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sábado

O ESCORPIÃO DE JADE


O ESCORPIÃO DE JADE (The curse of the Jade Scorpion, 2001, Dreamworks Pictures/Gravier Productions, 113min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Fei Zhao. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Suzanne McCabe. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Jessica Lanier. Produção executiva: Stephen Tenenbaum. Produção: Letty Aronson. Elenco: Woody Allen, Helen Hunt, Dan Ayckroyd, Charlize Theron, Wallace Shawn, Elizabeth Berkley, David Ogden Stiers. Estreia: 05/8/2001 (Hollywood Film Festival)

Nova York, 1940. CW Briggs trabalha há dezesseis anos como investigador em uma agência de seguros, e é considerado um dos melhores do ramo por, segundo gosta de afirmar, ter a mente criminosa necessária para o trabalho. Arraigado a seus métodos clássicos, Briggs vê em Betty Ann Fitzgerald, a mais nova contratada do escritório, uma ameaça à sua estabilidade profissional: cheia de ideias para renovar o ambiente, ela não faz a menor questão de esconder sua antipatia gratuita pelo veterano colega. A relação de total antagonismo entre os dois não é desconhecida pelos outros empregados, ao contrário do relacionamento secreto entre Betty Ann e seu chefe, Chris Magruder - que há tempos promete abandonar a família para assumir o novo relacionamento. Ambos frustrados - por motivos diferentes - e necessitados de momentos de diversão, os dois aceitam o convite para a apresentação de um mágico em uma casa noturna e tem suas rotinas transformadas: hipnotizados pelo misterioso Voltan, eles divertem a plateia ao se revelarem apaixonados quando em transe - e, à sua revelia e sem o conhecimento de mais ninguém, passam, a partir de então, a cometer, sob o comando do mago, uma série de roubos de joias que podem colocá-los em sérios problemas com a justiça. Além disso, tal situação acaba os aproximando mais do que gostariam de admitir.

Lançado em 2001 e distribuído pela Dreamworks Pictures, "O escorpião de jade" estabeleceu duas marcas numéricas para a carreira de Woody Allen: não apenas era o filme mais caro do diretor até então (com um orçamento de 28 milhões de dólares) como estreou em cerca de 900 salas nos EUA, um lançamento bastante generoso para um cineasta acostumado a circuitos bem mais modestos. Tal providência não foi suficiente, no entanto, para chamar a atenção do público, que não se deixou conquistar por seu humor inteligente e produção caprichada. Apresentando uma reconstituição de época cuidadosa e uma paleta de cores das mais elegantes, "O escorpião de jade" é uma espécie de homenagem do diretor às comédias românticas da década de 1940, estreladas por Cary Grant e Katharine Hepburn. Repleto de diálogos brilhantes e com uma trama original e imprevisível, o filme reafirma a fascinação de Allen por mágicos e afins (elementos com que já havia brincado em "Édipo arrasado" (1989) e "Simplesmente Alice" (1990)), além de oferecer a Helen Hunt um de seus raros bons papéis depois do Oscar por "Melhor é impossível (1997). Hunt, que teve o privilégio de ler o roteiro inteiro antes de aceitar o trabalho (e mesmo assim com um mensageiro esperando na sala ao lado para levar o script de volta), está nitidamente à vontade como Betty Ann Fitzgerald, uma mulher inteligente e sagaz, mas incapaz de se deixar envolver pela mais antiga das mentiras masculinas. Na pele de Briggs, porém, Allen não vai além do que se espera de uma atuação sua: não à toa, ele detesta seu desempenho no filme, frustrado pela recusa de suas duas primeiras opções, Tom Hanks e Jack Nicholson.

 

Não que Allen não esteja em boa forma. Como ele mesmo reconhece, seus dons como ator são bastante restritos, mas CW Briggs é um personagem que cabe em suas limitações. Levemente atrapalhado, metido a conquistador, cheio de manias e com uma saudável dose de neuroses, Briggs diverte a plateia com tiradas rápidas e repletas de um sarcasmo delicioso. Sua parceria com Helen Hunt é preciosa, e a participação mais do que especial de Charlize Theron (depois de uma rápida aparição em "Celebridades", de 1999) incendeia a tela em poucos minutos. Além disso, ao contrário do que acontece na maioria de sua filmografia, o roteirista Allen não se obriga a ter pressa: perto de sua média de 90 minutos de duração, as quase duas horas de "O escorpião de jade" soam como um épico - e, por incrível que pareça, não há nenhuma gordurinha na narrativa, que flui equilibrada entre a comédia romântica à moda antiga e um leve drama policial. Aliás, se há algo do que se reclamar é justamente o fato desse equilíbrio prejudicar o aprofundamento das duas histórias contadas, ainda que elas dialoguem profundamente: apesar da trama dos roubos render bons momentos, é a relação entre Briggs e Betty Ann que torna o filme notável.

Relegado a um segundo plano na carreira de Allen, "O escorpião de jade" estreou nos EUA pouco mais de um mês antes dos atentados ao World Trade Center e, em um gesto de simpatia, o cineasta pisou pela primeira vez no palco da cerimônia do Oscar no começo do ano seguinte para apresentar uma homenagem à Nova York. Em uma de suas tiradas geniais, ele começou seu discurso afirmando que, ao receber um telefonema da Academia, pensou que fosse para um pedido de desculpas por seus integrantes terem ignorado seu filme. Teria sido compreensível: mesmo que "O escorpião de jade" não seja uma obra-prima, seus valores de produção são inegáveis, e uma indicação à estatueta de roteiro original era mais que merecida. Pouco visto e pouco comentado, é um filme que precisa ser descoberto e alçado à lista dos melhores do diretor.

segunda-feira

ATÔMICA

ATÔMICA (Atomic blonde, 2017, Universal Pictures/Focus Features, 115min) Direção: David Leitch. Roteiro: Kurt Johanstad, graphic novel de Antony Johnston, Sam Hart. Fotografia: Jonathan Sela. Montagem: Elisabet Ronaldsdóttir. Música: Tyler Bates. Figurino: Cindy Evans. Direção de arte/cenários: David Scheunemann/Zsuzsa Mihalek, Mark Rosinski. Produção executiva: David Guillod, Kurt Johanstad, Nicky Meyer, Joe Nozemak, Steven V. Scavelli, Marc Shaberg, Ethan Smith. Produção: A.J. Dix, Eric Gitter, Beth Kono, Kelly McCormick, Peter Schwering, Charlize Theron. Elenco: Charlize Theron, James McAvoy, Eddie Marsan, John Goodman, Toby Jones, James Faulkner, Sofia Boutella, Bill Skarsgaard, Til Schweiger. Estreia: 12/3/2017

Quando "Mad Max: estrada da fúria" (2015) surpreendeu todo mundo com uma arrecadação internacional de mais de 375 milhões de dólares e seis Oscar (além das indicações a melhor filme e diretor), os executivos chegaram à conclusão de que a) filmes de ação comandados por mulheres ainda era um nicho consideravelmente promissor e b) Charlize Theron, com sua beleza e carisma, parecia ser a atriz ideal para preencher essa lacuna no gênero, a despeito do fracasso de bilheteria de "Aeon Flux", estrelado por ela em um já distante 2005. Por coincidência, destino ou inconsciente coletivo na indústria, a bela Theron vinha tentando há cinco anos tirar do papel a adaptação da graphic novel "The coldest city", de Antony Johnston e Sam Hart, e viu no interesse dos estúdios a chance de finalmente o filme a sair dos planos e tornar-se realidade. Com um custo modesto de cerca de 30 milhões de dólares, por fim o filme saiu: como novo nome, "Atomic Blonde", um coastro em ascensão - James McAvoy - e um visual arrebatador - cortesia da fotografia de Jonathan Sela. Fugindo da estreia em pleno verão - quando os blockbusters são lançados em busca dos dólares de quem está de férias -, "Atômica" acabou se dando bem, arrecadando pouco mais de 100 milhões pelo mundo.

Dirigido por David Leitch - estreando como diretor depois da experiência de co-dirigir "John Wick: de volta ao jogo", de 2014 -, "Atômica" é um filme que deve muito à trilogia Jason Bourne, mas de certa forma consegue andar sozinho. Sua trama não é nada criativa - algo que há muito não se vê em filmes que tratam de espionagem - e seus personagens são rasos, sem qualquer traço de sutileza ou complexidade. No entanto, situar sua trama na iminência da queda do muro de Berlim permite ao diretor retratar a efervescência da Alemanha dos anos 1980 através dos cenários e de uma trilha sonora genial, que inclui New Order, Nena, Sioux And The Banshees, The Clash, David Bowie (que chegou a negociar uma participação no elenco pouco antes de sua morte) e George Michael - cuja "Father figure" enfeita uma das várias lutas corpo-a-corpo do filme. Já o enredo, rocambolesco e um tanto confuso em alguns momentos, acaba por se tornar, diante da beleza de Theron e das cenas de ação, quase desnecessário: é apenas um fio que conduz a narrativa, repleta de reviravoltas, traições e paranoias típicas da Guerra Fria.


Quando o filme começa, a espiã inglesa Lorraine Broughton (Charlize Theron, no auge da sensualidade) está sendo interrogada por Eric Gray (Toby Jones), um agente do MI6 britânico, e Emmett Kurzfeld (John Goodman), agente da CIA, a respeito de sua estadia em Berlim pouco antes da queda do muro. Lorraine foi ao país para pôr as mãos em uma lista que contém os nomes de todos os agentes secretos - tanto dos EUA quanto da Rússia. Por causa dessa lista, o agente inglês James Cascoigne (Sam Hargrave) foi morto - e Lorraine tem um motivo a mais para encontrar os responsáveis por sua morte, já que teve um romance (também secreto) com Cascoigne. Quem ajuda a bela espiã em sua trajetória de violência e traição é seu contato em Berlim, o pouco ortodoxo David Percival (James McAvoy) - e a misteriosa Delphine Lasalle (Sofia Boutella) também parece saber mais do que aparenta. Em uma narrativa que vai e vem no tempo, o espectador segue os preparados e misteriosos agentes pelas ruas de Berlim - uma cidade literalmente dividida.

Quando a sessão de "Atômica" termina, a sensação é de ter dado uma volta na montanha-russa. Explorando o talento de Charlize Theron em fazer suas próprias cenas de luta - depois de um treinamento com nada menos que oito preparadores físicos e com dois dentes quebrados como consequência -, David Leitch coreografa tais embates com o máximo de veracidade possível. Apesar de as cenas de ação dominarem o roteiro (ao invés de qualquer minimalismo como acontece em "O espião que sabia demais", por exemplo), não há, em nenhum momento, a sensação de dèja-vu: por mais que se saiba que a protagonista sempre vai vencer os duelos, não deixa de ser empolgante acompanhá-los com prazer. A química entre Theron e James McAvoy (apesar de não haver romance entre seus personagens) é convincente, e o elenco coadjuvante empresta prestígio à produção. Mesmo que soe como mais do mesmo, "Atômica" cumpre o que promete - não à toa, rendeu mais de 100 milhões de dólares pelo mundo e confirmou o status de grande estrela do gênero à bela Charlize Theron - uma das produtoras do filme. Diversão descompromissada e acima da média.

sexta-feira

MAD MAX: ESTRADA DA FÚRIA

MAD MAX: ESTRADA DA FÚRIA (Mad Max: Fury Road, 2015, Warner Bros/Village Roadshow Pictures, 120min) Direção: George Miller. Roteiro: George Miller, Brendan McCarthy, Nico Lathouris, personagens criados por George Miller, Byron Kennedy. Fotografia: John Seale. Montagem: Margaret Sixel. Música: Junkie XL. Figurino: Jenny Beavan. Direção de arte/cenários: Colin Gibson/Nicki Gardiner, Katie Sharrock, Lisa Thompson. Produção executiva: Bruce Berman, Graham Burke, Chris DeFaria, Steven Mnuchin, Iain Smith, Courtenay Valente. Produção: George Miller, Doug Mitchell, PJ Voeten. Elenco: Tom Hardy, Charlize Theron, Nicholas Hoult, Zoe Kravitz, Hugh Keays-Byrne, Nathan Jones, Rosie Huntington-Whiteley. Estreia: 07/5/15

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (George Miller), Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Efeitos Visuais, Maquiagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 6 Oscar: Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som, Maquiagem 

É fato público e notório que a Academia de Hollywood não é muito chegada em admitir as qualidades de blockbusters de ação quando vai escolher seus preferidos na hora de conceder sua honra máxima - o Oscar. Raramente um filme como "Star Wars" (77), "Caçadores da Arca Perdida" (81) e "A origem" (2010) são reconhecidos com indicações além das técnicas - uma reclamação que não cessa junto ao grande público. Por isso, não deixou de ser uma grande e grata surpresa quando "Mad Max: Estrada da Fúria", quarto capítulo da saga criada por George Miller em 1979, chegou à cerimônia de 2016 com chances de vitória em nada menos que 10 categorias - incluindo melhor filme e diretor. Unanimemente incensado pela crítica, eleito melhor filme pelos críticos de Chicago e Los Angeles - além do National Board of Review - e com uma bilheteria mundial de quase 400 milhões de dólares, a produção não apenas mereceu plenamente as seis estatuetas recebidas como revestiu o gênero de uma aura de respeito e prestígio poucas vezes visto. Não é para menos: um espetáculo visual e cinético avassalador e corajoso em apelar para a violência sem glamourizá-la ou banalizá-la, "Mad Max: Estrada da Fúria" é o filme de ação que os fãs pediram a Deus: impactante, empolgante e divertido sem ser bobo. Além disso, é uma aula de edição, sonorização e fotografia.

O principal mérito de "Mad Max: Estrada da Fúria" foi deixar de lado a reverência aos três primeiros filmes da série, procurando uma nova geração de espectadores que certamente não os assistiram apesar do sucesso. Dessa forma, não apenas o novo capítulo é quase um reset mas também pode ser visto sem nenhuma informação anterior, sem prejuízo da compreensão da história (que, a bem da verdade, quase inexiste). Um filme de ação no sentido mais radical da palavra, "Estrada da Fúria" prescinde de muitos diálogos, mergulhando a plateia em uma experiência sensorial sem pausas - dos primeiros aos últimos minutos só o que se vê na tela é uma sucessão de sequências abismais de adrenalina pura, fotografada com precisão cirúrgica pelo veterano John Seale e editada com energia palpável por Margaret Sixel - esposa do diretor e vencedora do Oscar por seu meticuloso trabalho. Outro grande acerto foi dividir a responsabilidade do protagonismo entre Max (interpretado pelo ótimo Tom Hardy, assumindo o lugar de Mel Gibson sem medo das comparações) e a já icônica Imperatriz Furiosa (em atuação inesquecível de Charlize Theron): com dois personagens centrais que unem as forças na segunda e explosiva metade, o filme de Miller não perde o ritmo em nenhum momento e expande sua narrativa para prováveis sequências - o próprio Tom Hardy já tem contrato assinado para outros três filmes.


Sem explicar muito e deixando para o público preencher as lacunas da história, o roteiro de "Estrada da Fúria" se passa em um futuro pós-apocalíptico, em um deserto australiano carente de água e combustível e dominado pelo déspota Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne), que tem toda a população a seu redor na dependência de seu poder e um grupo de mulheres para lhe dar filhos e eternizar seu império. Revoltada com a situação, uma de suas pessoas de confiança, Furiosa, resolve fugir de seu jugo e, acompanhada de um grupo de outras rebeldes (inclusive a preferida do tirano, grávida), aproveita uma chance de atravessar o deserto e, voltando para casa, desafiar o cruel e violento ditador. No caminho, ela encontra Max, um homem de passado traumático, assombrado por decisões tomadas em sua trajetória e que é escravo de Immortan Joe, servindo como doador compulsório de sangue para os soldados da cidadela. Agressivo e experiente, Max demora a conquistar a confiança de Furiosa, mas quando ela começa a ser perseguida pelo deserto, os dois se unem no objetivo de fugir e destruir a onipotência do sanguinário monstro.

Com dois atos bem definidos - uma fuga na primeira metade e uma corrida na segunda - e personagens fortes e carismáticos, "Mad Max: Estrada da Fúria" é a radicalização dos filmes de ação: não há espaço para piadinhas ou romances, a violência é extrema e desglamourizada, o ritmo é absurdamente alucinante e a história é apenas mera desculpa para efeitos espetaculares - e em sua maioria absoluta sem auxílio de CGI. George Miller surpreende a plateia com momentos de poesia visual desconcertante e em seguida choca com uma sanguinolência cada vez mais rara em uma época em que os filmes precisam ser cuidados com a classificação etária (e com isso fazer mais dinheiro nas bilheterias). Sem preocupações desse tipo, o cineasta conta sua história com energia de principiante e sabedoria de veterano - e consegue deixar de queixo caído não apenas o público mas também seu elenco: nem Charlize Theron nem Tom Hardy tinham ideia de como o resultado final sairia até a primeira e consagradora sessão. Uma obra-prima do gênero, "Estrada da Fúria" pode até ter saído do Oscar sem as principais estatuetas, mas seu lugar está garantido entre os grandes filmes de 2015 - e até da década. Imperdível!

segunda-feira

PROMETHEUS

PROMETHEUS (Prometheus, 2012, 20th Century Fox, 124min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Jon Spaihts, Damon Lindelof, elementos criados por Dan O'Bannon, Ronald Shusett. Fotografia: Dariusz Wolski. Montagem: Pietro Scalia. Música: Marc Streitenfeld. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Sonja Klaus. Produção executiva: Michael Costigan, Michael Ellenberg, Mark Huffam, Damon Lindelof. Produção: David Giler, Walter Hill, Ridley Scott. Elenco: Noomi Rapace, Michael Fassbender, Logan Marshal-Green, Charlize Theron, Guy Pearce, Idris Elba, Rafe Spall, Patrick Wilson. Estreia: 11/4/12

Em 1979, o filme "Alien: o oitavo passageiro" estreou e mudou a forma como o público e a crítica passaram a enxergar a ficção científica no cinema. Referência absoluta no gênero desde então, gerou fortunas com suas sequências - dirigidas por James Cameron (86), David Fincher (92) e Jean-Pierre Jeunet (98) - e nunca deixou de suscitar especulações a respeito de possíveis novas continuações. Demorou mais de três décadas, porém, para que seu diretor original, Ridley Scott, retomasse as rédeas do universo que ajudou a moldar. Para surpresa de muitos, porém, o cineasta inglês não retomou as aventuras da destemida Tenente Ripley, interpretada por Sigourney Weaver nos quatro primeiros capítulos da série: em "Prometheus", ele conta, de maneira elegante mas não menos tensa, fatos acontecidos décadas antes de tudo que foi mostrado no original, em uma jogada ousada e inteligente. Foi parcialmente bem-sucedido: nos EUA, a bilheteria foi apenas razoável (126 milhões de dólares contra o orçamento generoso de 130), mas no resto do mundo, aproveitando-se da fama de uma das marcas mais famosas de Hollywood, chegou perto de 280 milhões. Longe de ser também uma unanimidade entre a crítica, ficou no meio-termo entre aqueles que louvaram a coragem do diretor em fugir do óbvio e aqueles que esperavam muito mais do reencontro do criador com a criatura. Mas, afinal, "Prometheus" é um bom filme ou apenas um mero caça-níqueis de luxo?


Há duas maneiras de se assistir e julgar "Prometheus": como um espectador neófito, a quem todo o universo criado nos quatro primeiros filmes simplesmente inexiste (e a quem portanto tudo é novidade, como um filme qualquer do gênero), ou como um fã da série, ansioso por conhecer as origens de um dos monstros mais longevos da ficção científica cinematográfica (e, consequentemente, muito mais exigente quando se trata do assunto). Para ambas as tribos, o roteiro oferece belos momentos de ação e suspense - tudo orquestrado com a elegância natural de Ridley Scott e um visual estonteante, cortesia da bela fotografia de Dariusz Wolski e da extraordinária direção de arte, concebida a partir do filme original de 1979, mas mostrada ao público do século XXI com todo o requinte que um orçamento generoso e efeitos visuais caprichados podem proporcionar. Porém, ao tentar abraçar esses dois mundos, Scott acabou por ficar no meio do caminho entre a claustrofobia do primeiro capítulo e o senso de espetáculo que James Cameron injetou na continuação de 1986. Coerentemente, em seus dois primeiros atos - em que a atmosfera de tensão sobrepõe-se à ação graficamente violenta - Scott mostra-se mais à vontade em conduzir sua narrativa, dosando com parcimônia momentos mais contemplativos com sequências que dão pistas sobre o que virá pela frente, quando seus personagens finalmente serão obrigados a encarar que não estão sozinhos no universo - e, pior ainda, o estão dividindo com uma espécie não exatamente amistosa.


A trama de "Prometheus" se passa em 2093 - vinte e nove anos antes, portanto, dos acontecimentos do primeiro "Alien". A dupla de arqueologistas Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) faz parte da seleta tripulação escolhida pelo milionário Peter Weyland (Guy Pearce sob pesadíssima maquiagem) para explorar vida extra-terrestre, uma vez que foram responsáveis por encontrar, em uma remota ilha da Escócia algum tempo antes, desenhos rupestres que confirmam suas teorias de há recados para a humanidade desde tempos imemoriais. Depois de hibernar por alguns anos, o grupo de cientistas desembarca em um planeta desconhecido, com a missão de encontrar aqueles que acredita-se ser os criadores da raça humana. A diretora da missão, a ambiciosa Meredith Vickers (Charlize Theron), os proíbe de qualquer contato com tais seres e permanece na nave, ao contrário de David (Michael Fassbender), um androide perfeitamente construído para conviver entre os humanos que é o homem de confiança de Weyland. Assim como em "Alien", eles encontram o que não deveriam encontrar, e sobem a bordo de posse da cabeça de um humanoide que encontram no planeta. Durante a investigação que busca mais detalhes sobre o encontrado, uma série de violentos incidentes que vitimam os cientistas fazem com que Vickers e Shaw entrem em conflito sobre como lidar com a situação e de que forma podem sair com vida do planeta - e ao mesmo tempo manter a salvo as descobertas que seus estudos realizaram.

Assim como acontece em todos os episódios da série "Alien", a trama de "Prometheus" gira em torno de um alienígena assassino que vai trucidando cada um dos personagens, normalmente apresentados com pouca profundidade pelo roteiro. No filme de Scott não é diferente. Com exceção da protagonista vivida por Noomi Rapace (a estrela da versão sueca de "Os homens que não amavam as mulheres"), nenhum dos tripulantes da nave é explorado além de um nível superficial pelo roteiro - até mesmo o romance entre Elizabeth e Charlie é tratado sem muito cuidado, apesar da boa química entre os atores. Charlize Theron está bem na pele da ambiciosa Meredith Vickers, mas não tem muito o que fazer além de servir de um empecilho a mais na missão de seus colegas de viagem. Sobra, então, a Michael Fassbender roubar a cena mais uma vez: como o androide David, ele chama a atenção da plateia desde sua primeira cena, transmitindo com perfeição todas as nuances de um personagem que, mesmo não sendo humano, apresenta muito mais complexidades do que se poderia esperar. É Fassbender quem dá o toque de mais sensibilidade de um filme que, apesar de alguns exageros inverossímeis (que tal uma personagem sair correndo depois de uma cesareana?), diverte e impressiona pela qualidade técnica. Não chega a ser um "Alien: o oitavo passageiro" - mas algum dos filmes da série chega?

JOVENS ADULTOS

JOVENS ADULTOS (Young adult, 2011, Paramount Pictures, 98min) Direção: Jason Reitman. Roteiro: Diablo Cody. Fotografia: Eric Steelberg. Montagem: Dana E. Glauberman. Música: Rolfe Kent. Figurino: David Robinson. Direção de arte/cenários: Michael Ahern/Carrie Stewart. Produção executiva: Helen Estabrook, Nathan Kahane, John Malkovich, Steven Rales. Produção: Diablo Cody, Lianne Halfon, Mason Novick, Jason Reitman, Russell Smith. Elenco: Charlize Theron, Patrick Wilson, Patton Oswalt, Elisabeth Reaser, Mary Beth Hurt, Collette Wolff. Estreia: 09/12/11

Mavis Gary é uma escritora de sucesso. Quer dizer, em termos: ela é a ghost-writer uma série de livros adolescentes (mercado que nos EUA recebe o nome pomposo de “literatura para jovens adultos”) que está com os dias contados. Passa os dias curando ressacas fenomenais à base de litros homéricos de Diet Coke e programas ruins de televisão. É arrogante, egoísta e imatura. Vive em Minneapolis mas não consegue esquecer que saiu de uma pequena cidade do interior, onde ainda moram os pais – com quem mal se comunica. Um dia, curtindo uma depressão rotineira e pressionada pelos editores que cobram o último livro da série, Mavis recebe um email de um antigo namorado, feliz e realizado com a chegada de seu primeiro bebê. É o que basta para acordá-la do marasmo: munida da certeza de que o rapaz é o grande amor de sua vida e que está insatisfeito com a vida medíocre que leva, Mavis pega a estrada na companhia de seu fiel cachorrinho Dolce com o objetivo de declarar-se a ele e juntos recomeçarem sua história de amor interrompida anos antes.
Mavis Gary não é exatamente uma pessoa das mais agradáveis. Mas, apesar de ser perigosamente parecida com muita gente, é apenas uma personagem criada pela mente de Diablo Cody, a ex-stripper que ganhou um Oscar pelo roteiro de “Juno”, em 2008. Dona de características bem pouco afáveis e um caráter não exatamente dos melhores, Mavis só não é francamente repulsiva porque é interpretada com veracidade e inteligência por Charlize Theron, uma atriz tão dotada que consegue o impossível: dar-lhe alma e uma série de nuances que, em mãos outras, jamais seriam tão exploradas. Injustamente esquecida pela Academia por seu desempenho irretocável, Theron carrega nas costas o filme de Jason Reitman, uma comédia amarga, melancólica mas bastante ácida que faz um retrato pouco elogioso do american way of life sem que, para isso, precise apelar para o riso fácil ou a caricatura. Assim como nos trabalhos anteriores de Reitman – em especial “Obrigado por fumar” (06) e “Amor sem escalas” (09) – o humor se faz pela ironia e pelo desenho dos personagens, tão reais que poderiam estar sentados ao lado do espectador.


Quando Mavis chega à sua cidade natal, Mercury, dotada de toda a prepotência de alguém que se considera superior a todo o resto da humanidade, o público ainda não sabe do que ela é capaz para atingir seus objetivos – e talvez nem mesmo ela saiba. É somente quando ela encontra um antigo colega de escola, Matt Freulach (o ótimo Patton Oswaldt) que sua personalidade real começa a aflorar diante da plateia. Vítima de um espancamento na adolescência – que deixou de ser um crime de ódio quando descobriu-se que na verdade ele não era gay como se pensava – Matt vive com a irmã, carrega sequelas pesadas da surra e é o típico nerd que coleciona bonequinhos e faz bebida artesanal na garagem. Por uma certa ironia do destino, é justamente ele quem irá se tornar o confidente e o grilo falante de Mavis quando ela começar sua cruzada romântico/kamikaze pelo amor do pacato Buddy Slade (Patrick Wilson, simpático e apático como sempre). Casado, feliz e sem ter a menor ideia dos planos nefastos de sua ex-namorada, Buddy a recebe de braços abertos – e dá início a um processo que abrirá antigas feridas há muito cicatrizadas.



Apesar de fazer de Mavis uma adorável vilã – com diálogos que de tão ácidos tornam-se muito engraçados – o roteiro de “Jovens adultos” não a trata com condescendência. Mesmo que ela tenha seus motivos para destilar tanta amargura (motivos que são explicados na melhor cena do filme, quando ela toma um porre na festa de batizado do bebê de Buddy), Cody e Reitman fogem da tentação de engendrar um final bonitinho e redentor para sua protagonista, que tampouco aprende, em seu caminho, aquelas lições de vida que tanto agradam aos produtores hollywoodianos. Como a vida das pessoas de Mercury, a existência de Mavis não deixa de ser medíocre como todo mundo pensa, e nem ela é tão famosa quanto gostaria de ser. Sua arrogância – que desfila diante da recepção do hotel em que se hospeda, nos bares pasteurizados onde encontra Buddy e até nas lojas de departamento onde procura roupas “para reconquistar meu namorado” (em uma sequência impagável) – é fruto de um profundo senso de inferioridade, que se revela frequentemente em seu desespero em parecer importante. No fundo, Mavis é a personagem mais digna de pena do filme – mas nem por isso menos passível de críticas. E é aí, nessa complexidade, que reside o brilhantismo de Charlize Theron.
Linda como sempre, Theron deita e rola como Mavis Gary. Sem medo de despertar a antipatia do público, ela entrega uma interpretação desprovida de maneirismos, equilibrando o tom quase surreal de seus objetivos com um naturalismo espantoso que deixa verossímil até mesmo um inesperado encontro sexual que, de certa forma, ilumina o verdadeiro tema do filme de Reitman: a solidão. “Jovens adultos” – um título apropriado e dotado de um duplo sentido bastante feliz – fala sobre o medo de ficar só, sobre a desorientação de uma geração e sobre  falso dourado da fama e da glória sem cair em pregações morais ou sentimentalismo barato. É mordaz e realista dentro de suas limitações de gênero cinematográfico. E mais uma prova do talento de Reitman em fazer o espectador rir de si mesmo e de suas mazelas interiores. Um belo (e subestimado) filme.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...