NO (No, 2012, Participant Media/Funny Balloons, 118min) Direção: Pablo Larraín. Roteiro: Pedro Peirano, peça teatral de Antonio Skármeta. Fotografia: Sergio Armstrong. Montagem: Andrea Chignoli. Música: Carlos Cabezas. Figurino: Francisca Román. Direção de arte/cenários: Estefania Larrain/María Eugenia Hederra. Produção executiva: Juan Ignacio Correa, Mariane Hartard, Rocío Jadue, Jonathan King. Produção: Daniel Marc Dreifuss, Juan de Dios Larraín, Pablo Larraín. Elenco: Gael García Bernal, Alfredo Castro, Luis Gnecco, Néstor Cantillana, Antonia Zegers, Elsa Poblete. Estreia: 18/5/12 (Festival de Cannes)
Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Entre 1973 e 1988, o Chile viveu sob uma feroz ditadura militar, representada na figura do General Augusto Pinochet, que assumiu a presidência depois de derrubar, através de um golpe de estado, o eleito Salvador Allende. Sob forte pressão popular - e acreditando que jamais sairia derrotado de uma eleição depois de tanto tempo no comando - o ditador aceitou, então, a proposta de realização de um plebiscito que decidiria sua continuidade ou não como chefe do país. Como parte do processo, uma campanha televisionada no período de 27 dias, com quinze minutos de duração para cada time. Seria democrático se o governo não tivesse muito mais recursos do que a oposição - mas a luta pela justiça encontra forças na adversidade, na paixão de seus militantes e na busca constante pela liberdade. Essa é a mensagem por trás de "No", belo trabalho do cineasta Pablo Larraín, indicado ao Oscar 2012 de melhor filme estrangeiro. Baseado em uma peça teatral escrita pelo mesmo Antonio Skármeta de "O carteiro e o poeta", o filme de Larraín é centrado basicamente na batalha dos opositores ao regime, que, mesmo dispondo de pouco dinheiro e apoio oficial, conseguiram derrubar um dos mais sangrentos e vis golpes de estado da história da América Latina.
A trama centra-se em René Saavedra (o sempre ótimo Gael García Bernal), publicitário jovem e talentoso, que é convidado para participar da organização da campanha pelo "Não" - que, vitoriosa, obrigaria o governo a clamar por novas eleições diretas. Filho de exilados políticos, o rapaz hesita em aceitar a proposta mesmo sendo simpático à causa, especialmente porque seu patrão, Lucho Guzmán (Alfredo Castro), é um dos diretores da campanha oposta. Sabendo que está mexendo com um vespeiro, porém, René aceita o desafio e passa a colaborar com a criação de uma série de pequenos filmes que celebram a alegria e a liberdade - em oposição ao que muitos participantes da campanha desejam, por considerar o assunto sério demais para ser tratado com leveza. Conforme o tempo vai passando e as diferenças criativas vão sendo superadas (ou não), o governo começa a perceber que talvez tenha sido uma péssima ideia dar voz a seus inimigos, principalmente em rede nacional.
Para dar mais realismo às cenas, Larraín, em seu projeto mais acessível ao grande público - depois de sucessos de crítica mais densos e herméticos, como "Tony Manero" (2008) e "Post Mortem" (2010) - utilizou-se de câmeras utilizadas no final da década de 80, criando sequências que parecem realmente ter saído do momento histórico que retrata. Intercalando cenas do filme com imagens das campanhas reais, o cineasta insere o espectador dentro da jornada de René e seus companheiros rumo à liberdade tão sonhada. Sem disfarçar sua simpatia pelo fim da ditadura, o roteiro questiona os argumentos daqueles favoráveis ao regime sem, no entanto, apelar para o didatismo ou o panfletário, acreditando plenamente na força da história e seus desdobramentos. Ao impor a narrativa sob a ótica de Saavedra - um cidadão comum, que viveu todos os problemas da ditadura sem estar nos bastidores do poder - Larraín enfatiza o óbvio: um regime ditatorial e opressor afeta a todos, por mais que se tenha a ilusão de liberdade e progresso. Quando decide comprar a briga pelo "Não", o protagonista compra também uma série de consequências que podem destruir sua carreira e sua família, e sua coragem é que lhe transforma em herói - ao menos um herói do dia-a-dia, capaz de, com pequenos gestos, transformar seu pedaço de mundo e aqueles a seu redor. Não deixa de ser surpreendente que o diretor desse conto de esperança seja Larraín, um cineasta pouco afeito a delicadezas e finais felizes.
Empolgante como um thriller político - mas sem o peso de um Costa-Gavras ou Oliver Stone - "No" é uma produção pequena em ambição mas grandiosa em resultados. A indicação ao Oscar foi apenas consequência de um trabalho cuidadoso, apaixonado e inteligente, capaz de conquistar até mesmo àqueles avessos a qualquer tipo de filme do gênero. Com um roteiro fluido e esperto, uma direção discreta que jamais comete excessos e um elenco impecável - liderado por um inspirado Gael García Bernal, perfeito em viver tipos comuns - é uma pequena obra-prima do cinema chileno, competente em todos os aspectos e fascinante como drama humano e social. Uma mostra e tanto do novo cinema latino-americano.
Filmes, filmes e mais filmes. De todos os gêneros, países, épocas e níveis de qualidade.
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domingo
quarta-feira
CORAÇÕES EM CONFLITO
CORAÇÕES EM CONFLITO (Mammoth, 2009, Memfis Film, 125min) Direção e roteiro: Lukas Moodysson. Fotografia: Marcel Zyskind. Montagem: Michal Leszczylowki. Música: Erik Holmquist, Linus Gierta, Jesper Kurlandsky. Figurino: Denise Ostholm. Direção de arte/cenários: Josefin Asberg. Produção executiva: Lene Borglum, Peter Garde, Vibeke Windelov. Produção: Lars Jonsson. Elenco: Michelle Williams, Gael García Bernal, Marife Necesito, Sophie Nyweide, Tom McCarthy. Estreia: 19/01/09 (Estocolmo)
Há mais em comum entre "Corações em conflito" e "Babel" do que a simples presença do ator mexicano Gael García Bernal. Apesar do badalado filme de Alejandro Gonzalez Iñarritu ter arrancado elogios e prêmios mundo afora e da obra do desconhecido Lukas Moodysson ter passado praticamente em branco pelos cinemas, ambos falam sobre temas que se tornaram primordiais em uma época de globalização: a incomunicabilidade entre as pessoas e o entrelaçamento cada vez maior e indelével de culturas diversas sem que haja uma real interação e respeito entre elas. Porém, se a produção de Iñarritu apelava para um ambicioso painel estrelado por grandes nomes de Hollywood, o filme do sueco Moodysson opta por um registro mais discreto e minimalista, ao centrar seu foco na história de um casal jovem e profissionalmente realizado que tem seu relacionamento posto à prova quando o marido precisa fazer uma viagem de negócios e passa a questionar seu modo de vida.
Leo (muito bem interpretado por Gael García Bernal) e Ellen Vidales (Michelle Williams, sempre à vontade em papéis que exigem uma entrega dramática mais intensa) formam um casal em franca ascensão profissional. Morando em um confortável e amplo apartamento em Nova York ao lado da filhinha, Jackie (Sophie Nywiede), eles levam uma vida tranquila e desprovida de maiores dramas. Porém, quando Leo viaja para a Tailândia com seu sócio, para assinar um milionário contrato, essa paz toda começa a mostrar suas rachaduras. Ellen atende a um rapaz esfaqueado pela própria mãe e passa a nutrir por ele um carinho que a faz repensar o casamento. Leo, enquanto aguarda a confecção do contrato, se hospeda em uma cabana rústica de Bangcoc e se aproxima de uma jovem prostituta que deseja mudar de vida. E Gloria (Marife Necesito), a babá da pequena Jackie, sofre com a saudade que sente dos filhos que deixou nas Filipinas, sem nem ao menos desconfiar dos sérios problemas e ameaças a que suas crianças estão expostas.
Ao mesclar três linhas narrativas simultâneas em seu roteiro, o suíço Moodysson se aproxima perigosamente do terreno já explorado à exaustão, tanto por Iñarritu quanto por outros cineastas premiados, como Paul Haggis, que fez o mesmo com seu oscarizado e superestimado "Crash, no limite". No entanto, ao seguir um caminho menos sensacionalista e mais sutil, que privilegia silêncios e olhares, o cineasta segue o rumo oposto dos exemplares mais famosos do gênero - e para isso conta com um desempenho preciso de Michelle Williams (já indicada ao Oscar de coadjuvante por "O segredo de Brokeback Mountain" e em vias de concorrer mais duas vezes à estatueta na categoria principal). A forma com que a jovem atriz se entrega ao desespero quieto e angustiado de Ellen dá consistência e ressonância ao roteiro do diretor, que também explora, com delicadeza, a relação entre a patroa - americana, jovem, bem-sucedida - e a empregada - imigrante, sofrida, subvalorizada - quando um novo elemento surge em cena: o ciúme. Sentindo-se afastada da filha, que passa mais tempo com a babá do que com a mãe, Ellen inicia também um processo de autoquestionamento em relação à sua função materna, uma subtrama importante que dialoga diretamente com a distância entre Gloria e seus filhos - que tem desdobramentos corajosos e dramáticos que poucos filmes hollywoodianos tem.
E se Michelle Williams brilha mais uma vez, o mesmo pode ser dito de Gael García Bernal. Um dos mais elogiados atores de sua geração - e certamente o único mexicano a brilhar em filmes de nacionalidades variadas, sempre com grandes atuações - Bernal novamente entrega um desempenho memorável, na pele de um homem que vê a maturidade aproximar-se da maneira mais inesperada possível e tenta lidar com ela da melhor maneira possível. Mesmo que sua trama seja a menos interessante das três histórias, ele a banha com simpatia e verdade, impedindo que se afunde nos clichês que volta e meia aparecem no caminho. São os dois atores que transformam a experiência de se assistir a "Corações em conflito" - um drama à primeira vista banal mas que revela grande profundidade em sua narrativa simples e direta - em um programa bastante interessante. É um filme que merece ser descoberto.
Há mais em comum entre "Corações em conflito" e "Babel" do que a simples presença do ator mexicano Gael García Bernal. Apesar do badalado filme de Alejandro Gonzalez Iñarritu ter arrancado elogios e prêmios mundo afora e da obra do desconhecido Lukas Moodysson ter passado praticamente em branco pelos cinemas, ambos falam sobre temas que se tornaram primordiais em uma época de globalização: a incomunicabilidade entre as pessoas e o entrelaçamento cada vez maior e indelével de culturas diversas sem que haja uma real interação e respeito entre elas. Porém, se a produção de Iñarritu apelava para um ambicioso painel estrelado por grandes nomes de Hollywood, o filme do sueco Moodysson opta por um registro mais discreto e minimalista, ao centrar seu foco na história de um casal jovem e profissionalmente realizado que tem seu relacionamento posto à prova quando o marido precisa fazer uma viagem de negócios e passa a questionar seu modo de vida.
Leo (muito bem interpretado por Gael García Bernal) e Ellen Vidales (Michelle Williams, sempre à vontade em papéis que exigem uma entrega dramática mais intensa) formam um casal em franca ascensão profissional. Morando em um confortável e amplo apartamento em Nova York ao lado da filhinha, Jackie (Sophie Nywiede), eles levam uma vida tranquila e desprovida de maiores dramas. Porém, quando Leo viaja para a Tailândia com seu sócio, para assinar um milionário contrato, essa paz toda começa a mostrar suas rachaduras. Ellen atende a um rapaz esfaqueado pela própria mãe e passa a nutrir por ele um carinho que a faz repensar o casamento. Leo, enquanto aguarda a confecção do contrato, se hospeda em uma cabana rústica de Bangcoc e se aproxima de uma jovem prostituta que deseja mudar de vida. E Gloria (Marife Necesito), a babá da pequena Jackie, sofre com a saudade que sente dos filhos que deixou nas Filipinas, sem nem ao menos desconfiar dos sérios problemas e ameaças a que suas crianças estão expostas.
Ao mesclar três linhas narrativas simultâneas em seu roteiro, o suíço Moodysson se aproxima perigosamente do terreno já explorado à exaustão, tanto por Iñarritu quanto por outros cineastas premiados, como Paul Haggis, que fez o mesmo com seu oscarizado e superestimado "Crash, no limite". No entanto, ao seguir um caminho menos sensacionalista e mais sutil, que privilegia silêncios e olhares, o cineasta segue o rumo oposto dos exemplares mais famosos do gênero - e para isso conta com um desempenho preciso de Michelle Williams (já indicada ao Oscar de coadjuvante por "O segredo de Brokeback Mountain" e em vias de concorrer mais duas vezes à estatueta na categoria principal). A forma com que a jovem atriz se entrega ao desespero quieto e angustiado de Ellen dá consistência e ressonância ao roteiro do diretor, que também explora, com delicadeza, a relação entre a patroa - americana, jovem, bem-sucedida - e a empregada - imigrante, sofrida, subvalorizada - quando um novo elemento surge em cena: o ciúme. Sentindo-se afastada da filha, que passa mais tempo com a babá do que com a mãe, Ellen inicia também um processo de autoquestionamento em relação à sua função materna, uma subtrama importante que dialoga diretamente com a distância entre Gloria e seus filhos - que tem desdobramentos corajosos e dramáticos que poucos filmes hollywoodianos tem.
E se Michelle Williams brilha mais uma vez, o mesmo pode ser dito de Gael García Bernal. Um dos mais elogiados atores de sua geração - e certamente o único mexicano a brilhar em filmes de nacionalidades variadas, sempre com grandes atuações - Bernal novamente entrega um desempenho memorável, na pele de um homem que vê a maturidade aproximar-se da maneira mais inesperada possível e tenta lidar com ela da melhor maneira possível. Mesmo que sua trama seja a menos interessante das três histórias, ele a banha com simpatia e verdade, impedindo que se afunde nos clichês que volta e meia aparecem no caminho. São os dois atores que transformam a experiência de se assistir a "Corações em conflito" - um drama à primeira vista banal mas que revela grande profundidade em sua narrativa simples e direta - em um programa bastante interessante. É um filme que merece ser descoberto.
terça-feira
CARTAS PARA JULIETA
CARTAS PARA JULIETA (Letters for Juliet, 2010, Summit Entertainment, 105min) Direção: Gary Winick. Roteiro: José Rivera, Tim Sullivan. Fotografia: Marco Pontecorvo. Montagem: Bill Pankow. Música: Andrea Guerra. Figurino: Nicoletta Ercole. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/Alessandra Querzola. Produção executiva: Ron Schmidt. Produção: Ellen Barkin, Mark Canton, Caroline Kaplan. Elenco: Amanda Seyfried, Vanessa Redgrave, Gael Garcia Bernal, Franco Nero, Christopher Egan. Estreia: 25/4/10 (Tribeca Festival)
A protagonista do filme é Sophie (Amanda Seyfried), que trabalha como pesquisadora na revista New Yorker e tem como maior ambição tornar-se escritora – ainda que não seja levada a sério por seu editor (Oliver Platt) e passe os dias checando fatos para reportagens alheias. Quando o filme começa, Sophie está saindo de férias com o noivo, Victor (Gael García Bernal), para uma espécie de lua-de-mel antecipada, já que o rapaz está em vias de abrir um restaurante e passa os dias dedicado aos preparativos para o evento. O desejo de Sophie de passar uma temporada romântica com Victor em Verona é frustrado logo que o casal chega na Itália: obcecado com trabalho, o rapaz sai de degustações de queijos e vinhos para reuniões e visitas profissionais ao interior do país. Mesmo decepcionada com a situação, a jovem incentiva o amado em suas excursões, mas resolve usar seu tempo em outros programas. Um deles a leva até à Casa de Julieta, um sobrado que há anos serve de cenário para procissões de jovens enamoradas que, inspiradas pela famosa personagem shakespereana, deixam em suas paredes, cartas pedindo conselhos e ajuda em seus dramas amorosos. Curiosa, Sophie descobre que todas as cartas com endereço são respondidas por um grupo de voluntárias e de repente vê-se unindo-se a elas na função. Para sua surpresa, logo ela encontra uma carta escrita em 1951 por uma inglesa desesperada por estar se separando do homem que amava – italiano – por questões familiares. Dotada de um vigoroso espírito romântico, Sophie responde a carta.
Escrita no século XVI pelo inglês
William Shakespeare, a tragédia romântica “Romeu e Julieta” ainda parece ser,
quase quinhentos anos depois, um manancial inesgotável de inspiração para o
cinema. Não apenas adaptações fiéis da obra (como a de Franco Zefirelli,
lançada em 1968), releituras musicais (“Amor, sublime amor”, vencedor de dez
Oscar em 1960) e versões de ousadia visual (a interpretação lisérgica
apresentada pelo australiano Baz Luhrmann em 1996) surgem volta e meia para
conquistar novas plateias, mas também variações sobre o mesmo tema confirmam a
influência indelével à cultura popular do drama adolescente que contrapõe a
pureza do amor aos malefícios do ódio cego. Um exemplo claro e inequívoco dessa
afirmação é o simpático e doce “Cartas para Julieta”, que, a rigor, não tem
nada a ver com o texto do mais famoso bardo do teatro mundial, mas deve a ele
seu mote central – e com ele divide o belo cenário italiano.
Dirigido por Gary Winick –
especialista em comédias românticas que comandou o divertido “De repente 30” –
“Cartas para Julieta” não é exatamente criativo e/ou imprevisível, mas tem a
seu favor o carisma de sua atriz central (Amanda Seyfried, a filha de Meryl
Streep em “Mamma mia” e estrelinha do açucarado “Querido John”) e o talento
sempre impressionante de uma coadjuvante de luxo que valoriza qualquer filme, a
intensa Vanessa Redgrave. São as duas atrizes – a juventude contagiante de uma
e a competência imponente da outra - que dão consistência a um conto sobre a
busca pelo amor e a imortalidade dos sentimentos. Tendo em mãos um roteiro
simples e bem-humorado – um de seus autores, José Rivera, concorreu ao Oscar
por “Diários de motocicleta” – e o estonteante visual do interior da Itália com
suas paisagens deslumbrantes, Winick não tem muito trabalho em conquistar a
plateia, especialmente aquela formada pelos românticos de plantão que sempre
fazem a glória do gênero.
A protagonista do filme é Sophie (Amanda Seyfried), que trabalha como pesquisadora na revista New Yorker e tem como maior ambição tornar-se escritora – ainda que não seja levada a sério por seu editor (Oliver Platt) e passe os dias checando fatos para reportagens alheias. Quando o filme começa, Sophie está saindo de férias com o noivo, Victor (Gael García Bernal), para uma espécie de lua-de-mel antecipada, já que o rapaz está em vias de abrir um restaurante e passa os dias dedicado aos preparativos para o evento. O desejo de Sophie de passar uma temporada romântica com Victor em Verona é frustrado logo que o casal chega na Itália: obcecado com trabalho, o rapaz sai de degustações de queijos e vinhos para reuniões e visitas profissionais ao interior do país. Mesmo decepcionada com a situação, a jovem incentiva o amado em suas excursões, mas resolve usar seu tempo em outros programas. Um deles a leva até à Casa de Julieta, um sobrado que há anos serve de cenário para procissões de jovens enamoradas que, inspiradas pela famosa personagem shakespereana, deixam em suas paredes, cartas pedindo conselhos e ajuda em seus dramas amorosos. Curiosa, Sophie descobre que todas as cartas com endereço são respondidas por um grupo de voluntárias e de repente vê-se unindo-se a elas na função. Para sua surpresa, logo ela encontra uma carta escrita em 1951 por uma inglesa desesperada por estar se separando do homem que amava – italiano – por questões familiares. Dotada de um vigoroso espírito romântico, Sophie responde a carta.
Para surpresa de todas as
voluntárias, porém, a resposta acaba por acarretar uma inesperada consequência:
poucos dias depois, chega ao local a delicada Claire Smith (Vanessa Redgrave),
a autora da carta, que, incentivada pelas palavras de Sophie, decidiu voltar à
Itália depois de cinquenta anos com a intenção de procurar o homem que deixou
para trás, o seu amado Lorenzo. Excitada com a ideia de acompanhar Claire em
sua busca – e escrever sua história – Sophie bate de frente com o ranzinza
Charlie (Christopher Egan), neto da velha senhora que não vê com bons olhos a
ideia da avó correndo atrás de um passado tão remoto. As faíscas que surgem
entre Sophie e Charlie não passam despercebidas por Claire, que, mesmo
incansável em sua missão de reencontrar Lorenzo – uma missão nada desprezível,
já que vários homônimos cercam a região – não deixa de questionar a decisão da
jovem amiga em manter o noivado com um homem que não parece dedicar a ela todo
o tempo e carinho que deveria.
Não se deve esperar grandes
profundidades psicológicas ou debates sérios em “Cartas para Julieta”. O
objetivo do filme é unica e simplesmente divertir o espectador, fazendo-o
viajar pelas fotogênicas estradas italianas enquanto conta duas histórias de
amor simultâneas, capazes de encantar duas gerações distintas da plateia. Em
contraponto ao amor imortal e reprimido entre Claire e Lorenzo (interpretado
pelo marido de Redgrave na vida real, o ator Franco Nero), o roteiro apresenta
o nascente romance entre Sophie e Charlie, que começa com uma certa antipatia –
um clichê que sempre funciona às mil maravilhas – e vai se tornando, com o
passar do tempo, em uma paixão dócil e suave que contrasta com o relacionamento
quase fraterno entre a jovem e Victor. Mesmo que o filme se estenda mais do que
o necessário e insista em um ato final que apela para o pouco criativo
artifício de um mal-entendido para dificultar o final feliz que todos sabem que
virá, é um exemplar digno de um gênero que não costuma produzir obras muito
marcantes. O único senão é o sub-aproveitamento de Gael García Bernal, um ótimo
ator que não tem muito o que fazer em cena, relegado a um ingrato papel de
coadjuvante pouco interessante. De resto, um romance sem contra-indicações para
quem acredita no amor.
segunda-feira
ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA (Blindness, 2008, 02 Filmes, 121min) Direção: Fernando Meirelles. Roteiro: Don McKellar, romance de José Saramago. Fotografia: César Charlone. Montagem: Daniel Rezende. Música: Uakti. Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: Matthew Davis, Tulé Peak. Produção executiva: Simon Channing Williams, Gail Evan, Akira Ishii, Victor Loewy, Tom Yoda. Produção: Andrea Barata Ribeiro, Niv Fichman, Sanoko Sakai. Elenco: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Danny Glover, Alice Braga, Gael Garcia Bernal. Estreia: 14/5/08 (Festival de Cannes)
Quando foi publicado em 1999, "Ensaio sobre a cegueira" encantou a crítica e deu a oportunidade ao escritor português José Saramago de ganhar o Nobel de Literatura. Logicamente, o sucesso editorial não passou despercebido aos produtores de cinema, que viram no livro uma história potencialmente forte, a despeito de sua complexidade narrativa - as personagens não tinham nome, e falar sobre uma epidemia de cegueira não é exatamente palatável ao grande público do cinema comercial. No entanto, Saramago apoiou a ideia - desde que o filme não definisse um país específico, da mesma forma que ele havia feito no romance. Com a chegada de Fernando Meirelles - em alta depois de "Cidade de Deus" e "O jardineiro fiel" - ao projeto, tudo parecia estar fadado ao sucesso. De certa forma a expectativa se cumpriu - a adaptação consegue ser o mais fiel possível ao livro - mas a plateia praticamente ignorou o lançamento, assim como a crítica. Um erro imperdoável.
Certamente a versão para o cinema de "Ensaio sobre a cegueira" não é um filme para todo tipo de público. É cru, é seco, é quase desagradável - apesar do cuidado com a produção tentar extrair o máximo de poesia de cenas tensas como um estupro coletivo ou o retorno da população à bárbarie nas ruas vazias de vida e compaixão. Não cai na tentação de explicações fáceis ou clichês visuais. E principalmente não poupa a audiência de fazer aquilo que 90% das produções comerciais poupa: fazer pensar muito tempo depois do final da sessão. Imbuídas de simbolismos e metáforas, as obras tanto de Saramago quanto de Meirelles conquistam justamente por essa coragem de fugir do banal e mostrar ao público uma face de sua personalidade que muitas vezes ele não quer ver.
A primeira sequência do filme - e do livro - já é impactante o suficiente. Um homem sadio, bem-sucedido e jovem, de repente para seu carro em uma movimentada rua de uma cidade grande nunca identificada. Sem nenhuma razão aparente, ele ficou cego, mas de uma cegueira branca, diferente da escuridão normalmente ligada à condição. Seu desespero acaba por estender-se a seu oftalmologista (Mark Ruffalo), que acorda no dia seguinte sofrendo do mesmo mal. Aos poucos, centenas de pessoas estão contaminadas e são recolhidas a um abrigo providenciado pelo governo. Não demora para que, sendo legítimos representantes da espécie humana (e personagens de Saramago, não exatamente um exemplo de otimismo em relação à espécie), os habitantes dos abrigos comecem uma guerra interna, o que deixa claro o caráter de cada um. Quem começa a bagunça é um homem que se autointitula Rei da Ala 2 (Gael García Bernal, construindo um vilão na medida exata), que, aproveitando-se da situação, envolve todos em uma escala de violência física e psicológica. Quem testemunha tudo e tenta manter-se calma é a esposa do oftalmologista (Julianne Moore), que não foi contaminada mas preferiu acompanhar o marido ao retiro forçado.
Demonstrando que seu talento está longe de ser fogo de palha, Fernando Meirelles constrói um exercício de tensão e angústia, valorizando o que o romance tem de melhor (sua investigação sobre a forma como as pessoas se comportam diante de situações extremas) sem apelar para o sentimentalismo ou o choque fácil. Sua câmera desfila pelo asilo sem interferir no desenrolar do drama e sem exagerar nas cenas mais difíceis (um estupro coletivo, por exemplo, deu muito o que falar, mas é filmado de maneira quase poética e editado com cuidado extremo). O que o roteiro deixa um pouco a desejar, no entanto, é no fato de quase ignorar a história de amor nascente entre a jovem prostituta vivida por Alice Braga e o idoso afro-americano interpretado por Danny Glover, que percebem o amor surgindo sem que seja preciso que se vejam. A trama é ligeiramente citada no terço final do filme, mas sem o impacto que poderia apresentar.
Definitivamente, "Ensaio sobre a cegueira" não é para qualquer um. Nem mesmo entre os fãs do livro existe a unanimidade. Mas é forte, inteligente e não subestima o bom gosto do espectador. Ainda não foi dessa vez que Meirelles decepcionou.
terça-feira
BABEL
BABEL (Babel, 2006, Paramount Vantage, 143min) Direção: Alejandro Gonzalez Iñarritu. Roteiro: Guillermo Arriaga. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Douglas Crise, Stephen Mirrione. Música Gustavo Santaolalla. Figurino: Michael Wilkinson. Direção de arte/cenários: Brigitte Broch/Yoshihito Akatsuka. Produção: Steve Golin, Alejandro Gonzalez Iñarritu, Jon Kilik. Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Gael Garcia Bernal, Adriana Bazarra, Rinko Kikuchi, Kôji Yakusho. Estreia: 27/10/06
7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alejandro Gonzalez Iñarritu), Atriz Coadjuvante (Adriana Barraza, Rinko Kikuchi), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Trilha Sonora Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Drama
A obra do cineasta mexicano Alejandro Gonzalez Iñarritu é permeada por personagens vítimas inclementes de tragédias pessoais que, de uma maneira ou outra, interferem em outras existências. Foi assim com seu sensacional "Amores brutos" - que, entre outras qualidades revelou o ator Gael Garcia Bernal - e com seu denso "21 gramas", que marcou sua estreia em Hollywood sem perder a força dramática. E é assim também com "Babel", que, apesar de ser o mais fraco da trilogia, conquistou a Academia e arrebatou 7 indicações ao Oscar, incluindo nas ambicionadas categorias de Melhor Filme e Direção. Refinando sua parceria com o roteirista Guillermo Arriaga - também contemplado com uma indicação à estatueta - Iñarritu construiu um ambicioso painel sobre as falhas na comunicação humana e como elas podem ser responsáveis pela dor e pela solidão.
Sem medo de repetir sua marca registrada - histórias paralelas que se cruzam de alguma forma - a dupla Iñarriu/Arriaga dessa vez vai mais longe do que em suas experiências anteriores. Enquanto "Amores brutos" se passava no México e "21 gramas" nos EUA, "Babel" estende seus tentáculos sobre três diferentes continentes e três idiomas distintos de maneira original e excitante - ainda que nem sempre o roteiro consiga atingir plenamente seus objetivos. É evidente, por outro lado, a paixão do cineasta por seu projeto, que lhe permitiu contar com atores do cinemão comercial americano - Brad Pitt e Cate Blanchett - com atores de seu país natal - Gael Garcia Bernal e Adriana Barraza - e com atores japoneses (Rinko Kikuchi e Kôji Yakusho). Brad Pitt, inclusive, abdicou de um papel importante em "Os infiltrados", de Martin Scorsese, para interpretar o papel de Richard Jones, um americano que viaja ao Marrocos acompanhado da esposa, Susan (Cate Blanchett) como forma de reanimar a relação. É um trágico acontecimento na vida do casal que irá detonar os acontecimentos de "Babel".
Durante uma viagem de ônibus, Susan acaba sendo acidentalmente alvejada por um tiro. Desesperado e sem saber comunicar-se direito com os habitantes do local, Richard tenta socorrer a esposa, mesmo encontrando resistência junto aos demais turistas. Sua busca alucinada por ajuda - eles estão em um lugar sem hospitais e sem médicos - acaba se refletindo em sua casa: sem possibilidades de voltar aos EUA, Richard pede à Amelia (Adriana Barraza), sua empregada doméstica, que tome conta de seus dois filhos pequenos. Acontece que Amelia está indo para o México para acompanhar o casamento do filho e resolve levar as crianças junto com ela e seu sobrinho, o pouco confiável Santiago (Gael Garcia Bernal). Apesar do choque de culturas, todos acabam se entendendo bem, até que, na volta para casa, Santiago arruma problemas com o guarda da fronteira - que não acredita nas boas intenções de Amelia em relação aos filhos de seu patrão - e leva todos a uma situação extrema de tensão e pânico. Enquanto isso, no Japão, a jovem surda-muda Chieko (Rinko Kikuchi) tenta escapar da carência e da solidão se oferecendo aos homens que passam à sua frente, talvez como forma de chamar a atenção do pai, empresário que ofereceu, em viagem ao Marrocos, o rifle que disparou o tiro que atinge Susan.
Fabulosamente editado, "Babel" encontra em seu elenco a perfeita tradução dos sentimentos espalhados pelo roteiro. Se Pitt, Blanchett e Gael são pouco exigidos com suas personagens são justamente as atrizes menos conhecidas que chamam a atenção - atenção essa devidamente reconhecida pela indicação dupla ao Oscar de coadjuvantes femininas. Adriana Barraza (que já havia trabalhado com o diretor em "Amores brutos") entrega uma Amelia devastadora em sua timidez e seu senso de inferioridade em relação aos americanos, na melhor das histórias narradas. E Rinko Kikuchi tem uma atuação corajosa como uma adolescente desesperada por carinho. São elas quem comandam a festa, provando que talento não tem idade, idioma ou fama e mostram que a Babel criada por Iñarritu é muito mais real do que se pode imaginar.
Mesmo tendo perdido o Oscar para "Os infiltrados" - saiu da cerimônia apenas com a estatueta de trilha sonora original - "Babel" é o encerramento apropriado para a trilogia criada por Iñarritu e Arriaga. Um filme doloroso, forte e tenso, capaz de permanecer na mente do espectador por um bom tempo após o término da sessão.
7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alejandro Gonzalez Iñarritu), Atriz Coadjuvante (Adriana Barraza, Rinko Kikuchi), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Trilha Sonora Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Drama
A obra do cineasta mexicano Alejandro Gonzalez Iñarritu é permeada por personagens vítimas inclementes de tragédias pessoais que, de uma maneira ou outra, interferem em outras existências. Foi assim com seu sensacional "Amores brutos" - que, entre outras qualidades revelou o ator Gael Garcia Bernal - e com seu denso "21 gramas", que marcou sua estreia em Hollywood sem perder a força dramática. E é assim também com "Babel", que, apesar de ser o mais fraco da trilogia, conquistou a Academia e arrebatou 7 indicações ao Oscar, incluindo nas ambicionadas categorias de Melhor Filme e Direção. Refinando sua parceria com o roteirista Guillermo Arriaga - também contemplado com uma indicação à estatueta - Iñarritu construiu um ambicioso painel sobre as falhas na comunicação humana e como elas podem ser responsáveis pela dor e pela solidão.
Sem medo de repetir sua marca registrada - histórias paralelas que se cruzam de alguma forma - a dupla Iñarriu/Arriaga dessa vez vai mais longe do que em suas experiências anteriores. Enquanto "Amores brutos" se passava no México e "21 gramas" nos EUA, "Babel" estende seus tentáculos sobre três diferentes continentes e três idiomas distintos de maneira original e excitante - ainda que nem sempre o roteiro consiga atingir plenamente seus objetivos. É evidente, por outro lado, a paixão do cineasta por seu projeto, que lhe permitiu contar com atores do cinemão comercial americano - Brad Pitt e Cate Blanchett - com atores de seu país natal - Gael Garcia Bernal e Adriana Barraza - e com atores japoneses (Rinko Kikuchi e Kôji Yakusho). Brad Pitt, inclusive, abdicou de um papel importante em "Os infiltrados", de Martin Scorsese, para interpretar o papel de Richard Jones, um americano que viaja ao Marrocos acompanhado da esposa, Susan (Cate Blanchett) como forma de reanimar a relação. É um trágico acontecimento na vida do casal que irá detonar os acontecimentos de "Babel".
Durante uma viagem de ônibus, Susan acaba sendo acidentalmente alvejada por um tiro. Desesperado e sem saber comunicar-se direito com os habitantes do local, Richard tenta socorrer a esposa, mesmo encontrando resistência junto aos demais turistas. Sua busca alucinada por ajuda - eles estão em um lugar sem hospitais e sem médicos - acaba se refletindo em sua casa: sem possibilidades de voltar aos EUA, Richard pede à Amelia (Adriana Barraza), sua empregada doméstica, que tome conta de seus dois filhos pequenos. Acontece que Amelia está indo para o México para acompanhar o casamento do filho e resolve levar as crianças junto com ela e seu sobrinho, o pouco confiável Santiago (Gael Garcia Bernal). Apesar do choque de culturas, todos acabam se entendendo bem, até que, na volta para casa, Santiago arruma problemas com o guarda da fronteira - que não acredita nas boas intenções de Amelia em relação aos filhos de seu patrão - e leva todos a uma situação extrema de tensão e pânico. Enquanto isso, no Japão, a jovem surda-muda Chieko (Rinko Kikuchi) tenta escapar da carência e da solidão se oferecendo aos homens que passam à sua frente, talvez como forma de chamar a atenção do pai, empresário que ofereceu, em viagem ao Marrocos, o rifle que disparou o tiro que atinge Susan.
Fabulosamente editado, "Babel" encontra em seu elenco a perfeita tradução dos sentimentos espalhados pelo roteiro. Se Pitt, Blanchett e Gael são pouco exigidos com suas personagens são justamente as atrizes menos conhecidas que chamam a atenção - atenção essa devidamente reconhecida pela indicação dupla ao Oscar de coadjuvantes femininas. Adriana Barraza (que já havia trabalhado com o diretor em "Amores brutos") entrega uma Amelia devastadora em sua timidez e seu senso de inferioridade em relação aos americanos, na melhor das histórias narradas. E Rinko Kikuchi tem uma atuação corajosa como uma adolescente desesperada por carinho. São elas quem comandam a festa, provando que talento não tem idade, idioma ou fama e mostram que a Babel criada por Iñarritu é muito mais real do que se pode imaginar.
Mesmo tendo perdido o Oscar para "Os infiltrados" - saiu da cerimônia apenas com a estatueta de trilha sonora original - "Babel" é o encerramento apropriado para a trilogia criada por Iñarritu e Arriaga. Um filme doloroso, forte e tenso, capaz de permanecer na mente do espectador por um bom tempo após o término da sessão.
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