, oferecendo à Toby Maguire momentos bastante intensos na pele do complicado protagonista e à Liev Schreiber mais uma oportunidade de mostrar que é um dos atores mais subestimados de Hollywood. Ainda que deixe de lado o sempre ótimo Peter Sarsgaard (com um personagem pouco explorado), o filme tem a seu favor o cuidado na reconstituição de época e a seriedade com que trata seus temas, nunca escorregando na caricatura ou no exagero (mesmo que Maguire, vez ou outra, esbarre em alguns tons excessivos). Essas qualidades, porém, não impedem que seu maior problema seja bastante perceptível até mesmo ao mais distraído espectador: afinal, qual é o principal foco de "O dono do jogo"?

Não é errado que um filme trate de diversos assuntos ao mesmo tempo, principalmente quando esses temas estão conectados. O problema do roteiro de "O dono do jogo", porém, é que seus temas, apesar de intimamente ligados, não conseguem dialogar um com o outro de forma satisfatória. Em vez da fusão orgânica de suas tramas - os problemas psicológicos de Fischer; sua relação com a família; a disputa do campeonato mundial - o filme as apresenta quase como independentes entre si, sem uma conexão consistente ou empolgante entre elas. A impressão que se tem é que qualquer uma das subtramas poderia ser um filme diferente, tendo apenas os personagens como ligação. Essa falta mais significativa de elos entre os focos narrativos acaba enfraquecendo o resultado final e tornando o filme um entretenimento de qualidade, sim, mas longe de ser a produção memorável que poderia ser. Além do mais, seu desfecho - a partida final do campeonato mundial - é morno e anti-climático, responsabilidade que pode ser dividida entre o roteiro que tenta abraçar mais do que consegue e a direção que não dá conta de tanta indecisão. No final das contas, "O dono do jogo" é apenas um filme ok. Bobby Fischer e suas conquistas ainda estão esperando por uma produção à altura.

domingo

HITCHCOCK

HITCHCOCK (Hitchcock, 2012, 20th Century Fox, 98min) Direção: Sacha Gervasi. Roteiro: John J. McLaughlin, livro "Alfred Hitchcock and the making of 'Psycho'", de Stephen Rebello. Fotografia: Jeff Cronenweth. Montagem: Pamela Martin. Música: Danny Elfman. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Judy Becker/Robert Gould. Produção executiva: Ali Bell, Richard Middleton. Produção: Alan Barnette, Joe Medjuck, Tom Pollock, Ivan Reitman, Tom Thayer. Elenco: Anthony Hopkins, Helen Mirren, Scarlett Johansson, Toni Collette, Danny Huston, James D'Arcy, Jessica Biel, Kurtwood Smith, Michael Stuhlbarg, Ralph Macchio. Estreia: 01/11/12

Indicado ao Oscar de Maquiagem
Todo cinéfilo que se preze já se deixou seduzir ao menos uma vez pela surpreendente e assustadora história do bizarro Norman Bates no inesquecível “Psicose” – o original de 1960 dirigido por Alfred Hitchcock, claro, e não a aberração comandada por Gus Van Sant em 1998. O que talvez nem metade das pessoas que pularam da cadeira com os sustos provocados pelo mestre do suspense sabem, porém, é que, mesmo com todo seu prestígio dentro da indústria, o cineasta inglês teve que lutar com unhas e dentes – e dívidas em cima de dívidas – para conseguir levar o livro de Robert Bloch às telas. Os bastidores da filmagem de um dos maiores clássicos do cinema – tão repletos de dramas e imprevistos quanto o próprio filme em si – serviram de mote para o livro “Hitchcock and the making of ‘Psycho’”, escrito por Stephen Rebello, e que, por sua vez, é a base na qual se sustenta “Hitchcock”, dirigido por Sacha Gervasi. Lançado quase ao mesmo tempo em que o televisivo “The girl” – que acompanhava os bastidores de outro filme essencial na carreira do cineasta, “Os pássaros” – a obra de Gervasi tem a seu favor o interesse que a simples menção do nome de Hitchcock desperta e o elenco formado por nomes conhecidos do grande público (Anthony Hopkins, Helen Mirren, Scarlett Johansson, Jessica Biel). Porém, carece de foco e, paradoxalmente, tem mais cara de filme para a televisão do que seu rival temático (estrelado por Toby Jones).
Anthony Hopkins, mesmo sendo o grande ator que é, fica aquém do esperado em sua interpretação – talvez culpa da maquiagem que lhe tolhe os movimentos faciais (e mesmo assim foi indicada ao Oscar da categoria), talvez culpa do roteiro um tanto superficial, talvez culpa da direção frouxa de Gervasi. Mesmo que desapareça debaixo da pele do homem que legou ao mundo obras impecáveis como “Janela indiscreta” e “Um corpo que cai” – o ator galês não chega a dar alma a seu personagem, dando a impressão de limitar-se apenas a uma imitação, a uma mera mimese sem maior profundidade. Nem o artifício do roteiro de fazê-lo conversar com Ed Gein – o psicopata real que inspirou o livro de Robert Bloch – dá sustentação a seu trabalho. Na maior parte do tempo, Hitchcock parece apenas uma mimada criança grande, incapaz de lidar ao mesmo tempo com o trabalho, o casamento com sua parceira de todas as horas Alma Reville (Helen Mirren) e as paixões platônicas pelas estrelas de seus filmes (Grace Kelly acima de todas). Pode ser que Hitchcock fosse realmente assim e que o filme faça um retrato fiel de sua personalidade, mas é inegável que em boa parte do tempo essa opção não funciona.
A trama começa quando, procurando material para seu novo filme na Paramount depois do relativo fracasso de “Intriga internacional”, Hitchcock descobre o romance de Bloch, considerado pela crítica e por todo mundo que o rodeia uma subliteratura de mau-gosto. Acontece que, teimoso como ele só, o cineasta resolve ir contra a opinião de todos – inclusive de Alma, que tenta convencê-lo a dar uma chance ao romance de um amigo comum, Whitlock Miller (Danny Huston) – e levar o livro às telas. Começa aí sua via-crúcis: a Paramount se recusa a bancar um produto tão nitidamente fadado à execração pública e, corajosamente, Hitch resolve contrair dívidas pouco saudáveis para levar a ideia adiante – aceitando do estúdio a promessa de distribuir o filme desde que caiba a ele o controle total do resultado final (um trato extremamente arriscado). Dono de um senso de marketing genial, o cineasta faz com que se comprem todos os exemplares disponíveis do livro no país (como forma de manter em segredo as reviravoltas da trama), contrata o roteirista Joseph Estefano (Ralph Macchio, o Karatê Kid em pessoa) para adaptar o material e contrata atores não exatamente comerciais para os papéis centrais: a bela Janet Leigh (Scarlett Johansson), o promissor Anthony Perkins (James D’Arcy) e sua antiga obsessão Vera Miles (Jessica Biel) – a quem não consegue perdoar pelo fato de ter abandonado o projeto de “Um corpo que cai” para engravidar.

Pressionado pelo estúdio, desacreditado pelos executivos e afins do mundo do cinema, temeroso pelo resultado do filme nas bilheterias e sofrendo com as privações alimentares (não exatamente cumpridas) que sua saúde exige, Hitchcock ainda precisa lidar com um problema de nível pessoal: a desconfiança de que sua alma gêmea, a dedicadíssima Alma, possa estar tendo um romance extra-conjugal com o escritor Whittlock Miller. Esse desvio de rota – saindo do estritamente profissional dos sets de filmagens para entrar no âmbito pessoal e matrimonial do cineasta – acaba sendo o calcanhar de Aquiles do filme de Gervasi. Mesmo com a brilhante atuação de Helen Mirren, a trama paralela do possível envolvimento de Reville com outro homem prejudica consideravelmente o ritmo ágil (talvez em demasia, diga-se de passagem) daquele que deveria ser o principal ponto de interesse da história. Toda vez que a câmera deixa de lado as intrigas de bastidores de “Psicose” – as brigas com a censura, o relacionamento difícil entre o diretor e Vera Miles, a construção da genial trilha sonora de Bernard Herrman – para dedicar-se aos devaneios românticos/adúlteros de Alma, há uma perda de foco quase imperdoável.
E isso que nem mesmo depois de estar pronto “Psicose” deixou de dar trabalho a seu criador e sua equipe. Rejeitado pela Paramount para desespero do diretor, o filme voltou à sala de montagem e, com o apoio de Alma – além de alterações sutis mas bastante eficientes em aumentar o nível dos sustos – estreou com uma campanha de marketing das mais astuciosas, de causar inveja às intervenções milionárias das produções atuais. Seguranças contratados especialmente para impedir espectadores de entrarem nas salas de exibição depois do início das sessões, cortinas se fechando logo após o encerramento do filme (“para manter por mais tempo as sensações provocadas pela história”) e pedidos encarecidos do próprio Hitchcock para que o público não revelasse a ninguém o desfecho da trama foram algumas das medidas tomadas para que aquele que era considerado o “suicídio artístico” do mestre do suspense se tornasse o maior sucesso financeiro de sua carreira (além de lhe render uma indicação ao Oscar de melhor diretor). Os detalhes de sua concepção são deliciosos e é um prazer testemunhá-los, mas é inegável que fica no ar, ao fim dos créditos de encerramento, a nítida sensação de um filme que poderia ter sido bem melhor.
E realmente poderia. Tudo em “Hitchcock” é quase. O roteiro é simplista, sem profundidade dramática. A direção é esquemática e sem criatividade. O elenco faz o que pode com um material quase pobre (Helen Mirren é a única que consegue injetar consistência em sua interpretação). E até mesmo momentos que poderiam beirar o sublime (Hitch nos bastidores degustando a reação da plateia diante do assassinato no chuveiro mais famoso da história do cinema) chegam perto do risível. Não fosse “Psicose” a obra-prima que é – e que por consequência chama o interesse dos cinéfilos até mesmo indiretamente – o filme de Gervasi correria o sério risco de passar despercebido. Subaproveitando até mesmo a sempre ótima Toni Colette (aqui na pele da secretária do cineasta), “Hitchcock” é surpreendentemente inferior a seu rival televisivo. É leve, é simpático, mas superficial ao extremo. Hitch merecia algo melhor.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...