Mostrando postagens com marcador 1989. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 1989. Mostrar todas as postagens

segunda-feira

SPLENDOR

 


SPLENDOR (Splendor, 1989, Cecchi Gori Group/Tiger Cinematografica/Studio El/Gaumont/Warner Bros, 115min) Direção e roteiro: Ettore Scola. Fotografia: Luciano Tovoli. Montagem: Francesco Malvestito. Música: Armando Torovaioli. Figurino: Gabriella Pescucci. Direção de arte/cenários: Luciano Ricceri/Ezizo Di Monte. Produção: Mario Cecchi Gori, Vittorio Cecchi Gori. Elenco: Marcello Mastrroianni, Massimo Troisi, Marina Vlady, Paolo Panelli, Pamela Villoresi. Estreia: 09/3/89

Dois filmes italianos, lançados com a diferença de seis meses entre si, fizeram com que plateias internacionais voltassem os olhos ao passado do cinema, com seus clássicos incontestáveis servindo de matéria-prima para uma jornada de nostalgia e emoção. Um deles, "Cinema Paradiso" - que estreou no final de setembro de 1988 - entrou diretamente no coração do público e acabou seu caminho com um merecido Oscar de melhor filme estrangeiro. O outro, "Splendor", dirigido pelo veterano Ettore Scola, chegou às telas em março de 1989 mas, apesar da presença sempre hipnotizante de Marcello Mastroianni, não obteve o mesmo reconhecimento por parte dos espectadores. Bem menos sentimental do que a viagem de Giuseppe Tornatore à sua pequena Giancaldo, o filme de Scola só apela para as lágrimas em seus belos minutos finais e talvez por isso - e pela provável sensação de que sua história havia recém sido contada - tenha ficado à sombra de seu rival mais consagrado. Isso quer dizer que é menor que ele? De forma alguma. Apesar da temática soar semelhante, "Cinema Paradiso" e "Splendor" tem qualidades e narrativas diferentes - pode-se até dizer que um complementa o outro e formam um belo panorama sobre a importância do cinema em existências aparentemente banais. E o fato de um deles contar com Mastroianni no elenco - um dos ícones da produção cinematográfica europeia (e da italiana em particular) torna tudo ainda mais interessante.

Enquanto "Cinema Paradiso" apostava na emoção deslavada e pontuava sua trama com uma pungente história de amor, "Splendor" centra sua narrativa em personagens adultos, que se equilibram na tênue linha que separa o idealismo romântico e o pragmatismo econômico e social. Seu protagonista, Jordan (Marcello Mastroianni), é o dono de uma sala de cinema que, a despeito de seus dias de glória, se vê às portas da falência. Com a concorrência da televisão e a queda de público, ele tenta quixotescamente manter as portas abertas - apelando até mesmo para possíveis shows de striptease -, mas sabe que o fim é inevitável. Com a ajuda do projecionista Luigi (Massimo Troisi) e da fiel Chantelle (Marina Vlady), Jordan busca a solução de seus problemas mesmo ciente da inutilidade de seus esforços. Tendo herdado o cinema de seu pai - que projetava filmes ao ar livre durante sua infância -, Jordan não vê seu trabalho como um mero negócio, e sim como um estilo de vida, uma profissão de fé. Seu amor pela rotina no salão significa mais para ele do que apenas uma prestação de serviços: apaixonado por filmes, ele os tem como marcas indeléveis para cada fase e momento de sua vida, desde os dias de criança até a maturidade. Quando finalmente joga a toalha e vende o espaço para um negociante de móveis, é impossível não se deixar invadir por uma profusão de memórias - nem todas em ordem cronológica, mas todas de vital importância em sua trajetória pessoal.

 

Sem a trilha sonora arrasadora de Ennio Morricone e sem o apelo da pureza infantil do pequeno Salvatore Cascio - dois dos maiores destaques do filme de Tornatore -, "Splendor" perde muito na comparação em termos sentimentais. Scola não é um diretor que manipula emoções de forma óbvia, preferindo sempre a sutileza e o tom sóbrio de suas narrativas. Sua opção em contar a história fora de ordem cronológica é válida, mas peca em não permitir ao espectador uma conexão mais profunda com seus personagens, que muitas vezes soam superficiais e pouco interessantes. O romance entre Luigi e Chantelle, por exemplo, falha em cativar a audiência, e até mesmo a relação de Jordan com a família não é aprofundada o bastante para causar algum tipo de catarse. Mastroianni é sempre um ator de presença forte, mas, com exceção da bela sequência final (e um ou outro momento pontual) não entrega a performance memorável que se poderia esperar de um encontro com Ettore Scola, com quem trabalhou em outras ocasiões - como no espetacular "Um dia muito especial" (1977). E Massio Troisi não está muito diferente do que demonstrou alguns anos depois com "O carteiro e o poeta" (1994), que lhe rendeu uma indicação póstuma ao Oscar de melhor ator.

Mesmo sem alcançar todo o seu potencial emotivo e de ter sido eclipsado pela obra-prima de Giuseppe Tornatore, "Splendor" ainda tem muito coisa a ser admirada. Com um roteiro que oferece pinceladas da história política e social da Itália pós-guerra - característica da obra do diretor - e uma produção caprichada que reconstitui com precisão todas as épocas que abarcam a história do filme, a declaração de amor de Scola ao cinema atinge em cheio o coração da plateia em seus minutos finais (uma referência direta ao clássico "A felicidade não se compra", de Frank Capra) e, no decorrer de sua narrativa carinhosa, brinda os fãs da sétima arte com flashes de grandes estrelas e cenas de produções inesquecíveis - e Scola, modesto que era, abdicou de colocar nesses clipes alguns de seus trabalhos geniais. Ou alguém acha que "Nós que nos amávamos tanto" (1974) ou "Feios, sujos e malvados" (1976) não poderiam estar nesta lista?

quinta-feira

ELA É O DIABO


ELA É O DIABO (She-devil, 1989, Orion Pictures, 99min) Direção: Susan Seidelman. Roteiro: Barry Strugatz, Mark R. Burns, romance de Fay Weldon. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Craig McKay. Música: Howard Shore. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/George DeTitta Jr.,William Durning Sr.. Produção: Jonathan Brett, Susan Seidelman. Elenco: Meryl Streep, Roseanne Barr, Ed Begley Jr., Linda Hunt, Sylvia Miles. Estreia: 06/12/89

Até 1989, com a estreia de "Ela é o diabo", havia uma cobrança quase unânime de público e crítica para que Meryl Streep, já então considerada uma das maiores atrizes de Hollywood - e com dois Oscar no currículo - fizesse uma comédia. Não uma comédia sutil, como "Manhattan" (1979), ou de tintas românticas, como "A difícil arte de amar" (1986), mas uma comédia rasgada, que pudesse apresentar à plateia um lado menos sombrio e dramático de seu potencial. Saída do denso "Um grito no escuro" (1988), que lhe renderia mais uma indicação ao prêmio da Academia, Streep acabou finalmente se rendendo à expectativa dos fãs ao entrar no elenco de "Ela é o diabo", que, dirigido pela mesma Susan Seidelman de "Procura-se Susan desesperadamente" (1986), lhe daria a chance de explorar ainda mais seus talentos. Como forma de inovar ainda mais e sair de vez da zona de conforto, Streep abriu mão do papel de esposa sofredora, traída e abandonada - e posteriormente vingativa - e escolheu viver uma escritora fútil, vaidosa e egocêntrica. Não poderia ter dado mais certo: com um frescor raro e um senso cômico preciso, Meryl Streep conseguiu ofuscar aquela que deveria ser a principal estrela do filme - a comediante Roseanne Barr, em sua estreia no cinema - e deixou na audiência a sensação de que realmente ela poderia fazer qualquer papel.

Baseado no romance "The life and loves of s She-devil", da britânica Fay Weldon, publicado pela primeira vez em 1983, o roteiro de "Ela é o diabo" transfere a ação da Inglaterra para os Estados Unidos e altera o tom um tanto pesado do original para oferecer uma atmosfera mais alto-astral ao público - o que difere bastante da primeira adaptação do livro, feita em forma de minissérie em 4 capítulos para a televisão, em 1986. A escolha de Roseanne Barr - bastante popular nos EUA graças à série "Roseanne" - também já demonstrava que Seidelman não tinha intenção de pesar a mão em sua visão da história, e sim pretendia transformá-la na base de um conto feminista e esperançoso. Com um enredo que, a despeito da origem geográfica, fazia sentido no mundo todo - não à toa teve duas versões no cinema indiano, durante a década de 1990 -, "Ela é o diabo" assumiu importância social inesperada ao falar ao público feminino de forma franca e divertida... e ao eleger como protagonista uma mulher longe do ideal estético e cultural fomentado pela sociedade do século XX. Ruth Pratchett, a personagem principal, está acima do peso, se veste mal, não é exatamente vaidosa (sua verruga monstruosa no rosto pode soar exagerada, mas não deixa de ser um símbolo a mais de sua rebeldia em relação ao convencional) e tampouco tem interesses além da casa, dos filhos e do marido - mas é capaz de qualquer coisa para dar o troco quando se sente apunhalada pelas costas.


 

Antes que Roseanne Barr assumisse o papel de Pratchett - que lhe cai como uma luva, diga-se de passagem -, uma lista de atrizes dos mais variados tipos físicos, etários e currículos foram sondadas e/ou testadas. É difícil imaginar que Kathy Bates, Bette Midler, Rosie O'Donnell e Beverly D'Angelo tenham sido imaginadas para o mesmo papel para o qual foram cogitadas Michelle Pfeiffer, Barbara Hershey, Ally Sheedy e Kathleen Turner, mas foi o que aconteceu. O mesmo ocorreu com a escalação de Ed Begley Jr. para viver Bob, o marido de Ruth: se Jeff Daniels e Jeff Bridges foram seriamente cotados, nomes diversos como Harrison Ford, Richard Dreyfuss, Chevy Chase, Steve Martin, Robin Williams (e até Michael Douglas e Robert DeNiro!!) passaram pela mente dos produtores, o que dá uma bela ideia de como a proposta do filme foi sendo alterada com o passar do tempo. Isso não impede, no entanto, que o resultado final tenha ficado bastante sólido - ainda que não exatamente inesquecível. Seidelman explora ao máximo o talento de seus atores e impõe um belo ritmo ao roteiro, mas falha ao oferecer um conteúdo um tanto superficial: a ideia de fazer Ruth descobrir-se uma mulher com mais qualidades do que pensava ter e com um insuspeito talento para o empreendedorismo acaba ficando em segundo plano diante da vingança inconsequente e pouco crível a que se dedica para infernizar a vida do ex-marido.

A trama começa quando Ruth - uma dona-de-casa dedicada mas pouco atraente e bastante simplória - perde o marido, Bob, para Mary Fisher, uma escritora bem-sucedida, bela, milionária e famosa. Fútil e afetada, Fisher representa o completo oposto de Ruth, que vê na situação o motivo de que precisava para virar a mesa. Ciente de tudo que importa para o ex-marido - família, casa, carreira e liberdade -, a esposa traída arma um plano meticulosamente armado para destruir tudo - e no caminho descobre que a separação talvez tenha sido o melhor que lhe poderia ter acontecido. A trama pode até soar um pouco maniqueísta, mas serve como comédia e envolve até os minutos finais - mesmo que pudesse ser explorada com menos pressa e mais atenção a situações que poderiam render mais, como a relação de Mary com a mãe (a veterana Sylvia Miles) e a amizade entre Ruth e Hooper (Linda Hunt), de quem se torna colega como parte do seu plano de vingança. Susan Seidelman é uma cineasta que busca a simplicidade como parte fundamental de sua obra - e "Ela é o diabo" consegue unir as expectativas de uma produção de estúdio (Orion Pictures) e o senso de independência de um videoclipe. É problemático em termos de condicionar a felicidade feminina ao suporte masculino - ainda que tente timidamente ensaiar aplausos à independência da mulher -, mas é uma sessão da tarde saudosista e divertida.

domingo

DIGAM O QUE QUISEREM


DIGAM O QUE QUISEREM (Say anything..., 1989, 20th Century Fox, 100min) Direção e roteiro: Cameron Crowe. Fotografia: Laszlo Kovacs. Montagem: Richard Marks. Música: Anne Dudley, Richard Gibbs. Figurino: Jane Ruhm. Direção de arte/cenários: Mark Mansbridge/Joe Mitchell. Produção executiva: James L. Brooks. Produção: Polly Platt. Elenco: John Cusack, Ione Skye, John Mahoney, Lily Taylor, Pamela Segall, Jason Gould, Loren Dean, Jeremy Piven, Bebe Neuwirth, Eric Stoltz. Estreia: 14/4/89

Comédias românticas adolescentes seguem, via de regra, a mesma equação - especialmente aquelas criadas na década de 1980, quando o gênero floresceu graças ao talento de John Hughes, pai (como diretor, roteirista ou produtor) de clássicos absolutos como "Gatinhas e gatões" e "A garota de rosa-shocking", ambos estrelados pela diva maior da época, Molly Ringwald. Sendo assim, não se poderia esperar muitas ousadias em "Digam o que quiserem" - aparentemente mais um exemplar da série de romances juvenis com regras próprias e ingredientes facilmente reconhecíveis. Porém, regras existem para que possam ser quebradas, e o então jornalista Cameron Crowe, estreando como cineasta, subverteu um tantinho a receita de Hughes e criou uma história de amor que, com o julgamento normalmente sábio do tempo, transformou-se em um cult movie dos mais adorados pelos saudosistas.

Escrito com a mesma inteligência e sensibilidade que fez de Crowe um dos roteiristas mais elogiados da década seguinte - quando entregou ao público pérolas como "Vida de solteiro" (1993), "Jerry Maguire: a grande virada" (1996) e "Quase famosos" (2000), que lhe rendeu o Oscar da categoria -, "Digam o que quiserem" se aproveita das diretrizes mais simples das comédias românticas adolescentes para contar uma história com personagens que fogem dos padrões inalcançáveis de beleza e que agem como pessoas reais. Com diálogos tão naturais quanto frescos (em parte cortesia do preciso elenco) e situações dramáticas verossímeis, o filme envolve o espectador não por criar intrigas melodramáticas e/ou trágicas, mas por proporcionar identificação com problemas mundanos típicos da adolescência  - e até da idade adulta. "Será que ela vai aceitar sair comigo?" "Será que vou conseguir suprir as expectativas do meu pai?" "Será que devo interferir na vida da minha filha de forma tão peremptória?" As questões levantadas por Crowe encontram eco em qualquer época e para qualquer um - daí a perenidade de "Digam o que quiserem" e seu sucesso em manter-se relevante.


Mas não foi sempre assim. Quando estreou, em 1989, "Digam o que quiserem" não empolgou nas bilheterias, e só não chegou a ser um fiasco absoluto porque foi ajudado pela boa vontade de dois dos mais respeitados críticos dos EUA. Entusiasmados com o trabalho de Crowe, os consagrados Roger Ebert e Gene Siskel aplaudiram a produção em suas colunas - Ebert chegou a incluí-lo em um de seus livros sobre grandes filmes - e lhe ofereceram uma segunda chance. Mesmo com o bem-vindo empurrão dos jornalistas, porém, o filme não tornou-se um grande êxito comercial, e viu sua popularidade aumentar com o passar dos anos. Redescoberto, inspirou outros cineastas - e a antológica cena de seu protagonista segurando um aparelho de som sobre a cabeça, em uma moderna serenata, foi recriada com inteligência no divertido "A mentira", que revelou Emma Stone em 2009. E se o encanto do filme se mantém ainda hoje, é a presença de um jovem John Cusack no papel central que aumenta ainda mais seu interesse: em uma atuação natural e encantadora, Cusack rouba a cena até mesmo da colega de cena Ione Skye (filha do cantor Donovan), e faz entender porque foi escolhido pelo diretor, em detrimento de nomes como Christian Slater, Loren Dean, Peter Berg, Todd Field, Brandon Lee e Robert Downey Jr. (todos em começo de carreira).

Simpático como sempre, Cusack dá vida a Lloyd Dobler, um jovem estudante que acaba de terminar o ensino médio em uma escola de Seattle (cenário também de "Vida de solteiro"). Sem nenhum talento óbvio ou qualquer tipo de brilhantismo acadêmico, ele sabe apenas que é apaixonado por Diane Court (Ione Skye), uma colega que mal sabe quem ele é até que aceita, num arroubo de espontaneidade, ir com ele a uma das festas de formatura. A noite mostra a Diane as maiores qualidades de Lloyd - mas mesmo assim, sua prioridade é dedicar-se ao futuro, na forma de uma faculdade na Inglaterra, e à relação com o pai, Jim (John Mahoney em papel oferecido a Richard Dreyfuss), dono de um asilo e divorciado. De certa forma encantada com Lloyd - que vive com a irmã, Constance (Joan Cusack), e o sobrinho pequeno -, Diane aceita passar com ele as semanas que faltam para que embarque para a Europa, e logicamente se apaixona. Porém, suas dúvidas acerca das possibilidades de um relacionamento mais sério com alguém tão indeciso a fazem hesitar. E é com essa trama simples mas eficiente que Crowe fez sua auspiciosa estreia como diretor - bancada pelo produtor James L. Brooks e transformada, com o passar dos anos, em uma deliciosa máquina do tempo, capaz de levar a plateia de volta aos felizes anos 1980.

sábado

ASSASSINATO SOB CUSTÓDIA

ASSASSINATO SOB CUSTÓDIA (A dry white season, 1989, MGM Pictures, 106min) Direção: Euzhan Palcy. Roteiro: Colin Welland, Euzhan Palcy, romance de André Brink. Fotografia: Pierre-William Glenn, Kelvin Pike. Montagem: Glenn Cunningham, Sam O'Steen. Música: Dave Grusin. Figurino: Charles Knode. Direção de arte/cenários: John Fenner/Peter James. Produção executiva: Tim Hampton. Produção: Paula Weinstein. Elenco: Donald Sutherland, Susan Sarandon, Marlon Brando, Janet Suzman, Zakes Mokae, Jurgen Prochnow, Winston Ntshona. Estreia: 10/9/89 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante (Marlon Brando)

No final dos anos 90, Hollywood parecia ter despertado para a questão do apartheid na África do Sul. Na época, Nelson Mandela ainda cumpria pena, mas filmes como "Um grito de liberdade" (87), de Richard Attenborough - que deu a primeira indicação ao Oscar a Denzel Washington - e "Um mundo à parte" (88), de Chris Menges - prêmio de melhor atriz em Cannes para Barbara Hershey - lidavam abertamente com questões ligadas ao tema. O final dessa trilogia informal, "Assassinato sob custódia", foi lançado em 1989, depois de um processo de produção de cerca de cinco anos, que incluiu uma troca de estúdio (a Warner abandonou o projeto, que foi parar na MGM), a negociação de pagamento mínimo aos atores do elenco (Marlon Brando entre eles) e boatos de espionagem por parte do governo da África do Sul durante as filmagens no Zimbabue. Primeiro filme de um grande estúdio a ser dirigido por uma mulher negra (Euzhan Palcy, nascida na Martinica), a adaptação do romance do sul-africano André Brinks, lançado em 1979 e banido em seu país de origem, é um filme intenso e doloroso, mas que esbarra em um ritmo irregular. Mesmo assim, é de suma importância política e social, ao retratar, sem meias-palavras, a crueldade do regime e a conivência da justiça em um período de extrema violência e preconceito racial.

Lançado no Festival de Toronto de 1989, "Assassinato sob custódia" conquistou elogios calorosos e teve, a seu favor, a publicidade em torno do retorno de Marlon Brando ao cinema, nove anos depois do malfadado "A fórmula" (80). Trabalhando quase de graça, o veterano ator não apenas chamou a atenção do público - ávido por voltar a vê-lo - como também conquistou uma indicação ao Oscar de coadjuvante (a única do filme). Seu desempenho é curto, mas crucial para a trama, apesar de ter sido filmado em apenas oito dias e ter dado trabalho à diretora: não apenas os dois entraram em conflito em razão de uma cena que acabou cortada da montagem final, como Brando alegou ter reescrito algumas cenas e as dirigido pessoalmente. Além disso, deu declarações contrárias à MGM pelo corte final do filme, que, segundo ele, passa a impressão de que "o apartheid é coisa de um passado muito remoto e não atual e presente". Problemas à parte, a presença de Marlon Brando no elenco do filme é apenas uma de suas várias qualidades - e vale mais por sua estatura icônica dentro da indústria do que por seu tempo de tela. O real protagonista é Ben Du Toit, um professor sul-africano, de olhos azuis e de classe média interpretado por Donald Sutherland em registro discreto mas eficiente - mas antes que surja a reclamação de mais um white savior em filmes do gênero, é bom que se destaque que, apesar de ser os olhos da plateia, Ben é apenas uma peça em uma engrenagem de homens e mulheres em busca de justiça - sejam eles brancos ou negros.


Du Toit é jogado em meio à tragédia do apartheid menos velado quando o filho de onze anos de idade de seu jardineiro, Gordon (Winston Ntshona), é sequestrado pelas forças policiais do governo. Em sua trajetória para localizar o menino, Gordon acaba sendo assassinado - tendo sua morte ocultada pelos meios oficiais e declarada natural. Indignado, Ben se une à jornalista britânica Melanie (Susan Sarandon) para tentar jogar luz nas reais condições das prisões do país, onde tortura e assassinato são acontecimentos triviais. Um velho amigo de Gordon, Stanley (Zakes Mokae), é seu guia pelos meandros da sociedade dividida da África do Sul - e irá lhe servir também de apoio quando outras mortes começam a acontecer a seu redor e até sua família, amigos e colegas de trabalho resolvem lhe virar as costas. Em sua descida rumo ao desconhecido, ele conta com seu apego à verdade e à certeza de estar lutando do lado certo da batalha. Seu maior empecilho nisso é o Capitão Stoltz (Jurgen Prochnow), que não mede esforços ou estratégias para apagar os vestígios de seus crimes de ódio.

Assim como "Um grito de liberdade" tratava dos desdobramentos da morte do ativista Steve Biko, "Assassinato sob custódia" se utiliza de um crime bárbaro para mergulhar o espectador em um mundo onde as leis e a igualdade racial só existem na teoria. Durante a primeira metade do filme, a diretora conta sua história com placidez, ainda que revoltosa, como se preparando o público para sua metade final. A partir daí, quando Du Toit e Stanley percebem que a única maneira de desvendar toda a lista de atrocidades que os cerca é jogando com armas menos leais e claras, o filme acelera o ritmo, engrena uma sucessão de sequências impactantes e passa a revelar o caráter real de alguns de seus personagens, conduzindo a um final realista e triste. Pontuado pela bela trilha sonora de Dave Grusin e valorizado por um elenco coadjuvante formado por atores sul-africanos que dão um tom de veracidade ainda maior à trama, o filme de Euzhan Palcy - que posteriormente dedicou-se mais à carreira de documentarista - é um petardo emocional verdadeiro e pungente. Apesar de parecer, em alguns momentos, um telefilme, é um prato cheio para aqueles que gostam de unir o útil ao agradável e procuram entretenimento com substância. Um filme subestimado e muito importante, lançado, ironicamente, na mesma temporada em que "Conduzindo Miss Daisy" - criticado por seu retrato romantizado do racismo - ganhou o Oscar de melhor filme. A Academia, como sempre, perdendo o trem da história!

terça-feira

O INÍCIO DO FIM

O INÍCIO DO FIM (Fat Man and Little Boy/Shadow makers, 1989, Paramount Pictures, 108min) Direção: Roland Joffé. Roteiro: Bruce Robinson, Roland Joffé, estória de Bruce Robinson. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Françoise Bonnott. Música: Ennio Morricone. Figurino: Nick Ede. Direção de arte/cenários: Gregg Fonseca/Dorree Cooper. Produção executiva: John Calley. Produção: Tony Garnett. Elenco: Paul Newman, Dwight Schultz, John Cusack, Laura Dern, Bonnie Bedelia, John G. McGinley, Natasha Richardson, James Eckhouse. Estreia: 20/10/89

Cineasta sempre preocupado com tramas de cunho político e/ou social, Roland Joffé ficou conhecido pelos fãs de cinema graças a produções premiadas e elogiadas pela crítica, como "Gritos do silêncio" (84) e "A missão" (86), pelos quais foi indicado ao Oscar de melhor diretor. Não foi surpresa, portanto, quando ele assumiu o comando de "O início do fim", o filme da Paramount que trataria sobre o Projeto Manhattan, que criou e construiu, em 1945, as bombas atômicas que atingiram Hiroshima e Nagasaki e deram fim à II Guerra Mundial. Catastrófico fracasso de bilheteria nos EUA (custou cerca de 30 milhões de dólares e rendeu cerca de dez menos menos em sua carreira nos cinemas), acabou lançado no resto do mundo com um título diferente e tentou conquistar - em vão - estatuetas na temporada de premiações de Hollywood. Não é difícil compreender os motivos que o levaram a tal fiasco comercial: mesmo com a direção cuidadosa de Joffé e o nome do veterano Paul Newman liderando o elenco, o filme não consegue escapar da sina comum às produções do gênero e, ao tentar equilibrar o didático/histórico ao dramático, não atinge plenamente seus objetivos em nenhum quesito. Essa indecisão custa caro ao resultado final, que mesmo perceptivelmente caprichado tecnicamente, não empolga nem emociona tanto quanto deveria.

Inicialmente chamado "Fat Man and Little Boy" (os apelidos dados às bombas), "O início do fim" teve seu nome modificado para "Shadow makers" logo depois que seu desempenho nas bilheterias domésticas assustou aos executivos do estúdio - que, logicamente, não esperavam uma renda tão pífia (pouco mais de um milhão de dólares arrecadados no fim de semana de estreia). Rebatizar o filme para lançamento em outros países, no entanto, não deu resultado nenhum: talvez por sua temática particularmente restrita, a obra de Joffé não despertou interesse nas massas que haviam lotado os cinemas para assistir ao "Batman" de Tim Burton, e saiu melancolicamente de cena, ocupando um lugar bastante coadjuvante nas carreiras de todos os envolvidos - seja do veterano Paul Newman ou dos novatos John Cusack e Laura Dern.


Apesar de ser o rosto de Newman que estampa o cartaz e ser seu nome que abre os créditos, o verdadeiro protagonista de "O início do fim" não é o seu General Leslie Groves - líder militar do projeto que concebeu a bomba atômica. O roteiro, escrito pelo cineasta e seu parceiro de longa data, Bruce Robinson, centra seu foco principalmente em Robert Oppenheimer (Dwight Schultz), o cientista chamado por Groves para comandar a experiência. A princípio entusiasmado com a possibilidade de mostrar sua competência e seu talento, ao poucos ele vai tomando consciência dos reais objetivos de Groves - e passa a questionar profundamente sua posição na estratégia. É somente quando sua vida pessoal - representada pela figura de sua amante, Jean Tatlock (Natasha Richardson), comunista vista com maus olhos pelo governo americano - é atingida que Oppenheimer percebe a dimensão do que está fazendo. Cercado de paranoia e segredos, ele testemunha o nascimento de um projeto científico gigantesco, que não poupa nem mesmo outros cientistas, como o jovem Michael Merriman (John Cusack).

Quando Bruce Robinson assumiu o roteiro de "O início do fim" seu maior interesse na trama era a história de amor e morte por trás do romance entre Oppenheimer e Jean Tatlock - um mistério ainda hoje envolto em teorias de conspiração. As alterações feitas no roteiro final, para dar mais ênfase ao relacionamento entre o cientista e o General Groves não apenas mudaram o tom da narrativa, mas também empurraram o filme para um nicho muito mais restrito de interesse - o que talvez tenha contribuído para seu fracasso. Soma-se a isso a inexperiência de Dwight Schultz, sem a força cênica necessária para imprimir consistência e nuances a um personagem tão repleto de possibilidades quanto o seu. O resultado é que o romance entre Merriman e a enfermeira Kathleen Robinson (Laura Dern) acaba por ser mais atraente ao espectador do que as crises de consciência de Oppenheimer - mesmo que tal subtrama seja inventada, como forma de iluminar o público das consequências da experiência realizada no Novo México. No fim das contas, "O ínicio do fim" é um filme com grandes atrações em seu cartaz (a música é de Ennio Morricone, a fotografia é do premiado Vilmos Zsigmond), mas que é frustrante na maior parte do tempo graças a problemas de foco e ritmo. Uma bela ideia que não atingiu todo o seu potencial.

quinta-feira

A FERA DO ROCK

A FERA DO ROCK (Great balls of fire!, 1989, Orion Pictures, 108min) Direção: Jim McBride. Roteiro: Jack Baran, Jim McBride, livro de Myra Lewis, Murray Silver Jr.. Fotografia: Affonso Beato. Montagem: Lisa Day, Pembroke Herring, Bert Lovitt. Figurino: Tracy Tynan. Direção de arte/cenários: David Nichols/Lisa Fischer. Produção executiva: Michael Grais, Mark Victor. Produção: Adam Fields. Elenco: Dennis Quaid, Winona Ryder, Alec Baldwin, Stephen Tobolowski, John Doe, Trey Wilson, Lisa Blount. Estreia: 30/6/89


Uma das afirmações mais corretas que se pode fazer a respeito de “A fera do rock” é que, ao contrário de muitas cinebiografias de astros da música que chegam às telas com assustadora frequência, ele é um filme que foge radicalmente de academicismos e da tentação de mitificar seu protagonista. Figura principal de um escândalo que abalou sua carreira e o impediu de alcançar seu objetivo de ser “o novo Elvis Presley”, o roqueiro Jerry Lee Lewis encontrou no cineasta Jim McBride um cronista que, se combinou perfeitamente com sua personalidade anárquica e iconoclasta, ao mesmo tempo incomodou a todos: fãs, familiares, biógrafos e o próprio Lee Lewis. De nada adiantou McBride defender sua obra dizendo que nunca teve a intenção de criar um documento histórico – a gritaria foi grande e o resultado nem valeu tanto a pena assim. Nitidamente avesso a narrativas convencionais, “A fera do rock” fracassou nas bilheterias – e, a não ser que seja assistido como a grande brincadeira que no fundo ele é, é um filme bastante insatisfatório – e até um pouco bobo demais.

Talvez contaminado pelo tom quase folclórico de seu personagem principal, Jim McBride exagerou na alegoria e, rejeitando o naturalismo de sua filmografia até então – que incluía até mesmo um remake do clássico francês “Acossado” (rebatizado de “A força do amor” e merecidamente ignorado) -, construiu um filme que é uma celebração do kitsch. Das cores fortes que remetem ao Technicolor da época em que se passa sua ação até os cenários e os figurinos, tudo em “A fera do rock” transpira excessos. McBride brinca até mesmo quando acrescenta coreografias inesperadas a cenas aparentemente comuns, e jamais ultrapassa a superficialidade na construção de seus personagens. Assim como a casa de Lee Lewis e sua nova (e adolescente) esposa, tudo que o cerca parece ser de plástico, obviamente partes de um cenário construído de forma a renegar o realismo e acentuar o clima de eterna festa da vida do cantor (ao menos da vida como contada pelo roteiro – levemente inspirado na biografia escrita por Murray Silver Jr. com base nas memórias de Myra, a primeira (e mais polêmica) mulher do roqueiro. Se os próprios Silver e Myra repudiaram o resultado final é difícil saber até onde vão as liberdades tomadas pelo diretor – mas quem não procurar acuidade histórica e quiser apenas saber (ainda que pouco) da vida de Lee Lewis, o filme pode até ser um entretenimento razoável.



Para quem não sabe, Jerry Lee Lewis esteve a ponto de substituir Elvis Presley no coração das fãs – especialmente quando o rei do rock foi convocado para servir ao exército americano. Dono de uma personalidade expansiva (até demais) e de uma criatividade que muitas vezes assustava aos desavisados, Lee Lewis seguiu um caminho bastante diverso daquele trilhado por seu primo Jimmy Swaggart – que tornou-se um dos pastores católicos mais conhecidos dos EUA e que frequentemente batia de frente com as atitudes do roqueiro. Irresponsável e dono de um talento raro para transformar um simples piano em um instrumento capaz de levantar a plateia jovem, Lee Lewis praticamente jogou a carreira fora quando apaixonou-se e casou-se com sua prima de apenas 13 anos de idade, Myra (vivida por uma juvenil e encantadora Winona Ryder): com o escândalo descoberto, primeiro o público europeu e depois o resto do mundo, lhe virou as costas, em uma demonstração de conservadorismo radical. Não foi à toa: não apenas Myra era praticamente uma criança (como demonstra seu desespero ao perceber que não é capaz de cuidar da própria casa) como era filha do primo e colega do cantor – que havia lhe dado um lugar para morar quando ele estava começando a carreira. Mesmo a mentalidade mais aberta e liberal teria dúvidas a respeito do caso – dá para imaginar, então, na sociedade norte-americana dos anos 50...

Incorporando totalmente o espírito festivo da visão de Jim McBride, o ator Dennis Quaid faz de seu Jerry Lee Lewis um fauno libertino e hedonista – muitas vezes pesando a mão na caracterização e chegando perto do overacting. É difícil imaginar, por exemplo, como seria se outros projetos envolvendo o roqueiro tivessem ido adiante: Martin Scorsese, por exemplo, imaginava Robert De Niro no papel (e é impossível visualizar De Niro fazendo as macaquices de Quaid ou Scorsese abdicando de seu impecável bom gosto visual para abraçar o colorido cafona de McBride). E Michael Cimino também pensou em dar a sua versão da história, com Mickey Rourke (!!) no papel principal, o que seria no mínimo curioso. O fato é que McBride foi quem passou do plano à ação e, embora não tenha sido completamente feliz, pode-se destacar algumas boas ideias, como um jovem Alec Baldwin na pele Jimmy Swaggart e Winona Ryder (com um papel que quase foi de Drew Barrymore) como a inocente Myra – que sofre com o machismo do marido já na noite de núpcias, quando é acusada de “não comportar-se como uma virgem”. Ryder – que preferiu Myra a participar do elenco feminino de peso de “Flores de aço” e deu chance à Julia Roberts concorrer ao primeiro Oscar – está em um belo momento da carreira, dosando bem a candura e a paixão de sua personagem, que serve como um ponto de equilíbrio à bagunçada vida do protagonista. Ryder e Baldwin, que juntos também fariam “Os fantasmas se divertem” (88), são as melhores coisas do filme – a não ser que se conte, é claro, com a trilha sonora, regravada pelo próprio Jerry Lee Lewis e bem dublada por Dennis Quaid. Para quem gosta do bom e velho rock’n’roll é imperdível! Para os curiosos é apenas ok.

domingo

FAÇA A COISA CERTA

FAÇA A COISA CERTA (Do the right thing, 1989, Universal Pictures, 120min) Direção e roteiro: Spike Lee. Fotografia: Ernest Dickerson. Montagem: Barry Alexander Brown. Música: Bill Lee. Figurino: Ruth Carter. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Steve Rosse. Produção: Spike Lee. Elenco: Danny Aiello, John Turturro, Spike Lee, Ossie Davis, Ruby Dee, Rosie Perez, Giancarlo Esposito, John Savage, Bill Nunn, Samuel L. Jackson, Martin Lawrence. Estreia: 19/5/89 (Festival de Cannes)

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Danny Aiello), Roteiro Original

Quando "Faça a coisa certa" estreou, no Festival de Cannes de 1989, ninguém poderia imaginar que o filme de Spike Lee se tornaria, imediatamente, uma das produções mais polêmicas do ano: louvada por parte da crítica (encantada com seu ritmo pulsante e sua coragem em dar voz à comunidade negra americana) e acusada por outra (tida como perigosa e capaz de incitar a violência), a obra conquistou fãs apaixonados e detratores furiosos - boa parte deles francamente descarregando sua munição no cineasta, um dos mais ferozes ativistas negros do país. Premiado pelos críticos de Boston, Chicago e Los Angeles e indicado a quatro Golden Globes (incluindo melhor drama, diretor e roteiro), o filme acabou sendo praticamente ignorado pela Academia (que lhe deu duas meras indicações ao Oscar, ainda que relativamente importantes) e passou à história como um dos mais impactantes produtos da temporada. Mas, afinal, o que "Faça a coisa certa" tem de tão especial a ponto de resistir ao tempo e permanecer como um documento fiel da identidade de sua comunidade?

Em primeiro lugar há o roteiro repleto de energia de Spike Lee, escrito como um hip hop contagiante e caloroso - refletido na fotografia de Ernest Dickerson e na trilha sonora de Bill Lee. Depois, há a militância incansável do jovem diretor, então com apenas 32 anos de idade e no auge de sua ferocidade. Por fim, o contexto de constante ebulição e tensão entre negros e brancos norte-americanos, e que explodiria de vez em 1991, na ocasião do espancamento, por policiais de Los Angeles, de Rodney King - um evento de grandes proporções que resultou em uma discussão internacional sobre racismo e abuso de poder. Sentindo na pele o preconceito e a discriminação, Lee transformou a dor em arte - e foi abraçado por todos aqueles que viram em seu filme um grito contra o sistema e a opressão, assim como incomodou àqueles confortáveis com o status quo. Fugindo de estereótipos fáceis e soluções moralistas, o cineasta aponta sua câmera para situações cotidianas que, aos poucos, vão se tornando o estopim de uma explosão de violência das mais inquietantes da década de 80.


Não existe propriamente um protagonista em "Faça a coisa certa", mas todos os personagens se conectam através de Mookie (vivido pelo próprio Spike Lee), um falastrão entregador de pizza que trabalha para a família de Sal Fragione (Danny Aiello, indicado ao Oscar de ator coadjuvante). Há 25 anos funcionando no Brooklyn, a pizzaria de Sal é um local tradicional do lugar, apesar das relações um tanto instáveis do proprietário e dos moradores - em sua maioria negros e latinos, para desgosto do filho mais velho de Sal, o pouco amigável Pino (John Turturro). Enquanto passa o dia entregando as encomendas do restaurante e lidando com sua vizinhança - além de sua namorada, Tina (Rosie Perez) - o simpático funcionário acaba por ser testemunha privilegiada de um incidente que irá mudar radicalmente o modo de vida dos envolvidos: em um dia de extremo calor, um comentário aparentemente aleatório (questionando a ausência de negros na "parede da fama" da pizzaria) empurra os clientes de Sal a uma rebelião de grandes proporções. Sal, que se considerava parte do bairro, não deixa barato - e a violência explode, incontrolável.

Contando sua história em um crescente grau de tensão - o que começa como uma comédia ligeira vai aos poucos assumindo contornos de uma tragédia anunciada - e com um ritmo ágil e despretensioso que contrasta com o peso do desfecho e da denúncia, "Faça a coisa certa" acerta principalmente em evitar paternalismos fáceis e, mesmo que nitidamente favorável a um lado específico da questão, discutir seus temas com a contundência de quem realmente sabe o que está falando. Seu clímax - que assustou a Paramount a ponto de o estúdio abandonar o projeto, prontamente encampado pela Universal Pictures - é um dos mais potentes da carreira de Spike Lee, e mesmo que seu final acene com uma pontinha de esperança, o roteiro cumpre o que promete, cutucando uma chaga muito aberta na sociedade americana e impondo uma discussão urgente e necessária. Forte, intenso e contundente, "Faça a coisa certa" é um filme atemporal, cuja mensagem ressona ainda nos dias de hoje - quando parece que toda a política de inclusão social democrata voltou décadas e parece cada vez mais distante do ideal. Um filme imprescindível!

sábado

TEMPO DE GLÓRIA

TEMPO DE GLÓRIA (Glory, 1989, TriStar Pictures, 122min) Direção: Edward Zwick. Roteiro: Kevin Jarre, livros de Lincoln Kirstein e Peter Burchard, cartas de Robert Gould Shaw. Fotografia: Freddie Francis. Montagem: Steven Rosenblum. Música: James Horner. Figurino: Francine Jamison-Tanchuck. Direção de arte/cenários: Norman Garwood/Garrett Lewis. Produção: Freddie Fields. Elenco: Matthew Broderick, Denzel Washington, Cary Elwes, Morgan Freeman, Andre Braugher, Bob Gunton, Jay O. Sanders. Estreia: 15/12/89

5 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Denzel Washington), Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 3 Oscar: Ator Coadjuvante (Denzel Washington), Fotografia, Som 
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Denzel Washington) 

Segundo palavras dele mesmo, Edward Zwick estava apreensivo quando começou as filmagens de "Tempo de glória": o cineasta não sabia como o elenco de seu filme se sentia a respeito de ter um diretor branco, judeu e jovem (36 anos à época) contando a história do primeiro regimento de soldados negros da Guerra de Secessão americana, que contrapôs o Norte abolicionista contra o Sul escravagista. Sabendo que o evento tinha uma importância crucial no sentimento de autoestima dos afro-americanos (ainda que fosse pouco conhecido do público em geral), Zwick temia não ser capaz de honrá-lo. Por fim, todos os seus temores se mostraram infundados: não apenas os atores receberam com simpatia e profissionalismo seu trabalho, como a Academia de Hollywood também se rendeu ao resultado final: indicado a 5 Oscar, "Tempo de glória" recebeu 3 estatuetas (ator coadjuvante, fotografia e som) e se tornou o segundo filme mais premiado da temporada 1989, perdendo em números apenas para o grande vencedor, "Conduzindo Miss Daisy" (que saiu da cerimônia com um troféu a mais). Nem mesmo o grande favorito do ano, "Nascido de 4 de julho", de Oliver Stone, foi tão bem-sucedido.

Não é difícil entender os motivos que levaram o filme de Zwick a agradar tanto aos conservadores membros da Academia. Mais até que o tom épico - acentuado pela bela trilha sonora de James Horner, inexplicavelmente deixada de fora das indicações - e a produção caprichada, é a forma sincera e carinhosa do olhar do cineasta que fazem de "Tempo de glória" um filme de guerra que foge da estrutura óbvia de treinamento/batalha climática/final apoteótico. Justamente pelo background que o fazia temer por sua capacidade em comandar o filme, Zwick acabou por ser a escolha mais apropriada: com distanciamento emocional para equilibrar cenas grandiosas e momentos intimistas, ele criou uma pequena obra-prima, uma homenagem justa e sóbria não apenas a um homem - o Coronel Robert Gould Shaw, líder do pelotão -, mas também a um grupo de soldados que, contrariando um destino de subserviência, honrou o exército de seu país apesar do preconceito profundamente enraizado que os considerava indignos da luta.


Fisicamente semelhante ao verdadeiro Shaw, o ator Matthew Broderick encara pela primeira vez um protagonista adulto, com responsabilidades e angústias que vão além dos personagens que o fizeram conhecido do grande público. Nem sempre convence, especialmente em cenas dramaticamente mais potentes, mas não compromete o filme com um todo e tem carisma o bastante para disfarçar suas limitações. Seu personagem é um jovem de 25 anos, filho de uma influente família de Boston, a quem é dado, mesmo sem experiência sólida, o comando do primeiro batalhão formado exclusivamente formado por negros na Guerra de Secessão. O ano é 1863, e acompanhado do velho amigo Cabot Forbes (Cary Elwes), Shaw aceita o desafio, mesmo sabendo que seu sucesso na empreitada dependerá quase exclusivamente da relação que criará com seus subordinados. Vendo seu batalhão desacreditado e frequentemente tratado com desprezo por seus superiores - que enxergam neles apenas o talento para a mão-de-obra e não para batalhas reais -, o jovem coronel passa a comprar brigas com quem for preciso para exigir tratamento justo e provisões básicas (como sapatos, uniformes e pagamento igualitário). A princípio bastante imponente como forma de impor respeito, aos poucos ele vai se deixando conquistar pelos soldados - em especial o veterano John Rawlins (Morgan Freeman), a quem confia um cargo de confiança, e o rebelde Trip (Denzel Washington).

Se Broderick não vai muito além do básico, com uma interpretação contida e pouco inspirada (talvez culpa de um personagem que não se permite demonstrar muita emoção), o elenco coadjuvante de "Tempo de glória" é um de seus maiores trunfos. Denzel Washington levou seu primeiro Oscar para casa (como coadjuvante, batendo nomes como Marlon Brando e Martin Landau) por seu desempenho exemplar como o petulante Trip, dono de algumas das cenas mais memoráveis do filme. Morgan Freeman empresta seu semblante sereno ao equilibrado John Rawlins, ponto de acesso entre Shaw e seus subordinados, e tem pelo menos um grande momento (junto a Washington). E Andre Braugher, como Thomas Searles, amigo de infância do coronel, e Jihmi Kennedy, como o gago e inseguro Jupiter Sharts, completam o elenco de apoio impecável selecionado por Zwick. Um filme que fala ao mesmo tempo aos fãs do gênero e àqueles que procuram histórias humanistas, "Tempo de glória" precisa ser redescoberto como um dos melhores filmes do final da década de 80 - e um dos mais importantes quando se trata de combate ao preconceito.

quinta-feira

SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE

SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE (Sex, lies and videotape, 1989, Outlaw Productions, 100min) Direção e roteiro: Steven Soderbergh. Fotografia: Walt Lloyd. Montagem: Steven Soderbergh. Música: Cliff Martinez. Direção de arte/cenários: Joanne Schmidt/Victoria Spader. Produção executiva: Morgan Mason, Nancy Tenenbaum, Nick Wechsler. Produção: John Hardy, Robert Newmyer. Elenco: James Spader, Andie MacDowell, Peter Gallagher, Laura San Giacomo, Ron Vawter. Estreia: 20/01/89 (Festival de Sundance)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Festival de Cannes: Melhor Diretor (Steven Soderbergh), Ator (James Spader)

Quando ganhou a Palma de Ouro de Melhor Diretor no Festival de Cannes 1989, o cineasta Steven Soderbergh tinha apenas 26 anos de idade e, de cara, tornou-se o vencedor mais jovem da categoria na história do prêmio. Mais impressionante ainda: escrito em oito dias, filmado em trinta e com um custo estimado de pouco mais de um milhão de dólares, seu filme "Sexo, mentiras e videotape" ainda saiu da Riviera Francesa com o prêmio de melhor ator (James Spader) e revolucionou o modo como os espectadores encaravam os filmes independentes. Não foi um sucesso de bilheteria, mas mostrou que, além dos espetáculos pirotécnicos de que Hollywood é pródiga, existia vida inteligente no cinema norte-americano. Sem efeitos especiais, astros milionários e campanhas de marketing massivas, tornou-se queridinho da crítica e do público, concorreu ao Oscar de roteiro original e impôs um dilema dos grandes a seu criador: tido como gênio já em seu filme de estreia, o que poderia Soderbergh fazer em seguida? A resposta veio dois anos depois com o pretensioso "Kafka" - estrelado por Jeremy Irons - mas demorou quase uma década até que a promessa de seu filme de estreia se cumprisse, com o sucesso de "Irresistível paixão" (98) e o Oscar de melhor direção por "Traffic" (2000), que ele disputou consigo mesmo por "Erin Brockovich: uma mulher de talento".

Mas até que se visse vítima do próprio sucesso repentino, Soderbergh colheu elogios rasgados com seu primeiro filme, que também conquistou prêmios importantes no Festival de Sundance (onde foi lançado, meses antes de Cannes), pelos críticos de Los Angeles e na cerimônia dos Independent Spirit Awards (o Oscar para filmes independentes, de onde saiu com quatro estatuetas, incluindo filme e diretor). Seu êxito em conquistar de forma tão ampla a boa vontade dos críticos e a simpatia dos espectadores dispostos a fugir dos blockbusters não é difícil de entender: inteligente, profundo e dotado de grande compreensão da natureza humana, "Sexo, mentiras e videotape" estreou no momento certo e refletia, como poucos filmes de então, o espírito de sua época, aprisionada pela hipocrisia que vinha à reboque do governo Reagan, recém encerrado. Falando abertamente sobre sexo em diálogos francos e diretos e com personagens tão falíveis quanto ambíguos, seu roteiro nadava contra a corrente do cinema americano dos anos 80, centrado basicamente no visual e na edição histérica: com movimentos de câmera suaves e eficientes, Soderbergh consegue extrair o máximo tanto da palavra quanto da imagem, fugindo da verborragia excessiva e evitando com maestria a tentação de fazer malabarismos estéticos. Usando a câmera como parte integrante da narrativa - dentro da história e fora dela, como instrumento para enfatizar a sensação de sufocamento - o filme mergulha o espectador em um jogo perigoso, onde traições, meias-verdades e luxúria estão em vias de implodir relacionamentos pouco saudáveis.





Um desses relacionamentos é o do casal Ann e John Mullany. Ela - interpretada por Andie MacDowell, que ficou com o papel oferecido a Elizabeth McGovern e Brooke Shields e levou pra casa o prêmio de melhor atriz pelos críticos de Los Angeles - é uma dona de casa introvertida, calada e aparentemente frígida, que se utiliza de terapia para tentar lidar com um casamento frio e sem amor. Ele (vivido por Peter Gallagher) é um advogado ambicioso e egoísta, que não apenas trata a esposa com quase desdém como também tem um caso com a própria irmã dela, Cynthia (Laura San Giacomo), uma garçonete expansiva e sensual, que não hesita em usar o corpo e o charme para conquistar o que quer. O triângulo amoroso secreto torna-se explosivo com a chegada de Graham (James Spader), antigo colega de John, um homem quieto e misterioso que não demora em atrair a atenção de Ann - que vê nele alguém em quem pode confiar seus segredos - e de Cynthia - que chega até ele depois de descobrir sua maior particularidade: impotente, o rapaz se satisfaz sexualmente assistindo às fitas de vídeo que gravou com mulheres contando suas intimidades para a câmera. O que deveria ser apenas uma espécie de hobby para Graham acaba se tornando o pivô de uma revolução na vida de todos, especialmente na de Ann, que se percebe no centro de um furacão pessoal que a levará a repensar toda sua vida sentimental.

Arrancando interpretações fascinantes do seu quarteto de atores - todos em total imersão em seus papéis - e manipulando com inteligência os desvios da trama, Steven Soderbergh aposta no minimalismo como forma de enfatizar o que realmente importa em seu roteiro: os personagens. Do lar quase asséptico de Ann à frugalidade da casa de Graham - quase desprovida de móveis - e passando pelo apartamento modernoso de Cynthia, tudo é milimetricamente planejado para transmitir, sem esforço, as características fundamentais de cada um, o que cada um carrega em sua personalidade para empurrar a trama adiante. Sem pressa de contar sua história, Soderbergh filma longos e esclarecedores diálogos com uma câmera discreta, que só se faz notar em momentos cruciais - especificamente quando os personagens são acuados pelas verdades incômodas que subitamente se tornam explícitas. Sem precisar apelar para discursos moralistas ou cenas catárticas, o roteiro do diretor (que perdeu o Oscar para o belo "Sociedade dos poetas mortos") é admirável também por falar muito até mesmo em silêncio: ao optar em não subestimar a inteligência do público, "Sexo, mentiras e videotape" mostra que é possível dialogar com o espectador sem tratá-lo como criança. É um filme adulto, elegante e que resiste ao tempo justamente por fugir do óbvio ao tratar de assuntos quase sempre tratados com superficialidade e/ou deboche pelo cinemão americano. Uma bela estreia de um cineasta de carreira irregular mas ocasionalmente fascinante.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...