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quinta-feira

ENCAIXOTANDO HELENA

 


ENCAIXOTANDO HELENA (Boxing Helena, 1993, Mainline Pictures/MGM Pictures, 107min) Direção: Jennifer Chambers Lynch. Roteiro: Jennifer Chambers Lynch, estória de Philippe Caland. Fotografia: Bojan Bazelli, Frank Byers. Montagem: David Finfer. Música: Graeme Revell. Direção de arte/cenários: Paul Huggins/Sharon Braunstein. Produção executiva: James R. Schaeffer, Larry Sugar. Produção: Philippe Caland, Carl Mazzocone. Elenco: Julian Sands, Sherilyn Fenn, Bill Pullman, Art Garfunkel, Betsy Clark, Kurtwood Smith. Estreia: Janeiro/93 (Festival de Sundance)

Antes mesmo de chegar às telas - o que aconteceu no Festival de Sundance de 1993 -, o filme de estreia da diretora Jennifer Lynch já estava nas páginas das publicações sobre cinema. Nem tanto pela curiosidade a respeito do primeiro trabalho da filha do prestigiado David Lynch mas sobretudo a respeito dos problemas de bastidores, que incluíam um clamoroso processo contra a atriz Kim Basinger  e a escolha por um elenco sem grandes astros depois da possibilidade de contar com Ed Harris ou John Malkovich no principal papel masculino. Fracasso de bilheteria que dividiu a crítica e comprometeu a nascente carreira da cineasta - que assinou alguns longa-metragens de pouca repercussão antes de dedicar-se à televisão -, "Encaixotando Helena" esbarrou principalmente na indecisão entre ser uma perturbadora história de amor ou um filme de suspense erótico: não agradou a nenhum público-alvo e entrou para a história mais como curiosidade do que exatamente por suas qualidades artísticas.

Segundo a própria Jennifer, seu roteiro foi escrito em dois meses quando ela tinha apenas dezenove anos. Não é de duvidar, a julgar pela superficialidade da trama e pela construção de seus personagens repleta de clichês. O protagonista, Nicholas Cavanaugh (Julian Sands) pode até carregar traumas de infância causados pelo excesso de sensualidade de sua mãe - algo que atrapalha sua relação com a colega de profissão, Anne Garret (Betsy Clark), disposta a um compromisso mais sério -, mas tais sentimentos jamais ultrapassam o óbvio. A bela Helena (Sherylin Fenn), apesar de demonstrar uma personalidade forte e uma certa prepotência em seu relacionamento com Ray O'Malley (Bill Pullman), não repete tais atitudes quando confrontada com um destino pouco feliz nas mãos de Nicholas. E toda a tensão sexual fetichista advinda da situação central não consegue escapar de um tom de fantasia machista, prejudicado pela estética pouco sofisticada e pela trilha sonora invasiva de Graeme Revell. O fato de Lynch ter recebido o aval do produtor Carl Mazzocone para assumir a direção do filme para que ele tivesse um olhar feminino não altera a percepção de que, apesar das intenções, "Encaixotando Helena" não passa de uma tentativa mal-sucedida de mesclar horror gótico, romance e sexo.


 

A trama engendrada por Jennifer Lynch gira em torno de Nick Cavanaugh, um médico bem-sucedido profissionalmente, atormentado por lembranças de uma infância dominada pela sensualidade avassaladora da mãe. Com a morte da matriarca, ele se transfere para a isolada mansão da família e se entrega a uma obsessão por Helena, por quem se apaixonou perdidamente depois de um breve encontro. Nem mesmo seu namoro hesitante com uma colega de trabalho, Anne, o afasta dos pensamentos constantes de reconquistar a bela e sedutora jovem, que simplesmente ignora suas tentativas de aproximação e o trata com um desprezo quase debochado. A relação entre eles sofre uma reviravolta, no entanto, quando um acidente de carro joga Helena nos braços de Nick - depois de amputar as duas pernas de sua musa, ele a esconde em sua propriedade e começa um intensivo jogo de sedução, com o objetivo de convencê-la de seu amor e dedicação. A princípio chocada com sua nova situação, Helena aos poucos vai percebendo que não há maneira de fugir de sua triste sina.

Helena, a heroína trágica criada por Jennifer Lynch, parecia, no começo dos anos 1990, por pouco não caiu nas mãos de Madonna, então em sua cruzada sensual que incluía o álbum "Erotica" e o livro de fotografias "Sex". A saída da estrela pop do projeto abriu espaço para outro símbolo sexual inquestionável do momento, Kim Basinger, parte do inconsciente popular masculino desde suas aventuras ao lado de Mickey Rourke no cult movie "9 1/2 semanas de amor" (1986). Basinger chegou a se comprometer com a produção até que, inesperadamente, abandonou o barco, para fúria dos produtores, que foram à justiça e a condenaram ao pagamento de uma multa de nove milhões de dólares. A saída, tanto de Madonna quanto de Basinger, alterou o tom de "Encaixotando Helena", que tornou-se mais explícito com a chegada de Sherilyn Fenn, cujo rosto angelical já havia sido explorado pelo pai de Jennifer, David, em sua série de televisão "Twin Peaks". Deslumbrante, mas sem alcance dramático o bastante para driblar as falhas do roteiro e a insegurança da direção, Fenn faz pouco mais do que enfeitar a tela, deixando o esforço maior para Julian Sands, que tenta ao máximo extrair verossimilhança em uma trama que, apesar da ousadia de sua premissa, se acovarda em um final decepcionante. Prometendo muito mais do que entrega (em termos de trama e resultado final), "Encaixotando Helena" pode até lembrar, em sua atmosfera onírica, a obra de David Lynch. Mas a estreia de Jennifer ficou muito aquém do que o DNA poderia sugerir.

sexta-feira

ESTRADA PERDIDA


ESTRADA PERDIDA (Lost highway, 1997, CiBy 2000, 134min) Direção: David Lynch. Roteiro: David Lynch, Barry Gifford. Fotografia: Peter Deming. Montagem: Mary Sweeney. Música: Angelo Badalamenti. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Patricia Norris/Leslie Morales. Produção: Deepak Nayar, Tom Sternberg, Mary Sweeney. Elenco: Bill Pullman, Balthazar Getty, Patricia Arquette, Robert Blake, Louis Eppolito, Gary Busey, Natasha Gregson-Wagner. Estreia: 15/01/97 (França) 

A maneira com que ideias surgem na mente de criadores é sempre uma incógnita. Autores costumam ser inspirados por canções, acontecimentos reais, pessoas que conhecem, livros ou até mesmo por sonhos - e nenhum deles se arriscaria a afirmar sua receita como a melhor ou mais acertada. Que o diga David Lynch, que viu o roteiro de seu "Estrada perdida" surgir de dois acontecimentos completamente aleatórios. Segundo o cineasta, tudo começou com um incidente estranho ocorrido em sua própria casa, quando uma voz desconhecida declarou, através do interfone, que uma pessoa que ele não conhecia estava morta - para simplesmente desaparecer depois da notícia. Além disso, durante o processo de escrita, Lynch teve (segundo ele mesmo, de forma inconsciente) a influência de um dos julgamentos mais rumorosos dos EUA na década de 1990: o caso O.J. Simpson, levado aos tribunais pelo duplo homicídio de sua ex-mulher e um amigo. De posse desses dois elementos díspares, um dos mais íntegros e fascinantes realizadores de Hollywood surgiu com seu oitavo longa-metragem, aquele que foi definido pela revista Entertainment Weekly como um dos mais assustadores filmes de todos os tempos. Cruel e angustiante na mesma medida, "Estrada perdida" é, também, um exercício de estilo dos mais impressionantes.

Enigmático como boa parte da filmografia de David Lynch, "Estrada perdida" já desnorteia o espectador de cara, assim como o faz com seus protagonistas, o saxofonista Fred Madison (Bill Pullman, colhendo os louros do sucesso de bilheteria de "Independence Day" (1996) e sua bela esposa, Renee (Patricia Arquette, morena): passando por uma série crise em seu casamento, enfatizada pelo constante ciúme de Fred, o casal ainda precisa lidar com a chegada constante de fitas de vídeo deixadas à sua porta, que mostram cenas do interior de sua casa. Nem mesmo a polícia é capaz de fazer algo para resolver a situação - que pode ou não estar relacionada ao violento assassinato de Renee, pelo qual seu marido acaba por ser responsabilizado e condenado. Se até então Lynch brincava com a percepção do público a respeito de seu par central de personagens - cujas personalidades não são aprofundadas propositalmente -, o segundo ato embaralha as cartas de forma radical: do nada, de dentro de sua cela, Fred se transforma em outra pessoa, mais jovem, com outro nome, outro rosto e outra profissão. A partir de então ele é Pete Dayton (Balthazar Getty), mecânico preso por crimes menores e que, fora da cadeia, irá se envolver em um romance arriscado com Alice (Patricia Arquette, dessa vez loura), amante de um perigoso gângster. Mas afinal de contas, qual a relação entre Fred Madison e Pete Dayton? Ou mais importante ainda: há alguma relação entre eles? E quem mandava as fitas para Madison e Renee? E quem é Dick Laurant - cujo anúncio de morte feito via interfone para o saxofonista dá início ao jogo?

Quem conhece a obra de David Lynch sabe que nem todas as perguntas criadas em suas tramas tem respostas óbvias - frequentemente cada espectador tem uma resposta própria e razoavelmente coerente com suas percepções. Em "Estrada perdida" não é diferente: amparado pela trilha sonora hipnótica de Angelo Badalamenti - em sua quarta colaboração juntos - e pela edição claustrofóbica de Mary Sweeney, o cineasta conduz a plateia por uma jornada aflitiva e aparentemente caótica cujos elementos só fazem sentido quando unidos em um panorama maior. Assim como faria em seus filmes seguintes, "Cidade dos sonhos" (2002) e "Império dos sonhos" (2006), o diretor apresenta suas armas gradativamente, jogando luz sobre detalhes que se repetem em circunstâncias contraditórias e/ou complementares. Um filme de Lynch não é apenas um passatempo esquecível: reafirmando seu modo peculiar de enxergar o mundo, o homem que fez o planeta se perguntar quem matou Laura Palmer - na antológica série "Twin Peaks" - faz de uma sessão de pouco mais de duas horas se transformar em uma experiência sensorial completa, em que nada é o que parece ser, personagens desafiam a lógica pré-estabelecida pelas regras narrativas e atores mostram lados até então novos de suas personas artísticas. É assim que Bill Pullman se transforma em um Fred Madison angustiado, paranoico e torturado e Patricia Arquette abandona suas personagens maluquetes - de filmes como "Amor à queima-roupa" (1993), "Ed Wood" (1994) e "Procurando encrenca" (1996) - para entregar não apenas uma, mas duas atuações densas, que chegam ao limite entre o sensual e o macabro.

Chegar a uma conclusão definitiva sobre qualquer trabalho de David Lynch é tarefa inglória. Por mais que sempre exista um caminho para decifrar seus enigmas - montados como um pesadelo pictório - e no final das contas as coisas possam fazer sentido dentro de um quadro maior, quebrar a cabeça com mil teorias faz parte da viagem que é assistir a filmes como "Estrada perdida". Toda imagem, todo diálogo, todo personagem, são peças essenciais para que o conjunto se torne, no final da sessão, uma espécie de experiência única e avassaladora. Em "Estrada perdida" há uma explicação lógica e simples por trás da profusão de problemas apresentados - mas a forma como se chegar a essa explicação é que faz disso tudo um momento único. Embalado por uma trilha sonora jazzística que mistura David Bowie, Lou Reed, Marilyn Manson, Trent Reznor e Tom Jobim - uma miscelânea que já dá pistas sobre o estilo iconoclasta do currículo do cineasta - e por um tom aterrador de suspense que jamais permite ao público antecipar o que virá pela frente, "Estrada perdida" é mais um ponto alto da carreira de seu realizador, ainda que apeteça muito mais a seu público cativo do que eventuais neófitos.

terça-feira

A GUERRA DOS SEXOS

A GUERRA DOS SEXOS (Battle of the sexes, 2017, Fox Searchlight Pictures, 121min) Direção: Jonathan Dayton, Valerie Farris. Roteiro: Simon Beaufoy. Fotografia: Linus Sandgren. Montagem: Pamela Martin. Música: Nicholas Britell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Judy Becker/Matthew Flood Ferguson. Produção: Danny Boyle, Christian Colson, Robert Graf. Elenco: Emma Stone, Steve Carell, Andrea Riseborough, Bill Pullman, Elisabeth Shue, Nathalie Morales, Sarah Silverman, Alan Cumming, Eric Christian Olsen. Estreia: 02/9/17 (Festival de Teluride)

Nada como um casal de verdade para comandar, diante dos olhos do público, uma batalha tão representativa sobre a disputa de gêneros quanto a protagonizada, em 1973, por dois jogadores de tênis populares e radicalmente diferentes quanto Billie Jean King e Bobby Riggs. Um dos mais importantes episódios esportivos - e por que não políticos? - da história dos EUA, a partida que uniu o país defronte a uma quadra de tênis ganhou, em "A guerra dos sexos", um retrato ao mesmo tempo irônico e emocionante nas mãos de Jonathan Dayton e Valerie Farris, diretores do já clássico "Pequena Miss Sunshine" (2006). Com um roteiro preciso de Simon Beaufoy - Oscar por "Quem quer ser um milionário? "(2008) - e atuações exemplares de Emma Stone e Steve Carell, o filme acabou sendo um inesperado fracasso de bilheteria e passou quase despercebido pelas cerimônias de premiação (Stone e Carell foram indicados apenas ao Golden Globe, sendo ignorados pelo Oscar e demais associações de críticos). Na verdade, tal resultado tão pouco auspicioso não reflete sua qualidade: sem apelar para o humor fácil ou o ativismo barato, o filme de Dayton e Farris diverte na mesma medida em que faz uma análise atualíssima sobre os papéis masculinos e femininos no final do século XX - e que encontra eco fortíssimo nas reivindicações sobre igualdade salarial no esporte, assunto mais do que em voga nessas primeiras décadas do XXI.

A trama começa em 1970, quando a famosa e vitoriosa Billie Jean King (Emma Stone) bate de frente com Jack Kramer (Bill Pullman), o organizador de um torneio mundial de tênis feminino cujo prêmio máximo é apenas 1/8 do prêmio oferecido ao campeão do campeonato masculino. Criando uma liga própria para mulheres, juntamente com outras jogadoras, Billie Jean acaba se tornando uma espécie de porta-voz de um movimento que pede equiparação de pagamento a homens e mulheres. Sua luta encontra resistência entre os executivos do esporte - todos homens que pregam a inferioridade de talento e força física das jogadoras em relação aos ídolos do chamado "sexo forte". É com essa gana de provar que existe igualdade entre os gêneros que Billie Jean aceita o desafio de Bobby Riggs (Steve Carell) para uma partida a ser transmitida internacionalmente. Jogador já aposentado - depois de uma carreira brilhante -, Briggs é um apostador compulsivo e vive sustentado pela esposa Priscilla (Elisabeth Shue), mas não resiste a bravatas pouco sutis e misóginas. E é para defender seu gênero que Billie Jean entra na quadra e se torna um ícone feminista.


Porém, fora das quadras, a jovem tenista também tem seus problemas pessoais. O casamento com Larry (Austin Stowell) está ameaçado por sua atração pela cabeleireira Marilyn Barnett (Andrea Riseborough) - e esta relação, se chegar até os meios de comunicação pode atrapalhar sua imagem diante do público. Além disso, Bobby tem a seu lado um séquito de atletas e jornalistas conservadores, o que lhe dá uma certa vantagem psicológica. O roteiro de Beaufoy acerta em tratar o romance entre Billie e Marilyn com naturalidade - inclusive dourando um pouco a pílula, uma vez que o relacionamento acabou em 1981 de forma pouco agradável (com Marilyn processando a jogadora). A direção de Dayton e Farris também foge do sensacionalismo e da polêmica, centrando seu foco muito mais na disputa entre os protagonistas (dentro e fora da quadra) e no trabalho irrepreensível de seus dois atores centrais. Emma Stone - que quase foi substituída por Brie Larson mas recuperou o papel a tempo - alterna os estados de espírito de sua personagem com extrema segurança, e Steve Carell parece ter nascido para interpretar Bobby Riggs: sua verve e seu timing cômico são precisos e dão a leveza necessária para não tornar a narrativa algo panfletário ou desinteressante. Da mesma forma, o elenco coadjuvante brilha sem roubar a atenção da dupla principal - e conta com nomes conhecidos como Bill Pullman e Elisabeth Shue.

Engraçado, importante e absolutamente atual, "A guerra dos sexos" talvez tenha fracassado nas bilheterias justamente por não se dobrar ao óbvio e ao cômodo. Não provoca gargalhadas fáceis nem tampouco tenta forçar a simpatia da plateia a um assunto bastante explosivo. É apenas um (bom) filme, contado com inteligência e sensibilidade, e que pode provocar discussões bastante saudáveis e pertinentes. Em uma época na qual poucos filmes tem a coragem de sair da zona de conforto, é um alento dos mais divertidos e simpáticos. Não vai mudar a história do cinema nem a vida do espectador, mas é muito mais relevante do que obras pretensamente sérias e politicamente corretas que conseguem enganar crítica e público. Um filme a ser descoberto e aplaudido!

sexta-feira

WYATT EARP

WYATT EARP (Wyatt Earp, 1994, Warner Bros, 191min) Direção: Lawrence Kasdan. Roteiro: Dan Gordon, Lawrence Kasdan. Fotografia: Owen Roizman. Montagem: Carol Littleton. Música: James Newton Howard. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Ida Random/Cheryl Carasik. Produção executiva: Dan Gordon, Michael Grillo, Charles Okun, Jon Slan. Produção: Kevin Costner, Lawrence Kasdan, Jim Wilson. Elenco: Kevin Costner, Dennis Quaid, Gene Hackman, David Andrews, Linden Ashby, Jeff Fahey, Mark Harmon, Michael Madsen, Catherine O'Hara, Bill Pullman, Isabella Rossellini, Tom Sizemore, Jobeth Williams, Mare Winningham, Annabeth Gish, Jim Caviezel, Mackenzie Astin, Téa Leoni. Estreia: 24/6/94

Indicado ao Oscar de Fotografia

Nada como uma boa ironia do destino para sacudir o ego de um astro. Que o diga "Wyatt Earp", superprodução comandada por Lawrence Kasdan que praticamente começou a pavimentar o declínio de Kevin Costner, um dos atores mais populares no início da década de 1990. Responsável pelo sopro de popularidade do western, com o enorme sucesso de seu "Dança com lobos" (1990), Costner emendou vários êxitos comerciais, como "JFK" (1991) e "O guarda-costas" (1993) - e, do alto de sua autoconfiança, acreditava que todo e qualquer projeto em que tocasse se transformaria em ouro. Foi assim que juntou-se ao roteirista Kevin Jarre para criar o que pretendia ser a visão definitiva de um dos heróis mais conhecidos do público norte-americano, o xerife Wyatt Earp. Tudo parecia ir bem até que as famosas "diferenças criativas" acabaram por separar os dois: não concordando com o espaço dado por Jarre aos personagens coadjuvantes - o que não dava o espaço pretendido pelo ator para exercitar todo o seu status de galã -, o ator pulou fora e procurou o amigo Lawrence Kasdan para começar uma produção rival, que seguisse os seus desejos. Como forma de demonstrar sua força dentro da indústria, ele chegou a tentar utilizá-la como moeda de troca, para impedir a distribuição do concorrente por outros estúdios - o que atrasou e dificultou a realização do filme, dirigido por George P. Cosmatos. A ironia de tudo é que não apenas "Tombstone: a justiça está chegando" custou metade do orçamento do mastodôntico "Wyatt Earp" como rendeu mais que o dobro da produção estrelada por Costner - e obteve melhores críticas, apesar de não ter um astro de sua estatura no elenco, liderado por Kurt Russell e Val Kilmer.

Com uma bilheteria mundial que não conseguiu nem ao menos cobrir seu custo de mais de 60 milhões de dólares, "Wyatt Earp" naufragou em sua própria ambição. Com o desejo óbvio de realizar mais um épico - mania que o levaria a mares ainda mais tumultuados em seu filme seguinte, "Waterworld: o segredo das águas", um fiasco histórico -, Costner acreditou demais na fidelidade dos fãs. Se "Dança com lobos" tinha mais de três horas de duração e fez o sucesso que fez, por que a trajetória de um herói nacional como Earp daria errado, não é mesmo? Originalmente concebido como uma minissérie de televisão de seis capítulos, o projeto que reunia Costner e Kasdan depois de outro faroeste, "Silverado", lançado em 1985, não se contentava em contar apenas a história mais conhecida a respeito de seu protagonista - o duelo em OK Corral, ocorrido em 1881, resultado da rixa entre os chamados "homens da lei", que incluíam três irmãos Earp e Doc Holliday, e cinco forasteiros, que, segundo a lenda, ameaçavam a paz da cidade de Tombstone, no Arizona. Ao contrário, o roteiro de Kasdan e Don Gordon começa na adolescência do protagonista e se estende por décadas - o que pode soar historicamente correto, mas causa um excesso de personagens e momentos desnecessários e prejudiciais ao ritmo da narrativa. Apesar disso, porém, seu fracasso nas bilheterias e a extrema má-vontade da imprensa não é totalmente justificado. "Wyatt Earp" pode não ser o filmaço que prometia, mas está muito longe de ser um filme ruim.


Primeiro, seus defeitos: um épico de três horas de duração pode facilmente prender a atenção do espectador, desde que haja conteúdo nesse tempo todo. O roteiro de "Wyatt Earp" parece dar a mesma importância a fatos cruciais, como a morte de Urilla (Annabeth Gish), primeira mulher do protagonista - acontecimento que o marca para sempre - e anedotas nem sempre dignas de ênfase, como os problemas conjugais entre Doc Holliday (Dennis Quaid) e Big Nose Katie (Isabella Rossellini). Atores como Gene Hackman (como o patriarca da família Earp) e a própria Rossellini são subaproveitados, e Kevin Costner em si não consegue convencer em todas as fases do personagem, especialmente quando mais jovem. A direção também falha em estabelecer a tensão necessária que conduz ao clímax - que, por sua vez, tampouco chega a empolgar (o que, levando-se em conta que o tiroteio real levou apenas alguns segundos, é plenamente perdoável). E, por fim, há a falta de carisma do personagem principal, que em nenhum momento domina o filme como deveria - mais um problema na conta de Costner.

Mas nem tudo está errado. A bela fotografia de Owen Roizman, indicada ao Oscar, funciona às mil maravilhas, sublinhando com discrição os vários tons do filme, da amplidão de horizontes e crepúsculos até o cinza das passagens mais sombrias e dramáticas. Dennis Quaid quase rouba o filme para si na pele de Doc Holliday: apesar de ter mais idade que o personagem, entrega uma performance admirável, para a qual perdeu peso e criou um visual impecável. A trilha sonora de James Newton Howard também é um ponto forte, fugindo do óbvio e apostando no minimalismo na maior parte do tempo. Revisto com o benefício do tempo, que salva filmes subestimados e muitas vezes desmascara obras nem tão geniais quanto se pensava, "Wyatt Earp" é um bom programa para quem gosta de faroestes mais contemplativos - a exemplo de "Os imperdoáveis", que deu a Clint Eastwood seu primeiro Oscar de direção e incentivou o renascimento do gênero em Hollywood. É um filme adulto e sério, realizado com dedicação e cuidado, mas que infelizmente afogou-se na prepotência e na megalomania. Pode ser resgatado do limbo dos fracassos - tem qualidades para tal -, mas jamais será a obra-prima definitiva sobre o assunto, como sonhava ser.

ENQUANTO VOCÊ DORMIA

ENQUANTO VOCÊ DORMIA (While you were sleeping, 1995, Hollywood Pictures/Caravan Pictures, 103min) Direção: Jon Turteltaub. Roteiro: Daniel G. Sullivan, Fredric LeBow. Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: Bruce Green. Música: Randy Edelman. Figurino: Betsy Cox. Direção de arte/cenários: Garreth Stover/Larry Dias. Produção executiva: Steve Barron, Arthur Sarkissian. Produção: Roger Birnbaum, Joe Roth. Elenco: Sandra Bullock, Bill Pullman, Peter Gallagher, Jack Warden, Peter Boyle, Glynis Johns, Micole Mercurio, Michael Rispoli, Ally Walker, Monica Keena. Estreia: 21/4/95

Em 1995 não havia jovem atriz mais quente em Hollywood do que Sandra Bullock. Vinda do inesperado sucesso de "Velocidade máxima", ela tornou-se a escolha de dez entre dez produtores para ficar com os papéis que previamente eram oferecidos à Julia Roberts, então em um momento delicado da carreira que só seria superado com o êxito comercial de "O casamento do meu melhor amigo", em 1997. Foi assim que Bullock - uma atriz não mais que mediana, mas carismática o suficiente para agradar tanto ao público masculino quanto ao feminino - segurou nas costas a polpuda bilheteria de "Enquanto você dormia", uma comédia romântica simples mas eficiente, e assumiu o posto de uma das atrizes mais bem pagas do cinema americano. E pensar que, na primeira versão do roteiro, seu personagem era masculino...

Explica-se: quando o roteiro de "Enquanto você dormia" chegou às mãos dos executivos dos estúdios - aqueles mesmos engravatados que dão palpites infelizes e via de regra estragam boas ideias com sua obsessão por lucros - ele contava a história de um homem apaixonado que fingia ser noivo de uma mulher em coma. Como a premissa soava um tanto assustadora - em especial em tempos onde patrulhas ideológicas começavam a se espalhar pelos quatro cantos do mundo - a ideia para tirar o roteiro do papel foi inverter os gêneros. O resultado? Uma deliciosa história de amor pontuada por uma sucessão de mal-entendidos engraçados e leves que lotou as salas de cinema e, além de confirmar o status de Bullock como nova namoradinha da América, revelou os dotes de galã de Bill Pullman, um ator até então relegado a papéis pouco glamourosos e que, no ano seguinte, seria um dos astros do megasucesso "Independence day", de Roland Emmerich.


Seguindo a tradição das comédias românticas passadas nas festas de Natal, "Enquanto você dormia" começa mostrando a vida solitária e tediosa da tímida Lucy Moderatz (Sandra Bullock), que trabalha coletando os tíquetes da estação de trens de Chicago. Seus dias pacatos são preenchidos pela fantasia que nutre de viver uma história de amor com um dos passageiros frequentes, o calado Peter Callahan (Peter Gallagher), a quem vê todos os dias a caminho do trabalho. Às vésperas do Natal, acontece o impensado: Peter é assaltado e jogado nos trilhos do trem. Desesperada, Lucy acaba salvando-o de uma morte certa, mas não de um coma que o deixa inconsciente. Para piorar, por um mal-entendido, ela é confundida como noiva do rapaz, que mantém uma relação um tanto distante da família. Adotada carinhosamente por todos - um grupo de pessoas doces e engraçadas que veem na aproximação com ela uma forma de manter-se perto do filho - Lucy se vê envolvida em uma mentira que vai tomando maiores proporções conforme os dias avançam. Tudo se complica, porém, quando dois novos elementos se unem à trama: a verdadeira noiva de Peter, uma dondoca chamada Ashley Bacon (Ally Walker) e o irmão dele, Jack (Bill Pullman), que trabalha com o pai enquanto não tem coragem de criar o próprio negócio e se apaixona perdidamente pela futura cunhada - e é correspondido.

Recheado de bons momentos cômicos - cortesia do engraçadíssimo Michael Rispoli como Joe Jr., o vizinho apaixonado por Lucy - e realizado com simpatia e leveza, "Enquanto você dormia" mereceu o sucesso que fez. Escrito com sensibilidade e dirigido com mão leve por Jon Turteltaub é uma comédia romântica típica, com todos os ingredientes clássicos do gênero misturados com inteligência e estrelada por uma atriz perfeita para o papel - que, coincidência ou não, foi pensando anteriormente, para Julia Roberts.

O PODER DA SEDUÇÃO

O PODER DA SEDUÇÃO (The last seduction, 1994, ITC, 110min) Direção: John Dahl. Roteiro: Steve Barancik. Fotografia: Jeffrey Jur. Montagem: Eric L. Beason. Música: Joseph Vitarelli. Figurino: Terry Dresbach. Direção de arte/cenários: Linda Pearl/Kathy Lucas. Produção executiva: W.M. Christopher Gorog. Produção: Jonathan Shestack. Elenco: Linda Fiorentino, Bill Pullman, Peter Berg, J.T. Walsh. Estreia: 26/5/94 (Austrália)

Em 1995 a atriz Linda Fiorentino passou por uma situação bastante insólita: elogiada unanimemente pela crítica por seu desempenho como a femme fatale protagonista do filme "O poder da sedução" - a ponto de ser indicada ao BAFTA, ao prêmio da Associação de Críticos de Chicago e ficar com o segundo lugar pela Sociedade de Críticos de Boston - ela se viu impedida de receber uma indicação ao Oscar que muitos consideravam justa por causa de uma regra antiga da Academia. Como a obra de John Dahl - um policial noir despudorado e bem escrito - estreou na TV antes de passar pelos cinemas, foi considerada inelegível para suas estatuetas. Azar da Academia, uma pena para Fiorentino. Mas quem assistiu ao excelente policial de Dahl sabe que a atriz, até então uma ilustre desconhecida, é seu corpo, sua alma e seus órgãos sexuais.

À época da estreia de "O poder da sedução", a imprensa não economizou elogios: para eles, Fiorentino era "a nova Sharon Stone" - uma vez que a antiga estava passando por um período de vacas magras devido ao fiasco de "Invasão de privacidade" (93) tal afirmação até soou verdadeira - e uma atriz que finalmente tinha encontrado seu lugar ao sol. Exageros e falhas de prever o futuro à parte (sua carreira não chegou exatamente a engrenar depois do filme, acumulando escolhas erradas e fracassos de bilheteria), os entusiasmados escribas até que não estavam tão longe da verdade a eleger Linda como a mulher fatal do momento. De posse apenas de seu charme, seu sorriso, sua inteligência acima da média e de uma total e absoluta falta de pudor, sua personagem no filme de John Dahl - que depois dirigiria Matt Damon e Edward Norton no igualmente bom "Cartas na mesa" (98) - usa e abusa dos homens ao seu redor, com o firme propósito de se dar bem e ficar com uma grana preta oriunda do tráfico de drogas.


O filme começa com sua personagem, Bridget Gregory, dando um golpe no próprio marido, Clay (Bill Pullman, um tanto exagerado mas não a ponto de incomodar): enquanto ele está no banho, preparando-se para comemorar o pagamento de quase um milhão de dólares que conseguiu pela cocaína medicinal que vendeu, ela foge de Nova York, deixando-o sem esposa e sem a grana necessária para pagar um agiota a quem deve dinheiro. Foragida, ela vai parar em uma cidade do interior dos EUA, muda o nome para Wendy Kroy e seduz o caipira Mike Swale (Peter Berg), cujo casamento passageiro em outra cidade acabou por motivos misteriosos. Para não ser obrigada a dar o divórcio a Clay - o que a obrigaria a dividir o dinheiro - e nem devolver o produto de seu roubo, ela passa a manipular o apaixonado Mike para fazê-lo cometer um assassinato.

O roteiro de Steve Barancik é outra estrela de "O poder da sedução": direto, inteligente e com o equilíbrio certo entre sensualidade, violência e reviravoltas, a trama prende o espectador do início ao fim, conduzindo-o por uma teia de amoralidade guiada por uma personagem poucas vezes nas telas americanas: por mais que as femmes fatales tenham sido figuras frequentes no cinema hollywoodiano desde os anos 40, nenhuma delas era tão abertamente sexualizada quanto Bridget. Sem nenhum tipo de vergonha, ela se apresenta a Mike enfiando a mão em sua calça - para "saber se vale a pena" - e se entrega a cenas de sexo encostada em uma grade do lado de fora de um bar, dentro de um carro e, logicamente, na cama, sem a culpa que cerca a hipócrita moral ianque. Não é à toa que o público fica tão encantado por ela quanto Mike: sua atitude em relação ao corpo é, sem dúvida, sua maior arma e Linda Fiorentino a usa como ninguém até o final feliz. Um pequeno grande filme!

segunda-feira

UMA EQUIPE MUITO ESPECIAL

UMA EQUIPE MUITO ESPECIAL (A league of their own, 1992, Columbia Pictures, 128min) Direção: Penny Marshall. Roteiro: Lowell Ganz, Babaloo Mandel, estória de Kim Wilson, Kelly Kandaele. Fotografia: Miroslav Ondricek. Montagem: Adam Bernardi, George Bowers. Música: Hans Zimmer. Figurino: Cynthia Flynt. Direção de arte/cenários: Bill Groom/George DeTitta Jr.. Produção executiva: Penny Marshall. Produção: Elliot Abbot, Robert Greenhut. Elenco: Tom Hanks, Geena Davis, Lori Petty, Madonna, Rosie O'Donnell, Bill Pullman, David Straithairn, Jon Lovitz, Garry Marshall. Estreia: 01/7/92

No auge da II Guerra, enquanto a maioria dos homens americanos estavam defendendo o país nas trincheiras inimigas, restava às mulheres manter os EUA, até mesmo em funções até então consideradas masculinas. E se nessa época havia fazendeiras, caminhoneiras e empresárias, por que não jogadoras de baseball? Um dos esportes mais amados pelo público ianque, ele estava em sérias dificuldades com o êxodo de seus mais populares jogadores, que estavam jogando por suas vidas nas mais distantes plagas. Com medo de perder as generosas bilheterias que o jogo lhes proporcionava, os empresários tiveram então uma ideia brilhante: criar uma liga feminina de baseball, com o objetivo de manter acesa a chama até o retorno dos (esperava-se) vencedores soldados. Assim começa "Uma equipe muito especial", a divertida comédia que Penny Marshall - diretora dos sucessos "Quero ser grande" (88) e "Tempo de despertar" (90) - fez alcançar mais de 100 milhões de dólares de arrecadação somente no mercado doméstico no verão de 1992. Sucesso de público e crítica, o filme cria uma história de ficção em cima de uma situação verídica (a criação de tal liga) que até então era desconhecida da maior parte dos americanos e faz rir e emociona com um roteiro enxuto escrito pela dupla mais quente da época, Baballo Mandel e Lowell Ganz.

A trama criada pelos roteiristas começa em 1943, no Oregon, quando o descobridor de talentos Ernie Capadino (Jon Lovitz) propõe à talentosa Dotti Hinson (Geena Davis em momento especialíssimo da carreira, acumulando sucesso atrás de sucesso) que o acompanhe para um teste em Chicago: se aprovada, ela entraria em um time de baseball profissional com um salário tentador (ao menos para uma fazendeira cujos dias se resumem a ordenhar vacas, cuidar da casa, esperar que o marido retorne da guerra e ocasionalmente jogar com um grupo de amigas). Dottie a princípio recusa o convite, mas acaba aceitando a proposta, desde que possa levar junto sua irmã caçula, Kit (Lori Petty), com quem mantém uma relação carinhosa porém de certa rivalidade. Em pouco tempo, ambas estão escaladas para serem treinadas por Jimmy Dugan (Tom Hanks, divertidíssimo), que, de uma lenda do esporte acabou por tornar-se um pária por seu vício em álcool. Juntamente com outras mulheres igualmente talentosas, elas encaram o machismo do mundo esportivo - antes de jogadoras elas são tratadas como fêmeas, que precisam saber comportar-se socialmente e manter-se atraentes fisicamente - e iniciam uma bem-sucedida carreira.


O fio condutor da história de "Uma equipe muito especial" - a amizade e a competitividade entre Dotti e Kit - é apenas desculpa para Penny Marshall divertir o público com piadas sutis e ácidas sobre o comportamento feminino da década de 40 e o universo machista e ganancioso do baseball. Enquanto Dotti está vivenciando apenas uma fase de sua vida, que ela pretende que volte aos eixos quando seu marido (Bill Pullman) retornar do conflito, suas colegas tem no jogo e no campeonato o centro de suas existências. É somente ao lado das demais jogadoras que Doris Murphy (Rosie O'Donnell) sente-se enturmada, que a desbocada e liberal Mae Mordabito (Madonna) pode ser quem ela realmente é, que a feiosa Marla (Megan Cavanagh) sente-se valorizada (mesmo que nos documentários sobre o time ela seja sempre filmada de longe para não atrapalhar a ideia de que todas as atletas da liga são bonitas e sensuais). Essa espécie de família que é criada a partir da união entre todas elas é o que dá ao filme seu sabor especial, mesclando momentos de humor com cenas quase comoventes - em especial quando uma das jogadoras recebe a triste notícia da morte de seu marido. Buscando um humor simples e familiar, ela atinge o espectador aos poucos, até mesmo aquele que entende de baseball tanto quanto de física quântica.

"Uma equipe muito especial" talvez seja apenas mais um filme de esportes americanos feito para americanos, mas é impossível negar as qualidades que o fazem conquistar também o público internacional. O timing cômico do roteiro é invejável (todas as cenas com o filho obeso de uma das jogadoras é sensacional), a direção é convencional mas eficaz, a trilha sonora de Hans Zimmer cumpre sua função com louvor (e tem direito até a uma canção feita especialmente por Madonna, "This used to be my playground", que concorreu ao Golden Globe) e o elenco está em dias inspirados. Tom Hanks engordou para o papel e construiu um Jimmy Dugan irascível e ao mesmo encantador; Geena Davis pegou o papel de Debra Winger dias antes do início das filmagens e tornou-se exímia jogadora; e até Madonna sai-se bem como a sexy Mae Topa Tudo (o que dá origem a uma ótima piada). No final das contas, é uma comédia acima da média, capaz de arrancar sorrisos até do mais exigente espectador.

sexta-feira

O TURISTA ACIDENTAL

O TURISTA ACIDENTAL (The accidental tourist, 1988, Warner Bros, 121min) Direção: Lawrence Kasdan. Roteiro: Lawrence Kasdan, Frank Galati, romance de Anne Tyler. Fotografia: John Bailey. Montagem: Carol Littleton. Música: John Williams. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Bo Welch, Cricket Rowland. Produção executiva: Phyllis Carlyle, John Malkovich. Produção: Michael Grillo, Lawrence Kasdan, Charles Okun. Elenco: William Hurt, Kathleen Turner, Geena Davis, Bill Pullman, Amy Wright, David Ogden Stiers, Ed Begley Jr.. Estreia: 23/12/88

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Geena Davis), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Geena Davis)

A expectativa era grande em torno do reencontro entre o cineasta Lawrence Kasdan e a dupla de atores William Hurt e Kathleen Turner, afinal, eles haviam incendiado as telas de cinema sete anos antes com o neo-noir "Corpos ardentes" (81), que embora tenha fracassado nas bilheterias, tornou-se referência no gênero thriller erótico pouco depois - chegando a gerar inúmeras imitações, quase nunca tão boas quanto ele. Acontece que tal expectativa acabou sendo o maior problema enfrentado por "O turista acidental", drama familiar baseado no best-seller de Anne Tyler e que foi o projeto que marcou a reunião do talentoso trio: misturar um livro de sucesso, um cineasta competente, uma atriz em alta (Turner já havia concorrido ao Oscar por "Peggy Sue, o passado à espera" (86)) e um ator oscarizado (por "O beijo da mulher-aranha" (85)) só poderia dar coisa boa, e ninguém esperava o contrário. Mas, apesar de todos os ingredientes estarem disponíveis, o filme não obteve o resultado esperado. Mesmo tendo concorrido ao Oscar de melhor filme do ano - em uma indicação até hoje pouco compreensível - e ter sido premiado pela Associação de Críticos de Nova York, o filme de Kasdan peca por ser um drama irregular, que alterna momentos brilhantes com outros simplesmente aborrecidos.

Apesar do nome de Turner aparecer no cartaz com o mesmo destaque que Hurt - certamente uma estratégia de marketing - é o ator, que emplacou uma sucessão de indicações ao Oscar (em 85, 86 e 87) que carrega o filme nas costas, como o protagonista absoluto da trama criada por Tyler. Ele interpreta Macon Leary, um escritor de guias de viagem para executivos torturado pela morte violenta do filho adolescente e que vê seu casamento aparentemente estável com a bela Sarah (Kathleen Turner) acabar melancolicamente. Vivendo seus dias sem maior entusiasmo - e voltando a conviver com sua estranha família, com quem mantém uma relação quase distante - Macon tem sua rotina alterada quando conhece Muriel Pritchett (Geena Davis), uma jovem amalucada que trabalha no hotel para cães onde ele deixou seu animal de estimação durante uma viagem. Os dois - ele retraído, tenso e incapaz de lidar com os sentimentos em torno da perda do filho e ela excêntrica, alegre e corajosamente criando seu filho pequeno sozinha - acabam por formar um inusitado casal, que será ameaçado por suas diferenças, pelas circunstâncias sociais e, pior ainda, pelo retorno de Sarah, que resolve tentar uma nova chance para seu casamento.


A boa ideia do roteiro de Kasdan e Frank Galati - indicados ao Oscar da categoria - de ilustrar passagens dos livros de Leary (que faz sugestões práticas aos leitores de como carregar pouca bagagem, por exemplo) com momentos de sua vida é realmente interessante, fazendo um bem-vindo contraponto entre o que é teoria e realidade. As metáforas do livro de Tyler parecem intactas em sua transposição para o cinema e Kasdan é, comprovadamente um roteirista de mão cheia, capaz de escrever diálogos que soam naturais mesmo com personagens que beiram o surreal, como a doidivanas Muriel, que Geena Davis interpreta com graça e propriedade mesmo não tendo sido a primeira escolha para o papel - Jessica Lange, Ellen Barkin e Laura Dern estavam à sua frente. Optando pela discrição da atuação em contraste com o quase exagero das atitudes da personagem, Davis (que no mesmo ano estava no elenco do blockbuster "Os fantasmas se divertem") equilibra os dois pontos de Muriel a ponto de fazer com que o público acredite que, por exemplo, ela é capaz de sair de seu país de uma hora para outra apenas para encontrar o ex-namorado. Talvez tenha sido essa sutileza da interpretação a responsável pelo Oscar de coadjuvante que Davis papou de nomes mais fortes, como Sigourney Weaver, Michelle Pfeiffer e Frances McDormand.

"O turista acidental" é um filme americano de alma europeia. Seu drama, apesar de devastador, não se revela em catárticas cenas lacrimosas e sim na tristeza profundamente enraizada de Macon Leary, que prefere isolar-se do mundo e das emoções a ter que enfrentá-las corajosamente. Lawrence Kasdan não se permite nem ao menos explorar mais detalhadamente a origem da tragédia do casal central, optando, ao invés disso, por flashes rápidos do acontecido (mais como forma de situar a plateia do que para buscar a comoção rasteira). Esses acertos, porém, esbarram em cenas desnecessárias (como quase todas as que envolvem a família de Macon, inclusive retratando o romance nascente entre sua irmã e seu chefe, vivido por um ainda desconhecido Bill Pullman) que tiram o foco, a energia e o ritmo do filme. Fosse mais econômico certamente ele teria criado uma pequena obra-prima. Como está, seu filme é, longe de ruim, apenas correto e sóbrio - e, considerando a explosão sensual de "Corpos ardentes", a quase frieza de "O turista acidental" não deixa de ser um interessante paradoxo que mostra sua versatilidade e competência.

quinta-feira

SINTONIA DE AMOR

SINTONIA DE AMOR (Sleepless in Seattle, 1993, TriStar Pictures, 105min) Direção: Nora Ephron. Roteiro: Nora Ephron, David S. Ward, Jeff Arch, história de Jeff Arch. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Robert Reitano. Música: Marc Shaiman. Figurino: Judy Ruskin. Direção de arte/cenários: Jeffrey Townsend/Clay Griffith. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Patrick Crowley, Delia Ephron, Lynda Obst. Produção: Gary Foster. Elenco: Tom Hanks, Meg Ryan, Rita Wilson, Victor Garber, Bill Pullman, Rosie O'Donnell, Carey Lowell, Ross Malinger, Gabby Hoffman, Rob Reiner, Frances Conroy, David Hyde Pierce. Estreia: 25/6/93

2 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Canção Original ("A wink and a smile")

Quando se sabe que Meg Ryan teve seu melhor papel em "Harry & Sally, feitos um para o outro", escrito por Nora Ephron e se assiste a sua atuação em "Sintonia de amor" - estreia da roteirista como cineasta - fica-se difícil imaginar outra atriz como protagonista. No entanto, antes que Ryan embarcasse no projeto, o papel da romântica jornalista Annie Reed foi oferecido a Julia Roberts, Jennifer Jason Leigh, Michelle Pfeiffer, Jodie Foster e Kim Basinger - que o recusou por considerar a premissa do roteiro ridícula e inverossímil. As sistemáticas recusas das atrizes citadas, no entanto, podem ser consideradas um golpe de sorte; com Ryan no principal papel feminino e Tom Hanks como seu par romântico, "Sintonia de amor" foi um dos mais surpreendentes sucessos de bilheteria de 1993 e encantou milhares de corações enamorados. A premissa pode, sim, ser um tanto inacreditável, mas isso não atrapalhou nem um pouco no grande êxito comercial e crítico de uma das comédias românticas mais simpáticas da história.

Embalado por uma trilha sonora irretocável composta por standards do cancioneiro romântico/popular americano - de "As time goes by" a "When I fall in love" - o filme de Nora Ephron mantém o tom irônico e bem-humorado de "Harry & Sally", mas não tem medo de ir fundo no romantismo, certamente inspirado no clássico "Tarde demais para esquecer", homenageado carinhosamente pelo roteiro - apesar de ser citado sempre pela parcela feminina do elenco enquanto é desprezado pelas personagens masculinas, o romance entre Cary Grant e Deborah Kerr é a maior influência de "Sintonia de amor" e foi redescoberto pelo público graças a ele.



Quando o filme começa, o arquiteto Sam Baldwin (Tom Hanks no auge da simpatia e em vias de ser muito levado a sério pela crítica) acaba de ficar viúvo e, entristecido com a perda, abandona Chicago e leva o filho pequeno, Jonah (o ótimo Ross Malinger) para Seattle, disposto a recomeçar a vida. Um ano e meio depois, preocupado com a solidão do pai, o menino telefona para um programa de rádio, em busca de uma namorada para ele. Apesar das centenas de cartas que lhe chegam, em resposta ao pedido, ele se interessa pela carta da jornalista Annie Reed (Meg Ryan), moradora de Baltimore - ou seja, do outro lado do país. Mesmo que recém tenha ficado noiva do dentista Walter (Bill Pullman), ela não reconhece nele alguém capaz de despertar-lhe uma paixão como a de seus pais, e, com a ajuda de sua editora, Becky (a divertida Rosie O'Donnell), tenta contato com o "Insone de Seattle" (o pseudônimo de Sam no programa de rádio). Desacreditando nas possibilidades de um encontro com Annie (por ao menos uma boa razão), Sam tenta seguir a vida, mas Jonah não parece capaz de desistir de reuní-lo à bela repórter.


"Sintonia de amor" é uma delícia. Engraçado, romântico e extremamente agradável, é um perfeito exemplo de como se fazer uma comédia romântica. A química entre Hanks e Ryan - previamente testada no fracassado "Joe contra o vulcão" - é invejável, principalmente se for levado em conta que dividem a cena por menos de cinco minutos no total. A expectativa que se cria em torno de seu encontro é pontuada com diálogos saborosos e personagens criados com carinho por um elenco coadjuvante afiado (que inclui o cineasta Rob Reiner, a esposa de Hanks, Rita Wilson e até mesmo Frances Conroy, que ficaria famosa pela série "A sete palmos" quase uma década depois). As diferenças culturais entre homens e mulheres é trabalhada com humor e não com um ranço sexista, e nem mesmo o fato de realmente a história ser meio capenga incomoda a plateia - vale lembrar que, à época do filme, a Internet ainda não era o que é hoje (mas a dupla Hanks/Ryan também faria um filme sobre isso, "Mensagem para você", novamente sob a direção de Nora Ephron).

Mesmo com tantas qualidades, o melhor de "Sintonia de amor" é mesmo seu clima absolutamente romântico. Desaconselhável para quem não é fã do gênero - uma vez que é sua quintessência - é um filme para aquecer os corações daqueles que acreditam que o grande amor de sua vida pode ser um completo desconhecido que mora há milhares de quilômetros. É deixar a razão de lado e mergulhar.

SOMMERSBY, O RETORNO DE UM ESTRANHO

SOMMERSBY, O RETORNO DE UM ESTRANHO (Sommersby, 1993, Warner Bros, 114min) Direção: Jon Amiel. Roteiro: Nicholas Meyer, Sarah Kernochan, história de Nicholas Meyer, Anthony Shaffer, roteiro original "The return of Martin Guerre", de Jean-Claude Carrière, Daniel Vigne. Fotografia: Philippe Rousselot. Montagem: Peter Boyle. Música: Danny Elfman. Figurino: Marilyn Vance-Straker. Direção de arte/cenários: Bruno Rubeo/Michael Seirton. Casting: Billy Hopkins, Suzanne Smith. Produção executiva: Richard Gere, Maggie Wilde. Produção: Arnon Milchan, Steven Reuther. Elenco: Jodie Foster, Richard Gere, Bill Pullman, R. Lee Ermey, James Earl Jones. Estreia: 05/02/93

Jodie Foster em um filme romântico pode soar estranho, mas é justamente essa escalação ousada de elenco que faz com que "Sommersby, o retorno de um estranho" sobressaia em meio a tantas histórias de amor lançadas anualmente nas telas de cinema. Refilmagem do francês "O retorno de Martin Guerre", estrelado por Gérard Depardieu, o filme do diretor Jon Amiel tem na presença sempre magnética de Foster (em seu primeiro trabalho pós-Oscar por "O silêncio dos inocentes") seu principal trunfo e, para sorte do público, nem mesmo o normalmente apático Richard Gere (que aqui também é produtor executivo) consegue atrapalhar.


Nesta versão americana, Foster vive Laurel Sommersby, uma mulher forte (como todas as personagens da carreira da atriz) que, logo depois da Guerra de Secessão, luta para manter sua casa e seu filho pequeno. Cortejada por um vizinho (Bill Pullman antes de ser catapultado ao estrelato em "Independence Day"), ela é a pessoa que mais fica surpresa quando reencontra seu marido Jack (Richard Gere), que era dado como morto em uma batalha e reaparece, com desejo de retomar o que é seu. A maior surpresa de Laurel, no entanto, não é a volta do marido e sim sua radical transformação. De grosseiro, rude e mau-caráter, Jack tornou-se romântico, gentil e, mais do que tudo, um homem disposto a tirar a fazenda do vermelho e reconstruí-la. Não demora muito e Laurel cai de amores pelo marido que costumava espancá-la e concebeu seu filho praticamente em um estupro. Ao mesmo tempo, porém, ela tem a certeza quase absoluta de que há algo de errado com ele.



Suas dúvidas começam a ficar maiores quando Jack é acusado de assassinato e surge a possibilidade de que ele na verdade seja um impostor. Laurel fica então divida se quer que o homem por quem está apaixonada diga a verdade e vá preso por falsidade ideológica ou se prefere que ele mantenha sua palavra e possa ser condenado à morte. E é justamente essa dúvida que leva “Sommersby” pra frente. A partir do momento em que a identidade do homem que passa a dividir a cama e a vida com Laurel é posta em questionamento, o filme esquenta e dá espaço para o brilho da atuação de Jodie Foster. E que atuação! Provando – mais uma vez – que é uma das melhores atrizes de sua geração, ela rouba o filme todo pra si, mal deixando espaço para seus coadjuvantes – que incluem o sempre eficaz R. Lee Ermey.

"Sommersby" não é o melhor filme da carreira vitoriosa de Foster, mas é um de seus trabalhos mais maduros e, sem dúvida, o mais romântico e sensual. Seu talento é tão especial que ajuda até mesmo Richard Gere a não estar tão mal.  Somado ao fato de ter um final surpreendente e que foge aos clichês do gênero, é um fato que o recomenda sem maiores medos.

terça-feira

VIDA DE SOLTEIRO

VIDA DE SOLTEIRO (Singles, 1992, Warner Bros, 99min) Direção e roteiro: Cameron Crowe. Fotografia: Tak Fujimoto, Ueli Steiger. Montagem: Richard Chew. Música: Paul Westerberg. Figurino: Jane Ruhm. Direção de arte/cenários: Stephen J. Lineweaver/Clay A. Griffith. Casting: Owens Hill. Produção executiva: Art Linson. Produção: Cameron Crowe, Richard Hashimoto. Elenco: Matt Dillon, Bridget Fonda, Campbell Scott, Kyra Sedgwick, Sheila Kelley, Bill Pullman, James LeGros, Eric Stoltz, Jeremy Piven, Tom Skerrit, Paul Giamatti. Estreia: 18/9/92

A principal informação que pessoas normais tem a respeito de Seattle é que é a cidade que foi o berço do movimento "grunge", que, no início dos anos 90, legou ao mundo bandas como Pearl Jam e Nirvana (da cidade vizinha Aberdeen). E é justamente nessa Seattle musical e jovem que se passa uma das comédias românticas mais bacanas da década, que, se não tornou-se o êxito comercial esperado, ao menos amealhou fãs fiéis e ardorosos. "Vida de solteiro", escrito e dirigido pelo ex-repórter da revista Rolling Stone, Cameron Crowe, é uma delícia de se assistir e ouvir, mesmo depois de várias revisões.


O filme é, basicamente, uma colagem de pequenas anedotas romântico/sentimentais de um grupo de jovens de vinte e muitos anos que moram no mesmo prédio no subúrbio de Seattle. A garçonete Janet (Bridget Fonda, com ótimo timing cômico) é apaixonada pelo namorado, o músico Cliff (Matt Dillon, de cabelo comprido e visual desgrenhado), líder de uma banda de rock, Citizen Dick. O romance dos dois, porém, é atrapalhado pela absoluta falta de romantismo do rapaz, que prioriza a "carreira" em detrimento à sua relação com a namorada. O ex-namorado de Janet, o engenheiro de trânsito Steve (Campbell Scott) tenta vender o projeto de um supertrem à prefeitura da cidade, enquanto inicia um hesitante romance com a ambientalista Linda (Kyra Sedgwick assumindo com propriedade o papel que foi oferecido a Jodie Foster, Jennifer Jason Leigh e Mary Stuart Masterson), insegura em relação a confiar em homens, depois que foi enganada pelo último amante. E Debbie (Sheila Kelley), cansada da solidão, faz um vídeo procurando um novo amor.


Ao acompanhar a trajetória dessa meia dúzia de personagens simpáticos, humanos e absolutamente verdadeiros, Crowe entrega à plateia um dos mais inteligentes retratos de uma geração normalmente considerada apática. Em sua história, o diretor/roteirista não se contenta apenas em fazer rir ou emocionar com as mancadas sentimentais de seus heróis: eles também buscam o sucesso profissional, também sonham em viver longe de jogos amorosos, também tem dúvidas e inseguranças. Ninguém, em "Vida de solteiro" é totalmente seguro de si: Janet pensa em aumentar os seios para reconquistar o namorado, Cliff é um roqueiro bem medíocre, Steve é dedicado à profissão mas não atinge o sucesso esperado, Linda sofre por não ter certeza de seus sentimentos e Debbie é uma maluquete que não se importa em ceder o pretendente à colega de apartamento em troca de algumas lavadas de louça. São todas personagens escritas com carinho e bom-humor, quase como uma descrição que alguém faz dos melhores amigos.



E está tudo lá, em "Vida de solteiro": as inseguranças ("será que eu devo ligar?"), os conselhos errados ("mulher gosta de mistério..."), as cantadas equivocadas ("não fazer tipo é seu tipo") e as declarações de amor inesperadas ("não me faça ter que lembrar desse cachorro-quente pra sempre..."). Está lá a trilha sonora vibrante e a participação especial de músicos e amigos do diretor (Eddie Vedder e a banda Pearl Jam são os integrantes da Citizen Dick, e Tim Burton faz uma ponta como um cineasta amador de vanguarda). Está lá o elenco de jovens atores em seus melhores dias e está lá, principalmente, a simpatia e o alto-astral que fazem de uma comédia romântica um dos gêneros mais queridos pelo público. Mas, acima de tudo, "Vida de solteiro" é uma celebração ao amor, à amizade, à juventude e, por que não?, à Seattle.

Um dos melhores filmes de Cameron Crowe - que anos depois lançaria o magnífico "Quase famosos" - a história de Janet, Cliff, Debbie, Steve e Linda é para ver e rever sempre. De preferência com um enorme sorriso e o coração aberto.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...