segunda-feira

CONTATOS IMEDIATOS DE TERCEIRO GRAU


CONTATOS IMEDIATOS DE TERCEIRO GRAU (Close encounters of the third kind, 1977, Columbia Pictures, 135min) Direção e roteiro: Steven Spielberg. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Michael Kahn. Música: John Williams. Direção de arte/cenários: Joe Alves/Phil Abramson. Casting: Shari Rhodes, Juliet Taylor. Produção: Michael Phillips, Julia Phillips. Elenco: Richard Dreyfuss, Melinda Dillon, François Truffaut, Teri Garr, Bob Balaban, Lance Henriksen. Estreia: 15/11/77

8 indicações ao Oscar: Diretor (Steven Spielberg), Atriz Coadjuvante (Melinda Dillon), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Direção de arte, Som, Efeitos Visuais
Vencedor de 2 Oscar: Fotografia e Efeitos Sonoros (especial)


Seis meses depois que George Lucas revolucionou os filmes de ficção científica com seu "Star Wars" - que se tornaria um dos maiores sucessos da história do cinema - seu amigo Steven Spielberg mostrou ao mundo uma nova visão do gênero. Com um ponto de vista totalmente diferente do que as aventuras de Luke Skywalker contra a Estrela da Morte - que bem ou mal soa um tanto infantilóide -, "Contatos imediatos de terceiro grau" conta uma história bem menos fantasiosa, ainda que esteja longe de ser chamada de realista. Grande sucesso de bilheteria, foi o segundo êxito consecutivo do diretor, que começava a tornar-se o mais bem sucedido cineasta de sua geração.

"Contatos" se utiliza de pessoas normais, que vivem vidas comuns, para contar sua história. Uma delas é Roy Neary (Richard Dreyfuss), um técnico em eletricidade que vive com a mulher (Teri Garr) e os filhos em uma cidade tranquila dos EUA. Em uma noite em que a energia da cidade simplesmente acabou ele tem a visão de um disco-voador e, apesar da desconfiança da família, descobre que várias outras pessoas da região também testemunharam o evento. Entre as pessoas que acreditam em sua história está Jillian Guiler (Melinda Dillon), uma mãe solteira que logo em seguida tem seu filho sequestrado por uma nave espacial. Tornando-se obcecado pela visão, Roy logo vê seu casamento entrar em crise, mas, ao lado de Jillian, descobre que o governo sabe muito mais do que quer revelar. Juntos, eles decidem ir até Devil's Peak, lugar onde, de acordo com as pistas deixadas pelos aliens, haverá um contato entre a Terra e eles.


Em "Contatos imediatos de terceiro grau" Steven Spielberg dá seu primeiro passo na direção de mostrar alienígenas pacíficos e bonzinhos (como o faria com mais propriedade ainda em "ET", cinco anos depois). Ainda que não se saiba as verdadeiras intenções dos visitantes até seus minutos finais (empolgantes, diga-se de passagem), o diretor/roteirista consegue manter o clima de suspense em um nível tolerável, senão quase morno. Em nenhum momento do filme existe a intenção de provocar sustos (como em seu sucesso anterior "Tubarão") ou mostrar sequências de ação (como o faria em seu filme seguinte, "Caçadores da Arca Perdida"). Aqui, Spielberg equilibra drama familiar, pesquisa científica e um suspense agradável, que vai envolvendo o público aos poucos, até chegar em seu clímax emocionante.

E é realmente emocionante a maneira com que o roteiro (originalmente concebido por Paul Schrader) se desenrola frente ao espectador. Tudo começa misteriosamente, quando um avião desaparecido durante a II Guerra subitamente aparece, com todos os seus tripulantes fisicamente intactos. Depois, há o blecaute. Mais tarde, a visita das naves espaciais. O sequestro do filho de Jillian. A descoberta de um canto secreto praticado na Índia, aparentemente mandado do céu (e que o menino abduzido tocava em seu instrumento de brincadeira). A obsessão de Roy com uma forma específica que se lhe revela a forma da montanha onde os extra-terrestres aparecerão para comunicar-se. Tudo é colocado bem devagar, na hora certa, sem pressa (daí a duração um tanto exagerada do filme). Em alguns momentos tem-se a impressão de que a história não está andando. E ai se chega à sequência final.

Logicamente tudo que aconteceu antes das cenas finais de "Contatos imediatos" foi apenas uma preparação para elas. A impressionante música composta por John Williams para o filme torna-se personagem indispensável no diálogo travado entre os humanos e seus misteriosos visitantes (diálogo liderado pela personagem do cineasta francês François Trufaut): é impossível ouvir os acordes da trilha de Williams sem lembrar imediatamente do filme de Spielberg (assim como acontece com todas as partituras do compositor para a obra do cineasta). Nos minutos finais de "Contatos" tudo parece maior, mais caprichado, mais detalhado. A bela fotografia de Vilmos Zsigmond é adequada ao clima de tensão e surpresa criado pela trama e nem mesmo o encerramento da história (que Spielberg já declarou que seria diferente se ele fizesse o filme nos dias de hoje) soa forçado. Tecnicamente perfeito, "Contatos" usa de seus efeitos visuais com parcimônia, concentrando seu esforço maior em construir uma boa e verossímil narrativa do que em surpreender com tecnologia de ponta.

Longe de ser o melhor filme de Steven Spielberg, "Contatos imediatos de terceiro grau" é uma divertida e admiravelmente bem contada sessão da tarde, capaz de seduzir os fãs do gênero e encantar aqueles que preferem histórias mais humanas. É um filme otimista, do tempo em que o cineasta ainda era o Peter Pan que a mídia descreveu. E como tal, não ofende nem machuca ninguém. Uma diversão de primeira categoria!

domingo

MOMENTO DE DECISÃO


MOMENTO DE DECISÃO (The turning point, 1977, 20th Century Fox, 119min) Direção: Herbert Ross. Roteiro: Arthur Laurents. Fotografia: Robert Surtees. Montagem: William Reynolds. Figurino: Tony Faso, Albert Wolski. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Marvin March. Casting: David Graham, Juliet Taylor. Produção executiva: Nora Kaye. Produção: Arthur Laurents, Herbert Ross. Elenco: Shirley MacLaine, Anne Bancroft, Tom Skerrit, Leslie Browne, Mikhail Baryshnikov, Martha Scott, Alexandra Danilova. Estreia: 14/11/77

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Herbert Ross), Atriz (Anne Bancroft, Shirley MacLaine), Ator Coadjuvante (Mikhail Baryshnikov), Atriz Coadjuvante (Leslie Browne), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Direção de arte, Som
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Herbert Ross)


No início de 1978, o cineasta americano Herbert Ross se viu em uma situação um tanto rara em seu meio, ainda que de certa forma bastante agradável. Seus dois trabalhos lançados no ano anterior concorriam ao Oscar de Melhor Filme, tornando-o rival dele mesmo. A comédia romântica "A garota do adeus" deu o prêmio de melhor ator a Richard Dreyfuss, enquanto sua maior aposta, o drama familiar "Momento de decisão" saiu da cerimônia de mãos abanando, apesar de suas generosas 11 indicações à estatueta. No entanto, sua fragorosa derrota - que faz dele, até hoje, empatado com "A cor púrpura", de Steven Spielberg, o maior perdedor da história do Oscar - no entanto, não espelha suas inúmeras qualidades. Tivesse tido mais sorte na noite que consagrou Woody Allen e seu "Noivo neurótico, noiva nervosa", o filme de Ross certamente estaria eternizado como um dos mais consistentes dramas sobre os bastidores do balé, mesmo que o utilize apenas como pano de fundo de uma história humana e envolvente.

Escrito por Arthur Laurents (o mesmo roteirista de "Nosso amor de ontem"), "Momento de decisão" conta a história de duas mulheres de mundos aparentemente diferentes mas que possuem dentro delas muito mais em comum do que aparentam. Shirley MacLaine (deixando de lado o frescor juvenil de filmes como "Se meu apartamento falasse") vive Deedee Rodgers, uma dona-de-casa que abandonou uma promissora carreira como bailarina profissional para dedicar-se à família. Ao lado do marido (Tom Skerrit), cuida de uma escola de dança, enquanto vê o tempo passar e os filhos - dois dos quais também nutrem a mesma paixão pelo balé - crescerem. Sua amiga de juventude, Emma Jacklin (Anne Bancroft, elegantíssima e a excelente atriz de sempre) é exatamente seu contrário. Ao abdicar da vida pessoal para cuidar da carreira, tornou-se uma admirada, famosa e invejada bailarina, protagonista dos maiores clássicos coreografados para os palcos. Quando as duas se reencontram, o conflito se instala logo que as doces lembranças começam a realmente soar como lembranças; Emilia (Leslie Browne) é aceita na companhia de Emma e resolve morar em Nova York. Temerosa com essa mudança tão radical na vida da filha, Deedee decide acompanhá-la, mas a proximidade com seu passado e com Emma a faz questionar suas escolhas, o que leva as duas a uma dura batalha emocional pelo amor e pela atenção da adolescente.


É notável a maneira com que Laurents consegue equilibrar os dois polos de seu roteiro sem torná-lo maniqueísta ou apelar para o dramalhão choroso. Suas duas protagonistas soam verdadeiras e honestas, sem o ranço dos melodramas familiares que poluem as telas de cinema em busca de premiações. Deedee é uma mulher realizada com sua vida familiar, mas que não consegue deixar de lado as dúvidas sobre a opção que fez para seu futuro, principalmente quando surge diante de seus olhos um dèja-vu de sua história, protagonizado por sua filha. Emma, por sua vez, atingiu o ápice de sua carreira, o máximo de sucesso que poderia almejar, mas esbarra no beco sem saída de um amanhã incerto quanto à dança e solitário quanto a relações familiares. Entre as duas, no epicentro do furacão, Emilia tenta seguir seu próprio caminho, que se complica quando ela se apaixona por Yuri (Mikhail Baryshnikov), um bailarino russo com quem divide os palcos e suas primeiras noites.

"Momento de decisão" tinha tudo para ser um daqueles filmes lacrimosos que testam a paciência do espectador. Mas Herbert Ross não foi indicado ao Oscar à toa. Contando com o estofo de suas grandes atrizes centrais (Audrey Hepburn chegou a cobiçar o papel que ficou com Anne Bancroft), ele criou uma história sobre sonhos destruídos, segundas chances e a força inquebrável da amizade sem abusar dos clichês que tinha à disposição. O clímax poderoso - que acontece logo depois dos belíssimos números musicais que contam inclusive com a participação da brasileira Marcia Haydée - apenas comprova a força de sua trama e de seu elenco. Elegante, sofisticado mas nunca chato ou aborrecido, é um filme que merece uma revisão, nem que seja para que seja feita justiça a sua dupla principal.

sábado

NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA


NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA (Annie Hall, 1977, United Artists, 93min) Direção: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen, Marshall Brickman. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Wendy Greene Bricmont, Ralph Rosenblum. Figurino: Ruth Morley. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Robert Drumheller, Justin Scoppa Jr. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Robert Greenhut. Produção: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Tony Roberts, Carol Kane, Shelley Duvall, Colleen Drewhurst, Christopher Walken. Estreia: 20/4/77

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Woody Allen), Ator (Woody Allen), Atriz (Diane Keaton), Roteiro Original
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Woody Allen), Atriz (Diane Keaton), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Comédia ou Musical (Diane Keaton)


Quando lançou "Noivo neurótico, noiva nervosa", em 1977, Woody Allen já não era nenhum iniciante. Já havia lançado sete filmes, todos comédias bastante elogiadas pela crítica, mas relegadas à espécie de limbo que é reservado ao gênero. Foi preciso que o mais neurótico dos cineastas nova-iorquinos incluísse toques de romantismo em sua obra para finalmente levar pra casa o Oscar de melhor filme, direção e roteiro. Mesmo que tenha fugido do padrão de sua obra até então, normalmente direcionada a um público específico, "Noivo neurótico" talvez seja o filme que melhor define sua carreira a partir daí. Já estão presentes em sua deliciosa comédia romântica (sim, ele também tem uma alma romântica) todos os elementos que que o cineasta iria amadurecer em seus inúmeros trabalhos posteriores, em maior ou menor grau: o humor geralmente judeu, neurótico, erudito e sofisticado que angariou tanto fãs fiéis quando detratores ferozes.

Basicamente “Noivo neurótico, noiva nervosa” é uma história de amor, sem tirar nem pôr. O protagonista Alvyn Singer (o próprio Allen praticamente inaugurando sua persona mundialmente conhecida) é um humorista infeliz com sua carreira na TV que se apaixona pela levemente neurótica Annie Hall (Diane Keaton, que viveu um romance com o diretor, inspirou a personagem e levou o Oscar de melhor atriz), que tenta tornar-se cantora. O romance dos dois evolui à medida em que eles passam a se conhecer melhor, mas as diferenças entre os dois começam a tornar-se empecilhos no caminho de sua felicidade. Nesse meio tempo, ela conhece um empresário musical (vivido pelo cantor Paul Simon) e ele tenta reconhecer em seus relacionamentos passados os sinais que o levaram à crise.


O que diferencia “Annie Hall” (o título original soa infinitamente melhor do que o nome equivocado da versão nacional, uma vez que os protagonistas nunca foram noivos) das outras comédias românticas é o fato de que, além de Allen estar anos-luz da imagem do galã dos tradicionais exemplares do gênero, suas personagens enfrentam problemas mais próximos da realidade do que seus congêneres. Nada de tramas rocambolescas ou vilões estereotipados (apesar do primeiro esboço do roteiro falar sobre um crime em primeiro lugar e deixar o romance em segundo plano). O que leva o romance de Alvyn e Annie à exaustão é a própria vida, com seus caminhos às vezes tão complicados. E a dor do fim de um relacionamento também pode servir como motivo de criação, a exemplo do protagonista, que escreve uma peça de teatro tentando resolver sua conflituosa e ao mesmo tempo carinhosa relação com sua amada - o que de certa forma também foi feito por Woody, uma vez que Annie, sua protagonista feminina é claramente inspirada em Diane Keaton (cujo nome verdadeiro é Diane Hall e tem o apelido de Annie). Keaton, inclusive, utiliza de suas próprias roupas em cena (e seu figurino foi bastante imitado na época, diga-se de passagem).

A criatividade do roteiro de Allen fica evidente em momentos de grandes ideias, como o desenho animado que defende as madrastas das histórias infantis, as legendas explicando os pensamentos das personagens enquanto travam sua primeira conversa e a cena em que Annie está literalmente com o pensamento longe de sua transa com o namorado. Isso sem falar em alguns das tiradas mais inspiradas e engraçadas da carreira do diretor ("Em Los Angeles eles não jogam o lixo fora, eles reciclam em forma de programas de televisão", vocifera Alvyn quando obrigado a visitar a Califórnia).

Anos depois de seu lançamento, “Noivo neurótico, noiva nervosa” pode ter perdido parte de seu frescor e de seu senso de novidade, mas os diálogos espertos escritos por Woody Allen e a bela homenagem feita à Diane, em um papel sob medida continuam tão atuais quanto em sua estreia.

sexta-feira

ROCKY, UM LUTADOR


ROCKY, UM LUTADOR (Rocky, 1976, United Artists, 119min) Direção: John G. Avildsen. Roteiro: Sylvester Stallone. Fotografia: James Crabe. Montagem: Scott Conrad, Richard Halsey. Música: Bill Conti. Direção de arte/cenários: Bill Cassidy/Raymond Molyneaux. Casting: Caro Jones. Produção executiva: Gene Kirkwood. Produção: Robert Chartoff, Irvin Winkler. Elenco: Sylvester Stallone, Talia Shire, Burt Youg, Burgess Meredith, Carl Wheaters. Estreia: 21/11/76

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (John G. Avildsen), Ator (Sylvester Stallone), Atriz (Talia Shire), Ator Coadjuvante (Burgess Meredith, Burt Young), Roteiro Original, Montagem, Canção ("Gonna fly now"), Som
Vencedor de 3 Oscar: Melhor Filme, Diretor (John G. Avildsen), Montagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme/Drama


A festa de entrega do Oscar para os melhores de 1976 tinha no páreo a obra-prima "Taxi driver", de Martin Scorsese e o festejado e politicamente importante "Todos os homens do presidente", de Alan J. Pakula, além do merecidamente incensado "Rede de intrigas", de Sidney Lumet (que tem previsão de lançamento em DVD no Brasil para 23/6/10). Com esse trio forte de candidatos, não deixou de ser uma enorme surpresa que a estatueta de melhor filme tenha ficado justamente com "Rocky, um lutador", uma produção pequena e simples que louvava, acima de tudo, a auto-superação de um homem comum, gente como a gente. Escrito e estrelado por um jovem Sylvester Stallone (30 anos em 1976), o filme tornou-se um sucesso instântaneo, rendendo milhares de dólares e gerando várias continuações com o passar dos anos (a última, intitulada "Rocky Balboa", foi lançada em 2006, três décadas depois da estreia do primeiro filme).

O primeiro - e melhor filme da série - se passa na Filadélfia, onde vive o protagonista, Rocky Balboa (vivido por um inspirado Stallone, que recebeu uma inédita indicação ao Oscar de melhor ator). Outrora um promissor boxeador, Rocky trabalha como uma espécie de capanga de um agiota, utilizando seus músculos como objeto de pressão contra os inadimplentes. Logo que começa a namorar a tímida Adrian (Talia Shire), a irmã de seu melhor amigo, Paulie (Burt Young), Rocky vislumbra a maior chance de sua vida profissional: lutar contra o campeão de boxe Apollo Creed (Carl Wheaters), que quer dar a um desconhecido a oportunidade de desafiá-lo no ringue. Contando com a ajuda de seu ex-técnico Mickey (Burgess Meredith), ele inicia um treinamento intensivo, pois sabe que, mesmo que saia da luta derrotado - como é o mais provável que aconteça - ele precisa provar que não é o fracassado que todo mundo pensa que ele é.


Filmado em apenas 28 dias, com um orçamento de pouco mais de 1 milhão de dólares, "Rocky" é, na verdade, um estudo sobre um assunto sobre o medo do fracasso, que há muito fascina o público médio americano. Mas não é um estudo sério, pedante ou enfadonho. Da forma como foi escrito por Stallone - em apenas 3 dias, conforme a lenda - é uma história de amor simples e humana, capaz de atingir várias parcelas de público. Seu romance hesitante com Adrian emociona o público feminino por sua delicadeza e sensibilidade e é pouco provável que a audiência masculina não se empolgue com o teor esportivo do filme - o treinamento de Rocky, inclusive gerou cenas antológicas, casadas com a canção "Gonna fly now", que tornou-se símbolo de toda a série.

A série, aliás, nunca fez justiça à qualidade de seu primeiro capítulo, tornando-se, com o tempo, uma máquina caça-níqueis sem a mesma essência que fez da primeira parte da saga de Rocky tão especial e querida pelo público. O que provavelmente os produtores não entenderam é que o sucesso comercial e de crítica do filme surgiu principalmente pelo fato do filme ser tão azarão quanto seu protagonista. Quando escreveu a primeira versão do roteiro, Stallone estava em uma situação tão crítica quanto a de Rocky, com meros 106 dólares na conta bancária e em vias de se desfazer do próprio cachorro, a quem não conseguia alimentar decentemente. A batalha de Rocky em provar seu valor - e a urgência com que precisava fazer isso - era, de uma certa forma um reflexo bastante claro da batalha do ator em ser levado a sério em sua profissão. Essa identificação era tão forte que, mesmo praticamente falido, Stallone exigiu fazer o papel principal, mesmo quando os produtores insistiam em um nome mais bancável - que giravam em torno dos mesmos atores de sempre nessas circunstâncias; Robert Redford, Ryan ONeal, Burt Reynolds ou James Caan. Sua insistência fez o orçamento do filme diminuir, mas deu a ele a veracidade e o sentimento palpável indispensáveis a seu sucesso - ainda que o final seja consideravelmente diferente da primeira versão do script.

"Rocky, um lutador" não é uma obra-prima, aliás não passa nem perto de o ser. Seu roteiro é repleto de clichês - que não incomodam justamente por combinarem perfeitamente com o estilo simples dos protagonistas - e as interpretações não são exatamente geniais, apesar de 4 de seus atores terem levado indicações ao Oscar. Mas é extremamente bem realizado - as cenas de luta são tecnicamente corretas - e é dono de uma energia tão positiva e inspiradora que se torna quase impossível não gostar de seu resultado final. É um filme que fala ao coração mais do que ao cérebro e é justamente aí que se encontra seu ingrediente secreto.

quinta-feira

TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE


TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE (All the president's men, 1976, Warner Bros, 138min) Direção: Alan J. Pakula. Roteiro: William Goldman, baseado no livro de Bob Woodward e Carl Bernstein. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Robert L. Wolfe. Música: David Shire. Direção de arte/cenários: George Jenkins/George Gaines. Casting: Alan Shayne. Produção: Walter Coblenz. Elenco: Dustin Hoffman, Robert Redford, Jack Warden, Martin Balsam, Jason Robards, Hal Holbrook, Ned Beatty, Jane Alexander, Stephen Collins, Meredith Baxter. Estreia: 09/4/76

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alan J. Pakula), Ator Coadjuvante (Jason Robards), Atriz Coadjuvante (Jane Alexander), Roteiro Adaptado, Montagem, Direção de arte, Som
Vencedor de 4 Oscar: Ator Coadjuvante (Jason Robards), Roteiro Adaptado, Direção de Arte, Som


Enquanto no Brasil normalmente escândalos no governo acabam em pizza - e em reeleições alguns poucos anos depois - nos EUA as coisas não são assim tão fáceis para quem está no poder, vide a crise instaurada por um simples caso extra-conjugal de Bill Clinton quando ele estava na Casa Branca. Tida como o quarto poder, a imprensa é responsável por balançar as estruturas do poder, e o maior exemplo disso provavelmente é o caso Watergate, que, revelado por dois jornalistas do Washington Post, resultou na renúncia do presidente Richard Nixon em 9 de agosto de 1974. Contada com detalhes no extenso livro "Todos os homens do presidente", escrito pelos repórteres Carl Bernstein e Bob Woodward, uma das investigações mais famosas da história do jornalismo moderno foi parar nas telas de cinema já em 1976, quando o caso ainda estava fresquinho na memória do público. Resultado? Um sucesso enorme de bilheteria e crítica, além de 8 indicações ao Oscar (sendo que 4 converteram-se em estatuetas). Nada mal para um filme que, apesar da presença fulgurante do então astro do momento Robert Redford, foge do padrão filme-pipoca que começava a mandar nas salas de exibição desde que o tubarão de Steven Spielberg surgiu, no verão de 1975.

Dirigido por Alan J. Pakula - que ficou com a direção depois que o inglês John Schlesinger declinou do convite por acreditar que tratava-se de uma história que deveria ser contada por um americano - o filme, roteirizado por William Goldman (que ganhou o Oscar por isso) começa em 17 de junho de 1972, quando um arrombamento na Sede do Partido Democrata americano, localizado no edifício Watergate chama a atenção do jornalista Bob Woodward (Robert Redford), que, recém-contratado pelo Washington Post, tenta mostrar serviço, mesmo que não entenda nada de política. Contando com a ajuda do colega Carl Bernstein (Dustin Hoffman), mais experiente na área e nos meandros do serviço, ele passa a correr atrás de pistas deixadas por atitudes estranhas dos criminosos, que parecem estar ligados à Casa Branca. Quando um misterioso informante, apelidado de Garganta Profunda (Hal Holbrook) confirma suas suspeitas, os dois rapazes tem que não apenas provar sua teoria - que culpa pessoas do mais alto escalão do governo americano - mas convencer seus superiores no jornal (Jack Warden, Martin Balsam e o premiado com o Oscar de coadjuvante Jason Robards) a publicar o que poderá ser a reportagem mais incendiária da história política do país.


O mais fascinante em "Todos os homens do presidente" é a forma com que o roteiro de Goldman e a direção de Pakula se desenrola frente aos olhos privilegiados da plateia. O público acompanha cada passo dos protagonistas do filme, suas altas expectativas, suas frustrações e seus insights de maneira a torcer por eles como se fossem heróis de um filme de ação, ainda que não façam muito mais do que ficar ao telefone ou interrogando dezenas de pessoas possivelmente ligadas à investigação. Não é à toa que ainda hoje o filme seja recomendado em todas as faculdades de Jornalismo, uma vez que detalha admiravelmente a jornada de dois profissionais idealistas em busca da verdade, mesmo que ela possa lhes ser prejudicial. Para isso colabora também a escolha de seus dois atores centrais: Robert Redford assumiu o papel de Woodward para garantir o financiamento do filme - além do fato de ter sido ele o responsável pela compra dos direitos do livro - e Dustin Hoffman entregou ao filme a credibilidade artística necessária à atenção da crítica.

Ainda que seja um filme bastante complexo para não-americanos - a enormidade de nomes, cargos e responsabilidades citadas no roteiro chega a confundir em certas passagens - "Todos os homens do presidente" tem momentos de puro cinema político, no melhor estilo do cineasta grego Costa-Gavras. A música de David Shire aparece nas horas certas, sem atrapalhar o andamento da narrativa, apenas sublinhando a tensão de algumas cenas e a edição confere um tom semi-documental ao resultado final - e ainda que o filme seja um tanto longo demais, é inegável que o roteiro conseguiu enxugar todas as informações necessárias ao máximo possível para que a trama seja compreendida pela audiência sem que prejuízo de suas ambições comerciais.

"Todos os homens do presidente" é um filme bastante interessante e importante, principalmente para quem gosta de histórias reais contadas com cuidado e atenção. Nâo é adrenalina pura, mas ainda se mantém como um dos mais influentes do seu gênero.

quarta-feira

TAXI DRIVER


TAXI DRIVER (Taxi driver, 1976, Columbia Pictures, 113min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Paul Schrader. Fotografia: Michael Chapman. Montagem: Tom Rolf, Melvin Shapiro. Música: Bernard Herrmann. Figurino: Ruth Morley. Direção de arte/cenários: Charles Rosen/Herbert Mulligan. Casting: Juliet Taylor. Produção: Julia Phillips, Michael Phillips. Elenco: Robert DeNiro, Sybil Sheperd, Jodie Foster, Harvey Keitel, Albert Brooks, Peter Boyle, Martin Scorsese. Estreia: 08/02/76

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Robert DeNiro), Atriz Coadjuvante (Jodie Foster), Trilha Sonora Original
Palma de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Cannes


Nada como a garra e a ousadia da juventude. Em 1976, aos 34 anos, Martin Scorsese - recém saído do sucesso de crítica de "Alice não mora mais aqui", que deu o Oscar de melhor atriz a Ellen Burstyn - concebeu um dos filmes mais perturbadores e fascinantes de uma carreira que ainda viria a legar ao mundo obras-primas como "Touro indomável" e "Os bons companheiros". Unido ao roteirista Paul Schrader e ao ator Robert DeNiro, o cineasta nova-iorquino criou uma sufocante fábula sobre solidão, obsessão e violência passada nas ruas escuras e úmidas de Times Square: "Taxi driver", vencedor da Palma de Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes de 1976.

De Niro, em uma atuação irretocável, vive Travis Bickle, um ex-combatente do Vietnã que começa a trabalhar como motorista de táxi no horário noturno como forma de lidar com a insônia. Convivendo com passageiros excêntricos e/ou patéticos, ele se torna obcecado pela bela Betsy (Sybil Sheperd), que trabalha no comitê eleitoral de um candidato à Presidência. Enquanto tenta conquistá-la a seu modo um tanto grosseiro e equivocado (em seu primeiro encontro, por exemplo, ele a leva a um cinema pornô), ele também conhece e fica interessado na história de Iris (Jodie Foster, aos 12 anos de idade), uma prostituta adolescente que ele acredita ser explorada por seu cafetão Matthew "Sport" (Harvey Keitel). Fascinado pelas duas, Travis decide impressioná-las usando de violência como cartão de visitas, o que o leva a uma carnificina.

Escrito por Schrader em apenas 5 dias - sempre com a arma carregada do roteirista em seu campo de visão como objeto de inspiração e motivação, segundo reza a lenda - "Taxi driver" encantou vários estúdios que se interessaram em produzí-lo, mesmo que alguns deles tivessem algumas ideias estapafúrdias para seu elenco: até mesmo o cantor Neil Diamond foi sugerido para o papel principal, escrito por Schrader com o ator Jeff Bridges em mente. Quando Scorsese assumiu a função de diretor no lugar de Brian de Palma, chamou seu amigo e colaborador Robert DeNiro para viver o protagonista e o resto é história.


Para as personagens femininas é que as coisas não foram assim tão fáceis. A bela e etérea Betsy, por exemplo, teve possibilidade de ser interpretada por dezenas de atrizes hoje bastante conhecidas: Farrah Fawcett, Jane Seymour, Glenn Close, Susan Sarandon, Meryl Streep, Sigourney Weaver, Liza Minelli, Barbara Hershey, Mary Steenburgen, Mia Farrow e Goldie Hawn. Cybil Sheperd ficou com o papel que foi escrito inspirado em sua imagem somente depois que sua agente ficou sabendo desse pequeno detalhe, mas sua dificuldade em decorar as falas foi motivo de muitos conflitos durante as filmagens, principalmente em relação aos produtores, o casal Julia e Michael Phillips. Mas se Sheperd, apesar de lindíssima não atrapalha nem impressiona, o mesmo não pode ser dito a respeito de Jodie Foster que, aos 12 anos, mostra que seu talento já vem de longe.

Para viver a prostituta-mirim Iris - que lhe deu uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante - Foster teve que bater 250 candidatas ao papel. Entre essas candidatas estavam, Melanie Griffith, Kim Basinger, Geena Davis, Michelle Pfeiffer, Brooke Shields, Debra Winger, Linda Blair, Carrie Fisher, Mariel Hemingway e, acreditem ou não, Kim Cattrall, a famosa Samantha Jones da série "Sex and the city". Seu trabalho, no entanto, é impecável. Mesmo com sua pouca idade, ela demonstra um talento incomum, que, anos depois a consagraria como uma das melhores atrizes de sua geração.

Na verdade, é difícil dizer o que funciona mais nesse impressionante trabalho de um cineasta-autor. O trabalho de atores, liderados por um Robert De Niro assustador e completo com uma juvenil Jodie Foster e um supreendente Harvey Keitel (que transformou uma personagem negra em uma branca) é cuidadoso, detalhista e seguro. A música hipnotizante de Bernard Herrman (em seu último trabalho, uma vez que morreu uma semana depois de concluí-lo) impõe-se como um pesadelo, especialmente em contato com a fotografia quase polidimensional de Michael Chapman, que deixa de lado o visual de cartão-postal de Nova York para mostrar uma cidade tensa, angustiada e nervosa como deseja o roteiro sufocante de Paul Schrader, transformado em imagens por um Scorsese em um de seus melhores trabalhos como diretor, cheio da energia e da garra dos cineastas iniciantes e engajados.

Sem fazer concessões ao agradável e a finais felizes incoerentes e desnecessários, “Taxi driver” é um dos filmes obrigatórios dos anos 70.

terça-feira

UM ESTRANHO NO NINHO


UM ESTRANHO NO NINHO (One flew over the cuckoo's nest, 1975, United Artists, 133min) Direção: Milos Forman. Roteiro: Lawrence Hauben, Bo Goldman, baseado no romance de Ken Kesey e na adaptação da peça por Dale Wasserman. Fotografia: Haskell Wexler. Montagem: Sheldon Kahn, Lynzee Klingman. Música: Jack Nitzsche. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton. Produção: Michael Douglas, Saul Zaentz. Elenco: Jack Nicholson, Louise Fletcher, Brad Dourif, Christopher Lloyd, Danny de Vito, Will Sampson. Estreia: 19/11/75

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Milos Forman), Ator (Jack Nicholson), Atriz (Louise Fletcher), Ator Coadjuvante (Brad Dourif), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Milos Forman), Ator (Jack Nicholson), Atriz (Louise Fletcher), Roteiro Adaptado
Vencedor de 6 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Milos Forman), Ator/Drama (Jack Nicholson), Atriz/Drama (Louise Fletcher), Roteiro, Melhor Estreia/Masculino (Brad Dourif)


Em um dos períodos mais prolíficos de Hollywood em apresentar anti-heróis como protagonistas de seus filmes, surgiu, em 1975, mais um louvável exemplo disposto a fazer parte de seu histórico. Protagonista de um dos mais festejados dramas da época, Randle P. McMurphy foi um dos responsáveis, assim como “O iluminado”, feito cinco anos depois, de forjar a persona outsider de Jack Nicholson, com a qual ele já flertava no mínimo desde “Easy Rider”, de 1969. Dirigido pelo tcheco Milos Forman, "Um estranho no ninho", a adaptação do romance de Ken Kesey conseguiu a proeza de ser um dos pouquíssimos filmes (três, até agora) a arrebatar os cinco principais Oscar - filme, diretor, ator, atriz e roteiro. Assim como das outras duas vezes - uma antes e uma depois - todos os prêmios foram amplamente merecidos.

Em "Um estranho no ninho", Nicholson tem uma das mais eficazes interpretações de sua carreira na pele de McMurphy, um malandro que, em 1963, condenado por estupro, consegue enrolar as autoridades e, fazendo-se passar por doente mental, vai parar em um hospital controlado com mão-de-ferro pela rígida enfermeira-chefe Ratched (Louise Fletcher). Sentindo-se aprisionado, ele passa a influenciar os demais pacientes do hospital, principalmente um jovem tímido e suicida Billy (Brad Dourif) e um índio calado e misterioso (Will Sampson). Suas atitudes, rebeldes e inconseqüentes, acabam por colocá-lo em rota de colisão com Ratched, o que os leva a uma guerra sem tréguas e com mais vítimas do que se poderia pressupor.


O romance de Ken Kesey já havia dado origem a uma peça de teatro estrelada por Kirk Douglas, que comprou os direitos de adaptação para o cinema. Achando-se velho demais para o papel principal, ele passou os direitos para seu filho Michael, que acabou ganhando um Oscar como produtor. O autor do livro detestou o resultado final da versão cinematográfica de sua obra - que, entre outras mudanças, era narrada através do ponto de vista do índio vivido por Will Sampson - e recusou-se a assistí-la até o fim. Sua recusa, apesar de compreensível tendo em vista seus sentimentos em relação à sua obra, apenas privou-o de assistir a um filme que não trai a essência de sua origem, expandindo-a de maneira delicada e nunca menos do que brilhante.

Dirigido com firmeza e uma certa ironia pelo sempre competente Milos Forman, “Um estranho no ninho” de certa forma, encaixa-se com perfeição, ao contrário de seu título, no período em que foi realizado. Herdeira da contra-cultura que dominava os EUA nos anos 70, a história retratada no filme contrapõe heróis (McMurphy, mesmo que não seja exatamente um exemplo de conduta e caráter) e vilões (Ratched, que, apesar de ter a seu lado a retitude moral, representa o poder estabelecido, por si só um vilão em uma época marcada, entre outras coisas, pela guerra do Vietnã) e embaralha suas personalidades, jogado longe o maniqueísmo que poderia facilmente surgir. A inteligência do roteiro e da direção em passar ao largo de situações fáceis encontra eco na atuação do elenco, impecável de um extremo a outro.
Se Jack Nicholson pontua o filme com brilhantismo, justificando seu primeiro Oscar de melhor ator, seus coadjuvantes também são exemplares. Brad Dourif e um jovem Christopher Lloyd fazem sua estreia com louvor – o primeiro chegou a ser indicado ao Oscar -, ao lado de atores mais experientes (e isso inclui um Danny de Vito ainda em início de carreira).

Mas quem consegue duelar com Nicholson sem que seja preciso utilizar-se de muitas palavras para isso é Louise Fletcher. Sua enfermeira Ratched, impassível, insensível e incapaz de sentimentos como compaixão é o contraponto ideal para a energia quase destruidora de McMurphy. Fletcher ficou com um dos papéis mais disputados da temporada e demonstra a cada cena que mereceu ser escolhida; seu olhar gélido e sua expressão inatingível são assustadores, motivos que a levaram a ganhar o Oscar de melhor atriz, mesmo que sua personagem apareça relativamente pouco, em comparação com a quase totalidade de cenas com Nicholson, o verdadeiro protagonista. Responsabilizar a fragilidade das interpretações femininas do ano de 1975 como a razão por sua vitória - como foi feito na época - é tirar dela os méritos inegáveis de uma atuação inesquecível e forte a ponto de não se intimidar frente a uma das mais marcantes performances do grande Jack.

domingo

UM DIA DE CÃO


UM DIA DE CÃO (Dog day afternoon, 1975, Warner Bros, 125min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Frank Pierson, inspirado em artigo de P.F.Kluge, Thomas Moore. Fotografia: Victor J. Kempster. Montagem: Dede Allen. Figurino: Anna Hill Johnstone. Direção de arte/cenário: Charles Bailey/Robert Drumheller. Casting: Michael Chinich, Don Phillips. Produção: Martin Bregman, Martin Elfand. Elenco: Al Pacino, John Cazale, Charles Durning, Chris Sarandon, Sully Boyar, Penelope Allen,Carol Kane, Lance Henriksen. Estreia: 21/9/75

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sidney Lumet), Ator (Al Pacino), Ator Coadjuvante (Chris Sarandon), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Original


Ainda bem que não só de heróis bonzinhos e lindos vive o cinema americano e que, de vez em quando um diretor tem a coragem de fuçar nas feridas do mundo ocidental e expor suas mazelas e contradições. John Schlesinger fez isso em “Perdidos na noite” e, apesar das polêmicas, chegou a ganhar o Oscar de melhor filme. Em "Um dia de cão" quem resolveu dar a cara a tapa foi Sidney Lumet, diretor do ótimo “Doze homens e uma sentença”. E pra melhorar ainda mais a notícia, Lumet foi buscar inspiração em uma história real. Apesar de parecer inacreditável, a trama de “Um dia de cão” aconteceu de verdade. E isso faz da experiência de assisti-lo um prazer ainda maior.

A ação se passa em um único dia de verão de 1972, em um banco do Brooklyn. Com a intenção de assaltá-lo, os amigos Sonny (Al Pacino em uma interpretação consagradora) e Sal (John Cazale, excepcional) invadem o local e ao perceberem que escolheram o banco errado, uma vez que quase não há dinheiro para ser levado, descobrem que estão cercados pela polícia, representada pelo Capitão Moretti (Charles Durning). O que era para ser apenas mais um corriqueiro assalto a banco transforma-se aos poucos em um circo, transmitido inclusive pela televisão. Tudo se complica ainda mais quando se descobre que a principal razão de Sonny em roubar o dinheiro é financiar a operação de mudança de sexo de seu amante, o transexual Leon (Chris Sarandon, ex-marido de Susan e indicado ao Oscar de ator coadjuvante), o que ao mesmo tempo lhe transforma em alvo de chacota e ídolo do movimento gay. Aos poucos, Sonny passa de bandido a herói, sendo apoiado pelo público e até pelos funcionários mantidos como reféns.


Criando uma atmosfera claustrofóbica e ao mesmo tempo sem em nenhum momento perder as rédeas da narrativa, em parte devido ao surpreendente bom humor do roteiro premiado com o Oscar, o diretor Lumet mantém seus personagens sempre em uma constante tensão e desespero. A edição de Dede Allen também colabora para sustentar o ritmo sufocante da trama. Ao criticar a ação da mídia em transformar em entretenimento até mesmo o sofrimento alheio, o filme ainda dá um passo a frente de seus contemporâneos, com um senso de momento impressionante e surpreendente.

Mas nada adiantaria a inteligência do roteiro e a precisão da direção se na frente das câmeras não houvesse atores como os escolhidos por Lumet. Al Pacino e John Cazale, irmãos nos dois filmes “O poderoso chefão” sustentam uma química invejável e demonstram a segurança necessária para transmitir a insegurança e o desespero de seus personagens, tragicamente envolvidos em uma inesperada reviravolta do destino. São suas brilhantes atuações que transformam dois anti-heróis em seres humanos com falhas e qualidades como todo espectador. E talvez por isso em determinado momento do filme a plateia é surpreendida torcendo por dois assaltantes de banco a despeito de seu crime. Ainda bem que há filmes em que isso é possível, caso contrário o público de cinema ficaria seriamente tentado a crer que apenas homens loiros, altos e heróicos são capazes de protagonizar um filme de sucesso.

TUBARÃO


TUBARÃO (Jaws, 1975, Universal Pictures, 124min) Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Peter Benchley, Carl Gottlieb, baseado no romance de Peter Benchley. Fotografia: Bill Butler. Montagem: Verna Fields. Música: John Williams. Direção de arte/cenários: Joseph Alves Jr./John M. Dwyer. Produção: David Brown, Richard D. Zanuck. Elenco: Roy Scheider, Robert Shaw, Richard Dreyfuss, Lorraine Gary, Murray Hamilton. Estreia: 20/6/75

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Montagem, Trilha Sonora Original, Som
Vencedor de 3 Oscar: Montagem, Trilha Sonora Original, Som
Vencedor do Golden Globe de Melhor Trilha Sonora Original


Antes de 1975 não havia em Hollywood o que hoje se chama "filme de verão", ou seja, aquele sucesso acachapante de bilheteria, capaz de formar filas quilométricas e virar mania nacional - e em muitos casos, internacional. Foi preciso que um cineasta novato com apenas 28 anos de idade chamado Steven Spielberg lançasse um aterrorizante filme sobre um gigantesco tubarão branco atacando um pequeno balneário para que esse cenário mudasse inexoravelmente. Pro bem e pro mal, o lançamento de "Tubarão", em junho de 1975, transformou radicalmente a maneira com que os estúdios de Hollywood viam a indústria. Se por um lado essa mudança praticamente matou - ou ao menos diminiu sensivelmente - o cinema ousado e intelectualmente criativo que era feito desde o final dos anos 60, também foi responsável pelo aumento da popularidade da sétima arte junto ao público médio e sedento de diversão por diversão. Acusados de "idiotizar o cinema americano", Spielberg e George Lucas - diretor de "Star wars", que dois anos depois se tornaria ainda mais popular que "Tubarão" - deram, com seus filmes, um passo gigantesco para tornar Hollywood o que ela é hoje. No entanto, mesmo que seja muito triste perceber que a coragem de filmes como "Perdidos na noite" e "Amargo pesadelo" tenha ficado para trás a partir de então (sintomaticamente, o ator central dos dois filmes, Jon Voight, foi considerado para protagonista aqui...) há que se dar o devido crédito ao cineasta. "Tubarão" é um filme sensacional!

Baseado em um romance de Peter Benchley - que aparece frente às câmeras como um repórter, em uma ponta minúscula -, o filme de Spielberg se passa em Amity, uma cidade litorânea pequena e agradável, que vive de turismo. Às vésperas do feriado de 4 de julho - a ocasião mais financeiramente auspiciosa do ano - um gigantesco tubarão branco passa a atacar os banhistas. O xerife da cidade, Martin Brody (Roy Scheider), alerta o corrupto e ambicioso prefeito Larry Vaughn (Murray Hamilton, ótimo em todas as suas cenas) do perigo que os turistas correm, mas mesmo assim, não consegue convencê-lo a interditar a praia. Quando os ataques realmente começam a acontecer frente à população, no entanto, ele se vê obrigado a mudar de opinião. Ao lado do oceanógrafo Matt Hopper (Richard Dreyfuss) e do experiente pescador Sam Quint (Robert Shaw), Brody parte mar adentro com o objetivo de aniquilar o monstro assassino.


O que é mais notável em "Tubarão" é o senso de ritmo e suspense criado por Spielberg, que tinha no currículo apenas um longa para o cinema, o road movie "Louca escapada", estrelado por Goldie Hawn - apesar de ter alguma experiência em televisão, de onde saiu o elogiado "Encurralado". Durante toda a primeira metade do filme, a ameaça é invisível, sentida pelo espectador através de tomadas subaquáticas e pela excepcional trilha sonora de John Williams (merecidamente premiada com o Oscar da categoria). O cineasta constrói toda a tensão utilizando-se apenas de detalhes visuais - o olhar do xerife Brody, o desaparecimento de um cão - e sonoros. É uma primeira parte absolutamente centrada na exposição do conflito, sem muito espaço para construções psicológicas de suas personagens - Hitchcock teria orgulho. E aí chega a segunda metade do filme.

Apesar de maneirar um pouco na tensão logo que entra na metade final de seu filme, Spielberg não deixa que o público perca o interesse na sua narrativa. Ao juntar três homens de personalidades e temperamentos distintos em um único cenário, reunidos por trágicas circunstâncias, ele proporciona aos atores seus melhores momentos na obra. O longo monólogo em que Quint relembra sua experiência na guerra, onde teve seu primeiro contato com tubarões, é uma joia (e foi escrita pelo próprio Robert Shaw, cuja personagem lembra o protagonista obsessivo de "Moby Dick", de Melville) e sua disputa de cicatrizes com Hopper soa engraçada sem parecer boba (dizem as más línguas que havia uma rusga entre Shaw e Richard Dreyfuss nos bastidores, o que ajudou ainda mais na construção da dinâmica entre suas personagens). Ironicamente, é a personagem de Roy Scheider que menos tem a fazer dramaticamente nesse momento do filme, apesar de, em tese, ser o protagonista da trama de Peter Benchley, que sofreu algumas alterações substanciais em sua adaptação para as telas. No romance, por exemplo, a esposa de Brody tem um caso extra-conjugal com Hooper, o que causa um conflito entre os dois homens. No filme esse relacionamento inexiste, o que de certa forma fortalece a união forçada entre os três valentes (ou nem tão valentes assim) heróis brancaleones. Quando, depois de quase uma hora de projeção o verdadeiro protagonista do filme dá as caras para a plateia e o xerife (em uma cena genial por ser surpreendente e inesperada), só resta à audiência torcer abertamente para a derrota do monstro assassino. É maniqueísmo, sim, mas dos mais divertidos de que se tem história!

Ao final das contas, "Tubarão" até pode ser considerado o marco inicial de uma espécie de decadência do cinema de qualidade americano - pelo menos em termos de coragem e nível artístico. Mas jamais poderá ser considerado menos do que um genial e eficiente produto de entretenimento.

O PODEROSO CHEFÃO - PARTE II


O PODEROSO CHEFÃO - PARTE II (The godfather - Part II, 1974, Paramount Pictures, 200min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Francis Ford Coppola, Mario Puzo, baseado no romance de Mario Puzo. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Barry Malkin, Richard Marks, Peter Ziner. Música: Nino Rota. Figurino: Theadora Von Runkle. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/George R.Nelson. Casting: Jane Feinberg, Michael Fenton, Vic Ramos. Produção: Francis Ford Coppola. Elenco: Al Pacino, Robert DeNiro, Robert Duvall, John Cazale, Diane Keaton, Talia Shire, Lee Strasberg, Bruno Kirby, Troy Donahue, Michael V. Gazzo. Estreia: 20/12/74

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator (Al Pacino), Ator Coadjuvante (Robert DeNiro, Michael V.Gazzo, Lee Strasberg), Atriz Coadjuvante (Talia Shire), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte
Vencedor de 6 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator Coadjuvante (Robert DeNiro), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Direção de Arte
Vencedor de 6 Golden Globe: Melhor Filme/Drama, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator/Drama (Al Pacino), Roteiro, Trilha Sonora, Most Promising Newcomer (Lee Strasberg)


Continuações de filmes de sucesso são, via de regra, caça-níqueis realizados para salvar estúdios da bancarrota ou alimentar ainda mais seus cofres. A preocupação com a integridade obra original inexiste na maioria esmagadora dos casos, uma vez que normalmente as sequências de campeões de bilheteria esgotam a ideia central dos filmes e humilham suas personagens sem pena nem dó. Felizmente, toda regra tem exceção e, neste caso, nenhuma exceção é mais gloriosa do que "O poderoso chefão - Parte II" - , que, lançado meros dois anos depois da estreia de seu primeiro capítulo, não só o superou em sucesso artístico - inclusive dobrando o número de Oscar recebidos - como comprovou o talento e o gênio de seu diretor, roteirista e produtor Francis Ford Coppola. Em "O poderoso chefão - Parte II", ele não apenas continuou contando a trajetória de Michael Corleone rumo ao poder absoluto; ele intercalou a ela o início de toda a família, apresentando ao público a juventude do patriarca Don Vito Corleone, aqui interpretado por um jovem e já excelente Robert DeNiro.

Apesar de ter ganho o Oscar de roteiro adaptado, a segunda parte da saga Corleone não é totalmente baseada no livro "O chefão", que inspirou o filme original. Apenas um capítulo do livro, que conta a chegada de Vito à Nova York, em 1901, e o início de seu caminho ao poder já estabelecido no primeiro filme, foi utilizado no script do diretor e do autor do livro, Mario Puzo. Toda a trama envolvendo Michael Corleone e a família em Las Vegas e Cuba foi criado especificamente para o filme, e fortalece o conceito de máfia insinuado em 1972 e aqui abertamente declarado em cenas que mostram uma CPI a respeito das atividades dos Corleone. A genialidade desse segundo filme reside principalmente na divisão da história em dois núcleos separados que juntos, formam uma unidade coesa e sólida.

"O poderoso chefão - Parte II", começa em 1958, em Lake Tahoe, Nevada, na festa da primeira comunhão de Anthony, o filho mais velho de Michael (Al Pacino) e Kay (Diane Keaton). A reunião - não apenas familiar, mas que também junta no mesmo ambiente os diversos colaboradores do clã - ecoa o casamento de Connie (Talia Shire), que abria o primeiro "Chefão". Nessa festa, fica-se sabendo dos negócios de Michael em Las Vegas, dirigidos com mão não muito firme por Fredo (John Cazale), seu irmão mais velho. Enquanto tenta lidar com uma traição por parte do próprio irmão, Michael se vê cada vez mais solitário e afastando-se das pessoas que ama, além de participar ativamente da revolução cubana. Paralelamente, o filme narra a chegada de Vito Corleone (Robert DeNiro) aos EUA. Chegado da Sicília com apenas nove anos de idade, na juventude mesmo ele trava conhecimento com Clemenza (Bruno Kirby), um vizinho metido com tramoias escusas e que se tornará seu homem de confiança quando ele mata o chefe do bairro e assume seu lugar, dando origem a toda a saga contada por Coppola e Puzo.


Um pouco mais longo do que seu antecessor, mas ainda assim dono de um invejável ritmo, "O poderoso chefão - Parte II", tornou-se a primeira sequência a ganhar o Oscar de Melhor Filme (feito repetido apenas 30 anos depois com "O Senhor dos anéis - O retorno do rei"). E motivos para tal homenagem não faltam; poucas vezes o cinema conseguiu ser tão fascinante quanto aqui, com um primoroso roteiro que privilegia os detalhes mais do que a grandiosidade que um projeto dessa envergadura poderia pressupor. Da maneira como Coppola conta sua história os olhares são mais pungentes do que os tiros, o subtexto é mais claro do que discursos e as relações familiares são muito mais importantes do que os negócios financeiros - mesmo que essa teoria seja de certa forma derrubada com as cenas finais, dignas da mais trágica peça vitoriana.

E é aqui, em "O poderoso chefão - Parte II", que Michael Corleone assume de vez sua persona shakespereana. Envolvido em uma paranoia cada vez mais avassaladora, o rapaz idealista que defendeu seu país na II Guerra começa seu caminho indelével para a solidão. É admirável a maneira com que o diretor consegue equilibrar - sem perder o interesse da audiência - sequências absurdamente violentas (visual e psicologicamente falando) e cenas de partir o coração, interpretadas por atores no auge de seu domínio artístico. Na pele de um juvenil Vito Corleone, Robert DeNiro já demonstra o imenso talento que viria a consagrá-lo nos anos subsequentes como o melhor ator de sua geração, e o Oscar de ator coadjuvante apenas coroou seu desempenho irretocável. John Cazale, como Fredo, tem algumas das melhores cenas de sua curta carreira, em uma memorável e comovente atuação. Diane Keaton também tem, aqui, as maiores oportunidades de sua personagem na série e os dois veteranos atores que conquistaram indicações ao Oscar de coadjuvante (Lee Strasberg e Michael V.Gazzo) fazem jus a sua fama de mestres: Strasberg é, inclusive, um dos fundadores do Actors Studio, que formou nomes como os próprios Brando, DeNiro e Pacino.

Mas é Al Pacino o corpo e a alma de "O poderoso chefão - Parte II". Em uma interpretação silenciosa, raivosa, paranoica e melancólica, o ator transmite a variada gama de nuances de sua complexa personagem sem jamais perder sua essência. Michael Corleone e Al Pacino formam o exemplo mais impressionante de casamento entre ator e personagem da história do cinema. Ainda bem que se pode assistir a isso sempre que der vontade.

sábado

O EXORCISTA


O EXORCISTA (The exorcist, 1973, Warner Bros Pictures, 132min) Direção: William Friedkind. Roteiro: William Peter Blatty, baseado em seu romance homônimo. Fotografia: Owen Roizman. Montagem: Norman Gay, Evan Lottman. Figurino: Joe Fretwell. Direção de arte/cenários: Bill Malley/Jerry Wunderlich. Casting: Louis DiGiamo, Nessa Hyams, Juliet Taylor. Produção executiva: Noel Marshall. Produção: William Peter Blatty. Elenco: Ellen Burstyn, Max Von Sydow, Lee J. Cobb, Jason Miller, Linda Blair, Jack MacGowran, Kitty Winn. Estreia: 26/12/73

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (William Friedkin), Atriz (Ellen Burstyn), Ator Coadjuvante (Jason Miller), Atriz Coadjuvante (Linda Blair), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de Arte, Som
Vencedor de 2 Oscar: Roteiro Adaptado, Som
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (William Friedkin), Atriz Coadjuvante (Linda Blair), Roteiro


Ao ganhar um prêmio de 10 mil dólares em um programa apresentado por Groucho Marx, um desconhecido chamado William Peter Blatty declarou que, com o dinheiro, ele tiraria um tempo de folga para escrever um romance. Publicado anos depois, este romance, chamado "O exorcista" assustaria milhares de pessoas, e não só através das palavras. Produzido pela Warner Bros e com produção e roteiro do próprio autor, "O exorcista" tornou-se um dos filmes de maior bilheteria da história do estúdio, ganhando em seguida, continuações, prequels e várias revisões, sempre com qualidade inferior.

Normalmente relegados a um inestimado segundo plano dentro da indústria cinematográfica, raramente os filmes de terror conseguem sair de dentro de seu gueto de fãs aficcionados e atingir não só uma plateia mais ampla mas também o reconhecimento devido junto à crítica. Por isso, não deixa de ser um fenômeno que "O exorcista" tenha conseguido essa façanha de forma tão absoluta e inegável. Incensado pela crítica e vencedor de 4 Golden Globes (inclusive melhor drama e diretor), logo a obra dirigida pelo mesmo William Friedkin do elogiado "Operação França" arrebataria surpreendentes 10 indicações ao Oscar, em especial nas categorias principais, tornando-se o primeiro filme de terror da história a conquistar tal honra. Não saiu vitorioso (o prêmio ficou com "Golpe de mestre"), mas, com milhões e milhões de dólares abarrotando seus cofres, a Warner definitivamente não tinha do que reclamar.

"O exorcista" se passa em Washington, onde a atriz Chris McNeil (Ellen Burstyn) está fazendo seu novo filme. Nos seus momentos livres, ela fica ao lado da filha adolescente Regan (Linda Blair) e dos colegas de produção. A relativa paz que reina entre ela e a filha começa a dar sinais de alarme quando a menina, normalmente doce e compassiva, começa a agir estranhamente: de uma hora pra outra, Regan começa a dizer palavrões, a comportar-se de forma agressiva e reclamar que sua cama fica pulando. Vários exames médicos depois, nada parece estar resolvido e as coisas ficam ainda piores. Inúmeros acontecimentos violentos e bizarros depois levam Chris a chegar à conclusão, com a ajuda do jovem Padre Karras (Jason Miller) - que trabalha com psicologia e está em uma crise de fé por causa da morte da mãe - que sua filha está possuida por um demônio. A única solução para o caso, seria, então, um exorcismo. A Igreja chama, para isso, o conceituado Padre Merrin (Max Von Sydow), que acaba de voltar aos EUA depois de uma escavação no Iraque.


Filmado em 224 dias (em oposição a seu cronograma inicial de 85), "O exorcista", assim como todos os filmes da época, foi objeto de muita especulação antes de ser produzido, com muitos nomes de Hollywood envolvidos - ou apenas citados - como possíveis colaboradores. Antes que William Friedkin assumisse o posto de diretor, por exemplo, nomes como John Boorman e Stanley Kubrick foram cogitados para o posto - Kubrick não acertou com o estúdio porque queria produzir ele mesmo o filme Boorman recusou porque o roteiro era "muito cruel com uma criança", o que não o impediu de, quatro anos depois, sentar-se na cadeira de diretor de sua bem inferior continuação.

Para a pele de Chris McNeil, nomes importantes foram considerados. Jane Fonda e Shirley MacLaine se interessaram pelo roteiro. Audrey Hepburn quis fazê-lo, mas somente se fosse filmado em Roma. E Anne Bancroft abandonou o barco devido a sua primeira gravidez. Até mesmo o nome de Debbie Reynolds foi cogitado, com sua filha Carrie Fisher (que em seguida atingiria a fama como a Princesa Leia de "Star Wars") vivendo Regan. Mas é inegável que a contratação de Ellen Burstyn foi acertada. Às vésperas de ganhar um Oscar por "Alice não mora mais aqui" (lançado em 1974), Burstyn entrega uma atuação visceral e desesperada, que exigiu dela fortes doses de emoção e trabalho físico (ela chegou a machucar seriamente a coluna durante um take).

Para viver o veterano Padre Merrin a coisa também não foi diferente. Marlon Brando poderia ter interpretado o papel que foi de Max Von Sydow, mas os produtores acharam - com razão, diga-se de passagem - que a presença de Brando no elenco faria de "O exorcista" um "filme de Marlon Brando" antes de qualquer outra coisa, o que não os interessava. E para viver o jovem Padre Karras, nomes fortes como Gene Hackman e Jack Nicholson foram sondados. Dá pra imaginar como tudo ficaria com esse elenco de sonhos??

Mesmo que os créditos de "O exorcista" não tenha sido repleto de astros, é impossível negar que as opções dos produtores não poderiam ter sido melhores. Rígido e decidido, William Friedkin foi o diretor ideal do filme, fazendo prevalecer sua visão desde o início das filmagens. Max Von Sydow e Jason Miller (pai do ator Jason Patric) equilibram com perfeição as dualidades de suas personagens religiosas. E Linda Blair demonstra, aos 14 anos, que sabe interpretar como gente grande, o que seu Golden Globe e a indicação ao Oscar comprovaram, apesar das dúvidas suscitadas pela atriz Mercedes McCambridge depois dos elogios ao filme. McCambridge foi a responsável pela voz do demônio encarnado em Regan e alegou que merecia tanta glória quanto a adolescente. Coisas de Hollywood!

"O exorcista" é brilhante! Assustador como poucos, é um filme que conta sua história sem pressa, sem correria. Até que Regan comece realmente a demonstrar os efeitos da possessão em seu corpo passa-se quase uma hora, onde o roteiro trabalha com eficiência as personalidades das personagens envolvidas na questão. A subtrama que envolve o Padre Karras e seu questionamento da fé mostra-se essencial à história central, assim como a primeira sequência no Iraque, onde o Padre Merrin tem seu primeiro contato com o demônio que irá exorcisar tempos depois - aliás, é sensacional a maneira com que Friedkin acusa a presença do mal nas cenas. No Iraque, dois cães começam a brigar, assim como duas crianças no hospital onde Regan é examinada, o que amplia a tensão nas cenas. E a edição especial - com 11 minutos a mais do que a versão lançada em 1973 - acrescenta rápidas imagens do mal inseridas entre as cenas, no melhor estilo "piscou, perdeu", o que dá um clima mais do que propício à tensão criada pela música e pela fotografia majestosa de Owen Roizman. E isso que nem é preciso falar dos inúmeros acontecimentos quase inexplicáveis ocorridos durante as filmagens e dissecados em extraordinário documentário sobre a produção infelizmente disponível no Brasil apenas em VHS (é de apavorar tanto quanto o filme em si!!)

Assistir a "O exorcista" hoje ainda é extremamente impressionante! Poucas vezes o cinema de horror foi tão a fundo - e tão gráfico - em investigar o mal. Apesar de nunca poupar o espectador, ele jamais ultrapassa os limites do que é verdadeiramente útil para contar sua história, sem apelar para sustos desnecessários. Um exemplo a ser seguido pelos Eli Roth da vida...

sexta-feira

NOSSO AMOR DE ONTEM


NOSSO AMOR DE ONTEM (The way we were, 1973, Columbia Pictures, 118min) Direção: Sydney Pollack. Roteiro: Arthur Laurents. Fotografia: Harry Stradling Jr. Montagem: John F. Burnett. Música: Marvin Hamlisch. Figurino: Dorothy Jeakins, Moss Mabry. Direção de arte/cenários: Stephen Grimes/William Kiernan. Produção: Ray Stark. Elenco: Barbra Streisand, Robert Redford, Lois Chiles, Bradford Dilman, Viveca Lindfords,Murray Hamilton, James Woods. Estreia: 17/10/73

6 indicações ao Oscar: Atriz (Barbra Streisand), Fotografia, Trilha Sonora Original, Canção Original ("The way we were"), Figurino, Direção de arte
Vencedor de 2 Oscar: Trilha Sonora Original e Canção Original ("The way we were")
Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção Original ("The way we were")


Em um dos melhores episódios da saudosa série "Sex and the city", Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker) relembra, ao lado das amigas, a cena final do filme "Nosso amor de ontem", identificando-se com sua protagonista e seu malfadado romance. No filme "Somente elas", de Herbert Ross, a sensível personagem de Mary-Louise Parker, também apaixonada pela história de amor contada na obra de Sydney Pollack meio que obriga sua nova amiga (vivida por Whoopi Goldberg) a assistí-la, dizendo tratar-se de uma de suas preferidas. Afinal, o que esse filme tem que conquista tanto o público, especialmente aquele formado por mulheres?

Não há dúvidas que o romantismo desbragado do roteiro de Arthur Laurents é o ponto principal do amor da audiência feminina a ele. Mas, espertamente, Laurents temperou sua história de amor relativamente banal com elementos políticos e ideológicos que o retirou gloriosamente da vala comum do gênero. Mesmo que para o público médio e não-americano muitas das referências sócio-políticas da trama passem quase batidas, a história de amor entre os protagonistas ainda soa verdadeira, graças principalmente à química entre seus atores, Barbra Streisand e Robert Redford.


Quando o filme começa, Kate Morosky (Streisand) trabalha em uma rádio e reencontra um antigo colega de escola, Hubbell Gardiner (Redford), que alistou-se na Marinha e a quem não via há anos. A paixão que sempre sentiu por ele volta com toda força e eles acabam iniciando um romance. No entanto, suas diferenças ideológicas também se fazem notar: comunista desde sempre, Kate não compreende o jeito despreocupado de Hubbell, um rapaz bonito, de alta classe e pra quem sempre as coisas aconteceram de maneira fácil. Quando eles se mudam para a Califórnia - onde ele vai tentar adaptar seu livro para o cinema - as coisas ficam ainda mais complicadas. A "caça às bruxas" do senador Joseph McCarthy contra o comunismo os coloca em lados opostos, ameaçando seu relacionamento.

Apesar de colocar suas personagens em meio a furacões políticos - a ascensão do comunismo, a ameaça do nazismo, a caçada provocada por McCarthy - Laurents e o diretor Sydney Pollack não tentam se aprofundar nas questões levantadas pela trama. Mesmo que alguns diálogos toquem diretamente no ponto (em especial a última discussão do casal, em um restaurante vazio), a superficialidade do roteiro chega quase a transformar Kate em uma mulher mais apaixonada pelas causas que defende do que pelo homem que ama. Em inúmeros momentos é mais fácil entender o lado de Hubbell - que pretende levar sua vida e sua carreira sem envolver-se em problemas universais - do que identificar-se com Kate, mesmo que a atuação de Streisand seja passional e crível. Mesmo que se possa acreditar no amor entre os protagonistas é visível, desde suas primeiras cenas, que eles combinam tanto quanto Fidel Castro e Hitler.

No geral "Nosso amor de ontem" funciona. A belíssima trilha sonora de Marvin Hamlisch (vencedora do Oscar, assim como a canção-título gravada por Streisand) contribui para o clima da história contada, assim como a caprichada reconstituição de época e o elenco bem escalado (Redford, no auge da beleza e do carisma, quase perdeu o papel para Ryan O'Neal devido a sua demora em comprometer-se com o projeto). Mas sua perenidade junto às fãs mais sensíveis provavelmente deve-se ao fato de ter um final menos feliz do que o corriqueiro. É um filme que merece ser conhecido, mas que não encanta tanto quanto promete.

quinta-feira

AMARGO PESADELO


AMARGO PESADELO (Deliverance, 1972, Warner Bros, 110min) Direção: John Boorman. Roteiro: James Dickey, baseado em seu romance homônimo. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Tom Priestly. Casting: Lynn Stalmaster. Produção: John Boorman. Elenco: Burt Reynolds, Jon Voight, Ned Beatty, Ronny Cox, Bill McKinney, Herbert "Cowboy" Coward. Estreia: 30/7/72

3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (John Boorman), Montagem

Existe uma corrente de pensamento que afirma que a natureza, quando desafiada, é capaz de punições devastadoras. Exemplos de terremotos, maremotos e afins não faltam para, de certa forma, confirmar a teoria. No entanto, o castigo da natureza pode vir de forma menos escandalosa, como mostra "Amargo pesadelo", adaptação do romance de James Dickey que chegou aos cinemas em 1972 dirigido pelo inglês John Boorman. Ao confrontar quatro homens urbanos e auto-suficientes com um caudaloso rio repleto de corredeiras, uma mata pouco amistosa e montanheses sádicos, Dickey e Boorman criaram um dos filmes mais ousados do início da década de 70, repleto de uma violência física e psicológica quase impensável mesmo para os dias de hoje, com a plateia já anestesiada com a dieta sanguinária dos filmes de ação pós-Schwarzenegger. Mais do que simplesmente um filme violento, "Amargo pesadelo" é assustadoramente real e é isso que o torna tão especial a ponto de receber indicações ao Oscar de Melhor Filme e Diretor (para seu azar, justamente no mesmo ano de "O poderoso chefão" e "Cabaret").

Talvez o maior mérito do roteiro de "Amargo..." seja ter conseguido criar personagens verossímeis envolvidos em uma trama quase surreal: quatro amigos da cidade grande resolvem tirar um fim-de-semana longe das famílias e do agito da metrópole para contemplar a natureza. Seu objetivo, na verdade, é desafiar as violentas corredeiras de um rio que está em vias de ser transformado em lago devido à construção de uma represa. Liderados por Lewis (Burt Reynolds em papel recusado por Charlton Heston e Henry Fonda), eles desejam usufruir da bucólica paisagem antes de voltar às suas corridas rotinas. As coisas começam a sair do normal quando dois integrantes do grupo, Ed (Jon Voight) e Bobby (Ned Beatty) são atacados por dois truculentos montanheses. Amarrado em uma árvore, Ed presencia Bobby sendo estuprado por um dos criminosos, mas escapa de ser também abusado quando Lewis mata um dos agressores com uma flechada. É o início de uma angustiante jornada em direção ao desespero.


Depois que a tragédia começa, a natureza, que antes servia como paisagem e um perfeito exemplo de tranquilidade e paz, transforma-se, também ela, em uma vilã. Presos em um lugar que não conhecem, os amigos precisam decidir como agir com o cadáver de um homem em suas mãos e a ameaça de outro a suas costas. Dissonante do resto do grupo, que prefere esconder o corpo da vítima de Lewis, o último viajante, Drew (Ronny Cox) entra em conflito com eles, complicando ainda mais as coisas.

John Boorman não poupa ninguém em seu filme mais famoso e que quase lhe deu um Oscar. Apesar de ter pego mais leve do que no livro, ele explicita cenas que são chocantes e desagradáveis sem ter medo de afastar seu público. Quando, no terço final do filme, o desajeitado Ed assume a liderança da travessia, Boorman leva a plateia junto em sua desesperada luta pela sobrevivência e sanidade física, e para isso, conta com um elenco exemplar.

Apesar de Lee Marvin e Marlon Brando terem sido cotados para os papéis centrais, Burt Reynolds e Jon Voight apropriam-se das personagens com desenvoltura e inteligência. Logo em seguida Reynolds transformaria-se em êxito de bilheteria com filmes mais leves de aventura, enquanto Voight seguiria firme rumo à credibilidade artística que culminaria com um Oscar seis anos depois, por "Amargo regresso".

Lembrado por sua famosa cena onde Drew participa de um duelo de banjos com um caipira com problemas mentais, "Amargo pesadelo" tem um título nacional bastante apropriado. Se Kafka fosse escrever um romance passado junto à natureza, certamente seria como este.

quarta-feira

O PODEROSO CHEFÃO


O PODEROSO CHEFÃO (The godfather, 1972, Paramount
Pictures, 175min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Francis Ford Coppola, Mario Puzo, baseado no romance de Mario Puzo. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: William Reynolds, Peter Zinner. Música: Nino Rota. Figurino: Anna Hill Johnstone. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Philip Smith. Casting: Louis DiGiaimo, Andrea Eastman, Fred Roos. Produção: Albert S. Ruddy. Elenco: Marlon Brando, Al Pacino, James Caan, Robert Duvall, Diane Keaton, John Cazale, Richard Castelano, Talia Shire, Sterling Hayden, John Marley, Al Lettieri, Abe Vigoda, Gianni Russo, Morgana King, Simonetta Stefanelli. Estreia: 24/3/72


11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator (Marlon Brando), Ator Coadjuvante (James Caan, Robert Duvall, Al Pacino), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Som
Vencedor de 3 Oscar: Melhor Filme, Ator (Marlon Brando), Roteiro Adaptado
Vencedor de 5 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator/Drama (Marlon Brando), Roteiro, Trilha Sonora


Quantas vezes é preciso que um filme seja assistido para que deixe de hipnotizar sua audiência ou mesmo perca seu sabor de novidade? Se o filme em questão for "O poderoso chefão" ainda não existe uma resposta satisfatória a essa questão. Mesmo passados 38 anos de seu lançamento, a adaptação de Francis Ford Coppola para o livro de Mario Puzo ainda mantém intactos seu vigor, sua inteligência e sua aura de obra-prima absoluta. Um dos melhores filmes da história do cinema - se não O melhor - o início da saga da família Corleone é o mais perfeito exemplo de tudo que um filme deve ser para ficar marcado no inconsciente coletivo de forma indelével. Mas foi preciso muito esforço para que ele ficasse como é conhecido hoje em dia.

Não é novidade para ninguém a brava luta de Coppola para conseguir fazer com que a Paramount concordasse com as escalações de Marlon Brando como Vito Corleone - papel-chave na trama - e Al Pacino como Michael - o estúdio parecia querer qualquer um menos Pacino no papel do filho caçula do clã de mafiosos mais fascinante da história do cinema. Esse "qualquer um" incluía, entre outros, Warren Beatty, Jack Nicholson e Dustin Hoffman, além de James Caan, que ficou com o papel do filho mais passional de Don Corleone, Sonny. Toda a árdua batalha para Coppola finalmente fazer o filme do seu jeito está detalhada no disco de extras da exemplar edição comemorativa da saga, lançada em dvd, e, se por si só são interessantes o bastante para grudar o espectador no sofá de casa, servem apenas de aperitivo para o que realmente importa: a majestade do filme em si.


Pra quem ainda não sabe, "O poderoso chefão" começa em 1945, logo após o final da II Guerra Mundial. O jovem soldado Michael (Al Pacino no papel de sua vida) retorna à Nova York acompanhado da namorada, a professora Kay Adams (Diane Keaton), e chega a tempo do casamento de sua irmã caçula, Connie (Talia Shire, irmã do diretor) com o mau-caráter Carlo Rizzi (Gianni Russo). Sua chegada enche de alegria seu pai, Don Vito Corleone (um Marlon Brando com meros 47 anos e uma caracterização antológica), o chefão de uma das famílias mafiosas mais importantes da cidade. Quando Don Vito se recusa a juntar-se a outras famílias em negócios envolvendo drogas, acaba sofrendo um grave atentado que quase lhe tira a vida. Mesmo não querendo envolver-se nos negócios escusos do pai e dos irmãos, Michael não hesita em assassinar seus rivais e fugir para a Itália, onde se casa com a bela Apolonia (Simonetta Stefanelli). Quando mais uma vez retorna a seu país e sua casa, percebe estarrecido que não há como escapar da sina violenta de seu sangue, e assume a liderança dos Corleone.

Escolher a melhor cena de "O poderoso chefão" é tarefa ingrata e impossível. Coppola construiu seu filme como uma ópera grandiosa, grandiloquente, recheada de momentos de extrema violência ao lado de cenas dramaticamente estruturadas e interpretadas por um elenco onde ninguém está menos do que espetacular (não foi por acaso que 3 de seus coadjuvantes foram indicados ao Oscar). A fotografia escura de Gordon Willis (outro item questionado pelos executivos do estúdio durante as filmagens) expressa com maestria as ideias do roteiro, escrito a quatro mãos pelo diretor e pelo autor do romance em que baseia, Mario Puzo. A edição enxuta nunca deixa que se perceba que se trata de um épico de três horas de duração - que voam diante dos olhos incrédulos da plateia. A trilha sonora de Nino Rota é de uma pungência indescritível e até mesmo o glamour que o filme transmite - e que foi alvo de algumas críticas que não tinham do que reclamar da obra como um todo - tem um charme e um poder que muitos cineastas de hoje em dia dariam um braço para conseguir.

Qualquer coisa que se diga sobre "O poderoso chefão" é desnecessário. Inesquecível na pele de Don Corleone - que lhe deu o segundo Oscar, recusado através de uma índia mais falsa que nota de três dólares -, Marlon Brando é a cara dessa primeiro capítulo tão impecável que exigiu dois novos capítulos, em 1974 e 1990. A saga da família Corleone é mais do que simplesmente um filme de gângster. É o filme que mais se aproxima da perfeição em termos cinematográficos, e o culto a seu nome - por parte da crítica e do público - apenas confirma suas inumeráveis qualidades.

terça-feira

LARANJA MECÂNICA


LARANJA MECÂNICA (A clockwork orange, 1971, Warner Bros, 136mi//n) Direção e produção: Stanley Kubrick. Roteiro: Stanley Kubrick, baseado no romance de Anthony Burgess. Fotografia: John Alcott. Montagem: Bill Butler. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte: John Barry. Casting: Jimmy Liggat. Produção executiva: Si Litvinoff, Max L. Raab, Bernard Williams. Elenco: Malcolm McDowell, Patrick Magee, Michael Bates, Warren Clarke, Adrienne Corri, Philip Stone, Sheila Raynor. Estreia: 19/12/71

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stanley Kubrick), Roteiro Adaptado, Montagem


Um homem que tem tirado de si a capacidade de escolher entre o bem e o mal ainda é um ser humano? O governo, sob pretexto de manter a ordem e a paz, tem o direito de tirar de seus cidadãos o instinto básico de auto-defesa e sobrevivência? A justiça com as próprias mãos é uma forma válida de catarse? O ser humano, afinal, é basicamente bom ou mau? Todas essas perguntas, pertinentes e fundamentais em qualquer discussão sobre os instintos humanos estão espalhadas por "Laranja mecânica", o mais polêmico e perturbador filme do cineasta inglês Stanley Kubrick. Adaptado com bastante fidelidade de um romance de Anthony Burgess (só o que ficou de fora foi o capítulo final do livro que foi cortado na edição americana), o filme de Kubrick não apenas escandalizou a plateia: também hipnotizou a crítica e foi o segundo filme classificado com o selo "X" - dado a filmes pornográficos - a receber uma indicação ao Oscar de Melhor Filme (o outro foi "Perdidos na noite", que teve mais sorte e converteu a indicação em estatueta).

"Laranja mecânica" se passa em um futuro próximo mas não identificado. A distópica Inglaterra mostrada no filme passa por sérios problemas com o aumento da delinquência juvenil e um dos maiores exemplos disso é o adolescente Alex (Malcom McDowell, aos 27 anos vivendo uma personagem de 15, segundo o livro). Ao lado de seu grupo de amigos, ele passa os dias bebendo leite misturado com várias drogas e cometendo o que ele mesmo descreve, em sua narração irônica, como "atos de ultraviolência". Espancando velhos mendigos, invadindo residências e estuprando mulheres, eles são o retrato de uma juventude transviada e totalmente indiferente ao sofrimento alheio. Fã incondicional de Beethoven, Alex - que se trata com um psicólogo como forma de escapar de uma punição maior por seus atos - acaba sendo preso e condenado a 14 anos de prisão por assassinato. Com o objetivo de diminuir sua pena, no entanto, ele se oferece para ser a cobaia de um tratamento criado pelo governo para diminuir o índice de violência e a superlotação dos presídios. Com o final do tratamento, ele volta às ruas: sempre que sequer pensa em agir - ou reagir violentamente contra alguém, ele sofre de enjôos extremos. O problema é que, vivendo nas ruas depois de sair da casa dos pais, ele tem grandes probabilidades de reencontrar suas antigas vítimas.


"Laranja mecânica" é, definitivamente, um filme pelo qual se é impossível ser indiferente, como qualquer trabalho de Stanley Kubrick. O que incomoda em "Laranja" nem é tanto a sua violência, uma vez que o cinema ultrapassou esses limites há algum tempo sem as intenções questionadoras mostradas aqui. O que causa o desconforto na audiência é a sua crueza em retratar uma juventude hedonista e cruel sem que haja o menor resquício de julgamentos morais nesse retrato. O que faz a diferença nesse trabalho do diretor que ainda seria considerado pela crítica um dos maiores gênios do cinema - opinião um tanto questionável, mas ainda assim impressionante - é sua preocupação com todos os detalhes do filme, por menor que eles sejam. A cena final, por exemplo, foi filmada exaustivas 74 vezes antes que o cineasta se desse por satisfeito.

Essa obsessão pelo visual de seus filmes fica evidente em cada sequência de "Laranja mecânica". A direção de arte que usa e abusa da art-deco em voga no final dos anos 60/início dos 60 ampliando sua tendência ao kitsch é tão desconcertante quanto as inúmeras referências fálicas espalhadas pelo filme. A trilha sonora - que mistura Beethoven (chamado de Ludwig Van por Alex) e Gene Kelly - é propositalmente heterogênea, refletindo a insanidade de seu protagonista de forma mais eficiente do que horas de discurso fariam. E até mesmo a linguagem falada por Alex e seus companheiros de farra (uma linguagem criada por Burgess e que mistura inglês britânico, russo e gírias) retiram o filme da vala comum das produções pseudo-intelectuais que grassavam no cinema à época do seu lançamento.

Mas apesar de seu visual estarrecedor, sua parte técnica impecável e seu roteiro imaginativo e vívido, é por causa de suas ideias que "Laranja mecânica" ainda é impactante. Ao levantar as questões que levanta, ele demonstra uma preocupação com um estado de violência e manipulação que, se parecia exagerado em 1971, hoje é uma realidade óbvia e assustadora. Se o público que assistiu a "Laranja mecânica" em seu lançamento ficou apavorado com o que ele previa, quem o assiste hoje se surpreende é em ver como eles (Kubrick e Burgess) estavam certos - ou pior ainda, otimistas...

domingo

LOVE STORY, UMA HISTÓRIA DE AMOR


LOVE STORY, UMA HISTÓRIA DE AMOR (Love story, 1970, Paramount Pictures, 99min) Direção: Arthur Hiller. Roteiro: Erich Segal. Fotografia: Dick Cratina. Montagem: Robert C. Jones. Música: Francis Lai. Figurino: Alice Manougian Martin, Pearl Somner. Direção de arte / Cenários: Robert Gundlach / Philip Smith. Casting: Andrea Eastman. Produção executiva: David Golden. Produção: Howard G. Minsky. Elenco: Ali McGraw, Ryan O'Neal, Ray Milland, John Morley, Tommy Lee Jones. Estreia: 16/12/70

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Arthur Hiller), Ator (Ryan O'Neal), Atriz (Ali McGraw), Ator Coadjuvante (John Morley), Roteiro Original, Trilha Sonora Original.
Vencedor do Oscar de Trilha Sonora Original
Vencedor de 5 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Arthur Hiller), Atriz/Drama (Ali McGraw), Roteiro e Trilha Sonora


Uma crônica publicada no jornal "O Globo" em 17 de julho de 1971 dizia o seguinte:
"Uma 'esquerdinha' foi vê-lo. Na saída, deu sua opinião, com boquinha de nojo: - 'Reacionário.' Porque trata de amor e de morte é reacionário. Se fosse uma antologia de perversões sexuais, as mais hediondas, não seria reacionário. Mas se nos mostrasse os 300 mil jovens que, na ilha de Wight, fizeram uma gigantesca bacanal, seria progressista." O autor da crônica prosseguia: "'Love story' é apenas história de amor. Mas faz o mesmo, exatamente o mesmo sucesso em toda a parte e em todos os idiomas. Se for projetada num boteco de Cingapura, para marginais e paus d'água fará chorar todos os traficantes de tóxicos."

A crônica chamava-se "Adeus à sordidez" e seu autor é ninguém menos que o genial dramaturgo, cronista e romancista Nelson Rodrigues. Auto-intitulado "anjo pornográfico", nem mesmo o autor de obras pessimistas como "O casamento" e "Perdoa-me por me traíres" conseguiu resistir a "Love story, uma história de amor", um dos maiores sucessos de bilheteria da Paramount nos anos 70. E, como ele mesmo declarou em sua crônica (disponível no livro "O reacionário", editado pela Cia das Letras), o filme de Arthur Hiller conquista justamente pela simplicidade de seu objetivo: em uma época voltada ao hedonismo, ao cinismo e a todos os "ismos" mais egoístas imagináveis, contar uma história de amor pura e simples foi como uma lufada de ar fresco que pegou todo mundo de surpresa.

Quando "Love story" estreou nos EUA, em dezembro de 1970, o livro de Erich Segal baseado em seu roteiro (o caminho inverso do que normalmente ocorre) já era um êxito de vendas. Sua vitória maciça na festa de entrega dos Golden Globes (cinco prêmios, inclusive melhor filme, diretor e atriz) e o generoso número de indicações ao Oscar (sete no total) apenas confirmaram que ainda havia espaço para romantismo no meio de filmes de guerra e filmes-catástrofe ("Patton", "M.A.S.H." e "Aeroporto" estrearam naquele ano). Naquele início de década, lavar a alma no escurinho do cinema foi o programa preferido de milhares de pessoas.


"Love story" acompanha o belo e sofrido romance entre Oliver Barrett IV (Ryan O'Neal), um jovem de família influente e abonada e Jennifer Cavalleri (Ali McGraw), a simples filha de um padeiro, que estuda música e sonha conhecer Paris. A paixão avassaladora que os acomete afasta o rapaz da companhia dos pais - com quem já não tinha a melhor das relações - e eles acabam se casando, construindo com esforço redobrado uma possibilidade de futuro menos árduo. Quando conseguem melhorar de vida e resolvem tentar ter um filho, descobrem que Jenny sofre de um câncer incurável e terminal.

Quintessência do melodrama lacrimoso - chamado pejorativamente de "tearjerker" (ou arranca-lágrimas) pelos críticos americanos - e quase apelativo, "Love story" funciona maravilhosamente. Mesmo sem ter um roteiro complexo - pelo contrário, as personagens são bastante rasas, sem muitas dimensões psicológicas - e ambições maiores do que simplesmente emocionar sua plateia, o filme de Arthur Hiller (que anos depois foi presidente da Academia de Hollywood) atinge seu objetivo com uma facilidade admirável. Para isso contribuem os elementos unidos por ele: elenco, trilha sonora e uma direção que não usa de firulas estilísticas e concentra-se apenas em contar uma história.

Ali McGraw, que vive Jenny, logo em seguida se casaria com Robert Evans, um dos executivos da Paramount (a quem trocou pelo ator Steve McQueen ainda nos anos 70). McGraw não possui uma beleza estonteante, retratando o protótipo da garota comum ("the girl next door") que faria a glória de muitas atrizes dos anos 90 (tais como Sandra Bullock antes de se levar a sério). Seu trabalho, delicado e emocionante, encontra um perfeito apoio em Ryan O'Neal, que ficou com o papel de Oliver depois que inúmeros outros atores declinaram do convite - a saber, entre eles encontram-se Beau Bridges, Peter Fonda, Michael Douglas, Michael York, Jon Voight e Jeff Bridges. Jovem, bonito e carismático, O'Neal conquista a audiência logo em sua primeira cena, convidando-a carinhosamente para acompanhar sua trágica paixão.

E a trilha sonora é um capítulo à parte. Mesmo aqueles que se fartaram de ouvir a bela e adocicada música do francês Francis Lai em dezenas de caixinhas-de-música pelas décadas subsequentes não podem negar que ela é uma das mais marcantes e melancólicas partituras criadas para o cinema em todos os tempos. Não foi à toa que levou o único Oscar do filme, que justamente por sua natureza extremamente comercial teve que suportar o desprezo dos críticos mais comprometidos com o aspecto artístico do cinema, que provavelmente assistiram ao filme com óculos escuros para esconder as lágrimas. Afinal, como bem dizia Nelson Rodrigues, "ou o sujeito é crítico ou é inteligente..."

JADE

  JADE (Jade, 1995, Paramount Pictures, 95min) Direção: William Friedkin. Roteiro: Joe Eszterhas. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem...