Mostrando postagens com marcador FILMES DE TRIBUNAL. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador FILMES DE TRIBUNAL. Mostrar todas as postagens

terça-feira

FANTASMAS DO PASSADO

 


FANTASMAS DO PASSADO (Ghosts of Mississippi, 1996, Columbia Pictures, 130min) Direção: Rob Reiner. Roteiro: Lewis Colick. Fotografia: John Seale. Montagem: Robert Leighton. Música: Marc Shaiman. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert/Karen A. O'Hara. Produção executiva: Charles Newirth, Jeffrey Stott. Produção: Nicholas Paleogolos, Rob Reiner, Andrew Schneiman, Frederick Zollo. Elenco: Alec Baldwin, Whoopi Goldberg, James Woods, Craig T. Nelson, Virginia Madsen, Diane Ladd, Susanna Thompson, William H. Macy, Jerry Levine, Terry O'Quinn, James Pickens Jr., Lucas Black, Jerry Hardin. Estreia: 20/12/96

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (James Woods), Maquiagem

Quando "Fantasmas do passado" chegou aos cinemas, em dezembro de 1996, fazia apenas dois anos e meio que sua história havia tido seu desfecho. O  terceiro julgamento de Byron de la Beckwith pelo assassinato do líder negro Medgar Evers em 1963 - depois de dois outros anulados por uma série de circunstâncias que beneficiavam o réu  - tornou-se assunto dominante em Jackson, Mississippi no começo de 1994 e sua versão cinematográfica aproveitou-se da energia de revolta local para tentar transmitir ao espectador toda a força dos acontecimentos que foram um marco na luta pelos direitos civis na sociedade norte-americana. Não conseguiu completamente. A bilheteria pouco expressiva e a receptividade morna da crítica acabaram por relegar o filme a uma espécie de limbo na carreira do diretor Rob Reiner, apenas um meio-termo entre o sucesso de "Conta comigo" (1986), "Harry & Sally: feitos um para o outro" (1989), "Louca obsessão" (1990) e "Questão de honra" (1992) e o fracasso comercial de "O anjo da guarda" (1994) e "Alex & Emma: escrevendo sua história" (2003).  Mesmo assim, chamou a atenção o suficiente para render a James Woods uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante - a segunda de sua carreira.

Woods - na pele do venal Byron de la Beckwith - é o destaque absoluto do filme de Reiner. Mesmo com poucos minutos em cena, seu desempenho consegue eclipsar tanto a potente atuação de Whoopi Goldberg (tentando dar consistência às falas clichês de sua personagem) quanto o esforço de Alec Baldwin, ainda não exatamente reconhecido como o ator de respeito que se tornaria com o passar dos anos. Fugindo da tentação de fazer de Beckwith um vilão humanizado (basta ver entrevistas reais para perceber que isso é impossível), o veterano ator dá o seu melhor para transmitir, em cada aparição, todo o ódio e o desprezo que move o movimento supremacista do sul dos EUA - e do resto do mundo. Sempre que surge na tela, seu olhar maligno e sua expressão de desprezo pela justiça tornam impossível ignorar seu minucioso trabalho - algo que nem mesmo a maquiagem exagerada (inexplicavelmente indicada ao Oscar) consegue atrapalhar. Lamentável que o roteiro não lhe dê mais espaço e se concentre naquele que talvez seja o grande problema do filme: a figura do criticado white savior - termo que caracteriza, normalmente de forma pejorativa, uma pessoa branca que se torna o herói em uma luta racial. Ok, o advogado que levou Beckwith aos tribunais em 1994,Bobby DeLaughter, é branco. Mas fica, mesmo assim, a sensação de um foco inadequado a uma trama tão nitidamente específica.


 

Apesar de dar a Whoopi Goldberg o importante e crucial papel de Myrlie Evers, a viúva do ativista pelos direitos civis Medgar Evers (vivido no filme por James Pickens Jr., de "Grey's Anatomy"), o roteiro de "Fantasmas do passado" se concentra basicamente em Bobby DeLaughter, promotor do Mississipi que entra, quase por acaso, no caso do terceiro julgamento de um racista radical acusado pelo assassinato. Casado, pai de dois filhos e parte de uma família tradicional e respeitada, Bobby se deixa convencer pela persuasiva Myrlie de que trinta anos já é tempo suficiente para tentar novamente a condenação do homem que matou seu marido. Para conquistar sua confiança, o promotor põe em risco seu casamento, sua carreira e até mesmo sua vida. Sem o apoio daqueles que o rodeiam - todos profundamente enraizados nos preconceitos sulistas - e questionado até mesmo por Myrlie, ele descobre, no processo rumo ao tribunal, que condenar um homem tão abertamente preconceituoso e intolerante não é tarefa fácil, especialmente em seu contexto geográfico e social.

Assumindo um papel que foi cogitado para ser de Tom Cruise ou de Tom Hanks - ambos com potencial comercial bem maior -, Alec Baldwin sofre com a direção quase mecânica de Rob Reiner e com o roteiro esquemático e quase frio. Ao tentar evitar o sentimentalismo inerente à história, Reiner nega à plateia o tom emocional que poderia fazer de seu filme uma produção marcante e relevante. Lançado no mesmo ano do sucesso "Tempo de matar" e do fiasco "O segredo" - ambos com temática semelhante, ainda que relatos de ficção baseados em livros de John Grisham -, "Fantasmas do passado" passou praticamente em branco nos cinemas e dificilmente é lembrado mesmo nas filmografias de seus atores principais. Não deixa de ser uma injustiça: mesmo longe de ser um dos melhores filmes do diretor ou até mesmo sobre o tema, é um entretenimento decente - ainda que seu foco seja um tanto problemático.

quarta-feira

O SEGREDO


O SEGREDO (The chamber, 1996, Universal Pictures, 111min) Direção: James Foley. Roteiro: William Goldman, Phil Alden Robinson (Chris Reese), romance de John Grisham. Fotografia: Ian Baker. Montagem: Mark Warner. Música: Carter Burwell. Figurino: Tracy Tynan. Direção de arte/cenários: David Brisbin/Lisa Fischer. Produção executiva: David Friendly, Karen Kehela., Ric Kidney. Produção: John Davis, Brian Grazer, Ron Howard. Elenco: Chris O'Donnell, Gene Hackman, Faye Dunaway, Robert Prosky, Raymond J. Barry, Lela Rochon, Bo Jackson, David Marshall Grant. Estreia: 11/10/96

Entre 1993 e 1996, um dos nomes mais quentes em Hollywood não era um astro milionário, um cineasta prestigiado ou um produtor poderoso. Ao transformar em livros seu conhecimento como advogado e sua experiência em tribunais, John Grisham, passou, em poucos anos, de um escritor principiante a um dos autores mais requisitados pelos estúdios, sempre em busca de material para suprir a demanda de um público ávido por boas histórias. Com o apoio nada desprezível de atores como Tom Cruise, Julia Roberts, Denzel Washington e Susan Sarandon - e diretores respeitados como Sydney Pollack, Alan J. Pakula e, vá lá, Joel Schumacher - as adaptações das obras de Grisham se mostravam uma mina de ouro, se não inesgotável ao menos generosa. Assim, "A firma" (1993), "O Dossiê Pelicano" (1993), "O cliente" (1994) e "Tempo de matar" (1996) ultrapassaram a marca de 100 milhões de dólares de arrecadação e firmaram seu nome como um atestado de qualidade. Porém, como não poderia deixar de acontecer, nem todo sucesso dura para sempre - e qualquer falha no processo pode resultar em um inesperado fracasso. Foi o que aconteceu com "O segredo": com uma renda mundial que não chegou a cobrir metade de seu orçamento, estimado em 50 milhões, o filme dirigido por James Foley mostrou que nada - nem ninguém - é infalível.

Lançado poucos meses depois de "Tempo de matar", dirigido por Joel Schumacher e com um elenco que incluía Samuel L. Jackson, Kevin Spacey, Sandra Bullock e um Matthew McConaughey a caminho do estrelato, "O segredo" já estreou em desvantagem: apesar de ser um ator em franca ascensão à época -  no mínimo desde sua parceria com Al Pacino em "Perfume de mulher" (1992) -, Chris O'Donnell ainda não parecia capaz de segurar sozinho (ou quase) uma bilheteria sólida, em especial em comparação com a primeira escolha para o papel principal do filme, Brad Pitt. Mais jovem, com menos experiência e sem nenhum grande sucesso solo no currículo, O'Donnell acabou por se tornar o principal alvo das críticas - mesmo que não seja o responsável pelos problemas de bastidores que, logicamente, respingaram no resultado final, que não agradou nem mesmo ao próprio John Grisham. Desde a saída de Pitt - consequência da opção de Ron Howard em comandar "O preço de um resgate" (1996) -, o projeto de "O segredo" parecia fadado pelo menos a uma produção problemática. O roteirista William Goldman, por exemplo, viu parte de seu trabalho rejeitado por Howard (ainda produtor do filme) e pelo novo diretor, James Foley - e depois testemunhou seu substituto, Phil Alden Robinson, preferir assiná-lo com um pseudônimo por não concordar com a versão final. Além disso, a ideia de oferecer a direção a Foley - que lançou o suspense "Medo" no mesmo ano para a mesma Universal Pictures - não foi das mais felizes: se a trama já não é tão eletrizante quanto a de outros livros de Grisham, o trabalho de Foley pouco faz para acentuar suas qualidades ou amenizar seus defeitos. Quase no piloto automático, o cineasta falha em sua principal missão: conectar o espectador com seu protagonista.

 

Jovem e idealista como quase todos os personagens centrais de Grisham (talvez seus alter-egos), Adam Hall (Chris O'Donnell, esforçado mas nada mais do que isso), acaba de sair da faculdade de Direito e para seu primeiro caso importante escolhe um desafio dos maiores: evitar que um condenado à câmara de gás seja executado. Culpado pelo assassinato de duas crianças judias trinta anos antes, Sam Cayhall (Gene Hackman) assume a autoria do crime, não demonstra nenhum arrependimento e parece se orgulhar de suas ideias racistas - transmitidas a eles através de gerações. Mas Adam tem seus motivos para lutar pela suspensão da pena do irascível presidiário: Sam é seu avô, e apesar das consequências trágicas do crime, como o suicídio de seu pai, o jovem advogado quer, mais do que tudo, investigar as raízes de tanto ódio e tentar extirpá-las do próprio futuro. Para isso, conta com a ajuda hesitante de uma tia, Lee (Faye Dunaway), viciada em álcool e envergonhada do passado da família, ela esconde suas origens, mas vê na chegada do sobrinho uma oportunidade de curar feridas antigas e ainda doloridas.

Visto à luz do tempo, "O segredo" não é o horror que muitos fizeram pensar quando de sua estreia. Mesmo que não tenha o mesmo brilho de outros filmes baseados em obras de Grisham - em especial "O cliente", que deu a Susan Sarandon uma indicação ao Oscar, e "O homem que fazia chover", um dos poucos Francis Ford Coppola da década de 1990 -, o resultado final tem qualidades que foram ignoradas em seu lançamento. A atuação monstruosa de Gene Hackman é um exemplo: mesmo com um personagem quase maniqueísta, o veterano ator oferece ao público um trabalho precioso, repleto de uma energia que falta ao protagonista de Chris O'Donnell. E se Faye Dunaway - em papel oferecido a Sigourney Weaver - foi indicada ao Framboesa de Ouro, isso diz mais sobre a implicância de parte da crítica sobre seu desempenho do que exatamente por justiça: por mais que exagere em alguns momentos, a atriz, vencedora do Oscar por "Rede de intrigas" (1976), constrói uma personagem que reflete com perfeição as consequências do ódio e da intolerância. São os veteranos astros que dão a "O segredo", apesar de suas falhas, motivos para que lhe seja feita justiça: mesmo estando longe de ser um filme marcante, tampouco é a aberração que seu fracasso comercial poderia dar a entender.

 

ARGENTINA, 1985

 


ARGENTINA, 1985 (Argentina, 1985, 2022, La Unión de los Ríos/Kenya Films/Infinity Hills, 140min) Direção: Santiago Mitre. Roteiro: Santiago Mitre, Mariano Llinás, Martín Mauregui (colaborador). Fotografia: Javier Julia. Montagem: Andrés Pepe Estrada. Música: Pedro Osuna. Figurino: Mônica Toschi. Direção de arte/cenários: Micaela Saiegh. Produção executiva: Phin Glynn, Cindy Teperman. Produção: Victoria Alonso, Santiago Carabante, Chino Darín, Ricardo Darín, Axel Kuschevatzky, Agustina Llambi Campbell, Santiago Mitre, Federico Posternak, Ana Taleb. Elenco: Ricardo Darín, Peter Lanzani, Alejandra Fletchner, Paula Ransenberg. Estreia: 03/9/2021 (Festival de Veneza)

Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme Internacional

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional 


As cicatrizes que a ditadura militar deixou na sociedade argentina ainda se fazem sentir no país, mesmo depois de quatro décadas após seu final. Pelo menos é que dizem filmes como "A história oficial" (1985), de Luis Puenzo - que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro - e o novo "Argentina, 1985", o fascinante petardo do diretor Santiago Mitre que concorreu ao Oscar 2023 na mesma categoria. Porém, enquanto a obra-prima de Puenzo direcionava suas câmeras a um olhar mais particular sobre o trágico período político encerrado em 1983 (com a história de uma professora descobrindo as origens de sua pequena filha adotiva), a produção de Mitre se debruça explicitamente sobre os crimes cometidos pelos militares - estupros, assassinatos, torturas - para fazer uma espécie de inventário de suas atrocidades e, por consequência, alertar sobre os perigos de que voltem a acontecer. Momentoso, sóbrio e inteligente, o filme, estrelado pelo sempre ótimo Ricardo Darín, surge na hora apropriada, mas seu sucesso não deve ser creditado somente à sua importância política: "Argentina, 1985" é cinema de primeira linha, um filmaço que consegue unir, em duas horas e meia de projeção, entretenimento e relevância histórica.

O filme de Mitre elege como protagonista o promotor público Julio Strassera (Ricardo Darín), escalado para ser o responsável pelo julgamento dos militares de alta patente acusados da violenta repressão  contra os críticos ao governo ditatorial que dominou o país entre 1963 e 1983. Contando com o apoio do jovem advogado Luis Moreno Ocampo (Juan Pedro Lanzani) - que entra em rota de colisão com a família, formada por apoiadores do regime - e um grupo de estagiários cuja vontade de ganhar a causa é inversamente proporcional a sua pouca idade, Strassera aceita a missão contra a vontade, ciente das consequências de um julgamento tão polêmico. Porém, conforme as sessões avançam e as ameaças contra ele, sua mulher e seus filhos aumentam, ele vê aumentar cada vez mais sua sede de justiça - especialmente diante de depoimentos contundentes das vítimas, que estabelecem um grau de crueldade e violência impossíveis de ignorar. Strassera sabe que a condenação dos réus é a única forma de evitar que tal atrocidade venha a repetir-se.

 

Fugindo do tom semi-documental que fatalmente acomete produções de teor político, "Argentina, 1985" não abre mão, no entanto, de deixar bem clara as suas intenções de desenterrar o passado sombrio do país. O roteiro, perfeitamente equilibrado entre dramas pessoais e questões jurídicas que jamais descambam para a verborragia técnica que poderia afastar o espectador, não hesita em explicitar, através de testemunhas e documentos, toda a fúria sanguinária de homens que tentavam, através da força física e psicológica, destruir seus inimigos políticos da forma mais vil. São momentos como esses, em que vítimas narram suas dores, que fazem do filme de Santiago Mitre um petardo histórico e emocional, em contraponto à frieza de todas as sequências em que são discutidos detalhes de bastidores. Em especial no terço final da produção, o cineasta parece abraçar definitivamente o desejo de comover a plateia, encaminhando-a para um clímax arrepiante e, melhor ainda, perfeitamente acurado e fiel aos fatos.

É admirável que o roteiro de "Argentina, 1985" - escrito por Mitre e Mariano Llinás - consiga a façanha de ser, ao mesmo tempo, informativo e dramaticamente consistente. Apesar de dedicar boa parte de sua narrativa a um estudo fidedigno dos processos jurídicos retratados e dos documentos oficiais, a trama encontra espaço suficiente para humanizar seus protagonistas e aproximá-los do espectador mais comum. Enquanto Strassera precisa lidar com as ameaças que sofre para abandonar o julgamento - em sequências tensas e editadas com precisão -, Ocampo sente na pele as consequências de enfrentar um sistema de violência ao tornar-se um pária dentro da própria família. Para isso, o diretor recebe o auxílio impecável de um elenco exemplar, liderado por Ricardo Darín, mais uma vez brilhante: um dos produtores do filme (ao lado do filho, o também ator Chino Darín), o astro mais popular do cinema argentino faz mais um gol de placa - e com o Golden Globe em mãos, voltou com prestígio à cerimônia da Academia, que em 2010 premiou o hoje quase clássico "O segredo dos seus olhos". Forte e tocante, "Argentina, 1985" é nada menos que obrigatório.

segunda-feira

O MAURITANO

 


O MAURITANO (The Mauritanian, 2021, Wonder Street/BBC Films, 129min) Direção: Kevin Macdonald. Roteiro: Michael Bronner (M. B. Traven), Rory Haines, Sohrab Noshirvani, livro "Guantánamo Diary", de Mohamedou Ould Slahi, Larry Siems. Fotografia: Alwin H. Kuchler. Montagem: Justine Wright. Música: Tom Hodge. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: James Collett/Michele Barfoot. Produção executiva: Michael Bloom, Adam Fogelson, John Friedberg, Dan Friedkin, Rose Garnett, Micah Green, Robert Halmi, Ryan Heller, Zak Kilberg, Jim Reeve, Rober Simonds, Russell Smith, Daniel Steinman, Maria Zuckerman. Produção: Adam Ackland, Michael Bronner, Leah Clarke, Benedict Cumberbatch, Christine Holder, Mark Holder, Beatriz Levin, Lloyd Levin, Branwen Prestwood Smith. Elenco: Tahar Rahim, Jodie Foster, Benedict Cumberbatch, Shailene Woodley, Denis Ménochet. Estreia: 12/02/2021 

Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Coadjuvante (Jodie Foster)

Nos meses imediatamente posteriores aos atentados de 11/9, o governo norte-americano tornou-se obcecado na caça aos responsáveis pela tragédia – conforme Kathryn Bigelow mostrou quase didaticamente em seu “A hora mais escura” (2012). No rastro desse apetite por vingança, nem sempre cumpriu à risca tudo aquilo que prega sob sua máscara de defensor ferrenho da democracia, e muitas vezes escorregou feio ao impor a força bruta em detrimento da inteligência – algo que o cineasta sul-africano Gavin Hood denunciou em “O suspeito”, seu subestimado thriller lançado em 2007. Os abusos cometidos pelos EUA em nome de justiça – e sua absoluta falta de escrúpulos em encontrar bodes expiatórios – volta às telas em “O mauritano”, contundente drama político dirigido pelo escocês Kevin Macdonald que deu à Jodie Foster o Golden Globe de melhor atriz coadjuvante deste ano e nem tão surpreendentemente assim, levando-se em consideração seu tema, foi solenemente ignorado pela Academia.

Temas politicamente controversos não assustam Macdonald, um cineasta que tem em seu currículo o oscarizado documentário “Munique, 1972: um dia em setembro” (1999) – sobre o atentado terrorista que matou atletas israelenses nas Olimpíadas de Munique – e o elogiado “O último rei da Escócia” (2006) – que retratava sem pudor as atrocidades cometidas na Uganda sob o comando de Idi Amin. Tal característica faz dele o diretor ideal para um roteiro que, se não é exatamente inovador em suas revelações sobre o tratamento dado pelos EU a seus pretensos inimigos, ao menos não subestima a inteligência do público - nem tampouco evita ilustrar seus pontos de vista com sequências bastante incômodas. Assim como no filme que deu o Oscar de melhor ator a Forest Whitaker, em “O mauritano” não faltam cenas de violência explícita, ainda que coerentes com a trama e o clima denso da narrativa. Macdonald intercala momentos quase pacíficos – longos diálogos e manobras jurídicas – com explosões de uma crueldade física e psicológica capazes de revoltar ao mais zen dos espectadores. Para isso, conta com um time de colaboradores brilhantes: da trilha sonora angustiante de Tom Hodge à fotografia caprichada do alemão Alwin H. Kuchler (de “Steve Jobs”), tudo funciona para sublinhar a tensão constante do roteiro – que surpreende ao fugir dos clichês dos filmes de julgamento ao focar sua atenção não no tribunal, e sim em seus preâmbulos.


 Enquanto na maioria dos filmes hollywoodianos o clímax sempre acontece no embate entre defesa e promotoria – com revelações de última hora e reviravoltas inesperadas -, em “O mauritano” o jogo acontece muito antes que qualquer personagem surja diante de um juiz. Tudo começa quando, poucos meses depois do atentado ao World Trade Center, o mauritano Mohamedou Ould Slahi (Tahar Rahim) é preso e levado à prisão militar de Guantánamo, onde passa anos sofrendo de frequentes sessões de tortura e interrogatórios violentos. Largado na prisão por mais de uma década – sem ao menos uma acusação formal -, Mohamedou só vê uma luz no fim do túnel quando seu caso cai nas mãos de Nancy Hollander (Jodie Foster, competente como sempre), uma advogada especializada em causas humanitárias que usa de todas as suas armas e experiência para 1) ganhar a confiança do novo cliente, e 2) ter acesso aos documentos que podem lhe esclarecer (e aos tribunais) os motivos que levaram à sua prisão. O acusado, depois de anos de maus-tratos, não confia facilmente em sua nova defensora e até parece esconder alguns segredos cruciais – mas a justiça precisa ser feita e a lei, cumprida. E mesmo sem confiar plenamente na inocência de Mohamedou, Hollander entra em rota de colisão com o promotor Stuart Couch (Benedict Cumberbatch) – também pouco confortável com as meias-verdades da investigação.

Corajoso em enfrentar a imagem de defensor da democracia que os EUA tentam vender incansavelmente, “O mauritano” sofre com um ritmo irregular – apesar dos esforços da edição em criar vários tempos como forma de agilizar a narrativa. Jodie Foster, Benedict Cumberbatch e Shailene Woodley (como a advogada assistente de Hollander) são atores excepcionais, mas nem mesmo eles conseguem evitar uma certa queda de interesse em alguns momentos – especialmente quando comparados com todas as cenas em que Tahar Rahim está presente. Revelado no premiado “O profeta” (2009), Rahim apresenta um desempenho arrebatador, oferecendo consistência a um personagem cuja dubiedade é um de seus maiores trunfos. Às vezes simpático e ocasionalmente suspeito, Mohamedou é a prova viva de que, culpados ou inocentes, todos merecem o melhor e mais isento julgamento possível – algo que, conforme aponta o filme de Kevin Macdonald, nem sempre acontece nos domínios da terra do Tio Sam. Forte e contundente, “O mauritano” é um filme importante e relevante, uma história real que, mais do que apenas indignar e chocar, reafirma os reais bastidores da guerra ao terror imposta pelos EUA ao redor do mundo. Não é uma obra-prima, mas é suficientemente bem orquestrada para ressoar por um bom tempo na mente do público.

sábado

ASSASSINATO SOB CUSTÓDIA

ASSASSINATO SOB CUSTÓDIA (A dry white season, 1989, MGM Pictures, 106min) Direção: Euzhan Palcy. Roteiro: Colin Welland, Euzhan Palcy, romance de André Brink. Fotografia: Pierre-William Glenn, Kelvin Pike. Montagem: Glenn Cunningham, Sam O'Steen. Música: Dave Grusin. Figurino: Charles Knode. Direção de arte/cenários: John Fenner/Peter James. Produção executiva: Tim Hampton. Produção: Paula Weinstein. Elenco: Donald Sutherland, Susan Sarandon, Marlon Brando, Janet Suzman, Zakes Mokae, Jurgen Prochnow, Winston Ntshona. Estreia: 10/9/89 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Marlon Brando)

No final dos anos 90, Hollywood parecia ter despertado para a questão do apartheid na África do Sul. Na época, Nelson Mandela ainda cumpria pena, mas filmes como "Um grito de liberdade" (87), de Richard Attenborough - que deu a primeira indicação ao Oscar a Denzel Washington - e "Um mundo à parte" (88), de Chris Menges - prêmio de melhor atriz em Cannes para Barbara Hershey - lidavam abertamente com questões ligadas ao tema. O final dessa trilogia informal, "Assassinato sob custódia", foi lançado em 1989, depois de um processo de produção de cerca de cinco anos, que incluiu uma troca de estúdio (a Warner abandonou o projeto, que foi parar na MGM), a negociação de pagamento mínimo aos atores do elenco (Marlon Brando entre eles) e boatos de espionagem por parte do governo da África do Sul durante as filmagens no Zimbabue. Primeiro filme de um grande estúdio a ser dirigido por uma mulher negra (Euzhan Palcy, nascida na Martinica), a adaptação do romance do sul-africano André Brinks, lançado em 1979 e banido em seu país de origem, é um filme intenso e doloroso, mas que esbarra em um ritmo irregular. Mesmo assim, é de suma importância política e social, ao retratar, sem meias-palavras, a crueldade do regime e a conivência da justiça em um período de extrema violência e preconceito racial.

Lançado no Festival de Toronto de 1989, "Assassinato sob custódia" conquistou elogios calorosos e teve, a seu favor, a publicidade em torno do retorno de Marlon Brando ao cinema, nove anos depois do malfadado "A fórmula" (80). Trabalhando quase de graça, o veterano ator não apenas chamou a atenção do público - ávido por voltar a vê-lo - como também conquistou uma indicação ao Oscar de coadjuvante (a única do filme). Seu desempenho é curto, mas crucial para a trama, apesar de ter sido filmado em apenas oito dias e ter dado trabalho à diretora: não apenas os dois entraram em conflito em razão de uma cena que acabou cortada da montagem final, como Brando alegou ter reescrito algumas cenas e as dirigido pessoalmente. Além disso, deu declarações contrárias à MGM pelo corte final do filme, que, segundo ele, passa a impressão de que "o apartheid é coisa de um passado muito remoto e não atual e presente". Problemas à parte, a presença de Marlon Brando no elenco do filme é apenas uma de suas várias qualidades - e vale mais por sua estatura icônica dentro da indústria do que por seu tempo de tela. O real protagonista é Ben Du Toit, um professor sul-africano, de olhos azuis e de classe média interpretado por Donald Sutherland em registro discreto mas eficiente - mas antes que surja a reclamação de mais um white savior em filmes do gênero, é bom que se destaque que, apesar de ser os olhos da plateia, Ben é apenas uma peça em uma engrenagem de homens e mulheres em busca de justiça - sejam eles brancos ou negros.


Du Toit é jogado em meio à tragédia do apartheid menos velado quando o filho de onze anos de idade de seu jardineiro, Gordon (Winston Ntshona), é sequestrado pelas forças policiais do governo. Em sua trajetória para localizar o menino, Gordon acaba sendo assassinado - tendo sua morte ocultada pelos meios oficiais e declarada natural. Indignado, Ben se une à jornalista britânica Melanie (Susan Sarandon) para tentar jogar luz nas reais condições das prisões do país, onde tortura e assassinato são acontecimentos triviais. Um velho amigo de Gordon, Stanley (Zakes Mokae), é seu guia pelos meandros da sociedade dividida da África do Sul - e irá lhe servir também de apoio quando outras mortes começam a acontecer a seu redor e até sua família, amigos e colegas de trabalho resolvem lhe virar as costas. Em sua descida rumo ao desconhecido, ele conta com seu apego à verdade e à certeza de estar lutando do lado certo da batalha. Seu maior empecilho nisso é o Capitão Stoltz (Jurgen Prochnow), que não mede esforços ou estratégias para apagar os vestígios de seus crimes de ódio.

Assim como "Um grito de liberdade" tratava dos desdobramentos da morte do ativista Steve Biko, "Assassinato sob custódia" se utiliza de um crime bárbaro para mergulhar o espectador em um mundo onde as leis e a igualdade racial só existem na teoria. Durante a primeira metade do filme, a diretora conta sua história com placidez, ainda que revoltosa, como se preparando o público para sua metade final. A partir daí, quando Du Toit e Stanley percebem que a única maneira de desvendar toda a lista de atrocidades que os cerca é jogando com armas menos leais e claras, o filme acelera o ritmo, engrena uma sucessão de sequências impactantes e passa a revelar o caráter real de alguns de seus personagens, conduzindo a um final realista e triste. Pontuado pela bela trilha sonora de Dave Grusin e valorizado por um elenco coadjuvante formado por atores sul-africanos que dão um tom de veracidade ainda maior à trama, o filme de Euzhan Palcy - que posteriormente dedicou-se mais à carreira de documentarista - é um petardo emocional verdadeiro e pungente. Apesar de parecer, em alguns momentos, um telefilme, é um prato cheio para aqueles que gostam de unir o útil ao agradável e procuram entretenimento com substância. Um filme subestimado e muito importante, lançado, ironicamente, na mesma temporada em que "Conduzindo Miss Daisy" - criticado por seu retrato romantizado do racismo - ganhou o Oscar de melhor filme. A Academia, como sempre, perdendo o trem da história!

quinta-feira

QUEREM ME ENLOUQUECER

QUEREM ME ENLOUQUECER (Nuts, 1987, Warner Bros, 116min) Direção: Martin Ritt. Roteiro: Tom Topor, Darryl Ponicsan, Alvin Sargent, peça teatral de Tom Topor. Fotografia: Andrzej Barkowiak. Montagem: Sidney Levin. Música: Barbra Streisand. Figurino: Joe Tompkins. Direção de arte/cenários: Joel Schiller/Anne McCulley. Produção executiva: Cis Corman, Teri Schwartz. Produção: Barbra Streisand. Elenco: Barbra Streisand, Richard Dreyfuss, Maureen Stapleton, Karl Malden, Eli Wallach, Leslie Nielsen, James Whitmore, Robert Webber. Estreia: 11/12/87

Quando "Querem me enlouquecer" estreou nos EUA, no final de 1987, já fazia quatro anos que o público não via Barbra Streisand nos cinemas. Em seu último filme, "Yentl" (83), ela havia assumido as múltiplas funções de diretora, roteirista, produtora, atriz e compositora das canções da trilha sonora, e sua ausência das telas era sentida pelos fãs e pela crítica, à espera de seu novo trabalho. Para surpresa de muitos, no entanto, a estrela multimídia retornou com menos ambição e em registro completamente diferente. Adaptado de uma peça de teatro de Tom Topor lançada em 1980 em Nova York, "Querem me enlouquecer" é um drama de tribunal que ofereceu à atriz uma chance de mostrar que nem só de comédias e musicais era feita sua carreira: com um pagamento recorde (à época) de cinco milhões de dólares, Streisand novamente acumulou cargos (atuou, produziu, compõs a trilha sonora e, dizem, colaborou no roteiro), mas deixou a direção a cargo de Martin Ritt e entregou-se de corpo e alma à sua personagem, dividindo a cena com um elenco de vencedores do Oscar que valorizam cada cena da produção.

O primeiro é Richard Dreyfuss - vencedor da estatueta por "A garota do adeus" (77). Primeira escolha para o papel do advogado Aaron Levinsky, Dreyfuss recusou o papel, cobiçado por nomes como Alan Arkin, John Malkovich e Sean Penn (!!) e obrigou a Warner a uma busca árdua para substituí-lo. Depois que Dustin Hoffman saiu definitivamente do projeto (devido a questões salariais e as famosas "diferenças criativas", nomes fortes foram cotados para fazer frente a Streisand. De Marlon Brando a Richard Gere - passando por Paul Newman, Al Pacino, Kevin Kline, Robert De Niro, Robert Duvall e Jeff Bridges -, parecia que qualquer ator com o mínimo de visibilidade estava na lista dos produtores. Quando finalmente Dreyfuss capitulou e assinou contrato, o filme não apenas teve um problema sério resolvido (a escalação de seu protagonista masculino), mas também ganhou em prestígio e popularidade - no mesmo ano, o ator era o principal nome da comédia policial "Tocaia", grande sucesso de bilheteria nos EUA. Dando continuidade a seu cuidado na escalação do elenco, os produtores ainda contaram com a presença de Maureen Stapleton (Oscar de atriz coadjuvante por "Reds", de 1981) e Karl Malden (vencedor por "Sindicato de ladrões", de 1954, também na categoria de coadjuvante). Malden, na pele do padrasto da personagem principal, ficou com um papel oferecido a veteranos como Kirk Douglas, Gregory Peck, Burt Lancaster e Robert Mitchum - e saiu-se muito bem em seu delicado papel, responsável pela desistência da Universal Pictures em produzir o filme.


Diante de alguns elementos polêmicos da trama de "Querem me enlouquecer", os executivos da Universal abandonaram o projeto, que seria dirigido por Mark Rydell e estrelado por Debra Winger, escolhida pelo diretor em detrimento de Streisand - já interessada em protagonizar o filme. Com a saída de Winger, não demorou para que o próprio Rydell também demonstrasse desinteresse pela produção. Era o que a atriz/cantora/produtora precisava para tomar as rédeas da situação: contratou Martin Ritt para a direção, ficou com o papel principal e encarou a controvérsia que fatalmente iria ser suscitada pelo filme. O resultado, se não foi um sucesso estrondoso de bilheteria, ao menos conquistou parte da crítica e chegou a ser indicado a três Golden Globes: melhor filme, ator e atriz. Dessa vez a Academia não se deixou encantar pelos dotes artísticos de Barbra, mas o espectador que passar por cima desse pequeno detalhe tem tudo para se deixar envolver com um drama de tribunal da melhor qualidade, com um texto inteligente, direção segura e interpretações inspiradíssimas - e que apresenta Leslie Nielsen em seu último papel dramático no cinema, antes de encarar de vez a persona mais popular de sua carreira, na série de filmes "Corra que a polícia vem aí".

A protagonista do filme é Claudia Draper, uma garota de programa de luxo que é presa logo depois de matar um cliente. Ela alega legítima defesa, mas sua família, para evitar um escândalo maior, decidem que declará-la mentalmente incapaz será mais eficaz. Revoltada com a decisão tomada sem seu consentimento, Claudia conta com a ajuda do defensor público Aron Levinsky (Richard Dreyfuss) garantir seu direito a um julgamento justo e imparcial - o que pode trazer à tona um passado repleto de traumas e segredos inconvenientes. Em sua luta, Levinsky bate de frente com médicos e promotores, além de brigar também (e principalmente) com a mãe e o padrasto de sua cliente, preocupados em ver seus nomes nas páginas policiais. O roteiro conduz com relativo equilíbrio a denúncia social e o suspense, oferecendo momentos de brilho para todos os seus ótimos atores, mas Martin Ritt peca em ser excessivamente convencional em sua narrativa e não dar a seu poderoso clímax a força que poderia dar. Apesar disso, "Querem me enlouquecer" é um drama de tribunal realizado com a seriedade e o talento apreciados pelos fãs do gênero, que não terão do que reclamar quando acabar a sessão - que mais uma vez prova a extensão do talento de sua atriz central.

segunda-feira

A GUERRA DE HART

A GUERRA DE HART (Hart's war, 2002, MGM Pictures, 125min) Direção: Gregory Hoblit. Roteiro: Billy Ray, Terry George, romance de John Katzenbach. Fotografia: Alar Kivilo. Montagem: David Rosenbloom. Música: Rachel Portman. Figurino: Elisabetta Beraldo. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert/Patrick Cassidy. Produção executiva: Wolfgang Glattes. Produção: David Foster, Gregory Hoblit, David Ladd, Arnold Rifkin. Elenco: Bruce Willis, Colin Farrell, Terrence Howard, Cole Hauser, Linus Roache, Marcel Iures, Vicellous Shannon, Sam Jaeger, Rory Cochrane, Sam Worthington, Adrian Grenier. Estreia: 15/02/02

Parecia que tudo estava no caminho certo: um ator veterano (Bruce Willis) com a carreira ressuscitada por um imenso sucesso comercial ("O sexto sentido", de 1999), um jovem astro em ascensão (Colin Farrell, revelado por Joel Schumacher em "Tigerland: a caminho da guerra", de 2000), um assunto sempre fascinante e capaz de despertar a atenção do público (a II Guerra Mundial) e um gênero querido pela plateia desde sempre (filmes de tribunal) - dirigido por um cineasta que já tinha experiência no ramo (Gregory Hoblit, que assinou o ótimo "As duas faces de um crime", de 1996). Alguma coisa, porém, não correu como o esperado para "A guerra de Hart": com um custo estimado de 70 milhões de dólares, o filme simplesmente se espatifou nas bilheterias americanas (rendeu menos de 20 milhões em toda a sua carreira comercial) e não cativou nem mesmo o público internacional (arrecadou pouco mais de 13 milhões em todo o mundo). Não bastasse o fracasso financeiro, a crítica igualmente não ficou entusiasmada com o resultado final - e a produção acabou sendo relegada a um tímido segundo plano nas trajetórias de seus dois atores principais. O pior é que, ao contrário de muitos fracassos injustos que volta e meia assombram Hollywood, "A guerra de Hart" mereceu seu destino: apesar dos valores de produção caprichados, é um filme preguiçoso e sonolento, que não acrescenta nada ao gênero.

Baseado em um romance de John Katzenbach - livro, aliás, que um dos roteiristas, Billy Ray, admite não ter lido, uma vez que embarcou no projeto quando várias versões da trama já existiam, escritas pelo veterano Terry George - e inspirado pelo tempo em que o pai do escritor, Nicholas Katzenbach, passou como prisioneiro durante a II Guerra Mundial, "A guerra de Hart" se ressente, também, de um foco narrativo mais claro. Ao misturar vários gêneros, acaba se perdendo em um emaranhado de reviravoltas e tentativas de clímax que, ao contrário de surpreender o espectador, apenas deixam a estória ainda mais confusa e sem sentido. Começa como um drama de guerra, transforma-se em um filme de tribunal e acaba com uma mistura muito estranha dos dois estilos - com um desfecho morno que desperdiça até mesmo o talento de coadjuvantes excelentes, como Terrence Howard e Marcel Iures, perdidos em um texto quase esquizofrênico.


A trama se passa no final da II Guerra, quando o jovem Tenente Tommy Hart (Colin Farrell) é capturado por soldados alemães e, depois de alguns dias preso e interrogado, é enviado a um campo de prisioneiros, onde trava contato com o Coronel William McNamara (Bruce Willis) - o oficial superior que ainda mantém sua autoridade sobre os soldados norte-americanos aprisionados. Não demora muito para que Hart, um burocrata da guerra, perceba a realidade do conflito mesmo dentro de sua estalagem - onde colegas não são exatamente exemplos de solidariedade e companheirismo. As coisas ficam ainda mais explosivas quando chegam ao local dois pilotos negros, Lincoln Scott (Terrence Howard) e Lamar Archer (Vicellous Reon Shannon), uma presença inesperada que deixa bem claro o tom racista dos soldados e oficiais. A morte injusta de Archer e a prisão de Scott - acusado de assassinar um colega - acentuam a tensão, especialmente quando McNamara convoca Hart (um estudante de Direito) a ser o advogado de defesa de Scott em uma corte marcial. O julgamento começa, sob a supervisão do comandante alemão Oberts Werner Visser (Marcel Iures) - mas nem tudo é exatamente o que parece, e Hart irá precisar de todo o seu código de ética para desviar-se de um veredicto já facilmente previsível.

A princípio um projeto de Alfonso Cuarón, "A guerra de Hart" acabou nas mãos de Gregory Hoblit quando o cineasta mexicano optou por uma produção mais pessoal, o elogiado "E sua mãe também" - que lhe valeu uma indicação ao Oscar de roteiro original. A entrada de Hoblit, porém, parecia um tiro certo - logo que entrou em cena, nomes como Edward Norton e Tobey Maguire foram cotados para integrar o elenco, no papel que mais tarde ficaria com Colin Farrell, um nome que começava a tornar-se conhecido do público, principalmente por dividir a tela com Tom Cruise em "Minority report: a nova lei", dirigido por ninguém menos que Steven Spielberg. Farrell, no entanto, não poderia imaginar que seria tão subaproveitado: sofrendo ao tentar dar dignidade e coerência a um roteiro indeciso, o ator irlandês não consegue nem ao menos demonstrar o carisma revelado em seus trabalhos anteriores, preso a uma direção frouxa e um personagem incapaz de conquistar a torcida do espectador - e também não ajuda ter Bruce Willis no piloto automático e um final decepcionante. No fim das contas, "A guerra de Hart" é um filme que tinha tudo para marcar época mas que terminou vítima de uma grave crise de identidade. Só recomendado para os fãs incondicionais dos atores!

JUSTIÇA PARA TODOS

JUSTIÇA PARA TODOS (... and justice for all, 1979, Columbia Pictures, 119min) Direção: Norman Jewison. Roteiro: Valerie Curtin, Barry Levinson. Fotografia: Victor J. Kemper. Montagem: John F. Burnett. Música: Dave Grusin. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Richard MacDonald/Thomas L. Roysden. Produção executiva: Joe Wizan. Produção: Norman Jewison, Patrick Palmer. Elenco: Al Pacino, Jack Warden, John Forsythe, Lee Strasberg, Jeffrey Tambor, Christine Lahti. Estreia: 15/9/79 (Festival de Toronto)

2 indicações ao Oscar: Ator (Al Pacino), Roteiro Original

Não havia, na Hollywood da década de 70, ator mais quente do que Al Pacino. Indicado quatro anos consecutivos ao Oscar - por "O poderoso chefão" (em que concorreu injustamente como coadjuvante), "Serpico", "O poderoso chefão - parte 2" (dessa vez como protagonista) e "Um dia de cão" - e respeitado como um dos maiores intérpretes de sua geração, ao lado de Robert De Niro, Pacino também tinha como característica buscar desafios cada vez maiores, em papéis que questionassem o status quo e o tradicional american way of life. Por isso, não foi surpresa para ninguém quando ele voltou a disputar a estatueta dourada na cerimônia de 1980, por uma atuação que se tornaria, anos mais tarde, uma das mais icônicas de sua carreira. Na pele de um advogado lutando contra a burocracia e o descaso da justiça norte-americana, Pacino entregou mais uma interpretação feroz e intensa, que encantou a crítica e o público mas esbarrou nos eleitores da Academia, que preferiram abraçar o minimalista desempenho de Dustin Hoffman em "Kramer vs Kramer" - papel do qual, por ironia do destino, o próprio Pacino declinou para trabalhar no filme de Jewison.

"Justiça para todos" - um título recheado de uma boa dose de sarcasmo que fica evidente no final amargo do filme - é quase uma crônica a respeito dos meandros da justiça americana, inspirada em visitas do casal de roteiristas a tribunais de júri em Baltimore e Los Angeles. O futuro cineasta Barry Levinson (vencedor do Oscar por "Rain Man") e sua então esposa Valerie Curtin (que também concorreram à estatueta dourada, assim como Pacino) criaram um roteiro que não se prende a uma única situação dramática, desenvolvendo, ao invés disso, uma série de acontecimentos que vão levando seu protagonista à mais completa desilusão com o sistema judicial de seu país. Logo em sua primeira cena, Arthur Kirkland é visto junto a presos comuns, na cela de uma delegacia, depois de passar a noite na cadeia por desacato ao juiz Henry Fleming (John Forsythe) - a personificação do lado mais corrupto e arrogante da lei. É nesse ambiente que Kirkland, que mantém seu idealismo intacto apesar de algumas experiências pouco saudáveis, conhece Ralph Agee (Robert Christian), uma travesti negra, acusada injustamente de tráfico de drogas e que acaba se tornando sua cliente. Cuidando também do caso do jovem Jeff McCullaugh (Thomas Waites) - condenado devido a uma série de enganos judiciais que o estão empurrando diretamente para a insanidade mental - Kirkland acaba se vendo obrigado a defender justamente seu maior desafeto quando o Juiz Fleming é acusado de estupro e agressão. Chantageado (tal aproximação pode salvar McCullaugh), Kirkland aceita, mesmo a contragosto, a tarefa de engolir seus princípios, mas nem de longe imagina o quão podre pode ser o meio em que transita.


Utilizando personagens secundários como forma de comentar a ação, o roteiro de "Justiça para todos" evita cair no dramalhão mesmo quando se vê obrigado a apelar para tragédias como forma de sublinhar sua contundência. Enquanto luta por seus clientes, Kirkland se vê enredado em um romance com Gail Packer (Christine Lahti) - advogada que faz parte de um comitê que investiga assuntos internos - e convive com outros membros de sua profissão, retratos ora cômicos ora dramáticos de seu círculo. No primeiro caso existe o Juiz Francis Rayford (Jack Warden) - que tem constantes pensamentos suicidas e não hesita em utilizar uma arma durante as sessões que preside; no segundo, o filme apresenta Jay Porter (Jeffrey Tambor, estreando em cinema), que sofre de um grave desequilíbrio emocional depois que um cliente que ajudou a absolver voltou a praticar crimes violentos. Nem sempre os alívios cômicos inseridos na narrativa funcionam - pelo contrário, soam muitas vezes deslocados e desnecessários - mas é inegável que o ritmo impresso pelos diálogos ágeis e pela edição inteligente envolvem o espectador sem grande dificuldade, em especial graças ao elenco impecável selecionado por Jewison, que apesar de manter o tom sóbrio na direção, não hesitou em definir seu filme, à época da estreia, como uma "grande comédia".

Não é difícil compreender o ponto de vista de Jewison. Ao enfatizar os absurdos e as situações surreais que ocorrem nos bastidores da Justiça e colocá-las lado a lado com suas consequências diretas nas vidas de réus, advogados e juízes, "Justiça para todos" se mostra, a cada minuto, como um panorama quase bizarro de uma sociedade em constante desequilíbrio de classe e raças. Único personagem com real percepção sobre o mundo que o cerca, Arthur Kirkland é uma espécie de anti-heroi, um homem perdido em um redemoinho de corrupção, burocracia e interesses escusos, tentando desesperadamente manter sua retidão moral mesmo quando tudo o empurra em direção contrária. Al Pacino oferece todo o seu talento para contar sua história, acertando o tom em qualquer direção que a trama siga e mostrando porque é um dos grandes atores de sua geração. Voltando a contracenar com seu mestre do Actor's Studio, o veterano Lee Strasberg (com quem havia trabalhado em "O poderoso chefão - parte II", aqui na pele de seu estimado avô), Pacino brinda o espectador com uma de suas mais poderosas interpretações, intensa e dotada da energia de que apenas os maiores são capazes. Uma obra indispensável para os fãs de cinema e de filmes de tribunal, "Justiça para todos" é atemporal.

quinta-feira

O FIO DA SUSPEITA

O FIO DA SUSPEITA (Jagged edge, 1985, Columbia Pictures, 108min) Direção: Richard Marquand. Roteiro: Joe Eszterhas. Fotografia: Matthew F. Leonetti. Montagem: Sean Barton, Conrad Buff. Música: John Barry. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Gene Callahan/Peter J. Smith. Produção: Martin Ransohoff. Elenco: Glenn Close, Jeff Bridges, Peter Coyote, Robert Loggia, Lance Henriksen, James Karen, Marshall Colt. Estreia: 05/9/85 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Robert Loggia)

A cena é típica: em uma mansão à beira-mar de São Francisco, uma mulher é surpreendida durante o sono por um homem vestido com uma máscara que lhe esconde o rosto. Violentamente, o invasor a mata a facadas, mutilando-a e utilizando seu sangue como tinta, para escrever na parede uma ofensa final. Assim começa o filme "O fio da suspeita", do mesmo Richard Marquand que também dirigiu o ultra bem-sucedido "O retorno de Jedi" (83), e se a sequência parece familiar é porque seu criador é o mesmo Joe Eszterhas de "Instinto selvagem", realizado em 1992. Usando os mesmos elementos que usaria para escrever o maior sucesso de sua carreira - uma boa história, personagens interessantes e reviravoltas até os últimos minutos - Eszterhas conquistou o público, graças à elegância da direção de Marquand (em seu penúltimo filme) e ao elenco impecável, que dá credibilidade e legitimidade a uma trama policial que, mesmo sem maiores novidades, prende o espectador de seu instigante começo até o desfecho climático - que, ao contrário do que foi dito à época de seu lançamento, não foi alterado e sim tornado mais claro depois das primeiras exibições.

No filme, a vítima da primeira cena é a milionária Page Forrester, que morre e deixa toda a sua fortuna para o marido, Jake (Jeff Bridges), que, logicamente, passa a ser o principal suspeito do crime. Quando uma faca similar à arma do crime é encontrada em seu armário no clube, Jake é imediatamente indiciado e somente uma boa defesa pode impedí-lo de uma condenação pelo júri popular. Entra em cena então a competente Teddy Barnes (Glenn Close), que abandonou o Direito Penal depois de uma decepção profissional, mas que acaba seduzida pelo charme irresistível do réu. Enquanto trabalha na defesa do jovem milionário, Teddy entra em confronto com o venal promotor Thomas Krasny (Peter Coyote) - com intenções de ascender politicamente graças ao caso - e se vê envolvida sentimentalmente pelo cliente, que jura inocência. Para deixar tudo ainda mais confuso, Teddy começa a receber bilhetes anônimos, escritos à máquina e que afirmam a inocência do acusado.


Confiante em seu elenco e na história que tinha em mãos, Richard Marquand acertou em cheio em não tentar inventar a roda, preferindo apostar em uma narrativa linear e simples, pontuada aqui e ali com algumas surpresas para manter o interesse do público e o ritmo da trama. Equilibrando com maestria tanto o lado romântico do enredo quanto seu ângulo policial, o cineasta explora com inteligência o talento de seus dois protagonistas, ambos com atuações sutis e que deixam espaço para o brilho de seus colegas de cena - que o diga Robert Loggia, indicado ao Oscar de ator coadjuvante por seu desempenho como Sam Ransom, investigador que auxilia Teddy em sua busca pela verdade. Também optando por uma interpretação sem excessos, Loggia quase rouba a cena, com um personagem à margem de todo o jogo de poder e sedução que se desenrola à sua volta. O mesmo pode ser dito de Peter Coyote, que mesmo com um personagem um tanto clichê em mãos, o transforma em uma pessoa de carne e osso. Glenn Close - em papel oferecido a Jane Fonda e Kathleen Turner e que quase foi rejeitada pelo produtor Martin Ransohoff por ser considerada feia - está elegante e sóbria, transmitindo todas as nuances de sua personagem antes de encarar as duas vilãs que marcariam sua carreira (e lhe dariam indicações ao Oscar), em "Atração fatal" (87) e "Ligações perigosas" (88). E Jeff Bridges, no personagem mais sedutor de sua carreira, segura com unhas e dentes o personagem dúbio herdado de Michael Douglas - coincidentemente ou não, o protagonista de "Instinto selvagem".

Inteligente, elegante e dotado de todos os ingredientes que fazem a festa dos fãs de filmes policiais passados em tribunais, "O fio da suspeita" agrada a qualquer espectador que se disponha a acompanhar uma história bem contada, com atores competentes e um final coerente e lógico. Sem apelar para as estripulias eróticas de "Instinto selvagem" e "Jade" (95), seus filmes mais famosos, Eszterhas brinda a plateia com um roteiro coeso e fluente, que jamais perde o foco e de quebra mantém o suspense mesmo quando tudo parece se encaminhar para o óbvio. Seu final - que pode ou não agradar aos mais exigentes - pode não ser brilhante, mas pelo menos não ofende a inteligência do público como muitos suspenses que se pretendem surpreendentes e acabam por cair no inverossímil. Um belo filme policial dos anos 80 que sobrevive muito bem ainda hoje.

domingo

O VENTO SERÁ TUA HERANÇA

O VENTO SERÁ TUA HERANÇA (Inherit the wind, 1960, Stanley Kramer Productions, 128min) Direção: Stanley Kramer. Roteiro: Nedrig Young (como Nathan E. Douglas), Harold Jacob Smith, peça teatral de Jerome Lawrence, Robert E. Lee. Fotografia: Ernest Laszlo. Montagem: Frederic Knutdson. Música: Ernest Gold. Direção de arte: Rudolph Sternad. Produção: Stanley Kramer. Elenco: Spencer Tracy, Fredric March, Gene Kelly, Dick York, Donna Anderson, Harry Morgan. Estreia: 25/6/60 (Festival de Berlim)

4 indicações ao Oscar: Ator (Spencer Tracy), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem

Tudo começou em 1925, em uma pequena cidade do Tennessee chamada Dayton, quando um professor do ensino médio chamado John Thomas Scopes foi preso, acusado de violar uma lei estadual que proibia o ensino da Teoria da Evolução, do cientista Charles Darwin. Levado à julgamento, o caso passou a ser conhecido nacionalmente como o "Julgamento do Macaco" e dividiu furiosamente os moradores da cidade (a maioria deles fundamentalistas religiosos). Trinta anos mais tarde, o caso chegou à Broadway, em uma peça teatral escrita por Jerome Lawrence e Robert E. Lee que ganhou dois Tony Awards no ano seguinte. Foi apenas questão de tempo até que Hollywood se interessasse - através do diretor e produtor Stanley Kramer - pelo tema e pela adaptação da peça. Com um elenco liderado por dois vencedores do Oscar (Spencer Tracy e Fredric March) e um astro de musicais se arriscando em um filme dramático (Gene Kelly), Kramer acabou por fazer, com "O vento será tua herança" uma espécie de ensaio para aquele que se tornaria sua maior obra-prima, "Julgamento em Nuremberg", lançado em 1961 também com a participação de Tracy.  Porém, se "Julgamento em Nuremberg" se tornaria um clássico absoluto no subgênero "filmes de tribunal", a transposição da história de John Scopes para as telas não conseguiu fugir de uma pequena cota de problemas.

O primeiro deles surgiu logo na pré-produção, quando Kramer contratou o roteirista Nedrick Young para ser um dos autores da adaptação do texto teatral, ao lado de Harold Jacob Smith: encrencado com a justiça americana devido a suas tendências comunistas e consideradas subversivas, Young foi uma escolha ousada do cineasta, que de cara conseguiu a antipatia dos mais conservadores. Apesar de tal atitude ser compatível com as ideias da própria essência do filme - o desafio a regras arbitrárias que fomentam o preconceito e a discriminação - a reclamação de parte da comunidade hollywoodiana foi tanta que até mesmo Moss Hart, o então presidente da Liga dos Autores da América, se viu obrigado a um posicionamento, que chegou à Kramer através de um telegrama louvando sua coragem em não impedir um artista de trabalhar apenas por suas questões políticas. Munido de ainda mais ousadia, Kramer passou então a escalar seu elenco - e surpreendeu a todo mundo quando escolheu Gene Kelly para um papel sério, sem espaço para acrobacias musicais. Diante da recusa inicial do ator, Kramer arriscou-se ainda mais: acenou com a chance de colocar o astro de "Cantando na chuva" ao lado de nomes respeitados, como Spencer Tracy e Fredric March. Era uma tentação grande demais, e Kelly voltou atrás na recusa - sem desconfiar que o diretor ainda nem oferecera o projeto aos atores que haviam lhe servido de isca.


Porém, a confiança de Kramer no material era tanta que acabou justificada. Tanto Tracy quanto March - ambos duplamente já premiados com o Oscar na ocasião - embarcaram no projeto com entusiasmo de iniciantes e entregaram performances que mesmo nas filmagens já empolgavam os técnicos e colegas de elenco: muita gente, ouvindo falar de seus desempenhos, iriam conferir os trabalhos como se estivessem no teatro, chegando a aplaudir em cena aberta (e, obviamente, estragando os takes). Mas o fato é que, além do tema interessante e ainda relevante nos dias cada vez mais obscurantistas de hoje, o elenco de "O vento será tua herança" é sua maior qualidade - Spencer Tracy chegou a concorrer ao Oscar de melhor ator, mas perdeu para Burt Lancaster, em "Entre Deus e o pecado". Com sua postura ao mesmo tempo afável e venerável, o veterano astro nem parece precisar fazer muito esforço para convencer no papel de Henry Drummond, o advogado famoso que chega à pequena Hillsboro (substituindo a original, Dayton) para defender o jovem professor Bertram Cates (Dick York) contra a possibilidade de uma condenação por pura ideologia. Contando com o apoio do ambicioso jornalista E.K. Hornbeck (Gene Kelly, ótimo), ele não precisa enfrentar apenas o tribunal, e sim quase uma cidade inteira - seus únicos aliados são os jovens alunos de Cates.

Do outro lado do ringue, Fredric March dá vida ao promotor Matthew Harrison Brady, advogado cristão que prega uma conduta mais rígida e religiosa - o que lhe deu estofo suficiente para concorrer três vezes à presidência dos EUA. Velho amigo de Drummond, o eloquente promotor acaba por usar o tribunal como púlpito, inflamando os já fanáticos moradores da cidade - e usando até mesmo a filha do pastor, Rachel Brown (Donna Anderson), namorada de Cates, para atingir seu objetivo de condenar o rapaz. É óbvio que o roteiro é muito mais simpático à causa de Drummond - Brady é quase tratado de forma caricata em alguns momentos - mas a elegância da direção de Kramer impede que o filme resvale na crítica moralizadora e/ou rasa. Os diálogos inteligentes superam qualquer tipo de doutrinação e o elenco faz sua parte em dar credibilidade e consistência a questões cada vez mais importantes em um mundo dividido pela religião. "O vento será tua herança" é um filme imperdível para qualquer fã de cinema inteligente e relevante.

sexta-feira

O CRIME NÃO COMPENSA

O CRIME NÃO COMPENSA (Knock on any door, 1949, Santana Picture Corporation, 101min) Direção: Nicholas Ray. Roteiro: Daniel Taradash, John Monks Jr., romance de Willard Motley. Fotografia: Burnett Guffey. Montagem: Viola Lawrence. Música: George Antheil. Figurino: Jean Louis. Direção de arte/cenários: Robert Peterson/William Kiernan. Produção: Robert Lord. Elenco: Humphrey Bogart, John Derek, George Macready, Allene Roberts. Estreia: 21/02/49


Nicholas Ray já teria seu nome marcado indelevelmente na história do cinema se tivesse se limitado a assinar “Juventude transviada”, ponto de nascimento do mito James Dean, em 1955. Seis anos antes, porém, ele já demonstrava sua predileção pelas angústias da mocidade angustiada. Em “O crime não compensa”, lançado em 1949 como estreia da companhia independente do ator Humphrey Bogart, a Santana, Ray deixava claro suas preocupações sociais em uma trama que não apenas mostrava Bogart em um papel atípico em sua carreira – um advogado a quilômetros de distância dos detetives cínicos e amorais que marcaram sua trajetória – como discutia um tema que não era exatamente um chamariz de bilheteria: a influência do meio na vida de uma juventude aparentemente sem alternativas que não a ilegalidade. Baseado em um romance de sucesso escrito por Willard Motley, o filme por pouco não fica marcado por ser também a estreia de outra lenda de Hollywood.

Impressionado com a atuação do jovem e então desconhecido Marlon Brando na montagem de “Uma rua chamada Pecado”, Humphrey Bogart, na condição de astro e produtor do filme, ofereceu a ele o segundo papel central do filme, o do delinquente juvenil Nick Romano, um rapaz cuja vida repleta de pequenas e grandes tragédias o leva ao banco de réus em um julgamento por homicídio. Já rebelde por natureza, Brando se interessou pelo mote do personagem – a famosa “Viva rápido, morra jovem e seja um cadáver atraente!” – mas acabou por declinar do convite e deixar o papel nas mãos de outro estreante, John Derek (Brando, como se sabe, chegou às telas de cinema justamente repetindo seu papel da peça de Tennessee Williams, em uma adaptação dirigida por Elia Kazan e lançada em 1951). Já tendo contratado Nicholas Ray para comandar seu filme – era um admirador da estreia do cineasta, “Amarga esperança” (48) – Bogart começou sua carreira como produtor com o pé direito. “O crime não compensa” é uma obra que não deixa nada a dever aos mais bem-sucedidos produtos semelhantes que fizeram a glória de um dos maiores estúdios de Hollywood.


Assim como os filmes de gângster produzidos pela Warner – e dos quais o próprio Bogart era um dos ídolos máximos – “O crime não compensa” mescla com destreza uma trama policial (que no final se revela apenas como pano de fundo para um drama com intenções mais nobres) e um estudo inteligente sobre a sociedade americana do pós-guerra. Mesmo distribuído pela Columbia, o filme de Ray não deixa de ter a identidade visual da Warner nos anos 40: a fotografia em preto-e-branco seca e eficiente, o tema relevante disfarçado por um enredo violento e, como o título sugere, um final de teor moralista (ainda que, como não poderia deixar de ser em se tratando de um filme de Nicholas Ray, bastante temperado com a controvérsia e a simpatia pelo lado menos conservador da sociedade). Bogart interpreta Andy Morton, um advogado bem-sucedido que é procurado pelo jovem Nick Romano (John Derek, que anos mais tarde se casaria com a “mulher nota 10” Bo Derek), acusado pelo assassinato de um policial. A princípio Morton recusa o caso, mas com a pressão de sua namorada – e assistente social – acaba assumindo a defesa do rapaz. No tribunal, ele se utiliza da história de vida de Romano para tentar livrá-lo da condenação.

Contado basicamente em flashbacks que explicam os motivos que levaram Romano à situação extrema em que ele se encontra, “O crime não compensa” envolve a plateia com personagens bem construídos e uma direção não intrusiva, que não tenta ser maior do que a própria história. Com seu estilo moderno e sensível, Nicholas Ray nitidamente demonstra simpatia por Nick Romano, mesmo que o personagem frequentemente cometa erros bastante condenáveis. Já Bogart, generosamente em segundo plano, serve como um guia para o público, comentando o itinerário do jovem protagonista com a experiência tanto de um ator com uma longa estrada quanto como um advogado calejado com os meandros nem sempre justos da justiça. Seu expressivo monólogo em defesa de Romano, nos últimos minutos – que deu dor de cabeça a um ator pouco acostumado a cenas tão longas e sem cortes – é um dos pontos altos do filme, comprovando sem margem para dúvidas que Ray, mais do que um mero cineasta, era um homem de cinema com coração de sociólogo.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...