Mostrando postagens com marcador KEVIN KLINE. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador KEVIN KLINE. Mostrar todas as postagens

segunda-feira

JOGOS DE ADULTOS

 


JOGOS DE ADULTOS (Consenting adults, 1992, Hollywood Pictures, 99min) Direção: Alan J. Pakula. Roteiro: Matthew Chapman. Fotografia: Stephen Goldblatt. Montagem: Sam O'Steen. Música: Michael Small. Figurino: Gary Jones, Ann Roth. Direção de arte/cenários: Carol Spier/Gretchen Rau. Produção executiva: Pieter Jan Brugge. Produção: Alan J. Pakula, David Permut. Elenco: Kevin Kline, Mary Elizabeth Mastrantonio, Kevin Spacey, Forest Whitaker, Rebecca Miller. Estreia: 16/10/92

Em 1982, o diretor Alan J. Pakula assinou uma de suas obras-primas, "A escolha de Sofia", que rendeu o Oscar de melhor atriz à Meryl Streep e marcou a estreia de Kevin Kline no cinema. Dez anos depois, cineasta e astro voltaram a se encontrar em "Jogos de adultos" - mas, já com Kline consagrado com uma estatueta de coadjuvante por "Um peixe chamado Wanda" (1988), o reencontro ficou muito longe de ser memorável. Vindo do sucesso apenas razoável de "Acima de qualquer suspeita" (1990) - que tornou anêmico o romance best-seller de Scott Turow - e antes de unir Julia Roberts e Denzel Washington na versão cinematográfica de "O Dossiê Pelicano", de John Grisham, Pakula decepcionou crítica e público com uma produção insossa que em momento algum lembra o brilhantismo de seus melhores trabalhos. Com um roteiro preguiçoso que praticamente evita qualquer tipo de suspense e uma direção quase mecânica, "Jogos de adultos" falha em todos os quesitos - e nem a presença de um iniciante Kevin Spacey oferece maiores motivos de entusiasmo.

A trama começa de forma promissora: entediados com a vida doméstica e com a solidão a dois imposta pela ida da filha à universidade, o casal formado por Richard e Priscilla Parker (Kevin Kline e Mary Elizabeth Mastrantonio) vê sua rotina alterada pela chegada à vizinhança de outro casal, bem menos convencional. Eddy e Kay Otis (Kevin Spacey e Rebecca Miller) não apenas se tornam amigos próximos mas também apresentam aos vizinhos um estilo de vida mais leve e divertido - e até mesmo quando Eddy demonstra não ser exatamente uma pessoa muito ética profissionalmente isso não atrapalha suas relações. A coisa começa a mudar de figura, porém, quando o simpático e sedutor novo amigo surge com uma ideia ousada: percebendo a atração de Richard por sua mulher e ele próprio encantado por Prsicilla, Eddy propõe uma troca de casais. Depois de muito hesitar, Richard aceita a proposta - mas quando Kay aparece violentamente assassinada, ele passa a ser o principal suspeito. Certo de que Eddy tem responsabilidade pelo crime, o até então pacato compositor de jingles comerciais luta para provar sua inocência e comprovar a culpa de seu carismático vizinho - agora viúvo e apaixonado por Priscilla.

 

Chega a ser inacreditável que um cineasta do porte de Pakula, que dotou produções como "A trama" (1974) e "Todos os homens do presidente" (1976) de um senso impecável de ritmo, seja o mesmo de "Jogos de adultos": com uma direção sem criatividade e uma edição monótona que impede qualquer chance de despertar interesse no espectador, seu filme sofre de uma absoluta falta de energia. Anêmico a ponto de anestesiar até mesmo aos normalmente bons atores que tem em mão - além dos dois Kevins o elenco conta ainda com Forest Whitaker -, o compasso do roteiro de Matthew Chapman (que mais tarde cometeria o problemático "A cor da noite", estrelado por Bruce Willis em 1994) não permite qualquer envolvimento do público, perdido (no pior sentido da palavra) em uma trama cuja reviravolta é previsível ainda no primeiro ato. Sem aprofundar nenhuma das questões levantadas em seu começo - a crise no casamento dos protagonistas, a personalidade dúbia do vilão, as engrenagens da justiça -, sua história peca principalmente ao negar à audiência os principais elementos de um filme de suspense: o mistério e a catarse: fica evidente desde os primeiros minutos que Eddy não é flor que se cheire e que sua insistência em movimentar a vida amorosa dos dois casais tem segundas e terceiras intenções, e o roteiro não faz a menor questão de subverter expectativas ou tomar rumos que não os mais óbvios. E isso sem falar no ato final, de uma pobreza criativa sem tamanho.

É uma pena que a soma de tantos talentos não impeça que "Jogos de adultos" seja uma produção tão esquecível - para não dizer medíocre. Nem mesmo Kevin Kline e Kevin Spacey, conhecidos por seus dotes dramáticos, conseguem oferecer qualquer tipo de energia que amenize a sensação de apatia que perpassa todos os 99 minutos (que parecem ser mais longos do que o normal) de projeção. Uma mancha desnecessária no currículo de todos os envolvidos.

quarta-feira

DE-LOVELY: VIDA E AMORES DE COLE PORTER


DE-LOVELY: VIDA E AMORES DE COLE PORTER (De-lovely, 2004, MGM Pictures, 125min) Direão: Irwin Winkler. Roteiro: Jay Cocks. Fotografia: Tony Piece-Roberts. Montagem: Julie Monroe. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Eve Stewart/John Bush. Produção executiva: Simon Channing Williams, Gail Egan. Produção: Rob Cowan, Charles Winkler, Irwin Winkler. Elenco: Kevin Line, Ashley Judd, Jonathan Pryce, Kevin McNally, Sandra Nelson, Allan Corduner, Kevin McKidd. Estreia: 22/5/2004 (Festival de Cannes)

Um dos mais influentes compositores populares dos EUA, Cole Porter deixou sua marca indelével de elegância e inteligência em centenas de canções antológicas, que ultrapassaram os limites dos palcos da Broadway, dos estúdios de Hollywood e de gravações clássicas de nomes como Frank Sinatra, Bing Crosby e Gene Kelly. Símbolo de um período de glamour que o surgimento de gêneros musicais bem menos sutis fez desaparecer, Porter viu sua vida ser transformada em filme - o romântico e pouco confiável "Canção inesquecível" (1946) - e morreu em 1964 depois de uma série de problemas de saúde e perdas irreparáveis que fizeram de seus últimos anos um período melancólico e pouco produtivo. E levando-se em conta sua importância para a cultura - tanto em termos locais quanto internacionais -, não deixa de ser surpreendente que tenham levado quatro décadas desde sua morte para que finalmente contassem sua história de forma digna. "De-lovely: vida e amores de Cole Porter" pode não ser a obra-prima que poderia, mas é uma produção que faz jus a tudo que seu protagonista representou, representa e representará no futuro, ao aproximar suas inesquecíveis canções do tom de modernidade que sempre foram sua maior característica. Com um Kevin Kline impecável no papel central - a ponto de cantar e dançar sem artifícios baratos -, o filme do bissexto Irwin Winkler (seis filmes em treze anos) é uma ode ao artista e ao homem, recheada de excelentes números musicais e com uma caprichada reconstituição de época.

Contada em formato de musical, como convém, a história de Cole Porter é mostrada, em "De-lovely", em três atos, através de flashbacks, onde o próprio Porter vê sua vida reconstituída enquanto um espetáculo sobre ele é montado sob a supervisão do atencioso Gabe (Jonathan Pryce). O primeiro ato se concentra nos primeiros anos do relacionamento entre o compositor e a socialite Linda Lee Thomas (Ashley Judd) - ela divorciada e presença frequente nas melhores festas da alta sociedade, ele notoriamente homossexual e a alma das recepções, com seu humor afiado e sofisticação à toda prova. Casado e compreendido, Porter se vê encorajado a tornar-se compositor profissional, depois de temporadas em Veneza e Nova York. O segundo ato já lhe mostra bem-sucedido na carreira, criando obras-primas para a Broadway e Hollywood, o que de certa forma aprofunda a crise no casamento - cada vez mais atraído pela boemia e por rapazes, Porter aos poucos passa a abandonar Linda e seu relacionamento mais estável. O terceiro e final ato - mais dramático e trágico - começa com um grave acidente, que irá determinar seus últimos anos de vida, além de reaproximá-lo de sua mulher e fortalecer de vez seus laços afetivos, principalmente quando ela também se descobre gravemente doente.


"De-lovely" é uma produção com inúmeras qualidades. O desenho de produção requintado e o figurino de Janty Yates conduz o público por uma viagem no tempo, pelo glamour das altas rodas da Europa e dos EUA desde o final da década de 1910 até os anos 1960, ocasião da morte de Porter. Os números musicais são preciosos, apresentando artistas contemporâneos como Alanis Morissette, Robbie Williams, Elvis Costelo, Sheryl Crow, Diana Krall, Lara Fabian e Natalie Cole entoando as canções imortais do compositor em sequências organicamente inseridas no contexto onírico criado pelo roteirista Jay Cocks - colaborador frequente de Martin Scorsese. Ashley Judd, apesar de jovem demais para o papel de Linda - na verdade quase uma década mais velha do que Porter -, sai-se muito bem no desafio de encarnar uma mulher à frente do seu tempo, ao mesmo tempo confiante o bastante para encarar um casamento com um homem cuja orientação sexual só poderia lhe trazer sofrimento e romântica o suficiente para acreditar que seu amor poderia evitar tais lágrimas. E Kevin Kline deita e rola em um papel capaz de mostrar à plateia - se é que ela ainda não sabe - todos os seus dotes como ator, cantor e dançarino. Mesmo assim, com tantos elementos admiráveis, algo falta ao filme de Irwin Winkler para torná-lo uma produção inesquecível. E não é difícil perceber o que.

Sem experiência na direção de musicais, Winkler não parece à vontade em comandar um filme do gênero, ficando no meio-termo entre um musical assumido ou um drama biográfico de narrativa clássica.. Logicamente seria inaceitável falar de Cole Porter sem que suas obras atravessassem a tela, e nesse ponto o filme de Winkler é feliz, sabendo espalhar canções pela tela sem deixar o programa cansativo. O problema é que, como frequentemente acontece com filmes que tentam abraçar vidas inteiras em poucas horas, é inevitável que haja falta de profundidade no desenvolvimento dos personagens. Até mesmo a relação entre Cole e Linda deixa dúvidas na mente do espectador - até que ponto a homossexualidade do compositor atrapalhava o casamento, por exemplo? E como ele passou de novato a estrela da Broadway? E como foi sua passagem pelo cinema, já que não é dada muita atenção a essa parte de sua carreira? Como o subtítulo em português deixa claro, o filme se dedica às relações interpessoais do músico - com sua esposa e seus ocasionais amantes -, mas mesmo elas não são desenvolvidas a contento. Resta a excelência visual, o desempenho de Kline e as canções, essas sim eternas.

terça-feira

FEROCIDADE MÁXIMA


FEROCIDADE MÁXIMA (Fierce creatures, 1997, Universal Pictures, 93min) Direção: Robert Young, Fred Schepsi. Roteiro: John Cleese, Iain Johnstone, ideia "The Fierce Animal Policy", de Terry Jones e Michael Palin. Fotografia: Ian Baker, Adrian Biddle. Montagem: Robert Gibson. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Hazel Pethig. . Direção de arte/cenários: Roger Murray-Leach/Peter Howitt, Stephenie McMillan, Brian Read. Produção executiva: Steve Abbott. Produção: John Cleese, Michael Shamberg. Elenco: Kevin Kline, Jamie Lee Curtis, John Cleese, Michael Palin. Estreia: 23/01/97

Em 1988, o mundo foi tomado de assalto por uma comédia despretensiosa que, unindo o senso de humor nonsense do grupo britânico Monthy Phyton com o cinismo norte-americano, conquistou público (com uma renda acima de 60 milhões de dólares de arrecadação) e a crítica (com três indicações ao Oscar, incluindo direção e roteiro original, levou pra casa a estatueta de ator coadjuvante). "Um peixe chamado Wanda" mesclava, de forma inteligente e ácida, piadas verbais e visuais com uma velocidade estonteante, deu à Jamie Lee Curtis um dos melhores papéis de sua carreira e mostrou às plateias a veia cômica de Kevin Kline, até então celebrado por papéis dramáticos em filmes como "A escolha de Sofia" (1982) , "O reencontro" (1983) e "Um grito de liberdade" (1987). Desde então, entusiasmados com o êxito, os fãs da produção tinham apenas uma pergunta em mente: "quando eles irão se reunir novamente?" Demorou, mas aconteceu. Quase uma década depois, estreava nos cinemas "Ferocidade máxima". A notícia boa: quase todo mundo da equipe original estava de volta (com exceção do diretor Charles Crichton). A notícia ruim: apesar de algumas boas ideias e do talento inquestionável de todos os envolvidos, o filme não apresentava o mesmo frescor de "Um peixe" e naufragou solenemente nas bilheterias mesmo com as mudanças exigidas depois de uma série de exibições-teste.

Talvez o maior problema no caminho de "Ferocidade máxima", além da tentativa de emplacar um filme de piada única estendida à exaustão, tenha sido o excesso de expectativas. Depois de quase dez anos de espera, o público estava ávido por gargalhar à exaustão com as novas besteiras da trupe capitaneada por John Cleese e Michael Palin - este com um papel ainda menor do que o que lhe coube em "Um peixe chamado Wanda". O que encontrou foi o resultado de uma produção problemática, que necessitou de refilmagens depois de pronta - com um novo diretor, Fred Schepsi - e estreou quase um ano depois da data programada. Dotado de algumas cenas realmente engraçadas - em especial aquelas que envolvem o mal-entendido a respeito das aventuras sexuais de Rollo Lee (Michael Palin) - e uma ideia central das mais inusitadas, o filme assinado por Robert Young deixa a desejar principalmente devido à irregularidade do roteiro, que não permite ao espectador se envolver suficientemente com os personagens, e à direção sem os toques de genialidade de Charles Crichton - indicado ao Oscar por "Um peixe chamado Wanda" e deixado de fora do novo filme pela idade avançada de 84 anos de idade, o que prejudicaria o sinal verde para o projeto). Kevin Kline - que ganhou um merecido Oscar pelo filme anterior - faz papel duplo, mas está longe de sua melhor forma, prejudicado por personagens pouco simpáticos, e Jamie Lee Curtis tampouco é explorada em todo o seu potencial, sendo relegada quase a segundo plano. Resta John Cleese, que arranca o máximo de cada cena, utilizando sua experiência de décadas para valorizar cada diálogo e gesto. 

A trama central é um achado: um poderoso e irascível empresário, Rod McCain (Kevin Kline), acaba de comprar, dentro de um de seus vários negócios, um zoológico londrino, o London Marwood Zoo, e contrata para dirigí-lo o tímido e desajeitado Rollo Lee (John Cleese), que tem a dura missão de encontrar uma maneira de aumentar a lucratividade do local. Lee tem a ideia de acabar com os animais dóceis e dedicar o zoológico apenas a feras de alta periculosidade, o que imediatamente causa revolta nos funcionários mais antigos, principalmente no veterano Adrian Malone (Michael Palin), que vê na novidade o risco de perder o emprego. As coisas ficam ainda mais complicadas quando chegam a Londres o filho de Rod, o frívolo Vince (também Kevin Kline) e a sensual Willa Carter (Jamie Lee Curtis), recém-contratada para trabalhar com Lee - por quem se sente surpreendentemente atraída ao julgá-lo um sedutor contumaz. Juntos, Vince e Willa irão testemunhar a batalha dos funcionários, capazes de qualquer coisa para provar que até mesmo os coelhinhos do zoológico são ferozes e perigosos.

Algumas cenas de "Ferocidade máxima" são sensacionais: ao descobrir a armação dos empregados, Lee tenta desmascará-los à custa de uma visitante ferida do zoológico; Willa e Vince ouvem Lee falando com os animais que resgatou e julgam que ele está acompanhado de várias mulheres; uma aranha venenosa escapa enquanto Malone está escondido em um armário para gravar conversas comprometedoras. Infelizmente elas não são o bastante para fazer de "Ferocidade máxima" um sucessor à altura de "Um peixe chamado Wanda", cuja estrutura era muito mais firme e redonda. O elenco ainda é seu maior trunfo - apesar de nem sempre ser completamente explorado -, mas a direção carece de inventividade. Ficam patentes a confusão de bastidores, a troca de diretores, a indecisão do roteiro em focar no zoológico ou nos problemas entre os McCain. É uma pena que todo o potencial da produção não tenha sido atingido e que não tenha se tornado mais um clássico instantâneo. É uma boa comédia, capaz de arrancar uma ou outra gargalhada - mas em comparação com seu antecessor, não deixa de ser decepcionante, apesar de suas qualidades óbvias. 

segunda-feira

SEGREDOS DE UMA NOVELA


SEGREDOS DE UMA NOVELA (Soapdish, 1991, Paramount Pictures, 97min) Direção: Michael Hoffman. Roteiro: Robert Harling, estória de Robert Harling, Andrew Bergman. Fotografia: Ueli Steiger. Montagem: Garth Craven. Música: Alan Silvestri. Figurino: Nolan Miller. Direção de arte/cenários: Eugenio Zanetti/Lee Poli. Produção executiva: Herert Ross. Produção: Alan Greisman, Aaron Spelling. Elenco: Sally Field, Kevin Kline, Whoopi Goldberg, Elisabeth Shue, Robert Downey Jr,, Cathy Moriarty, Gary Marshall, Teri Hatcher, Kathy Namiji. Estreia: 31/5/91

Ao contrário do que acontece no Brasil, onde gozam de relativo prestígio junto ao público e à crítica, as telenovelas produzidas nos EUA não são exatamente um veículo nobre para atores. Normalmente apresentadas no horário vespertino, as novelas norte-americanas (ao contrário das séries, hoje alçadas a filé mignon das emissoras) frequentemente apelam para tramas rocambolescas e inverossímeis, anos e mais anos de duração e um tom que raramente escapa do dramalhão mais cafona. A julgar pela comédia "Segredos de uma novela", seus bastidores também não são nada tranquilos: exageros cômicos à parte, o filme de Michael Hoffman - que posteriormente assinaria o romântico "Um dia especial" (1996), o shakespereano "Sonho de uma noite de verão" (1999) e o subestimado "A última estação" (2009) - retrata o dia-a-dia da produção de uma dessas novelas tão populares quanto inacreditáveis de forma ao mesmo tempo debochada e carinhosa. Co-produzido por Aaron Spelling - ele mesmo vindo do mundo da televisão, onde produziu sucessos como "As panteras" e  "Barrados no baile" - e estrelado por um elenco de sonhos, "Segredos de uma novela" diverte enquanto dura, mas, assim como os produtos que critica, é provável que desapareça da memória do espectador tão logo acabe sua sessão.

Longe de querer ser a obra definitiva sobre o assunto - soa bem mais como uma descompromissada sessão da tarde do que um tratado a respeito de teledramaturgia popular -, o filme de Hoffman brinca com as percepções do público a respeito de astros, estrelas, roteiristas e produtores sem preocupar-se com a fidelidade absoluta - e acerta em cheio ao utilizar-se de metalinguagem como forma de enfatizar  os absurdos que circundam a criação de uma obra aberta. Ao criticar as reviravoltas que abundam nas produções televisivas, o roteiro também faz uso delas para efeito histriônico: na trama criada pelo dramaturgo Robert Harling e desenvolvida por ele e Andrew Bergman, há espaço para romances interrompidos, maternidades escondidas, traições e sexualidades duvidosas - tudo revelado ao vivo, diante de um público ávido por ser surpreendido a cada capítulo.

A protagonista do filme é Celeste Talbert (Sally Field,  estrela absoluta da telenovela "The sun also sets", no ar há anos com espantosos índices de audiência e prêmios acumulados pela crítica. Idolatrada pelos fãs, Talbert parece estar entrando em seu inferno astral: abandonada pelo marido, ela ainda precisa lidar com a velada perseguição do jovem produtor David Barnes (Robert Downey Jr.), que seduzido pela promessa de uma noite de amor com a ambiciosa Montana Moorehead (Cathy Moriarty), procura um jeito de aumentar seu papel na novela mesmo ameaçando sua coerência interna. Protegida pela roteirista principal, Rose Schwartz (Whoopi Goldberg), Talbert tenta não se deixar abater pela crise, mas vê as coisas se complicarem ainda mais quando, para seu desespero, seu antigo amante, Jeffrey Anderson (Kevin Kline), volta à cena como seu novo par romântico, o que traz à luz um passado traumático e um segredo que pode abalar sua popularidade. Não bastasse tudo isso, ela começa a sentir o peso da idade, principalmente quando sua sobrinha, Lori Craven (Elisabeth Shue), passa a disputar com ela, involuntariamente, o posto de atriz preferida pelas plateias, e ilustrar capas de revistas.

Criada por Robert Harling durante os bastidores das filmagens de "Flores de aço" - baseado em uma peça de sua autoria, e estrelado por Sally Field em 1989 -, a trama de "Segredos de uma novela" foi desenvolvida pelo próprio Harling e pelo roteirista/cineasta Andrew Bergman, que poucos anos depois cometeria o infame "Striptease" (1996), com Demi Moore. Brincando com os excessos dramáticos atrelados às produções televisivas (onde parece não haver limites para a falta de verossimilhança), eles não hesitam em forçar situações que, por um lado refletem o tom do gênero, e por outro fazem rir desse mesmo tom. Field, ela mesma um ícone da televisão norte-americana dos anos 1960, com "A noviça voadora" e figurinha fácil nas telinhas nas últimas décadas, com participações em "Plantão médico" e papel central em "Brothers and sisters", está precisa em seu timing cômico, e encontra em Kevin Kline o parceiro ideal: seu Jeffrey Anderson é o retrato perfeito do ator de teatro respeitado (mas sem sucesso popular) que encontra na teledramaturgia barata a forma de sobreviver de sua arte. A presença de Kline, um dos grandes e mais subestimados atores de Hollywood, não apenas valoriza o filme de Hoffman, mas acrescenta sabor aos bastidores em si - não fosse ele a interpretar Anderson o papel poderia ter ficado com Burt Reynolds, que, por coincidência ou não, é ex-namorado da própria Sally Field. Uma ironia que seria bem-vinda ao propósito da produção - mas que não aconteceu por receio do próprio Reynolds.

A energia caótica de "Segredos de uma novela" é um trunfo: reuniões de diretoria - com ideias absurdas jorrando de mentes mais interessadas em índices de audiência do que integridade artística -, intrigas rocambolescas, ressentimentos pouco disfarçados e a fogueira das vaidades queimando tudo à sua volta fazem da produção um entretenimento cujo teor narcisista é facilmente perdoável. Mesmo que o roteiro por vezes exagere na superficialidade - o que talvez seja uma crítica a mais à indústria - e não permita que parte do elenco tenha seu potencial explorado a contento - caso de Robert Downey Jr., Elisabeth Shue e até mesmo Whoopi Goldberg -, o saldo final é no mínimo agradável. Rindo do que acontece por trás das câmeras de um programa de televisão, o filme acaba, de certa forma, homenageando sua capacidade de reinvenção e perenidade junto ao público. A sensação de assistí-lo é, de certa forma, a mesma de tomar um café da tarde junto a seus personagens mais queridos - e suas idiossincrasias mais extraordinárias.

terça-feira

A BELA E A FERA

A BELA E A FERA (Beauty and the Beast, 2017, Walt Disney Films, 129min) Direção: Bill Condon. Roteiro: Stephen Chbosky, Evan Spiliotopoulos, roteiro da animação original de Linda Woolverton. Fotografia: Tobias Schliessler. Montagem: Virginia Katz. Música: Alan Menken. Figurino: Jacqueline Durran. Direção de arte/cenários: Sarah Greenwood/Katie Spencer. Produção executiva: Don Hahn, Thomas Schumacher, Jeffrey Silver. Produção: David Hoberman, Todd Lieberman. Elenco: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Josh Gad, Kevin Kline, Ewan McGregor, Ian McKellen, Emma Thompson, Stanley Tucci. Estreia: 23/02/17

2 indicações ao Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários

Em 1992, "A Bela e a Fera", animação produzida pela Disney, conseguiu furar um bloqueio histórico e ser indicada ao Oscar de Melhor Filme, anos antes que desenhos animados tivessem uma categoria para chamarem de sua e passassem a ser levados tão a sério quanto qualquer gênero mais "adulto" - e frequentemente também lembrados na corrida à estatueta principal. Na época, ficou apenas com os prêmios tradicionalmente relegados às animações (trilha sonora original e canção), mas abriu um precedente inesperado, já que fazia pouco tempo que o estúdio do Mickey havia readquirido seu status de grande produtor de filmes do gênero. Bem-sucedido nas bilheterias e aplaudido pela crítica, "A Bela e a Fera" se manteve no inconsciente coletivo do público por décadas, até que a mesma Disney teve a ideia de apresentá-lo a novas gerações - mas em formato diferente. A intenção era manter o clima original, parte das canções e a trama central, mas em live-action. Algo assim já havia sido testado em "Cinderela", dirigido por Kenneth Branagh em 2015, mas dessa vez o projeto era muito mais ambicioso: não apenas estenderia o roteiro em 45 minutos (em relação ao original) como contaria com uma atriz de considerável poder de atração, a inglesa Emma Watson, famosa por sua participação na bilionária série cinematográfica "Harry Potter". Além disso, o orçamento seria muito generoso (cerca de 160 milhões de dólares) e o diretor seria o vencedor do Oscar de melhor roteiro, Bill Condon (que arrebatou a estatueta em 1999 por "Deuses e monstros" e tinha no currículo ainda o elogiado "Kinsey: vamos falar de sexo", de 2004). Não tinha como dar errado. E não deu.

Antes mesmo de sua estreia, a nova versão de "A Bela e a Fera" já prometia ser um enorme sucesso: em suas primeiras 24 horas on line, o teaser do filme foi visto quase 92 milhões de vezes, estabelecendo, à época, um recorde. Com suas filmagens terminadas em agosto de 2015, o estúdio deixou a plateia em compasso de espera por cerca de um ano e meio até seu lançamento, em fevereiro de 2017: se foi proposital ou não é uma incógnita, mas o fato é que a estratégia deu certo, e o filme rendeu mais de 174 milhões de dólares em seu primeiro fim-de-semana nos EUA. Ao redor do mundo, a renda total foi de mais de um bilhão de dólares - uma cifra que nem mesmo os mais otimistas executivos ousariam sonhar. A melhor notícia, no entanto, quem recebeu foi o público: apesar do marketing, do orçamento inchado e de precisar atingir um patamar altíssimo de expectativa, a versão em carne e osso de "A Bela e a Fera" é um filme que em nada fica a dever a seu original: é visualmente belíssimo, tem uma trilha sonora da mais alta qualidade, um elenco muitíssimo bem escalado (desde os protagonistas até os coadjuvantes dos quais apenas se ouvem as vozes até o belo final) e um perfeito equilíbrio entre drama, aventura, romance e comédia. Tal conexão, porém, poderia não ter acontecido, caso o elenco escolhido tivesse sido outro - o que poderia muito bem ter acontecido.


Antes que Emma Watson tivesse assinado o contrato para viver Belle - com um cachê de três milhõs de dólares mais percentagem sobre a milionária bilheteria -, vários nomes chegaram a ser considerados: Lily Collins (que viveu Branca de Neve em "Espelho, espelho meu", de 2011), Emmy Rossum (a mocinha de "O fantasma da ópera", lançado em 2004), Amanda Seyfried (que havia soltado a voz em "Mamma Mia!", de 2008), Kristen Stewart (que também interpretou Branca de Neve, em "Branca de Neve e o caçador", em 2011) e Emma Roberts. O papel principal masculino - que exigiria de seu intérprete uma alta dose de paciência para atuar sob uma pesada maquiagem e ter seu rosto escondido sob CGI - também teve alguns nomes considerados antes que Dan Stevens o assumisse: Robert Pattinson, o famigerado vampiro Edward da série "Crepúsculo" esteve na mira do diretor Bill Condon - que assinou os dois últimos filmes baseados nos livros de Stephanie Meyer - e o galã do momento, Ryan Gosling, chegou a ser convidado para o papel, preferindo literalmente cantar em outra freguesia - mais precisamente nos sets de "La La Land: Cantando Estações", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor ator. Coincidência ou não, Emma Watson fez o caminho inverso: declinou da proposta para ser a protagonista do premiado filme de Demian Chazelle e preferiu realizar nas telas um de seus sonhos de criança. E o veterano Ian McKellen - que havia recusado dublar o relógio Cogsworth na produção de 1991 - dessa vez aceitou o desafio de criar o mesmo personagem. A seu lado, no time de dubladores que só mostram o rosto no desfecho do filme, nomes como os de Ewan McGregor, Emma Thompson e Stanley Tucci.

A trama do filme dessa vez comandado por Condon continua a mesma, diferindo apenas no desenvolvimento maior de alguns personagens: um príncipe, vaidoso e arrogante (Dan Stevens) é amaldiçoado por uma feiticeira e se transforma em um monstro, além de ver seu castelo, sua história e seus empregados apagados da memória de todos os que os conheceram. Seus criados são transformados em objetos e, na nova forma animalesca, ele se isola do mundo, permanecendo em seu castelo longe da vista de todos. Alguns anos mais tarde, ao tentar levar uma rosa do jardim do palácio para sua filha, o solitário Maurice (Kevin Kline) é aprisionado pela fera. Guiada por seu cavalo, que a leva diretamente ao castelo, Belle (Emma Watson), uma bela e voluntariosa jovem, consegue libertar seu pai ao oferecer-se ao posto de prisioneira. Empolgados com a situação, os objetos/criados tentam aproximar Belle da Fera - eles sabem que a única maneira de voltarem à forma original é fazer com que a garota se apaixone por ele apesar de sua aparência. Como todo conto de fadas, "A Bela e a Fera" precisa que o público compre sua história sem maiores questionamentos, e o filme de Condon consegue tal façanha sem fazer muita força. Ao transformar Belle em uma heroína de atitudes decididas, independente e com personalidade de sobra, o roteiro aproxima a trama de um contexto mais apropriado ao século XXI - o que torna o antagonista, Gaston (Luke Evans), ainda mais desagradável mesmo em comparação com uma fera. Inspirada em Katharine Hepburn, a jovem Emma Watson alcança o tom exato da personagem e conduz o espetáculo com segurança e graça. Pode até não agradar a quem não é fã de musicais, mas é inegavelmente um espetacular trabalho de adaptação, visualmente excitante e artisticamente sofisticado - mas sem perder, por um segundo sequer, seu diálogo com qualquer tipo de plateia. Um triunfo!

quinta-feira

RICKI AND THE FLASH: DE VOLTA PARA CASA

RICKI AND THE FLASH: DE VOLTA PARA CASA (Ricki and The Flash, 2015, TriStar Pictures, 101min) Direção: Jonathan Demme. Roteiro: Diablo Cody. Fotografia: Declan Quinn. Montagem: Wyatt Smith. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/George De Titta Jr.. Produção executiva: Ron Bozman, Lorene Scafaria, Adam Siegel, Ben Waisbren. Produção: Diablo Cody, Gary Goetzman, Mason Novick, Marc Platt. Elenco: Meryl Streep, Kevin Kline, Mammie Gummer, Rick Springfield, Audra McDoald, Ben Platt, Sebastian Stan, Nick Westrate. Estreia: 03/8/15

O diretor é Jonathan Demme, vencedor do Oscar por "O silêncio dos inocentes" (91). O roteiro é de Diablo Cody, que levou pra casa uma estatueta por "Juno" (2007). O elenco reúne os premiados Meryl Streep (três Oscar e mais de vinte indicações) e Kevin Kline (laureado como coadjuvante por "Um peixe chamado Wanda", de 1988) - ambos do elenco do inesquecível "A escolha de Sofia" (82). A trilha sonora conta com canções de Bruce Springsteen, Tom Petty, Rolling Stones, Pink e Lady Gaga - todas interpretadas por Streep. E, para completar, a veterana atriz estaria em cena no papel de mãe de sua filha na vida real, Mammie Gummer. Com tantos atrativos, por que então "Ricki and The Flash: de volta para casa" deu tão errado? Tido como um forte candidato às cerimônias de premiação das quais Streep é frequentadora assídua, o filme de Demme não apenas naufragou nas bilheterias americanas como foi solenemente ignorado nos tapetes vermelhos de Hollywood. Talvez tenha sido o excesso de expectativas, mas o fato é que o último trabalho do cineasta (que morreu em abril de 2017) decepcionou a crítica e não chamou a atenção do público - o que não é exatamente difícil de entender, uma vez que o filme é um drama familiar apenas mediano, nem de longe inovador e corajoso como seus melhores trabalhos.

Revelado por comédias anárquicas, como "Totalmente selvagem" (87) e "De caso com a máfia" (88), Jonathan Demme acabou rendido ao mainstream depois da surpreendente (e maciça) vitória no Oscar 92, quando seu mórbido "O silêncio dos inocentes" ganhou as cinco principais estatuetas da noite - filme, diretor, roteiro, ator e atriz. Alçado imediatamente a um nome comercialmente viável (o filme de suspense também foi um enorme sucesso financeiro), ele abraçou de vez a comunidade hollywoodiana. Realizou "Filadélfia" (93) - que deu o Oscar de melhor ator a Tom Hanks - e passou a dividir a carreira entre produções caras ("Bem-amada", fracasso de 1998, estrelado e produzido por Oprah Winfrey), remakes ("O segredo de Charlie" em 2002 e "Sob o domínio do mal" em 2004) e documentários e ocasionais episódios de séries de televisão. Em 2008, experimentou uma quase ressurreição crítica quando seu "O casamento de Rachel" proporcionou à Anne Hathaway sua primeira indicação ao Oscar. Experiente e iconoclasta - mas bem mais manso do que no começo de sua trajetória -, Demme não demonstra, em "Ricki and The Flash", a mesma energia de suas obras mais célebres. Mesmo sendo um filme que não chega a ofender a inteligência da plateia, é apenas uma pálida lembrança de seu talento incendiário e pulsante.


Levemente inspirada na história de sua sogra (uma roqueira mãe de família), Diablo Cody criou uma trama frágil, amparada basicamente no carisma de seus protagonistas e na trilha sonora caprichada. Meryl Streep faz o que pode no papel principal - além de cantar e tocar guitarra de verdade -, mas Kevin Kline é subaproveitado, relegado a um segundo plano injusto e pouco interessante. Streep vive a líder de um grupo de rock chamado Ricki and The Flash, que toca em um pequeno bar da Califórnia: é assim, ao lado do marido/colega/namorado Greg (o músico Rick Springfield) e outros músicos de meia-idade que terminou sua busca pelo sucesso artístico, que a levou a abandonar a família quando os filhos ainda eram crianças. Como um chamado do passado, seu ex-marido, Pete (Kevin Kline) lhe pede socorro em uma situação emergencial: abalada com o fim de seu casamento ainda recente, sua filha, Julie (Mamie Gummer), está em depressão profunda e, segundo seu pai, precisa da ajuda materna. Mesmo hesitante quanto à veracidade da carência de Julie, Ricki (cujo nome verdadeiro é Linda) pega um avião para Indianapolis e encontra a jovem realmente em estado deplorável. Porém, como sua saída da vida da família não foi exatamente diplomática, existem muitas arestas a serem aparadas na relação mãe e filha - assim como na dinâmica de seu relacionamento com os outros dois filhos, um deles prestes a casar e o outro assumidamente gay.

A volta inesperada de Ricki (ou Linda) ao seio da família, que foi reconstruída em sua ausência, serve como o catalisador que faltava para uma tormenta de ressentimentos vir à tona. Seus filhos não a consideram tanto como à nova esposa de Peter, a dedicada Maureen (Audra McDonald), e ela passa a questionar se suas escolhas realmente valeram a pena. Nesse meio-tempo, ressurge entre ela e Julie uma tênue, mas ainda existente, ligação, e seu deslocamento em relação a tudo que se refere à vida normal torna-se não mais motivo de orgulho, e sim de certa tensão. O cineasta constrói com delicadeza a reconciliação entre mãe e filhos, mas é inegável que o maior problema do filme é o roteiro superficial de Diablo Cody. Ao contrário de "Juno" - e até mesmo de "Jovens adultos" (2012), seu reencontro com o cineasta Jason Reitman -, a trama de "Ricki and The Flash" nunca soa convincente o bastante para emocionar o espectador. Até mesmo o clímax parece forçado - seguindo uma receita já testada diversas vezes e que pode até divertir, mas nunca ultrapassa o previsível e o inverossímil. É uma pena que a despedida de Demme não tenha feito jus à sua carreira - mas, ao menos, é uma produção simpática que, se não muda a vida de ninguém, também não é uma total perda de tempo. Realmente é só uma questão de baixar as expectativas que seus créditos possam suscitar.

domingo

SURPRESAS DO CORAÇÃO

SURPRESAS DO CORAÇÃO (French kiss, 1995, Polygram Filmed Entertainment/20th Century Fox, 111min) Direção: Lawrence Kasdan. Roteiro: Adam Brooks. Fotografia: Owen Roizman. Montagem: Joe Hutshing. Música: James Newton Howard. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Jon Hutman/Kara Lindstrom. Produção executiva: Charles Okun. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Kathryn F. Galan, Meg Ryan. Elenco: Meg Ryan, Kevin Kline, Timothy Hutton, Jean Reno, François Cluzet. Estreia: 05/5/95

Desde sua estreia como cineasta em 1981, com o neonoir "Corpos ardentes", o roteirista Lawrence Kasdan sempre demonstrou uma versatilidade ímpar, percorrendo praticamente todos os estilos com inteligência e talento. Foi assim com os dramas "O reencontro" (83) e "Grand Canyon: ansiedade de uma geração" (91), a comédia de humor negro "Te amarei até te matar" (90), o romance de "O turista acidental" (88) e os westerns "Silverado" (85) e "Wyatt Earp" (94). Não chega a ser uma surpresa, portanto, que seu nome esteja por trás de "Surpresas do coração", sua primeira (e até agora única) investida na comédia romântica. Tampouco é surpreendente que, como aval para sua estreia, ele tenha contado com a providencial ajuda daquela que, na metade dos anos 90, era o principal nome de Hollywood no gênero: Meg Ryan. Uma das produtoras do filme, Ryan é a cara do projeto, uma produção agradável, divertida e inofensiva que, se não chega a ser memorável, ao menos é um passatempo bastante sofisticado, emoldurado por belas paisagens francesas e por um roteiro esperto que brinca com as diferenças culturais entre EUA e França - além de contar com um belo elenco e a fotografia inspirada de Owen Roizman em seu último trabalho.

Como frequentemente acontece no mundo do cinema, "Surpresas do coração" caiu nas mãos de Kasdan na hora certa: esgotado depois das problemáticas filmagens de "Wyatt Earp" - realizado com grande ambição mas recebido com frieza pelo público e pela crítica - e querendo um período de férias, ele encontrou, no roteiro de Adam Brooks, a desculpa perfeita para passar um tempo na França ao mesmo tempo em que trabalhava em um projeto menos grandioso. Sem poder contar com a presença de Gérard Depardieu (para quem o protagonista masculino foi escrito), o cineasta resolveu a questão da melhor forma possível e chamou para o elenco um amigo pessoal, parceiro habitual e, ainda mais importante, um ator sensacional. Em seu quinto trabalho com Kasdan, o premiado e sempre imprevisível Kevin Kline acrescenta um tempero a mais no filme, em uma personificação impagável de anti-galã - com direito a visual desleixado, mau-humor constante... e um charme incontestável.


A trama começa quando Kate (Meg Ryan), uma americana em vias de casar-se com o noivo, Charlie (Timothy Hutton), e assumir cidadania canadense, descobre, da pior maneira possível, que ele desistiu do compromisso depois de apaixonar-se por uma jovem francesa em sua viagem a Paris. Desesperada para reconquistá-lo, ela supera sua fobia de voar e resolve viajar ao encontro do novo casal. No avião, ela senta ao lado de Luc Teyssier (Kevin Kline), um típico francês falastrão e estranhamente interessado em suas histórias. Na verdade, o que Kate não sabe e só irá descobrir muito depois - quando já for tarde para tomar qualquer providência a respeito - é que Luc é um conhecidíssimo ladrão de joias que escondeu um valioso colar em sua mochila, juntamente com uma muda com a qual planeja começar um vinhedo em sua terra natal. Roubada por um antigo comparsa de Luc e sem possibilidade de voltar para casa, só resta à Kate reencontrar Charlie - e para isso, ela conta com a ajuda inesperada do adorável criminoso.

"Surpresas do coração" é o que se pode esperar de um filme estrelado por Meg Ryan. Assim como em todos os seus trabalhos anteriores do estilo, a atriz é simpática, engraçada e desajeitada na medida certa para a identificação da plateia feminina e interesse da masculina. Tal previsibilidade é, ao mesmo tempo, o maior trunfo e o calcanhar de Aquiles do filme: enquanto oferece ao público o que ele deseja quando se trata de uma comédia romântica (belas paisagens, personagens adoráveis, bons momentos de humor, uma trilha sonora inspirada), o trabalho de Kasdan não surpreende em momento algum, seguindo com lealdade canina todos os passos de uma produção do gênero. É lógico que o desempenho de Kevin Kline acrescenta prestígio ao filme (assim como o elenco francês, que inclui Jean Reno e François Cluzet, além do vencedor do Oscar Timothy Hutton), mas desta vez Kasdan não imprime uma marca diferencial, uma releitura que dê sua personalidade ao filme. É uma comédia romântica simples e eficiente, mas sem a intensidade de seus trabalhos anteriores - o que talvez seja algo proposital, afinal ele queria férias, não é verdade? No final das contas, para os fãs de Ryan, Kline e comédias românticas em geral, é um prato saboroso. Para o resto do público, é um passatempo dos mais divertidos - o que já é muito mais do que se pode dizer de boa parte de seus congêneres.

quinta-feira

MINHA QUERIDA DAMA

MINHA QUERIDA DAMA (My old lady, 2014, BBC Films, 107min) Direção: Israel Horovitz. Roteiro: Israel Horovitz, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Michel Amathieu. Montagem: Stephanie Ahn, Jacob Craycroft. Música: Mark Orton. Figurino: Jacqueline Bouchard. Direção de arte/cenários: Pierre-François Limbosch/Daphné Deboaisne. Produção executiva: Daniel Battsek, Raphael Benoliel, Charles S. Cohen, Mike Goodridge, Israel Horovitz, Russ Krasnoff, Christine Langan, Joe Oppenheimer. Produção: David C. Barrot, Nitsa Benchetrit, Gary Foster, Rachael Horovitz. Elenco: Kevin Kline, Maggie Smith, Kristin Scott Thomas, Dominique Pinon. Estreia: 10/9/14

Nada como bons atores de posse de bons diálogos e personagens com profundidade o bastante para explorar seus talentos: essa é a certeza que fica após uma sessão de "Minha querida dama", que, apesar do título nacional remeter ao clássico musical estrelado por Audrey Hepburn nos anos 60, é a adaptação de uma peça teatral feita pelo próprio autor, Israel Horovitz, estreando também - e com o pé direito - na função de cineasta. Iniciando com ares de comédia de situação e terminando como um drama familiar de proporções trágicas, o primeiro trabalho de Horovitz no cinema jamais trai suas origens no palco (diálogos precisos e marcações bem definidas na maior parte do tempo), mas consegue ir além de suas possíveis limitações, graças principalmente ao trio de atores centrais que defendem sua trama: Kevin Kline, Maggie Smith e Kristin Scott Thomas, todos eles geniais em cena.

Tendo como cenário de sua história a bela e sempre fotogênica Paris, Horovitz não perde nenhuma oportunidade de sair da claustrofobia de um roteiro originário do teatro, arejando sua própria trama sem medo de diluir a densidade dos conflitos e a força de seus personagens. Confiando nas palavras que ele mesmo escreveu e na capacidade de seus astros em dar a elas a complexidade necessária, o dramaturgo tornado cineasta brinda o público com um dos mais subestimados filmes de 2014 - e que precisa urgentemente ser descoberto por todos aqueles que encontram prazer em assistir a uma boa história, povoada por gente de verdade e não apenas por super-heróis e personagens sobre-humanos. Mas que esse mesmo público se prepare para conhecer personagens não exatamente simpáticos - ao menos à primeira vista.


A trama começa com a chegada de Mathias Gold (Kevin Kline, disparado um dos melhores atores de sua geração) à Paris. Três vezes divorciado, sem filhos, sem trabalho e sem perspectivas, ele viaja à capital francesa com o objetivo claro de vender a propriedade que herdou de seu pai e reorganizar sua bagunçada vida financeira. Logo que põe os pés na espaçosa casa que lhe pertence, porém, ele descobre que as coisas não serão tão fáceis quanto ele poderia imaginar: segundo uma lei do país, seu pai comprou a casa com um contrato que só lhe dá total poder sobre ela quando a atual dona morrer - e pior ainda: enquanto ela viver, o novo proprietário é obrigado a lhe pagar uma taxa de 2.400 euros mensais. Chocado com a descoberta - e de certa forma achando que isso é apenas mais uma vingança do pai, com quem nunca manteve uma relação das melhores - Mathias fica mais aliviado quando descobre que a inquilina, Mathilde Girard (Maggie Smith), já passou dos 90 anos de idade, o que, ao menos se espera, irá abreviar sua espera pelo desfecho do caso. Já se preparando para encontrar um novo comprador - o que não falta, graças à qualidade da ampla construção - ele encontra outro empecilho: a filha de Mathilde, Chloé (Kristin Scott Thomas), que deseja manter-se como a dona do sobrado.

Enquanto mantém sua primeira metade em um agradável tom cômico - com Mathias vendendo às escondidas os móveis da família Girard e enfrentando Chloé e Mathilde com diálogos leves e ferinos - Horovitz apresenta ao público uma divertida comédia de costumes, repleta de momentos que confirmam o extraordinário timing cômico de Kevin Kline e Maggie Smith (não por acaso já premiados com o Oscar de coadjuvantes por performances cômicas, respectivamente em "Um peixe chamado Wanda" e "California Suite"). Mas é quando a trama começa a mostrar seu lado dramático que o filme cresce e se torna ainda mais interessante. Uma sucessão de segredos do passado trazidos à tona é o suficiente para que os personagens mostrem suas reais facetas - bem mais trágicas e dignas de compaixão do que poderiam aparentar a princípio. É hora, então, de mais um show de seus intérpretes, que conseguem passar da frivolidade do humor descompromissado para a profundidade de uma quase tragédia familiar com uma espantosa naturalidade. Não vem ao caso destrinchar todas as possibilidades do desfecho - até para não estragar as surpresas - mas vale a pena dizer que poucas vezes três gêneros (drama, comédia e romance) conseguiram caminhar juntos de forma tão orgânica nos últimos anos sem prejuízo de nenhum deles. Mérito do roteiro coeso, da direção discreta e principalmente do elenco impecável - que torna tudo verdadeiro e crível. Uma bela surpresa que passou despercebida pelas salas de cinema.

sexta-feira

SERÁ QUE ELE É?

SERÁ QUE ELE É? (In & out, 1997, Paramount Pictures, 90min) Direção: Frank Oz. Roteiro: Paul Rudnik. Fotografia: Rob Hahn. Montagem: Dan Hanley, John Jympson. Música: Marc Shaiman. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Ken Adam/Charles V. Beal. Produção executiva: Adam Schroeder. Produção: Scott Ruddin. Elenco: Kevin Kline, Matt Dillon, Tom Selleck, Joan Cusack, Debbie Reynolds, Wilford Brimley, June Squibb, Shawn Hatosy, Lauren Ambrose, Shalom Harlow. Estreia: 10/9/97 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Joan Cusack)

A pequena cidade de Greenleaf, Indiana, está em festa. Um de seus nativos, o jovem ator Cameron Drake (Matt Dillon), é o favorito para ganhar o Oscar de melhor ator, por seu desempenho como um soldado gay. Orgulhosos de seu filho ilustre, os cidadãos se reúnem excitados para assistir à cerimônia de premiação e comemoram felizes quando ele é chamado ao palco para receber a estatueta. Em seu discurso de agradecimento, ele não esquece de citar o local onde passou a vida toda e revela que, para interpretar o papel que lhe deu tanta fama, inspirou-se em Howard Brackett (Kevin Kline), um professor de Literatura do ensino médio, que sempre lhe incentivou a lutar por seus sonhos... e é homossexual. A cidade, apavorada, queda-se paralisada com a surpreendente notícia, especialmente a família de Brackett, seus alunos e sua noiva, Emily (Joan Cusack), com quem está de casamento marcado para dali a poucos dias. Ninguém, porém, fica mais chocado que o próprio Howard, que se vê envolvido em uma polêmica internacional e passa a questionar a própria sexualidade.

Assim começa "Será que ele é?", divertídissima comédia de situações dirigida por um craque do gênero - o veterano Frank Oz - e que brinca com todos os clichês a respeito da homossexualidade com respeito, inteligência e ironia. Estrelado por um irretocável Kevin Kline - herdando um papel escrito para Steve Martin e dotando-o de toda a personalidade que faz dele um dos melhores atores de sua geração - o filme foge facilmente o rótulo de "obra temática gay" para conquistar todo tipo de plateia com um humor que, a despeito do tema sugerir, desvia da grosseria e do preconceito com maestria invejável. Ao fazer com que o próprio Howard Brackett duvide de sua sexualidade por causa de sinais inequívocos - um gosto suspeito por Barbra Streisand, por exemplo - o roteiro de Paul Rudnick (cuja origem foi o discurso de Tom Hanks quando recebeu um Oscar por "Filadélfia" e citou um professor gay) o coloca em pé de igualdade com todos os seus amigos e familiares - assim como o faz com o público - em sua busca pela verdade. Será que o professor, tão confiável, tão respeitado e até então tão "comum" é realmente homossexual? E se o é, o que será de sua desesperada noiva? Para responder tais questões, chegam à cidade uma horda de jornalistas sensacionalistas - liderados por Peter Malloy (Tom Selleck), que também tem seus segredos - e até Cameron Drake, que volta à Greenleaf para tentar ajudar seu querido professor a livrar-se da encrenca em que ele o meteu.


Feliz como poucas comédias de sua época - que apelavam para o humor escatológico ou politicamente incorreto em excesso como forma de forçar o riso - "Será que ele é?" cativa por ser quase ingênuo em sua abordagem da homossexualidade, suavizando sua abordagem de maneira a não soar ameaçadora ao público médio ao mesmo tempo em que respeita a comunidade gay sem jamais fazer do assunto uma piada rasa ou babaca. Talvez por isso o filme tenha se tornado um inesperado sucesso de bilheteria, rendendo mais de 60 milhões de dólares somente no mercado americano em um período relativamente morno para os estúdios - o que acabou empurrando o filme também para os tapetes vermelhos das premiações: na pele da apavorada Emily Montgomery, que vê seu casamento ficar ameaçado com as suspeitas a respeito do noivo, a sensacional Joan Cusack foi eleita a melhor atriz coadjuvante do ano pelos críticos de Nova York e chegou a concorrer ao Golden Globe e ao Oscar na mesma categoria, confirmando um histrionismo revelado no final dos anos 80, em filmes como "Nos bastidores da notícia" e "Uma secretária de futuro", que inclusive lhe deu também uma indicação à estatueta da Academia. Seu trabalho impecável - realçado por seu rosto que se presta a inúmeras nuances cômicas e dramáticas - é o par ideal para Kevin Kline, um ator completo e versátil que transmite toda a complexidade de seu personagem sem precisar recorrer a excessos. Quando eles vem, porém, em necessidade do roteiro, são deliciosamente precisos: é impossível manter-se sério, por exemplo, na cena em que Howard ouve uma fita que ensina os homens a serem machos e precisa se controlar para não cair na dança ao ouvir "I will survive". Clichê? Sim. Previsível? Lógico. Mas é também engraçadíssimo como poucos momentos do cinema americano dos anos 90.

Outra qualidade que faz de "Será que ele é?" uma comédia acima da média é a quantidade de boas piadas espalhadas pelo roteiro, que encontra espaço inclusive para uma mensagem pró-tolerância que, ao contrário de soar hipócrita e incoerente, enfatiza o tom leve e alto-astral da trama, que frequentemente deixa claro não levar-se a sério demais. Tal característica é perceptível desde o princípio do filme - com a participação especial de nomes como Glenn Close e Whoopi Goldberg como elas mesmas - e vai ficando cada vez mais nítida conforme inúmeras referências ao mundo gay vão pipocando nas telas, seja em forma de piadas verbais ("Barbra Streisand era muito velha para Yentl", brada um amigo de Brackett, para logo ser agredido pelo professor) ou até mesmo na escalação certeira de Debbie Reynolds (ícone gay) para viver a mãe do protagonista. Até mesmo a escolha de Tom Selleck - que sempre foi alvo de constantes boatos sobre sua sexualidade - para interpretar o repórter abelhudo que se interessa pela história de Brackett é um ponto positivo, apesar de muitas vezes o ator não conseguir escapar de ser ofuscado pelo brilhantismo de Kevin Kline.

Uma comédia repleta de acertos, "Será que ele é?" é a prova cabal de que é possível um filme ser engraçado, responsável e politicamente correto sem precisar recorrer ao piegas ou ao escatológico. É dirigido com inteligência e elegância, é interpretado com perfeito timing cômico e é principalmente capaz de dar ao espectador o que ele procura: gargalhadas. Uma comédia perfeita!

terça-feira

DAVE - PRESIDENTE POR UM DIA

DAVE, PRESIDENTE POR UM DIA (Dave, 1993, Warner Bros, 110min) Direção: Ivan Reitman. Roteiro: Gary Ross. Fotografia: Adam Greenberg. Montagem: Sheldon Kahn. Música: James Newton Howard. Figurino: Richard Hornung. Direção de arte/cenários: J. Michael Riva/Michael Taylor. Produção executiva: Michael C. Gross, Joe Medjuck. Produção: Ivan Reitman, Lauren Schuler-Donner. Elenco: Kevin Kline, Sigourney Weaver, Frank Langella, Ving Rhames, Ben Kingsley, Charles Grodin, Laura Linney, Bonnie Hunt. Estreia: 07/5/93

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Do cinismo agridoce de Frank Capra até o realismo controverso de Oliver Stone, a política norte-americana frequentou as telas de cinema com certa regularidade, nem sempre com muita simpatia por parte dos produtores e cineastas - que viam nos filmes a chance de expor seus pontos de vista nem sempre compatíveis com quem estava no poder. Por isso não nada surpreendente que "Dave, presidente por um dia", a simpática e inofensiva comédia de Ivan Reitman lançada em 1993 tenha se tornado, já em seu lançamento, um dos filmes preferidos do então morador da Casa Branca, Bill Clinton. Sem despertar polêmicas e apresentando um personagem principal que refletia a popularidade de Clinton junto aos eleitores, o filme acabou se saindo bem nas bilheterias - rendeu mais de 60 milhões de dólares somente nos EUA - e, o que de resto não é nada mal, chegou ao Oscar, concorrendo à estatueta de roteiro original (que perdeu para o mais sério e mais "artístico" "O piano").

O Dave do título original é o altruísta dono de uma agência de empregos que complementa a renda doméstica servindo de sósia do presidente americano, Bill Mitchell, em feiras agrícolas e eventos afins. Depois de se passar por Mitchell para a imprensa e o público em um grande evento na Casa Branca, porém, ele tem sua vida transformada radicalmente: durante um ato sexual com uma secretária (uma iniciante Laura Linney), o presidente sofre um derrame grave e que o deixa em coma irreversível. Com a aparente intenção de proteger o país de um escândalo de tais proporções, o assistente da presidência, Bob Alexander (Frank Langella caprichando na cara de vilão) convence Dave a assumir o papel de líder da nação por mais algum tempo. No entanto, seus planos - que são bem outros, e incluem afastar o vice-presidente, Nance (Ben Kingsley) do caminho e ser nomeado para o cargo de homem mais poderoso dos EUA - passam a ser ameaçados pela boa índole de Dave, que, influenciado pela boa política da primeira-dama, Ellen (Sigourney Weaver), começa a criar novas medidas de governo que beneficiam a população mais pobre. Tais atitudes o põem em rota de colisão com Alexander, mas o aproximam tanto de Nance quanto de Ellen, que vivia um casamento de aparências e subitamente passa a sentir uma indefinível atração pelo marido.


Escrito por Gary Ross - que posteriormente assinaria também como diretor o belo "A vida em preto-e-branco" (03) - "Presidente por um dia" não é uma comédia de gargalhadas. Seu humor, um tanto mais sofisticado mas popular o bastante para não afastar a plateia avessa a filmes com conotação política, nasce basicamente como uma comédia de erros dos velhos tempos de Frank Capra e Preston Sturgess, com sua inocência devidamente adequada aos anos 90. É assim, por exemplo, que o romance entre Dave e a primeira-dama inconsciente de sua real personalidade começa com um diálogo furioso quando ele está se deliciando com um bom banho quente (nu, portanto) mas nunca ultrapassa as longas conversas, os passeios às escondidas e os olhares apaixonados. Sigourney Weaver, aliás, nunca esteve tão classuda e bonita em cena, a anos-luz de distância da guerreira Tenente Ripley da série "Aliens". Seu timing cômico, mostrado em "Uma secretária de futuro" (88), mantém-se intocado, principalmente ao lado de Kevin Kline, mostrando (mais uma vez) que é um dos atores mais versáteis e talentosos de Hollywood, em papel recusado por Warren Beatty e Kevin Costner e que encontra nele o intérprete ideal. E seu semblante de adorável pateta - que graças à sua ingenuidade consegue conquistar até os mais arraigados rivais políticos - encontra o contraponto perfeito em Frank Langella, sempre competente quando brinca de vilão.

Feito de pequenas piadas - como a participação sensacional de Oliver Stone como ele mesmo, discutindo uma provável conspiração na Casa Branca e a presença de inúmeros políticos comentando os acontecimentos que se desenrolam no roteiro - "Presidente por um dia" é uma comédia à moda antiga: charmosa, esperta e visualmente atraente, além de bem dirigida e interpretada com energia e simpatia. Não muda a vida de ninguém, mas diverte e inspira.

quarta-feira

GRAND CANYON, ANSIEDADE DE UMA GERAÇÃO

GRAND CANYON, ANSIEDADE DE UMA GERAÇÃO (Grand Canyon, 1991, 20th Century Fox, 134min) Direção: Lawrence Kasdan. Roteiro: Lawrence Kasdan, Meg Kasdan. Fotografia: Owen Roizman. Montagem: Carol Littleton. Música: James Newton Howard. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Bo Welch/Cheryl Carasik. Produção: Michael Grillo, Lawrence Kasdan, Charles Okun. Elenco: Kevin Kline, Steve Martin, Danny Glover, Mary McDonnell, Mary-Louise Parker, Alfre Woodard, Jeremy Sisto, Tina Lifford, Clifton Collins Jr.. Estreia: 25/12/91

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Em 2005, quando o filme "Crash, no limite" foi lançado, muita gente elogiou sua coragem em tocar no assunto do racismo efervescente da cidade de Los Angeles ao contar várias histórias paralelas que se tocavam tenuemente. O filme de Paul Haggis, repleto de clichês, preconceituoso e superficial ao extremo, conseguiu enganar até mesmo aos membros da Academia, que o escolheram como o melhor filme do ano sobre o infinitamente superior "O segredo de Brokeback Mountain" - não que enganar os vetustos da Academia seja exatamente difícil, que o digam os produtores de "Dança com lobos" (90) e mais recentemente "O discurso do rei" (10). Mas o que pouca gente sabia é que, quase quinze anos antes, um filme mais corajoso, sutil, inteligente e bem escrito também já havia mexido nessa ferida tão dolorosa das diferenças sociais e raciais que flagelam a América. "Grand Canyon, ansiedade de uma geração", dirigido e co-escrito por Lawrence Kasdan, é um sensível e esperançoso retrato de um grupo de pessoas que, a despeito de suas angústias, tentam transformar o seu mundo - e principalmente o dos outros - em um lugar melhor para se viver.

Ao contrário de "Crash", que tinha uma visão pessimista da sociedade e de seus integrantes, fossem eles quais fossem, a visão de Kasdan é repleta de carinho e calor humano, retratando seus personagens como pessoas e não estereótipos rasos. Embora nenhum deles seja perfeito, existe neles um tom de humanismo comovente, que impede tanto o sentimentalismo quanto a generalização rasteira. E até mesmo a metáfora pertinente e esperta utilizada pelo roteiro - e que dá título ao filme - soa poética e como uma lufada de ar fresco diante de um mundo tão atribulado e povoado de mesquinharias. Segundo a visão otimista de Kasdan, o Grand Canyon mostra a real dimensão dos problemas humanos e da própria natureza insignificante de qualquer um diante da imensidão do universo. E é por essa medida que os personagens de seu filme irão avaliar o que o destino põe diante de seus olhos, seja na forma de uma mão que impedem um deles de ser estraçalhado por um ônibus ou do dono de um guincho que salva o mesmo personagem de ser vítima de uma gangue. Sim, existe gangues no universo criado por Kasdan e sua mulher, Meg, mas elas não estão no roteiro apenas para justificar uma teoria racista, e sim para evitar o maniqueísmo que poderia impor-se em uma trama tão, digamos assim, inspiradora.


Se existe um protagonista em "Grand Canyon" pode-se dizer que é Mack (Kevin Kline, ótimo como sempre), um advogado de imigração bem-sucedido, bem-casado com a analista Claire (Mary McDonnell) e pai de um adolescente ajustado e saudável. Uma noite, voltando de um jogo de basquete, ele resolve pegar um atalho para fugir do congestionamento e acaba vendo seu carro - moderno, bem equipado e caro - pifar no meio da rua deserta de um subúrbio nada afável. Quando está em vias de ser assaltado por um grupo de jovens agressivos, ele é salvo pelo gongo, na pele de Simon (Danny Glover), o dono do guincho que o resgata do perigo. De uma conversa casual entre eles surge a vontade irrefreável em Mack de ajudá-lo, seja arrumando uma moradia mais segura para sua irmã - que cria sozinha dois filhos, sendo o mais velho um projeto de marginal graças ao grupo que frequenta - ou apresentando-lhe uma colega de trabalho, Jane (Alfre Woodard). Enquanto isso, sua esposa, durante o tradicional cooper matinal encontra um bebê abandonado em um grupo de arbustos e resolve adotá-lo - mesmo enfrentando a hesitação do marido, que a questiona a respeito de tal vontade por julgar que não passa de uma tentativa de repor na casa o filho que está em vias de ir para a faculdade. Fechando o círculo, está Davis (Steve Martin), amigo de Mack que, produtor de filmes violentos, vê seu próprio mundo voltando-se contra ele depois que é assaltado e ferido gravemente e Dee (Mary-Louise Parker), secretária de Mack que, depois de uma noite com o patrão, se descobre perdidamente apaixonada.

Esse grupo de personagens, ligados por um roteiro compassado e discreto, que não abusa das emoções e nem enfatiza desnecessariamente as tragédias (maiores ou menores) que os acometem, é o centro de "Grand Canyon". Através deles - e das inspiradas atuações, em especial as de Kline e Mary McDonnell - o filme de Kasdan apresenta ao espectador um panorama de emoções discretas mas profundamente pertinentes à sua época, discutindo sem lugares-comuns temas como a violência urbana, a diferença de classes, a solidão e o vazio existencial. Pode-se dizer que seus personagens principais - Mack, Claire e Davis - pertencem a um nicho restrito de Los Angeles (aqueles que possuem bons empregos, carros e propriedades) e que suas ações soam como paternalistas, mas é inegável que existe neles uma boa vontade e um caráter admiráveis (com a possível exceção de Davis, em uma interpretação contida de Steve Martin), que deixam essa afirmação com um tom bastante cínico. Lawrence Kasdan quis mostrar em seu filme que o calor humano e os laços formados a partir deles são as únicas formas de comunicação em um mundo frio e frequentemente hostil a sentimentos mais nobres. Conseguiu com louvor, apesar do filme estender-se um pouquinho em seu terço final. É um belo filme - seu roteiro foi indicado ao Oscar e perdeu para o genial "Thelma & Louise" - que merecia ter tido mais sorte em seu lançamento.

domingo

TE AMAREI ATÉ TE MATAR

TE AMAREI ATÉ TE MATAR (I love you to death, TriStar Pictures, 97min) Direção: Lawrence Kasdan. Roteiro: John Kostmayer. Fotografia: Owen Roizman. Montagem: Anne V. Coates. Música: James Horner. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert/Cricket Rowland. Produção executiva: Michael Grillo, Charles Okun. Produção: Jeffrey Lurie, Ron Moller. Elenco: Kevin Kline, Tracey Ullman, Joan Plowright, River Phoenix, William Hurt, Keanu Reeves, Phoebe Cates, Heather Graham. Estreia: 06/4/90

Joey Boca é um italiano simpático, bem-humorado e extrovertido. Dono de uma pizzaria do Brooklyn que leva seu nome - e tem na parede reproduções de Cristo, do presidente e de Frank Sinatra - e pai de família aparentemente respeitável, ele tem, no entanto, um defeito irrecuperável: não pode ver um rabo-de-saia sem que seus hormônios latinos não entrem em ebulição. Suas constantes escapadas sexuais são de conhecimento de toda a vizinhança, mas de certa forma ignorados por sua cara-metade, a paciente Rosalee - que tampouco percebe a paixão que desperta em Devo, jovem funcionário da pizzaria com idade para ser seu filho. Levemente machista, quase cafajeste e acintosamente sedutor, Joey Bocca é o protagonista de "Te amarei até te matar", uma comédia de humor negro dirigida pelo mesmo Lawrence Kasdan dos seríssimos "Corpos ardentes" (81), "O reencontro" (83) e "O turista acidental" (88). Mas se o nome de Kasdan não deixa de ser uma surpresa por trás de um filme tão atípico em sua cinematografia, é o nome do protagonista que surpreende ainda mais: na pele de um personagem tão explicitamente cômico que beira o histriônico está Kevin Kline, o mesmo homem que interpretou o torturado amante judeu de Meryl Streep em "A escolha de Sofia" (82) e o jornalista sul-africano que fugiu de seu país de origem para denunciar as atrocidades do apartheid de "Um grito de liberdade" (87). Ou seja, nada mais distante da imagem que se esperaria de um ator que vive tão intensamente alguém chamado Joey Bocca.

Tudo bem que o público de cinema já sabia dos dotes cômicos de Kline, que ganhou seu Oscar de coadjuvante na pele do atrapalhado, ciumento e levemente demente Otto no sucesso "Um peixe chamado Wanda" (88). Mas, sabendo-se que o ator tem uma formação clássica, shakespereana e dramática, não deixa de ser refrescante perceber o quão versátil ele pode ser. E é graças a seu talento imenso e seu carisma que Bocca não se transforma, no decorrer do filme de Kasdan - com quem ele já havia trabalhando em "O reencontro" e no western "Silverado" (84) - em um personagem antipático ou uma aberração criada unicamente com fins burlescos. Mesmo inspirado em um caso real ocorrido na Pensilvânia em 1984, o roteiro de John Kostmayer (de estrutura levemente teatral, em especial em seu terceiro ato) está a um passo do exagero e do inverossímil, com seus acontecimentos constantemente desafiando o público a embarcar em uma história tão inacreditável quanto deliciosamente insana. E se consegue o grande feito de fazer rir com seu alto grau de nonsense, o mérito deve ser dividido entre Kline (fantástico em cada cena), Kasdan (demonstrando um domínio até então desconhecido do timing da comédia) e o elenco coadjuvante, que consegue misturar sem efeitos colaterais a veterana dos palcos Joan Plowright (que ficou viúva de Laurence Olivier durante as filmagens), a estrela da TV Tracey Ullman, o colaborador habitual do diretor, William Hurt (também surpreendendo em papel menos sério do que o habitual) e dois jovens atores então em início de carreira, River Phoenix e Keanu Reeves.


A trama de "Te amarei até te matar" é, conforme afirmado antes, um primor de nonsense. Tudo começa de verdade quando Rosalee (Ullman) descobre uma traição do marido Joey Bocca e, como boa católica, prefere assassiná-lo a ter que encarar um divórcio. Contando com a ajuda de sua mãe, Nadja (Joan Plowright, sempre prestes a roubar a cena), que despreza o genro, e o jovem Devo (Phoenix), que mantém por ela um paixão assumida, ela resolve dar cabo do pizzaiolo. Depois de uma primeira tentativa frustrada pela ojeriza do rapaz a qualquer tipo de violência e do fracasso em matar Bocca com uma overdose de comprimidos para dormir, eles contratam uma dupla de drogados, Harlan (Hurt) e Marlon (Reeves) para resolver o problema: a questão passa a ser, então, a inacreditável resistência da vítima, que sobrevive a todos os atentados contra a sua vida, para surpresa (e pânico) dos pretensos criminosos.

Engraçadíssimo como poucos filmes americanos da década de 80 conseguiram ser sem apelar para o besteirol desvairado dos irmãos Zucker e de Jim Abrahams, "Te amarei até te matar" ainda tem a vantagem de arrancar gargalhadas tanto por seu humor visual e o absurdo de sua trama quanto por seus diálogos, banhados em ironia e sarcasmo. Equilibrando o tom na tênue linha entre o caricato e o divertido de Kevin Kline, o texto de Kostmayer brinda o espectador com momentos de grande inteligência verbal (o encontro da polícia com o "corpo" de Bocca em sua cama, por exemplo, é sensacional) e com sequências do mais puro vaudeville (como a conversa entre Harlan e Marlon diante de uma provável vítima anestesiada de pílulas para dormir e prestes a ser morto). É um filme rápido, conciso e extremamente eficiente que comprova Kasdan como um dos grandes cineastas pouco reconhecidos do cinema americano.

quinta-feira

UM GRITO DE LIBERDADE

UM GRITO DE LIBERDADE (Cry freedom, 1987, Universal Pictures, 157min) Direção: Richard Attenborough. Roteiro: John Briley, livros "Biko" e "Asking for trouble", de Donald Woods. Fotografia: Ronnie Taylor. Montagem: Lesley Walker. Música: George Fenton, Jonas Gwangwa. Figurino: John Mollo. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Michael Seirton. Produção: Richard Attenborough. Elenco: Kevin Kline, Denzel Washington, Kevin McNally, Penelope Wilton, Kate Hardie. Estreia: 05/11/87

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Denzel Washington), Trilha Sonora Original, Canção Original ("Cry freedom")

Uma das figuras mais importantes na luta anti-Apartheid na África do Sul nos anos 70, Steve Biko pode não ser tão reconhecido internacionalmente como Nelson Mandela, mas seu legado, centrado principalmente na fundação do Movimento da Consciência Negra é incontestável, o que fez com que o cineasta Richard Attenborough o escolhesse como tema de um de seus filmes mais extraordinários, "Um grito de liberdade". Baseado em dois livros escritos pelo jornalista sul-africano Donald Woods sobre o assunto, o roteiro de John Briley escolhe como foco de sua narrativa não a vida do militante - interpretado com a garra de sempre por um Denzel Washington indicado ao Oscar de coadjuvante - mas sim a sua relação com Woods, editor do Daily Dispatch, importante jornal do país, que tem sua visão imparcial sobre a situação política transformada a partir de seu contato com a realidade da população negra. Politicamente impactante e bem interpretado, o filme de Attenborough só peca em estender demais sua história - ainda que nunca chegue a perder o ritmo de urgência que imprime desde seus primeiros minutos.

Ao optar por dar a protagonização de sua história a Donald Woods - branco, bem-sucedido, protegido pelas leis criadas por pessoas como ele - e não a Steve Biko (em tese a gênese da produção), o roteiro de Briley acerta duplamente. Primeiro, por fazer com que o público vá descobrindo, junto com o jornalista (interpretado com maestria por Kevin Kline), toda a extensão do problema do racismo endêmico da África do Sul pelos olhos de quem o sofre: antes de seu contato com Biko, Woods apenas o considerava um racista ao contrário, que defendia a violência com as mesmas armas de seus antagonistas. Quando finalmente as coisas ficam claras para ele - e consequentemente para a plateia - vem o primeiro choque, que não convém revelar, mas que dará o empurrão para a segunda parte do filme. Revoltado e agora consciente das barbaridades do regime, caberá ao jornalista bradar a verdade ao mundo, mesmo que isso signifique o fim de sua pacífica vida familiar e profissional.


Não é à toa que o cineasta grego Costa-Gavras - sempre inclinado a assinar produções de forte cunho político - tinha intenção de filmar a história de Steve Biko: a segunda metade do filme de Attenborough se mostra um thriller político de primeira linha, com direito a sequências de suspense, planos mirabolantes e um final arrepiante, que encena um dos mais inexplicáveis (se é que algum é) massacres ocorridos no país durante o período retratado na trama. Nessa segunda parte da narrativa, Woods - banido pelo governo e impedido de sair de casa ou comunicar-se com quem quer que seja exceto membros de sua família - resolve atravessar um manuscrito onde descreve todos os absurdos que testemunhou (assim como as ostensivas mentiras contadas pelo governo a respeito da morte de dezenas de ativistas negros) e lançá-lo em forma de livro. Attenborough comanda esses momentos com segurança, deixando o público aflito, torcendo por um final que, apesar de já ser conhecido, parece nunca chegar. É aí que entra também a importância da trilha sonora - indicada ao Oscar - e do trabalho de Kevin Kline, que conquista a simpatia da audiência como uma espécie de super-herói, disposto a melhorar um mundo apesar de suas consequências.

"Um grito de liberdade" é um filme político sem o ranço de um filme político. É, mais do que isso, um filme sobre pessoas, sobre seres humanos, sobre o desejo inquebrantável de um povo por sua liberdade, por seus direitos inatos. É também uma aula de história ilustrada com momentos de tensão, emoção e esperança, além de um filme como Attenborough nunca mais conseguiu fazer - talvez nem mesmo o anterior "Gandhi" (82), apesar dos Oscar e do frisson na ocasião de sua estreia, seja tão bom do ponto de vista narrativo. E é, finalmente, um filme que precisa ser revisto sempre, como lembrança das atrocidades de que o homem é capaz de fazer a outro.

sábado

O REENCONTRO

O REENCONTRO (The big chill, 1983, Columbia Pictures, 105min) Direção: Lawrence Kasdan. Roteiro: Lawrence Kasdan, Barbara Benedek. Fotografia: John Bailey. Montagem: Carol Littleton. Figurino: April Ferry. Direção de arte/cenários: Ida Random/George Gaines. Produção executiva: Lawrence Kasdan, Marcia Nasatir. Produção: Michael Shamberg. Elenco: Glenn Close, Kevin Kline, William Hurt, Tom Berenger, Jeff Goldblum, Jobeth Williams, Mary Kay Place, Meg Tilly. Estreia: 09/9/83

3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Glenn Close), Roteiro Original

Um grupo de amigos, unidos na juventude idealista, são obrigados a confrontarem o que fizeram de suas vidas quando voltam a se encontrar, no funeral de um deles. Tal reunião, logicamente, traz à tona frustrações profissionais, romances interrompidos e a sensação de que o tempo, cruel e implacável, pode tê-los transformados naquilo que eles mais desprezavam: membros capitalistas de um sistema que afrontava suas aspirações pessoais. Essa história, que hoje é velha conhecida dos fãs de cinema, foi tratada de diversas maneiras, tanto em tom cômico quanto em nuances dramáticas, em filmes com inúmeros graus de qualidade. Mas o pai de todos eles, aquele que deu origem a esse quase sub-gênero do cinema mundial (até mesmo a França bebeu em sua fonte, recentemente, com o belo "Até a eternidade", dirigido pelo ator Guillaume Caunet) é o já clássico "O reencontro", lançado por Lawrence Kasdan em 1983. Co-roteirista de "Os caçadores da arca perdida" (81) e "O império contra-ataca" (80), dentre outros sucessos, e diretor do elogiado "Corpos ardentes" (81), Kasdan escreveu seu roteiro inspirado em colegas com quem conviveu durante seus anos de universidade, o que dá a ele um senso de verdade poucas vezes visto em seus congêneres. Resultado: três indicações ao Oscar - incluindo filme e roteiro original - e uma aura de doce melancolia que se mantém fresca e atual mesmo depois de três décadas.

Para contar sua história de perdas e emoções, Kasdan teve a sorte de reunir um elenco extraordinário, com nomes populares do cinema americano de sua época que teriam, pelos próximos anos, um sucesso ainda maior, com indicações (e vitórias) no Oscar e enormes êxitos de bilheteria. Glenn Close - que chegou a concorrer ao Oscar de coadjuvante por seu desempenho, de certa forma representando o elenco inteiro - faria em breve "Atração fatal" (87) e "Ligações perigosas" (88), que também lhe levaram ao caminho da estatueta, que foi mais simpática com William Hurt - premiado como melhor ator por "O beijo da mulher-aranha" (85) - e Kevin Kline - que amealhou o prêmio de coadjuvante por "Um peixe chamado Wanda" (88). Tom Berenger concorreu também como coadjuvante por "Platoon" (86), e Jeff Goldblum tornou-se sinônimo de sucesso na década de 90 por seu trabalho nos blockbusters "Jurassic Park" (93) e "Independence day" (96). Juntos a Jobeth Williams - a mãe de família de "Poltergeist, o fenômeno" (82), Mary Kay Place e Meg Tilly - que também chegaria a concorrer ao prêmio da Academia como a freira acusada de matar seu filho recém-nascido em "Agnes de Deus" (85) - eles formam um time imbatível, capaz de prender a atenção do público mesmo com uma trama sem maiores lances e acontecimentos dramáticos. "O reencontro" é um filme de pequenos momentos, recheado de um inusitado senso de humor, ritmo adequado, cenas emocionantes e uma deliciosa trilha sonora que busca nos anos 60 sua matéria-prima.


Kevin Costner chegou a filmar algumas cenas com Alex, o suicida cuja morte catalisa o reencontro do título, mas teve suas cenas cortadas na edição final - Kasdan o recompensaria futuramente lhe dando um papel importante nos faroestes "Silverado" (85) e "Wyatt Earp" (94). O fim trágico de seu personagem dá o pontapé inicial ao filme, já que seus amigos, distanciados uns dos outros por compromissos profissionais, por estilos de vida e até mesmo por alguns problemas românticos, são obrigados a uma reunião inesperada que lhes dará, depois do choque, novos pontos de vista sobre suas vidas. Harold (Kevin Kline) e Sarah (Glenn Close) parecem os mais abalados pelo suicídio de Alex, uma vez que foi cometido durante uma temporada em sua casa - e também porque ele foi o pivô de uma crise no casamento dos amigos depois de um rápido caso com Sarah. A namorada do morto, Chloe (Meg Tilly) dá a impressão de não ter se abalado tanto assim com a tragédia, como se visse de outro nível a complexa teia de relações que se desenrola diante de seus olhos no fim-de-semana que todos dividem após o funeral. Meg (Mary Kay Place) é uma advogada corporativista infeliz com sua carreira e disposta a convencer um dos amigos a ser o pai de um filho seu; Michael (Jeff Goldblum) é um repórter de amenidades que precisa lidar com o fato de ter escrito um perfil pouco elogioso de Sam Weber (Tom Berenger), ator de uma série de TV medíocre, mas de muito sucesso popular e que balança ao reencontrar Karen (Jobeth Williams), por quem sempre foi apaixonado, mas que está vivendo um casamento estável e seguro. E Nicholas (William Hurt) tenta lidar com sua experiência no Vietnã - e suas consequências - convivendo com drogas e bebida.

A forma elegante e carinhosa com que Kasdan lida com seus personagens e seus dramas é um dos maiores méritos de "O reencontro". Por mais que alguns deles não sejam exatamente simpáticos ou ajam de maneira correta ou ética, é difícil não encontrar em cada um deles um rasgo de humanidade, de verdade, de sensibilidade. Glenn Close - justificando sua indicação ao Oscar - vive talvez a personagem mais complexa, uma Sarah que ama o marido e a família e busca conviver com um erro passado ao mesmo tempo em que também encara de frente a diferença entre tudo que quis ser e o que é em seu dia-a-dia. No final, quando tenta resgatar essa mulher do passado tomando uma atitude corajosa (e um tanto polêmica), fica claro ao público que tudo que os personagens de Kasdan querem é voltar a ser o que foram na juventude: idealistas, felizes, esperançosos e rebeldes. Mas a vida passa, o tempo é implacável e os caminhos nem sempre são fáceis. E é isso que "O reencontro" demonstra, ao som de músicas que acariciam os ouvidos e diálogos saborosos recitados por atores em dias inspirados. Cinema de primeira qualidade.

segunda-feira

A ESCOLHA DE SOFIA


A ESCOLHA DE SOFIA (Sophie's choice, 1982, ITC/Keith Barish Productions, 150min) Direção: Alan J. Pakula. Roteiro: Alan J. Pakula, romance de William Styron. Fotografia: Nestor Almendros. Montagem: Evan A. Lottman. Música: Marvin Hamlisch. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: George Jenkins/John J. Moore. Produção executiva: Martin Starger. Produção: Alan J. Pakula. Elenco: Meryl Streep, Kevin Kline, Peter MacNicol, Rita Karin, Gunter Maria Halmer. Estreia: 08/12/82


5 indicações ao Oscar: Atriz (Meryl Streep), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Meryl Streep)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Meryl Streep) 

Considerada com mérito a maior atriz americana de sua geração - e possivelmente uma das mais extraordinárias de todos os tempos - Meryl Streep não precisou da vantagem que a experiência traz para consagrar-se junto ao público, à crítica e aos membros da Academia. Em abril de 1983, aos 33 anos, ela, grávida, subia pela segunda vez ao palco da entrega do Oscar para receber uma estatueta. Porém, se por "Kramer vs Kramer", três anos antes, ela foi eleita a melhor coadjuvante, por "A escolha de Sofia" ela foi escolhida como a melhor atriz principal do ano. Mais impressionante ainda? Não foi só a Academia que rendeu-se a seu espetacular desempenho: quando pôs as mãos em seu segundo Oscar, ela já havia sido premiada pelas associações de críticos de Los Angeles e de Nova York, pelo prestigiado National Board of Review, pela Associação Nacional de Criticos e pelos jornalistas estrangeiros que concedem o Golden Globe - ou seja, todos os grupos que escolhem os melhores do cinema de cada ano concordaram que estavam diante de uma obra-prima de interpretação dramática.

Baseado em romance de William Styron, "A escolha de Sofia" é um petardo emocional, capaz de impressionar ao mais cínico dos espectadores por evitar, inteligentemente, o caminho da emoção fácil. Não há dúvidas que a famosa cena da escolha do título (muitas vezes comentada e mostrada fora de contexto, o que de certa forma enfraquece sua potência, apesar de ainda arrepiar a cada revisão) é de triturar o coração de qualquer um, mas o roteiro do cineasta Alan J. Pakula não se reduz a contar apenas a trajetória de sua protagonista nos dias cinzentos de sua passagem por Auschwitz, preferindo dar importância também às cicatrizes emocionais incuráveis que ela deixou. São essas feridas que fazem de Sofia uma personagem complexa, vasta, imprevisível e fascinante - o que a atuação de Streep enfatiza a cada diálogo, a cada cena, seja ela das mais leves ou das mais catárticas. O que Sofia esconde, o que ela sente, o que ela pensa são incógnitas ao público - e ao atônito apaixonado Stingo, um aspirante a escritor que chega a Nova York em 1947 e se encanta com a misteriosa vizinha do apartamento de cima. O que ela revela, o que ela deixa transbordar e o que ela finalmente desabafa são uma aula de como utilizar o corpo, os olhos e a voz para deixar marcas no coração e na memória de cada espectador.


Vivido por Peter MacNicol, Stingo faz as vezes de narrador e espectador de uma tragédia anunciada que se desenha a partir do momento em que ele testemunha pela primeira vez uma beligerante discussão entre a polonesa Sofia e seu namorado, o biólogo judeu Nathan Landau (Kevin Kline em sua estreia no cinema, mostrando um talento que lhe renderia um Oscar de coadjuvante seis anos depois, pela comédia "Um peixe chamado Wanda"). Inconstante e frequentemente violento, Nathan torna-se amigo de Stingo e, junto com Sofia, forma com ele uma espécie de família, ainda que o jovem escritor tenha sentimentos mais fortes por Sofia - que por sua vez, os incentiva ao mesmo tempo em que os repele, demonstrando também uma instabilidade emocional que, aos poucos, Stingo vai compreendendo, e que remete a seu passado como prisioneira de um campo de concentração. É também aos poucos que Stingo percebe que a relação doentia entre seus amigos vem acompanhada de uma alta dose de auto-destruição e de fantasmas ainda vivos em suas memórias.

A direção de Pakula é elegante, sóbria, direta. Ele dá espaço ao brilho de seus grandes atores, em algumas sequências que lembram uma boa peça de teatro - enquanto em outros momentos ele aproveita sua experiência como cineasta para criar imagens poderosas, ajudado pela fotografia do mestre Nestor Almendros, que trabalha os flashbacks em frios tons de cinza e o presente em um colorido primaveril que contrasta com sutileza com o frequente estado de espírito dos personagens. E os personagens são um capítulo à parte: Peter MacNicol pontua com correção o show de Kline e Streep, que enchem a tela de energia e força sempre que estão presentes. Kline faz de seu bipolar Nathan um homem adorável em um momento e um monstro no momento seguinte, sempre com segurança e carisma. E Streep não ganhou todos os prêmios que ganhou à toa: ela não apenas vive a personagem com a alma inteira como aprendeu a falar alemão e polonês, para que pudesse tornar verossímil uma mulher polonesa que fala com sotaque alemão. Valeu a pena implorar pelo papel - que Barbra Streisand também queria e para o qual Natalie Wood foi cotada: seu trabalho é, sem dúvida, um dos mais impactantes da história.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...