HORAS INTERMINÁVEIS (14 hours, 1951, 20th Century Fox, 92min) Direção: Henry Hathaway; Roteiro: John Paxton, estória de Joel Sayre. Fotografia: Joe MacDonald. Montagem: Dorothy Spencer. Música: Alfred Newman. Direção de arte/cenários: Leland Fuller, Lyle Wheeler/Thomas Little, Fred J. Rode. Figurino: Edward Stevenson. Produção: Sol C. Siegel. Elenco: Richard Basehart, Paul Douglas, Barbara Bel Geddes, Debra Paget, Agnes Moorehead, Jeffrey Hunter, Grace Kelly. Estreia: 01/3/51
Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários (em preto-e-branco)
Dizem que a vida imita a arte. Em algumas ocasiões, porém, a arte imita a vida. E o filme "Horas intermináveis" é uma prova de que a arte pode imitar a vida enquanto esta imita a arte. Confuso? Pois é, mas também não deixa de ser impressionante. Em julho de 1938, um homem de 26 anos se jogou do 17º andar de um hotel em Nova York. Doze anos mais tarde, sua história serviu de inspiração para um roteiro escrito por John Paxton (com base na sinopse de Joel Sayre) e filmado com um orçamento baixo e apenas seis semanas de filmagem. Quando o filme estava pronto para ser lançado, uma tragédia o aproximou fatidicamente da realidade quando a filha de um dos executivos da 20th Century Fox (o estúdio por trás da produção) cometeu suicídio da mesma forma no dia da pré-estreia. Foi um caso de assustadora ironia, mas o estúdio, compreensivelmente, adiou por seis meses a estreia oficial do filme - que, hoje em dia, não é muito lembrado até mesmo por fãs do cinema clássico hollywoodiano. Dirigido por Henry Hathaway - que dirigiria o icônico "Bravura indômita" em 1969 e realizou vários westerns em sua carreira -, "Horas intermináveis" também fez o enorme favor de marcar a estreia de Grace Kelly no cinema (em um papel pequeno que não fez muito por sua carreira mas já explorava sua beleza plácida e sofisticada).
Quando começou a ser produzido, "Horas intermináveis"seria dirigido por Howard Hawks. Hawks, um diretor conhecido pela versatilidade, já tinha no currículo comédias românticas ("Levada da breca", de 1938, e "Jejum de amor", de 1940), westerns ("Rio vermelho", de 1948) e filmes de guerra ("Sargento York", de 1941, lhe rendeu uma indicação ao Oscar). Seu nome preferido para estrelar o filme era Cary Grant, mas não demorou até que o veterano cineasta desistisse do projeto, alegando desconforto com o tema da produção. Sua saída, juntamente com a de Grant, que era quase garantia de bilheteria, resultou na contratação de Hathaway, um nome de confiança junto ao estúdio mas pouco reconhecido pelo público. Com a nova configuração, o filme chamou Paul Douglas para protagonista - um ator que nunca chegou ao status de astro, provavelmente porque nunca cedeu às tentações de poder e fama de Hollywood, apesar de seu talento e carisma. Essa alteração, que poderia tirar do filme o apelo popular, acabou por se tornar um de seus trunfos: com sua aparência de homem comum, Douglas convence em cada minuto de projeção e afasta o tom de celebridade que certamente poderia interferir na verossimilhança da trama.
Em uma atuação precisa, Richard Basehart interpreta Robert Cosick, um homem cujo desespero o leva a planejar o suicídio, pulando da janela de um hotel nova-iorquino em pleno Dia dos Namorados. Na tentativa de descobrir seus motivos e convencê-lo a desistir de seu intento, o policial Charlie Dunnigan (Paul Douglas) vai aos poucos ganhando sua confiança. Enquanto a mídia faz o circo habitual e uma multidão vai se formando em frente ao hotel, Cosick começa a revelar aos poucos seus problemas. Nesse meio-tempo, o suicida em potencial vai tendo sua vida desvendada por sua mãe e sua namorada, responsáveis indiretas por sua situação. O caso também chama a atenção de psiquiatras, que passam a tentar compreender o dilema do jovem antes que seja tarde demais.
Com um roteiro enxuto e com bons momentos dramáticos, "Horas intermináveis" consegue manter o interesse da plateia do início ao fim, graças à direção segura de Hathaway e a interpretação coesa de todo o elenco. A edição precisa e a ausência de trilha sonora (exceto nos créditos) ajudam a criar o clima de suspense, mas são seus dois protagonistas o grande segredo de seu sucesso. Richard Basehart está extremamente convincente nos momentos de angústia de Robert Cosick, e Paul Douglas praticamente rouba a cena na pele do policial Dunnigan, e seus confrontos tornam o filme de Hathaway um entretenimento acima da média. Basehart, aliás, merece todos os aplausos possíveis quando se sabe o que ele enfrentava nos bastidores: um diagnóstico de tumor cerebral para sua esposa, a figurinista Stephanie Klein, que morreu em julho de 1950, durante o processo de edição do filme. À sua morte e ao suicídio da jovem filha do executivo Spyros Skouras um outro drama de bastidores surgiu logo após as filmagens, quando vários membros do elenco foram chamados a depor a respeito de suas possíveis ligações com comunistas, e passaram a integrar a malfadada "lista negra" criada pelo senador Joseph McCarthy. "Horas intermináveis" pode até nem ter passado à história como um clássico absoluto, mas seu resultado final (principalmente se considerados todos os seus problemas de bastidores) é um milagre de inteligência e concisão. Mais uma prova de que Hathaway, a despeito de não ser um nome dos mais famosos de Hollywood, sabia muito bem como comandar um espetáculo de forma a conquistar os espectadores.
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A MONTANHA DOS SETE ABUTRES
A MONTANHA DOS SETE ABUTRES (Ace in the hole/The big Carnival, 1951, Paramount Pictures, 111min) Direção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder, Lesser Samuels, Walter Newman. Fotografia: Charles B. Lang Jr.. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Hugo Friedhofer. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: Earl Hedrick, Hal Pereira/Sam Comer, Ray Moyer. Produção: Billy Wilder. Elenco: Kirk Douglas, Jan Sterling, Bob Arthur, Porter Hall, Frank Cady, Richard Benedict, Ray Teal. Estreia: 14/6/61.
Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Billy Wilder não era um homem acostumado a meias-palavras, meias-imagens e dubiedades. Quando quis mostrar o lado cínico de Hollywood, ele fez "Crepúsculo dos deuses" (1950). O mesmo quando fez um retrato realista do alcoolismo em "Farrapo humano" (1945), das mazelas que se escondiam sob um prédio de escritórios em "Se meu apartamento falasse" (1960) e das escapadas extraconjugais (ainda que apenas imaginadas) em "O pecado mora ao lado" (1955). Seja com contundência ou com seu humor amargo e irônico (quase cínico), o cineasta austríaco consagrou-se em Hollywood com seu peculiar ponto de vista que, a despeito dos muitos prêmios e dos frequentes sucessos de bilheteria, normalmente despertavam polêmica ou, no mínimo, um olhar mais cuidadoso dos censores e dos membros mais suscetíveis da sociedade norte-americana. E um de seus mais incisivos petardos, o controverso "A montanha dos sete abutres" foi, talvez, um dos alvos mais destacados alvos dessa suspeita sensibilidade ianque.
Baseada em fatos reais - o que levou o diretor/roteirista ao banco dos réus em um processo de plágio que acabou perdendo - "A montanha dos sete abutres" foi um grande fracasso de bilheteria e crítica à época de seu lançamento, em grande parte talvez pela dureza de sua trama, a falta total de humanidade de seus personagens e pelo fato de, de certa forma, acusar o próprio espectador de compactuar indiretamente com os fatos narrados, através da apatia e da sede insaciável por sensacionalismo (o que mantém o filme atualíssimo ainda hoje, mesmo depois de seis décadas). Enquanto em seus filmes anteriores Wilder sempre arrumava um espaço para um certo senso de humor (ainda que distorcido por sua visão quase pessimista do mundo), neste seu ataque à irresponsabilidade da mídia ele deixa de lado qualquer brincadeira, enfatizando o lado egoísta e interesseiro de seus personagens com lente de aumento.
Kirk Douglas - em sua única colaboração com Wilder - está inspiradíssimo na pele de Chuck Tatum, um inescrupuloso e cínico jornalista que tenta recomeçar sua carreira em um pequeno jornal do interior dos EUA depois de ser demitido de seu emprego em Nova York (de onde saiu graças à sua paixão pela bebida, pela mentira e pelas mulheres, em especial a do chefe). Depois de um ano sentindo-se preso à absoluta falta de perspectivas de uma melhora na carreira - haja visto que nada de excitante acontece à sua volta - ele vê sua grande chance na figura de um desconhecido, um minerador chamado Leo Minosa (Richard Benedict), preso devido a um deslizamento de terra em uma caverna localizada em um lugar apropriadamente chamado A Montanha dos Sete Abutres. Sentindo o cheiro de uma grande matéria no ar, Tatum não hesita em utilizar-se de todos os artifícios pouco éticos de sua personalidade para retardar o resgate. Sua intenção - que acaba sendo compartilhada pelos ambiciosos moradores locais - é uma só: transformar o calvário do rapaz em manchete nacional. Adiando cada vez mais a salvação de Leo, o jornalista conta com a ajuda do xerife da cidade, com os comerciantes (que se veem lucrando quando o local torna-se ponto turístico) e até com a cínica esposa do trabalhador, a fria Lorraine (Jan Sterling), que acaba se envolvendo com o repórter.
É lógico que uma história como essa não pode terminar bem, e Wilder aproveita a contundência da trama para que ela fale por si mesma. Enquanto Leo Minosa pena em sua tortura particular - sem movimentos, com pouca comida, pouca água e pouco ar - e confia em Tatum como sua única salvação, a pequena localidade que o conhece desde sempre lucra como nunca, chegando a cobrar ingressos para um simples vislumbre do local do acidente (e o fato do rapaz ainda estar preso lá dentro pouco importa aos ávidos frequentadores de parques de diversão que enxergam na tragédia apenas um acontecimento pitoresco). A Lorraine Minosa de Jan Sterling é ainda mais cruel, quase aproveitando a situação do marido para dar o fora de seu inferno particular - um casamento insosso. É dela a frase mais marcante do filme (e que, segundo consta, veio da imaginação da sra. Wilder, Audrey Young): "Eu não me ajoelho para rezar. Rasga as minhas meias." O tom ácido da frase permeia todo o roteiro e todas as imagens de "A montanha dos sete abutres", secas, diretas, sem poesia ou beleza que disfarcem a maldade inerente aos seres humanos que retrata. É Billy Wilder sendo Billy Wilder, ou seja, cinema de primeira qualidade a serviço de uma trama que incomoda pela verdade.
Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Billy Wilder não era um homem acostumado a meias-palavras, meias-imagens e dubiedades. Quando quis mostrar o lado cínico de Hollywood, ele fez "Crepúsculo dos deuses" (1950). O mesmo quando fez um retrato realista do alcoolismo em "Farrapo humano" (1945), das mazelas que se escondiam sob um prédio de escritórios em "Se meu apartamento falasse" (1960) e das escapadas extraconjugais (ainda que apenas imaginadas) em "O pecado mora ao lado" (1955). Seja com contundência ou com seu humor amargo e irônico (quase cínico), o cineasta austríaco consagrou-se em Hollywood com seu peculiar ponto de vista que, a despeito dos muitos prêmios e dos frequentes sucessos de bilheteria, normalmente despertavam polêmica ou, no mínimo, um olhar mais cuidadoso dos censores e dos membros mais suscetíveis da sociedade norte-americana. E um de seus mais incisivos petardos, o controverso "A montanha dos sete abutres" foi, talvez, um dos alvos mais destacados alvos dessa suspeita sensibilidade ianque.
Baseada em fatos reais - o que levou o diretor/roteirista ao banco dos réus em um processo de plágio que acabou perdendo - "A montanha dos sete abutres" foi um grande fracasso de bilheteria e crítica à época de seu lançamento, em grande parte talvez pela dureza de sua trama, a falta total de humanidade de seus personagens e pelo fato de, de certa forma, acusar o próprio espectador de compactuar indiretamente com os fatos narrados, através da apatia e da sede insaciável por sensacionalismo (o que mantém o filme atualíssimo ainda hoje, mesmo depois de seis décadas). Enquanto em seus filmes anteriores Wilder sempre arrumava um espaço para um certo senso de humor (ainda que distorcido por sua visão quase pessimista do mundo), neste seu ataque à irresponsabilidade da mídia ele deixa de lado qualquer brincadeira, enfatizando o lado egoísta e interesseiro de seus personagens com lente de aumento.
Kirk Douglas - em sua única colaboração com Wilder - está inspiradíssimo na pele de Chuck Tatum, um inescrupuloso e cínico jornalista que tenta recomeçar sua carreira em um pequeno jornal do interior dos EUA depois de ser demitido de seu emprego em Nova York (de onde saiu graças à sua paixão pela bebida, pela mentira e pelas mulheres, em especial a do chefe). Depois de um ano sentindo-se preso à absoluta falta de perspectivas de uma melhora na carreira - haja visto que nada de excitante acontece à sua volta - ele vê sua grande chance na figura de um desconhecido, um minerador chamado Leo Minosa (Richard Benedict), preso devido a um deslizamento de terra em uma caverna localizada em um lugar apropriadamente chamado A Montanha dos Sete Abutres. Sentindo o cheiro de uma grande matéria no ar, Tatum não hesita em utilizar-se de todos os artifícios pouco éticos de sua personalidade para retardar o resgate. Sua intenção - que acaba sendo compartilhada pelos ambiciosos moradores locais - é uma só: transformar o calvário do rapaz em manchete nacional. Adiando cada vez mais a salvação de Leo, o jornalista conta com a ajuda do xerife da cidade, com os comerciantes (que se veem lucrando quando o local torna-se ponto turístico) e até com a cínica esposa do trabalhador, a fria Lorraine (Jan Sterling), que acaba se envolvendo com o repórter.
É lógico que uma história como essa não pode terminar bem, e Wilder aproveita a contundência da trama para que ela fale por si mesma. Enquanto Leo Minosa pena em sua tortura particular - sem movimentos, com pouca comida, pouca água e pouco ar - e confia em Tatum como sua única salvação, a pequena localidade que o conhece desde sempre lucra como nunca, chegando a cobrar ingressos para um simples vislumbre do local do acidente (e o fato do rapaz ainda estar preso lá dentro pouco importa aos ávidos frequentadores de parques de diversão que enxergam na tragédia apenas um acontecimento pitoresco). A Lorraine Minosa de Jan Sterling é ainda mais cruel, quase aproveitando a situação do marido para dar o fora de seu inferno particular - um casamento insosso. É dela a frase mais marcante do filme (e que, segundo consta, veio da imaginação da sra. Wilder, Audrey Young): "Eu não me ajoelho para rezar. Rasga as minhas meias." O tom ácido da frase permeia todo o roteiro e todas as imagens de "A montanha dos sete abutres", secas, diretas, sem poesia ou beleza que disfarcem a maldade inerente aos seres humanos que retrata. É Billy Wilder sendo Billy Wilder, ou seja, cinema de primeira qualidade a serviço de uma trama que incomoda pela verdade.
UMA RUA CHAMADA PECADO
UMA RUA CHAMADA PECADO (A streetcar named desire, 1951, Warner Bros., 124min) Direção: Elia Kazan. Roteiro: Tennessee Williams, baseado em sua peça de teatro homônima. Fotografia: Harry Stradling. Música: Alex North. Produção: Charles K. Feldman. Elenco: Vivien Leigh, Marlon Brando, Kim Hunter, Karl Malden. Estreia: 18/9/51
12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Elia Kazan), Ator (Marlon Brando), Atriz (Vivien Leigh), Ator Coadjuvante (Karl Malden), Atriz Coadjuvante (Kim Hunter), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte, Som
Vencedor de 4 Oscar: Atriz (Vivien Leigh), Ator Coadjuvante (Karl Malden), Atriz Coadjuvante (Kim Hunter), Direção de Arte
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Kim Hunter)
Adaptações de peças de teatro para o cinema sempre correm o grande risco de tornarem-se aborrecidos exercícios de overactings. É preciso muito talento e/ou experiência para transformar uma bem-sucedida montagem teatral em um igualmente bem-sucedido produto cinematográfico. E talento e experiência são qualidades que não faltam a Elia Kazan e já não faltavam quando ele lançou "Uma rua chamada pecado", em 1951. Ao levar para as telas a obra-prima de Tennessee Williams que ele mesmo havia dirigido na Broadway, o polêmico cineasta não só conseguiu a proeza de criar um novo parâmetro para adaptações teatrais como ainda lançou oficialmente um ator que se tornaria um ícone absoluto do cinema: Marlon Brando. Tudo bem que "Uma rua" não é o primeiro filme de Brando (o título pertence a "Espíritos indômitos", do ano anterior) mas é inegável que foi a partir de sua interpretação vulcânica como Stanley Kowalski que Brando iniciou seu caminho rumo a tornar-se um dos mitos mais duradouros do planeta Hollywood.
"Uma rua chamada pecado" (título fantasioso menos interessante do que o original "Um bonde chamado desejo") se passa em uma espécie de cortiço em Nova Orleans, onde vive a dona de casa Stella (Kim Hunter) e seu marido, o truculento Stanley (Brando). Sua vida sem maiores emoções além de noitadas de pôquer e boliche - temperadas com algumas brigas bastante violentas - se transforma com a chegada de sua irmã mais velha, a misteriosa Blanche DuBois (Vivien Leigh, loura e aparentemente à beira de um ataque de nervos). Blanche chega para passar alguns dias com a irmã e o cunhado, mas esconde as verdadeiras razões pelas quais abandonou a propriedade da família e o emprego de professora. Seus modos delicados logo batem de frente com a falta de polidez de Kowalski, que de imediato não simpatiza com aquela mulher cheia de histórias mal-contadas e que parece ter prazer em jogar sua esposa contra ele. A tensão sexual entre os dois aumenta ainda mais quando Blanche conhece um amigo de Stanley, o tímido Mitch (Karl Malden), que ainda vive com a mãe e busca a companhia de uma mulher que divida com ele suas rígidas regras morais. O passado de Blanche, no entanto, acaba vindo à tona, abalando sua frágil estrutura mental e emocional.
É impossível ficar impassível a "Uma rua chamada pecado". Seja pela atmosfera sexual que envolve cada cena ou seja pela complexidade psicológica de suas personagens, o texto de Williams tem a inteligência de nunca deixar nada óbvio a sua audiência. Tudo é revelado nas entrelinhas - em sons do passado, em olhares assustados, em silêncios reveladores -, de maneira a proporcionar ao público o prazer extra de descobrir junto com as personagens todos os desdobramentos de sua história, por si só bastante intensa e adulta. O roteiro não tem medo de tocar em assuntos controversos - sedução de menores, estupro, violência doméstica - e é defendido por garra por um elenco espetacular.
Apesar de não ser a primeira opção para o papel de Blanche Dubois (foi escolhida apenas por ser mais popular do que Jessica Tandy, que defendeu a personagem nos palcos), Vivien Leigh toma posse de sua personalidade quase de forma espírita, deixando para trás a imagem mundialmente conhecida de Scarlett O'Hara. Seu olhar quase psicótico, seus trejeitos de mulher presa em um mundo particular, sua maneira de enganar a si mesma são brilhantes. Sua química com Brando é palpável: é impossível não reconhecer a tensão sexual entre os dois, que culmina em uma das cenas mais fortes do filme.
Kim Hunter e Karl Malden pontuam com sutileza o embate entre Leigh e Brando, repetindo na tela seus trabalhos na Broadway. Como Stella e Mitch, eles acabam sendo as vítimas inocentes do bonde chamado desejo, que, sem freio, atropela os quatro protagonistas e os arrasta em um caminho sem volta rumo à tragédia.
Curiosamente, dos quatro atores principais do filme apenas Marlon Brando não levou o Oscar (que ficou com Humphrey Bogart, por "Uma aventura na África"). Mas não há espectador que não concorde que é seu Stanley Kowalski, com sua sexualidade à flor da pele - reiterada em constantes imagens de seu musculoso corpo suado e em suas atitudes de macho primata - quem se apropria de todo o filme. Basta Brando entrar em cena para que tudo pareça gravitar à sua volta, tamanha a força de sua atuação. O ator até pode ter ganho dois Oscar em seu caminho posterior (nos espetaculares "Sindicato de ladrões" e "O poderoso chefão"), mas é aqui, nos primórdios de sua carreira que ele marca, a ferro e fogo, seu nome na história do cinema.
quinta-feira
UM LUGAR AO SOL

UM LUGAR AO SOL (A place in the sun, 1951, Paramount Pictures, 122min) Direção: George Stevens. Roteiro: Michael Wilson, Harry Brown, baseado no romance "An american tragedy", de Theodore Dreiser. Fotografia: William C. Mellor. Música: Franz Waxman. Figurino: Edith Head. Produção: George Stevens. Elenco: Montgomery Clift, Elizabeth Taylor, Shelley Winters, Keefe Brasselle, Raymond Burr. Estreia: 14/8/51
9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (George Stevens), Ator (Montgomery Clift), Atriz (Shelley Winters), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino
Vencedor de 6 Oscar: Melhor Filme, Diretor (George Stevens), Roteiro Adaptado, Fotografia em preto-e-branco, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme/Drama
Este é o filme que o mestre Charles Chaplin descreveu como "o melhor filme já feito em toda a história!". Este é o filme que inspirou Janete Clair a escrever a novela "Selva de pedra", um de seus maiore sucessos. Este é o filme que apresentou Elizabeth Taylor a Montgomery Clift, que se tornaram grandes amigos até a morte do ator, em 1966. E este filme também é mais uma das inúmeras injustiças que a Academia de Hollywood cometeu em suas premiações. Tudo bem que levou 6 estatuetas pra casa (diretor, roteiro, fotografia, montagem, trilha sonora e figurino em preto-e-branco), mas perdeu a principal para o insosso "Sinfonia de Paris" (e isso em um ano que tinha entre seus concorrentes o igualmente fenomenal "Uma rua chamada pecado", de Elia Kazan).
"Um lugar ao sol" é uma brilhante adaptação do extenso romance "An american tragedy", de Theodore Dreiser, que originalmente se passa nos anos 20. Ao transferir a ação para os anos 50, Stevens criou não só um belo melodrama romântico mas também um retrato feroz e nada delicado de um mundo em constante desequilíbrio social, que empurra os indivíduos além de seus códigos de ética e conduta. Seu protagonista, o jovem e ambicioso George Eastman não é apenas um anti-herói que se torna vítima de seu desejo de ascensão social: ele é também e principalmente a imagem do americano médio, que, nos primeiros anos do pós-guerra se vê dividido entre o que é certo moralmente e o que é necessário para se atingir um nível decente de vida.
George Eastman (vivido magistralmente por Montgomery Clift em seu mais icônico papel) é um jovem pobre que, fugindo de uma vida sem recursos ao lado da mãe, uma mulher religiosa ao extremo, vai trabalhar na empresa de confecções de seu tio. Lá, ele conhece e começa a namorar uma colega de trabalho, a simplória Alice (Shelley Winters). A proximidade com a família milionária de seu tio, cercada de luxo e glamour, logo passa a despertar seu desejo de ascensão social, que fica ainda mais acentuado quando ele se apaixona pela bela Angela Vickers (Elizabeth Taylor). Milionária, ela representa,para o rapaz acostumado com a mediocridade de uma vida sem maiores recursos, o brilho de uma existência sem preocupações financeiras. As coisas se complicam quando Alice revela que está grávida e passa então, por sua cabeça, livrar-se dela e consequentemente de seus problemas.
Ao contrário do que faria cinco anos depois com seu grandiloquente "Assim caminha a humanidade", que fotografava a vasta amplidão do Texas quase como um personagem a mais, em "Um lugar ao sol" George Stevens usa e abusa dos closes, criando tanto uma atmosfera claustrofóbica quanto extremamente calorosa. É impressionante como a mesma técnica funciona de maneiras tão distintas no filme. Quando George está com Angela a proximidade da câmera sublinha de forma inequívoca um sentimento inebriante de paixão, de amor, de urgência (e ajuda muito a beleza impressionante de Taylor, aos 17 anos e em seu primeiro papel adulto). Quando as cenas do protagonista são com Alice a mesma distância quase inexistente da câmera dá a plena sensação de sufoco, de falta de ar, de escuridão, como se estivéssemos assistindo tudo através dos olhos torturados de Eastman. Não é à toa que a fotografia de William C. Mellor arrebanhou o Oscar, tal é a sua importância em transmitir em imagens os pensamentos de seu protagonista.

O protagonista, aliás, merece um parágrafo à parte. Que belo personagem é George Eastman! Dividido entre a responsabilidade de uma paternidade indesejada - e a consequente mediocridade de uma vida da qual deseja fugir desesperadamente - e a possibilidade de uma vida longe de seu passado miserável - ao lado da mulher que verdadeiramente ama - ele é sem dúvida um dos mais complexos protagonistas do cinema dos anos 50. A escolha de Montgomery Clift para interpretá-lo foi uma jogada de gênio. Com seu belo rosto a serviço de uma personalidade torturada, Clift (um dos atores mais subapreciados de Hollywood, sempre sendo relegado a segundo plano em comparações com Marlon Brando e James Dean) oferece ao público um trabalho primoroso, onde transmite com igual competência assombro, paixão, desespero e angústia, sem nunca deixar de ser, nas cenas finais, o mesmo homem simplório e deslumbrado das primeiras. Uma tour de force das mais inspiradas do cinema, fascinante e de partir o coração.
"Um lugar ao sol" merece seu status de um dos melhores filmes de todos os tempos. Além do roteiro preciso, da fotografia perfeita e da sublime direção de George Stevens, contar com duas atrizes como Elizabeth Taylor e Shelley Winters para coadjuvar Montgomery Clift não é pra qualquer um. Cada uma dentro do seu estilo, elas representam os diferentes mundos que disputam a alma do protagonista. Linda, etérea e fascinante, Taylor veste Edith Head (figurinista de quem tornou-se grande amiga) com uma naturalidade invejável. E como imagem da mediocridade, Winters é insuperável, chegando a justificar o desejo homicida de George.
Obrigatório em todos os sentidos, "Um lugar ao sol" é uma influência ainda nos dias de hoje, como bem o comprova Woody Allen que o emula com maestria em "Match point". Feito há quase 60 anos, a obra de George Stevens se mantém tão atual hoje em dia quanto na época de seu lançamento, tamanha a genialidade que grita em cada fotograma.
PACTO SINISTRO
PACTO SINISTRO (Strangers on a train, 1951, Warner Bros, 101min) Direção e produção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Raymond Chandler e Czenzi Ormonde, Ben Hetch, baseado no romance de Patricia Highsmith. Fotografia: Robert Burks. Música: Dimitri Tiomkin. Elenco: Farley Granger, Robert Walker, Ruth Roman, Patricia Hitchcock. Estreia: 03/7/51
Indicado ao Oscar de Melhor Fotografia em P&B
"Quanto mais perfeito for o vilão, mais perfeito será o filme." Essa regra primordial ditada pelo cineasta inglês Alfred Hitchcock encontra em "Pacto sinistro" uma prova irrefutável. Bruno Anthony, o vilão do filme, vivido com gosto por Robert Walker, é um dos mais interessantes antagonistas da vasta obra do cineasta e por causa dele - e da direção inspirada do mestre do suspense, é claro - o filme deixa de ser uma obra banal para tornar-se um grande entretenimento.
Baseado em um romance de Patricia Highsmith (autora também da série de livros com a personagem Tom Ripley, e que ficou possessa com a quantia irrisória paga pelos direitos de filmagem - dizem que apenas U$ 750), o filme começa no vagão de um trem onde o playboy Bruno Anthony conhece o tenista profissional Guy Haines (Farley Granger), de quem é fã incondicional. Sabendo que o jogador anda tendo problemas em conseguir o divórcio de sua primeira mulher (que o traiu e mudou de ideia quanto à separação por puro interesse financeiro), o misterioso Anthony explica a seu novo amigo seu plano para um assassinato perfeito: troca de crimes. Atônito, Guy o escuta sem acreditar, dizer que ele poderia matar sua mulher se ele matasse seu pai, que o mantém sob uma rígida proteção monetária. Tudo não passaria de teoria se Anthony não cometesse o primeiro homicídio e passasse a perseguir o jovem tenista, cobrando que ele cumpra sua parte no plano. Constantemente vigiado pela polícia, Guy tem que se livrar de seu perseguidor, provar sua inocência e não perder o amor da noiva, Ann Morton (a fraca Ruth Roman), filha de um influente senador de Washington.
Apesar da premissa original ser extremamente forte e instigante, "Pacto sinistro" é muito mais do que um jogo de gato e rato. O autor de romances policiais Raymond Chandler foi o primeiro contratado para roteirizar o filme, mas diferenças artísticas com Hitchcock o afastaram do projeto. Seria de imaginar se o resultado ficaria ainda melhor, mas do jeito que está, o filme já é um espetáculo de suspense da maior qualidade. Assim como em grande parte de sua vasta filmografia, Hitchcock usa e abusa de detalhes visuais para reiterar suas ideias. Cada cena, cada fotograma, cada close é importante para sua narrativa. Transitando com propriedade entre a tensão suprema e a ironia sutil, Hitchcock dá uma aula de como manter o espectador grudado na cadeira do início ao fim de sua história. Ideias geniais de enquadramento abundam em "Pacto sinistro" (o primeiro assassinato, por exemplo, é visto pela audiência através das lentes do óculos da vítima, caído no chão) e o diretor se diverte tanto quanto o público, dando vida a cenas que muitos "autores" do cinema atual morreriam para criar.
Exemplos? Quando Guy está em Washington, ele vê, em uma escadaria totalmente branca, o vulto de Bruno Anthony, como uma sombra maligna. Durante uma partida de tênis, Anthony é o único espectador que não mexe a cabeça acompanhando a bola. Antes de assassinar a mulher do tenista, o vilão explode o balão de uma criança com o cigarro e depois do crime cometido, ajuda um cego a atravessar a rua, como um bom cidadão. O mestre não tem medo nem mesmo de arriscar uma perigosa cena de ação no clímax do filme, passado em um carrossel de parque de diversões.
"Pacto sinistro" trata de um dos temas preferidos do diretor: a transferência de culpa. Assim como em toda a sua obra, o clima claustrofóbico permeia toda a narrativa, levando ao público a angústia de Guy, mesmo que ele seja interpretado por um Farley Granger aquém do papel (o diretor preferia William Holden em seu lugar, especialmente por seu porte físico). O subtexto homoerótico passou despercebido quando o filme estreou, mas é bastante claro quando assistido nos dias de hoje. Bruno Anthony é logicamente apaixonado por Guy Haines - e é dominado, ainda que discretamente, pela mãe, assim como Norman Bates de "Psicose". Aliás, é Robert Walker quem se destaca gritantemente do resto do elenco do filme.
O Bruno Anthony de Walker é um dos vilões mais memoráveis da filmografia de Hitchcock. Delicado, quase cínico, bem-educado e discreto, ele foge do estereótipo do bandido óbvio e é tão bem construído que em certos momentos quase se tem a vontade de torcer por ele, pra que ele consiga finalmente se livrar do jugo de seu pai. Infelizmente "Pacto sinistro" foi o penúltimo filme do ator (que foi casado com Jennifer Jones antes dela casar-se com David O. Selznick), que morreu de reação alérgica a um medicamento durante as filmagens de seu projeto seguinte. Em todo caso seu trabalho como o psicótico Bruno Anthony felizmente está registrado em celulóide, para que as devidas homenagens sejam prestadas sempre que necessário.
PS - O ator Danny de Vito fez sua estreia como cineasta dirigindo a comédia de humor negro "Joga a mamãe do trem" em homenagem explícita a "Pacto sinistro". No filme, ele vive um aspirante a escritor que tenta convencer seu professor (Billy Cristal) a matar sua mãe despótica (Anne Ramsey, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante) e em troca, se oferece para assassinar sua ex-mulher, que roubou os manuscritos de seu livro. Vale a pena conferir!
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