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sábado

SONATA DE OUTONO

SONATA DE OUTONO (Hostsonaten/Autumn Sonata, 1978, Personafilms, 89min) Direção e roteiro: Ingmar Bergman. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Sylvia Ingmarsdotter. Figurino: Ingher Pehrsson. Direção de arte: Anna Asp. Elenco: Ingrid Bergman, Liv Ullman, Lena Nyman, Halvar Bjork. Estreia: 08/8/78

2 indicações ao Oscar: Atriz (Ingrid Bergman), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Estrangeiro 

Apesar de dividirem o mesmo sobrenome e serem dois dos maiores ícones que o cinema sueco fabricou em sua história, o cineasta Ingmar Bergman e a atriz Ingrid Bergman se encontraram apenas uma única vez nos sets de filmagem. O destino quis, porém, que esse encontro fosse mais do que especial: não apenas marcou o último trabalho da estrela, que morreu de câncer em 1982, como também retratava, de forma incômoda, boa parte de seus sentimentos em relação à sua história pessoal. Assim como Ingrid abandonou sua família para viver seu romance com o cineasta italiano Roberto Rossellini, no final dos anos 1940, sua personagem em "Sonata de outono" é uma mãe cujo relacionamento com a filha é marcado por ressentimentos e rancores oriundos de sua opção pela carreira em detrimento da maternidade. Falando sueco nas telas pela primeira vez em onze anos e entregando uma atuação visceral, Bergman arrebatou uma indicação ao Oscar de melhor atriz por seu desempenho e conquistou os prêmios do National Board of Review, da National Society of Film Critics e dos críticos de Nova York. Tão generosa receptividade teve muito a ver com o prestígio do diretor e da atriz, mas o fato é que é impossível ficar incólume às devastadas emoções oferecidas pelo filme em pouco menos de noventa minutos.

Explorando ao máximo a estrutura teatral de seu roteiro, com marcações bem definidas e ênfase nos diálogos, fortes e emocionais, "Sonata de outono" se beneficia ao máximo com o talento de seu elenco - Bergman e Liv Ullman à frente - e a fotografia espetacular de Sven Nykvist, seu habitual colaborador. Nykvist registra com sensibilidade tanto os exteriores bonitos por natureza da Noruega - onde o cineasta se refugiou por um tempo devido a problemas com o fisco sueco - quanto as cores quentes que refletem o estado de espírito de suas protagonistas - em especial  o vermelho, que enfatiza a distância entre mãe cosmopolita e filha retraída. Embaladas por uma trilha sonora que inclui Chopin, Bach e Handel, as personagens centrais se enfrentam em embates dolorosos e cruéis, testemunhados apenas pela câmera discreta do diretor e pelo público, agoniado pelas palavras não ditas e pelas verdades dilacerantes que as atingem como chicotadas. Se em seus primeiros minutos o filme passa uma atmosfera de doce reencontro familiar, aos poucos vai deixando claro que, apesar das aparências, há muito a ser resolvido entre todos para que a paz enfim reine (ou não).


Com sua costumeira classe, Ingrid Bergman vive Charlotte Andergast, uma pianista clássica internacionalmente reconhecida que, depois de quase uma década, finalmente aceita ser recebida na casa de sua filha mais velha, Eva (Liv Ullman), que vive com o marido, Viktor (Halvar Bjork), em uma cidadezinha costeira, onde ele é pastor. Recuperando-se da morte do segundo marido, a quem acompanhou em seus últimos dias, Charlotte imagina um período de tranquilidade e descanso de suas excursões e compromissos, mas assim que chega é surpreendida com a presença de sua outra filha, Helena (Lena Nyman), que sofre de uma doença mental grave e que ela julgava estar internada. Seu reencontro com as duas faz com que a pianista seja obrigada a confrontar fantasmas do passado, principalmente quando Eva faz questão de aproveitar a visita da mãe para desabafar a respeito dos traumas originados pela ausência constante da figura materna na infância e adolescência.

O público acostumado à filmografia de Ingmar Bergman sabe de suas inclinações psicanalíticas, e "Sonata de outono" não foge à regra. Os longos e profundos diálogos transbordam sensibilidade e dor, mas a poesia das imagens criadas pelo cineasta transformam a experiência em uma sessão de análise das mais instigantes e incômodas. Eva, a personagem de Liv Ullman vai crescendo a cada cena, acumulando coragem para, no clímax, disparar as verdades que a vem destroçando desde criança - e Charlotte, sua mãe, transita entre sua zona de conforto (enterrar as mágoas e fingir uma felicidade que talvez não exista) e o medo de ver-se como um monstro, responsável pela infelicidade de quem deveria cuidar. Bergman filma o embate entre mãe e filha com delicadeza e plasticidade impecável, jamais apelando para o sentimentalismo mas enfatizando, sempre que possível, a distância (física e emocional) de suas protagonistas. O resultado é um drama psicológico e familiar dos mais impactantes - e um dos filmes mais importantes de um cineasta de valor inestimável à sétima arte.

sexta-feira

ANASTASIA: A PRINCESA ESQUECIDA

ANASTASIA: A PRINCESA ESQUECIDA (Anastasia, 1956, 20th Century Fox, 105min) Direção: Anatole Litvak. Roteiro: Arthur Laurents, peça teatral de Marcelle Maurette, Guy Bolton. Fotografia: Jack Hildyard. Montagem: Bert Bates. Música: Alfred Newman. Figurino: Rene Hubert. Direção de arte/cenários: Andrei Andrejew, Bill Andrews/Andrew Low. Produção: Buddy Adler. Elenco: Ingrid Bergman, Yull Brinner, Helen Hayes, Akim Tamiroff, Martita Hunt, Ivan Desny. Estreia: 13/12/56

 2 indicações ao Oscar: Atriz (Ingrid Bergman), Trilha Sonora
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Ingrid Bergman)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Ingrid Bergman) 

Em 1949, já com um Oscar de melhor atriz no currículo (pelo suspense "À meia-luz", de 1944) e uma carreira consolidada em Hollywood, Ingrid Bergman resolveu que queria trabalhar com o cineasta Roberto Rossellini, cujo "Roma: cidade aberta" havia lhe tocado profundamente. O resultado artístico foi o elogiado "Stromboli", lançado em 1950, mas o que realmente deixou a situação marcada indelevelmente na história do cinema foi o escândalo nos bastidores. Mesmo casada durante as filmagens, Bergman se apaixonou pelo diretor italiano e abandonou marido e filha para ficar com ele na Europa, ao descobrir-se grávida. Os puritanos de plantão não deixaram barato e, com a ajuda da imprensa marrom e da Igreja, iniciaram uma campanha contra a atriz. Segura de si e de seu amor pelo novo marido, ela permaneceu na Itália, fez mais cinco filmes com Rossellini, teve mais duas filhas, gêmeas (uma delas a também atriz Isabella Rossellini) e seguiu a vida. Foi somente em 1956, quase uma década mais tarde, que seu talento venceu o preconceito: por "Anastasia: a princesa esquecida", Bergman levou sua segunda estatueta do Oscar - mas, como forma de pouco caso ou orgulho, nem se deu ao trabalho de comparecer à cerimônia da Academia, onde foi representada pelo amigo Cary Grant.

Motivos não faltavam para que a 20th Century Fox tivesse dúvidas quanto à escalação de Bergman para o papel principal do filme, dirigido por Anatole Litvak. Não apenas o presidente do estúdio tinha sérias dúvidas a respeito da reação da plateia ao retorno de Bergman à Hollywood - e preferia Jennifer Jones na liderança do elenco - como também havia a questão de idade: aos 40 anos, a atriz sueca teria de convencer como uma mulher de 25, e por mais talento e beleza que tivesse, Bergman teria um desafio bem grande à sua frente nessa questão. Resolvido o primeiro problema - graças à intervenção do produtor Darryl Zanuck - o segundo acabou por desaparecer como por mágica. Basta que Bergman entre em cena para que o público fique completamente envolvido por seu carisma e deixe de lado as contas matemáticas: ali está, diante de seus olhos não mais a atriz que fez o mundo suspirar em "Casablanca" (41) ou viveu a guerrilheira criada por Ernest Hemingway em "Por quem os sinos dobram" (43), mas sim Anna Koreff, a mulher que pode ser a única sobrevivente dos Romanov, a família real russa, assassinada na revolução de 1918 - e que, tida como desaparecida, é a herdeira de uma fortuna estimada em dez milhões de libras.


É de olho nesse dinheiro que está o empresário russo Sergei Bounine (Yull Brinner) - que sabe a seu respeito, mas precisa, para por as mãos nele, de alguém que se faça passar pela princesa desaparecida há dez anos. Koreff, uma jovem de instintos suicidas e com remotas lembranças de um passado trágico e pouco claro, acaba sendo seu maior trunfo. Ajudado por uma dupla de sócios, Bounine, que vive em Paris depois de abandonar o exército do czar Nicholas, convence a desmemoriada sem-teto de que ela é, realmente, a princesa Anastasia, e passa a ensiná-la tudo o possível sobre os hábitos da família, a etiqueta real e a história do governo russo. Sua intenção é convencer a única pessoa que pode ou não reconhecer Anastasia: sua avó, a Imperatriz Marie (Helen Hayes), que não acredita mais nas mulheres que volta e meia surgem lhe afirmando ser sua neta. Quando Anne chega até ela, porém, as coisas se tornam diferentes, já que a velha Imperatriz e o jovem Príncipe Paul (Ivan Desny) - antigo noivo da princesa - passam a acreditar na história contada por Bounine. Resta apenas à pretensa herdeira lembrar-se ou não de seu passado (se é que ela realmente é quem dizem ser).

Yull Brinner, que no mesmo ano levou o Oscar de melhor ator por "O rei e eu", está à vontade como Sergei Bounine, e sua química com Ingrid Bergman valoriza cada cena dos dois juntos. O diretor, russo de nascimento - e com o ótimo suspense psicológico "Uma vida por um fio" (48) no currículo - explora com elegância a bela fotografia colorida de Jack Hildyard e a reconstituição de época caprichada, assim como a trilha sonora impressionante de Alfred Newman. O roteiro demora um pouco a engrenar - é baseado em uma peça teatral da francesa Marcelle Maurette, adaptada para a Broadway por Guy Bolton em 1954 - e o romance entre Anna e Bounine soa um tanto artificial, mas a exuberância dos cenários, a trama intrigante e a volta por cima de Bergman valem o espetáculo. A título de curiosidade, porém, vale lembrar que, apesar da história da princesa desaparecida ser real (a peça foi inspirada em uma personagem verdadeira, que foi descartada como sendo Anastasia somente através de DNA, décadas mais tarde), tanto Bounine quanto seus comparsas são criação fictícia, inserida na trama apenas para efeito dramático. Mesmo assim, é um clássico dos bons, com o melhor que Hollywood podia oferecer nos anos 50.

quinta-feira

À MEIA-LUZ

À MEIA-LUZ (Gaslight, 1944, MGM, 114min) Direção: George Cukor. Roteiro: John Van Druten, Walter Reisch, John L. Balderston, peça teatral de Patrick Hamilton. Fotografia: Joseph Ruttenberg. Montagem: Ralph E. Winters. Música: Arthur Hornblow Jr.. Figurino: Irene. Direção de arte/cenários: Cedric Gibbons/Edwin B. Willis. Produção: Arthur Hornblow Jr.. Elenco: Charles Boyer, Ingrid Bergman, Joseph Cotten, May Whitty, Angela Lansbury. Estreia: 04/5/44

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Charles Boyer), Atriz (Ingrid Bergman), Atriz Coadjuvante (Angela Lansbury), Roteiro, Fotografia em preto-e-branco, Direção de Arte/Cenários em preto-e-branco
Vencedor de 2 Oscar: Atriz (Ingrid Bergman), Direção de Arte/Cenários em preto-e-branco
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz (Ingrid Bergman) 

A trama, adaptada de uma peça teatral escrita por Patrick Hamilton, gira em torno de um assassinato cujos fantasmas atormentam uma jovem recém-casada. A atriz principal é Ingrid Bergman - estrela de "Interlúdio" e "Quando fala o coração". A fotografia e a direção de arte são parte integrante da atmosfera claustrofóbica e tensa da ação. Mas "À meia-luz", apesar de parecer, não é um filme de Alfred Hitchcock. E nem mesmo seu diretor, George Cukor, é Hitchcock. Enquanto o mestre do suspense explorava com maestria as engrenagens que faziam a plateia grudar na poltrona em antecipação às próximas cenas, Cukor era um cineasta dedicado aos atores - ou, ainda mais especificamente, às atrizes. Sensível às nuances femininas de seus trabalhos, forjou alguns dos maiores clássicos de Katharine Hepburn - "Núpcias de escândalo" (40) e "A costela de Adão" (49) - e dirigiu nomes como Audrey Hepburn, Marilyn Monroe e Judy Holiday - foi por suas mãos que ela tirou o Oscar de Bette Davis e Gloria Swanson por seu desempenho em "Nascida ontem" (50). E em 1944, conduziu Ingrid Bergman à sua primeira estatueta dourada justamente por esse remake de um filme inglês, lançado em 1940 - e que foi devidamente destruído pela MGM para evitar qualquer spoiler a respeito de seu enredo (o pouco que restou só escapou da destruição por mero acaso: o nome da etiqueta que o identificava era "Angel's Street", título da peça em que se baseava).

A atuação de Bergman, aliás, é o maior destaque de "À meia-luz", um filme de ritmo irregular que se sustenta basicamente no clima proposto pela fotografia e pela direção de arte também premiada com um Oscar. Bergman vive Paula, uma jovem que abandona uma promissora carreira de cantora lírica na Itália para se casar com Gregory Anton (Charles Boyer), um gentil e sedutor britânico que não demora em convencê-la a voltar para Londres e levá-lo a morar com ela na casa onde, dez anos antes, sua tia foi estrangulada por alguém que, a despeito das investigações policiais, conseguiu sair impune. Tão logo retorna à casa onde ela mesma vivia com a tia, Paula percebe que as coisas não estão tão bem quanto deveriam: quedas de luz bruscas, fotos desaparecidas e sons misteriosos são ouvidos frequentemente, e para seu desespero ficar ainda maior, Gregory insiste que é tudo fruto de sua imaginação. Praticamente isolada do mundo e dos vizinhos, Paula não conta com o apoio nem mesmo das criadas - em especial a insolente Nancy (Angela Lansbury, aos 17 anos, estreando no cinema e de cara indicada ao Oscar de coadjuvante).



George Cukor deixa bem evidente, já no primeiro ato de seu filme, que Paula é, na verdade, vítima de uma armação de seu marido - apenas os motivos é que vão sendo revelados aos poucos, graças à intervenção de Brian Cameron (Joseph Cotten), que, de posse dos relatórios policiais do caso de homicídio ocorrido anos antes, desconfia que há algo de errado na relação do recluso casal. Enquanto Cameron investiga os fatos, ao público cabe testemunhar o martírio de Paula em direção à insanidade - emocionalmente abalada, ela passa a acreditar que está realmente fora de seu juízo perfeito. Para criar esse efeito de paranoia, Cukor não hesita em explorar ao máximo o clima de tensão proposto pela trama, enfatizado pela trilha sonora opressiva e pelas interpretações dúbias de Boyer e Angela Lansbury - uma jovem empregada que pode ou não ter relação com o estado de nervos da patroa. Bergman se entrega de corpo e alma a seu trabalho como Paula, uma mulher frágil que a levou a estudar o comportamento de mulheres internadas em instituições psiquiátricas - e que justificou sua vitória junto à Academia, contra a então favorita Barbara Stanwyck, cotada pelo clássico "Pacto de sangue", de Billy Wilder.

Uma mescla nem sempre bem-sucedida de drama e suspense, "À meia-luz" mais uma vez demonstra o talento de George Cukor em arrancar desempenhos notáveis de suas atrizes, mas, ao mesmo tempo, falha em construir toda a tensão que o enredo - cheio de possibilidades - oferece. Toda vez que o filme se concentra no desespero de Paula, ele cresce e envolve o espectador em sua crescente onda de pânico. Infelizmente, não há muita química entre Ingrid Bergman e Joseph Cotten, cujo personagem parece estar em cena unicamente para desvendar o crime cometido nas primeiras cenas e desmascarar (ou não) Gregory Anton - que, na pele de Charles Boyer, jamais conquista a simpatia do público e impede o que deveria ser um ponto crucial do suspense: afinal de contas, ele é ou não culpado de alguma coisa? E, se sim, por que? Essa falha comprometedora prejudica muito o resultado final, mas ainda assim "À meia-luz" é uma obra acima da média, que comprova a versatilidade de Ingrid Bergman, poucos anos antes que o escândalo de seu romance com o cineasta Roberto Rossellini a afastasse de Hollywood. Uma grande atriz em um papel sob medida.

segunda-feira

ASSASSINATO NO EXPRESSO ORIENTE

ASSASSINATO NO EXPRESSO ORIENTE (Murder on the Orient Express, 1974, Paramount Pictures, 128min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Paul Dehn, romance de Agatha Christie. Fotografia: Geoffrey Unsworth. Montagem: Anne V. Coates. Música: Richard Rodney Bennett. Figurino: Tony Walton. Direção de arte/cenários: Tony Walton/Jack Stephens. Produção: John Brabourne, Richard Goodwin. Elenco: Albert Finney, Lauren Bacall, Martin Balsam, Ingrid Bergman, Sean Connery, Jacqueline Bissett, Jean-Pierre Cassel, John Gielgud, Wendy Hiller, Anthony Perkins, Vanessa Redgrave, Rachel Roberts, Richard Widmark, Michael York. Estreia: 21/11/74

 6 indicações ao Oscar: Ator (Albert Finney), Atriz Coadjuvante (Ingrid Bergman), Roteiro Adaptado, Fotografia, Figurino, Trilha Sonora Original (Drama)
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Ingrid Bergman)

Não é sem motivos que a inglesa Agatha Christie é considerada a "rainha do crime": a autora policial mais lida e vendida de todos os tempos tem em seu currículo no mínimo uma meia-dúzia de obras-primas, que sobrevivem ao tempo como perfeitos exemplos de tramas bem construídas, personagens psicologicamente críveis e resoluções intrincadas e criativas. De todas as suas histórias, é bastante provável que a melhor e mais genial seja a criada para "Assassinato no Expresso Oriente", lançado em 1934 e ainda hoje capaz de surpreender até mesmo ao mais atento e experiente leitor. Quarenta anos depois de chegar às prateleiras das livrarias, sob a direção do elogiado Sidney Lumet - já então com uma indicação ao Oscar, por "12 homens e uma sentença" (57) - e com um elenco internacional  liderado por Albert Finney na pele do indefectível detetive belga Hercule Poirot, a história de um brutal assassinato cometido em um dos meios de transporte mais famosos do mundo alcançou também as telas de cinema... e agradou não apenas a crítica e a Academia de Hollywood (que lhe deu seis indicações ao Oscar e uma estatueta), mas também à mais impiedosa espectadora: a própria autora do romance.

Feliz com a interpretação de Albert Finney (então com apenas 37 anos de idade e se utilizando de uma pesada maquiagem para personificar um dos detetives mais famosos da literatura policial), Agatha Christie não poupou elogios ao filme, que estreou pouco mais de um ano antes de sua morte, em janeiro de 1976. Mesmo que tenha ficado bastante satisfeita com a adaptação de Billy Wilder para sua peça teatral "Testemunha de acusação", em 1957, a escritora não escondia de ninguém que considerava o filme de Lumet o mais fiel à sua obra até então - um elogio e tanto que reflete o cuidado da produção em recriar não apenas a ambientação charmosa e realista do cenário principal mas também o clima de suspense que perpassa todas as páginas do livro. Ainda que o roteiro indicado ao Oscar não consiga evitar a armadilha comum de atropelar os acontecimentos e apressar o desfecho - tudo soa muito rápido, ao contrário do livro, que dá tempo ao leitor de administrar cada pista e evidência que vai sendo oferecida - é inegável que a elegância que Lumet imprime à narrativa torna o espetáculo um entretenimento de primeira, avalizado por um elenco estelar que se dá ao luxo de ter como coadjuvantes nomes como Sean Connery, Jacqueline Bissett, Anthony Perkins, John Gielgud e Ingrid Bergman (que acabou faturando um inesperado Oscar da categoria, batendo a então favorita Valentina Cortese, do aclamado "A noite americana", de François Truffaut).


Enquanto o romance de Agatha Christie já começa em plena ação, com a chegada dos passageiros ao trem que dá nome à história - partindo de Istambul, na Turquia - o filme de Lumet já ilumina, sutilmente, através de uma introdução silenciosa nos créditos de abertura, os atos que levarão, alguns anos mais tarde, ao crime que impulsiona a narrativa. Se de certa forma tal opção tira parte do suspense (por que mataram esse desconhecido dentro do trem?), ela ajuda de forma inteligente a expor, sem longos e didáticos discursos, o motivo do homicídio. A partir daí, resta apresentar a fauna de personagens exóticos criados por Christie e interpretados por atores de primeira linha - em uma constelação tão fascinante que disfarça até mesmo o pouco espaço dado a cada um deles em cena. Finney é quem tem mais sorte, com um Hercule Poirot um tanto caricato mas perfeitamente adequado às caracterizações comandadas por Lumet. Indicado ao Oscar de melhor ator, ele perdeu a estatueta para Art Carney ("Harry, o amigo de Tonto"), mas é o maestro de uma orquestra impecável, conduzida sem sobressaltos e/ou maiores destaques justamente por sua natureza coletiva.

A trama se passa em dezembro de 1935, durante uma viagem estranhamente lotada no Expresso Oriente: em uma parada devido a uma nevasca, um dos passageiros é assassinado com uma série de punhaladas, enquanto dormia. Assumindo a investigação antes que o trem prossiga seu curso, o famoso e excêntrico Hercule Poirot logo descobre que a vítima, de nome Ratchett (Richard Widmark), na verdade se escondia sob falsa identidade, por ser o responsável pelo sequestro e assassinato de uma criança alguns anos antes - fato que acarretou uma série de outras tragédias na família e tornou-se manchete internacional. Certo de que sua morte é resultado do crime cometido no passado, Poirot tenta encontrar, dentre seus companheiros de viagem, quem poderia ter ligações com o caso - e se depara com inúmeras surpresas, que o levam a questionar sua própria noção de justiça. Por mais inocentes que pareçam, todos os passageiros são suspeitos, desde a idosa Princesa Dragomiroff (Wendy Hiller) até a religiosa Greta (Ingrid Bergman) - passando pela bela Condessa Andrenyi (Jacqueline Bissett) e seu marido (Michael York) e o respeitável Coronel Arbuthnot (Sean Connery), que esconde uma ligação com a jovem Mary Debenham (Vanessa Redgrave).

Valorizado principalmente pelo elenco e pela produção caprichada, "Assassinato no Expresso Oriente" não chega aos pés do livro que o originou - uma obra-prima policial cujo desenvolvimento prende o leitor até a página final com uma sucessão de reviravoltas inteligentes e verossímeis. Porém, é, ao mesmo tempo, uma adaptação que se mantém fiel a seu espírito elegante e sutil, que ameniza a violência física necessária a uma história do gênero com toques de um fino humor e a destreza de uma especialista em surpreender e cativar seu público. Se não é mais empolgante é justamente porque o roteiro lhe tirou algumas das maiores qualidades - o desenrolar gradual da investigação é apressado até o discurso final que não chega a ser tão emocionante quanto poderia - e não explora com a devida força as incoerências e mistérios dos personagens. É uma boa adaptação, mas longe de ser a obra-prima que poderia (e deveria) ser.

STROMBOLI

STROMBOLI (Stromboli, 1949, Berit Films/RKO Radio Pictures, 107min) Direção: Roberto Rosselini. Roteiro: Félix Morlión, estória de Roberto Rosselini, colaboração de Sergio Amedei, G.P. Callegari, Art Cohn, Renzo Cesana. Fotografia: Otello Martelli. Montagem: Roland Gross. Música: Renzo Rossellini. Produção: Roberto Rossellini. Elenco: Ingrid Bergman, Mario Vitale, Renzo Cesana, Mario Sponzo. Estreia: 15/02/49

Reza a lenda que, depois de assistir ao magnífico “Roma, cidade aberta”, de Roberto Rossellini, a sueca Ingrid Bergman declarou a quem quisesse ouvir que tinha intenções de trabalhar com o diretor. Logicamente, essa afirmação tinha mais a ver com os dotes de Rossellini como cineasta – e um dos criadores do neorrealismo italiano – do que com qualquer outra coisa, mas nem mesmo a bela atriz poderia imaginar que, a partir dessa inocente vontade profissional, surgiria um dos mais badalados escândalos que Hollywood já viu em sua história. É certo que o resultado de tal polêmica – o pungente filme “Stromboli”, lançado em 1949 – é mais um trabalho de mestre do diretor italiano e um dos pontos altos da carreira de Bergman, mas muita gente lembra dele menos por suas (muitas) qualidades e mais pelas consequências que acarretou na carreira de uma das estrelas preferidas de Alfred Hitchcock.

Depois de anunciar sua vontade de ser dirigida por Rossellini, Ingrid Bergman teve seus desejos atendidos. Foi de mala e cuia para a Itália e assumiu o papel principal de um filme que já estava em produção, substituindo a atriz original, Anna Magnani – não por coincidência, a estrela de “Roma, cidade aberta”. Os produtores do filme se opuseram às mudanças e, como resposta a Rossellini e sua nova contratada, resolveram filmar uma trama semelhante em cenários similares e próximos (com Magnani como protagonista, obviamente). O filme, “Volcano”, não teve a mesma repercussão por motivos óbvios, mas já era uma pista que as coisas não seriam fáceis para Bergman, então casada com outro homem. Durante as filmagens, em uma localidade inóspita e com vários extras selecionados no próprio local (uma das características do neorrealismo), o inesperado aconteceu: Bergman e Rossellini se apaixonaram, iniciaram um romance passional e ficaram grávidos. Foi o que bastou para que, antes mesmo de sua estreia, “Stromboli” chegasse às manchetes mundiais. Os puritanos norte-americanos de então (não muito diferentes dos de hoje em dia) deixaram claro sua repulsa ao comportamento da atriz e, com o apoio de políticos, autoridades religiosas e da própria Hollywood, viraram as costas para uma de suas maiores estrelas. Bergman foi banida do cinema americano por quase uma década – até retornar em grande estilo, ganhando seu segundo Oscar de melhor atriz, pelo filme “Anastasia, a princesa esquecida”, em 1956.


De certa forma, a história de amor entre Ingrid e seu diretor refletia, fora das telas, o que acontecia diante delas – fato que Howard Hughes, que distribuiu o filme nos EUA, logo percebeu, para seu deleite financeiro: a controvérsia em torno do filme, envolvendo Igreja, política e os setores mais conservadores do país serviu para que a obra rendesse perto de 1 milhão de dólares somente em seu primeiro dia de exibição. No filme de Rossellini, realizado sem um roteiro no sentido estrito da palavra (o cineasta trabalhava com anotações e incentivava a improvisação de seus atores), a personagem de Bergman também era vítima da hipocrisia alheia graças a seu comportamento anti-convencional, e assim como na tela, seu destino também é traçado pela coragem de romper com as instituições e as regras pré-estabelecidas. A diferença é que, em Hollywood, é fácil perdoar o passado e os “erros”, mas em Stromboli – a pequena cidade onde Karen, a protagonista do filme, vai parar – as coisas são bem mais complicadas.

Karen, interpretada com alma e angústia por Bergman, é uma lituana que chegou à Itália foragida depois da morte do pai e da invasão alemã a seu país. Vivendo em um alojamento para refugiados, ela vê negado seu pedido de exílio em Buenos Aires e, para sobreviver, aceita o pedido de casamento feito pelo jovem soldado Antonio´(Mario Vitale), que descreve sua cidade natal como um pedaço de paraíso na Terra. A realidade logo mostra as caras à Karen, que chega à minúscula Stromboli e encontra um vilarejo em ruínas pela ação de um vulcão em constante atividade e um elenco de moradores (em especial as mulheres) pouco hospitaleiros. Desesperada com a diferença cruel entre suas esperanças e a vida difícil e monótona que se abre à sua frente, ela encontra suporte nos braços do rapaz que cuida do farol da cidade. É o que basta para que o estigma de ser uma estrangeira seja deflagrado, e ela passa a ser perseguida pelos conterrâneos do marido.

Como era costume do neorrealismo italiano, Roberto Rossellini explora ao máximo os cenários naturais que cercam seus personagens, imprimindo ao filme um tom semidocumental ampliado pela participação de não-atores e pela ênfase em rotinas locais, como a pesca e as serenatas. O ritmo quase modorrento e claustrofóbico que ele apresenta – em contraste com a vastidão do mar que cerca a cidade litorânea de Stromboli – sublinha o sentimento de desespero de Karen, presa em uma existência sem sentido e perspectivas que ela tenta, sem sucesso, modificar para seu prazer. Quando seu marido despreza as mudanças feitas por ela em sua casa e faz com que tudo volte a ser como era antes (feio, brutal e sem graça), é difícil não compreender a sensação de sufocamento da personagem, potencializada pela atuação exemplar de Bergman, uma atriz superlativa que valoriza cada momento da trama. Portanto, quando ela vê em ... uma chance de escapar de um destino infeliz, não há quem possa julgá-la. E é aí que a vida começou a imitar a arte.

Por mais que tente se assistir a “Stromboli” sem fazer paralelos com o que se desenrolava em seus bastidores, é impossível não perceber nos dramas da protagonista ecos do que ainda iria acontecer com sua intérprete. Assim como no filme de Rossellini a bela Karen procura ajuda no líder religioso local, o padre interpretado por Mario Sponzo , e acaba tendo as portas fechadas, também Ingrid Bergman sofreu com a intolerância da Igreja Católica, que deixou clara sua posição contra seu romance e influenciou no desfecho da história em território americano. Mas se Karen vê em sua gravidez um agravante à sua situação caótica, ao menos Bergman teve mais sorte na vida real, com o nascimento de três filhos frutos de seu relacionamento com o diretor italiano – incluindo a futura atriz Isabella Rossellini. Se o preço de um período de felicidade e realização foi o desprezo da comunidade cinematográfica norte-americana (e de parte do público), ela parece ter passado por isso com a elegância de sempre. O filme que deu origem a tal situação é um excelente exemplo do cinema italiano de sua época e menos de dez anos depois ela mostrava que seu talento era maior do que qualquer polêmica – o que um terceiro Oscar, dessa vez como coadjuvante por “Assassinato no Expresso do Oriente” (74), deixou ainda mais claro e evidente. Não é para qualquer uma.

terça-feira

INTERLÚDIO

INTERLÚDIO (Notorius, 1946, RKO Radio Pictures, 101min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Ben Hecht, estória "The song of the dragon", de John Taintor Foote. Fotografia: Ted Tetzlaff. Montagem: Theron Warth. Música: Roy Webb. Direção de arte/cenários: Carroll Clark, Albert S. D'Agostino/Claude Carpenter, Darrell Silvera. Produção: Alfred Hitchcock. Elenco: Ingrid Bergman, Cary Grant, Claude Rains, Louis Calhern, Leopoldine Konstantin. Estreia: 15/8/46

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Claude Rains), Roteiro Original



Alfred Hitchcock sempre fez questão de deixar bem claro que, quando resolvia transformar um livro ou peça de teatro em filme, utilizava-se apenas da parte do material que lhe interessava, abandonando o restante e preenchendo as lacunas da forma que melhor lhe fosse útil. Um exemplo mais do que claro de que ele falava a verdade é “Interlúdio”, que ele lançou em 1946 e se tornou sua segunda colaboração consecutiva com a bela Ingrid Bergman: a partir de um conto publicado no jornal Saturday Evening Post, chamado “A canção das chamas”, o cineasta criou uma trama de espionagem das mais brilhantes, que se aproveitava da situação política do mundo – o recente fim da II Guerra Mundial – para prender o espectador através de uma singela história de amor. E, ironia das ironias, justamente por causa de suas pesquisas para o roteiro, Hitch esteve na mira do FBI por alguns meses.

Com o país envolto em uma aura de paranoia nuclear, o FBI não gostou nem um pouco de saber que Hitchcock havia visitado um dos maiores cientistas do país com perguntas “suspeitas” a respeito da fabricação de uma bomba atômica – e nem adiantou saber que tal cientista havia afirmado categoricamente que era impossível que tal fato acontecesse. O que interessava ao diretor, no entanto, eram apenas detalhes que pudessem servir de elemento dramático para a história que estava então começando a conceber em sua mente – uma história que tinha como linha de ação a ideia simples “uma moça tem que dormir com um espião para conseguir informações para ajudar o país, mesmo apaixonada por um colega.” A inclusão de elementos químicos e a construção de uma bomba atômica, por incrível que pareça, apavorou o produtor David O. Selznick a tal ponto que ele fez o que ninguém esperava: vendeu todo o pacote – diretor, Ingrid Bergman, Cary Grant e o roteiro “improvável” – para a RKO. Endividado com o orçamento estourado do faroeste “Duelo ao sol”, com Jennifer Jones, Selznick se livrou do que ele considerava dois problemas ao mesmo tempo. Deixou passar um dos melhores filmes de Hitchcock – e olha que estamos falando de um homem que tem tantas obras-primas no currículo que fica difícil contar em uma única mão seus melhores trabalhos.


A trama de “Interlúdio” começa quando um espião nazista é condenado à morte por um tribunal americano. Apesar de não compactuar com as ideias do pai e levar uma vida de liberdade e independência, sua única filha, Alice (Ingrid Bergman) é procurada pelo envolvente T.R. Devlin (Cary Grant), agente do governo que lhe propõe uma missão como forma de amenizar a imagem de sua família junto aos EUA. Apaixonada por Devlin, Alice aceita participar da aventura e parte com ele para o Rio de Janeiro, onde deverá reencontrar e retomar contato com o nazista Alexander Sebastian (Claude Rains), amigo de seu pai e cuja mansão serve de esconderijo para os espiões alemães vivendo no Brasil. Para sua surpresa, Alexander não apenas se apaixona por ela como a pede em casamento – proposta que ela se vê impelida a aceitar para dar continuidade ao plano. Aos poucos ela e Devlin descobrem que Alexander realmente está usando sua casa para esconder urânio – quase ao mesmo tempo em que a jovem passa a correr sério risco de ser desmascarada pelo espião e por sua manipuladora mãe (Leopoldine Konstantin).

Repleto de sequências brilhantes, “Interlúdio” é o que de melhor Alfred Hitchcock tem a oferecer a seu público. Com uma trama simples que se desenrola de forma suave e envolvente, o filme funciona tanto como romance quanto como suspense de espionagem – com cenas geniais em ambos os gêneros. O longo beijo entre Bergman e Cary Grant, por exemplo, trapaceia o famigerado Código Hays ao mesclar o ato romântico a uma conversa aparentemente banal sobre comerem frango no jantar (para desespero de um Ben Hetch nada disposto a ver seu roteiro com uma cena do tipo) e não deixa de ser angustiante perceber o quanto Alice espera que Devlin interceda a seu favor e a impeça de casar-se com um espião nazista enquanto a ama. Como suspense, destacam-se a sequência em que os dois descem à adega de Sebastian para investigar sua coleção de vinhos (uma cena cuja consequência é vital para a trama) e os minutos finais, quando Alice passa de heroína à vítima e tem seus problemas confundidos por Devlin como uma recaída a seu problema com álcool. São em momentos assim que se percebe o porquê de Hitchcock ter-se apaixonado por Ingrid: além de linda e elegante, a sueca (em vias de envolver-se com Roberto Rosselini e um escândalo que a baniria de Hollywood por anos) brilha em uma interpretação das mais convincentes de sua carreira.

“Interlúdio” é, por fim, um Hitchcock da melhor safra – e um dos seus melhores em preto-e-branco. É elegante, sutil, inteligente e com uma dupla de atores em dias de grande inspiração. Tudo bem que a história contada por Hitch – a de que Bergman certa vez recusava-se a sair de seu quarto até que ele dormisse com ela – é absurda, mas o diretor sabia o que fazia. Mesmo que depois ele tivesse que conviver com o FBI na sua cola.

sexta-feira

QUANDO FALA O CORAÇÃO

QUANDO FALA O CORAÇÃO (Spellbound, 1945, Selznick International Pictures, 111min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Ben Hecht, adaptação de Angus MacPhall, romance "The house of Dr. Edwardes", de Frances Beeding. Fotografia: George Barnes. Música: Miklós Rozsa. Direção de arte: James Basevi. Produção: David O. Selznick. Elenco: Ingrid Bergman, Gregory Peck, Michael Chekhov, Leo G. Carroll, Rhonda Fleming. Estreia: 31/10/45

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alfred Hitchcock), Ator Coadjuvante (Michael Chekhov), Fotografia em P&B, Trilha Sonora Original (Drama ou Comédia), Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original (Drama ou Comédia) 

Poderia esperar-se tudo de um filme que reunisse a maestria técnica de Alfred Hitchcock, o surrealismo consagrado de Salvador Dali e as ainda revolucionárias ideias de Sigmund Freud. Mas "Quando fala o coração", o projeto que conseguiu tal proeza acabou por não assumir a importância devida na filmografia do mestre do suspense. Soterrado sob obras-primas incontestáveis como "Um corpo que cai", "Janela indiscreta" e "Psicose" - entre vários outros, ao gosto do freguês - o longa que misturou no mesmo pacote suspense, psicanálise e Ingrid Bergman acabou ficando marcado principalmente pela breve sequência imaginada por Dali, uma ideia de Hitchcock acatada pelo produtor David O. Selznick mais pelas possibilidades comerciais de tal encontro do que exatamente pela coragem de experimentação.

Levemente inspirado no romance "The house of Dr. Edwardes", de Frances Beeding - uma obra muito mais radical em termos de mergulho na loucura - "Quando fala o coração" surgiu basicamente da ideia de Hitchcock em flertar com a psicanálise, um assunto ainda pouco abordado pelo cinema. Com os direitos do livro comprados por 40 mil dólares e um elenco formado por escolhas que não eram as originais - Gregory Peck no lugar de Joseph Cotten e Cary Grant, e Ingrid Bergman substituindo Dorothy McGuire e até uma Greta Garbo não convencida pelo cineasta a abandonar sua precoce aposentadoria - o filme acabou por decepcionar muita gente. Hitchcock o considerava apenas "mais uma história sobre a caçada a um homem, mas dessa vez envolvida em psicanálise". O fotógrafo William Cameron Menzies, responsável pelas cenas criadas por Salvador Dali, pediu que seu nome fosse retirado dos créditos por não ter ficado satisfeito com o resultado final. O diretor não se contentou com a atuação de Gregory Peck - que por sua vez não se enquadrava com os métodos do cineasta, que ia de encontro à sua forma de construção de cada cena. E, não bastasse tudo isso, até mesmo o produtor Selznick teve sua cota de desgosto, implicando com a trilha sonora de Miklós Rozsa - que, por ironia, ganhou o Oscar da categoria, batendo a si mesmo pela partitura de "Farrapo humano" (que ele preferia).


Abrindo seu filme com uma citação de Shakespeare - "A culpa não está em nossas estrelas, mas em nós mesmos", de "Júlio César" - Hitchcock volta a utilizar uma história de amor como base para uma trama de suspense. É o amor que move a dra. Constance Peters (Ingrid Bergman) - psicanalista dedicada - quando ela descobre que o novo diretor do hospital psiquiátrico no qual trabalha, o misterioso dr. Edwardes (Gregory Peck), não é quem diz ser. Amnésico, ele assumiu a identidade do médico e passa a acreditar que o matou. Apaixonada, Constance junta-se a ele na busca pela verdade, e para isso, faz uso de seu conhecimento de psicanálise, assim como da ajuda de um antigo professor (Michael Chekhov, indicado ao Oscar de ator coadjuvante). Seu objetivo, além de descobrir quem é de verdade o homem que ama e os motivos de seu trauma, é desvendar o desaparecimento e a morte do verdadeiro diretor do hospital.

Longe do brilhantismo de seus melhores trabalhos, Hitchcock parece ter se apaixonado tanto pelas teorias psicanalíticas do roteiro de Ben Hetch que muitas vezes deixa que longos diálogos substituam a ação que tanto marcou sua trajetória. Mesmo que algumas sequências sejam uma amostra do melhor do cineasta - quando Constance encara o verdadeiro criminoso e a câmera mostra a arma que ele porta através de seu ponto de vista, por exemplo - é inegável que o resultado é aquém de seus grandes filmes. Centrando suas forças na atuação sempre forte de Ingrid Bergman e nas reviravoltas do roteiro, Hitch acaba por abdicar das maiores qualidades de seu cinema. Mas é claro que, em se tratando de quem é, ele jamais decepciona totalmente - qualquer filme seu, por menor que seja, sempre é uma aula de narrativa e técnica. É impossível não se envolver com seus personagens ou suas histórias - e contar com a ajuda luxuosa de Dali e Freud não tem como atrapalhar.

segunda-feira

CASABLANCA



CASABLANCA (Casablanca, 1942, Warner Bros., 102min) Direção: Michael Curtiz. Roteiro: Julius G. & Philip G. Epstein, Howard Koch, baseado na peça teatral de Murray Burnet e Joan Alison. Fotografia: Arthur Edeson. Montagem: Owen Marks. Música: Max Steiner. Elenco: Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Paul Henreid, Peter Lorre, Claude Rains, Conrad Veidt, Sydney Greenstreet. Estreia: 07/12/42

8 indicações ao Oscar: Filme, Diretor (Michael Curtiz), Ator (Humphrey Bogart), Ator Coadjuvante, Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor de 3 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Michael Curtiz), Roteiro Adaptado


"Este pode ser o início de uma bela amizade." "Nós sempre teremos Paris." "Esse barulho... são canhões ou o meu coração batendo?" "Os alemães estavam vestindo cinza, você azul..." "Eu sou um bêbado. - Então isso faz de você um cidadão do mundo..."
Em quantos filmes escritos hoje em dia você pode fazer uma lista de frases memoráveis como as citadas acima? Pois todas elas fazem parte do roteiro de um único filme, que era escrito conforme as filmagens andavam e que, inspirado em uma peça teatral nunca montada, acabou levando o Oscar da categoria. Diálogos deliciosos, uma história empolgante, um elenco impecável e uma trilha sonora inesquecível e pronto: nascia um clássico, ainda que na época ninguém ousasse considerar outra hipótese que não um fracasso - os Oscar de filme, diretor e roteiro provaram que todos os que previam sua derrocada estavam redondamente enganados. "...E o vento levou" pode ser a epítome dos filmes épicos, mas em termos de romance, nenhum filme bate "Casablanca". Sua atmosfera passional e a química invejável do casal central não encontrou, até hoje, um concorrente à altura. Quer provas? Tente resistir quando Ingrid Bergman - no seu momento mais fascinante da carreira - pede a Sam que toque "As time goes by" e repare na troca de olhares entre ela e Humphrey Bogart. Ainda não achou nada de espetacular? Então vá na locadora e alugue todos os filmes do Chuck Norris, porque não tem mais salvação.

Durante a II Guerra, inúmeros foragidos do III Reich são obrigados a passar por uma cidade chamada Casablanca, localizada no Marrocos francês, em busca de um caminho seguro para permanecerem vivos. Entre esses foragidos está Victor Laszlo (Paul Henreid), líder da resistência procurado desesperadamente pelas autoridades. Laszlo chega à Casablanca em busca de um par de salvo-condutos que lhe seria vendido pelo ambicioso Ugarte (Peter Lorre), que é preso e morto pouco antes de sua chegada. Só quem sabe o paradeiro dos documentos é Rick Blaine (Humphrey Bogart), um misterioso e cínico americano que já tivera seus dias de idealismo e parou no país depois de uma decepção amorosa. Rick, que no fundo ainda tem uma alma nobre fica tentado a ajudar Laszlo, mas entra em um dilema mortal quando descobre que a esposa do herói de guerra é a mesma Ilsa (Ingrid Bergman) com quem ele teve um romance inesquecível em Paris e que fez dele o homem amargo no qual ele se transformou.


O que faz de "Casablanca" mais do que apenas um filme romântico da era de ouro de Hollywood não é apenas seu roteiro excepcional - como se "apenas" fosse palavra a ser utilizada aqui. A bela fotografia em preto-e-branco (que utiliza o visual dos filmes noir em voga na época, em especial nos produtos da Warner Bros.) deslumbra o mais crítico dos espectadores e a trilha sonora de Max Steiner é de aplaudir de pé. Não bastasse comentar a ação discretamente - que é a função de uma trilha sonora de qualidade - ela ainda conta com a belíssima "As time goes by", que virou símbolo inequívoco de romantismo e não por acaso tornou-se a música de abertura dos filmes da Warner - e o documentário sobre o estúdio não chama-se "You must remember this" à toa.

Não é difícil entender a trama do filme do húngaro Michael Curtiz (que ganhou o Oscar de melhor diretor por seu trabalho). Difícil é escolher a melhor cena de um filme repleto delas. Será a batalha de hinos dentro do Rick's? Ou o flashback contando a história de amor dos protagonistas? Será o reencontro dos dois? Ou a cena final, onde Ilsa tem que escolher entre ficar com Rick ou embarcar com Victor (cena esta copiada no último capítulo da novela "Roque Santeiro")? São tantos momentos mágicos que é tarefa das mais árduas pensar em Ronald Reagan (ele mesmo, que viria a ser presidente dos EUA décadas mais tarde) no papel de Rick Blaine ou qualquer outra atriz como Ilsa. Assim como seus personagens, eles ficarão impressos para sempre nas retinas e nos corações românticos como o casal mais apaixonado da história do cinema. Afinal, "a kiss is still a kiss"...

PS - Em 1999 tive a oportunidade única de assistir a "Casablanca" no cinema, em um pequeno festival em comemoração ao aniversário da Warner Bros. Foi uma experiência indescritível.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...