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sexta-feira

OS AGENTES DO DESTINO

 


OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto "Adjustment Team", de Philip K. Dick. Fotografia: John Toll. Montagem: Jay Rabinowitz. Música: Thomas Newman. Figurino: Kasia Walicka Maimone. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Susan Bode Tyson. Produção executiva: Isa Dick Hackett, Jonathan Górdon. Produção: Bill Carraro, Michael Hackett, Chris Moore, George Nolfi. Elenco: Matt Damon, Emily Blunt, Terence Stamp, Michael Kelly, Anthony Mackie, John Slattery. Estreia: 14/02/2011

Depois de perder uma eleição praticamente ganha para o Senado americano - devido à publicação de uma foto de sua juventude -, o carismático David Norris (Matt Damon) encontra, por acaso, a bela Elise Sellas (Emily Blunt), que sonha em tornar-se uma bailarina mundialmente famosa. Inspirado pelo otimismo da moça (e por um beijo trocado), Norris faz um discurso que imediatamente o faz voltar às graças dos eleitores e à disputa pelo Congresso. Ainda abismado com o encontro com Elise - de quem não sabe nem o nome -, o ambicioso político acaba a encontrando um mês depois, novamente sem esperar. O novo encontro faz nascer entre eles um romance promissor, mas o que Norris não sabe - e irá saber da pior maneira possível - é que a história desse nascente amor vai contra os planos do destino. Perseguido por um grupo misterioso de homens de preto - autointitulados Comitê de Ajuste -, David precisa decidir entre um brilhante futuro na política (o que deixaria Elise livre para realizar seus sonhos profissionais) ou a possibilidade de um final feliz com a mulher por quem está apaixonado. Para isso, ele recorre à ajuda de um dos agentes, o empático Harry Mitchell (Anthony Mackie) - principal responsável pelo desvio da rota programada para o destino do rapaz.

Sucesso apenas razoável de bilheteria, "Os agentes do destino", estreia do cineasta George Nolfi, chegou às telas com pedigree: baseado em conto de Philip K. Dick, o mesmo autor de clássicos da ficção científica, como "Blade Runner: o caçador de androides" e "O vingador do futuro", a produção estrelada por Matt Damon e Emily Blunt merecia sorte melhor. Elegante e ágil, inteligente e instigante, o filme de Nolfi consegue o equilíbrio quase perfeito entre um thriller e uma história de amor, evitando o caminho fácil das sequências de ação alucinantes e das explicações em excesso. Deixando que o espectador vá preenchendo as lacunas conforme elas vão aparecendo, o roteiro brinca com a percepção do público em relação a conceitos como destino, amor, livre arbítrio e futuro. Com efeitos visuais discretos que não chamam mais atenção que a trama e uma trilha sonora eficiente do veterano Thomas Newman, "Os agentes do destino" se beneficia, também, da química entre seus dois atores centrais. Era imprescindível para que a história funcionasse, que os intérpretes de David Norris e Elise Sellas convencessem o público de que desafiariam o que fosse para ficarem juntos, e, ótimos atores que são, Damon e Blunt fisgam o público já em seu primeiro contato - a ponto de, mesmo separados, jamais deixarem de ser a base de toda a trama.

 

Um dos roteiristas do estupendo "O ultimato Bourne" (2007), e portanto dono de pleno domínio de ritmo e narrativa, George Nolfi apresenta, em "Os agentes do destino", uma noção visual digna de veteranos. A elegância das sequências de ação demonstra um cuidado raro em não apenas deixar o espectador mergulhado na agonia de seus protagonistas, mas também em oferecer uma experiência mais rica em termos plásticos. Detalhes do figurino - como os chapéus que permitem o acesso ao mundo dos chamados agentes - e a fotografia eficiente mas que nunca chega a desviar a atenção da trama (cortesia do duplamente oscarizado John Toll) são exemplos claros do talento do cineasta em utilizar-se da imagem para contar a história com todos os elementos à sua disposição. Se o enredo criado por Dick em 1954 - e adaptado com total liberdade por Nolfi - já é interessante por si próprio, sua transposição para para as telas realça seus questionamentos éticos e atualiza a história, contrapondo em seu cerne a discussão entre o que é mais importante: o amor ou a carreira, a chance de um futuro alvissareiro ou a felicidade de um amor verdadeiro.

Sem exagerar nos efeitos visuais e conquistando o público mais por sua história do que pela aposta na adrenalina pura e simples, "Os agentes do destino" rendeu pouco mais de 127 milhões de dólares em sua carreira internacional, em um ano que viu, em seus dez maiores sucessos comerciais nove continuações e uma produção infantil com personagens já consagrados - "Os Smurfs". Competindo com Harry Potter, Jack Sparrow, Bella & Edward, Transformers, Ethan Hunt e Dominic Toretto, o conto de amor e rebeldia criada por Philip K. Dick não fez feio - principalmente por ser um respiro de criatividade e ineditismo em um universo saturado de marcas registradas. Pode não ser uma obra-prima e talvez nem mesmo uma produção memorável na filmografia de seus envolvidos, mas é digno, decente e francamente divertido.

quarta-feira

BENNY & JOON: CORAÇÕES EM CONFLITO

 


BENNY & JOON: CORAÇÕES EM CONFLITO (Benny & Joon, 1993, Metro Goldwyn Mayer, 98min) Direção: Jeremiah S. Chechik. Roteiro: Barry Berman, estória de Barry Berman, Leslie McNeil. Fotografia: John Schwartzman. Montagem: Carol Littleton. Música: Rachel Portman. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Neil Spisak/Barbara Munch. Produção executiva: Bill Badalato. Produção: Susan Arnold, Donna Roth. Elenco: Johnny Depp, Mary Stuart Masterson, Aidan Quinn, Julianne Moore, Oliver Platt, William H. Macy, CCH Pounder, Dan Hedaya, Joe Grifasi. Estreia: 16/4/93

No começo dos anos 1990 o nome de Johnny Depp já era sinônimo de excentricidade em Hollywood - em boa parte devido ao sucesso de sua performance em "Edward Mãos de Tesoura", dirigido por seu amigo Tim Burton. Por isso, não foi surpresa para ninguém quando ele foi escalado para interpretar um dos papéis centrais do drama romântico "Benny & Joon: corações em conflito": na pele do esquisitão Sam, fã de Chaplin e Buster Keaton, calado, semianalfabeto e dono de uma grande capacidade de amar, Depp confirmou sua persona dentro da indústria (que exploraria seu estilo em outras produções de relativo êxito) e foi, provavelmente, o maior responsável pelas críticas positivas do segundo filme do diretor Jeremiah Chechik. Sensível, honesta e despretensiosa, a história de amor entre duas pessoas à margem da sociedade - e a forma com que tal romance afeta as pessoas a sua volta - não chegou a fazer grande barulho nas bilheterias, mas tornou-se cult justamente pela presença do ator, particularmente inspirado em seu desempenho. Discreto em sua forma de suscitar emoções - e evitando a todo custo o melodrama barato -, "Benny & Joon" é um pequeno grande filme, que encontrou em Depp (e no resto do elenco) sua tradução perfeita.  

Ao contrário do que o subtítulo em português dá a entender, Benny e Joon não formam a dupla romântica central do filme. Benjamin e Juniper Pearl são, na verdade, irmãos, que vivem uma vida quase medíocre em uma pequena cidade de Washington. Ele (vivido por Aidan Quinn) é um mecânico solitário que abdicou de qualquer tipo de relacionamento amoroso para cuidar dela (interpretada por Mary Stuart Masterson) desde a morte de seus pais, em um acidente de carro. Juniper (ou Joon, como é conhecida pelos amigos e vizinhos) é uma jovem com deficiência intelectual - e dom para as artes - e exige do irmão, mesmo involuntariamente, dedicação quase absoluta. Depois do abandono de várias cuidadoras - incapazes de lidar com a inconstância de seu comportamento -, ela corre o sério risco de ser posta em um lar especializado quando um acontecimento inesperado muda os rumos de sua existência. Depois de perder em um jogo de cartas, Joon é obrigada por um amigo a abrigar em sua casa o estranho Sam (Johnny Depp) e, para sua surpresa - e de um atônito Benny - os dois acabam se apaixonando.

 

Projeto relativamente antigo da MGM, "Benny & Joon" quase teve, liderando seu elenco, a dupla de astros Tom Hanks e Julia Roberts (ainda que hoje seja difícil imaginá-los nos papéis). Depois de tentar também o então casal Tim Robbins e Susan Sarandon (outro par inusitado), as coisas pareciam finalmente ter entrado nos eixos com a escalação de Depp e sua namorada, Winona Ryder (começando uma trajetória ascendente em Hollywood). O fim do namoro acarretou na saída de Winona, que foi substituída por Laura Dern (recém saída de uma indicação ao Oscar por "As noites de Rose") ao mesmo tempo em que Woody Harrelson assumia o papel de Benny. Porém, tudo mudaria mais uma vez graças a dois acontecimentos fortuitos: Dern não gostou de saber que seu nome estaria em terceiro lugar nos créditos, e Harrelson foi convidado pela Paramount para ser o marido de Demi Moore em "Proposta indecente" (1993). Com Depp ainda firme no projeto, surgiram os nomes de Mary Stuart Masterson e Aidan Quinn, ambos promissores e, como mostra o resultado final, extremamente adequados aos personagens. Com a direção pouco invasiva de Chechik (em seu segundo longa-metragem) e um roteiro delicado e repleto de uma honestidade cativante, o filme acabou por agradar em cheio aos fãs de Depp - e, por consequência, a todos que procuravam escapar dos clichês do gênero.

A maior qualidade de "Benny & Joon" - além do elenco escalado com precisão - é o modo discreto com que Jeremiah Chechik conduz sua trama, sem pressa e com uma delicadeza surpreendente vinda de quem começou sua carreira no cinema com o pouco sutil "Férias frustradas de Natal" (1989) e que chegou a ser indicado a um Framboesa de Ouro pelo medonho "Os vingadores" (1999). Com um ritmo que leva o espectador a acompanhar vidas simples e personagens com sentimentos reais, o cineasta abraça o prosaico como forma de encantar.e emocionar (porém sem apelar para o sentimentalismo barato). E, se não bastasse tal cuidado, ainda há uma das primeiras aparições de Julianne Moore no cinema, como a garçonete e ex-atriz que se envolve com Benny a despeito de seus problemas familiares. Um motivo a mais para conhecer uma produção das mais simpáticas de seu tempo.

quinta-feira

ETERNAMENTE JOVEM

 


ETERNAMENTE JOVEM (Forever young, 1992, Warner Bros/Icon Productions, 102min) Direção: Steve Miner. Roteiro: J. J. Abrams. Fotografia: Russell Boyd. Montagem: Jon Poll. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Aggue Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Gregg Fonseca/Jay Hart, Jan Pascale. Produção executiva: J. J. Abrams, Edward S. Feldman. Produção: Bruce Davey. Elenco: Mel Gibson, Jamie Lee Curtis, Elijah Wood, Isabel Glasser, George Wendt, Robert Hy Gorman, Nicolas Surovy. Estreia: 11/12/92

Conhecido por filmes que exploravam sua testosterona mais do que seus méritos dramáticos - como as séries "Máquina mortífera" e "Mad Max" -, o australiano Mel Gibson entrou na década de 1990 disposto a mudar a imagem que tinha diante do público e da crítica (algo que nem "Hamlet", dirigido por Franco Zefirelli em 1990 havia conseguido). E o primeiro passo nessa direção foi "Eternamente jovem", uma história de amor à moda antiga, despretensiosa e dirigida de modo clássico que, apostando basicamente na presença do ator, fez uma bela carreira nas bilheterias e pavimentou um novo caminho para sua carreira - que culminaria em um Oscar de melhor direção por "Coração valente" (1995). Um romance com leves toques de ficção científica e humor, o filme de Steve Miner (mais conhecido por  filmes de terror e episódios de séries de tv) se beneficia, também, do carisma do pequeno Elijah Wood - que quase rouba a cena mesmo ao lado de veteranos como Gibson e Jamie Lee Curtis.

Escrito por J. J. Abrams - que anos depois se consagraria como criador do seriado "Lost" -, o roteiro de "Eternamente jovem" começa em 1939, antes da II Guerra Mundial. O piloto de testes da Força Aérea americana, Daniel McCormick (Mel Gibson), é apaixonado por sua namorada, Helen (Isabel Glasser), e depois de um longo relacionamento resolve finalmente pedi-la em casamento. Uma tragédia, no entanto, surge em seu caminho quando ela é atropelada e entra em coma. Desesperado quando os médicos afirmam não ver possibilidade de uma melhora para ela, o jovem se oferece para servir de cobaia para uma experiência criogênica do amigo cientista, Harry Finley (George Wendt), e ficar congelado por um ano - tempo suficiente para não ser obrigado a testemunhar a morte da mulher que ama. As coisas não sabem como o esperado, no entanto, e Daniel só acorda novamente depois de cinquenta anos: em uma brincadeira em um depósito abandonado do exército, Nat Cooper (Elijah Wood) e seu melhor amigo, Felix (Robert Hy Gorman), acabam sem querer reativando a câmera criada por Finley e trazendo o antigo piloto de volta à vida. Tentando adaptar-se à nova realidade e encontrar seu amigo - único que pode lhe ajudar a entender tudo que aconteceu desde que iniciou seu sono - ele conta com a ajuda da mãe de Nat, a enfermeira Claire (Jamie Lee Curtis), uma mulher com histórico de relacionamentos complicados que se sente atraída pelo misterioso visitante.

 

A maior surpresa de "Eternamente jovem" é sua ousadia em não se sustentar em uma previsível história de amor entre Daniel e Claire - o que poderia ser o esperado. Apesar da boa química entre Mel Gibson e Jamie Lee Curtis, o roteiro prefere se dedicar à busca do protagonista por uma resposta a respeito de sua condição de exilado temporal. Mesmo que não explore todas as possibilidades de seu choque diante de um novo e mais moderno mundo - o que poderia gerar boas piadas e situações dramaticamente interessantes -, o roteiro de Abrams se beneficia de um ritmo que disfarça suas improbabilidades científicas ao envolver o espectador em uma trama leve e por vezes bem-humorada: todas as interações entre Gibson e Elijah Wood são repletas de uma sintonia rara, que evita que a trama caia no excesso de lágrimas. Ao ensinar o pequeno Nat a conquistar a colega por quem é apaixonado, Daniel recupera um romantismo clássico que remete aos melhores momentos clássicos do cinemão hollywoodiano - e contar com Billie Holiday na trilha sonora enfatiza essa direção ao coração do público. Se não bastasse isso, uma reviravolta no ato final deixa tudo ainda mais emocionante. A boa notícia é que Gibson sustenta bem sua persona sensível - que seria acentuada em seu primeiro filme como diretor, "O homem sem face" (1993).

E quem também surpreende em um novo caminho na carreira é o cineasta Steve Miner. Contratado depois que Sydney Pollack e John McTiernan surgirem como possíveis diretores, o homem por trás de "Sexta-feira 13 II" (1981) e "Sexta-feira 13 III" (1983) - filmes nada sutis e pouco afeitos a delicadezas - conduz "Eternamente jovem" com um tom ameno, caloroso e dotado de uma energia que remete a produções dos anos dourados de Hollywood (um tom que a trilha sonora de Jerry Goldsmith e a fotografia de Russell Boyd sublinham com extrema eficácia). Sem apelar para exageros melodramáticos mesmo que a história em si às vezes implore por isso, Miner não chega a imprimir personalidade ao resultado final, mas só o fato de não atrapalhar a história com pirotecnias desnecessárias já é mais do que admirável. Afinal de contas, o espectador que escolher assistir a seu primeiro filme romântico quer apenas isso: uma boa história, contada com respeito a seu público e uma boa dose de suspensão de realidade.

quarta-feira

ÁGUA PARA ELEFANTES


ÁGUA PARA ELEFANTES (Water for elephants, 2011, Fox 2000 Pictures, 122min) Direção: Francis Lawrence. Roteiro: Richard LaGravenese, romance de Sara Gruen. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Alan Edward Bell. Música: James Newton Howard. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Jack Fisk/Jim Erickson. Produção executiva: Kevin Halloran. Produção: Gil Netter, Erwin Stoff, Andrew R. Tennenbaum. Elenco: Robert Pattinson, Reese Witherspoon, Christoph Waltz, Hal Holbrook, Paul Schneider, Jim Norton. Estreia: 22/4/2011

Quando "Água para elefantes" estreou nos EUA, em abril de 2011, o ator Robert Pattinson ainda estava preso aos filmes da série "Crepúsculo" - que tanto foram responsáveis por sua popularidade (especialmente junto ao público adolescente feminino) quanto pela falta de respeito por parte da crítica a seu trabalho, situação que mudaria somente anos mais tarde, graças a sua associação com diretores de prestígio, como David Cronenberg. Mas, apesar do pouco caso da imprensa em relação a seus dotes artísticos, é inegável que boa parte do sucesso de bilheteria do filme, adaptado do romance homônimo de Sara Gruen, se deve à sua presença. Com uma trama derivativa e pouco original, "Água para elefantes" se beneficia de uma produção caprichada para disfarçar a direção morna de Francis Lawrence, que consegue deixar apagada até mesmo a normalmente carismática Reese Witherspoon.

A trama de "Água para elefantes" - e sua subsequente adaptação para o cinema - explora (nem sempre a contento) todos os elementos do que se convencionou chamar de "história de amor à moda antiga": um herói íntegro e romântico; uma mocinha sofrida mas decidida a lutar contra tudo e todos; uma paixão proibida; um vilão crudelíssimo e um cenário extravagante. Senão vejamos: o jovem Jakob Jankowski (Robert Pattinson) vê sua vida virar de cabeça para baixo quando perde a oportunidade de fazer a prova final de sua faculdade de Veterinária devido à trágica morte dos pais e, com isso, sua derrocada financeira que o obriga até mesmo a abandonar a casa onde morava. Por obra e graça do destino - ou dos desvãos das mãos caprichosas da escritora - ele acaba indo trabalhar como operário em um circo de propriedade do violento August (Christoph Waltz vivendo dois personagens amalgamados em um único, para desprazer dos leitores da obra original). August trata os empregados de seu circo, o Benzini Bros., com desprezo e tampouco se importa em ser cuidadoso com os animais que se apresentam pelas cidades onde o espetáculo é montado - até mesmo sua relação com a esposa, Marlena (Reese Witherspoon), mais jovem e uma das estrelas da companhia, é construída sobre uma base de medo e tensão. Quando Rosie, um elefante fêmea é adquirida para incrementar os shows, Jakob se aproveita de sua qualificação profissional para tornar-se seu cuidador e treinador oficial - e se apaixona irremediavelmente por Marlena. O romance entre os dois é sufocado pela onipresença de August, que jamais aceitaria perder a mulher para um empregado.

 

Com um prólogo interessante que apresenta o veterano Hal Holbrook como um Jakob idoso e nostálgico de seus dias no circo, o filme de Francis Lawrence - diretor de videoclipes de Britney Spears, Jennifer Lopez, Black Eyed Peas e Lady Gaga e da cultuada adaptação de "Constantine" (2005) - cria uma atmosfera envolvente, sublinhada pela trilha sonora épica de James Newton Howard e pela recriação dos anos da Depressão norte-americana dos anos 1930, mas peca ao não dar a mesma importância ao desenvolvimento dos personagens, em especial os secundários. O romance entre os protagonistas não convence por uma perceptível falta de química entre Reese Witherspoon - cujo talento é indiscutível - e Pattinson, que ficou com um papel para o qual foram testados também Andrew Garfield, Channing Tatum e Emile Hirsch: não existe entre eles aquela faísca que deixa impossível ao espectador não torcer por seu final feliz, em parte por problemas do roteiro (que não permite ao público acompanhar o florescer de seus sentimentos) e em parte pela edição que se pretende ágil mas é apenas apressada. Nem mesmo Christoph Waltz consegue escapar dos problemas, repetindo os trejeitos de sua criação mais famosa, o nazista Hans Landa, de "Bastardos inglórios" (2009), e criando um vilão unidimensional, sem qualquer nuance que o faça parecer mais do que apenas um antagonista cruel. E, golpe de misericórdia, o ambiente circense é subaproveitado, servindo unicamente como um mero pano de fundo - e nem a bela fotografia de Rodrigo Prieto consegue valorizá-lo.

No fim das contas, "Água para elefantes" é apenas um romance morno, cujo visual disfarça (relativamente bem) uma alma de telenovela. Com personagens rasos e uma trama folhetinesca que agrada aos fãs do gênero (e do par central de atores), é uma produção que fica muito a dever até mesmo em termos de emoção. E é de se questionar a qualidade geral de um filme quando seu maior destaque fica por conta de um elefante - Rosie, que serve de ponto fundamental para o clímax, rouba a cena sempre que aparece e desperta mais empatia do que o casal protagonista. Não que isso faça diferença para quem lotou as salas de exibição, mas tanto Pattinson quanto Witherspoon não estavam em seus melhores dias.


quinta-feira

SORTE NO AMOR

 


SORTE NO AMOR (Bull Durham, 1988, MGM, 103min) Direção e roteiro: Ron Shelton. Fotografia: Bobby Byrne. Montagem: Robert Leighton, Adam Weiss. Música: Michael Convertino. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Armin Ganz/Kris Boxell. Produção executiva: David V. Lester. Produção: Mark Burg, Thom Mount. Elenco: Kevin Costner, Susan Sarandon, Tim Robbins, Robert Wuhl, Trey Wilson, William O'Leary. Estreia: 15/6/88

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Eu acredito na igreja do beisebol. Tentei todas as grandes religiões e a maioria das pequenas. Adorei Buda, Alá, Brahma, Vishnu, Shiva, árvores, cogumelos e Isadora Duncan. Eu sei coisas. Por exemplo, que há 108 contas no rosário católico e há 108 pontos em uma bola de beisebol. Quando soube disso, dei uma chance a Jesus. Mas não deu certo entre nós dois. Deus pôs muita culpa em mim. Eu prefiro metafísica a teologia. Veja, não há culpa no beisebol, e nunca é chato, o que faz dele algo parecido com sexo. Nunca houve um jogador que dormiu comigo e não teve o melhor ano da carreira. Fazer amor é como acertar a bola: é preciso apenas relaxar e se concentrar.

A profissão de fé de Annie Savoy não se refere apenas a sexo e beisebol. Lúcida, bem-resolvida, dona da própria liberdade e do próprio corpo, ela é praticamente uma lenda junto ao Durham Bulls, onde é conhecida por seu ritual anual de escolher um jovem jogador para manter sob sua proteção - sexual e culturalmente falando. Normalmente no controle da situação, ela se vê, no começo da nova temporada, presa a uma inusitada configuração: enquanto se dedica a transmitir sua experiência ao jovem Ebby LaLoosh (Tim Robbins) - um novato tão talentoso quanto prepotente e ligeiramente burro -, ela se percebe surpreendentemente atraída pelo quase veterano Crash Davis (Kevin Costner), contratado justamente para amenizar os rompantes rebeldes do colega mais novo. Contrariando todas as expectativas, Crash resiste ao magnetismo sexual de Annie - principalmente por não ver o sexo com o pragmatismo da bela professora - e acaba por forçar um inesperado triângulo amoroso que afeta até mesmo o desempenho do time no campeonato.

"Sorte no amor" é um caso raro dentro do cinema hollywoodiano: um filme sobre beisebol que não fracassou nas bilheterias. Mesmo longe de ter sido um estouro comercial avassalador, o filme de Ron Shelton teve êxito o suficiente para encorajar os estúdios a apostar no gênero depois de várias tentativas infrutíferas de repetir nas telas o êxito dos estádios. Amparado em um roteiro simpático e agradável - indicado ao Oscar - e no carisma de seu trio de atores principais, o misto de comédia, romance e esporte caiu nas graças das plateias e da crítica sem medo de demonstrar-se uma produção adulta, com um público-alvo bem definido e sem ceder ao humor fácil ou vulgar: apesar de o sexo ser um elemento fundamental para a história, Shelton o utiliza de forma bem-humorada e quase ingênua. A opção de enfatizar o tom cômico da trama (Annie ensinando poesia e literatura a seus amantes, enquanto explora seus dotes físicos; um jogador entrando em campo vestindo roupas íntimas femininas) sobre a sensualidade pura e simples é um acerto - e ninguém melhor que Susan Sarandon do que encarnar ambos os lados da equação.

 

A princípio recusada pela Orion Pictures sob a alegação de ser velha demais para o papel principal (aos 41 anos!!), Sarandon cala a boca de qualquer opositor assim que entra em cena, com sua personalidade fascinante e exuberante. Não é difícil compreender porque tanto Crash - com sua vasta experiência sexual - quanto LaLoosh - no auge de sua libido juvenil - caem de amores por ela e são capazes de sair no braço por sua atenção. Dando início a um período brilhante de sua carreira (que culminaria com um Oscar por "Os últimos passos de um homem", de 1995), Sarandon enche a tela de um carisma raro - não à toa seu parceiro de cena Tim Robbins apaixonou-se por ela durante as filmagens e casou-se com ela. Certamente nenhuma das outras atrizes sondadas para viver Annie Savoy seria tão perfeita - nem Debra Winger, nem Kelly McGillis, nem Glenn Close e nem Kim Basinger. Nem mesmo a bela Michelle Pfeiffer, não aceita pelo estúdio pelo motivo radicalmente oposto ao de Sarandon (a saber, ser considerada jovem demais para interpretar a calejada fã de beisebol). E, por mais talento que todas elas tenham, química não se encontra em qualquer esquina - e é o que mais se vê entre os três protagonistas.

Kevin Costner, entrando na curva ascendente que lhe renderia uma penca de Oscar por "Dança com lobos" (1991), não é um grande ator, mas seu charme de bom moço caiu como uma luva em sua interpretação do certinho Crash Davis - ainda que outros atores tenham sido cotados para tal, como Jeff Bridges, Nick Nolte, Don Johnson, Richard Gere e Mel Gibson (além dos absurdamente inadequados Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger). E se Tim Robbins - então na flor dos 31 anos de idade - não tinha exatamente o tipo de galã tradicional, encontrou em Ebby LaLoosh um veículo ideal para exibir o timing cômico que chegaria ao ápice em "As aventuras de Erik, o viking" (1989) e o talento para produções menos óbvias, como "Alucinações do passado" (1989). Juntos a Susan Sarandon, são eles que mantém o interesse em "Sorte no amor" mesmo por aqueles que não fazem a menor ideia de como funcionam as regras de beisebol - ou não estão nem um pouco inclinados a saber. Feito para os fãs do esporte, mas sem ignorar o vasto público que não o é, Ron Shelton realizou o melhor filme de sua carreira e um dos melhores do gênero.

segunda-feira

O PRIMEIRO AMOR DE UM HOMEM

 


O PRIMEIRO AMOR DE UM HOMEM (The pallbearer, 1996, Miramax, 98min) Direção: Matt Reeves. Roteiro: Matt Reeves, Jason Katims. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Stan Salfas. Música: Stewart Copeland. Figurino: Donna Zakowska. Direção de arte/cenários: Robin Standefer/Kate Yatsko. Produção executiva: Meryl Poster, Harvey Weinstein, Bob Weinstein. Produção: Jeffrey Abrams, Paul Webster. Elenco: David Schwimmer, Gwyneth Paltrow, Barbara Hershey, Toni Collette, Michael Rapaport, Carol Kane, Michael Vartan. Estreia: 03/5/96

O título nacional "O primeiro amor de um homem" não força à toa uma similaridade com "A primeira noite de um homem", que deu o Oscar de melhor diretor a Mike Nichols: assim como no clássico de 1967, o protagonista é um jovem adulto perdido em suas ambições profissionais e sentimentais, e que fica dividido entre o amor de duas mulheres de gerações diferentes. Porém, apesar da semelhança temática, há uma grande desvantagem em relação ao drama romântico lançado em 1996: o cineasta Matt Reeves não é Nichols, e tampouco David Schwimmer - seu protagonista - tem o carisma de Dustin Hoffman. Dito isso, até dá para arriscar uma sessão descompromissada, já que o resultado final é bastante simpático, ainda que pouco memorável. E de quebra, pode-se ter contato com o começo das carreiras de dois atores que, logo em seguida, se tornariam internacionalmente famosos e celebrados.

O filme começa quando o jovem Tom Thompson (David Schwimmer) recebe o telefonema de uma mulher chamada Ruth Abernathy (Barbara Hershey), que, em luto, lhe comunica a morte do filho que, segundo ela, foi seu melhor e mais querido amigo na escola. O problema é que Tom não consegue lembrar quem é o rapaz e se deixa levar pela situação, com medo de magoar uma mãe desesperada. O encontro dos dois acaba evoluindo para uma relação um tanto incômoda, mas, passivo, Tom não vê modos de encerrá-la. A situação muda de figura, no entanto, com a chegada de Julie DeMarco (Gwyneth Paltrow), que retorna à cidade depois do fim de um relacionamento conturbado. Apaixonado por Julie desde sempre, Tom se surpreende quando as coisas começam a andar entre eles - mas para ficar de vez com aquela a quem considera o amor de sua vida, precisa resolver a questão pendente com Ruth, cada vez mais carente. Nesse meio-tempo, os dois melhores amigos de Tom passam por outros momentos cruciais de suas vidas: Scott (Michael Vartan) está em crise no casamento com Cynthia (Toni Collette), e Brad (Michael Rapaport) finaliza os preparativos para a união com a dominadora Lauren (B Bitty Schram).

David Schwimmer - ainda nas primeiras temporadas do fenômeno "Friends" - já demonstra, em alguns momentos, os trejeitos que tanto funcionava em seu Ross Geller: o olhar triste e o talento para o humor físico. Por sua vez, Gwyneth Paltrow - que ganharia um dos Oscar mais discutíveis da história três anos mais tarde - pouco tem a fazer a não ser desfilar sua figura elegante pela cela e tentar transmitir os sentimentos de uma personagem insossa e inexplicavelmente alvo de uma paixão avassaladora. São os dois, bastante jovens, que sustentam uma trama que dá voltas e mais voltas até chegar a um final anticlimático, que apenas valoriza o talento da sempre ótima Barbara Hershey. O elenco coadjuvante - que conta com uma subaproveitada Toni Collette e a divertida Carol Kane - muitas vezes se sobressai diante da apatia dos dois protagonistas e da aparente falta de energia da direção de Reeves, que anos depois encontraria um caminho mais bem-sucedido ao comandar filmes de ação, como "Planeta dos Macacos: Origem" (2014) e "The Batman" (2022). O roteiro, coescrito pelo cineasta, até tenta levantar questões sobre a juventude americana do final do século XX (e sua falta de norte em relação ao futuro), mas assim como acontece com o romance central, não há liga, e tudo parece meio fora de lugar. Ao buscar o equilíbrio entre drama, humor e romance, Reeves tropeça na própria ambição e entrega menos do que suas pretensões.

Mas não se pode dizer, afinal de contas, que "O primeiro amor de um homem" é um filme ruim. É irregular, não atinge todas as notas a que se propõe e está longe de ser memorável, mas de certa forma apresenta uma honestidade e uma delicadeza ao lidar com seus personagens e seus dilemas que deixa seus pecados mais facilmente perdoáveis. David Schwimmer nitidamente tenta dar o melhor de si - e seu esforço acaba recompensado em algumas cenas bastante tocantes (em especial quando divide o momento com Hershey). Se não chega aos pés do inesquecível drama de Mike Nichols também não chega a ser vexaminoso ou dispensável. Pode-se até ser classificado como um agradável (se não profundo) estudo sobre as relações humanas da tão falada Geração X. Vale uma sessão da tarde, desde que sem maiores expectativas.

quarta-feira

DA MAGIA À SEDUÇÃO


DA MAGIA À SEDUÇÃO (Practical magic, 1998, Warner Bros, 104min) Direção: Griffin Dunne. Roteiro: Robin Swicord, Akiva Goldsman, Adam Brooks, romance de Alice Hoffman. Fotografia: Andrew Dunn. Montagem: Elizabeth Kling. Música: Alan Silvestri. Figurino: Judianna Makovksy. Direção de arte/cenários: Robin Standefer/Claire Jenora Bowin. Produção executiva: Bruce Berman. Produção: Denise Di Novi. Elenco: Sandra Bullock, Nicole Kidman, Aidan Quinn, Dianne Wiest, Stockard Channing, Goran Visnjic, Marc Feuerstein, Evan Rachel Wood, Margo Martindale, Chloe Webb. Estreia: 16/10/98

Quando "Da magia à sedução" chegou aos cinemas, Nicole Kidman ainda não era a estrela que viria a se tornar depois do sucesso de "Moulin Rouge: o amor em vermelho" e "Os outros" - ambos lançados em 2001 - nem tampouco tinha o prestígio que o Oscar por "As horas" (2002) lhe traria. Em outubro de 1998, data da estreia, a maior estrela do projeto era Sandra Bullock, em franca ascensão desde que chamou a atenção do público pela primeira vez, em "Velocidade máxima" (1994). A união das duas atrizes, porém, ao contrário do que se poderia esperar, decepcionou. Com menos de 50 milhões de dólares arrecadados nas bilheterias mundiais, o filme dirigido pelo também ator Griffin Dunne - e baseado em um best-seller de Alice Hoffman - ficou em um estranho meio-termo entre uma comédia romântica com tons sobrenaturais e um suspense fantástico com elementos típicos das histórias de amor que enchem os olhos dos fãs do gênero. Escorado no carisma de suas estrelas e com o apoio luxuoso de um elenco coadjuvante impecável, "Da magia à sedução" funciona como um passatempo acima da média - mas inegavelmente sofre com sua atmosfera um tanto indecisa.

De acordo com um dos roteiristas, o premiado Akiva Goldsman - Oscar por "Uma mente brilhante" (2001) - a primeira versão do filme privilegiava o lado mais sombrio da história criada por Hoffman e publicada em 1995. O marketing promovido pela Warner, porém, conduziu a produção a um resultado mais leve, de olho em um público mais amplo. Sendo assim, a saga de duas jovens irmãs lidando com seus dons de feitiçaria encontrou, no filme de Dunne, um viés mais lúdico e menos mórbido. Se por um lado é um acerto, ao explorar o talento cômico de suas atrizes, também deixa no ar a sensação de um resultado final híbrido, que não atinge todo o seu potencial dramático. Tal problema de foco respingou inclusive na trilha sonora original de Michael Nyman, que foi substituída, depois de exibições-teste, por uma música considerada menos "europeia e intrusiva", composta por Alan Silvestri. Com intenções mais comerciais, a versão que finalmente chegou às telas acabou por decepcionar o estúdio - mas tornou-se cult com o passar do tempo, principalmente devido à presença de Kidman e Bullock.

 

As duas atrizes vivem, respectivamente, Gillian e Sally Owens, irmãs que, órfãs, vivem desde a infância em uma pequena ilha na costa de Massachussets, criadas por suas tias, Frances (Stockard Channing) e Jet (Dianne Wiest). Descendentes de uma longa linhagem de bruxas, elas sabem que são amaldiçoadas para o amor e se ressentem de terem passado a vida toda sofrendo o preconceito dos outros moradores locais. Chegando à idade adulta, porém, sua união é posta à prova pelas radicais diferenças entre suas personalidades. Enquanto Sally - introvertida e romântica - desafia sua sina e vive um casamento feliz e realizado com Michael (Mark Feuerstein), Gillian - rebelde e sensual - foge da cidade com o objetivo de viver a vida longe dos olhos maldosos dos conterrâneos. A maldição que as une, no entanto, parece mais forte do que qualquer coisa: Sally fica viúva depois de um trágico acidente, e Gillian se envolve em um relacionamento tóxico e violento com o perigoso Jimmy Angelow (Goran Visjnic) - uma relação cujos desdobramentos trágicos a obriga a retornar ao lar e apresenta as duas irmãs o detetive de polícia Gary Hallet (Aidan Quinn). Sua reunião abala a tranquilidade da pequena cidade - mas pode, paradoxalmente, ajudá-las a superar o preconceito que cerca sua família e suas origens.

O que pode ser dito a respeito de "Da magia à sedução" é que, apesar dos problemas, o produto final é um delicioso programa para os menos exigentes. No auge da beleza, Nicole Kidman rouba a cena como a tresloucada e irresponsável Gillian - um contraponto aos dramas de Sally, interpretada por uma Sandra Bullock competente mas repetindo os trejeitos que fizeram dela uma grande estrela. Stockard Channing e Dianne Wiest brilham a cada aparição e a direção de Griffin Dunne faz o possível para extrair o melhor de um roteiro cuja mudança de tom no terço final prejudica mais do que ajuda. Para os fãs de suas atrizes centrais é imperdível - mas fica no ar a sensação de que poderia ter sido melhor, mais memorável ou até mesmo mais corajoso.

quinta-feira

A MULHER DO AÇOUGUEIRO


A MULHER DO AÇOUGUEIRO (The butcher's wife, 1991, Paramount Pictures, 107min) Direção: Terr Hughes. Roteiro: Ezra Litwak, Marjorie Schwartz. Fotografia: Frank Tidy. Montagem: Donn Cambern. Música: Michael Gore. Figurino: Theadra Van Runkle. Direção de arte/cenários: Charles Rosen/Donald J. Remacle. Produção executiva: Arne Schmidt. Produção: Lauren Lloyd, Wallis Nicita. Elenco: Demi Moore, Jeff Daniels, George Dzunza, Frances McDormand, Mary Steenburgen, Margaret Colin, Max Perlich. Estreia: 25/10/91

Em 1987, quando ainda não era uma estrela de primeira grandeza, Demi Moore tentou convencer a Tri-Star Pictures a comprar um roteiro escrito por Ezra Litak e Marjorie Schwartz,  chamado "A mulher do açougueiro". O estúdio não demonstrou entusiasmo e o script acabou nas mãos da Paramount. Em 1990, com o mega-sucesso "Ghost: do outro lado da vida" no currículo, a então sra. Bruce Willis finalmente teve a oportunidade de ver seu desejo atendido. Já considerada um nome em ascensão em Hollywood, porém, Demi já não tinha mais interesse no projeto, mas foi convencida a reconsiderar a decisão diante de um polpudo salário oferecido pelos executivos - que viam no encontro da estrela do filme de Jerry Zucker com uma produção de temática espiritualista a receita para mais um êxito incontestável. Mas logo o que parecia uma aposta sem riscos se mostrou um tiro n'água: atacado pela crítica e com uma bilheteria decepcionante, o primeiro longa-metragem de Terry Hughes acabou sendo um dos inúmeros fracassos comerciais que pavimentaram o caminho de Demi rumo ao limbo sacramentando com fiascos como "Striptease" (1996) e "Até o limite da honra" (1997).

Conhecido na indústria principalmente pelos 108 episódios que dirigiu da série "Super gatas", Terry Hughes assumiu o comando de "A mulher do açougueiro" com a saída do cineasta inicialmente contratado para o projeto, o polonês Yurek Bogayevicz, dispensado por causa das famosas "diferenças artísticas". Sem experiência cinematográfica, Hughes apresenta um tom apropriadamente leve à sua estreia, mas falha em imprimir personalidade à lúdica história criada por Litak e Schwartz em sua única incursão hollywoodiana. Talvez seja o maior defeito de uma produção que, apesar do massacre da imprensa, não é melhor nem pior que boa parte das comédias românticas que lotam as salas de cinema mesmo sem acrescentar nada ao gênero. Dono de uma atmosfera mágica - sublinhada pela bela trilha sonora de Michael Gore - e recheado de personagens encantadores (ainda que não necessariamente aprofundados pelo roteiro), o filme de Hughes se beneficia da beleza de Demi e do talento de seu elenco coadjuvante para disfarçar uma trama quase simplória, cuja ingenuidade tanto pode ser vista como defeito quanto qualidade.


 

Demi, de peruca loura - e em papel que chegou a ser pensado para Meg Ryan -, interpreta a misteriosa Marina, uma bela clarividente que vê, em seus sonhos a chegada do amor de sua vida à ilha onde vive com sua idosa avó. Quando o açougueiro Leo Lemke (George Dzunza) surge à sua frente, então, ela imediatamente o reconhece como o homem que irá mudar o rumo de sua existência. Casada com ele mesmo sem conhecê-lo direito, ela se muda para Nova York e, com seus poderes, passa a alterar a rotina da pacata vizinhança - quase toda envolvida pessoal ou profissionalmente com o terapeuta Alex Tremor (Jeff Daniels): é graças a seus conselhos, por exemplo, que a tímida Stella Keefover (Mary Steenburgen) cria coragem para dar vazão a seu talento musical; que a vendedora de roupas Grace (Frances McDormand) parte em busca do amor; e que Robyn Graves (Margaret Colin) resolve pressionar o namorado - justamente o indeciso Alex, que, incomodado, confronta a bela esposa de seu vizinho e se apaixona por ela. A ciranda de amores - correspondidos ou não - se completa com a presença de Eugene (Max Perlich), empregado de Leo que vê em Marina a única pessoa capaz de compreendê-lo e aceitar seu passado contraventor.

Não há nada em "A mulher do açougueiro" que seja ofensivamente ruim, como fizeram crer boa parte dos críticos à época de seu lançamento. Se o romance central, entre Marina e Alex, não chega a ser fascinante, tampouco é irritante ou aborrecido. Se os personagens periféricos carecem de profundidade, também não deixam de ser encantadores em sua simplicidade. E se Demi Moore não é exatamente uma atriz de recursos ilimitados, seus colegas compensam o suficiente - e vale lembrar que Demi, carismática ao extremo, foi uma das atrizes mais atacadas dentro da indústria hollywoodiana, talvez pelo sucesso profissional, talvez pelo casamento (até então) bem-sucedido com Bruce Willis, talvez pela beleza irretocável. A má-vontade contra ela talvez explique o fracasso monumental de "A mulher do açougueiro" - menos de dez milhões de dólares arrecadados no total -, mas o fato é que sua carreira ainda emplacaria alguns sucessos de bilheteria ("Questão de honra", em 1992, e "Assédio sexual", em 1993) antes de seus maiores fiascos. "A mulher do açougueiro" é, para o bem ou para o mal, um filme que se sustenta na presença de Demi. Quem é fã não tem do que se queixar. Aos detratores, resta apenas ignorar.


quarta-feira

LOUCAMENTE APAIXONADOS


LOUCAMENTE APAIXONADOS (Like crazy, 2011, Paramout Vantage, 89min) Direção: Drake Doremus. Roteiro: Drake Doremus, Ben York Jones. Fotografia: John Guleserian. Montagem: Jonathan Alberts. Música: Dustin O'Halloran. Figurino: Mairi Chisholm. Direção de arte/cenários: Katie Byron/Rachel Ferrara. Produção executiva: Steven Rales, Mark Roybal, Audrey Wilf, Zygi Wilf. Produção: Jonathan Schwartz, Andrea Sperling. Elenco: Anton Yelchin, Felicity Jones, Jennifer Lawrence, Charlie Bewley, Alex Kingston, Oliver Muirhead, Chris Messina. Estreia: 22/01/2011 (Festival de Sundance)

Anna Gardner é uma jovem britânica que está em Los Angeles estudando Jornalismo. Jacob Helm sonha em fazer carreira como desenhista de móveis. Os dois se apaixonam perdidamente e fazem planos de passar o resto da vida juntos. Decidida a permanecer ao lado do namorado por mais tempo que o permitido em seu visto, Anna acaba por ver-se proibida de voltar aos EUA e retomar a relação. Desesperados com a situação, os namorados resolvem manter o relacionamento mesmo à distância, enquanto tentam resolver a questão. Todas as alternativas, no entanto, soam inadequadas: ele está começando uma bem estruturada carreira profissional e não vê sentido mudar de país, e um casamento (que pode dar um green card a ela) parece algo radical demais - e tampouco é garantia de sucesso, uma vez que o processo na imigração não é tão simples. Nesse meio-tempo, depois de uma breve separação, eles se envolvem com outras pessoas, mas não conseguem esquecer a força de seus sentimentos.

Com essa trama simples e direta, que fala direto ao coração do público, o cineasta Drake Doremus fez de "Loucamente apaixonados" um dos maiores sucessos do cinema independente de 2011: de sua estreia, em Sundance (de onde saiu com dois prêmios) até o lançamento comercial, aproximadamente um ano mais tarde, o filme foi exibido em festivais pelo mundo (Toronto, Vancouver, San Diego, Austin, Amsterdam, Montreal, Estocolmo, Oslo) e conquistou a crítica com sua delicadeza e energia juvenil e romântica. Longe de ter se tornado um campeão de bilheteria - ao menos dentro do conceito de lotar salas de exibição e formar filas quilométricas - e ignorado por cerimônias de premiação mais tradicionais (Oscar, Golden Globe, SAG Awards), o filme de Doremus cativa justamente por fugir das receitas mais óbvias de sucesso comercial e abraçar uma estética mais livre de amarras ao mesmo tempo em que permite ao espectador reconhecer nas telas todos os elementos que fazem do gênero um dos mais populares do cinema. Mais próxima do dolorido "Namorados para sempre" do que do alto astral "Questão de tempo" - todos lançados no mesmo ano -, a história de amor e desencontros entre Anna e Jacob se move com desenvoltura entre bons e maus momentos, delícias e tormentos, paixão e saudade, confiança plena e dúvidas angustiantes, sempre amparada no desempenho fascinante de seus dois atores centrais, um trunfo do qual Doremus lança mão sem o menor resquício de vergonha.

 

Donos de uma química palpável que salta das tela, Anton Yelchin e Felicity Jones são a alma de "Loucamente apaixonados". Improvisando boa parte dos diálogos - depois de exaustivos ensaios -, os jovens atores se entregam nitidamente às desventuras do casal de protagonistas, a ponto de não dar espaço algum para qualquer dúvida da plateia de que foram feitos realmente um para o outro. Mesmo quando a realidade dura se impõe à fantasia romântica, ambos são capazes, sem precisar mais do que expressões faciais ou movimentos discretos, de transmitir ao espectador um leque de emoções que resume todo o turbilhão pelo qual passam. Yelchin, primeira escolha do cineasta para viver Jacob, está encantador - e sua morte precoce, em 2016, com apenas 27 anos, parece ainda mais trágica quando se vislumbra o que o futuro poderia lhe oferecer. Felicity - premiada em Sundance e posteriormente alçada à grande promessa de Hollywood graças à sua indicação ao Oscar por "A teoria de tudo" (2014) - conquistou o diretor a ponto de estrelar seu filme seguinte, "Paixão inocente" (2013) e mostra um carisma e uma delicadeza raras. O trabalho dos dois é tão brilhante que até mesmo a sempre ótima Jennifer Lawrence - que seria oscarizada dois anos depois, por "O lado bom da vida" (2013) - consegue ser eclipsada (mesmo que, quando em cena, demonstre todo o seu potencial). 

Ao apresentar vários elementos consagrados pelo cinema independente norte-americano contemporâneo - edição ágil, trilha sonora moderna - e utilizá-los a seu favor, "Loucamente apaixonados" aponta o talento de Drake Doremus, um cineasta ainda restrito a pequenos circuitos, com filmes interessantes mas pouco vistos, como "Quando te conheci" (2015) e "Amor a três" (2019). Conduzindo sua história com sutilezas visuais e dotado de grande senso de ritmo, Doremus evita o sentimentalismo fácil e aposta em uma trama de forte apelo popular sem deixar-se contaminar pelo caminho mais óbvio. Seu filme é simpático até mesmo quando se torna incômodo - afinal, a realidade como mostrada sob suas lentes é amenizada pela fotogenia de seus astros centrais e pela inteligência de um roteiro cuja principal inspiração é a vida como ela é, ainda que vista por um ângulo poético e generoso.

EDUARDO E MÔNICA


EDUARDO E MÔNICA (Eduardo e Mônica, 2020, Gávea Filmes/Barr Company/Fogo Cerrado/Globo Filmes) Direção: Renê Sampaio. Roteiro: Claudia Souto, Jessica Candal, Matheus Souza, Michele Frants, canção de Renato Russo. Fotografia: Gustavo Hadba. Montagem: Lucas Gonzaga, Letícia Giffoni. Música: Pedro Guedes, Fabiano Krieger, Lucas Marcier. Figurino: Valeria Stefani. Direção de arte/cenários: Tiago Marques Teixeira. Produção executiva: Gabriel Bortolini, Mariana Ricciardi. Produção: Bianca De Felippes, Juliana Funaro, Renê Sampaio. Elenco: Alice Braga, Gabriel Leone, Otávio Augusto, Juliana Carneiro da Cunha, Victor Lamoglia. Estreia: 08/3/2020 (Festival de Miami)

Eduardo abriu os olhos mas não quis se levantar: ficou deitado e viu que horas eram, enquanto Mônica tomava um conhaque noutro canto da cidade, como eles disseram...

Não havia quem ouvisse rádio na segunda metade da década de 1980 que não conhecesse a terna história de amor de Eduardo e Mônica, personagens principais de uma das mais populares obras da banda Legião Urbana. Lançada no álbum "Dois", de 1986, a canção tornou-se, com o tempo, atemporal e parte do inconsciente coletivo nacional, conhecida até mesmo por aqueles para quem o grupo liderado por Renato Russo não passa de uma peça de museu. Como uma crônica irônica e ao mesmo tempo sensível de um tempo e uma geração, a quilométrica letra de Russo já era, desde sua gênese, um roteiro implorando para ser filmado - e diante disso até que demorou para que Eduardo e Mônica passassem de ícones culturais oitentistas a protagonistas de uma produção cinematográfica. Dirigido pelo mesmo Renê Sampaio que traduziu outra obra de Russo para as telas - o polêmico "Faroeste Caboclo", de 2013 - e estrelado pelos carismáticos Alice Braga e Gabriel Leone, a versão em carne de osso dos improváveis amantes teve seu lançamento atrasado pela Covid-19 (sua pré-estreia aconteceu em março de 2020, no Festival de Miami), mas finalmente chegou ao público. A boa notícia: apesar de alguns probleminhas de ritmo e de uma segunda metade que praticamente abandona o material original, o resultado final é leve, agradável e romântico na medida certa. 

A primeira metade do roteiro de Claudia Souto, Jessica Candal, Matheus Souza e Michele Frantz segue quase à risca a letra de Renato Russo. Está tudo lá: Mônica fazendo Medicina, falando alemão, gostando de Bauhaus e Rimbaud; Eduardo vendo novela e jogando futebol de botão com seu avô; as diferenças dos dois como combustível para a paixão nascente. Nessa fase, é fascinante a maneira como Renê Sampaio se utiliza dos anos 1980 como cenário de um período onde tudo apontava para tempos melhores. A trilha sonora repleta de hits da época ajuda não apenas a situar cronologicamente a trama, mas também para comentar a ação - por coincidência, a balada "Total Eclipse Of The Heart", clássico de Bonnie Tyler, que serve como catarse para uma divertida sequência, também serve como apoio no belo "Deserto particular", de Aly Muritiba - e não deixa de ser inteligente acrescentar um tom político à trama. Se a música da Legião Urbana sequer tocava em temas espinhosos, o filme de Sampaio faz do avô de Eduardo um militar aposentado e conservador e do falecido pai de Mônica um comunista exilado durante a ditadura. Tal subtrama não chega a ser desenvolvida como poderia, mas levando-se em conta que a história se passa em Brasília no período da abertura democrática, não deixa de ser interessante - principalmente graças ao talento de Otávio Augusto dando vida a um famigerado "cidadão de bem".

 

A segunda metade do filme, no entanto, deixa de lado o que se conhece para apostar na fórmula já consagrada do cinema romântico a que todos estão acostumados. Separados por motivos profissionais, Eduardo e Mônica precisam lidar com a distância, com as inseguranças a respeito de suas diferenças - as mesmas que os atraíram a princípio - e com todas as questões complicadas atreladas a um relacionamento. A queda do ritmo nessa fase da narrativa é perceptível, e é de se questionar os motivos que levaram os roteiristas a tal opção - talvez os mesmos que fizeram com que a versão para as telas de  Faroeste Caboclo tenha sido tão diferente de sua origem musical. Na tentativa de fugir do previsível e do óbvio, os realizadores de "Eduardo e Mônica" acabaram por desfigurar uma história já consagrada na mente de milhões de fãs. Para sua sorte, contam com atores do nível de Alice Braga e Gabriel Leone - ele, principalmente, transmite toda a gama de sentimentos de seu Eduardo com segurança de veterano, e impede que os clichês atrapalhem a diversão. É difícil não se identificar com seu adolescente desajeitado apaixonado por uma mulher mais velha e experiente - justamente a questão que fez com que todo mundo, por décadas a fio, questionasse se existe razão nas coisas feitas pelo coração.

"Eduardo e Mônica" é um drama romântico com tudo que isso tem de bom e de ruim. É repleto de lugares-comuns, é previsível e não se preocupa em aprofundar psicologicamente seus personagens. Porém, é agradável, é simpático, é leve e tem um irresistível apelo nostálgico que disfarça muito bem seus defeitinhos. Renato Russo estaria orgulhoso!

sexta-feira

NOSSAS NOITES


NOSSAS NOITES (Our souls at night, 2017, Netflix, 103min) Direção: Ritesh Batra. Roteiro: Scott Neustadter, Michael H. Weber, romance de Kent Haruf. Fotografia: Stephen Goldblatt. Montagem: John F. Lyons. Música: Elliot Goldenthal. Figurino: Wendy Chuck. Direção de arte/cenários: Jane Ann Stewart/Helen Britten. Produção executiva: Pauline Fischer, Ben Ormand. Produção: Finola Dwyer, Robert Redford, Erin Simms. Elenco: Jane Fonda, Robert Redford, Matthias Schoenaerts, Judy Greer, Bruce Dern, Phyllis Sommerville, Iain Armitage. Estreia: 01/9/2017 (Festival de Veneza)

O primeiro encontro profissional entre Jane Fonda e Robert Redford se deu em 1966, no filme "Caçada humana", dirigido por Arthur Penn e estrelado por Marlon Brando. No ano seguinte, estrelaram, no auge da beleza e da juventude, a comédia romântica "Descalços no parque", baseada em peça teatral de Neil Simon. Uma terceira parceria veio em 1979 com "O cavaleiro elétrico", dirigido por Sydney Pollack, e demorou quase quatro décadas para que uma nova colaboração chegasse até os fãs da dupla. Produzido pela Netflix, o drama romântico "Nossas noites" estreou no Festival de Veneza de 2017 e, se não fez o barulho que se poderia esperar de tal reunião isso se deve mais à despretensão do filme do que por sua possível falta de qualidades. Delicada e sensível, a adaptação do livro de Kent Haruf é um presente para um público em busca de histórias simples e bem contadas, com personagens com as quais é fácil se identificar de alguma maneira. E é claro que contar com a ajuda de Fonda e Redford não atrapalha em nada. Mesmo que não acrescente nada ao gênero e faça pouco pela carreira dos envolvidos, pode-se dizer, sem medo, que "Nossas noites" é um filme para aquecer o coração.

Sem medo de demonstrar a idade, Fonda e Redford são a principal fonte de interesse no filme dirigido pelo indiano Ritesh Batra, que ficou conhecido no Ocidente graças ao simpático "The lunchbox" (2013). Inteligente, Batra acerta em cheio a não tentar dissimular o tom quase melodramático da história e assumir seu dom para o romantismo exarcebado - ainda que pincelado com tons realistas e modernos. Fonda vive Addie Moore, uma viúva que, tentando amenizar a solidão, bate à porta de seu vizinho, Louis Waters (Redford), também viúvo, e faz a ele uma proposta inusitada: já que se conhecem há anos, ainda que superficialmente, por que não tentam dormir juntos na casa dela, como forma de fazer companhia um ao outro? A proposta é clara: não é sexo que Addie está procurando, e sim uma forma de conexão humana. Sem nada a perder, Louis aceita a nova amizade e os dois, aos poucos, começam a criar uma intimidade - ela ainda sofre com a morte precoce da filha, ainda criança, e ele tenta lidar com o sentimento de culpa de ter traído a esposa quando a filha ainda era pequena. Conforme vão se tornando mais próximos, porém, Abbie e Louis passam a ser o assunto da vizinhança - e não demoram a perceber que um sentimento muito forte está nascendo entre eles.


 

Como não poderia deixar de acontecer, no entanto, a felicidade do novo casal começa a incomodar, principalmente a Gene (Matthias Schoenaerts), filho de Abbie e ex-aluno de Louis: com o casamento em crise, Gene procura a mãe para pedir que ela fique um tempo com seu filho, Jamie (Iain Armitage), até que ele resolva sua vida. A presença do menino, ao contrário de afastá-la de seu novo amigo, faz com que Abbie o valorize ainda mais: juntos, os três formam uma nova e unida família, onde o respeito, o amor e o carinho são parte crucial da equação. Mas será que sua coragem em investir em um novo amor depois dos setenta anos valerá a pena? Ou os problemas do passado serão mais fortes que a busca pela felicidade já no outono da vida? O roteiro, escrito pelos mesmos Scott Neustadter e Michael H. Weber da comédia romântica "(500) dias com ela" (2009), não se aprofunda em tais questões, que surgem conforme a relação entre os protagonistas vai se tornando cada vez mais sincera. Assim como na vida, os problemas aparecem em cada esquina (e de tamanhos variados) e precisam ser resolvidos antes dos próximos passos, e os personagens lidam com eles sem grandes cenas dramáticas ou lágrimas desnecessárias. "Nossas noites" é um filme de pequenos momentos, de sentimentos reais e personagens que podem morar ao lado do espectador. Para uns é uma qualidade, para outros pode ser entediante.

A química entre Robert Redford - um dos produtores do filme - e Jane Fonda é preciosa. Despidos do glamour de estrelas de cinema, ambos entregam atuações comoventes, que envolvem o público sem fazer muito esforço. Apesar do início um tanto estranho - a proposta de Addie não é exatamente algo comum - e de certa demora em estabelecer obstáculos à nascente história de amor, "Nossas noites" entrega à audiência um produto com muito mais conteúdo do que boa parte de seus congêneres, normalmente dedicados à romances entre jovens fotogênicos em cenários paradisíacos. Addie e Louis vivem em uma cidadezinha do Colorado sem maiores atrativos e há muito não podem ser considerados símbolos sexuais, mas a história do escritor Kent Haruf, que morreu seis meses antes da publicação de seu livro - ressoa em qualquer lugar do mundo justamente por sua humanidade franca e honesta. Dirigido com sutileza e interpretado por dois dos maiores nomes do cinema hollywoodiano, "Nossas noites"" vale a pena. É como um chocolate quente no auge do inverno.

terça-feira

A BELA E A FERA

A BELA E A FERA (Beauty and the Beast, 2017, Walt Disney Films, 129min) Direção: Bill Condon. Roteiro: Stephen Chbosky, Evan Spiliotopoulos, roteiro da animação original de Linda Woolverton. Fotografia: Tobias Schliessler. Montagem: Virginia Katz. Música: Alan Menken. Figurino: Jacqueline Durran. Direção de arte/cenários: Sarah Greenwood/Katie Spencer. Produção executiva: Don Hahn, Thomas Schumacher, Jeffrey Silver. Produção: David Hoberman, Todd Lieberman. Elenco: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Josh Gad, Kevin Kline, Ewan McGregor, Ian McKellen, Emma Thompson, Stanley Tucci. Estreia: 23/02/17

2 indicações ao Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários

Em 1992, "A Bela e a Fera", animação produzida pela Disney, conseguiu furar um bloqueio histórico e ser indicada ao Oscar de Melhor Filme, anos antes que desenhos animados tivessem uma categoria para chamarem de sua e passassem a ser levados tão a sério quanto qualquer gênero mais "adulto" - e frequentemente também lembrados na corrida à estatueta principal. Na época, ficou apenas com os prêmios tradicionalmente relegados às animações (trilha sonora original e canção), mas abriu um precedente inesperado, já que fazia pouco tempo que o estúdio do Mickey havia readquirido seu status de grande produtor de filmes do gênero. Bem-sucedido nas bilheterias e aplaudido pela crítica, "A Bela e a Fera" se manteve no inconsciente coletivo do público por décadas, até que a mesma Disney teve a ideia de apresentá-lo a novas gerações - mas em formato diferente. A intenção era manter o clima original, parte das canções e a trama central, mas em live-action. Algo assim já havia sido testado em "Cinderela", dirigido por Kenneth Branagh em 2015, mas dessa vez o projeto era muito mais ambicioso: não apenas estenderia o roteiro em 45 minutos (em relação ao original) como contaria com uma atriz de considerável poder de atração, a inglesa Emma Watson, famosa por sua participação na bilionária série cinematográfica "Harry Potter". Além disso, o orçamento seria muito generoso (cerca de 160 milhões de dólares) e o diretor seria o vencedor do Oscar de melhor roteiro, Bill Condon (que arrebatou a estatueta em 1999 por "Deuses e monstros" e tinha no currículo ainda o elogiado "Kinsey: vamos falar de sexo", de 2004). Não tinha como dar errado. E não deu.

Antes mesmo de sua estreia, a nova versão de "A Bela e a Fera" já prometia ser um enorme sucesso: em suas primeiras 24 horas on line, o teaser do filme foi visto quase 92 milhões de vezes, estabelecendo, à época, um recorde. Com suas filmagens terminadas em agosto de 2015, o estúdio deixou a plateia em compasso de espera por cerca de um ano e meio até seu lançamento, em fevereiro de 2017: se foi proposital ou não é uma incógnita, mas o fato é que a estratégia deu certo, e o filme rendeu mais de 174 milhões de dólares em seu primeiro fim-de-semana nos EUA. Ao redor do mundo, a renda total foi de mais de um bilhão de dólares - uma cifra que nem mesmo os mais otimistas executivos ousariam sonhar. A melhor notícia, no entanto, quem recebeu foi o público: apesar do marketing, do orçamento inchado e de precisar atingir um patamar altíssimo de expectativa, a versão em carne e osso de "A Bela e a Fera" é um filme que em nada fica a dever a seu original: é visualmente belíssimo, tem uma trilha sonora da mais alta qualidade, um elenco muitíssimo bem escalado (desde os protagonistas até os coadjuvantes dos quais apenas se ouvem as vozes até o belo final) e um perfeito equilíbrio entre drama, aventura, romance e comédia. Tal conexão, porém, poderia não ter acontecido, caso o elenco escolhido tivesse sido outro - o que poderia muito bem ter acontecido.


Antes que Emma Watson tivesse assinado o contrato para viver Belle - com um cachê de três milhõs de dólares mais percentagem sobre a milionária bilheteria -, vários nomes chegaram a ser considerados: Lily Collins (que viveu Branca de Neve em "Espelho, espelho meu", de 2011), Emmy Rossum (a mocinha de "O fantasma da ópera", lançado em 2004), Amanda Seyfried (que havia soltado a voz em "Mamma Mia!", de 2008), Kristen Stewart (que também interpretou Branca de Neve, em "Branca de Neve e o caçador", em 2011) e Emma Roberts. O papel principal masculino - que exigiria de seu intérprete uma alta dose de paciência para atuar sob uma pesada maquiagem e ter seu rosto escondido sob CGI - também teve alguns nomes considerados antes que Dan Stevens o assumisse: Robert Pattinson, o famigerado vampiro Edward da série "Crepúsculo" esteve na mira do diretor Bill Condon - que assinou os dois últimos filmes baseados nos livros de Stephanie Meyer - e o galã do momento, Ryan Gosling, chegou a ser convidado para o papel, preferindo literalmente cantar em outra freguesia - mais precisamente nos sets de "La La Land: Cantando Estações", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor ator. Coincidência ou não, Emma Watson fez o caminho inverso: declinou da proposta para ser a protagonista do premiado filme de Demian Chazelle e preferiu realizar nas telas um de seus sonhos de criança. E o veterano Ian McKellen - que havia recusado dublar o relógio Cogsworth na produção de 1991 - dessa vez aceitou o desafio de criar o mesmo personagem. A seu lado, no time de dubladores que só mostram o rosto no desfecho do filme, nomes como os de Ewan McGregor, Emma Thompson e Stanley Tucci.

A trama do filme dessa vez comandado por Condon continua a mesma, diferindo apenas no desenvolvimento maior de alguns personagens: um príncipe, vaidoso e arrogante (Dan Stevens) é amaldiçoado por uma feiticeira e se transforma em um monstro, além de ver seu castelo, sua história e seus empregados apagados da memória de todos os que os conheceram. Seus criados são transformados em objetos e, na nova forma animalesca, ele se isola do mundo, permanecendo em seu castelo longe da vista de todos. Alguns anos mais tarde, ao tentar levar uma rosa do jardim do palácio para sua filha, o solitário Maurice (Kevin Kline) é aprisionado pela fera. Guiada por seu cavalo, que a leva diretamente ao castelo, Belle (Emma Watson), uma bela e voluntariosa jovem, consegue libertar seu pai ao oferecer-se ao posto de prisioneira. Empolgados com a situação, os objetos/criados tentam aproximar Belle da Fera - eles sabem que a única maneira de voltarem à forma original é fazer com que a garota se apaixone por ele apesar de sua aparência. Como todo conto de fadas, "A Bela e a Fera" precisa que o público compre sua história sem maiores questionamentos, e o filme de Condon consegue tal façanha sem fazer muita força. Ao transformar Belle em uma heroína de atitudes decididas, independente e com personalidade de sobra, o roteiro aproxima a trama de um contexto mais apropriado ao século XXI - o que torna o antagonista, Gaston (Luke Evans), ainda mais desagradável mesmo em comparação com uma fera. Inspirada em Katharine Hepburn, a jovem Emma Watson alcança o tom exato da personagem e conduz o espetáculo com segurança e graça. Pode até não agradar a quem não é fã de musicais, mas é inegavelmente um espetacular trabalho de adaptação, visualmente excitante e artisticamente sofisticado - mas sem perder, por um segundo sequer, seu diálogo com qualquer tipo de plateia. Um triunfo!

domingo

QUANDO O CORAÇÃO FLORESCE

QUANDO O CORAÇÃO FLORESCE (Summertime, 1955, United Artists, 99min) Direção: David Lean. Roteiro: David Lean, H.E. Bates, peça teatral "The time of the cuckoo", de Arthur Laurents. Fotografia: Jack Hildyard. Montagem: Peter Taylor. Música: Alessandro Cicognini. Direção de arte/cenários: Vincent Korda. Produção: Ilya Lopert. Elenco: Katharine Hepburn, Rossano Brazzi, Isa Miranda, Darren McGavin, Mari Aldon, Gaetano Autiero. Estreia: 29/5/55 (Festival de Veneza)

2 indicações ao Oscar: Diretor (David Lean), Atriz (Katharine Hepburn)

Quando aceitou o papel de Jane Hudson, uma secretária solteirona que descobre o amor em uma viagem à Itália, a atriz Katharine Hepburn já estava longe dos sets de filmagem desde "A mulher absoluta", de George Cukor - uma de suas várias colaborações com o ator Spencer Tracy. Seu retorno ao cinema, depois de três anos afastada, lhe rendeu a sexta indicação ao Oscar de melhor atriz. Baseado em uma peça de teatro estrelada por Shirley Booth e estreada em 1952, "Quando o coração floresce" é um filme perfeito para os românticos e um deleite para os olhos. Filmado quase totalmente na própria Veneza, o filme ofereceu à Hepburn o raro desafio de interpretar uma mulher apaixonada e vulnerável, e ao diretor David Lean a chance de assinar um último filme de pequena escala antes de dedicar-se a produções épicas e monumentalmente caras - seu filme seguinte seria "A ponte do Rio Kwai", lançado em 1957. Simples e sem afetações, "Quando o coração floresce" é, ao mesmo tempo, a história de um amor maduro e um cartão postal de seu cenário natural. E também o preferido de Lean dentre toda a sua filmografia - o que, haja visto seu currículo, é um elogio e tanto.

O primeiro cineasta interessado em dirigir a adaptação a peça de Arthur Laurents, chamada originalmente de "The time of the cuckoo", foi Roberto Rosselini. Um dos criadores do neorrealismo italiano planejava entregar à sua amada Ingrid Bergman o papel principal, mas o projeto não foi adiante em suas mãos. Olivia de Havilland também chegou a considerar a ideia de protagonizá-lo, e até mesmo Vittorio De Sica esteve entre os possíveis nomes do elenco - e não como diretor, mas no papel do galante Renato de Rossi, o galã que balança o coração da solitária Jane. Quando David Lean assumiu as rédeas da produção é que as coisas encontraram seu rumo, ou ao menos, era a impressão. Quando decidiu filmar tudo em locações, o premiado cineasta não tinha ideia dos problemas que teria de enfrentar: a equipe chegou em Veneza em plena alta temporada, e as filmagens, logicamente, demandavam de controle, o que significava que muitos dos turistas não contavam com tais transtornos. Lean teve de pagar pelos prejuízos dos comerciantes, dos condutores de gôndolas e até pela restauração de uma igreja da cidade. Afora esse pequeno empecilho, porém, tudo transcorreu tranquilamente - até mesmo a filmagem da cena em que Katharine Hepburn teve que cair em um dos canais de Veneza (e que lhe rendeu uma infecção no olho que nunca mais a abandonou). Foi tudo tão pacífico que Lean confirmou sua paixão pela cidade e fez dela seu segundo lar.


Já os moradores de Veneza, depois da confusão proporcionada pelas filmagens, foram surpreendidos com um efeito positivo para sua economia: após o lançamento de ""Quando o coração floresce" (justamente no festival de cinema realizado na cidade), o turismo no local simplesmente dobrou. Os espectadores conquistados pela história de amor contada por Lean queriam visitar os cenários do filme - e desde então Veneza é considerada uma das cidades mais românticas do mundo. Tudo por conta de uma história de amor madura, que rejeita o sentimentalismo e abraça um tom de romance outonal que trata o espectador com respeito - e que apresenta mais uma interpretação impecável de Hepburn. Ela vive Jane Hudson, que depois de anos de trabalho finalmente consegue realizar a viagem dos sonhos. Sozinha - acompanhada apenas por sua câmera filmadora -, ela passeia por Veneza absorvendo a atmosfera lírica da cidade. Ao entrar em um antiquário para comprar um objeto pelo qual se apaixonou, ela conhece Renato de Rossi (Rossano Brazzi), que acaba por se tornar seu amigo. Aos poucos, no entanto, Jane percebe que quer mais do que a amizade do sedutor Renato - mas nem tudo é o que parece, e em breve ela terá de lutar contra seus próprios valores para se entregar ao amor.

Assim como em "Desencanto" (1945), um de seus mais memoráveis filmes, David Lean retrata uma relação amorosa condenada pelas regras sociais. Mais uma vez seus personagens são jogados em um turbilhão sentimental e precisam encontrar forças para lutar por sua felicidade, que está justamente em um local aparentemente inalcançável. Katharine Hepburn é uma força da natureza: qualquer cena, por mais insignificante que pareça, é transformada em um espetáculo à parte - principalmente no terço final, quando ela precisa decidir entre a felicidade (ainda que fugaz) ou a ética social. A Rossano Brazzi resta pontuar com discrição o desempenho de Hepburn e entregar uma performance correta, mas jamais brilhante. A química entre os dois não chega a ser faiscante - o amor talvez surja de forma um tanto rápida -, mas é inegável que juntos eles conseguem cumprir o que o filme promete: um romance entre pessoas adultas e com sentimentos palpáveis, que pode fazer com que os mais sensíveis espectadores derramem uma ou outra lagrimazinha. Não é nem de longe o melhor filme de David Lean, mas oferece ao público uma trama séria e emocionante.

terça-feira

NESTE MUNDO E NO OUTRO

NESTE MUNDO E NO OUTRO (A matter of life and death, 1946, The Archers, 104min) Direção: Michael Powell, Emeric Pressburger. Roteiro: Michael Powell, Emeric Pressburger. Fotografia: Jack Cardiff. Montagem: Reginald Mills. Música: Allan Gray. Figurino: Hein Heckroth. Direção de arte: Alfred Junge. Produção: Michael Powell, Emeric Pressburger. Elenco: David Niven, Kim Hunter, Robert Coote, Roger Livesey, Raymond Massey, Abraham Sofaer. Estreia: 14/3/46

Com o final da II Guerra Mundial, parecia que os ânimos haviam se acalmado, ao menos em termos bélicos. Porém, os soldados britânicos ainda não haviam digerido o fato de que os EUA entraram no conflito muito depois que a Inglaterra - e não davam sinais de que se importavam com esse detalhe, criando para si mesmos uma imagem heroica que o cinema hollywoodiano insistia em sublinhar. Como uma forma de amenizar esse pequeno desconforto - ainda que extraoficialmente -, os diretores/produtores/roteiristas Michael Powell e Emeric Pressburger resolveram, então, servir como apaziguadores. Um filme que seria uma maneira de melhorar as relações entre os dois países, o drama romântico "Neste mundo e no outro" acabou, no entanto, extrapolando seus objetivos diplomáticos e conquistou crítica e público com uma parábola emocionante sobre o amor e a tolerância. Um dos filmes preferidos do ator Michael Sheen e da escritora J. K. Rowling é, também, um excepcional trabalho de imaginação e criatividade, com um roteiro brilhante e um visual empolgante - em uma época em que os efeitos visuais não contavam com computadores ou orçamentos milionários, tudo que se vê na tela é resultado direto do trabalho manual de uma equipe cujo talento é nunca menos que assombroso.

Filmado em preto-e-branco e Technicolor, o filme de Powell e Pressburger se utiliza de uma trama com toques sobrenaturais para construir um mundo à parte, onde nações hostis são capazes de deixar de lado suas diferenças em nome do amor e da fraternidade. Pode parecer ingênuo e piegas, mas o roteiro, repleto de bons momentos de humor e uma delicadeza ímpar ao tratar de assuntos incomuns, oferece ao espectador uma inteligência verbal e plástica que o torna absolutamente irresistível. Além de tudo, o filme acerta em cheio ao escalar como protagonista o ótimo David Niven, que transmite com elegância todas as nuances de seu personagem, um homem preso entre duas dimensões de realidade - e lutando por um amor descoberto em seus últimos momentos de vida. Ao lado de Kim Hunter (que levaria um Oscar de coadjuvante por "Uma rua chamada Pecado", de 1951), Niven mostra seu lado romântico sem nunca escorregar no sentimentalismo óbvio - e ainda arruma espaço para uma bem-vinda dose de ironia.


O filme começa como qualquer outra das produções sobre a guerra que invadiram as telas de cinema nos anos 1940: o Capitão Peter David Carter (David Niven), inglês, está retornado a seu país, depois de uma missão de bombardeio quando descobre que, para sua desgraça, que seu avião foi atingido e ele está vivendo seus últimos momentos de vida. Nesse meio-tempo, ele faz contato, via rádio, com a jovem June (Kim Hunter), que trabalha junto ao exército norte-americano: os dois conversam brevemente e notam uma grande sintonia entre eles, mas é tudo muito tarde, e, depois de pedir a June que avise sua mãe a respeito de sua morte, David se joga do avião em chamas mesmo sabendo que seu paraquedas está inutilizado. Para sua surpresa, porém, ele não morre, e acorda, atônito e com uma simples dor de cabeça, em uma praia britânica. Nesse mesmo lugar, ele conhece June e os dois se apaixonam instantaneamente. Seu idílio romântico, no entanto, dura pouco: sua sobrevivência foi um erro, uma falha do anjo responsável por direcioná-lo ao Paraíso. Indignado com a situação, Peter exige que seu caso seja julgado pelas mais altas cortes divinas, para que ele possa desfrutar da paixão que começou a sentir por June quando já deveria estar morto. O julgamento, então, é marcado e teses a favor e contra sua reivindicação são expostos diante de testemunhas e do júri.

O grande lance dramático de "Neste mundo e no outro" vem, no entanto, na forma com que o roteiro trata o julgamento de Peter. Ao mesmo tempo em que as testemunhas são ouvidas no plano astral, no plano da realidade o protagonista está passando por uma cirurgia no cérebro: assustada com o que considera alucinações do namorado, June o leva até um médico, que descobre, através de exames, um tumor que pode ser o responsável por seu comportamento excêntrico. O filme lança, então, a dúvida que faz dele tão especial: o julgamento pelo qual Peter está passando realmente está acontecendo ou tudo não passa de imaginação de um homem doente? E o veredicto será dado por um Ser Superior ou por um cirurgião, capaz ou não de lhe devolver a vida normal? Esta questão acaba por ser o maior trunfo do filme - mais até do que seu visual criativo - e até mesmo os letreiros iniciais dão uma dica a seu respeito: "Esta é a história de dois mundos: um que conhecemos e outro que existe apenas na mente de um jovem piloto cujas vida e imaginação foram violentamente moldadas pela guerra. Qualquer semelhança com qualquer outro mundo, conhecido ou desconhecido, é meramente coincidência."

 Visto com o olhar quase cínico de hoje, "Neste mundo e no outro" - cujo título original, "A matter of life and death" foi substituído por "Stairway to heaven" no idiossincrático mercado norte-americano, que talvez rejeitasse a palavra "morte" e ignorasse o filme - pode parecer ingênuo. Mas é inegável que o casamento entre a ideia geral e sua realização é um dos pontos altos do cinema inglês do pós-guerra, com uma mensagem de paz e tolerância que permanece de vital relevância. Com toques de um humor tipicamente britânico em seus diálogos e o desbragado romantismo hollywoodiano em alguns de seus mais tocantes momentos, a obra de Powell e Pressburger - que em poucos anos voltariam a encantar as plateias com seu musical "Os sapatinhos vermelhos" (48) - é deliciosamente kitsch, mas de uma sinceridade encantadora. Imperdível!

sexta-feira

COM AMOR, SIMON

COM AMOR, SIMON (Love, Simon, 2018, Fox 2000 Pictures, 110min ) Direção: Greg Berlanti.  Roteiro: Elizabeth Berger, Isaac Aptaker, romance "Simon vs The Homo Sapiens Agenda", de Becky Albertalli. Fotografia: John Guleserian. Montagem: Harry Jierjian. Música: Rob Simonsen. Figurino: Eric Daman. Direção de arte/cenários: Aaron Osborne/Tasha Clarkson. Produção executiva: Timothy M. Bourne. Produção: Marty Bowen, Wyck Godfrey, Isaac Klausner, Pouya Shahbazian. Elenco: Nick Robinson, Jennifer Garner, Josh Duhamel, Katherine Langford, Alexandra Shipp, Logan Miller, Keiynian Lonsdale, Jorge Lendeborg Jr.. Estreia: 27/02/18

Levou quase quarenta anos, mas aconteceu: em 1982, a Fox amargou um enorme fracasso de bilheteria com um filme chamado "Fazendo amor", que desafiava as regras implícitas da indústria ao contar a história do romance entre dois homens (um deles casado) sem apelar para um desfecho trágico ou o sensacionalismo. Não apenas o filme foi um fiasco comercial como prejudicou seriamente a carreira de seus atores (entre eles, Michael Ontkean, que só voltaria a chamar a atenção na década seguinte, como o Xerife Truman da série "Twin Peaks"). Em 2018, porém, as coisas foram bem diferentes: adaptado do livro "Simon vs The Homo Sapiens Agenda", de Becky Albertalli, a comédia romântica juvenil "Com amor, Simon", que apresenta um protagonista adolescente que encara com relativa naturalidade sua homossexualidade, conquistou a crítica e encantou seu público-alvo, arrecadando quase 70 milhões de dólares ao redor do mundo a despeito de não ter grandes nomes em seu elenco ou contar com uma campanha agressiva de marketing. Simples, delicado e bastante agradável, é uma produção que daria muito orgulho a John Hughes - o papa do cinema adolescente hollywoodiano.

Assim como nos filmes de Hughes - entre eles os clássicos "Gatinhas e gatões", "A garota de rosa shocking" e "Clube dos cinco" -, os protagonistas de "Com amor, Simon" falam direto a seu público-alvo com sinceridade e bom-humor, mesmo diante de situações dramáticas. Também não falta a trilha sonora antenada, coadjuvantes engraçados e toda aquela série de clichês do gênero - mas utilizados com tanto carinho que é difícil não simpatizar. Pode-se dizer inclusive que, mesmo diante de um tema tão relevante, o filme opta por um caminho um tanto asséptico e fantasioso - mas até nisso o diretor Jim Gillespie é coerente com as intenções de seu rebento. "Com amor, Simon" não se dispõe a quebrar barreiras ou preconceitos: é simplesmente uma boa e simpática história de amor, daquelas a que o público precisa recorrer depois de um dia pesado ou triste. Talvez o público adulto torça o nariz diante de algumas soluções fáceis demais ou do apelo francamente juvenil da trama, porém as plateias a que se destina a produção não tem do que reclamar: raramente elas tem à sua disposição uma comédia romântica tão adequada a seu tempo e suas necessidades sentimentais.


Muito acima da média das produções atuais do gênero, "Com amor, Simon" acompanha as desventuras românticas do protagonista, interpretado pelo carismático Nick Robinson, que empresta a ele uma personalidade tímida e quase desajeitada que combina à perfeição com a trama, recheada de intrigas amorosas, mal-entendidos e uma variedade de personagens interessantes que conquistam o espectador desde os primeiros momentos. Simon Spier, o personagem principal, é um adolescente comum, que vive confortavelmente com os pais, bonitos e bem-sucedidos (Josh Duhamel e Jennifer Garner) e uma adorável irmã mais nova (uma outra irmã, mais velha, foi limada na adaptação). Ele leva uma rotina simples, que envolve escola, amigos, ensaios para uma montagem estudantil de "Cabaret"e um segredo que mantém escondido a sete chaves: sua homossexualidade. Quando um colega se assume gay em um post no blog da escola - sob o pseudônimo de "Blue" -, Simon vê a chance de finalmente conseguir conversar com alguém sobre seus medos e sentimentos. Também disfarçado com um apelido ("Jacques"), ele inicia um relacionamento online com o rapaz - ambos se sentem atraídos intelectual e sentimentalmente um pelo outro, mas tem medo da exposição. Decidido a descobrir a identidade de seu novo amor, Simon passa, então, a imaginar dezenas de situações e possibilidades - e até chantageado passa a ser antes de finalmente conhecer a verdade.

O roteiro, baseado no livro de Becky Albertalli, brinca com as dúvidas de Simon a respeito da identidade de seu correspondente anônimo com delicadeza e respeito, e ainda encontra espaço para inserir uma fina ironia a respeito do preconceito em relação à homossexualidade. Uma sequência em que Simon imagina seus amigos "saindo do armário" e revelando aos pais que são heterossexuais e uma outra, onde ele se imagina finalmente assumido, ao som de Withney Houston, são momentos leves que não deixam que a trama se torne mais séria do que deveria. No fundo, o diretor Greg Berlanti quer apenas contar uma história de autoaceitação e liberdade pessoal, sem desviar sua atenção para outros temas importantes que o filme poderia levantar (a homofobia, os problemas familiares e outras questões são praticamente ignoradas). É uma escolha arriscada que poderia despertar a ira dos militantes mais radicais, mas que acaba sendo compensada pelo alcance do resultado final: mesmo que seja quase um conto de fadas, "Com amor, Simon" é respeitoso, caloroso e importante, por apresentar a uma plateia jovem (e portanto ainda em formação de caráter e personalidade) uma alternativa ao ódio e à intolerância. Pode não mudar o mundo nem marcar a história do cinema, mas é uma deliciosa sessão da tarde - e das mais corajosas e emocionantes.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...