Mostrando postagens com marcador ARMIN MUELLER-STAHL. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ARMIN MUELLER-STAHL. Mostrar todas as postagens

terça-feira

AVALON

 

AVALON (Avalon, 1990, TriStar Pictures, 128min) Direção e roteiro: Barry Levinson. Fotografia: Allen Daviau. Montagem: Stu Linder. Música: Randy Newman. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Norman Reynolds/Linda DeScenna. Produção: Mark Johnson, Barry Levinson. Elenco: Armin Mueller-Stahl, Joan Plowright, Aidan Quinn, Elizabeth Perkins, Kevin Pollack, Elijah Wood. Estreia: 19/10/90

4 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino

 "Cheguei na América em 1914..." Mais do que a abertura de "Avalon", a frase dita pelo patriarca Sam Krichinsky no filme de Barry Levinson serve como uma espécie de mantra, uma lembrança constantemente repetida através dos anos como forma de reafirmar uma identidade nacional ameaçada pela modernidade e pela imersão em uma cultura estrangeira. Inspirado na trajetória da família do diretor e roteirista, o primeiro filme de Levinson depois da chuva de Oscar por "Rain Man" (1988) é, também, um dos filmes mais pessoais do cineasta, repleto de calor humano, personagens dolorosamente reais e momentos da mais pura magia cinematográfica. Sem apelar para o sentimentalismo barato - ainda que não evite a emoção - e com um elenco preciso, formado por atores (e não astros de ego inflado e atuações excessivas), "Avalon" se destaca na carreira do realizador justamente por nadar contra a corrente e entregar ao espectador uma deliciosa e nostálgica crônica familiar, injustamente esquecida pela Academia de Hollywood em um ano cujo maior sucesso foi o soporífero e superestimado "Dança com lobos": indicado a apenas quatro estatuetas (indicações que sublinham algumas de suas maiores qualidades), o filme é uma joia das mais preciosas, uma carinhosa ode à família e à pátria - mas sem exagero no açúcar ou no ufanismo barato.

Interpretado por Armin Mueller-Stahl com generosas doses de sensibilidade, Sam Krichinsky não é exatamente o protagonista - ao menos não o único: ao optar por uma narrativa quase episódica, Levinson espalha o protagonismo por vários membros da família, especialmente no filho de Sam, Jules (Aidan Quinn), um jovem ambicioso e empreendedor que se torna, mesmo que de forma não intencional, o responsável pela separação do núcleo familiar. Em busca de independência, Jules rompe simbolicamente com as raízes polonesas (a simplificação do sobrenome é quase um golpe de morte em seu pai) e foge da tradição profissional de gerações ao sonhar (e realizar) um negócio próprio e então inovador. Ao lado do primo, Izzy (Kevin Pollack) - também pouco arraigado a tradições que considera não práticas - e da esposa, Ann (Elizabeth Perkins), Jules representa a chegada do progresso, da tecnologia (a TV surge como catalisador de outras mudanças na rotina da casa) e de uma nova forma de enxergar o mundo e os rituais antes considerados intocáveis. Não à toa, Levinson se utiliza de eventos familiares para sublinhar as profundas transformações (igualmente representativo é o fato de que é o Dia de Ação de Graças, uma data tipicamente norte-americana, o cenário para tais momentos de humor e/ou emoção). O roteiro equilibra com maestria humor e drama - nos dois casos com parcimônia e delicadeza - e consegue, de maneira admirável, valorizar o amor à terra natal e louvar as oportunidades de um novo mundo. É comovente e lindamente fotografada a sequência de abertura, em pleno 4 de julho, quando Sam fica abismado com as luzes e o colorido de seu novo país, como o auspício de um futuro tão brilhante quanto a noite de independência.

 
Terceira parte de uma trilogia informal iniciada por Barry Levinson com "Quando os jovens se tornam adultos" (1982) e continuada com "Os rivais" (1987) - um capítulo a mais foi adicionado com "Ruas da liberdade", de 1999 -, "Avalon" chegou a figurar entre os dez melhores filmes de 1990 pela National Board of Review e foi indicado a três importantes Golden Globes - melhor drama, melhor diretor e melhor trilha sonora original -, mas foi quase esquecido pelo Oscar. Mesmo lembrado na nobre categoria de roteiro original - onde perdeu para "Ghost: do outro lado da vida", adorado pelo público -, não foi celebrado como merecia: concorreu também às estatuetas de fotografia, figurino e música (uma sensível partitura de Randy Newman que ilustra com exatidão toda a vasta gama de emoções que percorre o filme). O trabalho de Mueller-Stahl foi injustamente esnobado (e pensar que Kevin Costner estava no páreo) e a direção discreta mas emotiva de Levinson também foi deixada de lado - talvez por sua vitória ainda recente por "Rain Man". Tal resultado em cerimônias de premiação não reflete todas as suas qualidades, sendo mais um sinal inequívoco do fato de que o Oscar normalmente é um jogo de popularidade: com uma renda internacional de pouco mais de 15 milhões de dólares (que não chegou nem mesmo a pagar seu orçamento relativamente baixo de 20 milhões), era difícil disputar de igual pra igual com produções de bilheteria milionária, como os já citados "Dança com lobos" e "Ghost" e com filmes que já chegavam às telas com prestígio nas alturas, como "Os bons companheiros" e "O poderoso chefão: parte 3". Diante de tantos pesos-pesados, "Avalon" ficou praticamente invisível - para azar de quem não o descobriu a tempo.

É difícil escolher a melhor cena de "Avalon", repleta de momentos tão verdadeiros e emocionantes que soam familiares até mesmo para quem não é de descendência judaica-polonesa. Todos os encontros do clã são recheados de calor humano, humor e verossimilhança. Sam Krichinsky e sua amada Eva (Joan Plowright, excelente) são os avós que todos gostariam de ter - assim como a infância do pequeno Michael (Elijah Wood ainda criança mas já bastante expressivo), inundada de amor e aventuras que beiram o perigo. Levinson conduz o espectador por uma viagem no tempo, enfatizando aqui e ali situações corriqueiras mas que, iluminadas por seu olhar carinhoso, se tornam maiores que a vida. Amor, amizade, vida, morte, alegrias e tristezas são iguais em importância diante do cineasta - que faz, à sua maneira, uma homenagem das mais brilhantes a suas origens familiares. Sem escorregar no sentimentalismo mas investindo com inteligência no que qualquer personagem tem de mais humano, ele criou um dos melhores filmes da década de 1990, infelizmente pouco conhecido do grande público.

sexta-feira

SHINE: BRILHANTE

SHINE: BRILHANTE (Shine, 1996, Fine Line Pictures, 104min) Direção: Scott Hicks. Roteiro: Scott Hicks, estória de Jan Sardi. Fotografia: Geoffrey Simpson. Montagem: Pip Karmel. Música: David Hirschfelder. Figurino: Louise Wakefield. Direção de arte/cenários: Vicki Niehus/Tony Cronin. Produção: Jane Scott. Elenco: Geoffrey Rush, Noah Taylor, Armin Mueller-Stahl, Lynn Redgrave, John Gielgud, Alex Rafalowicz, Marta Kaczmarek, Googie Withers. Estreia: 21/01/96 (Festival de Sundance)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Scott Hicks), Ator (Geoffrey Rush), Ator Coadjuvante (Armin Mueller-Stahl), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Melhor Ator (Geoffrey Rush)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Geoffrey Rush) 

Se é justo afirmar que todo gênio tem uma alma torturada, ninguém serve como maior exemplo disso do que o australiano David Helfgott: pressionado desde a infância a superar seu próprio brilhantismo ao piano, ele lutou bravamente para encontrar seu próprio caminho - a despeito dos desejos dúbios de seu pai superprotetor - e, mesmo depois de uma devastadora crise nervosa que o afastou dos palcos por décadas, nunca abandonou sua paixão pela música. A história de Helfgott - redescoberta depois de seu retorno aos holofotes - é inspiradora e emocionante, e como não poderia deixar de ser, interessou aos produtores de cinema. Para sorte de todos, porém, não foi Hollywood e sua tendência em exagerar na sacarose quem levou sua trajetória às telas. Produzido na Austrália e dirigido por um até então desconhecido cineasta e documentarista, "Shine: brilhante" estreou no Festival de Sundance em janeiro de 1996 e, desde então, passou a colecionar prêmios, principalmente devido à sua maior contribuição à sétima arte: a revelação do ator Geoffrey Rush às plateias.

Já na casa dos quarenta anos quando estrelou o filme de Scott Hicks - que nunca mais acertou a mão no cinema -, Rush era conhecido na Austrália por sua vitoriosa carreira nos palcos, mas foi sua interpretação como David Helfgott em sua fase madura que lhe abriu as portas de Hollywood. Seu desempenho não apenas o tornou um nome bem considerado pelos produtores como lhe rendeu todos os prêmios da temporada. Além da vitória junto aos críticos de Boston, Los Angeles e Nova York, ele ainda conquistou uma raríssima unanimidade junto às cerimônias de premiação mais populares: levou pra casa um Oscar, um Golden Globe, um BAFTA, uma estatueta do Critic's Choice Awards e a aprovação dos colegas com um Screen Actor Guild Award. Haja prateleira para tantos prêmios, mas é impossível negar que o desempenho de Rush é um dos pontos fortes de "Shine". Mesmo que ele mal apareça em cena até depois da metade da história (antes disso ele surge apenas no prólogo, que mostra ao público sua inusitada "redescoberta"), é ele quem fica na memória do espectador depois dos créditos finais, graças à excentricidade visceral de sua performance.


Antes que Rush surja na tela e domine o espetáculo, no entanto, outro ator - igualmente impecável em sua atuação - já prepara o terreno. Como o jovem Helfgott, o britânico Noah Taylor encara o desafio de dar vida ao pianista nos momentos mais críticos de sua jornada - seus embates com o pai, sua decolagem artística e a crise psiquiátrica que interrompeu sua carreira. Com segurança ímpar, Taylor percorre terrenos perigosos sem jamais cair em armadilhas ou clichês (mérito também da direção de Scott Hicks) e conquista a audiência com sua mistura de inocência e autoconfiança - um conjunto de qualidades que o empurra em direção ao abismo e à manipulação paterna. Armin Mueller-Stahl - indicado ao Oscar de ator coadjuvante - brilha no papel do patriarca Peter, um homem atormentado pelo passado em campos de concentração e que, apesar de acreditar no talento do filho (e incentivá-lo a ultrapassar seus limites), não concebe a possibilidade de separar a família, e com isso antecipa a tragédia que vem a seguir. Mais do que simplesmente abraçar o caminho mais fácil e fazer de seu personagem um vilão unidimensional, Mueller-Stahl concede a ele o dom de uma profundidade maior, em que cabe o medo, o amor e uma rigidez que nem sempre disfarça o orgulho do filho.

Interpretado ainda por Alex Rafalowicz em sua versão infantil, David Helfgott é um personagem quase inacreditável - e que chamou a atenção até mesmo do veterano Dustin Hoffman, que se interessou em interpretá-lo. Dono de uma personalidade peculiar, com trejeitos próprios e uma linguagem corporal pouco comum, o músico era um convite tentador ao exagero, mas "Shine" consegue o feito raro de contar sua história sem apelar para o sentimentalismo. Não à toa, conquistou a Academia de Hollywood e chegou à festa do Oscar com sete indicações, inclusive melhor filme, diretor e roteiro original - além das lembranças a Rush e Mueller-Stahl. A edição (que também concorreu à estatueta, mas perdeu para o grande vencedor do ano, "O paciente inglês") valoriza a estrutura da trama (que explora com inteligência o uso de flashbacks), e a trilha sonora, que conta com obras de Rachmanioff (das mais difíceis de se executar, segundo especialistas) como pano de fundo, são outros elementos cruciais para o sucesso do filme - que emociona, surpreende e encanta sem apelar para lágrimas fáceis. Um belo trabalho!

sábado

ANJOS E DEMÔNIOS

ANJOS E DEMÔNIOS (Angels and demons, 2009, Columbia Pictures/Imagine Entertainment, 138min) Direção: Ron Howard. Roteiro: David Koepp, Akiva Goldsman, romance de Dan Brown. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill. Música: Hans Zimmer. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Allan Cameron/Larry Bellantoni, Robert Gould. Produção executiva: Dan Brown, Todd Hallowell, Marco Valerio Pugini. Produção: John Calley, Brian Grazer, Ron Howard. Elenco: Tom Hanks, Ewan McGregor, Armin Mueller-Stahl, Ayelet Zurer, Stellan Skarsgaard, Pierfrancesco Favino, Cosimo Fusco. Estreia: 04/5/09 (Roma)

Best-seller absoluto em todo o mundo, o livro "O Código Da Vinci", de Dan Brown, não demorou em chegar às telas de cinema, em 2006, com o apoio de um invejável time liderado pelo diretor Ron Howard (vencedor do Oscar por "Uma mente brilhante") e pelo ator Tom Hanks (dono de duas estatuetas, por "Filadélfia" e "Forrest Gump: o contador de histórias" e que ficou com um papel disputado pelos maiores astros de Hollywood à época, como Russell Crowe e Hugh Jackman). Com um custo estimado de 125 milhões de dólares, o filme acabou desagradando boa parte da crítica e dos fãs da obra original, e, apesar de ter coletado mais de 750 milhões internacionalmente, ficou longe de ser considerado um fenômeno sequer parecido com o do livro, que vendeu mais de 80 milhões de cópias e causou polêmicas infindáveis com suas teorias a respeito de uma possível descendência de Jesus Cristo. Isso não impediu, no entanto, que Hollywood percebesse que Langdon e suas aventuras poderiam tranquilamente render muito mais - especialmente porque Brown já tinha publicado outro livro com o mesmo personagem e que estava pronto para ser adaptado. Mesmo se passando antes dos acontecimentos mostrados em "Da Vinci", "Anjos e demônios" foi lançado, três anos mais tarde, como uma continuação - e, se não teve a bilheteria esperada, não foi por falta de esforço por parte dos produtores, que tentaram (sem conseguir muito) corrigir as falhas do primeiro filme.


Uma das mais frequentes críticas feita à "O Código Da Vinci" em seu lançamento dizia respeito à forma como o roteirista Akiva Goldsman havia traduzido a estratosférica quantidade de informações sobre História, Arte e Religião do livro para o filme. Para evitar o didatismo em "Anjos e demônios", o vencedor do Oscar por "Uma mente brilhante" - que recebeu um salário recorde de 3,8 milhões de dólares pelo trabalho - enxugou o máximo que pode de referências históricas aos Illuminati (sociedade secreta surgida no século XVIII que tem papel preponderante na trama) e concentrou-se nas aventuras de Langdon pela cidade do Vaticano às vésperas da eleição de um novo Papa. O roteiro acabou por ter cenas reescritas pelo veterano David Koepp (a pedido de Tom Hanks) e chegou até o público sem a mesma inteligência de "Da Vinci" - e com sequências de suspense e ação mornas e apáticas. Nem mesmo a duração excessiva (quase duas horas e meia de projeção) dá conta de costurar o exagero de situações criadas pela história, que envolve sequestro de cardeais, o roubo de antimatéria com intenções criminosas, os famigerados Illuminati e uma sucessão de cenas que se pretendem chocantes mas que ficam no meio do caminho entre a violência e o desejo de atrair público de todas as idades às salas de cinema. O resultado é um filme bem produzido (como era de se esperar haja visto o orçamento gigantesco para uma obra sem efeitos visuais mirabolantes) mas sonolento, incapaz de empolgar ou sequer atiçar a imaginação da plateia como seu antecessor.


Se em "O Código Da Vinci" o protagonista fazia uma turnê pelos pontos turísticos religiosos e históricos de Paris, em "Anjos e demônios" o simbologista mais famoso da literatura mundial é chamado ao Vaticano para tentar evitar uma tragédia de grandes proporções: um grupo de membros dos Illuminati acaba de sequestrar os quatro cardeais favoritos ao posto de novo Papa (após a morte inesperada do último) e pretende matá-los de hora em hora, além de detonar uma explosão capaz de arrasar com a cidade. Tais atos, planejados como uma revanche pela perseguição da Igreja Católica feita à sociedade secreta desde sua criação, ameaçam não apenas a integridade física de todos os religiosos reunidos para o conclave, mas também a própria estrutura da Igreja - o que deixa o carmelengo Patrick McKenna (Ewan McGregor) na difícil situação de lidar tanto com a eleição quanto com a possibilidade de não sobrarem possíveis candidatos ao cargo, já que, além dos desaparecidos, apenas o Cardeal Strauss (Armin Mueller-Stahl) tem condições de assumir tal papel. Nesse meio-tempo, Langdon corre de uma catedral à outra, tentando evitar as mortes dos cardeais usando, para isso, pistas que remetem a antigas anotações guardadas a sete chaves pelas autoridades canônicas.

Substituindo a francesa Audrey Tautou pela israelense Ayelet Zurer (que foi a mulher de Eric Bana em "Munique", de 2005), "Anjos e demônios" consegue evitar a verborragia excessiva de "O Código Da Vinci", mas esbarra em um problema ainda maior: a superficialidade de absolutamente toda a sua narrativa. Enquanto no filme anterior o diretor Ron Howard ilustrava longos discursos com uma edição notável e criativa (mas ainda assim vítima de muitas reclamações), aqui ele simplesmente ignora toda e qualquer vontade de esclarecer a plateia sobre as origens dos Illuminati ou sobre detalhes a respeito das pistas que Langdon vai encontrando em sua busca. O ritmo talvez tenha ficado mais ágil, mas em compensação é difícil de envolver-se com a trama ou com seus personagens. Tom Hanks continua no piloto automático e Ewan McGregor faz o que pode com um personagem que jamais atinge todas as suas possibilidades. No cômputo final, é um filme menor do que seu primeiro capítulo - não empolga, não ensina nem tampouco é memorável. Um entretenimento decente, mas nada além disso. Uma decepção quando se pensa que tem a assinatura de um time de talento inegável e uma produção caríssima.

terça-feira

SENHORES DO CRIME

SENHORES DO CRIME (Eastern promises, 2007, Focus Features/BBC Films, 100min) Direção: David Cronenberg. Roteiro: Steve Knight. Fotografia: Peter Suschitszky. Montagem: Ronald Sanders. Música: Howard Shore. Figurino: Denise Cronenberg. Direção de arte/cenários: Carol Spier/Judy Farr. Produção executiva: Jeff Abberley, Julia Blackman, Stephen Garrett, David M. Thompson. Produção: Robert Lantos, Paul Webster. Elenco: Viggo Mortensen, Naomi Watts, Vincent Cassel, Armin Mueller-Stahl, Sinéad Cusack, Jerzy Skolimowski. Estreia: 05/9/07 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Melhor Ator

O sucesso de crítica e público de "Marcas da violência" (05) deu novo rumo à carreira do cineasta canadense David Cronenberg, até então acostumado a dividir opiniões com seus trabalhos frequentemente à beira do mau-gosto - vide a podridão explícita de "A mosca" e o surrealismo exarcebado de "Mistérios e paixões". Encontrando no ator Viggo Mortensen um parceiro artístico à altura, ele retornou aos desvãos da alma humana em seu filme seguinte, "Senhores do crime", em que equilibrou seu gosto pela violência com uma narrativa simples e direta, que prescindia de artifícios e metáforas para conquistar a plateia ávida por um bom filme policial. Mesmo recorrendo em alguns momentos a sequências bem mais gráficas do que a média do gênero - com sangue jorrando aos borbotões e um homem tendo o olho perfurado em uma luta - Cronenberg realizou uma obra que foge do convencional graças ao roteiro inteligente, ao elenco em boa forma e à sua direção, firme e inspirada.

Mortensen recebeu uma indicação ao Oscar de melhor ator por seu desempenho - a princípio minimalista mas que vai aos poucos acumulando energia para o já antológico clímax em uma sauna, onde luta nu com dois homens que querem matá-lo - como Nikolai, o motorista de uma família de mafiosos russos que vivem em Londres. Com o corpo coberto de tatuagens - sinais que contam sua história de crimes, segundo dizem seus chefes - ele anseia em ser aceito como membro do seleto e violento grupo, liderado pelo aparentemente dócil Seymon (Armin Mueller-Stahl), que tem uma relação conflituosa com o filho único, o desajustado e impulsivo Kirill (Vincent Cassel). Seu mundo encharcado de sangue e vinganças é penetrado repentinamente pela obstetra Anna (Naomi Watts),  que chega até eles em busca de informações a respeito de uma adolescente que morreu em seus braços, durante um parto. Através do diário da jovem - que a médica não consegue traduzir do russo apesar de sua descendência soviética - ela tenta descobrir um meio de entregar seu bebê recém-nascido a algum membro da família, mas nem de longe desconfia que os responsáveis por toda a tragédia estão justamente entre aqueles a quem ela pede socorro.


Pontuando sua trama com um clima de constante ameaça, Cronenberg tem o mérito de depositar nos confiáveis braços de Mortensen um papel-chave, que, para surpresa do público, tem muito mais nuances e desdobramentos do que parecia a princípio. O roteiro de Steve Knight é pródigo em impedir a audiência de adivinhar o que vem pela frente, embaralhando suas cartas sempre que a trama parece caminhar em direção a um clichê. A relação entre Seymon e Kirill, por exemplo, seria um prato cheio para um roteirista preguiçoso, mas Knight faz questão de deixá-la sempre em tensão crescente, como se a qualquer momento tudo entre eles pudesse explodir sem aviso prévio. Logicamente, a escolha de Mueller-Stahl e principalmente Vincent Cassel para os papéis não poderiam ter sido mais corretas - o primeiro com seu ar bonachão de pai de família carinhoso e o segundo com seu eterno tom de desequilíbrio mental. Ao lado de Mortensen, uma presença tranquila e silenciosa, eles formam uma tríade de perigo à espreita que empresta o filme boa parte de seu charme e inteligência.

Forte e violento, "Senhores do crime" transforma até mesmo um momento sublime - o nascimento de um bebê - em uma fonte de vingança e crueldade, uma espiral crescente de tensão e desespero na qual a sofrida Anna (uma mãe frustrada pela morte prematura de um filho) se vê envolvida em um meio masculino que não a vê senão como um pedaço de carne. A virilidade misógina que perpassa o filme - com os homens explorando as prostitutas, violentando adolescentes e tratando suas esposas e mães como apêndices inferiores - tem reflexo nas cenas extremamente agressivas de luta e nos rituais de transição representados pela sessão de tatuagens em Nikolai e nos assassinatos cometidos em nome de uma tradição familiar sanguinária, mas a presença quase serena de Anna ameniza a sensação de desesperança e pesadelo que a fotografia escura e úmida transmite. Essa dicotomia massiva entre bem/mal, luz/escuridão, nascimento/morte é um dos trunfos do filme, que é um dos pontos altos da filmografia de David Cronenberg.
 

sexta-feira

MUITO MAIS QUE UM CRIME

MUITO MAIS QUE UM CRIME (Music box, 1989, Carolco Pictures, 124min) Direção: Costa-Gavras. Roteiro: Joe Eszterhas. Fotografia: Patrick Blosssier. Montagem: Joelle Van Effenterre. Música: Philippe Sarde. Figurino: Rita Salazar. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Erica Rogala. Produção executiva: Joe Eszterhas, Hal W. Polaire. Produção: Irwin Winkler. Elenco: Jessica Lange, Armin Mueller-Stahl, Frederic Forrest, Michael Hooker, Donald Moffat, Lukas Haas. Estreia: 22/12/89 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Jessica Lange)

Quando o nome do cineasta grego Costa-Gravas aparece nos créditos de um filme, o espectador já sabe o que esperar: autor de obras provocadoras e corajosas com "Z" (69) e "Desaparecido, um grande mistério" (82), o diretor apostava sempre em temas politicamente ousados, que desafiassem as ideologias tanto do espectador quanto da crítica. Depois do relativo fracasso de seu "Atraiçoados" (88) - em que colocava uma agente infiltrada do FBI vivida por Debra Winger se apaixonando pelo possível líder dum grupo racista do sul americano, interpretado por Tom Berenger - ele surgiu com "Muito mais que um crime", que tocava fundo em uma ferida ainda muito viva (especialmente na Europa ocidental): o colaboracionismo nazista. Para deixar a mistura ainda mais picante, ele tirou o tema das discussões teóricas e plantou a semente da dúvida no seio de uma aparentemente pacata família que, em tese, ajudou a construir as bases da América do pós-II Guerra Mundial. O resultado? Urso de Ouro de melhor filme no Festival de Berlim - sempre atento a produções com temáticas socialmente relevantes - e uma justíssima indicação ao Oscar de melhor atriz para sua protagonista Jessica Lange.

Lange - que entrou no film depois que Jane Fonda foi considerada com a idade inapropriada pelo próprio cineasta - interpreta com um impressionante equilíbrio entre delicadeza e força o papel de Ann Talbot, uma bem-sucedida advogada de Chicago que tem sua vida abalada quando seu pai, o imigrante húngaro Mike Laszlo (Armin Mueller-Stahl) é acusado formalmente de crimes de guerra cometidos durante o nazismo. Documentos até então perdidos o apontam como um dos responsáveis por cruéis assassinatos cometidos quarenta anos antes, apesar de suas negativas veementes: como americano naturalizado, pai, avô e funcionário exemplar de uma fábrica por décadas, ele insiste em sua inocência, alegando que tudo não passa de um complô comunista contra ele, radicalmente contrário ao regime. Tocada pelo desespero do pai e influenciada pelo irmão, Karchy (Michael Rooker) e pelo filho, Mikey (Lukas Haas), ela finalmente resolve defendê-lo no tribunal, mesmo não sendo especializada no assunto. Durante o julgamento, desfilam testemunhas que confirmam as acusações contra Laszlo, mas Anne se mantém confiante na inocência do pai, a quem vê como incapaz de tamanhas atrocidades.


Costa-Gavras conta sua história repleta de barbáries de forma elegante, discreta, sóbria. Resiste à tentação de emocionar pelo viés mais fácil, evitando o batido recurso de flashbacks durante os depoimentos dos sobreviventes da tragédia e tratando a relação entre pai e filha com seriedade mas nunca com exageros sentimentais - o que de certa forma até atrapalha um pouco em seu climax. Jessica Lange, sempre fantástica, entrega uma performance carregada de emoção, construindo uma Ann equilibrada mas a um passo de desmoronar diante das atrocidades que aparecem em sua frente e que podem estar muito mais ligadas a seu pai do que ela gostaria. Diante dela, o ator Armin Mueller-Stahl tem então a maior chance de sua carreira - que engrenaria com filmes posteriores, como o belo "Avalon" (90), de Barry Levinson - com um personagem cuja ambiguidade vai se avolumando até o final bolado pelo roteirista Joe Esztershas ("Instinto selvagem" (92)), que põe em xeque muitas das certezas (do público e dos próprios personagens). Graças à união entre roteiro, direção e elenco, fica impossível abandonar a trama, construída como um drama familiar de tribunal mas que prende a atenção como o melhor dos thrillers políticos dos anos 70.

"Muito mais que um crime" é um Costa-Gavras da melhor safra. Inteligente, bem orquestrado, relevante socialmente e, melhor ainda, sem perder em momento algum o essencial a um bom filme: o ritmo de entretenimento. É uma obra capaz de agradar a qualquer cinéfilo disposto a assistir a uma boa história, independente de suas opiniões políticas. Um belíssimo programa!

quinta-feira

ARQUIVO X, O FILME

ARQUIVO X, O FILME (The X Files - Fight the future, 1998, 20th Century Fox, 121min) Direção: Rob Bowman. Roteiro: Chris Carter, história de Chris Carter e Frank Spotnitz. Fotografia: Ward Russell. Montagem: Stephen Mark. Música: Mark Snow. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Christopher Nowak/Jackie Carr. Produção executiva: Lata Ryan. Produção: Chris Carter, Daniel Sackheim. Elenco: David Duchovny, Gillian Andersen, John Neville, Martin Landau, William B. Davis, Armin Mueller-Stahl, Mitch Pilleggi, Blythe Danner, Terry O'Quinn, Lucas Black, Glenne Headly. Estreia: 19/6/98

Em 1993, antes que os seriados televisivos alcançassem o status de entretenimento de qualidade, um programa a respeito de conspirações governamentais, abduções alienígenas, monstros misteriosos e fenômenos inexplicáveis virou febre entre os espectadores. Criado por Chris Carter, "Arquivo X" não demorou muito a cair no gosto do público e da crítica, amealhando prêmios, prestígio e muito sucesso de audiência. Uma versão para o cinema, então, tornou-se questão de tempo e, depois do final da quinta temporada, na metade de 1998, finalmente "Arquivo X, o filme" chegou às telas americanas, cercado de grande expectativa. Contando com um roteiro escrito pelo próprio criador da série, a aventura dos agentes do FBI Fox Mulder (David Duchovny) e Dana Scully (Gillian Andersen) não decepcionou nem o estúdio - mais de 80 milhões de dólares arrecadados somente nos EUA - nem tampouco os devotos fãs: é um filme que respeita a audiência do programa e não confunde nem aborrece os espectadores ocasionais.

Para quem não sabe,  o Arquivo X da série (e do filme, consequentemente) é uma divisão dentro do FBI responsável pela investigação de acontecimentos inexplicáveis (leia-se sobrenaturais). No início da série, a médica patologista Dan Scully é escalada por seus superiores da agência a unir-se ao detetive Fox Mulder, não muito benquisto, para, com sua racionalidade científica, desacreditar suas conclusões tidas como absurdas. Depois dos cinco primeiros anos do programa, após ter testemunhado inúmeras situações bizarras e ter sido ela mesma vítima de uma estranha, Scully aproximou-se de Mulder a ponto de quase compactuar com suas teorias. No final da quinta temporada, a divisão é fechada (por motivos que não vem ao caso contar para não estragar o prazer de quem ainda nunca assistiu às aventuras da dupla) e os dois detetives são relegados a um nível inferior de investigação. E é aí que começa a versão para o cinema.


Como normalmente acontece na televisão, a primeira cena não conta com os protagonistas. O público é levado para o período pré-histórico, onde um homem, ainda em seu caminho para a evolução, é violentamente atacado por um ser alienígena. O roteiro dá um salto para o Texas de 1998, onde um pré-adolescente é atacado pela mesma substância que vitimou seu antepassado. Logo em seguida, Mulder e Scully testemunham a explosão de uma bomba que destrói um prédio do governo, em Dallas. Aparentemente sem conexão alguma, esses dois fatos passam a se ligar quando o detetive é procurado pelo misterioso cientista Alvin Kurtzweil (Martin Landau), que tem informações a respeito de uma conspiração governamental que utilizou a explosão para encobrir o que realmente aconteceu com o jovem morto. A partir daí, a dupla de policiais inicia uma procura incessante pela verdade, que os leva até a Antártida.

Para quem não é assíduo espectador, "Arquivo X" é um filme de ficção científica acima da média, com uma trama bem armada e intrigante, além de efeitos de maquiagem eficientes. Mas é impossível negar que existe um gostinho extra para aqueles que passavam uma hora por semana acompanhando as aventuras de Mulder e Scully na televisão. A tensão sexual entre as personagens (que chega ao ápice em uma cena de quase beijo mais aterrorizante, para os fãs, do que qualquer extraterrestre) soa como um romance descartável para o público em geral e eles também ficarão sem saber a importância, dentro da história, de personagens cruciais para a mitologia da série, como o misterioso Homem das Unhas Bem Feitas (vivido por John Neville). Porém, Chris Carter sabe muitíssimo bem como envolver a plateia com um roteiro cuidadoso e detalhista que não decepcionará ninguém.

Faz sentido dizer que "Arquivo X, o filme" é um episódio estendido da série. Assim acontece com todos os programas de TV que passaram à tela grande posterioremente e não chega a ser um demérito, mesmo porque, dos anos 90 em diante, a televisão americana apresentou produtos de extrema qualidade. Mas é preciso também que se reconheça que poucos filmes de ficção científica são tão sérios e interessantes quanto a obra de Chris Carter e companhia.

quarta-feira

O PACIFICADOR

O PACIFICADOR (The Peacemaker, 1997, Dreamworks SKG, 124min) Direção: Mimi Leder. Roteiro: Michael Schiffer, artigo de Leslie Cockburn, Andrew Cockburn. Fotografia: Dietrich Lohmann. Montagem: David Rosenbloom. Música: Hans Zimmer. Figurino: Shelley Komarov. Direção de arte/cenários: Leslie Dilley/Rosemary Brandenburg. Produção executiva: Michael Grillo, Laurie Macdonald. Produção: Branko Lustig, Walter Parkes. Elenco: Nicole Kidman, George Clooney, Armin Mueller-Stahl, Marcel Iures, Aleksandr Baluev, Goran Visnjic. Estreia: 26/9/97

Uma mulher dirigir um filme de ação é algo tão raro que, quando acontece, é visto com olhos atentos por todo mundo. No entanto, isso não aconteceu como deveria com "O pacificador", filme de estreia do estúdio DreamWorks SKG - de propriedade de Steven Spielberg, Jeffrey Katzenberg e David Geffen. Dirigido por Mimi Leder, que comandou vários episódios da série de TV "Plantão médico" - produzido por Spielberg - o filme estrelado por George Clooney e Nicole Kidman não fez o barulho esperado nas bilheterias americanas, apesar de suas qualidades. Diferentemente de outros filmes do gênero, que dão mais valor às cenas de explosões e tiroteios, o trabalho de Leder se concentra também na história e nas personagens, o que desacelera seu ritmo. Quem prefere um pouco de inteligência em vez de pura correria, no entanto, não tem do que reclamar. "O pacificador" é um filme de ação com cérebro.

Dois acontecimentos aparentemente sem conexão alguma dão partida à história: o assassinato de um diplomata iraniano e a trágica batida de dois trens em algum lugar da Rússia. O acidente causa a explosão de uma ogiva nuclear e logo a especialista Julia Kelly (Nicole Kidman) fica com a certeza de que tudo não passa de uma ação terrorista. Sua certeza é questionada pelo Tenente Coronel Thomas Devoe (George Clooney), que acredita que tudo é uma armação para esconder algo maior. Juntos, eles começam a investigar os rastros que o roubo de dez ogivas deixou para trás e descobrem que é tudo obra do iugoslavo Duan Gavri (Marcel Iure), que perdeu mulher e filha vítimas de um atirador de elite, em Sarajevo. Kelly e Devoe passam a dedicar-se, então, a impedir que ele detone uma bomba em uma conferência da ONU em Nova York.


Logicamente o público que prefere tiroteios sem sentido vai sentir falta de mais ação em "O pacificador", ainda que Mimi Leder dirija com segurança ímpar todas as sequências que exigem o máximo de adrenalina que o cinema americano pode oferecer. Ao contrário de produtos menos elaborados, porém, tudo aqui tem um motivo para acontecer, nenhuma cena é dispensável e os diálogos são tão importantes quanto os tiros. Ainda que não desenvolva as personagens psicologicamente - mesmo porque tal luxo não caberia na situação extrema pela qual todas estão passando - o roteiro se preocupa em não deixar que aconteça um romance entre os protagonistas (o que seria ridiculamente falso) e, melhor ainda, não forja nenhum tipo de heroísmo individual. Tudo que acontece em "O pacificador" soa real devido ao cuidado da diretora em jamais extrapolar na fantasia. E a escolha do elenco também foi acertada. Nicole Kidman, substituindo Annette Bening, tem o tipo ideal para a personagem, clássica e séria. E George Clooney - conhecido pela diretora através de "Plantão médico" - é o herói típico de filmes de ação, charmoso e dono de uma coragem à toda prova, em mais um papel que o elevou ao primeiro time de Hollywood.

Realizado de forma extremamente correta e competente, "O pacificador" pode até não empolgar a quem está mal-acostumado com a dieta de filmes sem conteúdo com que a indústria americana alimenta seu público. Mas é bastante superior - até mesmo em sua coragem em tocar em assuntos que ainda não eram tabu em Hollywood, como terrorismo - a qualquer subproduto que dispensa história e personagens em função de uma bilheteria mais gorda.

segunda-feira

VIDAS EM JOGO

VIDAS EM JOGO (The game, 1997, Polygram Filmed Entertainment, 129min) Direção: David Fincher. Roteiro: John Brancato, Michael Ferris. Fotografia: Harris Savides. Montagem: James Haygood. Música: Howard Shore. Figurino: Michael Kaplan. Direção de arte/cenários: Jeffrey Beecroft/Jackie Carr. Produção executiva: Jonathan Mostow. Produção: Ceán Chaffin, Steve Golin. Elenco: Michael Douglas, Sean Penn, Deborah Kara Unger, James Rebhorn, Peter Donat, Carroll Baker, Armin Mueller-Stahl. Estreia: 12/9/97

Cheio de moral depois do merecido sucesso de "Seven", o cineasta David Fincher poderia ficar em casa guardado por Deus contando vil metal e manter-se no caminho mais fácil para o êxito, se repetindo exaustivamente - e ao público, por conseguinte. Demonstrando que tem mais personalidade e inteligência do que seus colegas de ofício, porém, o criador de videoclipes antológicos, como "Vogue", de Madonna e "Freedom '90", de George Michael, escolheu como seu projeto seguinte um roteiro intrigante mas absolutamente fora dos padrões comerciais. "Vidas em jogo" transtornou tanto a crítica e o público americano que só foi chegar no Brasil um ano e meio depois de sua estreia nos EUA, e mesmo assim passou quase em brancas nuvens apesar dos nomes de Michael Douglas e Sean Penn enfeitando o cartaz. Quando se assiste ao filme, no entanto, fica claro o porquê de tanta frieza. "Vidas em jogo" é, mais do que um filme de suspense feito para render fortunas, um exercício de estilo e uma voraz crítica ao conformismo material - mesmo objeto de fúria do projeto seguinte de Fincher, o inacreditável "Clube da luta" (não por acaso, outro fracasso de bilheteria).

Em "Vidas em jogo" Michael Douglas interpreta Nicholas Van Orton, um multimilionário cujo sucesso financeiro não se reflete em suas relações pessoais. Separado da esposa, ele vive sozinho na mansão de sua família, na companhia apenas da governanta Ilsa (a ex-sex symbol Carroll Baker), que trabalha para ele desde sua infância. No dia em que completa 48 anos - idade em que seu pai cometeu suicídio jogando-se do telhado da casa - Nicholas recebe um presente inesperado de Conrad (Sean Penn), seu rebelde irmão caçula: o convite para ingressar em um misterioso jogo cujas regras não são exatamente claras. A partir do momento em que Nicholas se inscreve na tal empresa que criou o jogo, sua vida tediosa transforma-se imediatamente em um turbilhão de acidentes bizarros, coincidências estranhas e, pior do que tudo, uma insistência em lembrar-lhe da morte do pai. A única pessoa que o ajuda é a garçonete Christine (Deborah Kara Unger), mas nem mesmo ela parece assim tão confiável.


O roteiro de John Brancato e Michael Ferris é o tipo de roteiro que Hollywood raramente apresenta, principalmente porque se recusa a seguir os padrões pré-estabelecidos. Mesmo que o final do filme descambe para um certo moralismo - o que talvez frustre os mais radicais - seu desenvolvimento é exemplar. O público é arrastado, assim como o protagonista, a um mundo absolutamente imprevisível, onde é virtualmente impossível adivinhar o que vem pela frente. Conforme Nicholas Van Orton vai sendo surpreendido pelos desdobramentos absurdos do jogo proposto, a audiência vai sendo envolvida por uma trama em que nada é o que parece ser. É proposital a falta de informações que Fincher apresenta ao público, assim como é essencial ir revelando tudo aos poucos. E é claro, Fincher cercou-se de colaboradores que entenderam perfeitamente bem suas intenções estéticas.

Harris Savides providenciou a fotografia amarelada, claustrofóbica e em tom de pesadelo. O editor Hames Haygood não apressa o ritmo da história, acentuando a opressão sobre o protagonista. A trilha sonora de Howard Shore é forte, mas nunca chama a atenção para si, apenas pontuando com precisão os momentos mais tensos da narrativa. E o elenco, certamente, é o que faz com que o conto onírico proposto pelo cineasta convença o p´blico. Michael Douglas, que tem o dom de escolher bem seus projetos tem em sua atuação como Nicholas Van Orton mais um ponto alto de sua carreira. O veterano ator transmite todas as nuances de sua personagem com sua característica segurança e sua credibilidade junto à plateia é fundamental para que a história jamais escorregue para o absurdo. E Sean Penn - ficando com um papel que seria de Jodie Foster, que brigou com os produtores antes do início das filmagens - acumula mais um coadjuvante sensacional à sua galeria de tipos marginais, ainda que desta vez revestido de uma certa elegância.

Logicamente "Vidas em jogo" não pode ser recomendado à qualquer plateia, uma vez que foge dos padrões do gênero, desde sua ideia central até o final que, apesar de feliz, é bastante irônico. Mas, apesar de ser um filme considerado menor na carreira de David Fincher, merece ser louvado por sua inteligência, pelo clima sombrio e pela técnica impecável.

quarta-feira

A CASA DOS ESPÍRITOS


A CASA DOS ESPÍRITOS (The house of the spirits, 1993, Costa do Castelo Filmes, 140min) Direção: Bille August. Roteiro: Bille August, romance de Isabel Allende. Fotografia: Jorgen Persson. Montagem: Janus Billeskov Jansen. Música: Hans Zimmer. Figurino: Barbara Baum. Direção de arte/cenários: Anna Asp/Soren Gam. Produção executiva: Edwin Leicht, Dieter Meyer, Mark Rosenberg, Paula Weinstein. Produção: Bernd Eichinger. Elenco: Jeremy Irons, Meryl Streep, Glenn Close, Winona Ryder, Antonio Banderas, Vanessa Redgrave, Armin Mueller-Stahl, Teri Polo, Vincent Gallo, Maria Conchita Alonso. Estreia nos EUA: 01/4/94

Demorou anos até que o best-seller da escritora chilena Isabel Allende chegasse às telas. E eis que finalmente, chegou, nas mãos do cineasta Bille August, mas pasteurizado, simplificado e até mesmo decepcionante para quem leu sua obra-prima. Quem não passou os olhos pelo longo romance, no entanto, pode gostar do filme e até se emocionar, graças ao grande e competento elenco, que passa por cima dos defeitos da adaptação simplista feita pelo próprio diretor. "A casa dos espíritos", o filme, não chega aos pés do romance que lhe deu origem, mas não chega exatamente a destruí-lo.

Sobrinha do ex-presidente Salvador Allende, Isabel utilizou em seu romance elementos sobrenaturais que lembrava a prosa realista-fantástica de Gabriel García Marquez, mas que, em formato áudio-visual, são apenas detalhes quase insignificantes em meio à longa saga da família Trueba. Tudo bem que condensar décadas da vida de uma família em pouco mais de duas horas de duração não é tarefa das mais fáceis, principalmente levando-se em conta que a autora mistura mediunidade com política, amores proibidos e psicologismos freudianos e que dar profundidade a isso em um único longa-metragem é um esforço hercúleo e normalmente inglório. Mas August, diretor do belo "Pelle, o conquistador", vencedor do Oscar de filme estrangeiro em 1989 poderia ter sido menos acadêmico no que é seu trabalho mais ambicioso comercialmente.

A história começa quando o pobre mas ambicioso Esteban Trueba (Jeremy Irons, que convence de jovem a idoso) pede a mão da bela Rosa (Teri Polo) a seus cuidadosos pais (Armin Mueller-Stahl e Vanessa Redgrave, subaproveitados). Querendo enriquecer o mais rapidamente possível, ele vai trabalhar em uma mina de diamantes, mas quando retorna para a mulher que ama, a encontra morta, vítima de um atentado político contra seu pai. Desesperado de dor, ele se refugia no trabalho de construir a Fazenda Três Marias ao lado da irmã solteirona Ferula (Glenn Close), que passou a vida cuidando da mãe doente. Depois de vinte anos, Esteban pede em casamento a irmã de Rosa, Clara (Meryl Streep), uma médium que vive em seu próprio mundo e que adota Ferula como sua irmã de coração.

É a saga da família Trueba que é contada no romance e no filme. Décadas depois de seu casamento com Clara, Esteban vê Blanca (Winona Ryder) sua única filha dentro do casamento - a despeito de no mínimo um filho bastardo ressentido contra a própria pobreza - envolver-se romanticamente com Pedro (Antonio Banderas), líder sindicalista que prega melhores condições de trabalho na fazenda dos Trueba e que passa a ser perseguido depois do golpe militar do início dos anos 70 - que depôs, inclusive, o tio da escritora.

O roteiro de August concentra-se bem mais nos problemas políticos e sociais da história do que em seus elementos sobrenaturais - o que faz com que o título soe meio deslocado. Se acerta por um lado, deixa fãs inconsoláveis de outro. Acerta em deixar o rojão maior nas mãos competentes de Jeremy Irons, mas não aproveita como deveria a dupla Meryl Streep e Glenn Close, que, embora menos exploradas do que deveriam, nunca deixam de dar seu show particular: nas cenas em que qualquer uma delas está presente, o filme cresce emocionalmente - tome-se como exemplo a cena em que Clara beija Ferula no rosto, em um restaurante, e ela chora dizendo que nunca foi querida por ninguém. Também é comovente o encontro entre Blanca, à beira da morte depois das torturas impostas pelos militares, com o espírito de sua mãe, que a convence a permanecer viva.

Ainda que não consiga atingir todas as nuances do belo romance de Allende - passando muito superficialmente por temas espinhosos, como o amor que Ferula sente pela cunhada e a relação entre Trueba e as empregadas que ele violentava - a adaptação de "A casa dos espíritos" para o cinema consegue ser interessante o bastante para segurar a audiência na poltrona. Mas, perto da obra-prima que poderia ser, não deixa de ser decepcionante. Felizmente o elenco salva miraculosamente o resultado final.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...